segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Da oração


 Petite et dabitur vobis... omnis enim qui petit, accipit. 

Pedi e dar-se-vos-á... porque todo aquele que pede receberá (Lc 9,9-10).


PONTO I

Não é só num, mas em muitos lugares do Antigo e Novo Testamento que Deus promete atender aos que se recomendam a ele. "Clama a mim e ouvir-te-ei (Jr 33,3). Invoca-me... e livrar-te-ei (Sl 49,15). Se pedirdes alguma coisa em meu nome,vô-la será concedida (Jo 14,4).

Pedireis o que quiserdes e se vos outorgará (Jo 15,7). E assim outros textos semelhantes. Verdade é que a oração é uma, diz Teodoreto; mas ela nos pode alcançar tudo; pois, segundo afirma São Bernardo, o Senhor nos dá, ou a graça que pedirmos, ou outra que julga nos ser mais útil. Por essa razão, o Profeta nos incita a rezar, afiançando-nos que Deus é todo misericórdia para aqueles que o invocam e recorrem a ele (Sl 85,5). Com mais eficácia, nos exorta o apóstolo São Tiago, dizendo que, quando rogamos a Deus, este nos concede mais do que se lhe pede, sem vingar-se das ofensas que lhe causamos (Tg 1,5). Ao ouvir nossas orações, parece esquecer nossas culpas. 

Diz São João Clímaco que a oração comove de algum modo a Deus e o obriga a conceder-nos o que lhe pedimos. É violência - escreve Tertuliano - mas violência que agrada ao Senhor e que a deseja de nós, pois, segundo diz Santo Agostinho, maiores desejos tem Deus de prodigalizar-nos os seus bens do que nós de recebê-los, porque Deus, por sua natureza, é a bondade infinita, conforme observa São Leão e se compraz sempre em comunicar-nos os seus bens. Disse Santa Maria Madalena de Pazzi que Deus contrai, de certo modo, obrigações com a alma que o implora, porque ela mesma oferece oportunidade ao Senhor de satisfazer o seu desejo de conceder-nos suas graças e seus favores. Davi afirmou que esta bondade do Senhor em ouvir-nos, quando lhe dirigimos as nossas súplicas, demonstrava-lhe que ele era o verdadeiro Deus (Sl 55,10). Adverte São Bernardo, que muitos se queixam de que Deus não lhes é propício; com maior razão se lamentar o Senhor de que muitos o ofendem e deixam de recorrer a ele para lhe pedir graças. Nosso Redentor disse, por isso, a seus discípulos: "Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, a fim de que vosso gozo seja completo" (Jo 16,24); ou seja: "não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos de vós mesmos que não me pedistes as graças que vos tenho preparado. Pedi, pois, e sereis satisfeitos".

Os antigos monges afirmaram que não há exercício mais proveitoso para alcançar a salvação do que a oração contínua, dizendo: Auxiliai-me, Senhor! Deus, in adjutorium meum intende. O venerável Padre Segneri, referindo-se a si mesmo, disse que costumava, em suas meditações, entregar-se largamente a afetos piedosos, mas que, depois, persuadido da grande eficácia da oração, procurava dedicar a ela a maior parte do tempo... Façamos nós também o mesmo, porque Deus nos ama ternamente, deseja a nossa salvação e se mostra solícito em ouvir as nossas súplicas. Os príncipes do mundo só a poucos dão audiência, disse São João Crisóstomo; mas Deus a concede a todos os que a pedem.


AFETOS E SÚPLICAS

Adoro-vos, Deus Eterno, e agradeço-vos todos os benefícios que me tendes concedido, especialmente criando-me, resgatando-me com o sangue de Jesus Cristo tornando-me filho da sua santa Igreja, esperando o meu arrependimento quando me achava no pecado e perdoando-me tantas vezes... Ah, meu Deus, nunca teria caído em pecado, se a vós tivesse recorrido nas tentações... Agradeço-vos também a luz que me fez reconhecer que toda a minha felicidade se funda na oração, na súplica dos dons de que necessitamos. Peço-vos, pois, em nome de Jesus Cristo, que me deis grande dor de meus pecados, a perseverança na vossa graça, uma morte boa e piedosa e, enfim, a glória eterna; sobretudo vos peço o sumo dom do vosso amor e a perfeita conformidade com a vossa vontade santíssima. Bem sei que não mereço esses favores, mas os oferecestes a quem os pedisse em nome de Jesus Cristo. E eu, pelos merecimentos de Jesus Cristo, vo-los peço e espero obtê-los...

Ó Maria, as vossas súplicas alcançam quando pedem. Orai por mim.


PONTO II 

Consideramos, além disso, a necessidade da oração. Afirma São João Crisóstomo que, assim como o corpo sem alma está morto, assim quem não reza se acha sem vida. Acrescenta ainda que tanto necessitam as plantas de água para não murcharem como nós da oração para não nos perdermos. Deus quer que nos salvemos todos e que ninguém se perca (1Tm 2,4). "Usa de paciência convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3,9). Quer, porém, que lhe peçamos as graças necessárias para nossa salvação, porque, de um lado, não podemos cumprir os preceitos divinos e salvar-nos sem o auxílio atual do Senhor e, de outro lado, Deus não nos quer dar, ordinariamente falando, essas graças, se lhes não perdimos. Por esta razão, disse o santo Concílio de Trento que Deus não impõe preceitos impossíveis, porque, ou dá-nos a graça próxima e atual necessária para cumpri-los, ou dá-nos a graça de pedir-lhe essa graça atual. Ensina-nos Santo Agostinho que Deus, as primeiras graças, tais como a vocação para a fé, ou da penitência, todas as demais e especialmente a perseverança, concede unicamente àqueles que as pedem.

Inferem daqui os teólogos, entre os quais São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Clemente de Alexandria e muitos outros, que a oração é necessária para os adultos, como necessidade de meio. Portanto, sem rezar, não é possível salvar-se. E isto, diz o doutíssimo Léssio, se deve considerar artigo de fé. 

