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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Dos enganos que o inimigo sugere ao pecador

 



(Apesar de que muitos pensaamentos incluídos nesta meditação já tenham sido considerados nas precedentes, é útil, todavia, compendiá-los e reuni-los aqui a fim de combater os enganos usuais de que se serve o demônio para iludir os pecadores à reincidência em suas culpas.)

PONTO I

Imaginemos que um jovem, réu de graves pecados, se confessou e recobrou a graça divina. O demônio tenta-o novamente, a fim de que recaia em seus pecados. O jovem resiste no princípio, mas começa a vacilar em vista das ilusões que o inimigo lhe sugere. "Meu irmão - lhe direi - que queres fazer? Desejas, porventura, sacrificar a uma vil satisfação essa excelsa graças de Deus, que reconquistaste, e cujo valor excede ao do mundo inteiro? Queres firmar por tuas próprias mãos a tua sentença de morte eterna e condenar-te a sofrer para sempre no inferno?" - "Não - responder-me- ás - não quero condenar-me, mas salvar a minha alma. Mesmo que cometa esse pecado, confessá-lo-ei logo..." Tal é a primeira sugestão do tentador. Confessar-se depois! Entretanto, perder-se a alma! Dize-me: se tivesses na mão uma formosa jóia de altíssimo valor, lançá-la-ias ao rio, dizendo: procurá-la-ei com cuidado, pois espero encontrá-la? Tens entretanto, em tua mão, essa jóia riquíssima de tua alma, que Jesus Cristo resgatou com seu sangue.

Voluntariamente a lanças no inferno, pois no ato de pecar cais condenado e dizes que a recobrarás pela confissão. E se não a recobras? Para recuperá-la é mister verdadeiro arrependimento, que é um dom de Deus. E Deus pode não te conceder. E se a morte vier e te arrebatar o tempo para a confissão? Asseguras que não deixas passar uma semana sem confessar tuas culpas. E quem te prometeu essa semana? Dizes que te confessarás amanhã. E quem te promete esse dia? O dia de amanhã - diz Santo Agostinho - Deus não te prometeu; talvez te concederá, talvez não, como aconteceu a muitos, que se recolheram sadios à noite para dormir em suas camas e amanheceram mortos. A quantos o Senhor feriu de morte no próprio ato de pecado e os precipitou no inferno! E se fizesse o mesmo contigo? Como conseguirias remediar tua eterna perdição? Persuade-te, pois, de que com o dizer "depois me confessarei" o demônio tem arrastado ao inferno milhares e milhares de almas. Porque raras vezes se encontrarão pecadores tão desesperados que queiram condenar-se a si mesmos. Todos, ao pecar, o fazem com esperança de reconciliar-se depois com Deus. É esta causa por que tantos infelizes têm sido condenados, tornando-se irremediavelmente perdidos. 

Talvez digas que não poderás resistir à tentação que se apresenta.

Este é o segundo que sugere o inimigo, fazendo-te crer que não tens forças para combater e vencer tuas paixões. Em primeiro lugar, é mister que saibas - como diz o Apóstolo - que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados com violência superior às nossas forças (2Cor 10,13).

Além disso, se agora não és capaz de resistir, como podes ter esperança de consegui-lo depois, quando o inimigo não cessar de induzir-te a novos pecados e tiver sobre ti muito mais força que antes, enquanto tu serás mais fraco? Se pensas que agora não podes extinguir essa chama, como crês que a apagarás mais tarde, quando ela lavrar com mais violência?... Afirmas que Deus te ajudará. Mas esse seu auxílio poderoso ele te dá agora. Por que não queres valer-te dele para resistir? Esperas, acaso, que Deus multiplique seu auxílio e sua graça a teu favor, quando tiveres avolumado as tuas culpas? E se desejas maior socorro e mais forças, por que é que não os pedes a Deus? Duvidas, talvez, da fidelidade do Senhor, que prometeu conceder tudo o que se lhe pedir? (Mt 7,7). Deus não se esquece de suas promessas. Recorre a ele e dar-te-á força de que necessitas para resistir à tentação. Deus - segundo a palavra do Concílio de Trento - não ordena coisas impossíveis.

