Mostrando postagens com marcador condenados. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador condenados. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de abril de 2026

Da eternidade do inferno


 

Et ibunt hi in supplicium aeternum.

E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave. 

Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.

E se durasse um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10). 

Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. - E irão estes ao suplício eterno. - Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo" (Mt 25, 41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. "Ali o fogo consome de tal modo -  disse São Bernando - que conserva sempre".

Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo. 

Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: "Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais".


AFETOS E SÚPLICAS

Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...

E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender. 

Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.

Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos. 

Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça. 

Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança. 


PONTO II

Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei Davi exclamava trêmulo: "Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca" (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: "O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos". Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinquente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. "Uns para a vida eterna, e outros para o opróbio que terão sempre diante dos olhos" (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade. 

"O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre". "Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade". 

Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: "Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade". Os castigos da vida presente são transitórios: "As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou" (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". Diz a Escritura em roda, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).

Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? "Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea". Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração. 

Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48, 8-9). "Ali a culpa - disse o Belluacense - poderá ser castigada, mas jamais expiada" (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, "ali o pecador é incapaz de arrependimento". 

O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: "Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perveserança do ódio". São Jerônimo afirma que "no réprobos, o desejo de pecar é insaciável" (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).


AFETOS E SÚPLICAS

Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso  desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...

Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me contra Deus e contra vós!


PONTO III

No inferno, o que mais se deseja é a morte. "Buscarão os homens a morte e não a encontrarão" (Ap 9,6). Por isso, exclama São Jerônimo.

"Ó morte, quão agradável serias àqueles para quem foste tão amarga!". Disse Davi que a morte se apascentará com os réprobos (Sl 48,15). E explica-o São Bernardo, acrescentando que, assim como, ao pastar, os rebanhos comem apenas as pontas das ervas e deixam a raiz, assim a morte devora os condenados, mata-os a cada instante e conserva-lhes a vida para continuar a atormentá-los com castigo eterno. 

De sorte que, diz São Gregório, o réprobo morre continuamente sem morrer nunca. Quando um homem sucumbe de dor, todos têm compaixão dele. Mas o condenado não terá quem dele se compadeça. 

Estará sempre a morrer de angústia e não encontrará comiseração... O imperador Zenão, sepultado vivo numa masmorra, gritava e pedia que, por piedade, o retirassem dali, mas não o atenderam e, depois, o encontraram morto. As mordeduras que a si mesmo havia feito nos braços, patenteavam o horrível desespero que sentira... Os condenados, exclama São Cirilo de Alexandria, gritam no cárcere infernal, mas ninguém acode a libertá-los, ninguém deles se compadecerá jamais. 

E quanto tempo durará tão triste estado?... Sempre, sempre. Lê-se no Exército Espirituais, do Pe. Segneri, publicados por Muratori, que, em Roma, se interrogou a um demônio (na pessoa de um possesso), quanto tempo devia ficar no inferno... Respondeu com raiva e desespero: Sempre, sempre!... Foi tal o terror que se apoderou dos circunstantes, que muitos jovens do Seminário Romano, ali presentes, fizeram confissão geral, e sinceramente mudaram de vida, consternados por esse breve sermão de duas palavras apenas...

Infeliz Judas!... Há mais de mil e novecentos anos que já está no inferno e, não obstante, se diria que seu castigo apenas vai em princípio!... 

Desgraçado Caim!... Há cerca de seis mil anos que sofre o suplício infernal e pode-se dizer que ainda se acha no princípio de sua pena! Um demônio a quem perguntaram quanto tempo estava no inferno, respondeu: Desde ontem. E como se lhe replicou que isso não era possível, porque sua condenação já transcorrera há mais de cinco mil anos, exclamou: "Se soubésseis o que é a eternidade, compreenderíeis que, em comparação a ela, cinquenta séculos nem sequer chegam a ser um instante". 

Se um anjo fosse dizer a um réprobo: "Sairás do inferno quando se tiverem passado tantos séculos quantas gotas houver de água na terra, folhas nas árvores e areia do mar", o réprobo se regozijaria tanto como um mendigo que recebesse a nova de que ia ser rei. Com efeito, passarão todos esses milhões de séculos e outros inumeráveis a seguir, e contudo o tempo de duração do inferno estará sempre no seu começo...

Os réprobos desejariam propor a Deus que lhes aumentasse quanto quisesse a intensidade das penas e as prolongasse tanto quanto fosse. 

