sábado, 7 de fevereiro de 2026

Nossa Senhora do Porto


 

Clemont-Ferrand (Dep. du Puy-de-Dome, França)

A notável igreja de Nossa Senhora do Porto, mais antiga que a Catedral, parece remontar aos primeiros séculos do estabelecimento do cristianismo na Gália, e é incontestavelmente o mais importante dos Santuários de devoção mariana de Auvergne, sendo as suas peregrinações as mais frequentadas da Diocese. 

Mas há outra coisa, difícil de descrever, por ser de natureza espiritual, que torna este Santuário notável: a acumulação de orações e a concentração de tantos atos de devoção ao pé da antiga imagem durante tantos séculos, por tantos devotos piedosos cristãos, encheram a Cripta, morada de Nossa Senhora do Porto, duma presença maravilhosa, invisível, é verdade, porém que a muitos fiéis se torna sensível... 

A sua maior festa é no dia 15 de maio ou no domingo seguinte. 

Sobre a origem deste Santuário não há documentos anteriores ao século XIII, mas lê-se na vida de Santo Avit, bispo de Clermont (571-594), que este bispo fez construir, num lugar que desde as mais remotas eras tinha o nome de "Le Port" (daí o título de - Nossa Senhora do Porto) - uma vistosa igreja em honra de Nossa Senhora. 

Da linda igreja atual, o Santuário propriamente dito de Maria é a Cripta aonde os fiéis vão rezar diante da milagrosa imagem de Nossa Senhora do Porto. 

A imagem tem apenas 30 cm de altura e é feita de madeira, uma espécie de nogueira muito escura, e é do tipo das Madonas bizantinas, que sobreviveram nos ícones gregos e russos, e que a arte italiana do século XIII adotou. 

Não é possível determinar com certeza quem a esculpiu nem em que século foi esculpida. 

Na festa de 15 de maio é levada em procissão, e neste mês é ininterrupto o movimento de peregrinos.

Do ano de 1514 em diante espalhou-se pela França inteira a fama dos milagres de Nossa Senhora do Porto, que é por isso invocada em todas as possíveis necessidades.

Enfim, foi diante desta imagem que príncipes e outros personagens ilustres se fizeram Cruzados, antes de embarcar ao grito de - "Deus o quer"!

A peregrinação principal é, como já vimos, no domingo que segue o dia 15 de maio, com procissão triunfal, acompanhada por uma considerável multidão.

(Esta notícia histórica é versão adaptada os livros "Wallfahrtsorte Europas" e "Mille Pelerinages de Notre Dame".)



___________________________________________

Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/368098969543895039/

https://br.pinterest.com/pin/258253359873747909/





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Do juízo universal


 

Cognoscetur Dominus judicia faciens. 

Conhecido será o Senhor, que faz justiça (Sl 9,17). 


PONTO I

Não há nada neste mundo, quando bem se considera, pessoa mais desprezada que Nosso Senhor Jesus Cristo. Respeita-se mais a um aldeão do que o próprio Deus; porque se teme que esse aldeão, vendo-se injuriado e oprimido, se vingue, movido por violenta cólera. Mas a Deus se ofende e se ultraja sem receio, como se não pudesse castigar quando quisesse (Jó 22,17). 

Por isso, o Redentor destinou o dia do juízo universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl 9,17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas "dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade" (Sf 1,15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo neste grande dia. 

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Sl 96,3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2Pd 3,10). 

Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1Cor 15,52). Dizia São Jerônimo: "Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo". Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus. 

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e os dos condenados! Os justos aparecerão formosos, cândidos, mais replandecentes que o sol (Mt 13,43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos!... Regozijar-se-á, então, de haver vivido assim, como se alegrou São Pedro de Alcântara, que pouco depois de sua morte apareceu a Santa Teresa de Jesus e lhe disse: "Ó feliz penitência, que tamanha glória me alcançou!" Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes, negros e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo!... "Corpo maldito - dirá a alma - foi para ter contentar que me perdi!" Responder-lhe-á o corpo: "E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?"


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus e meu Redentor, que um dia deveis ser meu Juíz, perdoai-me antes que chegue esse dia terrível! Não apartes de mim o teu rosto (Sl 101,3). Agora sois meu Pai, e como tal recebei na vossa graça o filho que volta cheio de arrependimento a vós. Meu Pai, peço-vos perdão. Fiz mal em ofender-vos e afastar-me de vós: não merecíeis tratamento tão detestável. Eu me arrependo de tudo. Perdoai-me, pois; não aparteis de mim vosso rosto, nem me abandoneis como mereço. 

Lembrai-vos do sangue que por mim derramastes, e tende misericórdia de mim... Meu Jesus, não quero outro Juíz do que vós. Dizia São Tomás de Vilanova: "Gostosamente me submeto ao juízo daquele que morreu por mim e que, para não me condenar, quis ser ele condenado ao suplício da cruz" (Rm 8,34). Já São Paulo havia dito: "Quem é aquele que condena? Cristo Jesus que morreu por nós". Amo-vos, meu Pai, e desejo nunca mais me separar de vós. Esquecei as ofensas que vos fiz, e dai-me grande amor à vossa bondade. Desejo que este amor seja maior do que a ingratidão com que vos ofendi. Sem a vossa assistência, porém, não sou capaz de vos amar. Auxiliai-me, meu Jesus. Fazei que minha vida seja conforme ao vosso amor, a fim de que no dia derradeiro mereça ser contado no número dos vossos eleitos... 