Ao dar o preceito, quer que façamos o que estiver ao nosso alcance com o auxílio atual que nos proporciona; e se este auxílio atual não for suficiente para resistir, nos exorta a que o impetremos mais, pois, pedindo-lhe com os devidos requisistos, o concederá certamente. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus, por terdes sido vós tão bondoso para comigo é que eu tenho sido tão ingrato para convosco? Como à porfia, Senhor, afastei-me de vós e vós a procurar-me. Vós a cumular-me de bens e eu a ofender-vos! Ó meu Senhor! mesmo que fosse somente pela vossa bondade para comigo, devia inflamar-me no amor que vos devo, porque, à medida em que eu avolumava as culpas, vós me aumentáveis a graça para emendar-me. Como é que mereci a luz com que iluminais a minha alma? Agradeço-vos, meu Deus, de todo o coração e espero ir agradecer-vos eternamente no céu, pois os merecimentos de vosso sangue preciosíssimo me infundem consoladora esperança de salvação, fundada na imensa misericórdia que me tendes prodigalizado. Espero, entretanto, que me dareis força para nunca mais vos trair, e proponho, com o auxílio de vossa graça, preferir mil vezes a morte a tornar ofender-vos. Basta de ofensas que vos fiz! Quero passar o resto da vida, entregando-me a vosso amor. E como não hei de amar um Deus que morreu por mim e que me tem aturado com tanta paciência, apesar das ofensas que pratiquei?... Arrependo-me de todo o coração, Deus de minha alma, e quisera morrer de dor!... Se na vida passada me apartei de vós, agora amo-vos sobre todas as coisas, mais que a mim mesmo...

Eterno Pai, pelos merecimentos de Jesus Cristo, socorrei um miserável pecador que vos deseja amar... 

Maria, minha esperança, ajudai-me! Alcançai-me a graça de recorrer sempre a vosso divino Filho e a vós, todas as vezes que o inimigo me excitar a cometer novos pecados.


PONTO II

Dizes que o Senhor é Deus de misericórdia. Aqui se oculta o terceiro engano, muito comum entre os pecadores, e pelo qual não poucos se condenam. Escreve um sábio autor que mais almas envia ao inferno a misericórdia do que a justiça de Deus, porque os pecadores, confiando temerariamente naquela, não deixam de pecar, e se perdem. 

O Senhor é Deus de misericórdia: quem o nega? Contudo, quantas almas manda Deus todos os dias às penas eternas! É, na verdade, misericordioso, mas é também justiceiro; e este predicado o obriga a castigar a quem o ofende. Usa de misericórdia com aqueles que o temem (Sl 102, 11-13). Naqueles, entretanto, que o desprezam e abusam da clemência divina para continuar a ofendê-lo, tem que resplandecer somente a justiça de Deus. E com toda a razão, porque o Senhor perdoa o pecado, mas não pode perdoar a vontade de pecar. Aquele que peca - diz Santo Agostinho - pensando que se arrependerá depois de ter pecado, não é penitente, mas zomba de Deus e o menospreza.

Ora, o Apóstolo nos adverte de que Deus não consente que zombem dele (Gl 6,7). E que irrisão maior haveria do que ofendê-lo como e quando quiséramos, e ainda aspirar à glória? "Assim como Deus foi tão misericordioso para comigo em minha vida passada, espero que o será também no futuro". "Este é o quarto engano. Porque o Senhor se compadeceu de ti até agora, porventura, usará sempre de clemência e não castigará jamais?... Muito pelo contrário. 

Quanto maior tenha sido sua clemência, tanto mais deves temer que deixe de perdoar-te, e que te castigue com rigor se voltares a ofendê-lo. 

"Não digas - exclama o Eclesiástico - pequei e não recebi castigo, porque o Altíssimo, ainda que paciente, é justiceiro" (Ecl 5,4). Quando sua misericórdia chega ao limite que determinou para cada pecador, passa a castigá-lo por todas as culpas que o ingrato cometeu. E a pena será tanto mais dura, quanto mais tempo Deus esperou o culpado, disse São Gregório.

Se vires, pois, meu irmão, que, apesar de tuas frequentes ofensas a Deus, ainda não foste castigado, deves dizer: "Senhor, grande é meu reconhecimento, porque ainda não me condenastes ao inferno, que ainda não me condenastes ao inferno, que tantas vezes mereci" (Lm 3,22). Considera que muitos pecadores, por culpas menos graves que as tuas, foram condenados irremediavelmente.

