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sábado, 17 de maio de 2025

Nossa Senhora da Guarda







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Deus abençoe por Maria!


Nossa Senhora da Guarda 

Marselha - França

Um jovem sacerdote de Marselha construiu em 1214 no morro da Guarda, com o consentimento do Abade de S. Vitor, a cuja Abadia pertencia o morro, a primeira capela (dedicada a Nossa Senhora), que ficou sempre incorporada à Abadia. 

O culto desenvolveu-se rapidamente nesta capela, o que se prova pelas muitas instituições e irmandades de Nossa Senhora da Guarda, obtendo assim Nossa Senhora em novo título, tirado do nome do morro em que foi construída a capela. 

Estando a primitiva capela em ruína, começaram em 1477 a construção da segunda, em existiu até o século XIX. A imagem mais antiga, que havia na primeira capela, tinha o título de Nossa Senhora Morena (Notre Dame la Brune), por ser de cor escura. 

Na revolução de 1794 desapareceu, assim como outra que era venerada ao mesmo tempo, e também milagrosa, denominada "A Virgem do Ostensório", porque Nossa Senhora, em vez do Menino Jesus, tinha na mão um ostensório. 

Depois da revolução, foi a antiga capela reaberta ao culto em 1807, tendo sido a nova imagem levada em solene procissão, do convento de Picpus para a montanha santa, indo descalços todos os fiéis que acompanharam a procissão. 

Êste lugar de peregrinações foi em 1837 entregue aos Padres Oblatos, que construíram a grande Basílica em estilo romano-bizantino, a qual foi consagrada em 1864. 

A colossal estátua de Nossa Senhora colocada na torre da Basílica saúda, como se fora o símbolo da paz e da verdade, os cristãos que combatem o bom combate por terras e mares afora. 




Nossa Senhora da Guarda conserva até os dias de hoje a sua primitiva glória e celebridade, pois de seiscentos a setecentos mil peregrinos de todos os países da Europa a visitam anualmente, porém é visitada muito especialmente pelos marselheses, que consideram a Guarda o seu Santuário, e mais ainda o veneram os navegantes, que hoje, como outrora, lhe oferecem miniaturas de navios, desde o mais antigo barco a vela até o mais moderno transatlântico, para que sejam protegidos em sua perigosa profissão. 

Até o século XVIII costumavam os navios que regressavam à pátria, assim como todos os que estavam no pôrto, saudar Nossa Senhora com um tiro de canhão, enquanto os marinheiros se ajoelhavam no convés e cantavam a "Salve Rainha". 

Ainda hoje, muitos marinheiros, quando vão empreender uma longa viagem dirigem-se antes ao Santuário de Nossa Senhora da Guarda, para se despedirem e pedirem a sua proteção.

Inúmeros ex-votos, placas de mármore com inscrições, corações de pratas e velas sem número, além dos naviozinhos acima citados, atestam a confiança que depositavam e depositam ainda hoje na imagem milagrosa de Nossa Senhora da Guarda. 

O Santuário eleva-se no cimo de uma rocha, no morro da Guarda, de onde se descortina o belo e rico panorama da baía de Marselha.

(Versão resumida do livro "Wallfartsorte Europas".)

Edésia Aducci - Maria e seus gloriosos títulos.

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Fonte das imagens

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Meios de preparar-se para a morte




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Deus abençoe por Maria!


 Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis.

Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais (Ecl 7,40) 


PONTO I

Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça. 

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende a ter boa ou má morte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte: "Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais." É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as preocupações necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?... Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência. "Quando cair sobre eles a destruição como uma tempestade... então invocar-me-ão e não os escutarei... Comerão os frutos do seu mau proceder" (Pr 1,27. 28. 31). 

A hora da morte é tempo de confusão é de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se veem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. "Aquilo que o homem semeou, isto também colherá" (Gl 6,8). Não bastará receber os Sacramentos, mas será preciso morrer detestando o pecado e amando a Deus sobre todas as coisas.

Como, porém, poderá aborrecer os prazeres ilícitos aquele que até então os amou?... Como amará a Deus sobre todas as coisas aquele que até esse instante tiver amado mais as criaturas do que a Deus? O Senhor chamou loucas - e na verdade o eram - as virgens que queriam preparar as lâmpadas quando já chegava o esposo. Todos temem a morte repentina, que impede regular as contas da alma. Todos confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque souberam preparar-se para a morte antes que essa chegasse...  E nós, que fazemos nós? Queremos correr o perigo de nos prepararmos para bem morrer, quando a morte nos estiver já próxima? Façamos agora o que nesse transe quiséramos ter feito... Oh! quanto é terrível então recordar o tempo perdido, e sobretudo o tempo mal empregado!... O tempo que Deus nos concedeu para merecer, mas que passou para nunca voltar.

Que angústia nos dará o pensamento de que já não é possível fazer penitência, frequentar os sacramentos, ouvir a palavra de Deus, visitar Jesus Sacramentado, fazer oração! O que está feito, está feito (Lc 16,21). 

Seria necessário ter então mais presença de espírito, mais tranquilidade e serenidade para confessar-se bem, para dissipar graves escrúpulos e tranquilizar a consciência... mas já não é tempo! (Ap 10,6). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! se tivesse morrido naquela ocasião que sabeis, onde estaria eu agora? Agradeço-vos o terdes esperado por mim e por todo esse tempo que deveria ter passado no inferno, desde o momento em que vos ofendi. Dai-me luz e conhecimento do grande mal que fiz, perdendo voluntariamente vossa graça, que merecestes para mim com o sacrifício da cruz... Perdoai-me, meu Jesus, que me arrependo de todo o coração e sobre todos os males de ter menosprezado vossa bondade infinita. Espero que já me haveis perdoado... Ajudai-me, meu Salvador, para que não volte a perder-vos jamais... Ah! Senhor! Se tornasse a vos ofender depois de ter recebido de vós tantas luzes e tantas graças, não mereceria um inferno criado de propósito para mim?... Não o permitais pelos merecimentos do sangue que por mim derramastes! Dai-me a santa perseverança; dai-me vosso amor... Amo-vos, meu Sumo Bem; jamais quero deixar de vos amar. Tende, meu Deus, misericórdia de mim, pelo amor de Jesus Cristo. Recomendai-me a Deus, ó Virgem Maria! Que vossos rogos nunca são desatendidos por esse Senhor que tanto vos ama. 


PONTO II

Já é certo, meu irmão, que tens de morrer, prosta-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze - se ainda a não fizeste - uma confissão geral de toda a tua vida... Oh! Quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão. 

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece dicífil, impossível te parecerá no momento da morte.

O que mais importa é que resolvas pôr em excecução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez na semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar-se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. 

Tais são os meios com que podemos alcançar uma boa morte e a salvação eterna. 

Exercer essas práticas será sinal evidente de nossa predestinação. 

Pelo que diz respeito ao passado, confiai no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos dá estas luzes porque quer salvar-nos, e esperai na intercessão de Maria, que vos obterá as graças necessárias. Com a vida assim regulada, e a esperança posta em Jesus e Maria, quanto nos ajuda Deus, e que força não adquire a alma! Coragem, pois, meu leitor, entrega-te todo a Deus, que te chama, e começa a gozar dessa paz que até agora, por culpa tua, não experimentaste. Pode, porventura, uma alma desfrutar paz maior que a de poder dizer todas as noites, ao descansar: se viesse esta noite a morte, morreria, segundo espero, na graça de Deus!? Que consolação se, ao ouvir o fragor do trovão, ao sentir a terra tremer, pudermos esperar resignadamente a morte, se Deus assim o tiver determinado! 


AFETOS E SÚPLICAS

Quanto vos agradeço, Senhor, as luzes que me dais!... Não obstante ter eu tantas vezes vos abandonado e me afastado de vós, não me abandonastes. Se o tivésseis feito, cego estaria eu, como quis sê-lo na vida passada; encontrar-me-ia obstinado em minhas culpas, e não teria vontade nem de renunciar a elas nem de vos amar. Sinto agora dor grandíssima de vos ter ofendido, vivo desejo de estar na vossa graça, e profundo aborrecimento daqueles malditos prazeres que me fizeram perder vossa amizade. Todos estes afetos são graças que de vós procedem e que me induzem a esperar que queirais me perdoar e me salvar... É, pois, a vós, Senhor, que, apesar de meus muitos pecados, não me abandonais e desejais minha salvação, que me entrego inteiramente; aflige-me de todo o coração o ter-vos ofendido, e proponho querer antes perder mil vezes a vida do que vossa graça... Amo-vos, Soberano Bem; amo-vos, meu Jesus, que por mim morrestes, espero por vosso preciosíssimo sangue que jamais tornarei a afastar-me de vós. 

Não, meu Jesus, não quero perder-vos outra vez, mas sim amar-vos eternamente. Conservai sempre e aumentai meu amor para convosco, o que vos suplico pelos vossos próprios merecimentos...

Maria, minha esperança, rogai por mim a Jesus!


PONTO III

É necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte. "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor" (Ap 14,13). Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranquilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor. 

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida. 

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: "Não suspiro, minhas irmãs, por temor à morte, pois há vinte e cinco anos que a espero; suspiro porque vejo tantos pecadores iludidos que esperam para reconciliar-se com Deus até a hora da morte, quando apenas poderão pronunciar o nome de Jesus".

Examina, pois, meu irmão, se teu coração tem apego a qualquer coisa da terra, a determinadas pessoas, honras, riquezas, casa, sociedade ou diversões, e considera que não hás de viver aqui eternamente. 

Virá o dia, talvez próximo, em que deverás deixar tudo. Por que, neste caso, manter o afeto nessas coisas, correndo risco de ter morte inquieta?...

Oferece-te, desde já, por completo a Deus, que pode, quando lhe aprouver, privar-te desses bens. Quem quiser morrer resignado, há de ter resignação desde agora em todos os acidentes contrários que lhe possam suceder; e há de afastar de si os afetos às coisas da terra. - Afigura-te que vais morrer - diz São Jerônimo - e facilmente conseguirás desprezar tudo. 