Ó Maria, minha Rainha e minha Advogada, socorrei-me agora, porque, perdendo-me eu, já não me podereis valer naquele dia terrível! Vós, Senhora, rogai por todos. Rogai também por mim, que me prezo de ser vosso devoto e que tanta confiança tenho em vós. 


PONTO II

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Jl 3,14) e separarão ali os justos dos réprobos (Mt 13,49). Os primeiros ficarão à direita; os condenados, à esquerda... Profunda mágoa sente quem se vê separado da sociedade ou da Igreja. Quanto maior será a dor de ver-se banido da companhia dos Santos! Que confusão experimentarão os ímpios,    quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse São João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem que sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno. 

Haverá filhos separados de seus pais; esposos, de suas esposas; amos, de seus servos... (Mt 24,40) Dize-me, meu irmão, em que lugar crês que te acharás então?.. Queres estar à direita? Abandona, portanto, o caminho que conduz à esquerda. 

Neste mundo, têm-se por felizes os príncipes e os ricaços, e se desprezam os Santos, os pobres e os humildes... Ó cristãos fiéis, que amais a Deus! Não vos aflijais por viverdes tão atribulados e vilipendiados neste mundo. "Vossa tristeza se converterá em gozo" (Jo 16,20). 

Então verdadeiramente sereis chamados bem-aventurados e tereis a honra de ser admitidos à corte de Cristo. Em que celestial formosura resplandecerá um São Pedro de Alcântara, que foi injuriado como apóstata; um São João de Deus, escarnecido como louco; um São Pedro Celestino, que, renunciando ao Pontificado, morreu num cárcere! Que glória alcançarão tantos mártires outrora à crueza dos verdugos! (1Cor 4,5). Que horrível figura, pelo contrário, fará um Herodes, um Pilatos, um Nero e outros poderosos da terra, condenados para sempre!... Ó amigos e cortejadores do mundo! Ide para o vale, naquele vale vos espero. Ali, sem dúvida, mudareis de parecer; ali, chorareis vossa loucura. Infelizes! tendes de representar um brevíssimo papel no palco deste mundo e preferis o de réprobos na tragédia do juízo universal! Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória - segundo afirma o Apóstolo - serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1Ts 4,17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juíz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos. 

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse São Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. "E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão" (Mt 24,30). 

"Como, à vista da cruz, - exclama Cornélio a Lápide - hão de gemer os pecadores que desprezaram  sua salvação eterna, que tanto custou ao Filho de Deus".  "Então - diz São João Crisóstomo -  os cravos se queixarão de ti; as chagas contra ti falarão; a cruz de Cristo clamará contra ti". 

Os santos Apóstolos serão assessores deste julgamento e todos aqueles que os imitaram. E com Jesus Cristo julgarão os povos. Ali também assistirá a Rainha dos Anjos e dos homens, Maria Santíssima. 

Aparecerão, enfim, o Eterno Juíz em luminoso trono de majestade. "E verão o Filho do Homem, que virá nas nuvens do céu, com grande poder e majestade (Sb 3,7-8). À sua presença chorarão os povos" (Mt 24,30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno - disse São Jerônimo. Dai-me o castigo que quiserdes; mas não me mostreis naquele dia o vosso rosto indignado. São Basílio disse: "Esta confusão excede toda a pena". Cumprir-se-ão então a profecia de São João: os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juíz irritado (Ap 6,16).


AFETOS E SÚPLICAS 

Meu caríssimo Redentor, Cordeiro de Deus que viestes ao mundo, não para castigar, mas para perdoar os pecados! Perdoai-me, Senhor, antes que chegue o dia em que deveis julgar-me. Ver-nos então, Cordeiro sem mácula, que com tanta paciência me tendes aturado, e perder-vos para sempre, seria o inferno do meu inferno. Perdoai-me, pois; reitero o meu pedido. Salvai-me, por vossas mãos misericordiosas, deste abismo em que me fizeram cair os pecados. Arrependo-me, ó Sumo Bem, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, meu Juíz, que tanto me amais. Pelos merecimentos de vossa morte, dai-me a graça que me converta de pecador em santo. Prometestes exalçar a quem vos suplica (Jó 33,3). Não vos peço bens terrenos, mas a vossa graça e o vosso amor: nada mais desejo. Ouvi-me, Jesus, pelo amor que me consagrastes ao morrer por mim na cruz. Sou réu, ó Juíz amantíssimo, mas um réu que vos ama mais que a si próprio... 

Maria, minha Mãe, tende misericórdia de mim, agora que ainda há tempo de assistir. Não me abandonastes quando me esquecera de Deus e de vós. Socorrei-me agora que estou resolvido a amar-vos e servir-vos sempre e nunca mais ofender a meu Senhor... Ó Maria, vós sois minha esperança!


