quinta-feira, 23 de abril de 2026

Remorsos do condenado



Vermis eorum non moritur.

O seu verme não morre (Mc 9,47).


PONTO I

Este verme que não morre nunca significa, segundo São Tomás, o remorso de consciência dos réprobos, o qual há de atormentá-los eternamente no inferno. Muitos serão os remorsos com que a consciência roerá o coração dos condenados. Mas há três que principalmente os atormentarão, a saber: o pensar no nada das coisas pelo qual o réprobo se condenou, no pouco que tinha a fazer para salvar-se e no grande Bem que perdeu. Depois que Esaú tinha comido o prato de lentilhas, preço do seu direito de primogenitura, ficou tão magoado por ter consentindo na perda que, conforme a Escritura, pôs-se a rugir... (Gn 27,34). Que gemidos e clamores soltarão os réprobos ao ponderar que, por prazeres fugidios e envenenados, perderam um reino eterno de felicidade, e se vêem condenados para sempre a contínua e interminável morte! Chorarão mais amargamente que Jônatas, sentenciado a morrer por ordem de Saul, seu pai, sem ter cometido outro delito do que provar um pouco de mel (1Rs 14,43). Que pesar sofrerá o condenado ao recordar-se da causa de sua ruína!... Sonho de um instante nos parece nossa vida passada. O que hão de parecer ao réprobo os cinquenta ou sessenta anos de sua vida terrena, quando se encontra na eternidade, onde, depois de terem decorrido cem ou mil milhões de anos, vir que então aquela sua vida está começando? E, além disso, os cinquenta anos de vida na terra são, acaso, cinquenta anos de prazer? O pecador que vive sem Deus goza sempre de doçuras em seu pecado? Um momento só dura o prazer culpável; no demais, para quem vive separado de Deus, é tempo de penas e aflições... Que serão, portanto, para o infeliz réprobo esses breves momentos de deleite? Que lhe parecerá, particularmente, o último pecado pelo qual se condenou?... "Por um vil prazer que durou apenas um instante e que como o fumo se dissipou, exclamará, hei de arder nestas chamas, desesperado e abandonado, enquanto Deus for Deus, por toda a eternidade!"


AFETOS E SÚPLICAS

Dai-me luz, Senhor, a fim de reconhecer minha maldade em ofender-vos e a pena eterna que por ela mereci. Sinto, meu Deus, grande dor de ter-vos ofendido, mas essa dor me consola e alivia. Se me tivésseis precipitado no inferno, como mereci, o remorso seria ali o meu maior castigo que provocaram minha eterna desgraça. Agora, porém, a dor reanima, consola e me infunde esperança de alcançar perdão, que oferecestes ao que se arrepende. 

Meu Deus e Senhor, arrependo-me de vos ter ultrajado; aceito com alegria essa pena dulcíssima da dor de minhas culpas, e vos rogo que aumenteis e conserveis até à morte, a fim de que não deixe de deplorar um só instante os meus pecados... Perdoai-me, meu Jesus e Redentor, que, por terdes misericórdia de mim, não a tivestes de vós mesmo, e vos condenastes a morrer de dor para livrar-me do inferno. Tende piedade de mim! Fazei, portanto, que meu coração se conserve sempre contrito e inflamado no vosso amor, pois que tanto me tendes amado e aturado com tanta paciência, a ponto de, em vez de castigar-me, me cumulardes de luz e de graça... Agradeço-vos, meu Jesus, e vos amo de todo o coração. 

Não sabeis desprezar a quem vos ama; peço, pois, que não aparteis de mim o vosso rosto divino. Acolhei-me na vossa graça e não permitais que torne a perdê-la...

Maria, Mãe e Senhora nossa, recebei-me como vosso servo e uni-me a vosso Filho Jesus. Suplicai-lhe  que me perdoe e que me conceda, juntamente com o dom do seu amor, a graça da perseverança final.


PONTO II

Diz São Tomás que o principal tormento dos condenados será a consideração de que se perderam por verdadeiros nadas, e que podiam ter alcançado facilmente, se o quisessem, o prêmio da glória. O segundo remorso de sua consciência consistirá, portanto, no pensar quão pouco cumpria para salvar-se. Um condenado que apareceu a Santo Humberto revelou-lhe que sua maior aflição no inferno era reconhecer a indignidade do motivo que o levara à condenação e a facilidade com que poderia ter evitado. O réprobo dirá então: "Se me tivesse mortificado para não olhar aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano ou tal amizade, não me teria condenado... Se me tivesse confessado todas as semanas, se tivesse frequentado as asssociações piedosas, se tivesse feito todos os dias leitura espiritual e se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído em minhas culpas... 