Esse fim e essa limitação, entretanto, não existe nem existirão. A voz da divina justiça só repete no inferno as palavras sempre, nunca! Os demônios, por escárnio, perguntarão aos réprobos: "Vai muito adiantada a noite?" (Is 21,11). Quando amanhecerá? Quando acabarão essas vozes, esses prantos, essa infecção, esses tormentos e essas chamas? E os infelizes responderão: Nunca! Nunca!... Mas quanto tempo hão de durar?... Sempre! Sempre!... Ah, Senhor! Iluminai a tantos cegos que, sendo advertidos para tratare de sua salvação, respondem: "Deixai-nos. Se formos para o inferno, que havemos de fazer?... Paciência?..." Meu Deus! não têm paciência para suportar, às vezes, os incômodos do calor e do frio, nem para sofrer uma leve ofensa, e hão de ter paciência, depois, para serem mergulhados num mar de fogo, suportar tormentos diabólicos o abandono absoluto de Deus e de todos, durante toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Pai das misericórdias! Nunca abandonais a quem vos procura. Se na vida tantas vezes me apartei de vós sem que me abandonasses, não me desprezeis agora que vos procuro. Pesa-me, Sumo Bem, de ter feito tão pouco caso de vossa graça, trocando-a por coisas de somenos valor. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz que clama perdão para mim. Perdoai-me, pois, Senhor... E vós, meu Redentor, recordai-me sempre os sofrimentos que por mim passastes, o amor que me tendes e a minha ingratidão, que tantas vezes me fez merecer a condenação eterna, a fim de que chore minhas culpas e viva ardendo em vosso amor... Ah, meu Jesus! Como não hei de abrasar-me em vosso amor ao pensar que há muitos anos já devia estar queimando nas chamas infernais durante toda a eternidade, e que vós morrestes para me livrar das mesmas e efetivamente me livrastes com tão grande misericórdia? Se estivesse no inferno vos aborreceria eternamente. Mas agora vos amo e desejo amar-vos sempre. Espero, pelos merecimentos do vosso precioso sangue, que assim me concedereis... Vós, Senhor, me amais e eu vos amo também: amar-me-eis sempre, se de vós não me apartar. Livrai-me, meu Salvador, da grande desdita de separar-me de vós e fazei o que vos aprouver... Mereço todos os castigos, e os aceito voluntariamente, contanto que não me priveis do vosso amor...

Ó Maria Santíssima, amparo e refúgio meu, quantas vezes me condenei por mim próprio ao inferno e dele me tendes livrado!... Livrai-me, no futuro, de todo pecado, causa única que me pode privar da graça de Deus e lançar-me ao inferno. 


___________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

fonte imagem: https://br.pinterest.com/pin/182536591140367779/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Do juízo universal


 

Cognoscetur Dominus judicia faciens. 

Conhecido será o Senhor, que faz justiça (Sl 9,17). 


PONTO I

Não há nada neste mundo, quando bem se considera, pessoa mais desprezada que Nosso Senhor Jesus Cristo. Respeita-se mais a um aldeão do que o próprio Deus; porque se teme que esse aldeão, vendo-se injuriado e oprimido, se vingue, movido por violenta cólera. Mas a Deus se ofende e se ultraja sem receio, como se não pudesse castigar quando quisesse (Jó 22,17). 

Por isso, o Redentor destinou o dia do juízo universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl 9,17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas "dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade" (Sf 1,15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo neste grande dia. 

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Sl 96,3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2Pd 3,10). 

Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1Cor 15,52). Dizia São Jerônimo: "Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo". Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus. 

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e os dos condenados! Os justos aparecerão formosos, cândidos, mais replandecentes que o sol (Mt 13,43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos!... Regozijar-se-á, então, de haver vivido assim, como se alegrou São Pedro de Alcântara, que pouco depois de sua morte apareceu a Santa Teresa de Jesus e lhe disse: "Ó feliz penitência, que tamanha glória me alcançou!" Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes, negros e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo!... "Corpo maldito - dirá a alma - foi para ter contentar que me perdi!" Responder-lhe-á o corpo: "E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?"


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus e meu Redentor, que um dia deveis ser meu Juíz, perdoai-me antes que chegue esse dia terrível! Não apartes de mim o teu rosto (Sl 101,3). Agora sois meu Pai, e como tal recebei na vossa graça o filho que volta cheio de arrependimento a vós. Meu Pai, peço-vos perdão. Fiz mal em ofender-vos e afastar-me de vós: não merecíeis tratamento tão detestável. Eu me arrependo de tudo. Perdoai-me, pois; não aparteis de mim vosso rosto, nem me abandoneis como mereço. 