Se ainda não escolheste estado de vida, toma aquele que na hora da morte quererias ter escolhido e que possa proporcionar-te um trânsito mais consolador à eternidade. Se já tens um estado, faze tudo que ao morrer quiseras ter feito nesse estado. Procede como se cada dia fosse o último da vida, cada ação a derradeira que praticas; a última oração, a última confissão, a última comunhão. Imagina que estás moribundo, estendido sobre o leito, e que ouves aquelas palavras imperiosas: Sai deste mundo. Quando estes pensamentos nos podem ajudar a caminhar bem e a menosprezar as coisas mundanas! "Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar procedendo assim" (Mt 24,46). Aquele que espera a toda hora a morte, ainda que esta venha subitamente, não pode deixar de morrer bem.


AFETOS E SÚPLICAS

Todo cristão, quando se lhe anuncia a hora da morte, deve estar preparado para dizer o seguinte: Senhor, restam-me poucas horas de vida; quero empregá-as em amar-vos quanto posso, para entrar na eternidade amando-vos. Pouco me resta para vos oferecer, mas ofereço-vos estas dores e o sacrifício que vos ofereceu por mim Jesus Cristo na cruz. Poucas e breves são, Senhor, as penas que padeço, em comparação com as que hei merecido; mas, tais como são, abraço-as em sinal do amor que vos tenho. 

Resigno-me a todos os castigos que me queirais inflingir nesta e da outra vida. Contanto que possa amar-vos eternamente, castigai-me quanto vos aprouver. Peço não me priveis de vosso amor. Reconheço que não mereço amar-vos por haver tantas vezes desprezado o vosso amor, mas vós não podeis repelir uma alma arrependida. Pesa-me, ó Suma Bondade, de vos ter ofendido. Amo-vos com todas as veras do meu coração, e em vós deposito toda a minha confiança, ó Redentor meu! Nas vossas mãos chagadas encomendo a minha alma... Ó meu Jesus, para salvar-me derramastes todo o vosso sangue. Não permitais que me aparte de vós (Sl 30,6). Amo-vos, Eterno Deus, e espero amar-vos durante toda a eternidade... Virgem e Mãe minha, ajudai-me na minha última hora! Entrego-vos minha alma! Dizei a vosso Filho que tenha piedade de mim! A vós me recomendo: livrai-me da condenação eterna! 

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Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte, pg 101-111. 

Imagem: Jean Louis Ernest Meissonier 





segunda-feira, 14 de abril de 2025

Nossa Senhora dos Anjos

 

Clichy-sous-Bois (França)

Muitos parisienses conhecem a Capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, e sabem que este título se originou de uma bonita lenda: 
Em 1212 três negociantes naturais de Anjou, atravessando imprudentemente a floresta de Bondy, foram atacados por bandidos, despojados, atados a árvores e abandonados na espessura da mata. Depois de um dia e uma noite passados nessa situação, e depois de terem feito uma ardente súplica e em voto à Santíssima Virgem Maria, foram milagrosamente salvos por um Anjo. E, no lugar em que foram presos, brotou uma fonte, que devia perpetuar a lembrança de proteção de Maria. 

Os três negociantes construíram pouco depois um oratório dedicado a Nossa Senhora dos Louvores, título logo mudado para- Nossa Senhora dos Anjos , e para lá foram em peregrinação com as respectivas famílias. Os doentes, ainda nos dias de hoje, bebem na água na fonte milagrosa. 

Em 1655, M. de Nesmod, Presidente do Parlamento de Paris, colocou a primeira pedra da capela, que foi solenemente consagrada a 8 de setembro de 1663.  

A tormenta revolucionária destruiu esta capela, que foi reconstruída e melhorada. 

A imagem de Nossa Senhora dos Anjos data do século XIII. De 8 de 17 de setembro fazem uma novena em preparação para a festa principal. 

(Versão resumida do livro "Mille Pèlerinages de Notre-Dame", de I. Couturier de Chefdubais.)

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Edésia Aducci - Maria e seus gloriosos títulos, 2ª ed. 1960. Ed. Lar Católico


terça-feira, 4 de março de 2025

Da anunciação de Maria - II

 



Ponto II - De como Deus não poderia exaltá-la mais que exaltou

Para compreender a altura a que foi alçada Maria, necessitar-se-ia de compreender quão sublime é a altura e a grandeza de Deus. Bastará somente, pois, dizer que Deus fez dessa Virgem a sua mãe para entender que Deus não pôde exaltá-la mais do que a exaltou. Bem afirmou S. Arnoldo de Chartres que Deus, fazendo-se filho da Virgem, estabeleceu-a acima de todos os santos e anjos. De modo que, fora Deus, ela é sem comparação mais alta que todos os espíritos celestes, como fala S. Efrém e o confirma S. André de Creta. S. Anselmo, diz: "Senhora, não tendes quem vos seja igual, porque todo o resto está ou acima ou abaixo de vós; Deus apenas é superior a vós, e todos os outros vos são inferiores. É tanta, em suma, retoma S. Bernardino, a altura dessa Virgem que só Deus a pode e sabe compreender. 

E aumenta o espanto a qualquer um - adverte S. Tomás de Vilanova - que os sagrados Evangelistas, que se estenderam tanto em registrar os louvores de um Batista, de uma Madalena, tenham sido tão parcos em descrever as qualidades de Maria. "Contentam-se", responde o santo, "em dizer que da Virgem nasceu Jesus", "Que mais procuras", segue falando o mesmo, "que digam os Evangelistas das grandezas dessa Virgem? Baste para ti que declarem ser ela a Mãe de Deus. Se escreveram, portanto, o ápice, a totalidade das suas qualidades, não foi necessário que os saíssem descrevendo por partes". "E como não?", retoma S. Anselmo: "dizer de Maria isto somente, que ela é Mãe de um Deus, supera toda altura dizível ou pensável abaixo de Deus". E Pedro de Celles à mesma consideração ajunta: "Qualquer nome que lhes dês, seja Rainha do Céu, seja Senhora dos Anjos, seja qualquer outro título de honra, não alcançarás jamais honrá-la tanto quanto como chamá-la apenas Mãe de Deus". A razão é evidente, pois, como ensina o Angélico, quanto mais uma coisa se aproxima do seu princípio tanto mais recebe a sua perfeição; e por isso, sendo Maria a criatura mais próxima a Deus, ela participou mais do que todas as outras da graça, da perfeição e da grandeza. Daqui tira Suarez a razão por que a dignidade de Mãe de Deus é de ordem superior a toda outra dignidade criada, uma vez que aquela pertence de certo modo à ordem da união com uma pessoa divina, com a qual se liga necessariamente. Donde afirma S. Dionísio, o cartuxo, que depois da união hipostática não há outra mais próxima do que a Mãe de Deus. É essa, ensina S. Tomás, a mais alta união que pode uma pura criatura ter com Deus. E Santo Alberto Magno afirma que ser Mãe de Deus é a dignidade imediata à dignidade de ser Deus. Donde diz que Maria não poderia ser mais unida a Deus do que foi a não ser com tornar-se ela própria Deus. Afirma S. Bernardino que a SS. Virgem para ser Mãe de Deus precisou ser alçada a uma certa igualdade com as pessoas divinas por uma quase infinidade de graças. E sendo que os filhos moralmente falando, são considerados iguais aos pais, de modo que entre eles são comuns os bens, comuns as honras, daí diz S. Pedro Damião que se Deus habita de diversos modos nas criaturas, em Maria habitou pelo modo singular da identidade, fazendo-se igual a ela. Daí exclama com aquele célebre dito: "Por isto cale tamanha dignidade. Mora Deus na Virgem, com a qual possui uma só natureza".

Por isso afirma S. Tomás que Maria, tendo sido feita Mãe de Deus, por razão dessa união tão estreita com um bem infinito, recebeu uma certa dignidade infinita, que o Pe. Suarez chama de infinita em seu gênero. Pois a dignidade de divina mãe é a maior dignidade que pode conferir-se a uma pura criatura, ensinando o Angélico que, tal como a humanidade de Jesus Cristo, embora pudesse ter recebido de Deus uma graça habitual maior, - pois como a graça habitual é um dom criado, devemos confessar que tenha uma essência finita e é em qualquer criatura limitada à medida da sua capacidade, o que, todavia, não impede que a divina potestade faça outra criatura de maior capacidade - não obstante, quanto à união com uma pessoa divina, recebeu a maior das virtudes. Assim, por outro lado, a Santíssima Virgem não pôde receber uma dignidade maior do que ser Mãe de Deus. O mesmo escreveu S. Tomás de Vilanova: "Certamente há condição de mãe a que Deus exaltou Maria foi a mais alta possível, de modo que não a poderia alçar mais. E o confirma Santo Alberto Magno: "O Senhor deu à Santíssima Virgem o mais alto de que era capaz uma pura criatura, a saber, a maternidade de Deus". 

Daí que S. Boaventura tenha escrito aquela célebre frase, que Deus pode fazer um mundo maior, um céu mais amplo, mas que não há modo de fazer uma criatura mais excelsa senão tornando-a sua mãe. Mas a própria divina Mãe exprimiu melhor do que todos a altura a que Deus a sublimara, dizendo: porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso (Lc 1,49). E por que a SS. Virgem não declarou quais eram essas grandes coisas concedidas por Deus? Responde S. Tomás de Vilanova que Maria não as desdobrou porque eram tão grandes que não era possível desdobrá-las. 

Donde teve razão S. Bernardo em dizer que é por essa Virgem, que havia de ser a sua mãe, que Deus criou o mundo inteiro; e S. Boaventura, em dizer que o mundo persevera graças a Maria, aderindo nisso às palavras dos Provérbios que a Igreja aplica a Maria: junto a ele estava eu como artífice (Pr 8,30). Acrescentou S. Bernardo que Deus por amor de Maria não destruiu o homem depois do pecado de Adão. Daí que é com razão que a S. Igreja canta, a respeito de Maria. Escolheu a melhor parte (In off. Ass. B.M.), visto que essa virgem Mãe não apenas escolheu as melhores coisas, mas dentre as melhores escolheu a melhor parte, dotanto-a o Senhor em sumo grau - como declara Santo Alberto Magno - de todas as graças e dons gerais e particulares conferidos a todas as outras criaturas; tudo em consequência da dignidade que lhes foi concedida de divina mãe. 