Muitas vezes, resolvi fazer tudo isso, mas, infelizmente, não perseverei. 

Dava começo à pratica do bem, mas, em breve, desprezei o caminho encetado. Por isso, me perdi".

Aumentará o pesar causado por este remorso a lembrança dos exemplos de companheiros virtuosos e de amigos do condenado, assim como dos dons que Deus lhe concedeu para salvar-se: dons naturais, como boa saúde, fortuna e talento, que, bem aproveitados segundo a vontade de Deus, teriam servido para a santificação; dons sobrenaturais, como luzes, inspirações, convites, largos anos para reparar as faltas cometidas. O réprobo, porém, deverá reconhecer que, no estado em que se acha, já não há remédio. Ouvirá a voz do Anjo do Senhor, que exclama e jura: "por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que já não haverá tempo..." (Ap 10, 5-6). Como espadas agudas atuarão sobre o coração do condenado as recordações de todas as graças que recebeu, quando vir que já não é possível reparar a ruína eterna. Exclamará com seus companheiros de desespero: "Passou a ceifa, findo o estio, e nós não fomos salvos" (Jr 8,20). Se tivesse empregado no serviço de Deus o tempo e o trabalho passado em perder-me, teria sido santo... E, agora, que me restam, senão remorsos e mágoas sem fim? Sem dúvida, o pensamento de que poderia ser eternamente feliz e que será para sempre desgraçado, atormentará mais terrivelmente o condenado do que todos os demais castigos infernais. 


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pudestes, meu Jesus, aturar-me tanto tempo? Tantas vezes que me apartei de vós, outras tantas viestes procurar-me; ofendi-vos e me perdoastes; voltei a ofender-vos e novamente me concedestes perdão... Fazei, Senhor, que participe da dor amarga que, sob suores de sangue, sofrestes por meus pecados no horto de Getsêmani. Arrependo-me, caríssimo Redentor, de ter tão indignamente desprezado o vosso amor... Malditos prazeres, detesto-vos e vos amaldiçôo, porque me fizestes perder a graça de Deus!... Meu diletíssimo Redentor, amo-vos sobre todas as coisas; renuncio a todas as satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que tornar a ofender-vos... Pelo afeto com que me amastes na cruz e oferecestes a vida por mim, concedei-me luz e força para resistir à tentação e pedir vosso poderoso auxílio...

Ó Maria, meu amparo e minha esperança, que tudo podeis conseguir de Deus, alcançai-me a graça de que não me aparte nunca mais de seu amor santíssimo! 


PONTO III

Considerar o grande Bem que perderam, será o terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segundo São João Crisóstomo, será mais grave pela privação da glória do que pelos próprios tormentos do inferno. 

"Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renunciarei gostosamente ao seu paraíso", disse a infeliz princesa Isabel da Inglaterra...

Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certamente, não pensará o mesmo. Que aflição e que desespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos entre angústias e temores, gozando um torno temporal, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior aflição, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por acidentes de má sorte nem pela malevolência de outros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livremente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre vontade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como se salvaram muitos de seus companheiros que, não obstante terem de passar por perigos idênticos ou maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendando-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levantar-se e se consagraram novamente ao serviço do Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair desastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos, onde não existe a esperança.

Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, para não renunciar a um mísero deleite, preferiste perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir chorá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações que lês sejam o último apelo de Deus? Se não mudares de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eternamente entre aquela multidão de insensatos que agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam desesperados, porque não ignoram que é irremediável. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no inferno e recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio inferno. "Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás jamais" (Eclo 7,40), porque esse pensamento te fará recorrer a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, soberano Bem! Quantas vezes vos perdi por um nada, e quantas vezes mereci perder-vos para sempre! Reanimam-me e consolam-me, entretanto, aquelas palavras do Profeta: "Alegra-se o coração dos que buscam ao Senhor" (Sl 104,3). Não devo, pois, perder a esperança de recuperar vossa graça e vossa amizade, se vos procuro com sinceridade.

Sim, meu Senhor, suspiro por vossa graça mais que por qualquer outro bem. Prefiro ver-me privado de tudo, até a vida, a perder o vosso amor. Amo-vos, meu Criador, amo-vos sobre todas as coisas; e porque vos amo pesa-me de vos ter ofendido... Meu Deus, desprezei-vos e perdi-vos; perdoai-me e permiti que vos encontre, porque não quero tornar a vos perder. Admiti-me de novo na vossa amizade e abandonarei tudo para amar unicamente a vós. Assim o espero da vossa misericórdia...