Lembrai-vos do sangue que por mim derramastes, e tende misericórdia de mim... Meu Jesus, não quero outro Juíz do que vós. Dizia São Tomás de Vilanova: "Gostosamente me submeto ao juízo daquele que morreu por mim e que, para não me condenar, quis ser ele condenado ao suplício da cruz" (Rm 8,34). Já São Paulo havia dito: "Quem é aquele que condena? Cristo Jesus que morreu por nós". Amo-vos, meu Pai, e desejo nunca mais me separar de vós. Esquecei as ofensas que vos fiz, e dai-me grande amor à vossa bondade. Desejo que este amor seja maior do que a ingratidão com que vos ofendi. Sem a vossa assistência, porém, não sou capaz de vos amar. Auxiliai-me, meu Jesus. Fazei que minha vida seja conforme ao vosso amor, a fim de que no dia derradeiro mereça ser contado no número dos vossos eleitos... 

Ó Maria, minha Rainha e minha Advogada, socorrei-me agora, porque, perdendo-me eu, já não me podereis valer naquele dia terrível! Vós, Senhora, rogai por todos. Rogai também por mim, que me prezo de ser vosso devoto e que tanta confiança tenho em vós. 


PONTO II

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Jl 3,14) e separarão ali os justos dos réprobos (Mt 13,49). Os primeiros ficarão à direita; os condenados, à esquerda... Profunda mágoa sente quem se vê separado da sociedade ou da Igreja. Quanto maior será a dor de ver-se banido da companhia dos Santos! Que confusão experimentarão os ímpios,    quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse São João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem que sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno. 

Haverá filhos separados de seus pais; esposos, de suas esposas; amos, de seus servos... (Mt 24,40) Dize-me, meu irmão, em que lugar crês que te acharás então?.. Queres estar à direita? Abandona, portanto, o caminho que conduz à esquerda. 

Neste mundo, têm-se por felizes os príncipes e os ricaços, e se desprezam os Santos, os pobres e os humildes... Ó cristãos fiéis, que amais a Deus! Não vos aflijais por viverdes tão atribulados e vilipendiados neste mundo. "Vossa tristeza se converterá em gozo" (Jo 16,20). 

Então verdadeiramente sereis chamados bem-aventurados e tereis a honra de ser admitidos à corte de Cristo. Em que celestial formosura resplandecerá um São Pedro de Alcântara, que foi injuriado como apóstata; um São João de Deus, escarnecido como louco; um São Pedro Celestino, que, renunciando ao Pontificado, morreu num cárcere! Que glória alcançarão tantos mártires outrora à crueza dos verdugos! (1Cor 4,5). Que horrível figura, pelo contrário, fará um Herodes, um Pilatos, um Nero e outros poderosos da terra, condenados para sempre!... Ó amigos e cortejadores do mundo! Ide para o vale, naquele vale vos espero. Ali, sem dúvida, mudareis de parecer; ali, chorareis vossa loucura. Infelizes! tendes de representar um brevíssimo papel no palco deste mundo e preferis o de réprobos na tragédia do juízo universal! Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória - segundo afirma o Apóstolo - serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1Ts 4,17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juíz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos. 

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse São Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. "E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão" (Mt 24,30). 

"Como, à vista da cruz, - exclama Cornélio a Lápide - hão de gemer os pecadores que desprezaram  sua salvação eterna, que tanto custou ao Filho de Deus".  "Então - diz São João Crisóstomo -  os cravos se queixarão de ti; as chagas contra ti falarão; a cruz de Cristo clamará contra ti". 

Os santos Apóstolos serão assessores deste julgamento e todos aqueles que os imitaram. E com Jesus Cristo julgarão os povos. Ali também assistirá a Rainha dos Anjos e dos homens, Maria Santíssima. 

Aparecerão, enfim, o Eterno Juíz em luminoso trono de majestade. "E verão o Filho do Homem, que virá nas nuvens do céu, com grande poder e majestade (Sb 3,7-8). À sua presença chorarão os povos" (Mt 24,30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno - disse São Jerônimo. Dai-me o castigo que quiserdes; mas não me mostreis naquele dia o vosso rosto indignado. São Basílio disse: "Esta confusão excede toda a pena". Cumprir-se-ão então a profecia de São João: os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juíz irritado (Ap 6,16).