De modo que Maria foi menina, mas de tal condição teve apenas a inocência, mas não o defeito da incapacidade; pois desde o começo da sua vida teve ela sempre o uso perfeito da razão. Foi virgem, mas sem a ignomínia de estéril. Foi mãe, mas sem perder a virgindade. Foi bela, belíssima, melhor dizendo, como declara Ricardo de S. Vitor com S. Jorge da Nicomédia e S. Dionísio Areopagita, o qual - segundo supõem muitos - se regalou uma vez de ver a sua beleza, e disse se a fé não o tivesse ensinado que aquela era uma criatura, a teria adorado por Deus; e o próprio Senhor revelou a S. Brígida que a beleza de sua mãe superou a beleza de todos os homens e anjos quando se fez ouvir à santa a falar com Maria. Foi belíssima, retomo eu, mas sem impuros, e o que é mais, incutia pensamentos de pureza, como declara "mirra que impede a podridão", como a ela se refere a S. Igreja. Na vida ativa operava, mas sem que o operar a distraísse da união com Deus. Na contemplativa recolhia-se em Deus, mas sem descuidar as coisas temporais e a caridade devida ao próximo. Tocou-lhe a morte, mas sem as suas agonias e sem a corrupção do corpo. 

Logo concluamos. Essa divina Mãe é infinitamente inferior a Deus, mas é imensamente superior a todas as criaturas. E se é impossível encontrar um filho mais nobre que Jesus, é impossível também encontrar uma mãe mais nobre que Maria. Sirva isso aos devotos dessa Rainha de motivo não apenas para alegrar-se por sua grandezas, mas também para crescer em confiança no seu poderosíssimo patrocínio, pois, sendo Mãe de Deus, diz o Pe. Suarez que ela tem um certo direito sobre os seus dons para impetrá-los àqueles para quem ela roga. Por outro lado diz S. Germano que Deus não pode não atender as preces dessa Mãe, uma vez que não pode não reconhecê-la por sua verdadeira e imaculada mãe. De modo que a vós, ó Mãe de Deus e mãe nossa, não falta poder para socorrer-nos; não falta nem mesmo vontade. Pois vós já sabeis, direi com o vosso abade de Celles, que Deus não vos criou só para si, mas vos deu aos anjos para os restaurar, aos homens para os reparar, aos demônios para os subjulgar, uma vez que por meio de vós nós recuperamos a divina graça, e por vós o inimigo sai vencido e abatido. 

E se desejamos comprazer à divina Mãe, saudemo-la muitas vezes com a Ave Maria. Apareceu um dia Maria a S. Matilde e lhe disse que não se podia honrá-la melhor do que com essa saudação. E dali alcançaremos ainda por cima singulares graças dessa mãe de misericórdia, como se verá no seguinte exemplo. 

EXEMPLO

É célebre o incidente que relata o Pe. Paulo Segneri no seu Cristão Instruído (P. 3, Rag. 34). Foi confessar-se em Roma com o Pe. Nicolau Zucchi um jovem carregado de pecados desonestos e maus hábitos. O confessor o acolheu com caridade e, compadecido de sua miséria, lhe disse que a devoção a Nossa Senhora podia livrá-lo daquele maldito vício; donde lhe impôs por penitência que até a próxima confissão, toda manhã e toda noite, ao levantar-se e deitar-se na cama, rezasse uma Ave Maria à Virgem, oferecendo-lhe os olhos, as mãos, e todo o seu corpo e rogando-lhe que o guardasse como possessão sua, e beijasse três vezes o chão. O jovem praticou essa penitência, e a princípio resultou uem pouca correção. Mas o padre continou a inculcar-lhe que não a deixasse jamais, encorajando-o a confiar no patrocínio de Maria. 

Durante esse tempo o penitente partiu com outros companheiros e passou muitos anos rodando o mundo. Assim que retornou a Roma, foi de novo encontrar seu confessor, o qual, com júbilo e maravilhamento, encontrou-o todo transformado e livre das antigas imundícies. "Filho", lhe disse, "como obtiveste de Deus tão bela transformação?" Respondeu o jovem: "Padre, Nossa Senhora por aquela pequena devoção que me ensinastes obteve-me a graça". 

Mas não terminam aqui as maravilhas. O mesmo confessor contou do púlpito o fato; ouviu-o um capitão que já havia muitos anos mantinha uma torpe relação com uma mulher e propôs-se também ele a fazer a mesma devoção para livrar-se daquelas terríveis correntes que o mantinham escravo do demônio - propósito necessário a todos os pecadores para que a Virgem os possa ajudar. Assim também ele abandonou o costume e mudou de vida. E depois? A fim de seis meses ele tolamente e confiando demais nas próprias forças quis ir um dia encontrar aquela mulher para ver se ela também mudara de vida. Mas ao achegar-se à porta da casa onde havia claro risco de voltar a cair, sentiu-se por uma força invisível repelir para trás, e encontrou-se tão distante da casa quanto era longa aquela rua, e acabou deixado na frente da sua própria casa; reconheceu então com uma luz clara que Maria assim o livrara da sua perdição. Do que se percebe como é solícita a nossa boa Mãe não apenas para tirar-nos do pecado, se nós com esse bom propósito a ela nos recomendamos, mas também para livrar-nos do perigo de novas quedas. 


ORAÇÃO

Ó Virgem imaculada e santa, ó criatura a mais humilde, a maior diante de Deus! Vós fostes tão pequena aos vossos olhos, mas tão grande aos olhos do vosso Senhor, que vos exaltou a ponto de escolher-vos por mãe e daí de fazer-vos a Rainha do céu e da terra. Agradeço pois ao Deus que tanto vos ergueu, e me alegro convosco em ver-vos tão unida a Deus quanto é permitido a uma pura criatura. Diante de vós, que sois tão humilde apesar de tantas qualidades, me envergonho de comparecer eu, miserável tão soberbo e com tantos pecados. Mas ainda assim, miserável quanto eu seja, quero também eu saudar-vos: Ave, Maria, gratia plena [Ave Maria, cheia de graça]: Vós sois cheia de graça, impetrai uma parte dessa graça também para mim. Dominus tecum [O Senhor é convosco]: o Senhor que esteve sempre convosco desde o primeiro momento de vossa infância agora estreitou-se ainda mais a vós fazendo-se vosso Filho. Benedicta tu in mulieribus [Bendita sois vós entre as mulheres]: Ó mulher bendita entre todas as mulheres, obtende também para nós a divina bênção. Et benedictus fructus ventris tui [e bendito é o fruto do vosso ventre]: Ó planta beata que destes ao mundo fruto tão nobre e santo! Sancta Maria Mater Dei [Santa Maria, Mãe de Deus]: Ó Maria, eu confesso que vós sois a verdadeira Mãe de Deus, e por essa verdade estou pronto a dar mil vezes a vida. Ora pro nobis peccatoribus [rogai por nós pecadores]: Mas se vós sois a Mãe de Deus, sois ainda a mãe da nossa salvação e de nós, pobres pecadores, já que para salvar os pecadores é que Deus se fez homem; e fez-vos sua mãe, a fim de que as vossas preces tenham a virtude de salvar qualquer pecador. Eia, pois, ó Maria, rogai por nós. Nunc et in hora mortis nostrae [agora e na hora de nossa morte]: Rogai sempre; rogai agora que em vida estamos em meio a tantas tentações e perigos de perder Deus; porém mais ainda rogai na hora de nossa morte, quando estivermos a ponto de partir deste mundo e de ser apresentados ao divino tribunal; a fim de que, salvando-nos pelos méritos de Jesus Cristo e pela vossa intercessão, possamos chegar um dia, sem mais perigo de perder-nos, e saudar-vos e louvar-vos com o vosso Filho no céu por toda a eternidade. Amém. 


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Glórias de Maria, Santo Afonso Maria de Ligório. Ed. Minha Biblioteca Católica 2019. 






sábado, 9 de novembro de 2024

Da Saudação Angélica

 



Explicação da gravura

1. A gravura trata da saudação angélica, chamada vulgarmente Ave-Maria, porque principia por estas palavras. Chama-se saudação angélica porque as primeiras palavras referem-se à saudação que o Arcanjo Gabriel dirigiu à Virgem de Nazaré, quando foi mandado por Deus, anunciar-lhe o mistério da Encarnação.

2. Essas palavras são: "Ave-Maria, cheia de graça o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres."

3. As outras palavras são parte de Santa Isabel, parte da Igreja. - As de Santa Isabel são: "E bendito é o fruto do vosso ventre", dirigidas a Nossa Senhora quando foi a visitar Santa Isabel, sua prima. - As palavras da Igreja são: "Jesus, Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Assim seja."

4. A oração principia pela saudação Ave-Maria, para testemunhar-lhe o nosso profundo respeito, chamando-lhe Senhora e Rainha, que tanto significa o nome de Maria, - Estas palavras estão representadas da gravura pela Anunciação do Anjo. 

5. Chamamos à Maria cheia de graça, porque, havendo de ser mãe de Deus, foi enriquecida de todas as graças que podem convir a uma pura criatura. - Palavras representadas na gravura pela Imaculada Conceição.

6. Dizemos: O Senhor é convosco, para significar que o Senhor foi sempre com a Virgem desde o princípio da sua conceição que por isso foi isenta de toda a culpa tanto original como atual. - Palavras representadas pela Virgem tendo ao colo a Nosso Senhor. 

7. "Sois bendita entre as mulheres" - quer dizer que a Virgem foi cheia de maiores graças que qualquer outra criatura. Foi, com efeito, preservada da culpa original: foi Mãe de Deus sempre Virgem: foi a criatura mais santa e mais agradável a Deus por todas as suas virtudes, abaixo da alma de Jesus Cristo. - Palavras representadas por Maria no meio de mulheres e mais elevada do que todas elas.