Pai Eterno, ouvi-me; por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e concedei-me a graça de nunca mais me separar de vós. Se de novo e voluntariamente vos tornasse a ofender, teria justa razão para recear que me abandonásseis...

Ó Maria, a esperança dos pecadores, reconciliai-me com o meu Deus e guardai-me debaixo do vosso manto, a fim de que nunca mais me separe do meu Redentor. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte




domingo, 19 de abril de 2026

Da eternidade do inferno


 

Et ibunt hi in supplicium aeternum.

E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave. 

Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.

E se durasse um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10). 

Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. - E irão estes ao suplício eterno. - Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo" (Mt 25, 41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. "Ali o fogo consome de tal modo -  disse São Bernando - que conserva sempre".

Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo. 

Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: "Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais".


AFETOS E SÚPLICAS

Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...

E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender. 

Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.

Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos. 

Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça. 

Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança. 


PONTO II

Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei Davi exclamava trêmulo: "Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca" (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: "O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos". Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinquente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. "Uns para a vida eterna, e outros para o opróbio que terão sempre diante dos olhos" (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade. 

"O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre". "Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade". 

Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: "Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade". Os castigos da vida presente são transitórios: "As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou" (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". Diz a Escritura em roda, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).

Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? "Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea". Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração. 

Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48, 8-9). "Ali a culpa - disse o Belluacense - poderá ser castigada, mas jamais expiada" (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, "ali o pecador é incapaz de arrependimento". 

O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: "Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perveserança do ódio". São Jerônimo afirma que "no réprobos, o desejo de pecar é insaciável" (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).


AFETOS E SÚPLICAS

Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso  desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...

Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me contra Deus e contra vós!


PONTO III

No inferno, o que mais se deseja é a morte. "Buscarão os homens a morte e não a encontrarão" (Ap 9,6). Por isso, exclama São Jerônimo.

"Ó morte, quão agradável serias àqueles para quem foste tão amarga!". Disse Davi que a morte se apascentará com os réprobos (Sl 48,15). E explica-o São Bernardo, acrescentando que, assim como, ao pastar, os rebanhos comem apenas as pontas das ervas e deixam a raiz, assim a morte devora os condenados, mata-os a cada instante e conserva-lhes a vida para continuar a atormentá-los com castigo eterno. 

De sorte que, diz São Gregório, o réprobo morre continuamente sem morrer nunca. Quando um homem sucumbe de dor, todos têm compaixão dele. Mas o condenado não terá quem dele se compadeça. 

Estará sempre a morrer de angústia e não encontrará comiseração... O imperador Zenão, sepultado vivo numa masmorra, gritava e pedia que, por piedade, o retirassem dali, mas não o atenderam e, depois, o encontraram morto. As mordeduras que a si mesmo havia feito nos braços, patenteavam o horrível desespero que sentira... Os condenados, exclama São Cirilo de Alexandria, gritam no cárcere infernal, mas ninguém acode a libertá-los, ninguém deles se compadecerá jamais. 

E quanto tempo durará tão triste estado?... Sempre, sempre. Lê-se no Exército Espirituais, do Pe. Segneri, publicados por Muratori, que, em Roma, se interrogou a um demônio (na pessoa de um possesso), quanto tempo devia ficar no inferno... Respondeu com raiva e desespero: Sempre, sempre!... Foi tal o terror que se apoderou dos circunstantes, que muitos jovens do Seminário Romano, ali presentes, fizeram confissão geral, e sinceramente mudaram de vida, consternados por esse breve sermão de duas palavras apenas...

Infeliz Judas!... Há mais de mil e novecentos anos que já está no inferno e, não obstante, se diria que seu castigo apenas vai em princípio!... 

Desgraçado Caim!... Há cerca de seis mil anos que sofre o suplício infernal e pode-se dizer que ainda se acha no princípio de sua pena! Um demônio a quem perguntaram quanto tempo estava no inferno, respondeu: Desde ontem. E como se lhe replicou que isso não era possível, porque sua condenação já transcorrera há mais de cinco mil anos, exclamou: "Se soubésseis o que é a eternidade, compreenderíeis que, em comparação a ela, cinquenta séculos nem sequer chegam a ser um instante". 