Os testemunhos da Sagrada Escritura são concludentes e numerosos: "É preciso orar sempre. Orai, para não cairdes em tentação. Pedi e recebereis. Orai sem cessar". As citadas palavras "é preciso, orai, pedi", segundo a opinião geral dos teólogos com a do angélico São Tomás (3 p., q. 29, a. 5). têm força de preceito, o qual obriga sob pena de pecado grave, especialmente em dois casos: 1º quando o homem está em pecado; 2º quando está em perigo de pecar. Acrescentam ainda ordinariamente os teólogos que aquele que deixa de rezar por espaço de um mês ou mais tempo, não está livre de pecado mortal. (Veja-se Léssio no lugar citado). Como vimos acima, toda essa doutrina se baseia em que a oração é um meio sem o qual não é possível obter os socorros necessários para salvar-nos.

Pedi e recebereis. Quem pede alcança. Por conseguinte - diz Santa Teresa - quem não pede, não alcançará. E o apóstolo São Tiago exclama: Não alcançais, porque não pedis (Tg 4,2). A oração é particularmente necessária para obter a virtude da continência. "E como cheguei a entender que de outra maneira a não podia alcançar, se Deus não me desse... recorri ao Senhor e lhe roguei" (Sb 8,21). Resumindo o que ficou exposto, conclui-se que se salva aquele que reza e que se condena na certa aquele que não reza. Todos quantos se salvaram, o conseguiram por meio da oração. Todos quantos se condenaram, condenaram-se porque não rezaram. E a consideração de que, por meio da oração, teriam podido salvar-se facilmente e que já não é tempo de remediar o mal, aumentar-lhe-á seu desespero no inferno.


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pude, Senhor, viver até agora esquecido de vós? Pusestes à minha disposição todas as graças que deveria ter procurado; esperáveis somente que as pedisse; mas eu só pensei em contentar minha sensualidade, sem que me importasse ver-me privado do vosso amor e da vossa graça. Esquecei, Senhor, minha ingratidão e tende misericórdia de mim; perdoai-me as ofensas que vos fiz, e concedei-me a graça da perseverança, auxiliando-me sempre, ó Deus de minha alma, para que não torne a ofender-vos. Não permitais que me esqueça de vós, como vos desprezei no passado. Dai-me luz e força a fim de que me recomende a vós, especialmente quando o inimigo me provocar ao pecado. Concedei-me, meu Deus, esta graça pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelo amor que lhe tendes. Basta, Senhor, basta de ofensas. 

Quero amar-vos no restante de minha vida. Dai-me vosso santo amor e que esse amor me faça recorrer a vós sempre que me encontre em perigo de pecar... 

Maria Santíssima, minha esperança e meu amparo, pela vossa intercessão espero a graça de recomendar-me a vós e a vosso divino Filho em todas as tentações. Socorrei-me, minha Rainha, pelo amor que tendes a Jesus Cristo. 


PONTO III

Consideremos, finalmente, as condições da oração bem feita. Muitas pessoas rezam e não alcançam nada, porque não pedem como convém (Tg 4,3). Para bem rezar é preciso, primeiro que tudo, humildade.

"Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes dá sua graça" (Tg 4,6). Deus não ouve as petições do soberbo; mas nunca despreza a súplica dos humildes (Ecl 35,21), ainda que anteriormente tenham sido pecadores, "Não desprezarás, Senhor, um coração contrito e humilhado" (Sl 50,19). 

Em segundo lugar, é necessária a confiança. "Ninguém esperou no Senhor e foi confundido" (Ecl 2,11). Ensinou-nos Jesus Cristo que, ao pedirmos a Deus alguma graça, lhe demos o vocativo de Pai nosso, a fim de que lhe roguemos com aquela confiança que um filho tem ao recorrer ao seu próprio pai. Quem reza com confiança, tudo obtém. Para todas as coisas que pedirdes na oração, tende viva fé de consegui-las e vo-las serão concedidas (Mc 2,24). E quem pode ter receio, diz Santo Agostinho, de ser enganado na sua expectativa, se a promessa lhe foi feita pela própria Verdade, que é Deus? Deus não é como os homens, que, às vezes, deixam de cumprir o que prometem, ou porque mentiram quando prometeram, ou porque mudaram depois de vontade (Nm 23,19). Se o Senhor - acrescenta Santo Agostinho - não quisesse conceder-nos as suas graças, para que nos havia de exortar continuamente a pedir-lhes? Prometendo, contraiu a obrigação de nos conceder as graças que lhe suplicarmos.

Talvez pense alguém que, por ser pecador, não merece ser atendido.

Mas responde São Tomás que a oração, por meio da qual pedimos graças, não se funda em nossos méritos, mas na misericórdia divina. 

"Todo aquele que pede, recebe (Lc 11,10); isto é, todos, sejam justos ou pecadores". O próprio Redentor nos tirou todo o temor e desvaneceu toda dúvida, dizendo: "Em verdade, em verdade vos digo que o Pai vos dará tudo o que pedirdes em meu nome" (Jo 16,23); ou seja: se careceis de merecimentos, eis que aqui estão os meus; servi-vos deles junto a meu Pai. Pedi em meu nome, e eu vos prometo que alcançareis o que pedirdes..." É preciso observar, entretanto, que tal promessa não se refere às dádivas temporais, como saúde, fortuna e outros, porque o Senhor, muitas vezes, nos nega estes bens, prevendo que iriam de encontro à nossa salvação. O médico conhece melhor do que o doente o que lhe é proveitoso, diz Santo Agostinho; e acrescenta que Deus recusa a alguns, por misericórdia, o que a outros concede sob a condição de serem convenientes ao bem da alma. As espirituais, como o perdão, a perseverança, a amor de Deus e outras graças semelhantes, ao contrário, devem pedir-se absolutamente e com firme confiança de obtê-las.

"Se vós, posto que maus, disse Jesus Cristo, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará espírito bom aos que lhe pedirem?" (Lc 11,13).

É necessária, sobretudo, a perseverança. Disse Cornélio a Lápide que o Senhor "quer que perseveremos na oração até que sejamos importunos" (In Lc 11); o que a Sagrada Escritura exprime com os textos seguintes: "É preciso orar sempre". - "Vigiai, pois, orando sem cessar". 