PONTO III

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consequências de todos (Dn 7,10). Os primeiros testemunhos contra os réprobos serão do demônio, que dirá - segundo Santo Agostinho: "Justíssimo juíz, sentencia, que são meus aqueles que não quiseram ser teus". A própria consciência dos homens os acusará depois (Rm 2,15). A seguir, darão testemunho, clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hb 2,11). Virá, enfim, o testemunho do próprio Juíz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jr 29,23). 

Disse São Paulo que naquele momento o Senhor "porá às claras o que se acha escondido nas trevas" (1Cor 4,5). Descobrirá, então, antes os olhos de todos os homens as culpas dos réprobos, até as mais secretas e vergonhas que em vida eles ocultaram aos próprios confessores (Na 3,5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: "Bem-aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados" (Sl 31,1). Pelo contrário - disse São Basílio - as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d'olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama São Tomás, "Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado em seu trono de Juíz, disser aos condenados: "Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!" Chegada a hora da sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: "Vinde, benditos de meu Pai, e possui o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (Mt 25,34). 

Quando São Francisco de Assis soube por revelação que era predestinado, sentiu altíssimo e inefável consolo. Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juíz: "Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. 

Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençôo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade". A Virgem Santíssima abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus. 

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: "E nós, desgraçados, que será feito de nós?" E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça, apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 24,34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos espero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha benção..." Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma... E por quantos séculos?... Por toda eternidade, enquanto Deus for Deus. 

Depois desta sentença - diz Santo Efrém - os réprobos despedir-se-ão dos anjos, dos santos e da Santíssima Virgem, Mãe de Deus.

"Adeus, justos; adeus, cruz; adeus, glória; adeus, pais e filhos; jamais nos tornaremos a ver! Adeus, Mãe de Deus, Maria Santíssima". Nesse instante, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônio e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!...

Ó maldito pecado! A que triste fim levarás um dia tanta pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e meu Salvador! Que sentença me reservais no dia do juízo? Se agora me pedísseis, Senhor, contas de minha vida, que poderia eu responder senão que mereço mil vezes o inferno? Sim, meu Redentor, é verdade que mereço mil vezes o inferno, mas sabei que vos amo mais que a mim mesmo, e das ofensas que vos fiz de tal modo me arrependo, que me arrependa, que preferiria ter sofrido todos os males do que ter-vos injuriado. 

Condenais, ó meu Jesus, os pecadores obstinados, mas não a quem se arrepende e vos quer amar. Aqui estou, a vossos pés, arrependido... Dai-me a vossa palavra de perdão... Mas já me declarastes pela boca do vosso Profeta: "Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós" (Zc 1,3). Tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de vós... Salvai-me, meu Jesus, e que minha salvação seja amar-vos sempre e louvar sempre vossas misericórdia (Sl 88,2).

 Maria, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Ainda se não perdeu ninguém, que tenha recorrido a vós... A vós, pois, me recomendo. Tende piedade de mim. 

____________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/175640454213367777/

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

Do juízo particular



 Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi. 

Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo (2Cor 5, 10).


PONTO I

Consideremos o comparecimento do réu, a acusação, o exame e a sentença deste juízo. Primeiramente, quanto ao comparecimento da alma perante o juíz, dizem comumente os teólogos que o juízo particular se efetua no mesmo instante em que o homem expira, que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo é julgada por Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual não delega seu poder, mas vem ele mesmo julgar esta causa. "Na hora que não cuidais, virá o Filho do homem" (Lc 12,40). 

"Virá com amor para os fiéis - disse Santo Agostinho - e com terror para os ímpios". Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez o seu Redentor, vir também a indignação divina! "Quem poderá subsistir ante a face de sua indignação?" (Na 1,6) Meditando nisto, o Padre Luís de la Puente estremecia de tal modo, que a cela em que se achava tremia com ele. O venerável Padre Juvenal Ancina se converteu ao ouvir cantar o Dies irae, porque, considerando o terror que se apodera da alma quando se apresentar em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. A indignação do juíz será prenúncio de eterna condenação (Pr 16,14); e fará sofrer mais as almas que as próprias penas do inferno, segundo afirma São Bernardo.

Têm-se visto criminosos banhados em copioso suor frio na presença dos juízes terrestres. Pison, em traje de réu, comparecendo no senado,  sentiu tamanha confusão e vergonha, que ali mesmo se deu a morte. Que aflição profunda sente um filho ou um bom vassalo quando vê seu pai ou seu amo gravemente indignado!... Mágoa muito maior sentirá a alma quando vir indignado a Jesus Cristo, a quem desprezou! (Jo 19,37). Irritado e implacável, então, se lhe apresentará esse Cordeiro divino, que foi no mundo tão paciente e amoroso, e a alma, sem esperança, clamará aos montes que caiam sobre ela e a ocultem à indignação de Deus (Ap 6,16). Falando do juízo, disse São Lucas: "Então verão o Filho do homem" (Lc 21,27). Ver o seu juíz em forma humana aumentará a dor dos pecadores; porque a presença daquele Homem que morreu para salvá-los, lhes recordará vivamente a ingratidão com que o ofenderam. 

Depois da gloriosa Ascensão do Senhor, os anjos disseram aos discípulos: "Este Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu" (At 1,11). Virá, pois, o Salvador a julgar-nos, ostentando aquelas mesmas chagas sagradas que tinha quando deixou a terra. "Grande alegria para os que contemplam, grande temor para os que esperam" - Exclama Ruperto.