Se um anjo fosse dizer a um réprobo: "Sairás do inferno quando se tiverem passado tantos séculos quantas gotas houver de água na terra, folhas nas árvores e areia do mar", o réprobo se regozijaria tanto como um mendigo que recebesse a nova de que ia ser rei. Com efeito, passarão todos esses milhões de séculos e outros inumeráveis a seguir, e contudo o tempo de duração do inferno estará sempre no seu começo...

Os réprobos desejariam propor a Deus que lhes aumentasse quanto quisesse a intensidade das penas e as prolongasse tanto quanto fosse. 

Esse fim e essa limitação, entretanto, não existe nem existirão. A voz da divina justiça só repete no inferno as palavras sempre, nunca! Os demônios, por escárnio, perguntarão aos réprobos: "Vai muito adiantada a noite?" (Is 21,11). Quando amanhecerá? Quando acabarão essas vozes, esses prantos, essa infecção, esses tormentos e essas chamas? E os infelizes responderão: Nunca! Nunca!... Mas quanto tempo hão de durar?... Sempre! Sempre!... Ah, Senhor! Iluminai a tantos cegos que, sendo advertidos para tratare de sua salvação, respondem: "Deixai-nos. Se formos para o inferno, que havemos de fazer?... Paciência?..." Meu Deus! não têm paciência para suportar, às vezes, os incômodos do calor e do frio, nem para sofrer uma leve ofensa, e hão de ter paciência, depois, para serem mergulhados num mar de fogo, suportar tormentos diabólicos o abandono absoluto de Deus e de todos, durante toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Pai das misericórdias! Nunca abandonais a quem vos procura. Se na vida tantas vezes me apartei de vós sem que me abandonasses, não me desprezeis agora que vos procuro. Pesa-me, Sumo Bem, de ter feito tão pouco caso de vossa graça, trocando-a por coisas de somenos valor. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz que clama perdão para mim. Perdoai-me, pois, Senhor... E vós, meu Redentor, recordai-me sempre os sofrimentos que por mim passastes, o amor que me tendes e a minha ingratidão, que tantas vezes me fez merecer a condenação eterna, a fim de que chore minhas culpas e viva ardendo em vosso amor... Ah, meu Jesus! Como não hei de abrasar-me em vosso amor ao pensar que há muitos anos já devia estar queimando nas chamas infernais durante toda a eternidade, e que vós morrestes para me livrar das mesmas e efetivamente me livrastes com tão grande misericórdia? Se estivesse no inferno vos aborreceria eternamente. Mas agora vos amo e desejo amar-vos sempre. Espero, pelos merecimentos do vosso precioso sangue, que assim me concedereis... Vós, Senhor, me amais e eu vos amo também: amar-me-eis sempre, se de vós não me apartar. Livrai-me, meu Salvador, da grande desdita de separar-me de vós e fazei o que vos aprouver... Mereço todos os castigos, e os aceito voluntariamente, contanto que não me priveis do vosso amor...

Ó Maria Santíssima, amparo e refúgio meu, quantas vezes me condenei por mim próprio ao inferno e dele me tendes livrado!... Livrai-me, no futuro, de todo pecado, causa única que me pode privar da graça de Deus e lançar-me ao inferno. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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domingo, 22 de março de 2026

Das penas do inferno




 Et ibunt in supplicium aeternum.

E irão estes ao suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I 

O pecador comete dois males quando peca: apartar-se de Deus, Sumo Bem, e se entrega às criaturas. "Dois males fez meu povo: abandonaram-me a mim, que sou fonte de águas viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter a água" (Jr 2,13). Em vista de o pecador se ter dado às criaturas com ofensas a Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: esta é a pena do sentido. Como, porém, sua maior culpa, na qual consiste a maldade do pecado, é a separação de Deus, o maior suplício do inferno é a pena do dano ou da privação da visão de Deus, perda irreparável.

Consideremos, em primeiro lugar, a pena do sentido. É de fé que existe inferno. No centro da terra se encontra esse cárcere, destinado ao castigo dos que se revoltaram contra Deus. Que é, pois, o inferno? O lugar de tormentos (Lc 16,28),como o chamou o mau rico; lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado hão de ter o seu castigo próprio, e onde aquele sentido que mais tiver servido para ofender a Deus mais acentuadamente será atormentado (Sb 11,17; Ap 18,7). A vista padecerá o tormento das trevas (Jó 10,21). Digno de profunda compaixão seria um infeliz encerrado em tenebroso e acanhado calabouço, durante quarenta ou cinquenta anos de sua vida. Pois o inferno é cárcere fechado por completo e escuro, onde nunca penetrará raio de sol nem qualquer outra luz (Sl 48,20). 