- "Orai sem intermissão" (Lc 18,1; 21,36; 1Ts 5,17); o mesmo diz esta passagem: "Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á (Lc 11,9). Bastava dizer: pedi, mas o Senhor quis demostrar-nos que devemos proceder como os mendigos, que não cessam de pedir, de insistir e de bater à porta, até que, por fim, recebam a esmola. A perseverança final é especialmente uma graça que não se alcança sem oração contínua. Por nós mesmos, não podemos merecer essa graça, mas por meio da oração, disse Santo Agostinho, de algum modo a merecemos.

Rezemos sempre, e não cessemos de rezar, se nos quisermos salvar. Os confessores e pregadores não se cansam de exortar-nos à oração, se desejarmos salvar nossas almas. E, segundo a recomendação de São Bernardo, recorramos sempre à intercessão de Maria Santíssima. "Impetremos a graça, mas impetremo-la pela intercessão de Maria, que tudo alcança e que não pode enganar-se". 


AFETOS E SÚPLICAS

Espero, Senhor, que já me tenhais perdoado; entretanto, os meus inimigos não deixarão de me combater até à hora da morte. Se não me valerdes, tornarei a perder-me. Pelos merecimentos de Cristo, peço-vos a santa perseverança. Não permitais que me aparte de vós. E o mesmo favor vos peço para todos os que estão na vossa graça. Confiado em vossa promessa, estou certo de que me concedereis a perseverança, se continuar a vo-lo pedir. E, contudo, receio, Senhor, deixar de recorrer a vós nas tentações e recair, por isso, no pecado. Rogo-vos, pois que me concedais a graça de jamais deixar de rezar. Fazei que nos perigos de pecar me recomende a vós e invoque em meu auxílio os nomes de Jesus e de Maria. É isto, meu Deus, estou resolvido a praticar e assim espero consegui-lo mediante a vossa graça. Atendei-me, pelo amor a Jesus Cristo...

E vós, Maria, nossa Mãe, alcançai-me que, nos perigos de perder a Deus, recorra sempre a vós e a vosso divino Filho.

_________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte.

fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555427830575/

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Da glória



 Tristitia vestra vertetur in gandium.

Vossa tristeza há de converter-se em alegria (Jo 16,20).

PONTO I

Procuremos sofrer com paciência as aflições da vida presente, oferecendo-as a Deus, em união com as dores que Jesus Cristo sofreu por nosso amor e alertando-nos com a esperança da glória. Esses trabalhos, penas, angústias, perseguições e temores hão de acabar um dia e, se nos salvarmos, serão para nós motivos de gozo e alegria inefável no reino dos bem-aventurados. É o próprio Senhor que nos anima e consola: "Vossa tristeza há de converter-se em alegria" (Jo 16,20).

Meditemos, portanto, sobre a felicidade da glória... Mas que diremos desta felicidade, quando nem os Santos mais inspirados souberam dar uma idéia acertada das delícias que Deus reserva aos que o amam?...

Davi apenas soube dizer que a glória é o bem infinitamente desejável... (Sl 83,2).

E tu, insigne São Paulo, que tiveste a dita de ser arrebatado ao céu, dize-nos alguma coisa ao menos do que viste ali! Não, - respondeu o grande Apóstolo, - o que vi não é possível exprimir. Tão sublimes são as delícias da glória, que não pode compreendê-las quem não as desfruta (2 Cor 12,9). Tudo o que posso dizer, é que ninguém nesta terra viu, nem ouviu, nem compreendeu as belezas, as harmonias e os prazeres que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9). 

Neste mundo, não somos capazes de imaginar os bens do céu, porque só formamos idéia do que o mundo nos apresenta... Se, por maravilha excepcional, um ser irracional fosse dotado de razão e soubesse que um rico senhor ia celebrar esplêndido banquete, imaginaria que o respasto haveria de ser o melhor e o mais seleto, mas semelhante do que ele usa, porque não poderia conceber nada melhor como alimento. 

Assim acontece conosco relativamente aos bens da glória... Quanto é belo contemplar, em serena noite de verão, a magnificiência do firmamento recamado de estrelas! Quão agradável é admirar as águas tranquilas de um lago transparente, em cujo fundo se descobrem peixes a nadar e pedras cobertas de musgo! Quanta formosura num jardim cheio de flores e de frutos, circundado de fontes e riachos, matizado por lindos passarinhos, que cruzam o ar e o alegram com seu canto mavioso!... Dir-se-ia que tantas belezas são o paraíso... Mas não! Muitos diferentes são os gozos e a formosura do paraíso. Para deles fazermos uma vaga idéia, consideremos que ali está Deus onipotente, enchendo de delícias inenarráveis as almas que ele ama...Quereis saber o que é o céu? - dizia São Bernardo, - pois sabei que ali não há que desagrade, e existe todo bem que deleita. 

Que dirá a alma quanto entrar naquela mansão felicíssima?... Imaginemos um jovem ou uma virgem, que, tendo consagrado toda a sua vida ao amor e ao serviço de Cristo, acaba de morrer e deixa este vale de lágrimas. Sua alma apresenta-se ao juízo; o juiz a acolhe com bondade e lhe declara que está salva. O anjo da guarda a acompanha e felicita, e ela lhe mostra sua gratidão pela assistência que recebeu dele. 

"Vem, pois, alma querida, diz-lhe o anjo; regozija-te porque estás salva. Vem contemplar a face do Senhor!" E a alma se eleva, transpõe as nuvens, passa além das estrelas, e entra no céu... Meu Deus!... Que sentirá a alma ao penetrar, pela primeira vez, naquele reino de venturas e vir aquela cidade de Deus, insuperável em formosura?... Os anjos e os santos a receberem alegres e lhe dão amorosas boas-vindas... Ali encontrará, sob indizível júbilo, os seus santos padroeiros e os parentes e amigos que a precederam na vida eterna. A alma quererá prostrar-se diante deles, mas estes a impedirão, recordando-lhe que são também servos do Senhor (Ap 22,91). Levá-la-ão depois a beijar os pés da Santíssima Virgem, Rainha dos céus. A alma sentirá imenso delíquio de amor e de ternura vendo, pela primeira vez, sua excelsa e divina Mãe que tanto lhe ajudou a salvar-se e que agora lhe estende amorosamente os braços, fazendo-lhe reconhecer perante nosso Rei Jesus Cristo, que a receberá como esposa amantíssima, e lhe dirá: "Vem do Líbano, minha esposa; vem e serás coroada" (Ct 4,8); alegra-te e consola-te, que passaram já as lágrimas, as penas e os temores; recebe a coroa inacessível que te alcancei a preço de meu sangue..." Jesus a apresentará ao Pai Eterno que lhe lançará a sua bênção, dizendo: Entre na alegria do teu Senhor (Mt 25,21) e lhe comunicará uma bem-aventurança sem fim, com felicidade semelhante à que ele goza. 