Essas benditas chagas consolarão os justos e infundirão terror aos pecadores. 

Quando José disse a seus irmãos: "Eu sou José, a quem vendestes", ficaram eles - diz a Escritura - sem fala e imóveis de terror (Gn 45,3). Que responderá o pecador a Jesus Cristo? Acaso, terá coragem de lhe pedir misericórdia, quando antes dera prova do muito que desprezou essa mesma clemência? Que fará, pois - interroga Santo Agostinho - para onde fugirá quando vir o juiz indignado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecadores que o acusam, ao outro o demônio, disposto a executar a sentença, e dentro de si mesmo a consciência que remorde e castiga? 

AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Jesus! assim quero sempre chamar-vos, pois vosso nome me consola e anima, recordando-me que sois meu Salvador e que morrestes para me salvar. Aqui me tendes aos vossos pés, reconheço que sou réu de tantos infernos quantas vezes vos ofendi mortalmente. 

Não mereço perdão, mas vós morrestes para me perdoar... Recordare, Jesu pie, quod sum causa tuae viae. Perdoai-me, ó Jesus, agora, antes de virdes a julgar-me. Então, não me será dado pedir-vos clemência; agora posso implorá-la e a espero. Então, atemorizar-me-ão as vossas chagas; agora me infundem esperança. Amantíssimo Redentor meu, arrependo-me sobretudo de ter ofendido a vossa Bondade infinita. Proponho aceitar qualquer trabalho, qualquer tribulação, antes que perder vossa graça, porque vos amo de todo o coração. Tende misericórdia de mim. Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam...

Ó Maria, Mãe de misericórdia e Advogada dos pecadores, alcançai-me profunda dor dos meus pecados, o perdão deles e a perseverança do divino amor. Amo-vos, minha Rainha, e em vós confio. 


PONTO II

Considera a acusação e o exame: "Começou o juízo e os livros foram abertos" (Dn 7,10). Haverá dois livros: o Evangelho e a consciência.

Naquele, ler-se-á o que o réu devia fazer; nesta, o que fez. Na balança da divina justiça não se pesarão as riquezas, nem as dignidades e a nobreza das pessoas, mas somente suas obras. "Foste pesado na balança - diz Daniel ao rei Baltazar - e achado demasiadamente leve" (Dn 5,27). Quer dizer, segundo o comentário do Padre Álvares, que "não foram postos na balança o ouro e as riquezas, mas unicamente a pessoa do rei". Virão logo os acusadores e em primeiro lugar o demônio. "O inimigo estará ante o tribunal de Cristo, - disse Santo Agostinho - e referirá as palavras de tua profissão". "Recordar-nos-á tudo quanto temos feito, o dia e a hora em que pecamos". Referi as palavras de nossa profissão significa que apresentará todas as promessas que fizemos, que esquecemos e, por conseguinte, deixamos de cumprir. Denunciar-nos-á nossas faltas, designando os dias e as horas em que as cometemos. Depois dirá ao juiz: "Senhor, eu não sofri nada por este réu; mas ele vos abandonou, a vós que destes a vida para salvá-lo, e se fez meu escravo. É a mim que ele pertence..." Os anjos da guarda também serão acusadores, segundo diz Orígenes, e "darão testemunho dos anos em que procuraram a salvação do pecador, a despeito do desprezo deste a todas as inspirações e avisos".

Então, "todos os meus amigos o desprezarão" (Lm 1,2). Até as paredes, que viram o réu pecar, tornar-se-ão acusadoras (Hb 2,11). Acusadora será a própria consciência (Rm 2,15-16). Os pecados - disse São Bernardo - clamarão, dizendo: "Tu nos fizeste; somos tuas obras, e não te abandonaremos". Acusadoras, por fim, serão as Chagas do Senhor, como escreve São João Crisóstomo: "Os cravos se queixarão de ti; as cicatrizes contra ti falarão; a cruz clamará contra ti". 

