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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Da oração


 Petite et dabitur vobis... omnis enim qui petit, accipit. 

Pedi e dar-se-vos-á... porque todo aquele que pede receberá (Lc 9,9-10).


PONTO I

Não é só num, mas em muitos lugares do Antigo e Novo Testamento que Deus promete atender aos que se recomendam a ele. "Clama a mim e ouvir-te-ei (Jr 33,3). Invoca-me... e livrar-te-ei (Sl 49,15). Se pedirdes alguma coisa em meu nome,vô-la será concedida (Jo 14,4).

Pedireis o que quiserdes e se vos outorgará (Jo 15,7). E assim outros textos semelhantes. Verdade é que a oração é uma, diz Teodoreto; mas ela nos pode alcançar tudo; pois, segundo afirma São Bernardo, o Senhor nos dá, ou a graça que pedirmos, ou outra que julga nos ser mais útil. Por essa razão, o Profeta nos incita a rezar, afiançando-nos que Deus é todo misericórdia para aqueles que o invocam e recorrem a ele (Sl 85,5). Com mais eficácia, nos exorta o apóstolo São Tiago, dizendo que, quando rogamos a Deus, este nos concede mais do que se lhe pede, sem vingar-se das ofensas que lhe causamos (Tg 1,5). Ao ouvir nossas orações, parece esquecer nossas culpas. 

Diz São João Clímaco que a oração comove de algum modo a Deus e o obriga a conceder-nos o que lhe pedimos. É violência - escreve Tertuliano - mas violência que agrada ao Senhor e que a deseja de nós, pois, segundo diz Santo Agostinho, maiores desejos tem Deus de prodigalizar-nos os seus bens do que nós de recebê-los, porque Deus, por sua natureza, é a bondade infinita, conforme observa São Leão e se compraz sempre em comunicar-nos os seus bens. Disse Santa Maria Madalena de Pazzi que Deus contrai, de certo modo, obrigações com a alma que o implora, porque ela mesma oferece oportunidade ao Senhor de satisfazer o seu desejo de conceder-nos suas graças e seus favores. Davi afirmou que esta bondade do Senhor em ouvir-nos, quando lhe dirigimos as nossas súplicas, demonstrava-lhe que ele era o verdadeiro Deus (Sl 55,10). Adverte São Bernardo, que muitos se queixam de que Deus não lhes é propício; com maior razão se lamentar o Senhor de que muitos o ofendem e deixam de recorrer a ele para lhe pedir graças. Nosso Redentor disse, por isso, a seus discípulos: "Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, a fim de que vosso gozo seja completo" (Jo 16,24); ou seja: "não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos de vós mesmos que não me pedistes as graças que vos tenho preparado. Pedi, pois, e sereis satisfeitos".

Os antigos monges afirmaram que não há exercício mais proveitoso para alcançar a salvação do que a oração contínua, dizendo: Auxiliai-me, Senhor! Deus, in adjutorium meum intende. O venerável Padre Segneri, referindo-se a si mesmo, disse que costumava, em suas meditações, entregar-se largamente a afetos piedosos, mas que, depois, persuadido da grande eficácia da oração, procurava dedicar a ela a maior parte do tempo... Façamos nós também o mesmo, porque Deus nos ama ternamente, deseja a nossa salvação e se mostra solícito em ouvir as nossas súplicas. Os príncipes do mundo só a poucos dão audiência, disse São João Crisóstomo; mas Deus a concede a todos os que a pedem.


AFETOS E SÚPLICAS

Adoro-vos, Deus Eterno, e agradeço-vos todos os benefícios que me tendes concedido, especialmente criando-me, resgatando-me com o sangue de Jesus Cristo tornando-me filho da sua santa Igreja, esperando o meu arrependimento quando me achava no pecado e perdoando-me tantas vezes... Ah, meu Deus, nunca teria caído em pecado, se a vós tivesse recorrido nas tentações... Agradeço-vos também a luz que me fez reconhecer que toda a minha felicidade se funda na oração, na súplica dos dons de que necessitamos. Peço-vos, pois, em nome de Jesus Cristo, que me deis grande dor de meus pecados, a perseverança na vossa graça, uma morte boa e piedosa e, enfim, a glória eterna; sobretudo vos peço o sumo dom do vosso amor e a perfeita conformidade com a vossa vontade santíssima. Bem sei que não mereço esses favores, mas os oferecestes a quem os pedisse em nome de Jesus Cristo. E eu, pelos merecimentos de Jesus Cristo, vo-los peço e espero obtê-los...

Ó Maria, as vossas súplicas alcançam quando pedem. Orai por mim.


PONTO II 

Consideramos, além disso, a necessidade da oração. Afirma São João Crisóstomo que, assim como o corpo sem alma está morto, assim quem não reza se acha sem vida. Acrescenta ainda que tanto necessitam as plantas de água para não murcharem como nós da oração para não nos perdermos. Deus quer que nos salvemos todos e que ninguém se perca (1Tm 2,4). "Usa de paciência convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3,9). Quer, porém, que lhe peçamos as graças necessárias para nossa salvação, porque, de um lado, não podemos cumprir os preceitos divinos e salvar-nos sem o auxílio atual do Senhor e, de outro lado, Deus não nos quer dar, ordinariamente falando, essas graças, se lhes não perdimos. Por esta razão, disse o santo Concílio de Trento que Deus não impõe preceitos impossíveis, porque, ou dá-nos a graça próxima e atual necessária para cumpri-los, ou dá-nos a graça de pedir-lhe essa graça atual. Ensina-nos Santo Agostinho que Deus, as primeiras graças, tais como a vocação para a fé, ou da penitência, todas as demais e especialmente a perseverança, concede unicamente àqueles que as pedem.

Inferem daqui os teólogos, entre os quais São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Clemente de Alexandria e muitos outros, que a oração é necessária para os adultos, como necessidade de meio. Portanto, sem rezar, não é possível salvar-se. E isto, diz o doutíssimo Léssio, se deve considerar artigo de fé. 

Os testemunhos da Sagrada Escritura são concludentes e numerosos: "É preciso orar sempre. Orai, para não cairdes em tentação. Pedi e recebereis. Orai sem cessar". As citadas palavras "é preciso, orai, pedi", segundo a opinião geral dos teólogos com a do angélico São Tomás (3 p., q. 29, a. 5). têm força de preceito, o qual obriga sob pena de pecado grave, especialmente em dois casos: 1º quando o homem está em pecado; 2º quando está em perigo de pecar. Acrescentam ainda ordinariamente os teólogos que aquele que deixa de rezar por espaço de um mês ou mais tempo, não está livre de pecado mortal. (Veja-se Léssio no lugar citado). Como vimos acima, toda essa doutrina se baseia em que a oração é um meio sem o qual não é possível obter os socorros necessários para salvar-nos.

Pedi e recebereis. Quem pede alcança. Por conseguinte - diz Santa Teresa - quem não pede, não alcançará. E o apóstolo São Tiago exclama: Não alcançais, porque não pedis (Tg 4,2). A oração é particularmente necessária para obter a virtude da continência. "E como cheguei a entender que de outra maneira a não podia alcançar, se Deus não me desse... recorri ao Senhor e lhe roguei" (Sb 8,21). Resumindo o que ficou exposto, conclui-se que se salva aquele que reza e que se condena na certa aquele que não reza. Todos quantos se salvaram, o conseguiram por meio da oração. Todos quantos se condenaram, condenaram-se porque não rezaram. E a consideração de que, por meio da oração, teriam podido salvar-se facilmente e que já não é tempo de remediar o mal, aumentar-lhe-á seu desespero no inferno.


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pude, Senhor, viver até agora esquecido de vós? Pusestes à minha disposição todas as graças que deveria ter procurado; esperáveis somente que as pedisse; mas eu só pensei em contentar minha sensualidade, sem que me importasse ver-me privado do vosso amor e da vossa graça. Esquecei, Senhor, minha ingratidão e tende misericórdia de mim; perdoai-me as ofensas que vos fiz, e concedei-me a graça da perseverança, auxiliando-me sempre, ó Deus de minha alma, para que não torne a ofender-vos. Não permitais que me esqueça de vós, como vos desprezei no passado. Dai-me luz e força a fim de que me recomende a vós, especialmente quando o inimigo me provocar ao pecado. Concedei-me, meu Deus, esta graça pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelo amor que lhe tendes. Basta, Senhor, basta de ofensas. 

Quero amar-vos no restante de minha vida. Dai-me vosso santo amor e que esse amor me faça recorrer a vós sempre que me encontre em perigo de pecar... 

Maria Santíssima, minha esperança e meu amparo, pela vossa intercessão espero a graça de recomendar-me a vós e a vosso divino Filho em todas as tentações. Socorrei-me, minha Rainha, pelo amor que tendes a Jesus Cristo. 


PONTO III

Consideremos, finalmente, as condições da oração bem feita. Muitas pessoas rezam e não alcançam nada, porque não pedem como convém (Tg 4,3). Para bem rezar é preciso, primeiro que tudo, humildade.

"Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes dá sua graça" (Tg 4,6). Deus não ouve as petições do soberbo; mas nunca despreza a súplica dos humildes (Ecl 35,21), ainda que anteriormente tenham sido pecadores, "Não desprezarás, Senhor, um coração contrito e humilhado" (Sl 50,19). 

Em segundo lugar, é necessária a confiança. "Ninguém esperou no Senhor e foi confundido" (Ecl 2,11). Ensinou-nos Jesus Cristo que, ao pedirmos a Deus alguma graça, lhe demos o vocativo de Pai nosso, a fim de que lhe roguemos com aquela confiança que um filho tem ao recorrer ao seu próprio pai. Quem reza com confiança, tudo obtém. Para todas as coisas que pedirdes na oração, tende viva fé de consegui-las e vo-las serão concedidas (Mc 2,24). E quem pode ter receio, diz Santo Agostinho, de ser enganado na sua expectativa, se a promessa lhe foi feita pela própria Verdade, que é Deus? Deus não é como os homens, que, às vezes, deixam de cumprir o que prometem, ou porque mentiram quando prometeram, ou porque mudaram depois de vontade (Nm 23,19). Se o Senhor - acrescenta Santo Agostinho - não quisesse conceder-nos as suas graças, para que nos havia de exortar continuamente a pedir-lhes? Prometendo, contraiu a obrigação de nos conceder as graças que lhe suplicarmos.

Talvez pense alguém que, por ser pecador, não merece ser atendido.

Mas responde São Tomás que a oração, por meio da qual pedimos graças, não se funda em nossos méritos, mas na misericórdia divina. 