AFETOS E SÚPLICAS 

Meu caríssimo Redentor, Cordeiro de Deus que viestes ao mundo, não para castigar, mas para perdoar os pecados! Perdoai-me, Senhor, antes que chegue o dia em que deveis julgar-me. Ver-nos então, Cordeiro sem mácula, que com tanta paciência me tendes aturado, e perder-vos para sempre, seria o inferno do meu inferno. Perdoai-me, pois; reitero o meu pedido. Salvai-me, por vossas mãos misericordiosas, deste abismo em que me fizeram cair os pecados. Arrependo-me, ó Sumo Bem, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, meu Juíz, que tanto me amais. Pelos merecimentos de vossa morte, dai-me a graça que me converta de pecador em santo. Prometestes exalçar a quem vos suplica (Jó 33,3). Não vos peço bens terrenos, mas a vossa graça e o vosso amor: nada mais desejo. Ouvi-me, Jesus, pelo amor que me consagrastes ao morrer por mim na cruz. Sou réu, ó Juíz amantíssimo, mas um réu que vos ama mais que a si próprio... 

Maria, minha Mãe, tende misericórdia de mim, agora que ainda há tempo de assistir. Não me abandonastes quando me esquecera de Deus e de vós. Socorrei-me agora que estou resolvido a amar-vos e servir-vos sempre e nunca mais ofender a meu Senhor... Ó Maria, vós sois minha esperança!


PONTO III

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consequências de todos (Dn 7,10). Os primeiros testemunhos contra os réprobos serão do demônio, que dirá - segundo Santo Agostinho: "Justíssimo juíz, sentencia, que são meus aqueles que não quiseram ser teus". A própria consciência dos homens os acusará depois (Rm 2,15). A seguir, darão testemunho, clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hb 2,11). Virá, enfim, o testemunho do próprio Juíz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jr 29,23). 

Disse São Paulo que naquele momento o Senhor "porá às claras o que se acha escondido nas trevas" (1Cor 4,5). Descobrirá, então, antes os olhos de todos os homens as culpas dos réprobos, até as mais secretas e vergonhas que em vida eles ocultaram aos próprios confessores (Na 3,5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: "Bem-aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados" (Sl 31,1). Pelo contrário - disse São Basílio - as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d'olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama São Tomás, "Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado em seu trono de Juíz, disser aos condenados: "Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!" Chegada a hora da sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: "Vinde, benditos de meu Pai, e possui o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (Mt 25,34). 

Quando São Francisco de Assis soube por revelação que era predestinado, sentiu altíssimo e inefável consolo. Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juíz: "Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. 

Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençôo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade". A Virgem Santíssima abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus. 

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: "E nós, desgraçados, que será feito de nós?" E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça, apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 24,34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos espero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha benção..." Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma... E por quantos séculos?... Por toda eternidade, enquanto Deus for Deus. 

Depois desta sentença - diz Santo Efrém - os réprobos despedir-se-ão dos anjos, dos santos e da Santíssima Virgem, Mãe de Deus.

"Adeus, justos; adeus, cruz; adeus, glória; adeus, pais e filhos; jamais nos tornaremos a ver! Adeus, Mãe de Deus, Maria Santíssima". Nesse instante, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônio e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!...

Ó maldito pecado! A que triste fim levarás um dia tanta pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e meu Salvador! Que sentença me reservais no dia do juízo? Se agora me pedísseis, Senhor, contas de minha vida, que poderia eu responder senão que mereço mil vezes o inferno? Sim, meu Redentor, é verdade que mereço mil vezes o inferno, mas sabei que vos amo mais que a mim mesmo, e das ofensas que vos fiz de tal modo me arrependo, que me arrependa, que preferiria ter sofrido todos os males do que ter-vos injuriado. 

Condenais, ó meu Jesus, os pecadores obstinados, mas não a quem se arrepende e vos quer amar. Aqui estou, a vossos pés, arrependido... Dai-me a vossa palavra de perdão... Mas já me declarastes pela boca do vosso Profeta: "Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós" (Zc 1,3). Tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de vós... Salvai-me, meu Jesus, e que minha salvação seja amar-vos sempre e louvar sempre vossas misericórdia (Sl 88,2).

 Maria, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Ainda se não perdeu ninguém, que tenha recorrido a vós... A vós, pois, me recomendo. Tende piedade de mim. 

____________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/175640454213367777/