Trata, por isso, de satisfazer por teus pecados mediante o exercício da penitência e de outras boas obras. A benevolência com que Deus te travou deve ensinar-te não só a deixar de ofendê-lo, mas a servi-lo e amá-lo sempre, tendo em vista a imensa misericórdia que te fez de preferência a outros. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus crucificado, meu Redentor e meu Deus, a vossos pés se prosta este traidor infame, envergonhando-se de comparecer ante vossa presença. Quantas vezes vos tenho desprezado! Quantas vezes prometi não tornar a vos ofender! Entretanto, minhas promessas foram outras tantas traições, pois assim que se me ofereceu ocasião de pecar, esqueci-vos e vos abandonei novamente. Dou-vos mil graças, porque ainda não me condenastes ao inferno e me permitis estar a vossos pés, iluminando minha alma e me atraindo a vosso amor. Quero amar-vos, Salvador, e jamais desprezar-vos, pois bastante me tendes esperado. 

Infeliz de mim se, apesar de tantas graças recebidas, tornasse a ofender-vos! Senhor, estou resolvido a mudar de vida e quero amar-vos na proporção em que vos ofendi. O que me consola é o considerar que sois a bondade infinita. Arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado e vos ofereço, para o futuro, todo o meu amor. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa sagrada Paixão. Esqueci os pecados com que vos injuriei e dai-ne forças para vos ser sempre fiel. Amo-vos, meu Sumo Bem; espero amar-vos eternamente, e não quero tornar a abandonar-vos...

Ó Maria, Mãe de Deus, uni-me a meu Salvador Jesus Cristo e alcançai-me a graça de jamais apartar-me de seus benditos pés!... Em vós confio. 


PONTO III

"Ainda sou moço... Deus tem compaixão da mocidade; mais tarde entregar-me-ei a ele". Consideremos este quinto engano. És moço: mas não sabes que Deus conta os pecados de cada homem e não os anos?...

Quantos tens cometido?... Muitos velhos haverá que não tenham feito nem a décima parte dos que cometeste. Ignoras que o Senhor fixou o número e a medida das culpas que a cada pecador há de perdoar? "O Senhor - diz a Escritura - espera com paciência para castigar as nações da plenitude de seus pecados, quando chegar o dia do juízo" (2Mc 6,14). Quer dizer que o Senhor é paciente e espera até certo limite; logo, porém, que se encha a medida dos pecados que a cada homem quer perdoar, cessa o perdão e ele executa o castigo, ferindo-o de morte súbita no estado de condenação em que se acha, ou abanhonando-o a seu pecado, que é pior castigo que a morte (Is 5).

Se possuis um terreno, que cercaste e, apesar de cultivado durante longos anos com gastos consideráveis, vês que não te dá fruto algum: que farás?... Arrancas-lhe o cercado e o deixas abandonado. Pois bem, teme que Deus não proceda do mesmo modo contigo. Se continuas pecando, irás perdendo o remorso da consciência; não pensarás na eternidade nem em tua alma; perderás quase de todo a luz que nos guia; acabarás por perder todo o temor... Com isto podes considerar abatida a cerca que te defendia, para dar lugar ao abandono de Deus. 

Examinemos, enfim, o derradeiro engano. Dizes: "É verdade que com este pecado perderei a graça de Deus e ficarei condenado ao inferno.

Pode assim suceder que me condene; mas também pode acontecer que me confesse logo e me salve..." Concedo que assim possa ser. 

Desejo que te salves. Não sou profeta e, portanto, não me é dado asseverar com certeza que, depois de cometido esse novo pecado, já não haverá para ti perdão de Deus. Contudo, não podes negar que se, depois de tantas graças que o Senhor te concedeu, voltas a ofendê-lo, é muito fácil que para sempre te percas. Assim o patenteia a Sagrada Escritura: "O coração rebelde será oprimido em seus males" (Ecl 3,27). 

Os que cometem maldades serão exterminados (Sl 36,9). Aquele que semeia pecados, colherá por fim castigos e tormentos (Gl 6,8). "Chamei-vos - disse Deus - e vós não quisestes ouvir-me... Também eu me rirei da vossa ruína" (Pr 1,24-26). "A mim pertence a vingança, e eu lhes darei o pagamento a seu tempo". Deste modo fala a Sagrada Escritura dos pecadores obstinados, e assim o exigem a razão e a justiça.

E, não obstante, dizes que, apesar de tudo, talvez te salvarás. Repetirei que isso não é impossível. Entretanto, não constitui tremenda loucura arriscar a eterna salvação por um talvez e por um talvez tão pouco provável? É este negócio de tão pouco valor, que podemos pô-lo em tão grave risco?