8. "Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus," quer dizer que assim como o seu divino Filho é bendito sobre todas as coisas, assim também Maria, como Mãe sua, é bendita sobre todas as puras criaturas tanto na terra, como no céu. - Palavras representadas na gravura por a Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, e pela Virgem tendo o menino Jesus ao colo e ao pé de si São João Batista. 

9. Dizemos "Santa Maria Mãe de Deus" porque, havendo de interessar a Senhora no despacho que lhe pedimos, nos lembra a Igreja que Ela é Mãe de Deus, isto é, que nada pode ser superior ao seu valimento. - Palavras representadas por Maria coroada no céu Rainha dos Anjos e dos homens.

10. Acrescentamos: "Rogai por nós pecadores", para movê-la à piedade para conosco que somos miseráveis pelo pecado. - Palavras representadas por Maria ajoelhada diante de Jesus Cristo e rogando por nós. 

11. Dizemos: "Agora e na hora de nossa morte", porque sempre temos necessidade do seu auxílio, especialmente na hora da morte em que é perigosíssimo o combate. - Palavras representadas pela Virgem aparecendo a um moribundo.

12. Devemos tributar à Virgem Maria respeito profundo e terna confiança, porque é Mãe do Salvador e Mãe nossa, Rainha dos Anjos e dos homens, e a mais santa das criaturas.

13. Devemos pois invocá-la muitas vezes, pedindo-lhe a sua proteção, celebrar as suas festas com piedade filial, e fazer diligência por imitar as suas virtudes.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 




sábado, 12 de outubro de 2024

Nossa Senhora Aparecida




 São Paulo (Brasil)

Festa a 12 de outubro


No ano de 1717, ao passar por Guaratinguetá o Conde de Assumar, a Câmara notificou aos pescadores que se fizessem ao rio, para pescarem, pois desejavam honrar, com lauta mesa, um tão alto personagem. 

Entre outros foram então pescar Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, em suas canoas. Porém, todos, ainda que continuassem até o pôrto de Itaguassu, muito distante do ponto da partida, nada conseguiram.

Desapontados com a inutilidade dos seus esforços, tentam contudo novamente pescar aqui e além, e, lançando João Alves a sua rede de arrasto, tirou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça, pelo que lançou outra vez a rede mais abaixo, e tirou a cabeça da mesma imagem, não se tendo sabido nunca quem a tinha lançado ao rio. Não tinham conseguido pegar um só peixe, como já dissemos; porém, continuando a pescaria depois do precioso achado, foi tão copiosa em poucos lanços, que, receosos de naufragarem, voltaram para suas casas assombrados com o que lhes tinha sucedido.

Felipe Pedroso conservou a referida imagem (que o povo chamou logo de Senhora Aparecida) em sua casa durante vários anos, e depois presenteou-a a seu filho Atanásio, que morava em Itaguassu, em cujo porto tinham encontrado a pequenina imagem. Atanásio, inspirado pela sua fé, fez um oratório e colocou num altar a aparecida imagem, e aos sábados, à noite, o povo da vizinhança ali se reunia para rezar o terço e outras devoções.

Em uma dessas rezas, estando a noite serena, apagaram-se repentinamente as velas que alumiavam a imagem de Nossa Senhora, e, querendo alguém acendê-las de novo, vê o povo, com pasmo, que as velas por si sós, sem ninguém lhes tocar, acendem-se de repente!

Foi este o primeiro prodígio, que se repetiu várias vezes, de modo que a notícia do estranho fato chegou ao conhecimento do Vigário de Guaratinguetá, Pe. José Alves Vilela, que, com outros devotos, lhe edificaram uma capelinha; mas essa capelinha logo se tornou pequena, pelo que foi demolida, e, no lugar em que hoje está, edificaram outra maior, que, reformada e aumentada, é a Basílica atual (velha).





A imagem está hoje em um nicho riquíssimo, tendo na cabeça uma coroal real que foi benzida pelo Santo Padre.

Eis por que Nossa Senhora grangeou mais um título em nossa amada pátria: Nossa Senhora Aparecida, por ter uma imagem sua aparecido na rede de um pescador.

Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil, e terá em breve um santuário condigno na nova basílica que lhe será construída em Aparecida (Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida, SP, Brasil).




Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, rogai por nós. (300 dias de indulgência - Pio XI).


Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Santíssimo Nome de Maria


 12 de setembro




1- O quanto é doce na vida e na morte o nome de Maria 

O grande nome de Maria, que foi dado à divina Mãe, não foi encontrado na terra nem inventado pela mente ou arbítrio dos homens, como acontece com todos os outros nomes que se dão; não, ele desceu dos céus e foi imposto por prescrição divina, como declara S. Jerônimo, S. Epifânio, S. Antonino e outros. "Do tesouro da divindade, ó Maria, proveio o vosso excelso e admirável nome", fala Ricardo de S. Lourenço, "pois a SS. Trindade inteira", segue dizendo o mesmo autor, "deu a vós um tal nome, superior a todo nome depois do nome do vosso Filho, e o dotou de tanta majestade e poder, que à enunciação do vosso nome quis ele que por reverência prostados todos o venerassem no céu, na terra e no inferno.¹ Mas dentre outros méritos que o Senhor deu ao nome de Maria, vejamos agora como o fez doce aos servos desta Santíssima Senhora, tanto em vida como em morte. 

E em primeiro lugar, para falar do período da vida, dizia Honório, santo anacoreta, o nome de Maria é repleto de todas as doçuras divinas. De modo que o glorioso S. Antônio de Pádua reconhecia no nome de Maria as mesmas doçuras que S. Bernardo contemplava no nome de Jesus: "O nome desta Virgem Mãe é júbilo ao coração, mel à boca, melodia aos ouvidos dos seus devotos". Narra-se do venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, como lemos na sua vida, que ele ao nomear Maria experimentava uma doçura sensível tamanha que chegava a lamber os lábios. Lê-se de modo parecido que certa mulher de Colônia disse ao bispo Marsílio que sempre que ela pronunciava o nome de Maria, sentia na boca um sabor mais doce que o mel. O que vindo a praticar também Marsílio saboreou a mesma doçura. Deduz-se do Cântico dos Cânticos que na Assunção da Virgem os anjos três vezes pediram o seu nome: Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça? (Ct 3,6) Em outro trecho: Quem é esta que surge como a aurora? (Ct 6,10). E por fim: Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? (Ct 8,5). Ora, pergunta Ricardo de S. Lourenço porque os anjos demandam tantas vezes o nome desta Rainha, e responde: "mesmo aos anjos era tão doce ouvir soar o nome de Maria que é por isso que o pedem tantas vezes".

Mas eu não falo aqui desta doçura sensível, pois esta não se concede habitualmente a todos; falo da doçura salutar de conforto, amor, alegria, confiança e fortaleza que dá habitualmente este nome de Maria aos que o proferem com devoção. Falando a este respeito o abade Francone diz que, depois do sacrossanto nome de Jesus, o nome de Maria é tão abundante em bens que nenhum outro, ao pronunciá-lo no céu e na terra, enche as almas devotas de tanta graça, esperança e doçura. Pois, segue a dizer, o nome de Maria contém em si alguma coisa de admirável, de doce e de divino, que quando se reúne com os corações amigos sopra neles uma fragrância de santa doçura. E é tão maravilhoso este grande nome, conclui, que, por mil vezes que o ouçam os amantes de Maria, sempre o escutam como pela primeira vez, experimentando sempre a mesma doçura em ouvi-lo chamar. 

Falando igualmente desta doçura, o Beato Henrique de Suso dizia que ao nomear Maria sentia-se de tal modo elevar em confiança e com tal júbilo abrasar em amor que entre o gozo e as lágrimas em meio às quais proferia o amado nome, desejava que desde o peito o coração se lhe saltasse para fora da boca, enquanto afirmava que este dulcíssimo nome, como um favo de mel, derretia no fundo da alma. Por isso então exclamava: "Ó suavíssimo nome! Ó Maria, como sereis vós em pessoa, se o vosso nome por si já é tão amável e gracioso?"

Por este motivo voltado à sua boa Mãe, o enamorado S. Bernardo com ternura lhe diz: "Ó grande, ó pia, ó digna de todo louvor, SS. Virgem Maria, o vosso nome é tão doce e amável que não pode ser nomeado sem que incendeies de amor para convosco e com Deus quem o nomeia; ou ainda, basta apenas que ele se apresente ao pensamento dos vossos amantes para incitá-los ainda mais a vos amar e para consolá-vos!".¹ "E se as riquezas consolam os pobres, pois que os aliviam da sua miséria, oh, quanto melhor consola a nós, miseráveis" - fala Ricardo de S. Lourenço - "o vosso nome, ó Maria, uma vez que, muito mais do que todas as riquezas da terra, ele nos alivia das angústias da presente vida".²

Em suma, o vosso nome, ó Mãe de Deus, é todo cheio de graças e bênçãos divinas, como diz S. Metódio.³ De tal modo que, como declara S. Boaventura, o vosso nome não pode ser proferido sem que traga alguma graça a quem devotamente o nomeia. Qualquer coração, por duro que seja, por desconfiado que seja, diz o Idiota, se este vos nomeia, ó benigníssima Virgem, é tamanha a virtude do vosso nome que ele maravilhosamente amolecerá a sua dureza, já que sois vós a que confortais os pecadores com a esperança de perdão e de graça.4 O vosso dulcíssimo nome, no dizer de S. Ambrósio, é um unguento cheiroso que exala odor de graça divina.5 Roga o santo à divina Mãe dizendo: "Desça ao íntimo das nossas almas este unguento de salvação. Quer dizer: fazei, Senhora, que nos recordemos com frequência de repetir o vosso nome com amor e confiança, pois assim nomear-vos é sinal ou de já possuir a divina graça, ou de haver de recuperá-la em breve".