AFETOS E SÚPLICAS

Eis aqui, Senhor, a vossos pés um ingrato que criastes para a glória, mas que tantas vezes, por indignos prazeres, renunciou a ela, preferindo ser condenado ao inferno... Espero que já me tenhais perdoado todas as ofensas que vos fiz e das quais sempre de novo me arrependo, querendo renovar sem cessar o meu arrependimento até à morte, a fim de que renoveis o vosso perdão... Mas, ó meu Deus! mesmo que já me tenhais perdoado, não é menos certo que tive a audácia de desagradar-vos, meu Redentor, que, para me levar ao vosso reino, sacrificastes a vida. Seja sempre louvada e bendita vossa misericórdia, meu Jesus, que com tanta paciência me tendes aturado e que, longe de me punir, só tendes multiplicado para mim graças, inspirações e convites. 

Reconheço, meu amado Salvador, que desejais a minha salvação e que me chamais à pátria celestial para ali vos amar eternamente; mas quereis também que antes disso vos consagre meu amor neste mundo...

Quero amar-vos, meu Deus, e, mesmo que não houvesse glória, quisera amar-vos enquanto vivesse, com todas as minhas forças. Basta-me saber que vós o desejais assim... Ajudai-me, meu Jesus, com vossa graça e não me abandoneis... Minha alma é imortal; estou, pois, na alternativa de amar-vos ou de aborrecer-vos eternamente. Que hei de preferir senão amar-vos sempre, consagrar-vos meu amor nesta vida, para que na vida futura esse amor perdure sem fim...  Disponde de mim como vos aprouver; castigai-me como quiserdes; não me priveis, porém, do vosso amor e fazei de mim o que vos parecer... Meu Jesus, vossos merecimentos são minha esperança...

Ó Maria, confio em vossa intercessão! Livrastes-me do inferno quando me achava em pecado; agora que amo a Deus, não deixareis de salvar-me e santificar-me.


PONTO II

Depois que a alma entra a gozar a divina beatitude, não terá mais nada a sofrer. "Deus enxugará todas as lágrimas de seus olhos, e já não haverá morte, nem pranto, nem gemido, nem dor, proque as primeiras coisas passaram. E o que estava sentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas" (Ap 21, 4-5). Não existe ali a sucessão de dias e noites, de calor e frio, mas um dia perpétuo sempre sereno, contínua primavera deliciosa e perene. Não há perseguições nem ciúmes, porque nesse reino de amor todos se amam com ternura, e cada um goza da felicidade dos demais como se fosse sua própria. 

Desconhecem-se ali angústias e temores, porque a alma confirmada na graça já não pode pecar nem perder a Deus. Todas as coisas ostentam renovada e completa formosura (Ap 21,5), e todas satisfazem e consolam. Os olhos deslumbrar-se-ão na admiração daquela cidade de perfeita beleza. Que delicioso espetáculo seria vermos uma cidade cujas ruas fossem calçadas de terso e límpido cristal e cujas vivendas, de prata brunida, fossem cobertas de ouro puríssimo e ornadas de grinaldas de flores... Quanto mais belas é ainda a cidade de glória! Como será agradável ver os seus felizes moradores vestidos com pompa real, porque, segundo diz Santo Agostinho, todos são reis! Que prazer será contemplar a Virgem Santíssima, mais bela que o próprio céu; e o Cordeiro imaculado, Nosso Senhor Jesus Cristo, divino esposo das almas! Santa Teresa conseguiu ver, certo dia, apenas uma das mãos do Redentor e ficou maravilhada à vista de tanta beleza... Nas moradas celestiais recenderão suavíssimos perfumes, aromas de glória, e se ouvirão músicas e cânticos de sublime harmonia... São Francisco ouviu, certa vez, por breves instantes, a execução dessa harmonia angélica e julgou morrer dulcíssimo prazer... Que será, pois, a audição dos coros de anjos e santos, que, conjuntamente, cantam as glórias divinas (Sl 83,5), e a voz puríssima da Virgem Imaculada que louva o seu Deus!...

Como o canto do rouxinol num bosque excede e supera ao das demais aves, assim é a voz de Maria no céu... Numa palavra: haverá na glória todas as delícias que se podem desejar. 

Mas esses prazeres até aqui considerados são apenas os menores bens do céu. O bem essencial da glória é o bem supremo: Deus. A recompensa que o Senhor nos promete não consiste unicamente na beleza, na harmonia e nos encantos daquela cidade bem-aventurada; a recompensa principal é Deus, mesmo, é amá-lo e contemplá-lo, face a face (Gn 15,1). Assegura Santo Agostinho que, se Deus mostrasse seu rosto aos condenados, "o inferno se transformaria de súbito em delicioso paraíso". E acrescenta que, se fosse dada a uma alma, ao sair deste mundo, a escolha de ver a Deus, ficando no inferno, ou de não vê-lo e livrar-se das penas infernais, "preferiria, sem dúvida, a visão de Deus ainda que com os tormentos eternos".

A felicidade de amar a Deus e vê-lo face a face não podemos compreender cabalmente neste mundo. Procuremos, porém, avaliá-la de alguma maneira, considerando que os atrativos do divino amor, mesmo na vida mortal, chegam a arrebatar não somente a alma, mas até o corpo dos santos. São Felipe Néri foi uma vez arrebatado ao ar juntamente com o banco em que estava sentado. São Pedro de Alcântara elevou-se também sobre a terra abraçado a uma árvore, cujo tronco se separou da raiz. Sabemos, além disso, que os santos mártires, graças à suavidade e doçura do amor divino, se regozijam no meio dos seus atrozes padecimentos. São Vicente, durante o seu martírio, falava de tal modo - diz Santo Agostinho - "que não parecia ser o mesmo que estava falando e o que estava sofrendo". São Lourenço, estendido sobre as grelhas em fogo, dizia ao tirano com assombrosa serenidade: Vira-me e devora-me, porque, como observa Santo Agostinho, Lourenço "incendido do amor divino, não sentia o fogo material que o devorava". 

