quinta-feira, 23 de abril de 2026

Remorsos do condenado



Vermis eorum non moritur.

O seu verme não morre (Mc 9,47).


PONTO I

Este verme que não morre nunca significa, segundo São Tomás, o remorso de consciência dos réprobos, o qual há de atormentá-los eternamente no inferno. Muitos serão os remorsos com que a consciência roerá o coração dos condenados. Mas há três que principalmente os atormentarão, a saber: o pensar no nada das coisas pelo qual o réprobo se condenou, no pouco que tinha a fazer para salvar-se e no grande Bem que perdeu. Depois que Esaú tinha comido o prato de lentilhas, preço do seu direito de primogenitura, ficou tão magoado por ter consentindo na perda que, conforme a Escritura, pôs-se a rugir... (Gn 27,34). Que gemidos e clamores soltarão os réprobos ao ponderar que, por prazeres fugidios e envenenados, perderam um reino eterno de felicidade, e se vêem condenados para sempre a contínua e interminável morte! Chorarão mais amargamente que Jônatas, sentenciado a morrer por ordem de Saul, seu pai, sem ter cometido outro delito do que provar um pouco de mel (1Rs 14,43). Que pesar sofrerá o condenado ao recordar-se da causa de sua ruína!... Sonho de um instante nos parece nossa vida passada. O que hão de parecer ao réprobo os cinquenta ou sessenta anos de sua vida terrena, quando se encontra na eternidade, onde, depois de terem decorrido cem ou mil milhões de anos, vir que então aquela sua vida está começando? E, além disso, os cinquenta anos de vida na terra são, acaso, cinquenta anos de prazer? O pecador que vive sem Deus goza sempre de doçuras em seu pecado? Um momento só dura o prazer culpável; no demais, para quem vive separado de Deus, é tempo de penas e aflições... Que serão, portanto, para o infeliz réprobo esses breves momentos de deleite? Que lhe parecerá, particularmente, o último pecado pelo qual se condenou?... "Por um vil prazer que durou apenas um instante e que como o fumo se dissipou, exclamará, hei de arder nestas chamas, desesperado e abandonado, enquanto Deus for Deus, por toda a eternidade!"


AFETOS E SÚPLICAS

Dai-me luz, Senhor, a fim de reconhecer minha maldade em ofender-vos e a pena eterna que por ela mereci. Sinto, meu Deus, grande dor de ter-vos ofendido, mas essa dor me consola e alivia. Se me tivésseis precipitado no inferno, como mereci, o remorso seria ali o meu maior castigo que provocaram minha eterna desgraça. Agora, porém, a dor reanima, consola e me infunde esperança de alcançar perdão, que oferecestes ao que se arrepende. 

Meu Deus e Senhor, arrependo-me de vos ter ultrajado; aceito com alegria essa pena dulcíssima da dor de minhas culpas, e vos rogo que aumenteis e conserveis até à morte, a fim de que não deixe de deplorar um só instante os meus pecados... Perdoai-me, meu Jesus e Redentor, que, por terdes misericórdia de mim, não a tivestes de vós mesmo, e vos condenastes a morrer de dor para livrar-me do inferno. Tende piedade de mim! Fazei, portanto, que meu coração se conserve sempre contrito e inflamado no vosso amor, pois que tanto me tendes amado e aturado com tanta paciência, a ponto de, em vez de castigar-me, me cumulardes de luz e de graça... Agradeço-vos, meu Jesus, e vos amo de todo o coração. 

Não sabeis desprezar a quem vos ama; peço, pois, que não aparteis de mim o vosso rosto divino. Acolhei-me na vossa graça e não permitais que torne a perdê-la...

Maria, Mãe e Senhora nossa, recebei-me como vosso servo e uni-me a vosso Filho Jesus. Suplicai-lhe  que me perdoe e que me conceda, juntamente com o dom do seu amor, a graça da perseverança final.