"Sim, pois recordar-se do vosso nome, ó Maria, consola os aflitos, devolve ao caminho de salvação os que estão fora dele, e conforta os pecadores a fim de que não se entreguem ao desespero", assim discorre Ludolfo da Saxônia.¹ E diz o Pe. Pelbarto que, tal como Jesus Cristo por suas cinco chagas preparou ao mundo o remédio dos seus males, assim igualmente Maria por seu santíssimo nome, que é composto de cinco letras, confere todos os dias o perdão aos pecadores. 




Por isso o santo nome de Maria no Cântico dos Cânticos é equiparado ao azeite: "Tal como o azeite sara os enfermos", comenta o Beato Alano, "verte odor e acende chamas, assim o nome de Maria, sara os pecadores reanima os corações e os incendeia de amor divino". Por isso Ricardo de S. Lourenço encoraja os pecadores a recorrerem a este grande nome, porque ele sozinho bastará para curá-los de todos os seus males, dizendo que não há enfermidade tão maligna que não ceda imediatamente à força deste nome.²

Por outro lado, os demônios, afirma Tomás de Kempis, temem de tal maneira a Rainha do céu que ao ouvir pronunciar o seu grande nome fogem de quem o pronuncia como de um fogo a queimá-los.

A mesma Santíssima Virgem revelou à S. Brígida que não há nesta vida pecador tão frio no amor divino que, invocando ele o seu santo nome com o propósito de converter-se, o demônio dele não se afaste imediatamente. E o confirmou ainda outra vez dizendo-lhe que todos os demônios de tal maneira têm respeito e medo por seu nome que ao ouvi-lo soar imediatamente soltam as almas das garras com que as mantinham presas.

E tal como se afastam os anjos rebeldes dos pecadores que invocam o nome de Maria, assim por sua vez, disse a mesma Senhora nossa à S. Brígida, os anjos bons se aproximam ainda mais das almas justas que devotamente o pronunciam.

E declara S. Germano que, tal como respirar é sinal de vida, assim pronunciar frequentemente o nome de Maria é sinal ou de já viver na divina graça ou de que em breve nela viverá; pois este poderoso nome tem a virtude de obter o auxílio e a vida a quem devotamente o invoca.¹ Em suma, este admirável nome, acrescenta Ricardo de S. Lourenço, é como uma torre fortíssima, na qual o pecador, buscando abrigo, será livrado da morte, já que por esta torre celestial são com toda segurança defendidos e salvos os mais perdidos pecadores.²

É porém uma torre de fortaleza que não só liberta os pecadores do castigo, mas também defende os justos das investidas do inferno. Assim diz o mesmo Ricardo, afirmando que depois do nome de Jesus não há nome em que se encontre tamanho auxílio, que confira aos homens tanta salvação, como o nome de Maria. Em tudo o que é lugar sabe-se especialmente bem, que o seu grande nome dá força para vencer as tentações da castidade. Reflete o mesmo autor sobre as palavras de S. Lucas, E o nome da Virgem era Maria (Lc 1,27), que estes dois nomes, Maria e Virgem, são pronunciados juntos pelo evangelista para que entendamos que o nome dessa puríssima Virgenzinha não deve estar jamais separado da castidade. Por isso diz S. Pedro Crisólogo que o nome de Maria é indício de castidade, querendo com isso dizer que quem nas dúvidas quanto o haver pecado nas tentações à pureza se lembra de haver invocado o nome de Maria tem nisto um indício seguro de que não ofendeu a castidade. 

De modo que nos valhamos sempre do belo conselho de S. Bernardo, que diz: "Diante do perigo de perder a divina graça, pensemos em Maria, invoquemos Maria juntamente com o nome de Jesus, pois estes nomes vão sempre juntos. Não partam jamais este dois dulcíssimos e poderosíssimos nome nem do nosso coração nem da nossa boca, pois estes dois grandiosos nomes nos darão força para não cair e para vencer sempre todas as tentações." São muito belas as graças prometidas por Jesus Cristo aos devotos dos nomes de Maria, como ele mesmo, falando com sua Santa Mãe, deu a entender à S. Brígida, revelando-lhe que quem invocar o nome de Maria com confiança e propósito de corrigir-se receberá três graças singulares: uma perfeita dor dos pecados, o desagravo deles e a fortaleza para chegar à perfeição, e mais, enfim, a glória do paraíso. "Pois", acrescenta o divino Salvador, "são para mim tão doce e caras, ó minha Mãe, as tuas palavras, que não posso negar-te nada do que me peças".

Chega por fim, a dizer S. Efrém que o nome de Maria é a chave da porta do céu para quem o invoca com devoção.¹ E por isso tem razão S. Boaventura em chamar Maria de salvação de todos os que a invocam, como se fosse o mesmo invocar o nome de Maria e obter a salvação eterna; ao passo que o Idiota afirma que a invocação deste santo e doce nome leva à conquista de uma graça superabundante nesta vida e uma glória sublime na outra.² "Se buscais, portanto, ó irmãos", conclui Tomás de Kempis, "ser consolados em todo sofrimento, recorrei a Maria, invocai Maria, obsequiai a Maria, encomendai-vos a Maria. Com Maria alegrai-vos, com Maria chorai, com Maria caminhai, com Maria buscai Jesus; com Jesus e Maria, enfim, ansiai por viver e morrer". "Assim fazendo", diz ele, "sempre avançareis na via do Senhor, pois Maria de bom grado rogará por vós, e o Filho com segurança atenderá a Mãe". 

Assaz doce, portanto, é em vida para os devotos de Maria o seu santíssimo nome por causa das sumas graças que ele lhes obtém, como já vimos. Porém mais doce ainda se lhes mostrará na hora da morte por causa da santa e doce morte que lhes há de impretar. O Pe. Sartório Caputo da Companhia de Jesus exortava a todos que estivessem a assistir algum morimbundo que lhes pronunciassem frequentemente o nome de Maria, dizendo que este nome de vida e de esperança, apenas proferindo na hora da morte, basta para debandar os inimigos e confortar os moribundos em todas as suas angústias. Do mesmo modo S. Camilo de Lelis deixou fortemente recomendado aos seus religiosos que aos moribundos de lembrassem com frequência de invocar o nome de Maria e Jesus, como já ele aplicara sempre aos outros; mas com aidna mais doçura o aplicou mais tarde a si mesmo à beira da sua morte, na qual, como se narra na sua Vida, pronunciava com tanta ternura os seus amados nomes de Jesus e de Maria que incendiava de amor até mesmo quem o escutava. E finalmente, com os olhos fixos às suas adoradas imagens, com os braços em cruz, viu-se o santo expirar com o semblante e a paz do paraíso, proferindo as suas últimas palavras com a invocação dos dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria. Esta breve oração de invocar os sacrossantos nomes de Jesus e de Maria, diz Tomás de Kempis que é tão fácil de guardar na memória quanto amável de contemplar, e poderosa para proteger quem a emprega de todos os inimigos da nossa salvação.

"Beato aquele", dizia S. Boaventura "que ama o teu doce nome, ó Mãe de Deus! É tão glorioso e admirável o vosso nome que quem se lembre de invocá-lo à beira da morte não teme investida nenhuma dos inimigos."¹

Oh, feliz de quem tivesse a sorte de morrer como morreu o Pe. F. Fulgêncio de Ascoli, capuchinho, que expirou cantando: "Ó Maria, a mais bela das que há, quero andar em tua companhia". Ou ainda como morreu o Beato Henrique cisterciense, de quem se conta nos Anais da Ordem (An. 1109) que terminou a vida articulando o nome de Maria. 

Roguemos, pois, meu devoto leitor, roguemos a Deus para que nos conceda esta graça, que a última palavra da nossa língua na hora da morte seja o nome de Maria, como desejava e rogava a S. Germano.² Oh doce morte, morte segura, que é acompanhada e protegida por tal nome de salvação, que Deus não concede invocar na hora da morte senão àqueles que quer salvos!

Ó minha doce Senhora e Mãe, eu vos amo muito, e porque vos amo tanto, também amo o vosso santo nome. Proponho-me e espero com vossa ajuda sempre invocá-lo na vida e na morte. Pela glória, portanto, do vosso nome - concluamos com a terna prece de S. Boaventura - quando a minha alma partir deste mundo, vinde-lhe vós ao encontro, Senhora bendita, e tomai-a nos vossos braços. Não nos negueis, ó Maria - seguimos rogando com o santo - a vir consolá-la então com a vossa presença. Sede vós a sua escada e o seu caminho ao paraíso. Impetrai-lhe vós a graça do perdão e o repouso eterno. E o santo enfim termina dizendo: "Ó Maria, advogada nossa, a vós toca defender os vossos devotos e assumir as suas causas perante o tribunal de Jesus Cristo".


EXEMPLO

Conta o Pe. Rho nos seus Sábados e o Pe. Lireo no seu Triságio Mariano que na Guéldria, por volta de 1465, uma donzela de nome Maria foi mandada um dia pelo seu tio ao mercado da cidade de Nimega para comprar algumas coisas, com a ordem de que passasse a noite em casa de uma outra tia que ali morava. Obedeceu a senhorita, porém ao entardecer, indo encontrar a tia, foi por ela enxotada muito grosseiramente, de modo que se pôs de volta a caminho de casa; chegada, porém, a noite no meio do caminho, encolerizou-se a moça e chamou o demônio em voz alta. Eis que este imediatamente lhe apareceu sob a forma de um homem e prometeu ajudá-la contanto que fizesse uma coisa. "Farei tudo", respondeu a desgraçada. "Não quero outra coisa", disse o inimigo, "senão que de hoje em diante não faças mais o sinal da cruz e mudes de nome". Respondeu ela: "Quanto ao sinal da cruz não o farei mais; mas o meu nome, Maria, é muito caro a mim, não quero mudá-lo". "Então não te ajudo", disse o demônio. Finalmente, depois de muita discussão, assentaram em que ela se chamasse com a primeira letra do nome de Maria, isto é Eme. E com isso mandaram-se para Antuérpia; e ali ficou a infeliz seis anos com tão mau companheiro, vivendo uma vida perversa para escândalo de todos.