O fogo que aqui na terra ilumina, não será luminoso no inferno. 

"Voz do Senhor, que despede chamas de fogo" (Sl 28,7). Explica São Basílio que o Senhor separará do fogo a luz; de modo que estas chamas arderão sem iluminar; o que Santo Alberto Magno exprime mais brevemente nestes termos: "Separará do calor o resplendor". O fumo sairá dessa fogueira e formará a espessa nuvem tenebrosa que, como diz São Judas, cegará os olhos dos réprobos (Jd 13). Haverá ali apenas a claridade precisa para aumentar os tormentos. Uma sinistra claridade que permite ver a fealdade dos condenados e dos demônios, assim como o aspecto horrendo que estes tomarão para causarem mais horror. 

O olfato padecerá o seu tormento próprio. Seria insuportável se nos metêssemos um quarto acanhado, onde jazesse um cadáver um putrefação. O condenado deve ficar sempre entre milhões de réprobos, vivos para a pena, mas cadáveres hediondos quanto à pestilência que exalam (Is 34,3). Disse São Boaventura que, se o corpo de um condenado saísse do inferno, bastaria ele só para produzir uma infecção em consequência da qual morreriam todos os homens do mundo... E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: "Se for ao inferno, não irei sozinho..." Infelizes! Quanto maior for o número de réprobos ali, tantos maiores serão os sofrimentos de cada um. "Ali - diz Santo Tomás - a companhia de outros desgraçados não alivia; antes aumenta a desventura geral". Muitos mais sofrerão, sem dúvida, pela fetidez asquerosa, pelos gritos daquela multidão desesperada, e pelo aperto em que se acharão amontoados e comprimidos os réprobos, à semelhança de ovelhas em tempo de inverno (Sl 48,15), ou como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus (Ap 19,15). E assim mesmo padecerão o tormento da imobilidade (Ex 15,16). Da maneira como o condenado cair no inferno, assim há de permanecer imóvel, sem que lhe seja dado mudar de posição, nem mexer mão nem pé, enquanto Deus for Deus. 

O ouvido será atormentado com os contínuos gritos aflitivos daqueles pobres desesperados, e pelo barulho horroroso que, sem cessar, os demônios provocam (Jó 15,21). Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o contínuo gemido de um doente, o choro de uma criança ou o ladrar de um cão... Infelizes réprobos, que são obrigados a ouvir, por toda a eternidade, os gritos pavorosos de todos os condenados!... A gula será castigada com a fome devoradora... (Sl 58,15).

Entretanto, não haverá ali nem uma migalha de pão. O condenado sofrerá sede abrasadora, que não se apagaria com toda a água do mar. Mas não se lhe dará uma só gota. Uma só gota d'água pedia o rico avarento, e não a obteve, nem a obterá jamais. 


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés quem tão pouco caso fez da vossa graça e dos vossos castigos... Desgraçado de mim, se vós, meu Senhor, não tivésseis tido misericórdia! Há muitos anos que há estaria naquela fornalha infecta, onde ardem tantos pecadores como eu. Ah, meu Redentor, como poderia eu, no futuro, pensar em vos ofender? Não, isto não acontecerá, Jesus de minha vida; prefiro antes a morte. 

Já que me tirastes do lodaçal dos meus pecados e tão amorosamente me convidais a amar-vos, fazei que empregue agora todo o tempo em vos servir. 

Com quanto ardor, desejariam os condenados, um dia, uma hora desse tempo que a mim concedeis! E que farei eu? continuarei a malbaratá-lo em coisas que vos desagradem?... Não, meu Jesus, não o permitais, pelos merecimentos do vosso preciosíssimo sangue, que até agora me preservou do inferno. Amo-vos, soberano Bem, e, porque vos amo, pesa-me de vos ter ofendido. Proponho não tornar a ofender-vos, mas amar-vos sempre.

Maria Santíssima, minha Rainha e minha Mãe, rogai a Jesus por mim, e alcançai-me dos dons da perseverança e do divino amor. 