Além disso, quão suave doçura encontra o pecador ao chorar as suas culpas! Se tão doce é chorar por ti - exclama São Bernardo - o que não será gozar de ti? Que inefável consolação que não sente a alma, quando um raio de luz celeste descobre, durante a oração, algo da bondade e da misericórdia divina, do amor que lhe teve e ainda tem Nosso Senhor Jesus Cristo! Parece-lhe que a alma se consome e desfale de amor. E, no entanto, neste mundo não vemos a Deus tal qual é; divisamo-lo entre sombras. Presentemente, temos uma venda ante os olhos e Deus se nos oculta sob o véu. Que sucederá, porém, quando desaparecer essa venda e se rasgar aquele véu, e nossos olhos virem quanto Deus é belo, quanto é grande e justo, perfeito, amável e amoroso? (1Cor 13,12).


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Sumo Bem, eu sou aquele desgraçado que tantas vezes se apartou de vós e renunciou ao vosso amor. Não mereço ver-vos nem amar-vos. Mas vós, Senhor, sois aquele que, compadecendo-vos de mim, não tivestes compaixão de vós mesmo e vos condenastes à morte dolorosa do madeiro infamante e afrontoso. Espero que, por vossa morte, terei algum dia a dita de ver-vos e de gozar de vossa presença, amando-vos com todo o meu ser. Agora que estou ainda em risco de vos perder para sempre, tendo-vos já perdido por meus pecados, que farei no resto da vida? Continuarei a ofender-vos?... Não, meu Jesus; detesto as ofensas que vos fiz. Pesa-me de vos ter ofendido e vos amo de todo o meu coração... Repelireis uma alma que se arrepende e vos ama? Não. Bem sei que dissestes, amantíssimo Redentor, que não sabeis repelir aqueles que, arrependidos, recorrem a vós (Jo 6,37).

Renuncio a tudo, meu Jesus; entrego-me a vós; abraço-vos e vos aperto ao coração. Abraçai-me e apertai-me também ao vosso Coração sacratíssimo... Ouso falar-vos assim, por que falo e trato com a Bondade infinita, com um Deus que morreu por meu amor. Meu caríssimo Redentor, dai-me a perseverança no vosso santo amor.

Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe, alcançai-me a graça da perseverança, em atenção ao grande amor que tendes a Cristo Jesus. Assim o espero, e assim seja. 


PONTO III

A maior tribulação, que neste mundo aflige as almas que amam a Deus, é a de se acharem desoladas e sem consolo; é o receio de não o amarem e não serem amadas por ele (Ecl 19,1). No céu, porém, a alma está certa de que se acha venturosamente abismada no amor divino, e de que o Senhor a abraça como filha predileta, sem que esse amor jamais possa acabar-se. Ao contrário, essas chamas se hão de intensificar ainda mais na alma com o conhecimento mais perfeito que terá então do amor que impeliu Jesus a morrer por nós e a instituir o Santíssimo Sacramento, no qual Deus mesmo se dá como alimento ao homem. Verá a alma distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas tentações e perigos de perder-se, e reconhecerá que aquelas tribulações, enfermidades, perseguições e reveses, que chamara desgraças e tivera por castigos, eram manifestações do amor de Deus e meios que a Divina Providência punha em prática para a levar ao Paraíso. Reconhecerá, primordialmente, a paciência que Deus teve em esperá-la depois de tê-lo ofendido tanto, e a nímia misericórdia de conceder-lhe não só o perdão, mas ainda cumulá-la de luzes e convites amorosos. Daquelas alturas venturosas, verá que existem no inferno muitas almas condenadas por culpas menores que as suas e aumentar-se-lhe-á a gratidão por ter-se santificado, gozar da posse de Deus e jamais perder o Bem soberano e infinito. 

O bem-aventurado gozará eternamente dessa felicidade incomparável que a cada instante lhe parecerá nova, como se então a começasse a desfrutar. Desejará ter sempre essa felicidade e a possuirá sem cessar: sempre desejosa e sempre satisfeita; sempre ávida e sempre saciada. O desejo, no paraíso da glória, não vai acompanhado de temor, nem o gozo engendra nenhum enfado. Em suma: assim como os réprobos são vasos de ira, assim os eleitos são vasos de júbilo e de felicidade, de sorte que nada lhes resta a desejar. Diz Santa Teresa, que, mesmo aqui na terra, quando Deus admite as almas em sua adega, isto é, no seu amor divino, as embriaga de tal felicidade que perdem toda a afeição às coisas terrenas. Mas, no céu, muito mais perfeita e plenamente os eleitos de Deus, segundo diz Davi, serão embriagados na abundância de sua casa. A alma, então, face a face com o seu Senhor e unindo-se ao Sumo Bem, presa de amoroso delíquio, abismar-se-á em Deus e, esquecida de si mesma, só pensará em amar, louvar e bendizer o Bem infinito que possui. 

Quando as cruzes da vida nos oprimem, esforcemo-nos por suportá-las pacientemente com a esperança do céu. À hora da morte, o abade Zósimo perguntou a Santa Maria Egipcíaca, como tinha podido viver tantos anos no deserto, ao que a Santa respondeu: - Com a esperança na glória...  Quando ofereceram a São Felipe Néri a dignidade de cardeal, atirou para longe de si o barrete, exclamando: O céu, o céu é que eu desejo. Frei Gil, religioso franciscano, elevava-se extático, cada vez em que ouvia o nome do paraíso celeste. Pois bem! quando nos atormentarem e angustiarem as misérias deste mundo, levantemos os olhos ao céu e consolemo-nos com a esperança da felicidade eterna. 