"Todo aquele que pede, recebe (Lc 11,10); isto é, todos, sejam justos ou pecadores". O próprio Redentor nos tirou todo o temor e desvaneceu toda dúvida, dizendo: "Em verdade, em verdade vos digo que o Pai vos dará tudo o que pedirdes em meu nome" (Jo 16,23); ou seja: se careceis de merecimentos, eis que aqui estão os meus; servi-vos deles junto a meu Pai. Pedi em meu nome, e eu vos prometo que alcançareis o que pedirdes..." É preciso observar, entretanto, que tal promessa não se refere às dádivas temporais, como saúde, fortuna e outros, porque o Senhor, muitas vezes, nos nega estes bens, prevendo que iriam de encontro à nossa salvação. O médico conhece melhor do que o doente o que lhe é proveitoso, diz Santo Agostinho; e acrescenta que Deus recusa a alguns, por misericórdia, o que a outros concede sob a condição de serem convenientes ao bem da alma. As espirituais, como o perdão, a perseverança, a amor de Deus e outras graças semelhantes, ao contrário, devem pedir-se absolutamente e com firme confiança de obtê-las.

"Se vós, posto que maus, disse Jesus Cristo, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará espírito bom aos que lhe pedirem?" (Lc 11,13).

É necessária, sobretudo, a perseverança. Disse Cornélio a Lápide que o Senhor "quer que perseveremos na oração até que sejamos importunos" (In Lc 11); o que a Sagrada Escritura exprime com os textos seguintes: "É preciso orar sempre". - "Vigiai, pois, orando sem cessar". 

- "Orai sem intermissão" (Lc 18,1; 21,36; 1Ts 5,17); o mesmo diz esta passagem: "Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á (Lc 11,9). Bastava dizer: pedi, mas o Senhor quis demostrar-nos que devemos proceder como os mendigos, que não cessam de pedir, de insistir e de bater à porta, até que, por fim, recebam a esmola. A perseverança final é especialmente uma graça que não se alcança sem oração contínua. Por nós mesmos, não podemos merecer essa graça, mas por meio da oração, disse Santo Agostinho, de algum modo a merecemos.

Rezemos sempre, e não cessemos de rezar, se nos quisermos salvar. Os confessores e pregadores não se cansam de exortar-nos à oração, se desejarmos salvar nossas almas. E, segundo a recomendação de São Bernardo, recorramos sempre à intercessão de Maria Santíssima. "Impetremos a graça, mas impetremo-la pela intercessão de Maria, que tudo alcança e que não pode enganar-se". 


AFETOS E SÚPLICAS

Espero, Senhor, que já me tenhais perdoado; entretanto, os meus inimigos não deixarão de me combater até à hora da morte. Se não me valerdes, tornarei a perder-me. Pelos merecimentos de Cristo, peço-vos a santa perseverança. Não permitais que me aparte de vós. E o mesmo favor vos peço para todos os que estão na vossa graça. Confiado em vossa promessa, estou certo de que me concedereis a perseverança, se continuar a vo-lo pedir. E, contudo, receio, Senhor, deixar de recorrer a vós nas tentações e recair, por isso, no pecado. Rogo-vos, pois que me concedais a graça de jamais deixar de rezar. Fazei que nos perigos de pecar me recomende a vós e invoque em meu auxílio os nomes de Jesus e de Maria. É isto, meu Deus, estou resolvido a praticar e assim espero consegui-lo mediante a vossa graça. Atendei-me, pelo amor a Jesus Cristo...

E vós, Maria, nossa Mãe, alcançai-me que, nos perigos de perder a Deus, recorra sempre a vós e a vosso divino Filho.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte.

fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555427830575/

sábado, 9 de novembro de 2024

Da Saudação Angélica

 



Explicação da gravura

1. A gravura trata da saudação angélica, chamada vulgarmente Ave-Maria, porque principia por estas palavras. Chama-se saudação angélica porque as primeiras palavras referem-se à saudação que o Arcanjo Gabriel dirigiu à Virgem de Nazaré, quando foi mandado por Deus, anunciar-lhe o mistério da Encarnação.

2. Essas palavras são: "Ave-Maria, cheia de graça o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres."

3. As outras palavras são parte de Santa Isabel, parte da Igreja. - As de Santa Isabel são: "E bendito é o fruto do vosso ventre", dirigidas a Nossa Senhora quando foi a visitar Santa Isabel, sua prima. - As palavras da Igreja são: "Jesus, Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Assim seja."

4. A oração principia pela saudação Ave-Maria, para testemunhar-lhe o nosso profundo respeito, chamando-lhe Senhora e Rainha, que tanto significa o nome de Maria, - Estas palavras estão representadas da gravura pela Anunciação do Anjo. 

5. Chamamos à Maria cheia de graça, porque, havendo de ser mãe de Deus, foi enriquecida de todas as graças que podem convir a uma pura criatura. - Palavras representadas na gravura pela Imaculada Conceição.

6. Dizemos: O Senhor é convosco, para significar que o Senhor foi sempre com a Virgem desde o princípio da sua conceição que por isso foi isenta de toda a culpa tanto original como atual. - Palavras representadas pela Virgem tendo ao colo a Nosso Senhor. 

7. "Sois bendita entre as mulheres" - quer dizer que a Virgem foi cheia de maiores graças que qualquer outra criatura. Foi, com efeito, preservada da culpa original: foi Mãe de Deus sempre Virgem: foi a criatura mais santa e mais agradável a Deus por todas as suas virtudes, abaixo da alma de Jesus Cristo. - Palavras representadas por Maria no meio de mulheres e mais elevada do que todas elas.

8. "Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus," quer dizer que assim como o seu divino Filho é bendito sobre todas as coisas, assim também Maria, como Mãe sua, é bendita sobre todas as puras criaturas tanto na terra, como no céu. - Palavras representadas na gravura por a Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, e pela Virgem tendo o menino Jesus ao colo e ao pé de si São João Batista. 

9. Dizemos "Santa Maria Mãe de Deus" porque, havendo de interessar a Senhora no despacho que lhe pedimos, nos lembra a Igreja que Ela é Mãe de Deus, isto é, que nada pode ser superior ao seu valimento. - Palavras representadas por Maria coroada no céu Rainha dos Anjos e dos homens.

10. Acrescentamos: "Rogai por nós pecadores", para movê-la à piedade para conosco que somos miseráveis pelo pecado. - Palavras representadas por Maria ajoelhada diante de Jesus Cristo e rogando por nós. 

11. Dizemos: "Agora e na hora de nossa morte", porque sempre temos necessidade do seu auxílio, especialmente na hora da morte em que é perigosíssimo o combate. - Palavras representadas pela Virgem aparecendo a um moribundo.

12. Devemos tributar à Virgem Maria respeito profundo e terna confiança, porque é Mãe do Salvador e Mãe nossa, Rainha dos Anjos e dos homens, e a mais santa das criaturas.

13. Devemos pois invocá-la muitas vezes, pedindo-lhe a sua proteção, celebrar as suas festas com piedade filial, e fazer diligência por imitar as suas virtudes.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 




domingo, 3 de novembro de 2024

A oração dominical

 




Explicação da gravura

1. A gravura trata da oração dominical ou Pai-Nosso; oração dominical quer dizer oração do Senhor, porque Nosso Senhor Jesus Cristo foi quem a compôs, para nos ensinar a orar. 

2. Consta a oração dominical de uma invocação e de sete petições.

3. As palavras da invocação são: Pai Nosso que estais no céu, que são como um pequeno prefácio, ou exordio para a oração dominical.

4. Chamamos a Deus nosso Pai, porque Jesus Cristo quer que oremos a Deus com amor e confiança filial. 

5. Dizemos Pai nosso e não Pai meu porque devemos orar como irmãos uns dos outros, e como membros da Igreja, pertencentes a mesma família do Pai celestial.

6. Acrescentamos: que estais no céu, para levantar nossos corações a contemplar o infinito poder de Deus que resplandece particularmente na obra dos céus, e ainda para nos advertir que a nossa oração, para obter os bens temporais, deve ser também encaminhada a conseguir os bens celestiais.

7. 1º petição: Santificado seja o vosso nome. - Pedimos nesta primeira petição que Deus seja conhecido em todo o mundo e que o seu santo Nome seja honrado e glorificado como cumpre. Podemos todos santificar o nome de Deus, reconhecendo como dom seu todo bem assim espiritual como temporal, mas santificar-se particularmente aquele santo nome obedecendo ao que ele nos manda. Está representada esta petição pela cura dum coxo, operada por São Pedro quando disse: Em nome de Jesus, levanta-te e anda.

8. 2º petição: Venha a nós o vosso reino. - Pedimos com estas palavras que venha depressa o reino de Deus, isto é, que Deus reine nas almas dos cristãos pela graça, e que acabamos as batalhas que temos com o mundo, o demônio e a carne, cheguemos à eterna bem-aventurança. Mas devemos fazer violência a nós mesmo para arrebatar esta glória. Está representada esta petição por Tobias profetizando o advento do reino de Deus. 

9. 3ª petição: Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. - Pedimos a graça para cumprir os mandamentos, venerada e obedecida em todo o mundo de tão bom grado como os Anjos obedecem no céu. Está representada no centro da gravura por Nosso Senhor orando no jardim das Oliveiras.

10. 4ª petição: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Pedimos assim o pão quotidiano tanto espiritual que é a graça de Deus, como temporal, que é o sustento necessário para nos conservar no serviço de Deus. Representada está a 4ª petição por um anjo que traz um pão ao profeta Elias. 

11. 5ª petição: Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos nossos pecados como perdoamos as ofensas que nos fazem. O perdão das injúrias é uma condição sem a qual é uma condição sem a qual não podemos receber de Deus o perdão de nossos pecados. A petição quinta está representada por Jesus Cristo perdoando na cruz aos seus verdugos, e por Davi poupando a Saul que o perseguia para matá-lo.

12. 6ª petição: Não nos deixeis cair em tentação, - Pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou não permitindo que sejamos tentados, ou dando-nos a graça de não sermos vencidos. As tentações, se não consentimos nelas, são úteis e meritórias, porque nos fazem ser humildes e recorrer à Deus: vem a ser uma ocasião de merecimento na terra, e de glória no céu quando ficamos vencedores. Para não sermos tentados devemos fugir particularmente três coisas: a ociosidade, o dormir muito e a intemperança. 
A gravura representa a tentação de Nosso Senhor no deserto.

13. 7ª petição: << Mas livrai-nos do mal. >> Pedimos a Deus que nos livre de todo o mal tanto da alma como do corpo, no tempo e para a eternidade. Nas adversidades devemos sofrer com paciência e submeter-nos à vontade de Deus. 
A gravura representa Daniel miraculosamente preservado da fúria dos leões. 


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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 

domingo, 20 de outubro de 2024

A oração


 Da oração em geral



1. A oração é uma elevação da nossa alma e do nosso coração a Deus para pedir-lhe o que é mais conveniente para a nossa salvação eterna.

2. Temos todos obrigação de orar, e por duas razões. A primeira é porque Nosso Senhor o mandou formalmente, dizendo que convinha orar sempre a Deus, e a segunda são as nossas necessidades contínuas.

3. Há duas espécies de oração: mental e vocal; ou por outro modo de coração e de boca.

4. A oração mental ou de coração é aquela em que se ora a Deus com a mente e com o coração, sem recorrer a certas palavras de costumes.

5. A oração de boca ou vocal é aquela que se faz com palavras.

6. Deus conhece as nossas necessidades, mas quer Ele que lhe dirijamos nossas preces, porque, com impetrar o que pedimos, quer que reconhecemos e exaltemos a sua benignidade para conosco.