PONTO II

A pena do sentido que mais atormenta aos réprobos é o fogo do inferno, tormento do tato (Ecl 7,19). O Senhor o mencionará especialmente no dia do juízo: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno" (Mt 25,41). Mesmo neste mundo, o suplício do fogo é o mais terrível de todos. Entretanto, há tamanha diferença entre as chamas da terra e as do inferno, que, segundo afirma Santo Agostinho, em comparação daqueles, as nossas são como fogo pintado; ou como se fossem de gelo, acrescenta São Vicente Ferrer. E a razão consiste em que o fogo terreal foi criado para utilidade nossa, ao passo que o do inferno foi criado expressamente para castigo. "Mui diferentes são - diz Tertuliano - o fogo que se utiliza para uso do homem e o que serve para a justiça de Deus". A indignação de Deus é que acende essas chamas de vingança (Jr 15,14); e por isso Isaías chama espírito de ardor ao fogo do inferno (Is 6,4). O réprobo estará dentro dessas chamas, envolvido por elas, como um pedaço de lenha numa fornalha. Terá um abismo de fogo debaixo de seus pés, imensas massas de fogo sobre sua cabeça e ao derredor de si. Quando vir, apalpar ou respirar, fogo há de respirar, apalpar e ver. Estará submergido em fogo como o peixe em água. E essas chamas não cercarão apenas o condenado, mas penetrarão nele, em suas próprias entranhas, para atormentá-las. Todo o corpo será pura chama; arderá o coração no peito; nas veias, o sangue; a medula, nos ossos. Cada condenado converter-se-á numa fornalha ardente (Sl 20,10).

Há pessoas que não suportam o ardor de um solo aquecido pelos raios do Sol, que não sofrem estar junto a um braseiro num quarto fechado, que não resistem à chama de uma lâmpada, e contudo não temem este fogo devorador, como lhe chama Isaías (Is 33,14). Assim como uma fera devora um tenro cordeirinho, assim as chamas do inferno devorarão o condenado. Devorá-lo-ão sem o fazer morrer. "Continua, pois, insensato - diz São Pedro Damião, dirigindo-se ao voluptuoso - continua a satisfazer tua carne, que virá um dia em que tuas impurezas se converterão em ardente pez dentro de tuas entranhas e tornarão mais intensa e mais abrasadora a chama infernal em que hás de arder". Acrescenta São Jerônimo que aquele fogo trará consigo todos os tormentos e todas as dores que nos atribulam na terra; até o tormento do frio se padecerá ali (Jó 24,19). E tudo com tal intensidade que, segundo disse São João Crisóstomo, os padecimentos deste mundo são pálida sombra em comparação aos do inferno. 

As faculdades da alma terão também o seu castigo apropriado. O tormento da memória será a viva recordação do tempo que, em vida, teve o condenado para salvar-se e que empregou em perder-se, e das graças que Deus lhe concedeu e que foram desprezadas. O entendimento sofrerá ao considerar o grande bem que perdeu perdendo a Deus e o céu, ponderando que essa perda é já irreparável. A vontade verá que se lhe nega tudo quanto deseja (Sl 140,10). O desventurado réprobo nunca obterá nada do que quer, e sempre terá aquilo que mais o aborreça, isto é, males sem fim. Quererá livrar-se dos tormentos e desfrutar paz. Mas sempre será atormentado, jamais encontrará momento de repouso. 


AFETOS E SÚPLICAS

Vosso sangue e vossa morte são minha esperança, meu Jesus.

Morrestes para salvar-me da morte eterna. E quem, Senhor, recebeu maior parte dos merecimentos da vossa paixão do que este miserável, que tantas vezes mereceu o inferno?... Não permitais que continue sendo ingrato a tantas graças que me concedestes. Livrando-me do inferno, quisestes que não ardesse eu nas chamas eternas, mas no doce fogo do vosso amor. Se estivesse no inferno, não poderia amar-vos. Mas, já que ainda posso amar, quero amar-vos... Amo-vos, Bondade infinita; amo-vos, meu Redentor, que tanto me tendes amado. Como é que pude viver tanto tempo sem me lembrar de vós? Agradeço-vos, Senhor, não me terdes esquecido. Ao contrário, estaria agora no inferno, ou não teria arrependimento dos meus pecados. Esta dor do coração por ter-vos ofendido, este desejo que sinto de muito vos amar, são dons da vossa graça, que me auxilia e vivifica... Agradecido, meu Deus. Espero consagrar-vos a vida, que me resta. A tudo renuncio; quero pensar unicamente em vos servir e agradar. Imprimi em minha alma a recordação do inferno que mereci e da graça que me concedestes. Não permitais que, apartando-me outra vez de vós, volte a condenar-me eu mesmo aos tormentos daquele cárcere...

Ó Mãe de Deus, rogai por este pecador arrependido! Vossa intercessão livrou-me do inferno. Livrai-me também do pecado, único motivo capaz de acarretar-me nova condenação. 