PONTO II

Diz São Tomás que o principal tormento dos condenados será a consideração de que se perderam por verdadeiros nadas, e que podiam ter alcançado facilmente, se o quisessem, o prêmio da glória. O segundo remorso de sua consciência consistirá, portanto, no pensar quão pouco cumpria para salvar-se. Um condenado que apareceu a Santo Humberto revelou-lhe que sua maior aflição no inferno era reconhecer a indignidade do motivo que o levara à condenação e a facilidade com que poderia ter evitado. O réprobo dirá então: "Se me tivesse mortificado para não olhar aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano ou tal amizade, não me teria condenado... Se me tivesse confessado todas as semanas, se tivesse frequentado as asssociações piedosas, se tivesse feito todos os dias leitura espiritual e se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído em minhas culpas... 

Muitas vezes, resolvi fazer tudo isso, mas, infelizmente, não perseverei. 

Dava começo à pratica do bem, mas, em breve, desprezei o caminho encetado. Por isso, me perdi".

Aumentará o pesar causado por este remorso a lembrança dos exemplos de companheiros virtuosos e de amigos do condenado, assim como dos dons que Deus lhe concedeu para salvar-se: dons naturais, como boa saúde, fortuna e talento, que, bem aproveitados segundo a vontade de Deus, teriam servido para a santificação; dons sobrenaturais, como luzes, inspirações, convites, largos anos para reparar as faltas cometidas. O réprobo, porém, deverá reconhecer que, no estado em que se acha, já não há remédio. Ouvirá a voz do Anjo do Senhor, que exclama e jura: "por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que já não haverá tempo..." (Ap 10, 5-6). Como espadas agudas atuarão sobre o coração do condenado as recordações de todas as graças que recebeu, quando vir que já não é possível reparar a ruína eterna. Exclamará com seus companheiros de desespero: "Passou a ceifa, findo o estio, e nós não fomos salvos" (Jr 8,20). Se tivesse empregado no serviço de Deus o tempo e o trabalho passado em perder-me, teria sido santo... E, agora, que me restam, senão remorsos e mágoas sem fim? Sem dúvida, o pensamento de que poderia ser eternamente feliz e que será para sempre desgraçado, atormentará mais terrivelmente o condenado do que todos os demais castigos infernais. 


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pudestes, meu Jesus, aturar-me tanto tempo? Tantas vezes que me apartei de vós, outras tantas viestes procurar-me; ofendi-vos e me perdoastes; voltei a ofender-vos e novamente me concedestes perdão... Fazei, Senhor, que participe da dor amarga que, sob suores de sangue, sofrestes por meus pecados no horto de Getsêmani. Arrependo-me, caríssimo Redentor, de ter tão indignamente desprezado o vosso amor... Malditos prazeres, detesto-vos e vos amaldiçôo, porque me fizestes perder a graça de Deus!... Meu diletíssimo Redentor, amo-vos sobre todas as coisas; renuncio a todas as satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que tornar a ofender-vos... Pelo afeto com que me amastes na cruz e oferecestes a vida por mim, concedei-me luz e força para resistir à tentação e pedir vosso poderoso auxílio...

Ó Maria, meu amparo e minha esperança, que tudo podeis conseguir de Deus, alcançai-me a graça de que não me aparte nunca mais de seu amor santíssimo! 


PONTO III

Considerar o grande Bem que perderam, será o terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segundo São João Crisóstomo, será mais grave pela privação da glória do que pelos próprios tormentos do inferno. 

"Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renunciarei gostosamente ao seu paraíso", disse a infeliz princesa Isabel da Inglaterra...

Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certamente, não pensará o mesmo. Que aflição e que desespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos entre angústias e temores, gozando um torno temporal, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior aflição, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por acidentes de má sorte nem pela malevolência de outros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livremente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre vontade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como se salvaram muitos de seus companheiros que, não obstante terem de passar por perigos idênticos ou maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendando-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levantar-se e se consagraram novamente ao serviço do Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair desastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos, onde não existe a esperança.

Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, para não renunciar a um mísero deleite, preferiste perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir chorá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações que lês sejam o último apelo de Deus? Se não mudares de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eternamente entre aquela multidão de insensatos que agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam desesperados, porque não ignoram que é irremediável. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no inferno e recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio inferno. "Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás jamais" (Eclo 7,40), porque esse pensamento te fará recorrer a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, soberano Bem! Quantas vezes vos perdi por um nada, e quantas vezes mereci perder-vos para sempre! Reanimam-me e consolam-me, entretanto, aquelas palavras do Profeta: "Alegra-se o coração dos que buscam ao Senhor" (Sl 104,3). Não devo, pois, perder a esperança de recuperar vossa graça e vossa amizade, se vos procuro com sinceridade.