Um dia ela disse ao demônio que desejava rever a pátria; o inimigo recusava, mas enfim foi forçado a consentir. Chegando os dois na cidade de Nimega, viram que ali se encenava uma ópera sobre a vida de Maria SS. Diante de tal visão a pobre Eme, pela pouca devoção que lhe restava à Mãe de Deus, começou a chorar. "O que estamos fazendo aqui?", disse-lhe então o companheiro. "Por acaso vamos encenar aqui outra comédia?". Pegou nela para afastá-la daquele local, mas ela resistia; por isso ele, enfurecido, vendo que a estava perdendo, suspende-a no ar e a faz cair no meio do teatro. Então a pobre coitada contou o ocorrido. Foi confessar-se com o pároco, mas o pároco a remeteu ao bispo de Colônia, e o bispo ao Papa; o qual, ouvida a confissão, impôs-lhe como penitência levar ao corpo o tempo todo três aros de ferro, um ao pescoço, e dois aos braços. Obedeceu a penitente, e chegada a Mastrique, ali se encerrou num mosteiro de arrependidas, onde viveu quatorze anos em árdua penitência; e, certa manhã, levantando-se da cama, viu rompido e soltos os três aros, e dois anos depois morreu com fama de santidade, com o desejo de ser sepultada com aqueles três aros que de escrava do inferno a transformaram em feliz escrava da sua libertadora. 


ORAÇÃO

Ó grande Mãe de Deus e minha mãe, Maria, é verdade que não sou digno de nomear-vos; mas vós, que me amais e desejais a minha salvação, vós me haveis de conceder, embora a minha língua seja imunda, que eu possa sempre invocar em meu socorro o vosso santíssimo e poderosíssimo nome, já que o vosso nome é o auxílio de quem vive e a salvação de quem morre.

Ah, Maria puríssima, Maria dulcíssima, ai, fazei que o vosso nome seja de hoje em diante o alento de minha vida. Senhora, não tardeis a socorrer-me sempre que eu vos chamar, já que em todas as tentações que me travarem combater, em todas as necessidades que me sobrevierem, eu não quero deixar jamais de vos chamar, repetindo sempre Maria, Maria. Assim espero fazer na vida, assim espero particularmente na hora da morte, para depois dela vir a louvar eternamente no céu o vosso amado nome: O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria [Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria]. Ah, Maria, amabilíssima Maria, qual conforto, qual doçura, qual confiança, qual ternura sente a minha alma apenas em nomear-vos, apenas em pensar em vós! Agradeço o meu Deus e Senhor, que vos deu para o meu bem este nome tão doce, tão amável e tão poderoso. 

Mas, Senhora, não me contento somente em nomear-vos; quero nomear-vos, ademais, por amor; quero que o amor me lembre de chamar-vos a toda hora, de modo que eu possa ainda exclamar, com S. Anselmo: "Ó nome da Mãe de Deus, vós sois o meu amor". 

Ó minha cara Maria, ó meu amado Jesus, vivam sempre, pois, no meu e em todos os corações os vossos dulcíssimos nomes. Esqueça a minha mente todos os outros nomes para lembrar apenas e para sempre invocar os vossos adorados nomes.

Ah, Jesus, meu Redentor, e minha mãe Maria, quando chegar a hora da minha morte, em que a minha alma, expirando, haverá de partir desta vida, ah, pelos vossos méritos concedei então a graça de proferir minhas últimas palavras dizendo e repetindo: "Amo-vos, Jesus e Maria; Jesus e Maria, dou-vos o coração e a minha alma".


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**Abade de Celles, denominado o Idiota.

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, Ed. Minha Biblioteca Católica, pág.191-200.

 



quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria

 A gloriosa Virgem Maria nasceu da estirpe régia de Davi na tribo de Judá. Mateus e Lucas não descrevem a genealogia de Maria, e sim de José, que nada teve com a concepção de Cristo, devido ao costume da Escritura de mostrar o encadeamento das gerações não a partir de mulheres, mas de homens. É verdade, contudo, que a beata Virgem descende de Davi, o que fica patente na Escritura quando atesta muitas vezes que Cristo originou-se da semente de Davi. Logo, como Cristo nasceu apenas da Virgem, é claro que a própria Virgem nasceu de Davi, do ramo de Natã. 

Davi teve, entre outros, dois filhos, Natã e Salomão. Como certifica João Damasceno, Levi - do ramo de Natã, filho de Davi - gerou Melque e Pantar, Pantar gerou Barpantar e Barpantar gerou Joaquim e Joaquim a Virgem Maria. Do ramo de Salomão, uma filha foi esposa de Natã com o qual gerou Jacó. Falecido Natã, um membro da sua tribo, Melque, filho de Levi, irmão de Pantar, casou com a viúva de Natã, mãe de Jacó, e dela gerou Eli. Assim, Jacó e Eli são irmãos uterinos, mas Jacó sendo da tribo de Salomão e Eli da de Natã. Falecido Eli, da tribo de Natã, sem filhos e filhas, Jacó seu irmão, que era da tribo de Salomão, tomou sua mulher e ressuscitou a semente de seu irmão, gerando José. Portanto, José é segundo a natureza filho de Jacó, descendente de Salomão, e segundo a lei filho de Eli, descendente de Natã. De fato, o filho nascido dessa forma era daquele que o gerava segundo a natureza e do defunto segundo a lei. Até aqui, falou Damasceno.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo aqueles nazarenos, chamados "senhoriais" por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Joaquim tomou uma mulher de nome Ana, que tinha uma irmã chamada Isméria. Esta Isméria gerou Isabel e Eliúde, e Isabel gerou João Batista. De Eliúde nasceu Eminem, de Eminem nasceu São Servácio, cujo corpo está em Maastricht, fortaleza à margem do Mosa, no episcopado de Liège. Conta-se que Ana teve três maridos, a saber, Joaquim, Cleofas e Salomé. Do primeiro destes maridos, quer dizer, Joaquim, teve uma filha, Maria, mãe e progenitora do Senhor, que deu em casamento a José e que gerou e pariu o Senhor Cristo. Falecido Joaquim, Ana aceitou Cleofas, irmão de José, e dele gerou outra filha, chamada pelo mesmo nome de Maria e que uniu em casamento a Alfeu. Esta Maria gerou de seu marido Alfeu quatro filhos, a saber, Tiago, o Menor, José, o Justo, conhecido como Barsabás, Simão e Judas. Falecido seu segundo marido, Ana aceitou um terceiro, Salomé, do qual gerou outra filha, chamada mais uma vez Maria e deu-a em casamento a Zebedeu. Esta Maria gerou dois filhos de seu marido Zebedeu, a saber, Tiago, o Maior, e João Evangelista. Daí os versos a este respeito:

Tem-se o costume de dizer que Ana concebeu três Marias,

Geradas de seus maridos Joaquim, Cleofas e Salomé.

Elas foram entregues a José, Alfeu e Zebedeu, seus maridos.

A primeira pariu Cristo, a segunda Tiago, o Menor,

José, o Justo, Simão e Judas.

A terceira Tiago, o Maior, e o alado João.


Mas o admirável, como dito acima, é como a bem-aventurada Maria pôde ser prima de Isabel. Sabe-se que Isabel foi mulher de Zacarias, da tribo de Levi, pois segundo a lei todos deveriam ter esposa de sua tribo e família, e foi atestado por Lucas que Isabel estava entre as filhas de Aarão. Ana, segundo Jerônimo, era de Belém e da tribo de Judá. Mas sabe-se que Aarão e seu irmão, o sumo sacerdote Joiada, tomaram ambos esposas da tribo de Judá, de forma que a tribo sacerdotal passaram a estar ligadas pelo sangue. Pode ser, como afirma Beda, que este tipo de relação com a troca de mulheres entre as tribos fosse recente. De toda forma, a beata Maria, descendente da tribo régia, tinha relações consanguíneas com a tribo sacerdotal, e deste modo pertencia a ambas as tribos. 

Quis o Senhor que estas tribos privilegiadas se miscigenassem, porque no seu mistério estava para nascer delas aquele que verdadeiramente foi rei e sacerdote, que se sacrificou por nós e que dirige seus fiéis em meio à malícia das lutas desta vida, para coroá-los após a vitória. Daí o nome de Cristo, isto é, "ungido", "escolhido", pois na antiga lei apenas os sacerdotes, reis e profetas eram ungidos, e por isso nós somos chamados "cristãos", "povo eleito", e "povo do sacerdócio real". Quando se diz que as mulheres uniam-se com os homens de sua tribo, era para que a distribuição as terras não fossem alteradas, mas como a tribo dos levitas, ao contrário das outras, não tinha terra, as mulheres desta tribo podiam casar com quem quisessem.

No prólogo da História da Natividade da Virgem, o bem-aventurado Jerônimo conta o que ainda adolescente leu em um opúsculo, mas que só muito tempo depois releu e a pedido transcreveu. Joaquim era da Galiléia, da cidade de Nazaré, e tomou como esposa Santa Ana, de Belém. Ambos eram justos e seguiam irreprensivelmente todos os mandamentos do Senhor, dividindo em três partes todos os seus bens, uma destinada ao templo e seus servidores, outras aos peregrinos e pobres, e a terceira reservada para eles e sua família. Como por vinte anos não tiveram filhos fizeram uma promessa ao Senhor, que se este lhes concedesse descendência eles a entregariam a Seu serviço. A fim de obterem a graça do Rei, iam todos os anos às três principais festas em Jerusalém.

Na festa da Dedicação, Joaquim foi com os outros de sua tribo até Jerusalém e ao chegar ao altar quis oferecer sua oblação junto com os demias. Vendo isso cheio de indignação, o sacerdote agarrou-o, afastou-o e repreendeu sua presunção de se aproximar do altar, porque não era conveniente, sob pena de maldição da lei, que oferecesse oblações ao Senhor quem não tivesse feito crescer o povo de Deus, quem era infecundo entre os fecundos. Confuso e envergonhado, Joaquim não quis voltar para casa a fim de não ouvir ofensas. Ele afastou-se, foi para junto de seus pastores e ficou com eles por algum tempo, até que um dia, estando sozinho, um anjo apareceu com tão forte luminosidade que deixou sua visão turva. 