7. Pode se fazer oração em todo lugar e em todo tempo, mas devemos principalmente orar de manhã e à noite, nas tentações e tribulações, e na igreja porque é o lugar consagrado a Deus e a casa propriamente da oração; porque ali se celebram os sagrados mistérios: porque o concurso de muitos que oram juntos torna a oração mais eficaz e poderosa.

8. A nossa esperança de que havemos de ser ouvidos na oração funda-se nas promessas de Deus onipotente, misericordioso é fidelíssimo, e nos merecimentos de N. S. Jesus Cristo, em nome do qual, como Ele mesmo nos ensinou e como pratica a Igreja, havemos de pedir as graças na oração.

9. Da oração provêm os seguintes frutos: 1º honra-se e louva-se a Deus; 2º aumenta-se a virtude; 3º enfraquecem-se as paixões; 4º aplaca-se a justiça de Deus.

10. A oração não é ouvida por culpa de quem ora, quando quem ora está em desgraça de Deus sem vontade de converter-se.

11. A oração não é ouvida por causa do modo como é feita, quando lhe faltam as condições necessárias, cujas principais são: atenção, humildade, fé e perseverança. 

12. Orar com atenção quer dizer que nos devemos aplicar à oração sem nos distrairmos voluntariamente, e orar de coração em quanto rezarmos com a boca.

13. Orar com humildade quer dizer que nos devemos reputar indignos de alcançar o que pedimos e acompanhar a oração com reverente compostura do corpo.

14. Orar com fé quer dizer que Deus pode e quer ouvir-nos pelos merecimentos de seu divino filho.

15. Orar com perseverança quer dizer não cessar de pedir a graça que havemos mister, acrescentando sempre: se for da vossa vontade.

16. As nossas orações não são ouvidas pelo motivo de coisa que pedimos, quando pedimos coisas que não convêm à nossa eterna salvação.

17. O que devemos pedir é o que se contém no Pai-nosso.

18. Podemos pedir a Deus a saúde e os bens temporais, com tal que isto se faça com submissão à sua vontade.

19. Devemos orar por nós, pelos nossos pais e parentes, por nossos superiores espirituais e temporais, em geral por todos os homens, não excetuando os nossos inimigos, pela nossa pátria, e pelas almas do purgatório a fim de livrá-las das suas penas e introduzi-las no céu. 



Explicação da gravura


20. No meio está Moisés orando numa colina em quanto os Hebreus lutam na planície contra os inimigos.

21. Vê-se no ângulo superior esquerdo uma família a rezar em comum. No ângulo superior direito, uma família a rezar antes da comida. No ângulo inferior esquerdo, uma família rezando antes do trabalho.

22. No ângulo inferior direito vê-se a Santo Antão orando com atenção e fervor diante do Crucifixo em quanto os demônios procuram distrair e tentá-lo de mil maneiras.


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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.


 


sexta-feira, 7 de junho de 2024

A confiança com que devemos rezar

                                                             Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




16. "Peça com fé e sem hesitação alguma!"

Admoesta-nos o Apóstolo São Tiago que, se quisermos alcançar alguma graça de Deus, por meio da oração, devemos fazê-lo com plena confiança e convicção de que vamos ser atendidos. Santo Tomás ensina que, assim como a oração tem a sua força meritória da caridade, do mesmo modo tem a eficácia de impetrar-nos as graças, da fé e confiança. A oração tem seu valor meritório da caridade; porém, a eficácia de impetrar-nos as graças, da fé e confiança. O mesmo ensina São Bernardo dizendo que só a nossa confiança é que nos obtém a misericórdia de Deus. "Só a confiança, ó Senhor, nos obtém a vossa comiseração". Agrada sumamente a Deus a nossa confiança em sua misericórdia, porque assim honramos e exaltamos aquela sua infinita bondade que Ele quis manifestar ao mundo nos criando. Alegrem-se, pois, ó meu Deus, dizia o real profeta, todos os que esperam em vós, pois eles serão eternamente bem-aventurados e vós eternamente habitareis com eles: "Alegrem-se todos aqueles que esperam em Vós; exultarão eternamente e Vós habitareis neles" (Sl 5,12). Deus protege e salva a todos os que confiam nele. Salva os que esperam nele. Quantas promessas não se encontram nas Escrituras feitas aos que esperam em Deus! "Todos os que nele esperam não pecarão" (Sl 33,23). Sim, porque diz Davi que o Senhor tem os seus olhos voltados para os que confiam em sua bondade, a fim de libertá-los, com o auxílio, da morte do pecado. E, em outro lugar, o próprio Deus afirma: "Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei, protegê-lo-ei... livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei" (Sl 90,14-15). Note-se a palavra: porquanto em mim confiou, protegê-lo-ei, livrá-lo-ei dos inimigos e do perigo de cair e finalmente lhe darei a glória eterna. Falando Isaías dos que esperam no Senhor, diz: "Os que esperam no Senhor terão sempre forças novas, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão" (Is 40,31). "Deixarão de ser fracos e adquirirão em Deus uma grande força; não desfalecerão, nem sequer sentirão fadiga no caminho da salvação, mas correrão e voarão como águias" (Is 40,31). Vossa fortaleza está no silêncio e na esperança. Em suma, toda a nossa força, diz o mesmo Profeta, consiste em colocarmos toda a nossa confiança em Deus e em nos calarmos, quer dizer, em repousarmos nos braços de sua misericórdia, sem confiar em nossos esforços e nos meios humanos.


17. "Jamais se perdeu quem confiou em Deus"

Baseado nesta esperança tinha Davi por certo que nunca se perderia. "Ninguém esperou no Senhor que fosse confundido". (Eclo 2,11). "Em vós, Senhor, esperei; não serei confundido eternamente" (Sl 30,1). Porventura, pergunta Santo Agostinho, poderá Deus enganar-nos oferecendo-se para sustentar-nos nos perigos quando a Ele recorremos e, depois, retirando-se de nós, quando, de fato, recorremos a Ele? Davi chama bem-aventurado a quem confia no Senhor: "Bem-aventurado é o homem que espera em Vós" (Sl 83,13). E por quê? Porque, diz o Profeta, quem confia em Deus será sempre cercado pela misericórdia divina: "Ao que espera no Senhor, a misericórdia o cercará" (Sl 31,10). Sim, de tal modo será cercado de todos os lados e guardado por Deus que ficará seguro dos inimigos e do perigo de perder-se.


18. "Confiemos em Deus!"

Conservemos a confiança nele, diz o Apóstolo, porque assim poderemos esperar uma grande recompensa. Assim como for a nossa confiança, do mesmo modo serão as graças de Deus. "Uma grande confiança merece grandes coisas."

Escreve São Bernardo que a divina misericórdia é uma fonte imensa; e nós apanhamos as graças com os vasos da confiança; quem vier com um vaso maior poderá tirar maior número de graças. "Só nos vasos da confiança o Senhor deita o azeite de sua misericórdia." E, já antes, dissera o Profeta: "Venha, Senhor, sobre nós a vossa misericórdia, assim como temos esperado!" (Sl 32,22). Isto vemos realizado com o centurião, a quem o Redentor disse, louvando a sua confiança: "Vai e te seja feito assim como creste" (Mt 8,13). Revelou Nosso Senhor à Santa Gertrudes que "quem reza com confiança faz tanta violência a seu coração que o obriga a atender a tudo quanto pede". "A oração, diz São João Clímaco, faz violência a Deus, mas uma violência que lhe é cara e agradável".


19. "Aproximem-nos com confiança"

Aproximemo-nos, exorta São Paulo, com confiança, do trono da graça a fim de alcançarmos misericórida e de acharmos graça, para sermos socorridos oportunamente" (Hb 4,16). O trono da graça é Jesus Cristo, que está assentado à direita do Pai, não sobre um trono de justiça, mas de graça, para nos obter o perdão, se estivermos em estado de pecado, e o auxílio necessário para preservarmos, se estivermos na amizade de Deus. Para este trono devemos dirigir-nos sempre com confiança, mas com uma confiança firme e certa. 

Quem, ao contrário, reza com uma confiança vacilante, não pense que alcançará alguma coisa, como afirma São Tiago: "Aquele que duvida é semelhante à onda do mar. Que é agitada e levada de uma parte para outra pela violência dos ventos; não pense esse homem que há de receber alguma coisa de Deus" (Tg 1,6-7). Não receberá nada, porquanto a sua dúvida entre confiança e desconfiança impedirá a misericórdia divina de ouvir as suas súplicas. "Não rezaste bem, como devias, porque rezando duvidastes, diz São Basílio; não recebeste a graça porque a pediste duvidando". Disse Davi que a nossa confiança deve ser inabalável como uma montanha, que não se move a qualquer sopro do vento: "O que confia no Senhor está firme como o monte de Sião" (Sl 123,1). O Senhor nos adverte que se quisermos obter as graças que pedimos, devemos fazê-lo com fé: "Todas as coisas que pedirdes orando, crede que a recebereis, e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). Qualquer que for a graça que pedirdes, estais certos que sereis atendidos. 


20. Qual é o fundamento desta confiança?

Mas,  dirá alguém, em que posso eu, miserável, fundamentar esta minha confiança certa de obter o que peço? Em que coisa? Na promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24). Quem poderá recear de ser enganado, se é a própria verdade quem o promete? - Diz Santo Agostinho. Como podemos duvidar de sermos atendidos quando Deus, a própria Verdade, promete conceder-nos o que pedimos na oração? "Não nos admoestaria a pedir, diz o mesmo Santo Doutor, se não nos quisesse ouvir". Mas é isto o que Ele tanto nos inculca e tantas vezes repete na Sagrada Escritura: "Pedi, orai, buscai e obtereis tudo quanto desejardes". Pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á feito.

E para rezarmos com a devida confiança, ensina-nos o Salvador na oração do Pai-Nosso que, ao recorremos a Deus, a fim de recebermos as graças necessárias para a nossa salvação, as quais estão todas no Pai-Nosso, chamemos a Deus não de Senhor, mas sim de Pai: Pai, nosso. Quer um filho doente e pobre pede o alimento e o remédio a seu pai. Se um filho está para morrer de fome, o pai logo o socorrerá, e se for mordido de um serpente venenosa, basta mostrá-la ao pai para que ele aplique o remédio que já tem preparado. 


21. Esperemos contra a esperança!

Confiados, pois, nas diversas promessas, peçamos sempre com uma confiança inabalável, como diz o Apóstolo: "Conservemos firmes a promessa da nossa esperança, porque fiel é o que fez a promessa" (Hb 10,23). Portanto, como é certo que Deus é fiel em suas promessas, assim também certa deve ser a confiança de sermos atendidos por Ele, quando o invocarmos. E, ainda que, às vezes, ou por nos acharmos em estado de aridez espiritual, ou por estarmos perturbados com qualquer falta cometida, não sintamos na oração aquela confiança sensível que tanto desejávamos; contudo nos esforcemos por pedir e não por deixar de pedir, porquanto Deus não deixará de nos atender. Mas nos ouvirá mais depressa, porque então rezaremos com maior desconfiança de nós e confiaremos só na bondade e fidelidade de Deus que prometeu atender a quem o invocar. Oh! como é agradável a Nosso Senhor a nossa esperança no tempo de tribulações, temores e tentações, quando esperamos contra a esperança, quer dizer, contra aquele sentimento de desconfiança causado por nossa desolação. O Apóstolo elogia o patriarca Abraão com as seguintes palavras: "Creu na esperança, contra toda a esperança" (Rm 4,18).