Sim, meu Senhor, suspiro por vossa graça mais que por qualquer outro bem. Prefiro ver-me privado de tudo, até a vida, a perder o vosso amor. Amo-vos, meu Criador, amo-vos sobre todas as coisas; e porque vos amo pesa-me de vos ter ofendido... Meu Deus, desprezei-vos e perdi-vos; perdoai-me e permiti que vos encontre, porque não quero tornar a vos perder. Admiti-me de novo na vossa amizade e abandonarei tudo para amar unicamente a vós. Assim o espero da vossa misericórdia...

Pai Eterno, ouvi-me; por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e concedei-me a graça de nunca mais me separar de vós. Se de novo e voluntariamente vos tornasse a ofender, teria justa razão para recear que me abandonásseis...

Ó Maria, a esperança dos pecadores, reconciliai-me com o meu Deus e guardai-me debaixo do vosso manto, a fim de que nunca mais me separe do meu Redentor. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte




domingo, 19 de abril de 2026

Da eternidade do inferno


 

Et ibunt hi in supplicium aeternum.

E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave. 

Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.

E se durasse um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10). 

Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. - E irão estes ao suplício eterno. - Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo" (Mt 25, 41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. "Ali o fogo consome de tal modo -  disse São Bernando - que conserva sempre".

Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo. 

Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: "Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais".


AFETOS E SÚPLICAS

Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...

E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender. 

Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.

Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos. 

Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça. 

Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança. 


PONTO II

Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei Davi exclamava trêmulo: "Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca" (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: "O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos". Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinquente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. "Uns para a vida eterna, e outros para o opróbio que terão sempre diante dos olhos" (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade. 

"O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre". "Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade". 

Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: "Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade". Os castigos da vida presente são transitórios: "As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou" (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". Diz a Escritura em roda, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).

Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? "Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea". Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração. 

Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48, 8-9). "Ali a culpa - disse o Belluacense - poderá ser castigada, mas jamais expiada" (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, "ali o pecador é incapaz de arrependimento". 

O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: "Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perveserança do ódio". São Jerônimo afirma que "no réprobos, o desejo de pecar é insaciável" (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).


AFETOS E SÚPLICAS

Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso  desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...

Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me contra Deus e contra vós!


PONTO III

No inferno, o que mais se deseja é a morte. "Buscarão os homens a morte e não a encontrarão" (Ap 9,6). Por isso, exclama São Jerônimo.

"Ó morte, quão agradável serias àqueles para quem foste tão amarga!". Disse Davi que a morte se apascentará com os réprobos (Sl 48,15). E explica-o São Bernardo, acrescentando que, assim como, ao pastar, os rebanhos comem apenas as pontas das ervas e deixam a raiz, assim a morte devora os condenados, mata-os a cada instante e conserva-lhes a vida para continuar a atormentá-los com castigo eterno. 

De sorte que, diz São Gregório, o réprobo morre continuamente sem morrer nunca. Quando um homem sucumbe de dor, todos têm compaixão dele. Mas o condenado não terá quem dele se compadeça. 

Estará sempre a morrer de angústia e não encontrará comiseração... O imperador Zenão, sepultado vivo numa masmorra, gritava e pedia que, por piedade, o retirassem dali, mas não o atenderam e, depois, o encontraram morto. As mordeduras que a si mesmo havia feito nos braços, patenteavam o horrível desespero que sentira... Os condenados, exclama São Cirilo de Alexandria, gritam no cárcere infernal, mas ninguém acode a libertá-los, ninguém deles se compadecerá jamais. 

E quanto tempo durará tão triste estado?... Sempre, sempre. Lê-se no Exército Espirituais, do Pe. Segneri, publicados por Muratori, que, em Roma, se interrogou a um demônio (na pessoa de um possesso), quanto tempo devia ficar no inferno... Respondeu com raiva e desespero: Sempre, sempre!... Foi tal o terror que se apoderou dos circunstantes, que muitos jovens do Seminário Romano, ali presentes, fizeram confissão geral, e sinceramente mudaram de vida, consternados por esse breve sermão de duas palavras apenas...