Passar-se-á depois, ao exame. Disse o Senhor: "Com a luz na mão, esquadrinharei Jerusalém" (Sf 1,12). A luz da lâmpada penetra todos os recantos da casa, escreve Mendoza. Cornélio a Lápide, comentando a expressão in lucernis, do texto, afirma que Deus apresentará ao réu os exemplos dos Santos, todas as luzes e inspirações com que o favoreceu, todos os anos de vida que lhe concedeu para que os empregasse na prática do bem (Lm 1,15). Até de cada olhar tens que dar conta, exclama Santo Anselmo. Assim como se purifica e aquilata o ouro, separando-o das escórias, assim se aquilatarão e examinarão as confissões, comunhões e outras boas obras (Ml 3,3). "Quando tomar o tempo, julgarei as justiças". Em suma, diz São Pedro que no juízo até o juízo a custo será salvo (1Pd 4,18). Se se deve dar conta de toda palavra ociosa, que contas se darão de tantos maus pensamentos voluntários, de tantas palavras impuras? Especialmente falando dos escandâlos, que lhe roubam inúmeras almas, diz o Senhor: "Eu lhes sairei ao encontro como uma ursa a quem roubaram os seus cachorros" (Os 13,8). E, finalmente, referindo-se às ações do réu, dirá o Supremo Juiz: "Dei-lhe o fruto de suas mãos", quer dizer, paguei-lhe conforme suas obras (Pr 31,31). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! meu Jesus, se quisésseis pagar-me agora segundo as obras que pratiquei, o inferno seria a minha recompensa... Quantas vezes, ó Deus, escrevi minha própria condenação a esse cárcere de tormentos! Imensa é minha gratidão pela paciência com que me tendes aturado. Ó Senhor, se agora tivesse de apresentar-me a vosso Tribunal, que conta daria de minha vida? Esperai, meu Deus, um pouco mais; peço-vos que não me julgueis ainda (Sl 142,2). Que seria de mim, se neste momento me julgásseis? Esperai-me, Senhor! E já que haveis usado comigo de tanta clemência, concedei-me ainda a misericórdia de uma grande dor de meus pecados. Arrependo-me, ó Sumo Bem, de ter-vos desprezado tantas vezes. Amo-vos sobre todas as coisas... Eterno Pai, perdoai-me por amor de Jesus Cristo e, pelos seus merecimentos, concedei-me a santa perseverança... Meu Jesus, tudo espero do infinito valor do vosso sangue precioso. 

Maria Santíssima, em vós confio... Eia, ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte. Lançai um olhar sobre minha grande miséria e compadecei-vos de mim. 


PONTO III

Em resumo: para que a alma consiga a salvação eterna, o juízo de patentear que a vida dessa alma fora conforme a vida de Cristo. 

É o que fazia tremer Jó, quando exclamava: "Que farei quando Deus se levantar a julgar? E quando me perguntar, que lhe responderei?" (Rm 8,29). Repreendendo Filipe II um de seus criados, que o tinha enganado, disse-lhe apenas estas palavras: É assim que me enganas?... 

Aquele infeliz, ao voltar à sua casa, morreu de pesar. Que fará pois, e que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu juíz? Fará como aquele homem do Evangelho, que se apresentou ao banquete sem a veste nupcial. Não soube o que responder e calou-se (Mt 22,12). As próprias culpas lhe fecharam a boca (Sl 106,42). A vergonha - diz São Basílio - será então para o pecador maior tormento que as próprias chamas infernais. 

Finalmente, o juíz pronunciará a sentença: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!" Quão terrivelmente ressoará aquele trovão - exclama Dionísio, o Cartuxo... "Quem não treme à consideração dessa horrenda sentença - observa Santo Anselmo - não está dormindo, mas morto". Santo Eusébio acrescenta que será tão grande o terror dos pecados ao ouvir a sua condenação, que se não fossem já imortais morreriam de novo. Então, - como escreve São Tomás de Vilanova, - já não será tempo de suplicar, já não haverá intercessores a quem recorrer. A quem, efetivamente, hão de recorrer?... Porventura, a seu Deus a quem desprezaram? Talvez aos Santos, à Virgem Maria?...

Ah! não! porque então as estrelas (que são os santos advogados) cairão do céu, e a tua (que é Maria Santíssima) não dará a sua luz (Mt 24,29). "Maria - diz Santo Agostinho - retirar-se-á das portas da glória". 

Ó Deus - exclama o já citado São Tomás de Vilanova, - com que indiferença ouvimos falar do juízo, como se não pudéssemos merecer a sentença condenatória, ou como se não tivéssemos de ser julgados...

Que loucura estar tranquilo no meio de tamanho perigo!" Não digas, pois, meu irmão - nos adverte Santo Agostinho: Será que Deus queira enviar-me ao inferno? não o digas jamais. Também os hebreus não queriam convencer-se de que seriam exterminados. Quantos réprobos blasonavam de que não seriam condenados às penas eternas! E, no entanto, chegou a hora do castigo: "O fim vem, vem o fim... Agora derramarei a minha ira sobre ti, e te julgarei" (Ez 7,6-8). É também o que te acontecerá. "Chegará o dia do juízo e verás que Deus não faz vãs ameaças". 

Presentemente ainda nos é dado escolher a sentença que preferimos.

Devemos, pois, ajustar as contas da alma, antes que chegue o juízo (Ecl 18,19), porque, segundo diz São Boaventura, os negociantes prudentes, para se não se exporem a uma falência, conferem e ajustam suas contas frequentemente. "Antes do juízo, diz Santo Agostinho, podemos ainda aplacar o Juíz; mas durante o juízo, não". Desejo, ó Juiz de minha alma, que me julgueis e castigueis nesta vida, porque ainda é tempo de misericórdia e de perdão. Depois da morte só será tempo de justiça. 


AFETOS E SÚPLICAS

Se agora não aplaco, ó meu Deus, a vossa ira, mais tarde não será possível aplacar-vos. Como, porém, o conseguirei, depois de ter desprezado tantas vezes vossas amizade por vis e míseros prazeres? Paguei com ingratidão vosso imenso amor... Qual a satisfação meritória que pode oferecer a criatura pelas ofensas que fez a seu Criador?... Ah, meu Senhor! Como agradecer dignamente à vossa misericórdia os meios infalíveis que me proporcionais para satisfazer-vos e aplacar-vos?...