22. A confiança nos torna santos

Diz São João que quem confiar incondicionalmente em Deus se torna santo. "E todo o que tem esta esperança nele santifica-se a si mesmo, assim também como Ele é santo" (1Jo 3,3). É porque Deus derrama fartamente suas graças sobre todos o que nele confiam. Com esta confiança, tanto mártires, tantas virgens, tantas crianças, apesar dos horríveis tormentos infligidos pelos tiranos, saíram vencedores.

Às vezes, pedimos e parece que Deus não quer ouvir-nos, mas não deixemos, então, de pedir e esperar. Digamos, então, como Jó: "Mesmo que Deus me tirasse a vida, eu esperaria nele" (Jó 13,15). Meu Deus, ainda que me expulsásseis de vossa presença, não deixaria de pedir-vos e de esperar em vossa misericórdia. Façamos assim e obteremos de Nosso Senhor tudo o que quisermos. Assim fez a mulher cananeia e obteve tudo de Jesus. Esta mulher tinha uma filha atormentada pelo demônio e pediu a Nosso Senhor que a livrasse: "Tem compaixão de mim, pois minha filha está atormentada pelo demônio" (Mt 15,22). Nosso Senhor respondeu-lhe que não fora enviado para os gentios, mas sim para os judeus. Não desanimou a mulher e tornou a pedir com confiança: "Senhor, vós podeis consolar-me e vós haveis de me consolar: Senhor, ajudai-me". Jesus replicou: "Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães". "Mas, Senhor meu, acrescentou ela, também os cachorrinhos comem das migalhas da mesa dos donos". Então o Salvador, vendo a grande confiança dessa mulher, louvo-o e concedeu-lhe a graça, dizendo: "Ó mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como desejas!". "E quem, diz o Eclesiástico, jamais invocou o auxílio de Deus e Deus o desprezou e não o socorreu? Quem o invocou e foi por Ele desprezado?" (2,12).


23."A oração é uma chave que nos abre as portas do céu"

Diz Santo Agostinho que a "oração é uma chave que nos abre a porta do céu". No mesmo momento em que a nossa oração sobe para Deus, desce para nós a graça pedida. Escreveu o real Profeta que as nossas súplicas andam sempre ao lado da misericórdia divina: "Bendito seja Deus, que não rejeitou a minha oração, nem apartou a sua misericórdia de mim" (Sl 65,20). Diz por isso o mesmo Santo Agostinho que, quando estamos rezando, podemos estar certos de que estamos sendo atendidos. "Quando vires que a tua oração não se apartou de ti, podes estar certo de que tampouco a misericórdia divina se afastou de ti."

E eu, quanto a mim, falo a verdade e confesso que me sinto mais consolado no espiríto, e nunca sinto maior confança em salvar-me do que quando rezo e me recomendo a Deus. O mesmo penso que sentem todos os fiéis, pois todos os outros sinais de salvação que temos são incertos e falíveis. Mas que Deus atende a quem o invoca com confiança é verdade certa e infalível, como é infalível a verdade que Deus não pode faltar às suas promessas.


24. "Tudo posso naquele que me conforta"

Quando nos sentirmos fracos e incapazes de vencer qualquer tentação ou qualquer dificuldade em observar os mandamentos do Senhor, animemo-nos, dizendo com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Não imitemos os que dizem: "não posso, não tenho ânimo". É certo que nada podemos de nós mesmos, mas com o auxílio divino podemos tudo. Se Deus dissesse a alguém: "Toma aquele monte sobre teus ombros e carrega-o. Eu te ajudarei". Não seria um insensato quem respondesse: não tenho força para carregá-lo? Do mesmo modo, quando nos sentimos fracos e enfermos, combatidos por muitas tentações, não percamos o ânimo e levantemos os olhos a Deus e digamos com Davi: "O Senhor é meu amparo, desprezarei os meus inimigos" (Sl 117,6). Com o auxílio de Deus desprezarei e vencerei todos os meus inimigos. E quando estivermos em perigos de ofender a Deus ou em outra grave necessidade, e confusos não soubermos o que fazer, recomendemo-nos a Nosso Senhor, dizendo: "O Senhor é minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl 26,1). E fiquemos certos de que Deus nos esclarecerá e nos preservará de todo o mal.


25. "Mas sou pecador", dizem alguns

E na Escritura leio: "Deus não ouve os pecadores". Responde Santo Tomás com Santo Agostinho: "Esta palavra foi dita pelo cego de nascimento, quando não estava ainda bastante esclarecido, e por isso não tem valor".

Acrescenta Santo Tomás que essas palavras encerram uma grande verdade: trata-se do pecador que reza com o desejo de continuar a pecar; por exemplo, se pedisse a Deus auxílio para se vingar de um inimigo ou para fazer qualquer outra coisa má. O mesmo se entende do pecador que pede a Deus a sua salvação, sem nenhum desejo de sair do pecado.

Há de fato alguns que armam laços com que o demônio os prende como escravos. As orações destes não são atendidas por Deus, porque são orações temerárias e abomináveis. Não é uma temeridade pedir graças a um príncipe, a quem não só já se ofendeu, como também se pensa em ofender futuramente? Neste sentido devemos compreender o que disse o Espírito Santo que a oração daquele que não quer propositadamente ouvir o que Deus manda é aborrecida e detestável: "Daquele que desvia os seus ouvidos para não ouvir a lei, a oração será execrável" (Pr 28,9). A esses, diz Nosso Senhor: Podeis rezar quando quiserdes, afastarei de vós os meus olhos e quando multiplicardes as vossas orações, não vos atenderei" (Is1,15). Tal foi a oração do ímpio rei Antíoco, que pedia a Deus e prometia grandes coisas, mas hipocritamente, tendo o seu coração preso ao pecado; rezava só para evitar o castigo que estava iminente e por isso Nosso Senhor não ouviu os seus rogos e permitiu que fosse comido por vermes e morresse de uma morte desgraçada. Este malvado rezava, mas não podia receber misericórdia. 


26. Outros pecam por fraqueza ou por um ardente assalto da paixão

Outros que pecam por fraqueza ou por um ímpeto de alguma paixão e gemem sob o jugo do inimigo, desejando romper aquelas cadeias de morte e sair daquela miserável escravidão, rezam e pedem o auxílio de Deus; a oração deles, se for constante, será atendida por Deus: "Todo o que pede recebe, e quem busca acha" (Mt 7,8); todo, isto é, (como explica o autor da "Obra imperfeita"), tanto o justo como o pecador. 

No evangelho de São Lucas, Nosso Senhor fala do homem que deu todos os pães que tinha ao amigo, não por amizade, mas para ser livre da importunação, e diz: "Se o outro perseverar em bater, digo-vos, ainda que ele não se levante para dar-lhes os pães, por ser seu amigo, pelo menos vai levantar-se por causa da amolação. E vai dar tudo o que o amigo precisa. Por isso vos digo: Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (L 11,8). A oração constante obtém misericórdia de Deus, mesmo para os que não são seus amigos. 

"O que não se alcança pela amizade, diz São João Crisóstomo, alcança-se pela oração". O mesmo santo chega a dizer: "A oração vale mais diante de Deus do que a amizade". São Basílio não duvida de que os pecadores obtenham o que pedem, contanto que peçam com perseverança. O mesmo diz São Gregório: "Clame o pecador a Deus e a Ele chegará a sua oração". São Jerônimo escreve que também o pecador pode chamar a Deus de seu pai, se lho pede para que o aceite de novo por filho, a exemplo de filho pródigo, que, antes de pedir perdão, chamou-o com o nome de pai: "Pai, pequei". Se Deus não atendesse os pecadores, diz Santo Agostinho, em vão teria o publicano pedido perdão, dizendo: "Tende, Senhor, piedade de mim, pecado" (Lc 18,14).


27. Deus ouve a oração dos pecadores

Quem tratou esta questão mais detalhadamente foi Santo Tomás e ele não hesita em dizer que também o pecador é atendido quando reza. O santo afirma que a oração do pecador, embora não seja meritória, tem não obstante a virtude de impetrar graças, porque a concessão de graças não vem da justiça, o impetrar depende da bondade de Deus: "O merecer depende da justiça, o impetrar depende da bondade de Deus". Justamente neste sentido pedia Daniel: "Inclinai, meu Deus, vosso ouvido e escutai, porque, prostando-nos em terra diante de vossa face, não fazemos estas deprecações fundados em algum merecimento de nossa justiça, mas na multidão de vossas misericórdias" (9,18).

Quando oramos, diz Santo Tomás, para obtermos as graças que pedimos, não é necessário sermos amigos de Deus: "A própria oração nos torna seus amigos". Uma bela razão traz São Bernardo, dizendo que esta súplica do pecador, de poder sair do pecado, provém do desejo de voltar à graça de Deus. Se Deus, diz o Santo, inspira ao pecador tal desejo, é um sinal de que quer atendê-lo: "Para que daria a Deus um tal desejo, se não o quisesse atender?". Na Escritura há muitos exemplos de pecadores que se converteram pela oração. Assim, livrou-se do pecado o rei Acab, assim Manasses, assim Nabucodonosor, assim também o bom ladrão. Ah! Como é grande e poderosa a oração! Dois pecadores no alto do Calvário morrem ao lado de Jesus. Um se salva porque reza, outro se perde porque não reza!


28. Nenhum pecador arrependido pediu ao Senhor benefícios, sem receber o que desejava

"Nenhum pecador arrependido pediu ao Senhor benefícios, sem receber o que desejava", diz São Crisóstomo. Mas para que alegar mais razões e autoridades, desde que o próprio Jesus Cristo disse: "Vinde a mim a todos o que trabalhais e vos achais carregados e eu vos aliviarei" (Mt 11,28). Segundo São Jerônimo, Santo Agostinho e outros, "carregados" são geralmente os pecadores que gemem sob o peso de suas culpas. Se recorre a Deus, Ele, conforme sua promessa, os salvará, com o auxílio de sua graça.

"Tu não desejas tanto o perdão de teus pecados, quanto Deus deseja perdoar-te", São João Crisóstomo. Não há graça, acrescenta o mesmo Santo, que não se obtenha pela oração ainda feita pelo pecador mais miserável, contanto que seja confiante e assídua. Notemos bem o que diz São Tiago: "Se alguém necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem impropérios" (Tg 1,5). Todos quantos recorrem a Deus pela oração são atendidos por Ele e cumulados de graças. A todos dá liberalmente. Mas consideremos bem as palavras "sem impropérios". Isto quer dizer que Deus não faz como os homens: Quando alguém nos pede um favor, se fomos ofendidos antes, censuramos a injúria recebida. Deus não procede dessa forma com quem o invoca, ainda que fosse o maior pecador do mundo. Quando ele lhe pede qualquer graça necessária à salvação, não o acusa das ofensas feitas, mas o recebe como se nunca tivesse sido ofendido por ele, consola-o, atende-o e prodigamente o enriquece de dons. 