O anjo avisou para não ter medo, dizendo:

Eu sou o anjo do Senhor enviado para anunciar que suas preces foram ouvidas e que suas esmolas subiram até o Senhor. Vi a sua vergonha ouvi o opróbio de esterilidade que foi injustamente imputado a você. Deus vinga o pecado mas não a natureza, por isso se Ele fecha um útero o faz para abri-lo novamente de maneira maravilhosa, para que saiba que o nascido não é produto libidinoso, mas presente divino. Não é verdade que Sara, a primeira mãe de seu povo, suportou a injúrias da esterilidade até os noventa anos de idade e ainda assim gerou Isaac, ao qual foi prometida a bênção de todas as nações? Não é verdade que Raquel foi estéril por muito tempo, e contudo gerou José, que teve domínio sobre todo o Egito? Há alguém mais forte do que Sansão ou mais santo do que Samuel? Todavia ambos nasceram de mães estéreis. Creia em minhas considerações e exemplos. As concepções adiadas por muito tempo e os partos de quem parecia estéril são os mais admiráveis. Também sua esposa Ana parirá uma filha e você lhe dará o nome de Maria. De acordo com a promessa que fizeram, ela será consagrada ao Senhor desde a infância. Desde o útero de sua mãe será cheia do Espírito Santo. A fim de que não haja qualquer suspeita que lhe seja desfavorável, não terá contado com o mundo, ficará sempre morando no templo do Senhor. Ela própria, nascida de mãe estéril, gerará maravilhosamente seu filho altíssimo, cujo nome será Jesus e por meio do qual todos os povos serão salvos. Dou a você uma prova: quando chegar à porta dourada de Jerusalém, sua esposa Ana virá ao seu encontro, e de inquieta com sua demora ela passará a demonstrar alegria!


Dito isso, o anjo retirou-se. 

Ana chorava amargamente por ignorar aonde seu marido tinha ido, quando o mesmo anjo lhe apareceu e anunciou a mesma coisa, acrescentando como prova que fosse à porta dourada de Jerusalém onde encontraria o marido indo em sua direção. Logo, seguindo o preceito do anjo, um foi ao encontro do outro, felizes com a visão mútua e certos da prole prometida. Voltaram para casa, depois de adorar o Senhor, esperando alegremente a promessa divina.




Então Ana concebeu e deu à luz uma filha, à qual chamou Maria. Completados os três anos de amamentação, levaram a Virgem com oferendas ao templo do Senhor. O templo fora construído em um monte, com o altar do holocausto sendo externo e só podendo ser atingido depois de se subir quinze degraus, correspondentes aos quinze salmos graduais¹. Quando a jovenzíssima Virgem foi colocada junto com os outros, subiu sem a ajuda de ninguém, como se já fosse adulta. Concluído o ofertório, Joaquim e Ana voltaram para casa deixando sua filha com outras virgens no templo.

A Virgem, por seu lado, progredia cotidianamente em todo tipo de santidade. Cotidianamente era visitada por anjos e desfrutava de visões divinas. Jerônimo diz em uma carta a Cromácio e Heliodoro que a beata Virgem estabelecera para si esta regra: de matinas até à terça, oração; da terça até a nona, trabalho manual de tecelã; da nona até aparecer o anjo que lhe dava alimento, novamente orações.²

Quando ela fez catorze anos, o pontífice proclamou publicamente que as virgens que era instruídas no templo e haviam atingido aquela idade deveriam voltar para suas casas a fim de serem legitimamente casadas. Diante desta ordem todas partiram, apenas a bem-aventurada Virgem Maria respondeu que não podia fazê-lo, pois seus pais haviam-na entregue ao serviço do Senhor e prometido a Ele a virgindade dela. O pontífice ficou angustiado, porque não queria ir contra a Escritura que diz: "Prometa e cumpra o prometido"³, nem ousava introduzir novidade nos costumes do povo. Ao aproximar-se uma festividade dos judeus, convocou todos os anciãos e a sentença unânime foi que em assuntos tão duvidoso deveria ser buscado o conselho do Senhor. Eles permaneceram em oração, e quando o pontífice dirigiu-se ao oratório para consultar o Senhor, todos ouviram vindo dali uma voz dizer: "Todos os homens da casa de Davi que não estão convenientemente unidos em casamento devem levar um ramo ao altar, e aquele cujo ramo germinar e em cuja ponta o Espírito Santo pousar em forma de pomba, conforme profetizou Isaías, deve sem qualquer dúvida desposar a Virgem".

Entre os membros da casa de Davi estava José, ao qual pareceu inconveniente que um homem de idade tão avançada** tomasse como esposa uma virgem tão jovem. Assim, enquanto os demais levavam seus ramos, ele escondeu o seu. Como não aconteceu nada de acordo com o que a voz divina anunciara, o pontífice mais uma vez decidiu consultar o Senhor, que respondeu que somente aquele que não levara sua vara deveria desposar a Virgem. Diante disso José levou sua vara, que floresceu e em cujo topo pousou uma pomba vinda do Céu. Ficou evidente para todos que ele deveria desposar a Virgem. Combinado portanto o casamento com a Virgem, José voltou para sua casa na cidade de Belém para tomar as providências necessárias para as núpcias. Quanto à Virgem Maria, voltou para a casa de seus pais em Nazaré acompanhada, por determinação do sacerdote, como testemunha do milagre, por sete colegas, virgens da mesma idade que ela. Por aqueles dias o anjo Gabriel apareceu a ela enquanto orava e anunciou que dela nasceria o filho de Deus. 

Durante muito tempo, a data do nascimento da Virgem escondida dos fiéis. JOÃO BELETH conta da seguinte maneira como ela foi descoberta: certo homem santo, constante na contemplação, ouvia todos os anos, no dia 8 de setembro, uma alegríssima celebração por parte da comunidade dos anjos. Com muita devoção, ele pedia que lhe fosse revelado por que ouvia aquilo naquele dia do ano e não em outro, e recebeu a resposta divina: aquele era o dia em que a gloriosa Virgem Maria havia nascido no mundo, e ele deveria divulgar o fato aos filhos da Santa Igreja a fim de que se reunisse à corte celeste nesta celebração. Ele comunicou isso ao sumo pontífice e outros prelados, que por meio de orações e jejuns descobriram a verdade das Escrituras e em antigas tradições, dedicando em todo mundo este dia para a celebração da natividade da Virgem. 

Antigamente, a oitava4 da natividade da beata Maria não era celebrada, mas o senhor Inocêncio IV, de origem genovesa, instituiu tal celebração. A causa disto foi que com a morte de Gregório IX todos os cardeais fecharam-se em conclave para rapidamente escolherem um novo chefe da Igreja5. Mas como por vários dias não puderam chegar a um acordo e eram muitos pressionados pelos romanos, prometeram à Rainha do Céu que se pelos méritos dela eles viessem a concordar e pudessem sair dali livremente, estabeleceriam a celebração da oitava de sua natividade negligenciada por tanto tempo. Eles concordaram em escolher o senhor Celestino e foram libertados. No entanto Celestino viveu pouco tempo e por isso não pôde cumprir a promessa, o que foi feito por Inocêncio IV. Note-se que a Igreja celebra três natividades, a saber, a de Cristo, a de Santa Maria e a de João Batista, que designam três natividades espirituais: renascemos com João pela água, com Maria pela penitência e com Cristo na glória. Em relação aos adultos, convém que a natividade da contrição preceda a natividade do batismo e da glória. Por isso estas duas festas merecem ter vigílias, mas como a natividade da Virgem é penitência, e portanto toda orientada para a vigília, não precisa ter vigília. Todas têm oitavas porque na verdade todas anseiam pela oitava da Ressureição. 

2. Um cavaleiro muito valente e muito devoto da beata Maria ia a um torneio, e ao encontrar no caminho o primeiro mosteiro construído em honra da bem-aventurada Virgem, entrou para ouvir missa. Como a uma missa seguia-se outra, ele não quis deixar de honrar a Virgem, e quando enfim saiu do mosteiro dirigiu-se rapidamente para o local do torneio. No caminho encontrou alguns que voltavam do torneio e comentavam como ele havia lutado valentemente. Mais adiante outros aclamavam sua valentia militar e aqueles que tinham sido capturados por ele rendiam-se inteiramente. Ele entendeu então que a gentil rainha o honrara, contou o que acontecera e voltando ao mosteiro entrou ao serviço do filho da Virgem. 

3. Um bispo que tinha extrema reverência e devoção pela beata Virgem dirigia-se no meio da noite, por devoção, a um igreja da bem-aventurada Maria. Então a Virgem das virgens, acompanhada de todo o coro das virgens, foi até ele e com extrema honra conduziu-o à igreja para a qual se encaminhava. Quando começou a conduzi-lo, duas jovens do coro entoaram um prelúdio: "Cantemos ao Senhor, companheiras, cantemos em sua honra,/ Que nossas bocas ressoem piamente o doce amor de Cristo!".

Este versos foram repetidos pelo coro de virgens, e a seguir as duas primeiras cantavam os seguintes versos: "Por sua grande luz, o primeiro soberbo foi precipitado no abismo,/ E arrastou consigo o primeiro homem".

Assim, a procissão conduziu o homem de Deus até a igreja, com as duas jovens sempre reiniciando o canto e as demais respondendo.