Ofereço-vos, o sangue e a morte de Jesus Cristo, vosso Filho, e desde já se acha aplacada e superabundantemente satisfeita a vossa justiça. 

Necessário é, além disso, o meu arrependimento... Sim, meu Deus, arrependo-me de todo o coração de quantas ofensas vos fiz. Julgai-me agora, meu Redentor. Detesto minhas culpas mais que todo o mal e amo-vos sobre todas as coisas com toda a minha alma. Proponho amar-vos sempre, e preferir a morte a ofender-vos outra vez. Prometestes o perdão a quem se arrepende. Julgai-me, pois, agora, e perdoai-me os pecados. Aceito a pena que mereço; mas restabelecei-me na vossa graça e fazei que nela persevere até a morte... 

Ó Maria, nossa Mãe! Agradeço-vos tantos dons que para mim tendes alcançado da divina clemência. Dignai-vos continuar a proteger-me até o fim de minha vida. 

_______________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/2885187257808577/








quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Dos enganos que o inimigo sugere ao pecador

 



(Apesar de que muitos pensaamentos incluídos nesta meditação já tenham sido considerados nas precedentes, é útil, todavia, compendiá-los e reuni-los aqui a fim de combater os enganos usuais de que se serve o demônio para iludir os pecadores à reincidência em suas culpas.)

PONTO I

Imaginemos que um jovem, réu de graves pecados, se confessou e recobrou a graça divina. O demônio tenta-o novamente, a fim de que recaia em seus pecados. O jovem resiste no princípio, mas começa a vacilar em vista das ilusões que o inimigo lhe sugere. "Meu irmão - lhe direi - que queres fazer? Desejas, porventura, sacrificar a uma vil satisfação essa excelsa graças de Deus, que reconquistaste, e cujo valor excede ao do mundo inteiro? Queres firmar por tuas próprias mãos a tua sentença de morte eterna e condenar-te a sofrer para sempre no inferno?" - "Não - responder-me- ás - não quero condenar-me, mas salvar a minha alma. Mesmo que cometa esse pecado, confessá-lo-ei logo..." Tal é a primeira sugestão do tentador. Confessar-se depois! Entretanto, perder-se a alma! Dize-me: se tivesses na mão uma formosa jóia de altíssimo valor, lançá-la-ias ao rio, dizendo: procurá-la-ei com cuidado, pois espero encontrá-la? Tens entretanto, em tua mão, essa jóia riquíssima de tua alma, que Jesus Cristo resgatou com seu sangue.

Voluntariamente a lanças no inferno, pois no ato de pecar cais condenado e dizes que a recobrarás pela confissão. E se não a recobras? Para recuperá-la é mister verdadeiro arrependimento, que é um dom de Deus. E Deus pode não te conceder. E se a morte vier e te arrebatar o tempo para a confissão? Asseguras que não deixas passar uma semana sem confessar tuas culpas. E quem te prometeu essa semana? Dizes que te confessarás amanhã. E quem te promete esse dia? O dia de amanhã - diz Santo Agostinho - Deus não te prometeu; talvez te concederá, talvez não, como aconteceu a muitos, que se recolheram sadios à noite para dormir em suas camas e amanheceram mortos. A quantos o Senhor feriu de morte no próprio ato de pecado e os precipitou no inferno! E se fizesse o mesmo contigo? Como conseguirias remediar tua eterna perdição? Persuade-te, pois, de que com o dizer "depois me confessarei" o demônio tem arrastado ao inferno milhares e milhares de almas. Porque raras vezes se encontrarão pecadores tão desesperados que queiram condenar-se a si mesmos. Todos, ao pecar, o fazem com esperança de reconciliar-se depois com Deus. É esta causa por que tantos infelizes têm sido condenados, tornando-se irremediavelmente perdidos. 

Talvez digas que não poderás resistir à tentação que se apresenta.

Este é o segundo que sugere o inimigo, fazendo-te crer que não tens forças para combater e vencer tuas paixões. Em primeiro lugar, é mister que saibas - como diz o Apóstolo - que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados com violência superior às nossas forças (2Cor 10,13).

Além disso, se agora não és capaz de resistir, como podes ter esperança de consegui-lo depois, quando o inimigo não cessar de induzir-te a novos pecados e tiver sobre ti muito mais força que antes, enquanto tu serás mais fraco? Se pensas que agora não podes extinguir essa chama, como crês que a apagarás mais tarde, quando ela lavrar com mais violência?... Afirmas que Deus te ajudará. Mas esse seu auxílio poderoso ele te dá agora. Por que não queres valer-te dele para resistir? Esperas, acaso, que Deus multiplique seu auxílio e sua graça a teu favor, quando tiveres avolumado as tuas culpas? E se desejas maior socorro e mais forças, por que é que não os pedes a Deus? Duvidas, talvez, da fidelidade do Senhor, que prometeu conceder tudo o que se lhe pedir? (Mt 7,7). Deus não se esquece de suas promessas. Recorre a ele e dar-te-á força de que necessitas para resistir à tentação. Deus - segundo a palavra do Concílio de Trento - não ordena coisas impossíveis.