Consideremos que, sendo fiéis a Deus, hão de em breve acaba-se todos esses trabalhos, essas misérias e inquietações, e seremos admitidos à pátria celestial, onde viveremos plenamente felizes, enquanto Deus for Deus. Ali nos esperam os Santos, ali a Virgem Santíssima, ali Jesus Cristo nos prepara a coroa inacessível do reino da eterna glória. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu querido Salvador, vós mesmo me ensinaste a rezar deste modo: Adveniat regnum tuum. Suplico-vos, pois, Senhor, que venha o vosso reino à minha alma, de maneira que tomeis dela posse completa e que ela vos possua a vós, como Bem sumo e infinito. Meu Jesus, nada poupastes para salvar-me e para conquistar o meu amor. Salvai-me, pois. Seja minha salvação amar-vos sempre nesta e na vida eterna. 

Apesar de tantas vezes vos ter abandonado, sei que não desdenhareis de abraçar-me eternamente no céu com tanta ternura como se nunca vos tivesse ofendido. E sabendo disso, como não poderia eu amar-vos sobre todas as coisas, a vós, que me quereis dar o paraíso, apesar de que tantas vezes merecesse o inferno?... Oxalá, Senhor, nunca vos tivesse ofendido! Se pudesse renascer, quisera amar-vos sempre!... Mas o que está feito, está feito. Só posso oferecer-vos o restante da minha vida. Sem reserva, vo-la dou; consagro-me inteiramente ao vosso serviço...

Saí do meu coração, afetos terrestres, dai lugar ao meu Deus e Senhor, que o quer possuir unicamente!... Todo ele é vosso, meu Redentor, meu Amor e meu Deus. De hoje em diante, só quero pensar em vos ser agradável. Ajudai-me com a vossa graça: assim o desejo eficaz de servir-vos... Ó glória, ó céu!... Quando vos poderei ver face a face, Senhor?...

Meu Deus, guiai-me e protegei-me para que jamais vos ofenda!...

Ó Maria Santíssima, quando me verei a vossos pés na glória do paraíso? Socorrei-me, minha Mãe; não permitais que me condene e que me veja longe de vós e do vosso divino Filho.

____________________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Remorsos do condenado



Vermis eorum non moritur.

O seu verme não morre (Mc 9,47).


PONTO I

Este verme que não morre nunca significa, segundo São Tomás, o remorso de consciência dos réprobos, o qual há de atormentá-los eternamente no inferno. Muitos serão os remorsos com que a consciência roerá o coração dos condenados. Mas há três que principalmente os atormentarão, a saber: o pensar no nada das coisas pelo qual o réprobo se condenou, no pouco que tinha a fazer para salvar-se e no grande Bem que perdeu. Depois que Esaú tinha comido o prato de lentilhas, preço do seu direito de primogenitura, ficou tão magoado por ter consentindo na perda que, conforme a Escritura, pôs-se a rugir... (Gn 27,34). Que gemidos e clamores soltarão os réprobos ao ponderar que, por prazeres fugidios e envenenados, perderam um reino eterno de felicidade, e se vêem condenados para sempre a contínua e interminável morte! Chorarão mais amargamente que Jônatas, sentenciado a morrer por ordem de Saul, seu pai, sem ter cometido outro delito do que provar um pouco de mel (1Rs 14,43). Que pesar sofrerá o condenado ao recordar-se da causa de sua ruína!... Sonho de um instante nos parece nossa vida passada. O que hão de parecer ao réprobo os cinquenta ou sessenta anos de sua vida terrena, quando se encontra na eternidade, onde, depois de terem decorrido cem ou mil milhões de anos, vir que então aquela sua vida está começando? E, além disso, os cinquenta anos de vida na terra são, acaso, cinquenta anos de prazer? O pecador que vive sem Deus goza sempre de doçuras em seu pecado? Um momento só dura o prazer culpável; no demais, para quem vive separado de Deus, é tempo de penas e aflições... Que serão, portanto, para o infeliz réprobo esses breves momentos de deleite? Que lhe parecerá, particularmente, o último pecado pelo qual se condenou?... "Por um vil prazer que durou apenas um instante e que como o fumo se dissipou, exclamará, hei de arder nestas chamas, desesperado e abandonado, enquanto Deus for Deus, por toda a eternidade!"


AFETOS E SÚPLICAS

Dai-me luz, Senhor, a fim de reconhecer minha maldade em ofender-vos e a pena eterna que por ela mereci. Sinto, meu Deus, grande dor de ter-vos ofendido, mas essa dor me consola e alivia. Se me tivésseis precipitado no inferno, como mereci, o remorso seria ali o meu maior castigo que provocaram minha eterna desgraça. Agora, porém, a dor reanima, consola e me infunde esperança de alcançar perdão, que oferecestes ao que se arrepende. 

Meu Deus e Senhor, arrependo-me de vos ter ultrajado; aceito com alegria essa pena dulcíssima da dor de minhas culpas, e vos rogo que aumenteis e conserveis até à morte, a fim de que não deixe de deplorar um só instante os meus pecados... Perdoai-me, meu Jesus e Redentor, que, por terdes misericórdia de mim, não a tivestes de vós mesmo, e vos condenastes a morrer de dor para livrar-me do inferno. Tende piedade de mim! Fazei, portanto, que meu coração se conserve sempre contrito e inflamado no vosso amor, pois que tanto me tendes amado e aturado com tanta paciência, a ponto de, em vez de castigar-me, me cumulardes de luz e de graça... Agradeço-vos, meu Jesus, e vos amo de todo o coração. 

Não sabeis desprezar a quem vos ama; peço, pois, que não aparteis de mim o vosso rosto divino. Acolhei-me na vossa graça e não permitais que torne a perdê-la...

Maria, Mãe e Senhora nossa, recebei-me como vosso servo e uni-me a vosso Filho Jesus. Suplicai-lhe  que me perdoe e que me conceda, juntamente com o dom do seu amor, a graça da perseverança final.