Infeliz Judas!... Há mais de mil e novecentos anos que já está no inferno e, não obstante, se diria que seu castigo apenas vai em princípio!... 

Desgraçado Caim!... Há cerca de seis mil anos que sofre o suplício infernal e pode-se dizer que ainda se acha no princípio de sua pena! Um demônio a quem perguntaram quanto tempo estava no inferno, respondeu: Desde ontem. E como se lhe replicou que isso não era possível, porque sua condenação já transcorrera há mais de cinco mil anos, exclamou: "Se soubésseis o que é a eternidade, compreenderíeis que, em comparação a ela, cinquenta séculos nem sequer chegam a ser um instante". 

Se um anjo fosse dizer a um réprobo: "Sairás do inferno quando se tiverem passado tantos séculos quantas gotas houver de água na terra, folhas nas árvores e areia do mar", o réprobo se regozijaria tanto como um mendigo que recebesse a nova de que ia ser rei. Com efeito, passarão todos esses milhões de séculos e outros inumeráveis a seguir, e contudo o tempo de duração do inferno estará sempre no seu começo...

Os réprobos desejariam propor a Deus que lhes aumentasse quanto quisesse a intensidade das penas e as prolongasse tanto quanto fosse. 

Esse fim e essa limitação, entretanto, não existe nem existirão. A voz da divina justiça só repete no inferno as palavras sempre, nunca! Os demônios, por escárnio, perguntarão aos réprobos: "Vai muito adiantada a noite?" (Is 21,11). Quando amanhecerá? Quando acabarão essas vozes, esses prantos, essa infecção, esses tormentos e essas chamas? E os infelizes responderão: Nunca! Nunca!... Mas quanto tempo hão de durar?... Sempre! Sempre!... Ah, Senhor! Iluminai a tantos cegos que, sendo advertidos para tratare de sua salvação, respondem: "Deixai-nos. Se formos para o inferno, que havemos de fazer?... Paciência?..." Meu Deus! não têm paciência para suportar, às vezes, os incômodos do calor e do frio, nem para sofrer uma leve ofensa, e hão de ter paciência, depois, para serem mergulhados num mar de fogo, suportar tormentos diabólicos o abandono absoluto de Deus e de todos, durante toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Pai das misericórdias! Nunca abandonais a quem vos procura. Se na vida tantas vezes me apartei de vós sem que me abandonasses, não me desprezeis agora que vos procuro. Pesa-me, Sumo Bem, de ter feito tão pouco caso de vossa graça, trocando-a por coisas de somenos valor. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz que clama perdão para mim. Perdoai-me, pois, Senhor... E vós, meu Redentor, recordai-me sempre os sofrimentos que por mim passastes, o amor que me tendes e a minha ingratidão, que tantas vezes me fez merecer a condenação eterna, a fim de que chore minhas culpas e viva ardendo em vosso amor... Ah, meu Jesus! Como não hei de abrasar-me em vosso amor ao pensar que há muitos anos já devia estar queimando nas chamas infernais durante toda a eternidade, e que vós morrestes para me livrar das mesmas e efetivamente me livrastes com tão grande misericórdia? Se estivesse no inferno vos aborreceria eternamente. Mas agora vos amo e desejo amar-vos sempre. Espero, pelos merecimentos do vosso precioso sangue, que assim me concedereis... Vós, Senhor, me amais e eu vos amo também: amar-me-eis sempre, se de vós não me apartar. Livrai-me, meu Salvador, da grande desdita de separar-me de vós e fazei o que vos aprouver... Mereço todos os castigos, e os aceito voluntariamente, contanto que não me priveis do vosso amor...

Ó Maria Santíssima, amparo e refúgio meu, quantas vezes me condenei por mim próprio ao inferno e dele me tendes livrado!... Livrai-me, no futuro, de todo pecado, causa única que me pode privar da graça de Deus e lançar-me ao inferno. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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