Ao dar o preceito, quer que façamos o que estiver ao nosso alcance com o auxílio atual que nos proporciona; e se este auxílio atual não for suficiente para resistir, nos exorta a que o impetremos mais, pois, pedindo-lhe com os devidos requisistos, o concederá certamente. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus, por terdes sido vós tão bondoso para comigo é que eu tenho sido tão ingrato para convosco? Como à porfia, Senhor, afastei-me de vós e vós a procurar-me. Vós a cumular-me de bens e eu a ofender-vos! Ó meu Senhor! mesmo que fosse somente pela vossa bondade para comigo, devia inflamar-me no amor que vos devo, porque, à medida em que eu avolumava as culpas, vós me aumentáveis a graça para emendar-me. Como é que mereci a luz com que iluminais a minha alma? Agradeço-vos, meu Deus, de todo o coração e espero ir agradecer-vos eternamente no céu, pois os merecimentos de vosso sangue preciosíssimo me infundem consoladora esperança de salvação, fundada na imensa misericórdia que me tendes prodigalizado. Espero, entretanto, que me dareis força para nunca mais vos trair, e proponho, com o auxílio de vossa graça, preferir mil vezes a morte a tornar ofender-vos. Basta de ofensas que vos fiz! Quero passar o resto da vida, entregando-me a vosso amor. E como não hei de amar um Deus que morreu por mim e que me tem aturado com tanta paciência, apesar das ofensas que pratiquei?... Arrependo-me de todo o coração, Deus de minha alma, e quisera morrer de dor!... Se na vida passada me apartei de vós, agora amo-vos sobre todas as coisas, mais que a mim mesmo...

Eterno Pai, pelos merecimentos de Jesus Cristo, socorrei um miserável pecador que vos deseja amar... 

Maria, minha esperança, ajudai-me! Alcançai-me a graça de recorrer sempre a vosso divino Filho e a vós, todas as vezes que o inimigo me excitar a cometer novos pecados.


PONTO II

Dizes que o Senhor é Deus de misericórdia. Aqui se oculta o terceiro engano, muito comum entre os pecadores, e pelo qual não poucos se condenam. Escreve um sábio autor que mais almas envia ao inferno a misericórdia do que a justiça de Deus, porque os pecadores, confiando temerariamente naquela, não deixam de pecar, e se perdem. 

O Senhor é Deus de misericórdia: quem o nega? Contudo, quantas almas manda Deus todos os dias às penas eternas! É, na verdade, misericordioso, mas é também justiceiro; e este predicado o obriga a castigar a quem o ofende. Usa de misericórdia com aqueles que o temem (Sl 102, 11-13). Naqueles, entretanto, que o desprezam e abusam da clemência divina para continuar a ofendê-lo, tem que resplandecer somente a justiça de Deus. E com toda a razão, porque o Senhor perdoa o pecado, mas não pode perdoar a vontade de pecar. Aquele que peca - diz Santo Agostinho - pensando que se arrependerá depois de ter pecado, não é penitente, mas zomba de Deus e o menospreza.

Ora, o Apóstolo nos adverte de que Deus não consente que zombem dele (Gl 6,7). E que irrisão maior haveria do que ofendê-lo como e quando quiséramos, e ainda aspirar à glória? "Assim como Deus foi tão misericordioso para comigo em minha vida passada, espero que o será também no futuro". "Este é o quarto engano. Porque o Senhor se compadeceu de ti até agora, porventura, usará sempre de clemência e não castigará jamais?... Muito pelo contrário. 

Quanto maior tenha sido sua clemência, tanto mais deves temer que deixe de perdoar-te, e que te castigue com rigor se voltares a ofendê-lo. 

"Não digas - exclama o Eclesiástico - pequei e não recebi castigo, porque o Altíssimo, ainda que paciente, é justiceiro" (Ecl 5,4). Quando sua misericórdia chega ao limite que determinou para cada pecador, passa a castigá-lo por todas as culpas que o ingrato cometeu. E a pena será tanto mais dura, quanto mais tempo Deus esperou o culpado, disse São Gregório.

Se vires, pois, meu irmão, que, apesar de tuas frequentes ofensas a Deus, ainda não foste castigado, deves dizer: "Senhor, grande é meu reconhecimento, porque ainda não me condenastes ao inferno, que ainda não me condenastes ao inferno, que tantas vezes mereci" (Lm 3,22). Considera que muitos pecadores, por culpas menos graves que as tuas, foram condenados irremediavelmente.

Trata, por isso, de satisfazer por teus pecados mediante o exercício da penitência e de outras boas obras. A benevolência com que Deus te travou deve ensinar-te não só a deixar de ofendê-lo, mas a servi-lo e amá-lo sempre, tendo em vista a imensa misericórdia que te fez de preferência a outros. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus crucificado, meu Redentor e meu Deus, a vossos pés se prosta este traidor infame, envergonhando-se de comparecer ante vossa presença. Quantas vezes vos tenho desprezado! Quantas vezes prometi não tornar a vos ofender! Entretanto, minhas promessas foram outras tantas traições, pois assim que se me ofereceu ocasião de pecar, esqueci-vos e vos abandonei novamente. Dou-vos mil graças, porque ainda não me condenastes ao inferno e me permitis estar a vossos pés, iluminando minha alma e me atraindo a vosso amor. Quero amar-vos, Salvador, e jamais desprezar-vos, pois bastante me tendes esperado. 