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, prostrado a vossos pés, agradeço-vos de toda a minha alma que, apesar de minhas ofensas, não me abandonastes. Quantos há que menos vos ofenderam do que eu e não receberam as inspirações que agora me dais! Vejo que quereis realmente salvar-me e eu uno aos vossos os meus desejos. Quero exaltar eternamente no céu a vossa misericórdia. Espero, Senhor, que já me haveis perdoado; se, entretanto, ainda não recuperei vossa graça porque não soube arrepender-me de minhas culpas, como devia, agora me arrependo de todo o coração, e as detesto mais que todos os males.

Perdoai-me, por piedade, e aumentai em mim a dor de vos ter ofendido, meu Deus, suma e inefável bondade. Enchei-me de dor e amor; mesmo que vos ame sobre todas as coisas, ainda é pouco. Quero amar-vos mais e vos peço e de vós espero alcançar esse grande amor. Ouvi-me, meu Jesus, já que prometestes ouvir a quem vos suplica...

Ó Virgem Maria, Mãe de Deus, o mundo inteiro afirma que nunca deixais de desconsolado a quem a vós se recomenda. Depois de Jesus Cristo, sois minha única esperança. A vós, Senhora, eu recorro e em vós confio. Recomendai-me a vosso divino Filho e salvai-me. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555429780769/


domingo, 15 de junho de 2025

Vaidade do mundo




Ajude este apostolado colaborando com qualquer valor. 

Deus abençoe por Maria! 


Santo Afonso Mª de Ligório 

Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma? (Mt 16,26).


PONTO I 

Numa viagem marítima, um filósofo antigo, de nome Aristipo, naufragou com o navio em que ia, perdendo todos os bens. Pôde, entretanto, chegar salvo à terra, e os habitantes do país a que arribou, entre os quais Aristipo gozava de grande fama por seu saber, o indenizaram de tudo que havia perdido. Admirado, escreveu logo a seus amigos e patrícios incitando-os a que aproveitassem o seu exemplo, e que somente se premunissem das riquezas que nem com os naufrágios se podem perder. É isto exatamente o que nos recomendam nossos parentes e amigos que já chegaram à eternidade. Advertem-nos para que este mundo procuremos adquirir antes de tudo os bens que nem a morte nos faz perder. O dia da morte é chamado o dia da perda, porque nele perdemos as honras, as riquezas e os prazeres, enfim, todos os bens terrenos. Por esta razão, diz Santo Ambrósio, que não podemos chamar nossos a esses bens, porque os não podemos levar conosco para o outro mundo; somente as virtudes nos acompanham para a eternidade. 

"De que serve, pois - diz Jesus Cristo (Mt 16,26) - ganhar o mundo inteiro, se à hora da morte, perdendo a alma, tudo perde?"... Oh! quantos jovens, penetrados desta grande máxima, resolveram entrar na clausura! Quantos anacoretas conduziu ao deserto! A quantos mártires moveu a dar a vida por Cristo! Por meio desta máximas soube Santo Inácio de Loiola chamar para Deus inúmeras almas, entre elas a alma formosíssima de São Francisco Xavier, que, residindo em Paris, ali se ocupava em pensamentos mundanos. "Pensa, Francisco - lhe disse um dia o Santo, - pensa que o mundo é traidor, que promete e não cumpre; mas, ainda que cumprisse o que promete, jamais poderia satisfazer teu coração. E supondo que o satisfizesse, quanto tempo poderá durar essa felicidade? Mais que tua vida? E no fim dela, levarás tua dita para a eternidade? Existe, porventura, algum poderoso que tenha levado para o outro mundo uma moeda sequer ou um criado para seu serviço? Há algum rei que tenha levado consigo um pedaço de púrpura em sinal de dignidade?..." Movido por estas considerações, São Francisco Xavier renunciou ao mundo, seguiu a Santo Inácio de Loiola e se tornou um grande Santo.