29. Rezemos, rezemos muito!

Foi principalmente para nos indicar a rezar que o Redentor disse: "Em verdade, em verdade, vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). É como se dissesse: Ó pecadores, não desanimeis; que os vossos pecados não vos detenham de recorrer a meu Pai e esperar dele a vossa salvação! Não tendes merecimentos, mas deméritos. Aproximai-vos do Pai em meu nome e impetrai as graças desejadas pelos merecimentos. Eu vos prometo e juro ("em verdade, em verdade", palavras que, segundo Santo Agostinho, são uma espécie de juramento), que meu Pai vos concederá tudo quanto pedirdes. Ó Deus! que maior consolação pode ter um pecador, depois de sua queda, do que a de saber, com certeza, que receberá tudo quando pedir a Deus em nome de Jesus Cristo?


30. Receberá tudo

"Receberá tudo" quer dizer: aquilo que se refere à salvação eterna; porque, quanto aos bens temporais (já dissemos anteriormente), ainda que os peçamos, o Senhor às vezes não no-lo concede, porque sabe que esses bens causariam dano à nossa alma. 

Mas quanto aos bens sobrenaturais, a sua promessa de atender-nos não é condicional, mas absoluta. Por isso nos adverte Santo Agostinho: "O que Deus prometeu, pedi confiadamente". E como, escreve o Santo, jamais poderá o Senhor negar-nos coisa alguma, quando lhe pedimos com confiança, sendo que Ele deseja mais dar-nos as suas graças do que nós recebê-las. 


31. Deus se irrita contra nós

"Deus só se irrita contra nós quando deixamos de rezar", diz São João Crisóstomo. Como pode ser que Deus não queira atender a uma alma que lhe pede coisa que lhe são muitíssimo agradáveis? A alma lhe diz: Senhor, não quero bens terrenos, riquezas, prazeres, honras, mas peço-vos unicamente o vosso amor; livrai-me do pecado, dai-me a vossa santa amizade (graça que, segundo São Francisco de Sales, deve-se pedir antes de todas as outras), dai-me resignação à vossa vontade... Como é possível que Deus não atenda? E que súplicas atendereis, Senhor, diz Santo Agostinho, se não atendereis as que são tanto do vosso gosto?

Mas, sobretudo, deve-se avivar a nossa confiança, quando pedimos a Deus bens espirituais, como disse Nosso Senhor: "Se vós, que sois maus, sabeis dar o que é bom aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem" (Lc 11,13). Se vós, diz o Redentor, tão apegados aos vossos interesses e tão cheios de amor próprio, não negais aos vossos filhos o que pedem, quanto mais o Pai do céu, que vos ama acima de qualquer pai terrestre, vos dará bens espirituais quando lhe pedirdes!


A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

A humildade com que se deve rezar

                                                              Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.



9. Deus ouve a oração dos humildes e repele a dos orgulhosos

O Senhor atende às orações de seus servos, mas dos servos humildes: "O Senhor atendeu à oração dos humildes" (Sl 101,18). Onde falta humildade, Deus não atende, pelo contrário, repele as orações dos soberbos. "Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes" (Tg 4,6). Deus não ouve as orações dos soberbos, que confiam na própria força e por isso abandona-os à sua miséria. Em tal estado, privados do auxílio divino, perder-se-ão certamente. Chorava Davi: "Antes de ser humilhado, pequei" (Sl 118,67), pequei, porque não fui humilde. O mesmo se deu com São Pedro, o qual, apesar de avisado por Nosso Senhor de que naquela noite os seus discípulos o abandonariam: "a todos vós serei eu nesta noite ocasião de escândalo" (Mt 26,31), em vez de reconhecer sua fraqueza e pedir forças ao Senhor para não lhe ser infiel, confiando demasiadamente em si mesmo, disse que ainda que todos os outros o abandonassem, ele nunca o abandonaria: "Ainda que todos se escandalizem a teu respeito, eu nunca me escandalizarei" (Mt 26,33). E não obstante o Redentor lhe predizer, de novo e em particular, que naquela noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes, confiando em seu valor, gabou-se dizendo: "Ainda que seja necessário morrer eu contigo, não te negarei" (Mt 26,35). Mas, apontado como discípulo de Jesus Cristo, negou-o por três vezes, com juramento, afirmando não conhecê-lo: "Juro que não conheço tal homem" (Mt 26,72). Se Pedro houvesse se humilhado e pedisse ao Senhor a graça da constância, não o teria negado.


10. Sem a graça, nada podemos fazer de meritório

Devemos todos imaginar que estamos sobre as alturas de um monte, suspensos sobre o abismo de todos os pecados e sustentados apenas pelo fio da oração; se este fio se arrebentar, cairemos certamente neste abismo e cometeremos os crimes mais horrorosos. "Se Deus não me tivesse ajudado, já teria caído no inferno" (Sl 93,17). Assim falava o salmista e assim deve dizer cada um de nós. O mesmo queria dizer São Francisco de Assis, quando dizia ser ele o maior pecador do mundo. Mas, meu padre, disse-lhe o companheiro, não é verdade o que dizeis. Existem muitos no mundo que são piores do que vós. É verdade, meu irmão, respondeu o santo, porque se Deus não tivesse sobre mim sua mão protetora, eu cairia em todos os pecados. 


11. Trabalha em vão aquele que trabalha sem Deus 

É um dogma de fé que, sem a graça de Deus, não podemos fazer obra meritória alguma, nem tão pouco ter um bom pensamento. Sem a graça, diz Santo Agostinho, não podem os homens fazer bem algum, quer por pensamentos, quer por palavras ou obras. Como os olhos não podem ver sem luz, assim o homem não pode fazer o bem sem a graça, diz o santo. E, antes, disse o Apóstolo: "Não que sejamos capazes, nós mesmos, de ter algum pensamento como de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus" (2Cor 3,5). E, ainda antes do Apóstolo, disse Davi: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalharão os que procuram construíla". (Sl 126,1). Em vão se esforça o homem em se fazer santo, se Deus não o amparar com o seu poder. "Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente se desvela o seu vigia". Se Deus não preservar a alma do pecado, em vão procurará ela fugir dele com suas próprias forças. Por isso, exclamava o profeta Davi: "Não esperei no meu arco" (Sl 43,7). Pois não quero confiar em minhas armas, mas unicamente em Deus, porquanto só Ele pode salvar-me.


12. Pela graça de Deus, sou o que sou

Quem achar que fez algum bem e que não caiu em maiores pecados, diga com São Paulo: "Pela graça de Deus, sou o que sou" (1Cor 15,10). Pela mesma razão, não deixe o homem de tremer e recear cair em todas as ocasiões. "Quem está de pé, veja que não caia" (1Cor 10,12). Com isto, quer São Paulo advertir-nos que está em grande perigo de cair quem se julga seguro. Em outro lugar, diz: "Quem julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se" (Gl 6,3). Muito sabiamente escreveu Santo Agostinho: "Muitos, sendo fracos, não se fortificam, porque se julgam fortes; só os que se sentem fracos serão fortes". Quem diz que não tem medo de si próprio prova que confia em si mesmo e em suas resoluções. mas, com esta confiança perniciosa, engana-se. Quem diz que não tem medo, não receia mais e, não receando, não reza mais; então, cairá eternamente.

Não devemos desprezar os outros por terem caído e nós não; pelo contrário, quando virmos outros caírem, julguemos que somos piores de todos e digamos ao Senhor: Se não me tivésseis ajudado, Senhor, eu teria feito pior ainda. De outro modo, permitirá Deus, por causa do nosso orgulho, que cometamos pecados maiores ainda. Por isso avisa-nos o Apóstolo que procuremos a nossa salvação eterna. Mas como? Sempre temendo e tremendo. "Com medo e tremor, operai a vossa salvação" (Fl 2,12). "Com medo e tremor, pois quem vive em temor e cuidado para não cair desconfia de suas próprias forças e põe toda a sua confiança em Deus, recorrendo a Ele nos perigos. Deus o ajudará, vencerá as tentações e salvar-se-á. São Filipe Néri, passando um dia pelas ruas de Roma, exclamava: "Sou um desesperado". Um religioso, que ouviu estas palavras, perguntou-lhe por que falava daquele modo. O santo respondeu: "Meu padre, eu desespero, sim, mas de mim mesmo". Este deve ser o nosso modo de agir, se quisermos nos salvar. É necessário que tenhamos uma completa desconfiança de nós mesmos. São Filipe, desde o primeiro momento em que despertava pela manhã, dizia a Deus: "Senhor, protegei-me hoje, senão eu Vos trairei e o venderei!"


13. Eis a grande ciência do cristão

Diz Santo Agostinho, conhecer que nada é e nada pode! Assim, nunca deixará de pedir a Deus a força necessária para resistir às tentações e para fazer o bem, e fará tudo com o auxílio de Deus, que não repele nenhuma súplica dos humildes. "A oração do que se humilha penetrará as nuvens e não se afastará até que o Altíssimo ponha nela os seus olhos" (Eclo 35,21). E por mais carregada que esteja uma alma de pecados, Deus não pode desprezar um coração que se humilha. "Não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado" (Sl 50,12). "Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes" (Tg 4,6). Deus é severo com os soberbos e resiste às suas súplicas; benigno, porém, e misericordioso com os humildes. Um dia, falou Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena: "Saibas, filha, que toda alma que perseverar humildemente na oração chegará a conseguir todas as virtudes".


14. Bela advertência de Monsenhor Palafox

É útil citar aqui uma bela advertência de Monsenhor Palafox, piedosíssimo bispo de Osma, às pessoas piedosas que procuram santificar-se, em sua anotação à 18ª carta de Santa Tereza a seu confessor. Ali conta-lhe a Santa todos os degraus de oração sobrenatural com que o Senhor lhe havia favorecido. 

A esse propósito, o mencionado prelado prescreve que essas graças sobrenaturais, que Deus se dignou conceder à Santa Teresa e tem concedido a outros santos, não são necessárias para alcançar a santidade, porque muitas outras almas chegaram à santidade sem essas graças extraordinárias e até há muitas que, apesar de terem recebido aquelas graças, estão condenadas. Portanto, diz ser coisa supérflua e presunçosa desejar e pedir tais dons sobrenaturais, quando o verdadeiro e único caminho para a santidade é o exercício de todas as virtudes, especialmente do amor de Deus; e a isto se chega por meio da oração e pela correspondência às luzes e aos auxílios de Deus, o qual outra coisa não quer senão a nossa santificação. "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação" (1Ts 4,3).