PONTO III

Todas as penas referidas nada não em comparação com a perda do dano. As trevas, a infecção, o pranto, as chamas não constituem a essência do inferno. O verdadeiro inferno é a pena de ter perdido a Deus! Dizia São Bruno: "Multipliquem-se os tormentos, contanto que não se prive de Deus". E São João Crisóstomo: "Se disseres mil infernos de fogo, nada dirás comparável à dor daquele". Santo Agostinho acrescenta que, se o repróbos gozassem da visão de Deus, "não sentiram tormento algum, e o próprio inferno se converteria em paraíso". 

Para compreender algo desta pena, consideremos: Se alguém perde, por exemplo, uma pedra preciosa que valha cem escudos, sentirá grande mágoa; mas se esta pedra valesse duzentos, muito mais sentiria.

Portanto: quanto maior é o valor do objeto que se perde, tanto mais se sente a pena que ocasiona a perda... E como os réprobos perdem o bem infinito, que é Deus, sentem - como diz São Tomás - uma pena de algum modo infinita. 

Neste mundo somente os justos temem esta pena, disse Santo Agostinho. Santo Inácio de Loiola exclama: "Senhor, tudo sofrerei, mas nunca de ficar privado de vós". Os pecadores não fazem caso desta grande perda, porque vivem largos sem Deus, mergulhados em trevas. Na hora da morte, entretanto, reconhecerão a grandeza do bem que perderam. A alma, ao partir deste mundo, - diz Santo Antonino, - reconhece que foi criada por Deus e irresistivelmente deseja unir-se e abraçar-se com o Bem Supremo; achando-se, porém, em estado de pecado, Deus a repele.  

Se um galgo acorrentando vê perto de si esquisita presa, esforça-se para romper a cadeia e lançar-se ao seu encalço. A alma ao separar-se do corpo se sente naturalmente atraída para Deus. O pecado, porém, a afasta e arremesa pedra nela (Is 50,2). Todo o inferno, pois, se resume nas palavras da sentença: "Apartai-vos, dirá o Senhor, não quero que torneis a ver-me a face. Mesmo que se imaginassem mil infernos, nada se poderia conceber que equivalesse à pena de ser odiado por Cristo". Quando Davi impôs a Absalão o castigo de que jamais comparasse diante dele, Absalão sentiu dor tão profunda que exclamou: "Dizei a meu pai que, ou me permita ver o seu rosto ou me dê a morte" (2Rs 14,15).

Vendo Filipe II que um nobre de sua corte se achava na igreja com pouco respeito, disse-lhe severamente: "Não consinto que doravante vos apresenteis diante de mim". E tal a consternação e a dor daquele cortesão, que, ao chegar à sua casa, morreu de pesar... Que será, quando Deus desperdir o réprobos para sempre?... "Esconderei dele a minha face... e cairão sobre ele todos os males e aflições" (Dt 31,17). Já não sois meus, nem eu vosso, dirá Cristo aos condenados (Os 1,9) no dia do juízo. 

É dor imensa para um filho ou uma esposa pensar que nunca tornará a ver seu pai ou seu esposo, que acaba de morrer... Se, ao ouvir os gemidos da alma de um réprobo, lhe perguntássemos a causa de tamanha dor, que sentiria ela ao dizer-nos: "Choro, porque perdi a Deus e nunca mais o tornarei a ver?" Se ao menos o desgraçado pudesse amar a Deus no inferno e conformar-se com a vontade de Deus! Mas não, se o pudesse fazer, o inferno deixaria de ser inferno. Nem poderá resignar-se, nem lhe será dado amar a Deus. Viverá a odiá-lo eternamente; e esse há de ser o seu maior tormento: conhecer que Deus é o Sumo Bem, digno de infinito amor, e ver-se forçado a aborrecê-lo para sempre. 

"Sou aquele malvado despojado do amor de Deus", respondeu o demônio, quando interrogado por Santa Catarina de Gênova. O réprobo odiará e amaldiçoará a Deus, e amaldiçoando-o, almalçoará também os benefícios que ele recebeu, a criação, a redenção, os sacramentos, especialmente os do batismo e da penitência, e sobretudo o Santíssimo Sacramento do Altar. Aborrecerá todos os anjos e com ódio implacável o seu anjo da guarda, os seus santos padroeiros e a Virgem Santíssima. Malditas serão por ela as três Pessoas divinas, especialmente a de Deus Filho, que morreu para salvar-nos, e as chagas, os trabalhos, o sangue, a paixão e morte de Cristo Jesus. 