Vaidades das vaidades (Ecl 1,2). Assim chamou Salomão aos bens do mundo, depois de ter experimentado, como ele mesmo confessou, todos os prazeres da terra (Ecl 2,10). Soror Margarida de Sant'Ana, carmelita descalça, filha do imperador Rodolfo II, dizia: "Para que servem os tronos da hora da morte?..." Coisa admirável! Tremem os Santos ao pensar em sua salvação eterna. Tremia o Padre Ségneri, que, todo assustado, perguntava a seu confessor: "Que me dizeis, Padre, salvar-me-ei?" Tremia Santo André Avelino quando, gemendo, exclamava: "Quem sabe se me salvarei!" Esse mesmo pensamento afligia a São Luís Bertram, e o fez levantar-se muitas noites do leito, exclamando: "Quem sabe se me condenarei?..." E contudo os pecadores vivem em estado de condenação, e dormem, e riem, e se divertem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Jesus, meu Redentor! De todo o coração vos agradeço por me terdes dado a conhecer minha insensatez e o mal que cometi afastando-me de vós, que por mim sacrificastes sangue e vida. Em verdade, não merecíeis da minha parte ser tratado como vos tratei. Se a morte me ferisse agora, que acharia em mim senão pecados e remorsos de consciência, que me tornariam bem angustiosos os últimos momentos? Confesso, meu Salvador, que fiz mal, que a mim mesmo me enganei, trocando o Bem Supremo pelos míseros prazeres deste mundo. 

Arrependo-me de todo o coração, e vos suplico, pelas dores que na cruz sofretes, me deis a mim tão grande dor de meus pecados, que me faça chorar durante o resto de minha vida as culpas que cometi. 

Perdoai-me, meu Jesus; prometo nunca mais vos ofender, e amar-vos sempre. Sei que não sou digno de vosso amor, porque o desprezei tantas vezes; mas também sei que amais a quem vos ama... (Pr 8,17). 

Amo-vos, Senhor; amai-me, pois, também. Não quero tornar a perder vossa amizade e graça. Renuncio a todos os prazeres e a todas as pompas deste mundo, contanto que me ameis... Ouvi-me, meu Deus, por amor de Jesus Cristo, que vos pede não me arrojeis de vosso coração. 

A vós me ofereço inteiramente e vos consagro minha vida, meus sentidos, minha alma, meu corpo, minha vontade e minha liberdade. 

Aceitai, Senhor, a oferta e não me desprezeis como mereço, por ter desprezado tantas vezes vosso amor... (Sl 50,13).

Virgem Santíssima, minha Mãe, rogai por mim a Jesus. Em vossa intercessão confio. 


PONTO II

É mister pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo, que é falsa e enganadora (Os 12,71). Os bens do mundo são desprezíveis, não satisfazem e acabam depressa. "Meus dias passaram mais depressa que um correio; passaram como um navio..." (Jo 9,25-26). 

Passam e fogem velozes os breves dias desta vida; e que resta por fim dos prazeres terrenos? Passaram como navios. O navio não deixa vestígio de sua passagem (Sb 5,10). Perguntemos a todos esses ricos, sábios, príncipes, imperadores, que estão na eternidade, o que acham ali de suas passadas grandezas, pompas e delícias deste mundo. Todos responderão: Nada, nada. Ó homens, exclama Santo Agostinho, vós considerais somente os bens que possui aquele magnata; atentai também nas coisas que leva consigo ao sepulcro: um cadáver pestilento e uma mortalha que com ele se consumirá. Quando morre algum dos grandes, apenas se fala dele algum tempo; depois até sua memória se perde (Sl 9,7). E se caem no inferno, que farão e que dirão ali?... Chorarão, dizendo: Para que nos serviram o luxo e a riqueza? Tudo agora se passou como sombra (Sb 5,8-9) e nada nos resta senão penas, pranto e desespero sem fim. 

"Os filhos do século são mais prudentes em seus negócios que os filhos da luz" (Lc 18,8). Causa pasmo ver quão prudentes são os mundanos no que diz respeito às coisas da terra. Que passos não dão para adquirir honras ou fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo!... Escolhem e empregam os meios mais adequados, os médicos mais afamados, os melhores remédios, o clima mais saudável... e, entretanto, quão descuidados são para a alma!... E, no entanto, é certo que a saúde, as honrarias e as riquezas devem acabar-se um dia,  ao passo que a alma, imortal, não tem fim. "Observemos - disse Santo Agostinho - quanto sofre o homem pelas coisas que ama desordenadamente". Quanto não sofrem os vingativos, ladrões e licenciosos para atingir seus malvados desígnios? E para o bem da alma nada querem sofrer. Ó Deus! À luz do círio que na hora da morte se acende, naquele momento de grandes verdades, os mundanos reconhecem e confessam sua grande loucura. Então desejariam ter renunciado ao mundo e levado vida santa. 