15. Os diversos graus da oração e como alcançá-los

Por isso, o referido autor, falando dos graus da oração sobrenatural, de que tratava a santa, a saber: da oração de repouso, do sono e da suspensão das faculdades da alma, da união, do êxtase, do arrebatamento, do voo e ímpeto do espírito e da chaga espiritual, sabiamente escreve e diz que, quanto à oração de repouso, o que devemos desejar e pedir a Deus é que nos livre do apego e desejo dos bens terrenos, os quais não dão paz, mas sim trazem aflições e inquietações ao espírito. Bem falou Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!" (Eclo 1,14). O coração do homem jamais encontrará a verdadeira paz, senão se livrando de tudo o que não é de Deus, para dar lugar a seu santo amor, para que Ele só o possua. Mas a alma por si própria não pode alcançar isso, mas unicamente por meio de repetidas orações.

Quanto ao sono e suspensão das faculdades da alma, devemos pedir a Deus que essas faculdades durmam para as coisas terrenas e só estejam acordadas para considerar a divina bondade, para aspirar ao amor divino e aos bens eternos.

Quanto à oração da união, devemos pedir a Deus a graça de não pensar, de não procurar e de não querer senão o que Deus quer, pois que toda a santidade e perfeição do amor consiste em conformar-se a nossa vontade com a vontade de Deus. 

Quanto ao êxtase e ao arrebatamento, peçamos a Deus que nos livre do amor desregrado de nós mesmos e das criaturas, para nos atrair todos a si.

Quanto ao voo do espírito, roguemos a Deus a graça de vivermos desapegados do mundo e de fazermos como as andorinhas, que, nem mesmo para se alimentar, param no chão e voando tomam o seu alimento. Isto quer dizer que devemos nos servir destes bens temporais tanto quanto for necessário à vida, mas sempre voando, sem nos determos sobre a terra para procurar os prazeres mundanos. 

Quanto ao ímpeto do espírito, peçamos a Deus que nos dê coragem e fortaleza para fazermos violência a nós mesmos, quando for necessário, a fim de resistir aos assaltos dos inimigos, vencer as paixões e abraçar o sofrimento no meio de desconsolações e tédios do espírito.

Enfim, quando chega à chaga de amor, assim como a chaga com sua dor sempre renova a recordação do mal, do mesmo modo devemos pedir a Deus que nos fira o coração de tal sorte com o seu santo amor, a fim de que nos recordemos sempre de sua bondade e de seu afeto para conosco e assim vivamos ocupados sempre em amá-lo e agradecer-lhe com as nossas ações e afeto. Mas todas essas graças não se obtém sem a oração; e com a oração, contanto que seja humilde, confiante e perseverante, tudo se alcança. 

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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

As condições da oração

                                                             

                                                                   Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


 I - Por quem e o que devemos pedir



1. As condições da oração

Jesus Cristo fez-nos a seguinte promessa: "Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai, em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Muitos, diz São Tiago, pedem e não recebem, porque pedem mal: "Pedis e não recebeis porque pedis mal" (Tg 4,3). São Basílio, explicando as palavras do Apóstolo, diz: "Pedes e não recebes, porque tua oração foi malfeita ou sem fé, sem devoção ou desejo; ou porque pediste coisa que não se referia à tua salvação eterna, ou pediste sem perseverança". Por isso Santo Tomás reduziu a quatro as condições requeridas na oração, para que obtenham o seu fruto: isto é, que o homem peça para si coisas necessárias à salvação, com devoção e com perseverança. 


2. A primeira condição da oração é que rezemos por nós mesmos

Pois o Doutor Angélico julga que ninguém pode impetrar para outros, como mérito de justiça, a vida eterna e, por conseguinte, também as graças necessárias para a salvação deles, porque a promessa, diz ele, foi feita não para os que rezam para outros, mas os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á. 

Não obstante, há muitos doutores que afirmam o contrário, apoiados na autoridade de São Basílio, que ensina ter a oração infalivelmente o seu efeito, ainda que se reze pelos outros, contanto que esses não oponham uma resistência positiva. Estes escritores se baseiam sobre textos das Sagradas Escrituras: "Orai uns pelos outros, para serdes salvos, porquanto muito vale a oração perseverante do justo" (Tg 5,16). "Rezai pelos que vos perseguem e caluniam" (Mt 5,44). O melhor texto é de São João: "Se alguém vir seu irmão cometer um pecado, que não é de morte, peça e será concedida a vida àquele cujo pecado não é de morte" (1Jo 5,16). As palavras: Cujo pecado não é de morte, Santo Agostinho, Beda, Ambrósio e outros explicam que se devem entender do pecador, que não quer viver obstinado até a morte; pois, para tal pecador, seria necessário uma graça muito extraordinária. Quanto aos outros pecadores, não atingiriam um grau tão alto de maldade, se alguém rezar por eles, promete-lhe, o Apóstolo, a conversão deles: "Peça e será dada a vida ao pecador". 


3. As orações pelos outros, mormente pelos pecadores, são muito agradáveis a Deus

Não se duvida, entretanto, que as orações que fazemos pelos outros, mormente pelos pecadores, sejam muito agradáveis a Deus. O Senhor queixa-se de seus servos, que não rezam pelos pecadores. Um dia, lamentava-se Nosso Senhor a Santa Maria Madalena de Pazzi, a quem disse: "Vede, minha filha, como caem os cristãos nas mãos do demônio; se os meus escolhidos não os livrassem por suas orações, seriam tragados por ele". De um modo todo especial, porém, Nosso Senhor deseja e exige isso dos sacerdotes e religiosos. Por isso, dizia muitas vezes a santa às suas religiosas: "Irmãs, Deus nos separou do mundo, não somente para fazermos bem a nós mesmas, mas também para procurarmos aplacar sua ira contra os pecadores". Falou-lhe, uma vez, o Senhor: "Eu vos dei, a vós, esposas escolhidas, a cidade de refúgio (isto é, a Paixão de Jesus Cristo), para que tenhais onde recorrer para ajudar minhas criaturas; por isso, recorrei a ela e ali oferecei auxílio às minhas criaturas que perecem; sacrificai mesmo a vossa vida por elas". Pelo que a santa, inflamada de tanto zelo, oferecia a Deus, cinquenta vezes por dia, o sangue do Redentor pelos pecadores e se consumia em desejos por sua conversão, dizendo: "Que pena, Senhor! Como sinto ver que posso ajudar às tuas criaturas com o sacrifício de minha vida e, contudo, não poder realizá-lo!"

Ela, em todos os exercícios de piedade, recomendava os pecadores a Deus; e em sua vida se conta que não passava uma hora do dia em que não pedisse por eles. Frequentemente levantava-se à meia-noite e se dirigia à igreja, onde estava o Santíssimo Sacramento, para rezar pelos pecadores. Apesar de tudo isso, foi encontrada uma vez a chorar e, interrogada do motivo das lágrimas, respondeu: "Porque me parece que nada faço pela conversão dos pecadores". Chegou até a se oferecer a padecer as penas do inferno pela conversão deles, contanto que lá não tivesse de odiar a Deus. Frequentes vezes conseguiu ser atormentada de graves dores e enfermidades pela salvação dos pecadores. Rezava especialmente pelos sacerdotes, vendo que estes, com uma vida exemplar, seriam causa da salvação de muitos e com uma vida má levariam grande número à ruína e à perdição. Pedia a Nosso Senhor que a castigasse pelas culpas deles e dizia: "Senhor, fazei-me morrer tantas vezes e tornar à vida, até satisfazer por eles à vossa justiça". Em sua vida, conta-se que a santa, por suas orações, libertou de fato muitas almas das garras de Satanás.


4. Rezemos muito pela conversão dos pecadores!

Quis propositadamente dizer alguma coisa mais particular sobre o zelo desta santa. Enfim, todas as almas que amam sinceramente a Deus não cessam de rezar pelos pobres pecadores. E como é possível que uma pessoa que ama a Deus, vendo o amor que tem às almas e o que fez e sofreu por ela Nosso Senhor Jesus Cristo e o desejo que tem o Salvador que rezemos pelos pecadores, como é possível, digo, ver indiferente tantas almas vivendo sem Deus, feitas escravas do inferno e não se mover e se esforçar por pedir com insistência ao Senhor, queira conceder luzes e energias a estes infelizes, para saírem do estado em que se acham?

É certo que Deus não prometeu atender-nos, quando aqueles por quem rezamos se opõem à conversão. Entretanto, Nosso Senhor, por bondade e em atenção às orações de seus servos, dignou-se reconduzir ao caminho da salvação mesmo os pecadores mais obcecados e obstinados. Por isso, recomendemos sempre a Deus os pobre pecadores ao celebrarmos a santa Missa, na comunhão, na meditação e na visita ao Santíssimo Sacramento.

Diz um ilustre escritor que, rezando pelos outros, seremos atendidos mais prontamente do que quando rezamos por nós mesmos. Disse isso de passagem. Examinemos as outras condições da oração segundo Santo Tomás. 


5. A segunda condição

É que peçamos as graças necessárias à salvação, porque a promessa divina não foi dada para os bens temporais, que não são necessários à salvação da alma. Diz Santo Agostinho, explicando as palavras do Evangelho, em meu nome, anteriormente citadas, que "não se pede em nome do Salvador o que é contrário aos interesses de nossa salvação".


6. Motivos por que Deus muitas vezes parece não nos atender

Às vezes, pedimos algumas graças temporais e Deus não nos atende; mas não nos atende porque nos ama, diz o mesmo Doutor, e quer usar de misericórdia para conosco: "Quem pede a Deus humilde e confiantemente coisas necessárias para esta vida, ora é ouvido por misericórdia e ora não é atendido por misericórdia; pois, do que o doente tem necessidade, melhor sabe o médico do que o doente". O médico que se interessa pelo doente nunca permitirá coisas que lhe possam fazer mal.

Quantos, se fossem pobres ou doentes, não cometeriam os pecados que cometem sendo ricos e sadios! Por isso o Senhor nega a alguns, que lhe pedem a saúde do corpo ou os bens da fortuna, porque os ama, vendo que isso lhes seria ocasião de perderem a sua graça, ou ao menos de se entibiarem na vida espiritual. Contudo, não queremos dizer com isso que seja uma falta pedir a Deus as coisas necessárias à vida presente, contanto que estejam em relação com a salvação eterna, como pediu o sábio: "Dai-me, Senhor, unicamente o que for necessário para viver" (Pr 30,8). Não é uma falta, diz Santo Tomás, ter um cuidado moderado por estas coisas; proibido é desejar e procurar estes bens como principais e ter por eles um cuidado demasiado, como se formassem toda a nossa felicidade. Quando pedirmos a Deus bens temporais, devemos pedi-los com resignação e sob a condição de aproveitarem à alma. Se vemos que o Senhor não os concede, tenhamos por certo que os nega pelo amor que nos tem e porque prevê que vão prejudicar à salvação de nossa alma.


7. Quando Deus não atende é sempre para nosso próprio bem

Muitas vezes pedimos a Deus que nos livre de alguma tentação perigosa, e Deus não nos atende e permite que a tentação continue. Nesse caso, devemos entender que Deus assim permite para nosso próprio bem. Não são as tentações e maus pensamentos que nos afastam de Deus, mas sim o consentimento dado. Quando a alma tentada se recomenda a Deus e, com o seu auxílio, resiste aos ataques de seus inimigos, progride na virtude e une-se mais estreitamente a Ele. Esta é a razão por que o Senhor deixa de atendê-la. São Paulo pedia insistentemente ao Senhor que o livrasse das tentações impuras: "Permitiu Deus que sentissse em minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás, para me esbofetear; por cuja causa roguei ao Senhor três vezes que o afastasse de mim" (2Cor 12,7). Mas o Senhor respondeu: "Basta-te a minha graça".