4. Uma mulher sozinha, abandonada por seu marido, tinha um único filho, ao qual amava ternamente. Este filho foi capturado pelos inimigos, que o prenderam e acorrentaram. Ao saber da notícia, ela chorou inconsolavelmente e orou pela libertação de seu filho à beata Virgem, da qual era muito devota. Enfim, vendo que não conseguia nada, entrou sozinha na igreja em que estava esculpida a imagem da beata Maria e em pé diante dela disse: "Bem-aventurada Virgem, pedi muitas vezes a você pela libertação de meu filho, sem nenhum resultado. Então, assim como meu filho me foi tirado, eu também tomo o seu e o manterei preso como penhor pelo meu filho". Dizendo isso, chegou mais perto e retirou a imagem do menino que a Virgem segurava no colo e foi para casa. Ali envolveu a imagem do menino em linho branquíssimo, escondeu-a em uma arca que fechou cuidadosamente à chave e guardou-a diligentemente, feliz por ter um bom refém por seu filho. Então na noite seguinte a bem-aventurada Virgem apareceu ao jovem e abrindo a porta do cárcere disse que saísse dali e recomendou: "Filho, diga a sua mãe e contou como a beata Virgem o libertara. Ela, por sua vez, exultante, pegou a imagem do menino e, indo à igreja da beata Maria, devolveu o filho desta dizendo: "Agradeço, Senhora, por ter devolvido meu único filho, e então devolvo o seu". 

5. Havia um ladrão que realizava frequentes roubos mas tinha muita devoção pela beata Maria, a quem sempre saudava. Quando ele foi enforcado, a bem-aventurada Virgem com suas mãos manteve-o suspenso por três dias e ele não sofreu ferimento algum. Passando pelo local acaso, e encontrando-o vivo e com rosto alegre, os que o haviam enforcado julgaram que não haviam apertado bem o laço e quiseram degolá-lo com a espada, mas a beata Maria impediu segurando a espada e eles não puderam lhe fazer mal. Quando souberam que a beata Virgem que o socorria, ficaram admirados e por amor à Virgem soltaram-no e deixaram-no partir livre. O ladrão entrou em um mosteiro e enquanto viveu permaneceu ao serviço da mãe de Deus.

6. Havia um clérigo que, muito atencioso com a beata Maria, jamais deixava de cantar as horas dedicadas a ela. Falecidos seus pais sem terem outro herdeiro, deixaram-lhe suas terras. Os amigos incentivaram-no a arrumar uma esposa e a administrar sua herança. No dia em que devia celebrar suas núpcias, encontrou no caminho uma igreja e recordando seus serviços à bem-aventurada Virgem entrou nela e começou a dizer suas horas. Nesse momento apareceu-lhe a beata Maria e repreendeu-o severamente: "Ó insensato e infiel, por que você me abandona, sua amiga e esposa, e prefere outra mulher a mim?". Ele encontrou seus companheiros, compungido, mas dissimulou o ocorrido, celebrou as núpcias e, no meio da noite, abandonou todos e fugiu de casa para entrar em um mosteiro e servir devotamente a beata Maria. 

7. O sacerdote de uma paróquia, pessoa de vida honesta, não sabia outra missa a não ser a da beata Maria, que ele repetia diligentemente em sua honra. Foi denunciado por causa disso ao bispo, que mandou chamá-lo imediatamente. Como disse que realmente desconhecia outra missa, o bispo qualificou-o duramente como enganador, suspendeu-o de suas obrigações e proibiu-o de rezar aquela missa dali em diante. Na noite seguinte a bem-aventurada Maria apareceu ao bispo, repreendeu-o severamente e perguntou por que tratara mal seu devoto, acrescentando que morreria em trinta dias se não readmitisse o sacerdote em seu ofício. Apavorado, o bispo mandou chamar o presbítero, pediu perdão e ordenou que não celebrasse nenhuma outra missa a não ser a que sabia, a da bem-aventurada Maria. 

8. Um clérigo fútil e lúbrico, mas que amava muito a mãe de Deus e cantava suas horas santas devota e vivamente, certa noite viu-se em visão diante do tribunal de Deus. O Senhor disse aos que o rodeavam: "Quanto a este que os observa, decidam de que sentença ele é digno. Há muito tempo o tolero e não encontrei nele nenhum sinal de arrependimento". Então, com a aprovação de todos, o Senhor proclamou contra ele a sentença da danação. A bem-aventurada Virgem levantou-se e disse a seu filho: "Rogo sua clemência por ele, piedoso filho, a fim de que mitigue a sentença de danação. Se bem que tenha sido conduzido à morte por seus próprios méritos, que viva pelos serviços prestados a mim". O Senhor: "Aceito sua petição, desde que a partir de agora eu veja que ele se corrigiu". A Virgem voltou-se para o homem e disse: "Vá e não peque mais, para que não aconteça o pior com você". Ao acordar ele mudou de vida, tornou-se monge e acabou sua vida em boas obras.

9. Como conta o bispo FULBERTO DE CHARTRES, no ano do Senhor de 537 havia na Sicília um homem de nome Teófilo que administrava os bens eclesiásticos de forma tão prudente, que falecido o bispo todo o povo o aclamou como digno para o episcopado. Mas ele estava contente com sua função e preferiu que ordenassem outro como bispo, mas este o destituiu de seu ofício. Impaciente por recuperar seu cargo, ele procurou o conselho de um judeu especialista em magia. Este invocou o diabo, que logo apareceu. Por ordem do demônio, Teófilo renegou Cristo e sua mãe, renunciou à condição de cristão, escreveu com seu próprio sangue a renúncia e a abjuração, selou-o com seu anel, entregou o escrito selado ao demônio e entrou a seu serviço. Na manhã seguinte, por obra do demônio, Teófilo recuperou a graça do bispo e a dignidade de suas funções.Quando finalmente caiu em si, lamentou muito o que fizera. Recorreu a toda devoção de seu espírito a fim de que a gloriosa Virgem viesse em seu socorro. A beata Maria apareceu a ele e visão, criticou sua impiedade e mandou que renunciasse ao diabo. Fez com que reconhecesse que Cristo era o filho de Deus e aceitasse todas as proposições do cristianismo. Dessa forma Teófilo recuperou a graça dela e de seu Filho. Como indício de que ele recebera perdão, ela apareceu de novo, agora com o manuscrito que entregara ao diabo, devolveu-o e colocou-o sobre o peito dele a fim de que não temesse mais ser escravo do diabo e sim que se alegrasse por ter sido libertado pela Virgem. Depois de receber o papel, exultante, Teófilo contou ao bispo e a todo o povo o que acontecera. Admirados, todos louvaram a gloriosa Virgem. Três dias mais tarde Teófilo descansou em paz. 

10. Um homem e sua esposa tinham uma única filha, que deram em casamento a um jovem, e por amor a ela mantinham o genro em sua casa. Por amor à filha, a mãe cuidava tão carinhosamente do jovem, que o amor da moça por ele não era maior que o amor da sogra pelo genro. Enquanto isso, começaram a falar maliciosamente que a sogra levara o genro para sua casa não pela filha, mas por si mesma. Com a alma agitada com tanta mentira, temendo tornar-se assunto do povo, a mulher ofereceu a dois camponeses vinte moedas a cada um para que estrangulassem o genro secretamente. Assim, certo dia ela escondeu os camponeses no celeiro, mandou o marido fazer algo em outro lugar e enviou a filha para outro lado. O jovem ao entrar no celeiro onde sua senhora o mandara pegar vinho, foi imediatamente estrangulado pelos camponeses. Logo depois, a sogra o colocou no leito da filha, vestido como se estivesse dormindo.

Assim que o marido e a filha voltaram e sentaram à mesa, a mãe mandou-a acordar o marido e chamá-lo para comer. Quando o encontrou morto e anunciou o fato a todos, a família prorrompeu em lamentos, e a homicida, fingindo estar aflita, lamentava-se com os demais. Mas enfim a mulher realmente deplorou o crime perpetrado e confessou tudo a um sacerdote. Algum tempo depois surgiu uma desavença entre a mulher e o sacerdote, e este a acusou pelo homicídio do genro.6

Quando a notícia chegou aos parentes do jovem, a mulher foi levada a julgamento e condenada a ser queimada. Diante de seu fim iminente, decidiu voltar-se para a beata Virgem e, entrando em uma de suas igrejas, prostou-se em oração, com lágrimas. Um pouco depois, obrigada a sair, foi jogada em uma grande fogueira onde todos a viram permanecer ilesa e incólume. 

Os parentes do jovem acharam que o fogo estava fraco, aproximaram-se e jogaram sarmento na fogueira, mas vendo que nem assim ela era atingida, começaram a atacá-la com lanças e dardos. Fortemente impressionado, o juiz que estava ali impediu tais ataques, examinou a mulher com atenção e não encontrou nela sinal do fogo, apenas feridas de lanças. Seus parentes levaram-na para casa e reanimaram-na com remédios e banhos. Deus não querendo que ela fosse desonrada pelas suspeitas humanas por mais tempo, depois de três dias - durante os quais louvou a Virgem com perseverança - afastou-a desta vida.






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1. A palavra "gradual" deriva de gradus, "degrau", indicando a subida que os judeus faziam até o templo cantando determinados salmos (os de número 119 a 133). Na liturgia romana, os salmos graduais (que podem ser aqueles, ou outros) eram cantados na missa entre a leitura da Epístola e do Evangelho, e assim se organizou o Gradual, livro de canto gregoriano utilizado na missa.

2. Sobre as horas canônicas, ver nota 5 do capítulo 2.

3. Números 30,2. 

4. Conforme nota 2 do Prólogo.

5. Conforme nota 1  do capítulo 22. 

6. Estranho esse relato de Jacopo, pois o segredo da confissão sempre foi extremamente preservado. Conhece-se, por exemplo, a história de um cavaleiro que matou um homem, revelou o crime ao padre e este o denunciou ao príncipe esperando ser recompensado. Diante da ruptura da norma, o príncipe perdoou o assassino e mandou cegar e cortar a língua do sacerdote que não mantivera a confidência do confessionário: F.C. Tubach, Index exemplorum: a handbook of medieval religious tales. Helsinki, 1969, n. 1203.

** A tradição conta a história de duas formas, S. José como um velho de idade avançada e S. José como um rapaz novo. O mais provável mesmo é que S. José fosse um rapaz novo, preparado por Deus para proteger a Virgem Santíssima e o Menino Jesus dos perigos que os rondariam por anos a fio. 


Fonte: Legenda Áurea - Jacopo de Varazze