PONTO II

Diz São Tomás que o principal tormento dos condenados será a consideração de que se perderam por verdadeiros nadas, e que podiam ter alcançado facilmente, se o quisessem, o prêmio da glória. O segundo remorso de sua consciência consistirá, portanto, no pensar quão pouco cumpria para salvar-se. Um condenado que apareceu a Santo Humberto revelou-lhe que sua maior aflição no inferno era reconhecer a indignidade do motivo que o levara à condenação e a facilidade com que poderia ter evitado. O réprobo dirá então: "Se me tivesse mortificado para não olhar aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano ou tal amizade, não me teria condenado... Se me tivesse confessado todas as semanas, se tivesse frequentado as asssociações piedosas, se tivesse feito todos os dias leitura espiritual e se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído em minhas culpas... 

Muitas vezes, resolvi fazer tudo isso, mas, infelizmente, não perseverei. 

Dava começo à pratica do bem, mas, em breve, desprezei o caminho encetado. Por isso, me perdi".

Aumentará o pesar causado por este remorso a lembrança dos exemplos de companheiros virtuosos e de amigos do condenado, assim como dos dons que Deus lhe concedeu para salvar-se: dons naturais, como boa saúde, fortuna e talento, que, bem aproveitados segundo a vontade de Deus, teriam servido para a santificação; dons sobrenaturais, como luzes, inspirações, convites, largos anos para reparar as faltas cometidas. O réprobo, porém, deverá reconhecer que, no estado em que se acha, já não há remédio. Ouvirá a voz do Anjo do Senhor, que exclama e jura: "por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que já não haverá tempo..." (Ap 10, 5-6). Como espadas agudas atuarão sobre o coração do condenado as recordações de todas as graças que recebeu, quando vir que já não é possível reparar a ruína eterna. Exclamará com seus companheiros de desespero: "Passou a ceifa, findo o estio, e nós não fomos salvos" (Jr 8,20). Se tivesse empregado no serviço de Deus o tempo e o trabalho passado em perder-me, teria sido santo... E, agora, que me restam, senão remorsos e mágoas sem fim? Sem dúvida, o pensamento de que poderia ser eternamente feliz e que será para sempre desgraçado, atormentará mais terrivelmente o condenado do que todos os demais castigos infernais. 


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pudestes, meu Jesus, aturar-me tanto tempo? Tantas vezes que me apartei de vós, outras tantas viestes procurar-me; ofendi-vos e me perdoastes; voltei a ofender-vos e novamente me concedestes perdão... Fazei, Senhor, que participe da dor amarga que, sob suores de sangue, sofrestes por meus pecados no horto de Getsêmani. Arrependo-me, caríssimo Redentor, de ter tão indignamente desprezado o vosso amor... Malditos prazeres, detesto-vos e vos amaldiçôo, porque me fizestes perder a graça de Deus!... Meu diletíssimo Redentor, amo-vos sobre todas as coisas; renuncio a todas as satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que tornar a ofender-vos... Pelo afeto com que me amastes na cruz e oferecestes a vida por mim, concedei-me luz e força para resistir à tentação e pedir vosso poderoso auxílio...

Ó Maria, meu amparo e minha esperança, que tudo podeis conseguir de Deus, alcançai-me a graça de que não me aparte nunca mais de seu amor santíssimo! 


PONTO III

Considerar o grande Bem que perderam, será o terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segundo São João Crisóstomo, será mais grave pela privação da glória do que pelos próprios tormentos do inferno. 

"Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renunciarei gostosamente ao seu paraíso", disse a infeliz princesa Isabel da Inglaterra...

Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certamente, não pensará o mesmo. Que aflição e que desespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos entre angústias e temores, gozando um torno temporal, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior aflição, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por acidentes de má sorte nem pela malevolência de outros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livremente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre vontade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como se salvaram muitos de seus companheiros que, não obstante terem de passar por perigos idênticos ou maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendando-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levantar-se e se consagraram novamente ao serviço do Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair desastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos, onde não existe a esperança.

Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, para não renunciar a um mísero deleite, preferiste perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir chorá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações que lês sejam o último apelo de Deus? Se não mudares de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eternamente entre aquela multidão de insensatos que agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam desesperados, porque não ignoram que é irremediável. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no inferno e recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio inferno. "Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás jamais" (Eclo 7,40), porque esse pensamento te fará recorrer a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, soberano Bem! Quantas vezes vos perdi por um nada, e quantas vezes mereci perder-vos para sempre! Reanimam-me e consolam-me, entretanto, aquelas palavras do Profeta: "Alegra-se o coração dos que buscam ao Senhor" (Sl 104,3). Não devo, pois, perder a esperança de recuperar vossa graça e vossa amizade, se vos procuro com sinceridade.

Sim, meu Senhor, suspiro por vossa graça mais que por qualquer outro bem. Prefiro ver-me privado de tudo, até a vida, a perder o vosso amor. Amo-vos, meu Criador, amo-vos sobre todas as coisas; e porque vos amo pesa-me de vos ter ofendido... Meu Deus, desprezei-vos e perdi-vos; perdoai-me e permiti que vos encontre, porque não quero tornar a vos perder. Admiti-me de novo na vossa amizade e abandonarei tudo para amar unicamente a vós. Assim o espero da vossa misericórdia...

Pai Eterno, ouvi-me; por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e concedei-me a graça de nunca mais me separar de vós. Se de novo e voluntariamente vos tornasse a ofender, teria justa razão para recear que me abandonásseis...

Ó Maria, a esperança dos pecadores, reconciliai-me com o meu Deus e guardai-me debaixo do vosso manto, a fim de que nunca mais me separe do meu Redentor. 

___________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte




domingo, 19 de abril de 2026

Da eternidade do inferno


 

Et ibunt hi in supplicium aeternum.

E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave. 

Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.

E se durasse um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10). 

Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. - E irão estes ao suplício eterno. - Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo" (Mt 25, 41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. "Ali o fogo consome de tal modo -  disse São Bernando - que conserva sempre".

Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo. 

Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: "Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais".


AFETOS E SÚPLICAS

Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...

E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender. 

Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.

Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos. 

Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça. 

Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança. 


PONTO II

Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei Davi exclamava trêmulo: "Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca" (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: "O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos". Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinquente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. "Uns para a vida eterna, e outros para o opróbio que terão sempre diante dos olhos" (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade. 

"O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre". "Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade". 

Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: "Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade". Os castigos da vida presente são transitórios: "As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou" (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". Diz a Escritura em roda, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).

Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? "Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea". Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração. 

Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48, 8-9). "Ali a culpa - disse o Belluacense - poderá ser castigada, mas jamais expiada" (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, "ali o pecador é incapaz de arrependimento". 

O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: "Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perveserança do ódio". São Jerônimo afirma que "no réprobos, o desejo de pecar é insaciável" (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).


AFETOS E SÚPLICAS

Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso  desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...

Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me contra Deus e contra vós!


PONTO III

No inferno, o que mais se deseja é a morte. "Buscarão os homens a morte e não a encontrarão" (Ap 9,6). Por isso, exclama São Jerônimo.

"Ó morte, quão agradável serias àqueles para quem foste tão amarga!". Disse Davi que a morte se apascentará com os réprobos (Sl 48,15). E explica-o São Bernardo, acrescentando que, assim como, ao pastar, os rebanhos comem apenas as pontas das ervas e deixam a raiz, assim a morte devora os condenados, mata-os a cada instante e conserva-lhes a vida para continuar a atormentá-los com castigo eterno. 

De sorte que, diz São Gregório, o réprobo morre continuamente sem morrer nunca. Quando um homem sucumbe de dor, todos têm compaixão dele. Mas o condenado não terá quem dele se compadeça. 

Estará sempre a morrer de angústia e não encontrará comiseração... O imperador Zenão, sepultado vivo numa masmorra, gritava e pedia que, por piedade, o retirassem dali, mas não o atenderam e, depois, o encontraram morto. As mordeduras que a si mesmo havia feito nos braços, patenteavam o horrível desespero que sentira... Os condenados, exclama São Cirilo de Alexandria, gritam no cárcere infernal, mas ninguém acode a libertá-los, ninguém deles se compadecerá jamais. 

E quanto tempo durará tão triste estado?... Sempre, sempre. Lê-se no Exército Espirituais, do Pe. Segneri, publicados por Muratori, que, em Roma, se interrogou a um demônio (na pessoa de um possesso), quanto tempo devia ficar no inferno... Respondeu com raiva e desespero: Sempre, sempre!... Foi tal o terror que se apoderou dos circunstantes, que muitos jovens do Seminário Romano, ali presentes, fizeram confissão geral, e sinceramente mudaram de vida, consternados por esse breve sermão de duas palavras apenas...

Infeliz Judas!... Há mais de mil e novecentos anos que já está no inferno e, não obstante, se diria que seu castigo apenas vai em princípio!... 

Desgraçado Caim!... Há cerca de seis mil anos que sofre o suplício infernal e pode-se dizer que ainda se acha no princípio de sua pena! Um demônio a quem perguntaram quanto tempo estava no inferno, respondeu: Desde ontem. E como se lhe replicou que isso não era possível, porque sua condenação já transcorrera há mais de cinco mil anos, exclamou: "Se soubésseis o que é a eternidade, compreenderíeis que, em comparação a ela, cinquenta séculos nem sequer chegam a ser um instante". 

Se um anjo fosse dizer a um réprobo: "Sairás do inferno quando se tiverem passado tantos séculos quantas gotas houver de água na terra, folhas nas árvores e areia do mar", o réprobo se regozijaria tanto como um mendigo que recebesse a nova de que ia ser rei. Com efeito, passarão todos esses milhões de séculos e outros inumeráveis a seguir, e contudo o tempo de duração do inferno estará sempre no seu começo...

Os réprobos desejariam propor a Deus que lhes aumentasse quanto quisesse a intensidade das penas e as prolongasse tanto quanto fosse. 

Esse fim e essa limitação, entretanto, não existe nem existirão. A voz da divina justiça só repete no inferno as palavras sempre, nunca! Os demônios, por escárnio, perguntarão aos réprobos: "Vai muito adiantada a noite?" (Is 21,11). Quando amanhecerá? Quando acabarão essas vozes, esses prantos, essa infecção, esses tormentos e essas chamas? E os infelizes responderão: Nunca! Nunca!... Mas quanto tempo hão de durar?... Sempre! Sempre!... Ah, Senhor! Iluminai a tantos cegos que, sendo advertidos para tratare de sua salvação, respondem: "Deixai-nos. Se formos para o inferno, que havemos de fazer?... Paciência?..." Meu Deus! não têm paciência para suportar, às vezes, os incômodos do calor e do frio, nem para sofrer uma leve ofensa, e hão de ter paciência, depois, para serem mergulhados num mar de fogo, suportar tormentos diabólicos o abandono absoluto de Deus e de todos, durante toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Pai das misericórdias! Nunca abandonais a quem vos procura. Se na vida tantas vezes me apartei de vós sem que me abandonasses, não me desprezeis agora que vos procuro. Pesa-me, Sumo Bem, de ter feito tão pouco caso de vossa graça, trocando-a por coisas de somenos valor. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz que clama perdão para mim. Perdoai-me, pois, Senhor... E vós, meu Redentor, recordai-me sempre os sofrimentos que por mim passastes, o amor que me tendes e a minha ingratidão, que tantas vezes me fez merecer a condenação eterna, a fim de que chore minhas culpas e viva ardendo em vosso amor... Ah, meu Jesus! Como não hei de abrasar-me em vosso amor ao pensar que há muitos anos já devia estar queimando nas chamas infernais durante toda a eternidade, e que vós morrestes para me livrar das mesmas e efetivamente me livrastes com tão grande misericórdia? Se estivesse no inferno vos aborreceria eternamente. Mas agora vos amo e desejo amar-vos sempre. Espero, pelos merecimentos do vosso precioso sangue, que assim me concedereis... Vós, Senhor, me amais e eu vos amo também: amar-me-eis sempre, se de vós não me apartar. Livrai-me, meu Salvador, da grande desdita de separar-me de vós e fazei o que vos aprouver... Mereço todos os castigos, e os aceito voluntariamente, contanto que não me priveis do vosso amor...

Ó Maria Santíssima, amparo e refúgio meu, quantas vezes me condenei por mim próprio ao inferno e dele me tendes livrado!... Livrai-me, no futuro, de todo pecado, causa única que me pode privar da graça de Deus e lançar-me ao inferno. 


___________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

fonte imagem: https://br.pinterest.com/pin/182536591140367779/