Devemos, pois, nas tentações pedir a Deus com resignação, dizendo: Senhor, livrai-me deste tormento, se assim for conveniente para minha salvação; senão, dai-me ao menos o auxílio para resistir-lhe.

Devemos lembrar aqui o que diz São Bernardo, que, quando pedimos a Deus alguma graça, Ele nos dá a graça pedida ou outra melhor. Deus muitas vezes nos deixa sofrer no meio da tempestade, a fim de provar a nossa fidelidade e para o nosso maior proveito. Parece, então, surdo às nossas orações. Não! Estejamos seguros de que Deus nos ouve e nos ajuda ocultamente, dando-nos forças para resistirmos aos assaltos dos inimigos. Isto Ele nos assegura por boca do Salmista: "Na tribulação me invocaste e te livrei: eu te ouvi no escondido da tempestade; provei-te junto à água da contradição" (Sl 80,8).


8. Condições dadas por Santo Tomás

Finalmente eis as outras condições que Santo Tomás exige para a oração: Que se reze com devoção e perseverança. Com devoção, quer dizer, com humildade e confiança; com perseverança, quer dizer, sem deixar de rezar até a morte.  

Destas condições, pois, da humildade, confiança e perseverança, que são as mais necessárias à oração, importa falar de cada uma distintamente. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.




terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O valor da oração


 Livro: A Oração - Cap. II

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




1. Como são preciosas a Deus as nossas orações!

São tão preciosas a Deus as nossas orações que Ele destinou os Anjos para lhe apresentarem imediatamente as que estamos fazendo. "Os anjos, diz Santo Hilário, presidem as orações dos fiéis e diariamente as oferecem a Deus". É este exatamente aquele sagrado incenso, isto é, as orações dos santos, que São João viu subir ao Senhor, oferecido pelas mãos dos anjos. Escreveu o mesmo Santo Apóstolo que as orações dos Apóstolos são como redomas de ouro, cheias de suave perfume e muito agradáveis a Deus.

Mas, para melhor compreendermos quanto valem junto de Deus as nossas orações, basta ler nas Sagradas Escrituras as inumeráveis promessas que Deus faz a quem reza, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. "Chama por mim, e eu te ouvirei" (Jr 33,3). "Invoca-me e eu te livrarei" (Sl 49,15). "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7). "Vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem" (Mt 7,11). "Todo aquele que pede, recebe; todo o que busca, acha" (Lc 11,10). "Qualquer coisa que pedirem ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19). "Tudo o que pedirdes orando, crede que haveis de receber e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu vos farei" (Jo 14,14). "Pedi tudo o que quiserdes e vos será concedido" (Jo 15,7). "Em verdade eu vos digo: se pedirdes ao meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Existem muitos outros textos semelhantes que deixamos de citar por brevidade.


2. Sem oração não há vitória

Deus quer salvar-nos. Entretanto, quer salvar-nos como vencedores. Estando, pois, nesta vida, achamo-nos em uma guerra contínua e para nos salvar temos de combater e vencer. "Sem ter vencido, ninguém poderá ser coroado", diz São João Crisóstomo. Somos muito fracos e os inimigos, numerosos e fortes. Como enfrentá-los e vencê-los? Tenhamos coragem e digamos com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Tudo poderemos com a oração, por meio da qual Deus nos dará o que não temos. Escreveu Teodoreto que a oração é todo-poderosa. Ela é uma, entretanto, pode obter todas as coisas: "A oração, sendo uma em si, pode tudo". E São Boaventura afirma que, pela oração, se obtém todos os bens e a libertação de todos os males. Dizia São Lourenço Justiniano que, pela oração, construímos uma torre fortíssima, onde estaremos livres e seguros de todas as insídias e violência dos inimigos. São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios, diz São Bernardo, e com razão, pois com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas. Assim animava-se Davi em seus desfalecimentos: "Invocarei o Senhor louvando-o e livre serei de meus inimigos" (Sl 17,4). Em resumo, diz São João Crisóstomo, a oração é uma grande armadura, uma defesa, um porto, um tesouro. A oração é uma valiosa arma para vencer os assaltos dos demônios; é uma defesa, que nos conserva em todos os perigos; é um porto seguro contra toda tempestade; é um tesouro, que nos provê de todos os bens.


3. Rezemos para alcançar forças contra os nossos inimigos! 

Deus sabe quão salutar é para nós a necessidade de orar. Por isso permite, como foi dito no capítulo primeiro, que sejamos assaltados pelos inimigos, para pedirmos o auxílio que nos oferece e promete. Mas quanto lhe é agradável quando o invocamos nos perigos, tanto lhe desagrada o ver-nos descuidados da oração.

Assim como o rei, diz São Boaventura, julgaria traidor o capitão, que sitiado em uma praça não lhe pedisse socorro, assim Deus considera traidor aquele que, vendo-se assaltado pelas tentações, a Ele não recorre pedindo auxílio. Pois deseja e espera que lhe peçamos para nos socorrer fartamente. Uma prova disso encontramos nas Sagradas Escrituras, nas censuras, que o profeta Isaías fez ao rei Acaz. O profeta convidou-o em nome de Deus a pedir um sinal, a fim de certificar-se do socorro que o Senhor desejava dar-lhe: "Pede algum sinal do Senhor para ti" (Is 7,11). O ímpio rei respondeu: "Não o pedirei nem tentarei a Deus".

Assim disse, porque confiava em suas forças para vencer o inimigo, sem auxílio divino. Mas o profeta repreendeu: "Ouvi, pois casa de Davi! Porventura não vos basta ser molestos aos homens, quereis também molestar Deus?" Dizendo com isto que se torna molesto e injurioso a Deus, quem deixa de lhe pedir graças que o Senhor oferece.


4. Convites à oração

"Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais carregados e vos aliviarei" (Mt 11,28). Pobres filhos meus, diz o Salvador, que vos achais perseguidos por vossos inimigos e acabrunhados com o peso de vossos pecados, não vos abandone a coragem, recorrei a mim pela oração e eu vos darei forças para resistir e refazer-vos de todas as desgraças. Em outro lugar, diz, por boca de Isaías: "Vinde e argúi-me, diz o Senhor; se os vossos pecados forem como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18). Homens, diz ele, recorrei a mim e, ainda quando tiverdes a consciência assaz manchada, não deixeis de vir. Permito até que me acuseis, por assim dizer, se recorrendo a mim, não vos fizer, por minha graça, brancos como a neve.

Que é oração? Ouçamos São João Crisóstomo: "A oração é âncora para os flutuantes, tesouro para os pobres, remédio para os doentes e preservativo para os sãos". A oração é uma âncora segura para quem está em perigo de naufragar, é um tesouro imenso de riquezas para quem é pobre, é um remédio eficacíssimo para os enfermos e um fortificante certo para nossa saúde.

Que faz a oração? Ouçamos São Lourenço Justiniano: "A oração aplaca a ira de Deus, porquanto Deus perdoa logo a quem com humildade lhe pede, concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; em resumo, tranforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos".

Quem necessita de luz, peça a Deus e lhe será dada. Logo que socorri a Deus, diz Salomão, Ele deu-me a sabedoria: "Invoquei e veio sobre mim o espírito da sabedoria" (Sb 7,7). Quem precisar de fortaleza, invoque a Deus e ser-lhe-á dada: logo que abri a boca para pedir, disse Davi, recebi o auxílio do Senhor: "Abri a boca e atraí alento" (Sl 118,134). E se os santos mártires resistiram tão corajosa e constantemente aos tiranos, não foi a oração que lhes deu força e vigor para suportar os tormentos e a morte?


5. Confiai e rezai! Deus virá em vosso auxílio

Quem se vale da oração, desta grande arma, diz São Pedro Crisólogo, ignora a morte, deixa a terra, entra no céu e vive com Deus. Não cai em pecado, perde o apego das coisas da terra, entra no céu e já nesta vida começa a gozar da presença de Deus. 

De que serve, pois, alguém angustiar-se e dizer: Estarei inscrito no livro da vida? Quem sabe se Deus me dará a graça eficaz e a perseverança? "Não vos preocupeis, mas com muitas orações e rogos, com ação de graças, sejam conhecidas as vossas súplicas diante de Deus!" (Fl 4,6). De que serve, diz o Apóstolo, pertubar-vos com estes pensamentos angustiantes e com estes temores? Afugentai, portanto, todas essas ansiedades que só servem para diminuir a vossa confiança e tornar-vos mais tíbios e preguiçosos no caminho da salvação.

Rezai sempre; fazei que vossas orações sejam ouvidas por Deus e agradecei-lhe sempre as promessas que vos fez de conceder-vos sempre os dons que pedis, a graça eficaz, a perseverança, a salvação, e tudo o que quiserdes. O Senhor pôr-nos em batalha contra poderosos inimigos, mas é fiel às suas promessas. Não consente que sejamos atacados além das nossas forças. "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças" (1Cor 10,13). É fiel, porque socorre imediatamente a quem o invoca.

Escreve o douto e eminentíssimo Cardeal Gotti que o Senhor não é obrigado a dar-nos sempre uma graça igual à tentação, mas é obrigado, quando somos tentados e recorremos a Ele, a dar-nos por meio da graça (que para todos tem preparada e oferece) a força suficiente, com que oportunamente possamos resistir às tentações: "Em virtude de graça que põe à nossa disposição e nos oferece, Deus é obrigado a conceder-nos, quando somos tentados e a ele recorremos, as forças necessárias para podermos resistir e para que resistamos de fato; pois tudo podemos naquele que nos conforta pela graça, se humildemente pedirmos". Tudo podemos com o auxílio divino, que será concedido sempre a quem pede; por isso não temos desculpas, quando somos vencidos pela tentação. Fomos vencidos, porque não rezamos. Pela oração, podemos desarmar todas as ciladas do demônio. Pela oração, diz Santo Agostinho, afugentamos todos os males.


6. A oração é uma embaixadora

Diz São Bernardino de Sena que a oração é uma fiel embaixadora, bem conhecida do Rei dos céus e acostumada a entrar em seu gabinete e a mover, com sua importunação, o piedoso ânimo do Rei, a fim de que conceda todo o socorro a nós miseráveis, que gememos no meio de tantos combates e misérias, neste vale de lágrimas. "A oração é a mais fiel embaixadora, conhecida do Rei, que está acostumada a entrar em seu gabinete e a comovê-lo com sua importunação, a fim de impetrar auxílio para nós miseráveis".