Infeliz de mim se, apesar de tantas graças recebidas, tornasse a ofender-vos! Senhor, estou resolvido a mudar de vida e quero amar-vos na proporção em que vos ofendi. O que me consola é o considerar que sois a bondade infinita. Arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado e vos ofereço, para o futuro, todo o meu amor. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa sagrada Paixão. Esqueci os pecados com que vos injuriei e dai-ne forças para vos ser sempre fiel. Amo-vos, meu Sumo Bem; espero amar-vos eternamente, e não quero tornar a abandonar-vos...

Ó Maria, Mãe de Deus, uni-me a meu Salvador Jesus Cristo e alcançai-me a graça de jamais apartar-me de seus benditos pés!... Em vós confio. 


PONTO III

"Ainda sou moço... Deus tem compaixão da mocidade; mais tarde entregar-me-ei a ele". Consideremos este quinto engano. És moço: mas não sabes que Deus conta os pecados de cada homem e não os anos?...

Quantos tens cometido?... Muitos velhos haverá que não tenham feito nem a décima parte dos que cometeste. Ignoras que o Senhor fixou o número e a medida das culpas que a cada pecador há de perdoar? "O Senhor - diz a Escritura - espera com paciência para castigar as nações da plenitude de seus pecados, quando chegar o dia do juízo" (2Mc 6,14). Quer dizer que o Senhor é paciente e espera até certo limite; logo, porém, que se encha a medida dos pecados que a cada homem quer perdoar, cessa o perdão e ele executa o castigo, ferindo-o de morte súbita no estado de condenação em que se acha, ou abanhonando-o a seu pecado, que é pior castigo que a morte (Is 5).

Se possuis um terreno, que cercaste e, apesar de cultivado durante longos anos com gastos consideráveis, vês que não te dá fruto algum: que farás?... Arrancas-lhe o cercado e o deixas abandonado. Pois bem, teme que Deus não proceda do mesmo modo contigo. Se continuas pecando, irás perdendo o remorso da consciência; não pensarás na eternidade nem em tua alma; perderás quase de todo a luz que nos guia; acabarás por perder todo o temor... Com isto podes considerar abatida a cerca que te defendia, para dar lugar ao abandono de Deus. 

Examinemos, enfim, o derradeiro engano. Dizes: "É verdade que com este pecado perderei a graça de Deus e ficarei condenado ao inferno.

Pode assim suceder que me condene; mas também pode acontecer que me confesse logo e me salve..." Concedo que assim possa ser. 

Desejo que te salves. Não sou profeta e, portanto, não me é dado asseverar com certeza que, depois de cometido esse novo pecado, já não haverá para ti perdão de Deus. Contudo, não podes negar que se, depois de tantas graças que o Senhor te concedeu, voltas a ofendê-lo, é muito fácil que para sempre te percas. Assim o patenteia a Sagrada Escritura: "O coração rebelde será oprimido em seus males" (Ecl 3,27). 

Os que cometem maldades serão exterminados (Sl 36,9). Aquele que semeia pecados, colherá por fim castigos e tormentos (Gl 6,8). "Chamei-vos - disse Deus - e vós não quisestes ouvir-me... Também eu me rirei da vossa ruína" (Pr 1,24-26). "A mim pertence a vingança, e eu lhes darei o pagamento a seu tempo". Deste modo fala a Sagrada Escritura dos pecadores obstinados, e assim o exigem a razão e a justiça.

E, não obstante, dizes que, apesar de tudo, talvez te salvarás. Repetirei que isso não é impossível. Entretanto, não constitui tremenda loucura arriscar a eterna salvação por um talvez e por um talvez tão pouco provável? É este negócio de tão pouco valor, que podemos pô-lo em tão grave risco?


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, prostrado a vossos pés, agradeço-vos de toda a minha alma que, apesar de minhas ofensas, não me abandonastes. Quantos há que menos vos ofenderam do que eu e não receberam as inspirações que agora me dais! Vejo que quereis realmente salvar-me e eu uno aos vossos os meus desejos. Quero exaltar eternamente no céu a vossa misericórdia. Espero, Senhor, que já me haveis perdoado; se, entretanto, ainda não recuperei vossa graça porque não soube arrepender-me de minhas culpas, como devia, agora me arrependo de todo o coração, e as detesto mais que todos os males.

Perdoai-me, por piedade, e aumentai em mim a dor de vos ter ofendido, meu Deus, suma e inefável bondade. Enchei-me de dor e amor; mesmo que vos ame sobre todas as coisas, ainda é pouco. Quero amar-vos mais e vos peço e de vós espero alcançar esse grande amor. Ouvi-me, meu Jesus, já que prometestes ouvir a quem vos suplica...

Ó Virgem Maria, Mãe de Deus, o mundo inteiro afirma que nunca deixais de desconsolado a quem a vós se recomenda. Depois de Jesus Cristo, sois minha única esperança. A vós, Senhora, eu recorro e em vós confio. Recomendai-me a vosso divino Filho e salvai-me. 

_______________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555429780769/