  

AFETOS E SÚPLICAS

Vós sois, meu Deus, o soberano bem, o bem infinito e contudo quantas vezes vos perdi voluntariamente?... Sabia que com meus pecados vos feria profundamente e perdia vossa graça e, no entanto, os cometi!... Ah, Senhor, se não soubesse que morrestes por mim cravado numa cruz, não ousaria pedir e esperar o vosso perdão!... Ó Pai Eterno! Não olheis para mim, contemplai, porém, vosso  Filho amado, que vos pede misericórdia por mim; ouvi-o e perdoai-me. Já há muitos anos que mereci estar no inferno, sem esperança de amar-vos nem de recuperar a graça perdida. Detesto, meu Deus, de todo o coração, as injúrias que vos fiz, renunciando à vossa amizade e desprezando vosso amor por indignos prazeres deste mundo... Antes tivesse morrido mil vezes! 

Como pude ser tão cego e tão insensato?...  Agradeço, Senhor, o tempo que me dais para remediar o mal que cometi. Já que, por vossa misericórdia, não estou no inferno e posso amar-vos ainda, desejo amar-vos, meu Deus. Não quero adiar, por mais tempo, minha sincera e firme resolução... Amo-vos, bondade infinita; amo-vos, minha vida e meu tesouro, meu amor e meu tudo... Recordai-vos sempre, Senhor, do amor que me tivestes, e fazei que sempre tenha presente o inferno em que devia estar, a fim de que este pensamento me incentive no vosso amor e me anime a repetir mil vezes que vos amo verdadeiramente... 

Ó Maria, Rainha, esperança e Mãe nossa, se estivesse no inferno já não vos poderia amar!... Mas agora vos amo, minha Mãe, e espero que jamais deixarei de amar a vós e ao meu Deus. Ajudai-me e rogai a Jesus por mim. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte





sábado, 7 de fevereiro de 2026

Nossa Senhora do Porto


 

Clemont-Ferrand (Dep. du Puy-de-Dome, França)

A notável igreja de Nossa Senhora do Porto, mais antiga que a Catedral, parece remontar aos primeiros séculos do estabelecimento do cristianismo na Gália, e é incontestavelmente o mais importante dos Santuários de devoção mariana de Auvergne, sendo as suas peregrinações as mais frequentadas da Diocese. 

Mas há outra coisa, difícil de descrever, por ser de natureza espiritual, que torna este Santuário notável: a acumulação de orações e a concentração de tantos atos de devoção ao pé da antiga imagem durante tantos séculos, por tantos devotos piedosos cristãos, encheram a Cripta, morada de Nossa Senhora do Porto, duma presença maravilhosa, invisível, é verdade, porém que a muitos fiéis se torna sensível... 

A sua maior festa é no dia 15 de maio ou no domingo seguinte. 

Sobre a origem deste Santuário não há documentos anteriores ao século XIII, mas lê-se na vida de Santo Avit, bispo de Clermont (571-594), que este bispo fez construir, num lugar que desde as mais remotas eras tinha o nome de "Le Port" (daí o título de - Nossa Senhora do Porto) - uma vistosa igreja em honra de Nossa Senhora. 

Da linda igreja atual, o Santuário propriamente dito de Maria é a Cripta aonde os fiéis vão rezar diante da milagrosa imagem de Nossa Senhora do Porto. 

A imagem tem apenas 30 cm de altura e é feita de madeira, uma espécie de nogueira muito escura, e é do tipo das Madonas bizantinas, que sobreviveram nos ícones gregos e russos, e que a arte italiana do século XIII adotou. 

Não é possível determinar com certeza quem a esculpiu nem em que século foi esculpida. 

Na festa de 15 de maio é levada em procissão, e neste mês é ininterrupto o movimento de peregrinos.

Do ano de 1514 em diante espalhou-se pela França inteira a fama dos milagres de Nossa Senhora do Porto, que é por isso invocada em todas as possíveis necessidades.

Enfim, foi diante desta imagem que príncipes e outros personagens ilustres se fizeram Cruzados, antes de embarcar ao grito de - "Deus o quer"!

A peregrinação principal é, como já vimos, no domingo que segue o dia 15 de maio, com procissão triunfal, acompanhada por uma considerável multidão.

(Esta notícia histórica é versão adaptada os livros "Wallfahrtsorte Europas" e "Mille Pelerinages de Notre Dame".)



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Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

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