Assegura-nos também Isaías que, assim que o Senhor percebe nossas orações, move-se logo à compaixão e não deixa que choremos e suspiremos muito tempo: no mesmo momento nos atende e concede o que lhe pedimos. "Tu, de nenhuma forma, chorarás mais; ele te concederá a graça por causa dos seus gemidos e logo que ouvir a tua voz, te atenderá" (Is 30,19). Em outro lugar, fala o Senhor por boca de Jeremias e, queixando-se de nós, diz: "Porventura tenho sido eu para Israel um deserto ou terra tardia? Por que diz: Nós nos retiramos, não voltaremos mais para ti? (Is 2,31) Por que, pergunta o Senhor, dizeis que não quereis mais recorrer a mim? Porventura será a minha misericórdia uma terra estéril para vós, que não vos possa dar fruto de graça? Ou terra tardia, que produza fruto muito tarde? Com isso, nosso amoroso Senhor queria dar-nos a entender que jamais deixa de atender-nos; e, ao mesmo tempo, quis repreender os que deixam de rezar, por julgar não serem atendidos.


7. Deus nos atende a qualquer hora

Se Deus nos admitisse a apresentar-lhes as nossas súplicas só uma vez por mês, seria já um grande favor. Os reis da terra dão audiência poucas vezes ao ano, mas Deus dá audiência continuamente. 

Escreve São João Crisóstomo que Deus está continuamente pronto para ouvir as nossas orações, e nunca acontece que não atenda a quem lhe pede como convém: "Deus está sempre pronto a ouvir a voz de seus servos e nunca acontecerá  que não atenda, sendo invocado como convém". Diz, além disso, que quando rezamos, antes de terminarmos a exposição de nossas súplicas, Deus já nos atende. Sempre atende o que se pede, ainda enquanto estamos pedindo. Disso temos promessa divina: "Estando eles falando ainda, eu os ouvirei" (Is 65,24). O Senhor, diz Davi, está perto de quem o invoca, para escutá-lo, atendê-lo e salvá-lo: "Perto está o Senhor de todos os que o invocam; sim, de todos os que com razão o invocam; satisfaz a vontade dos que o temem; ouve os gemidos e salva-os" (Sl 144,19).Era disso que se gloriava Moisés, dizendo: "Não há nenhuma outra nação tão grande que tenha deuses tão próximos de si, como nosso Deus está presente em todas as nossas orações" (Dt 4,7). Os deuses dos gentios eram surdos às vozes dos que os invocavam, porque eram míseras criaturas, que nada podiam; mas nosso Deus, que tudo pode, não é surdo às nossas súplicas; pelo contrário, está sempre perto de quem o invoca e concede todas as graças pedidas: "Em qualquer dia em que eu te invocar, logo conhecerei que és o meu Deus" (Sl 55,11). Senhor, dizia o salmista, nisto reconheci que sois vós meu Deus, todo bondade e misericórdia, porquanto sempre que a vós recorro, me socorreis imediatamente. 


8. Somos pobres, mas Deus é rico

Somos pobres, mas, se pedirmos, já não somos mais pobres. Se nós somos pobres, Deus é rico. E Deus é imensamente liberal, diz o Apóstolo, para com aquele que o chama em auxílio: "Deus é rico para todos os que o invocam" (Rm 10,12). E uma vez que, exorta Santo Agostinho, temos de nos entender com um Senhor de infinita riqueza e poder: "Peçamos-lhe não coisas pequenas e vis, mas sim coisas grandes". Se alguém pedisse ao rei uma pequena quantia, com isso não lisonjearia de forma alguma a sua bondade. Pelo contrário, honramos a Deus, honramos a sua misericórdia e a sua liberalidade, quando, à vista de nossa miséria e indignidade, lhe pedimos grandes graças, confiados em sua bondade e fidelidade, pois Ele prometeu: "Tudo o que quiserdes, pedi e vos será dado" (Jo 15,7). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que o Senhor sente-se honrado com isso e fica tão consolado com as nossas orações que até, de certo modo, nos agradece. Porque assim lhe abrimos o caminho de seus benefícios, pois o seu desejo é fazer bem a todos. E podemos estar certos de que, quando pedimos alguma graça, recebemos sempre mais do que pedimos: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a todos dará fartamente sem palavras duras" (Tg 1,5). Assim diz São Tiago para denotar que Deus não é, como os homens, avaro de seus bens. Os homens, apesar de ricos, piedosos e liberais, quando dão suas esmolas, são sempre estreitos e de mãos curtas. E a maior parte das vezes dão menos do que se lhes pede, porquanto, por maior que seja, sua riqueza é limitada; por isso, quanto mais dão, tanto mais lhes faltará. Deus, porém, quando é invocado, dá os seus bens com toda abundância, largamente, sempre mais do que se lhes pede, porquanto a sua riqueza é infinita; quanto mais dá, mais tem para dar: "Porquanto, Senhor, sois bom e manso e de muita misericórdia para com todos os que Vos invocam" (Sl 85,5). Vós, meu Deus, dizia Davi, sois liberal e sumamente misericordioso com quem Vos invoca. São tão ricas as graças que dispensais, que excedem as pedidas. 


9. O grande papel das súplicas durante a oração

Todo o nosso cuidado deve consistir em rezar com confiança, certos de que, orando, estarão para nós abertos todos os tesouros do céu. "Que este seja nosso cuidado, diz São João Crisóstomo, e, então, abrir-se-á para nós o céu". E São Boaventura diz que todas as vezes que o homem recorre devotamente ao Senhor pela oração, ganha bens que valem mais do que todo o mundo. "Em um dia ganha o homem, pela oração, mais do que vale o mundo".

Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas pouco se ocupam com as súplicas. Não resta dúvidas de que a leitura espiritual e a meditação das verdades eternas sejam coisas de muita utilidade, mas muito mais úteis, diz Santo Agostinho, são as súplicas. Nas leituras e meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações. mas na oração obtemos as graças de cumpri-las. "Melhor é rezar do que ler: na leitura ficamos conhecendo o que devemos fazer, mas na oração recebemos o que pedimos". De que serve saber o que devemos fazer e depois não o fazer? De que serve senão para nos tornarmos mais culpados perante Deus? Leiamos e meditemos quanto quisermos, nunca, entretanto, cumpriremos o nosso dever, se não pedirmos a Deus os auxílios necessários.


10. A necessidade da súplica na oração

Por isso, como diz Santo Isidoro, em tempo algum o demônio sugere tantos pensamentos vãos e terrenos à alma do que quando esta procura rezar e pedir graça a Deus: "Quando o demônio nos vê rezar, procura com todas as forças distrair-nos com pensamento fúteis". E por quê? Porque é justamente quando rezarmos que mais recebemos os tesouros dos bens celestes.

O maior fruto da oração mental é fazer-nos pedir a Deus as graças necessárias à perseverança e à salvação eterna. Este é o principal motivo por que a oração mental é moralmente necessária para se conservar a graça de Deus; pois, se a alma não se recolhe no tempo da meditação para pedir os auxílios necessários à salvação e à perseverança, não o fará em outro tempo, porquanto fora da meditação não pensa em pedi-los, nem mesmo se pensará na necessidade de há de pedi-los. Pelo contrário, quem faz dia por dia a sua meditação, conhecerá logo as necessidades de sua alma, os perigos em que se acha e a necessidade que tem de pedir. Assim rezará e obterá as graças necessárias para perseverar e alcançar a salvação. Falando de si mesmo, dizia o Padre Segneri, S. J., que, a princípio, se ocupava mais na oração de excitar afetos do que de pedir; mas, conhecendo depois a grande necessidade e a imensa utilidade dos pedidos, daí por diante nas muitas meditações que fazia se aplicava a fazer súplicas.


11. Peçamos, peçamos muito!

"Clamarei como o filhote da andorinha" (Is 38,14), dizia o piedoso rei Ezequias. Os filhotes da andorinha não fazem outra coisa do que chilrear procurando com isso o auxílio e alimento de sua mãe. Do mesmo modo devemos nós proceder. Se quisermos conservar a vida da graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, para evitarmos a morte do pecado e para avançarmos em seu santo amor. 

Refere o Padre Rodrigues, S. J., que os antigos padres do deserto, nossos primeiros mestres espirituais, fizeram entre si uma consulta para ver qual era o exercício mais necessário e útil à salvação eterna. Resolveram que era repetir a miúdo a breve oração de Davi: "Senhor, vinde em meu socorro!". O mesmo, escreve Cassiano, deve fazer quem quiser salvar-se, dizendo sempre: Deus meu, ajudai-me, meu Deus, ajudai-me! Isto devemos fazer, desde a manhã, quando despertamos, e depois continuar a fazê-lo em todas as nossas necessidades e durante as nossas ocupações, quer espirituais quer materiais, mormente, quando formos assaltados por qualquer tentação ou paixão.

Diz São Boaventura que, muitas vezes, a graça nos vem mais depressa por uma breve oração do que por muitas obras: "Às vezes, obtém-se mais depressa com uma breve oração o que dificilmente se alcançaria com boas obras". Acrescenta Santo Ambrósio: "Quem ora, enquanto ora, recebe porquanto rezar e receber é a mesma coisa: Quem reza, enquanto reza já recebe o que pede; pois pedir é receber".

São João Crisóstomo escreve que o homem mais poderoso é o que reza: Nada há mais poderoso do que um homem que reza", porque se faz participante do poder de Deus. Para chegarmos à perfeição, dizia São Bernardo, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação, vemos o que nos falta; pela súplica, recebemos o que nos é necessário: "Subamos pela meditação e pela petição! Aquela mostra o que nos falta, esta consegue que nada nos falte". 


12. Rezemos orações curtas, mas fervorosas! Se não nos salvarmos, a culpa é nossa

Em resumo, salvar-se sem a oração é dificílimo e até mesmo impossível, como vimos, segundo a ordem comum da providência. Entretanto, com a oração, a salvação é certa e fácil. Para a salvação não é necessário que alguém vá para a região dos infiéis, a fim de oferecer a sua vida; não é necessário retirar-se para um deserto e alimentar-se unicamente de ervas, mas é necessário rezar e dizer: Meu Deus, ajudai-me! Senhor, assisti-me, tende piedade de mim! Poderá haver coisa mais fácil do que isto? E este pouco será suficiente para nos salvar, se formos sempre cuidadosos em fazê-lo. 

De modo especial exorta-nos São Louremço Justiniano: que nos esforcemos por rezar no começo de todas as ações. Afirma Cassiano que os antigos padres do deserto exortavam insistemente a recorrer a Deus com breves, mas frequentes orações: "Ninguém tenha em pouca conta a oração - dizia São Bernardo -, porquanto Deus não a tem em pouca conta, pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil". Persuadamo-nos de que se não rezarmos, não temos desculpas, porquanto a graça de rezar é dada a todos e depende de nós rezarmos sempre que quisermos, como dizia Davi, falando de si mesmo: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida, dizendo-lhe: vós sois o meu amparo" (Sl 41, 9-10). Tratarei desse assunto mais detalhadamente na parte seguinte, demonstrando claramente que Deus dá a todos a graça de rezar, para que, rezando, possam obter todos os auxílios e até bem abundantes, para observar os seus mandamentos e perseverar até a morte. Agora só direi que, se não nos salvarmos, a culpa é nossa, porquanto não rezarmos.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.