Ó Pontífice Leão XI disse na hora da morte: "Em vez de ser Papa, melhor fora para mim ter sido porteiro no meu convento". Honório III, também Pontífice, exclamou ao morrer: "Melhor teria feito, se ficasse na cozinha de minha comunidade para lavar a louça". Filipe II, rei de Espanha, chamou seu filho na hora da morte, e, depois de afastar a roupa, lhe mostrou o peito roído de vermes, dizendo: "Vê, príncipe, como se morre, e como se acabam as grandezas do mundo". Depois exclamou: "Por que não fui eu, em vez de monarca, simples frade leigo de qualquer ordem!" Mandou depois que lhe pusessem ao pescoço uma cruz de madeira; e tendo disposto todas as coisas para sua morte, disse a seu herdeiro: Quis, meu filho, que estivesses presente a este ato, para que visses como, no fim da vida, o mundo trata ainda os próprios reis. Sua morte é igual à dos mais pobres da terra. Aquele que melhor tiver vivido, esse é que achará junto de Deus mais alto favor". E este mesmo filho, que foi depois Filipe III, ao morrer com apenas 43 anos de idade, disse: "Atendei, meus súditos, a que no meu necrológio somente se fale do espetáculo que tendes presente. Dizei que na morte de nada serve o título de rei, a não ser para sentir-se maior tormento de o haver sido... Oxalá, em vez de rei, tivesse vivido em um deserto servindo a Deus!... Ir-me-ia agora apresentar com mais confiança entre seu tribunal, e não correria tamanho risco de me condenar!..." De que valem, porém, tais desejos no transe da morte, senão para maior desespero e pena de quem não amou a Deus durante a vida? Dizia, por isto, Santa Teresa: "Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida. A verdadeira vida consiste em viver de modo que nada se tenha a recear da morte..." Portanto, se desejamos compreender o que valem os bens da terra, consideremo-los do leito da morte e digamos logo: Aquelas riquezas, estas honras, estes prazeres, se acabarão um dia. É necessário, assim, que procuremos santificar-nos e enriquecer-nos somente dos bens únicos que hão de acompanhar-nos sempre e que constituirão nossa dita por toda a eternidade.


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Redentor!... Sofrestes tantos sacrifícios e tantas ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e as vaidades do mundo, que por sua causa fui levado a calcar aos pés inúmeras vezes a vossa graça. Mas, ainda que vos desprezasse, não deixáveis de me procurar; por isso, ó meu Jesus, não posso temer que me abandonareis agora que vos procuro e amo de todo o coração, e me dói mais de vos ter ofendido que se tivesse sofrido qualquer outro mal. Ó Deus de minha alma, não quero tornar a ofender-vos nem nas coisas mínimas. 

Fazei-me conhecer aquilo que vos desagrada e que não o pratique por nada deste mundo. Fazei que saiba o que vos é agradável e o ponha em execução. Quero amar-vos verdadeiramente; e por vós, Senhor, aceitarei gostosamente todos os sofrimentos e todas as cruzes que me vierem. Dai-me a resignação de que necessito. Queimai, cortai... Castigai-me nesta vida, a fim de que na outra possa amar-vos eternamente. 

Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim. 


PONTO III

"O tempo é breve... os que se servem do mundo, sejam como se dele não se servissem, porque a figura deste mundo passa..." (1Cor 7,31). Que é com efeito nossa vida temporal senão uma cena que passa e se acaba logo? "Passa a figura deste mundo", quer dizer, a aparência, a cena de comédia. "O mundo é como um teatro - diz Cornélio a Lápide; - desaparece uma geração e outra lhe sucede. Quem representou o papel de rei, não levará consigo a púrpura... dize-me, ó cidade, ó casa, quantos donos tivestes?" Quando acaba a peça, o rei deixa de ser rei, o senhor deixa de ser senhor. Possuis agora essa quinta ou palácio; mas virá a morte e outros passarão a ser donos de tudo. 

A hora da morte faz esquecer todas as grandezas, honras e vaidades do mundo (Ecl 11,29). Casimiro, rei da Polônia, morreu de repente, quando, achando-se à mesa com grandes do reino, levava aos lábios a taça para beber. Rapidamente acabou para ele a cena do mundo... O imperador Celso foi assassinado oito dias depois de ter sido elevado ao trono, e assim acabou para Celso a peça da vida. Ladislau, rei da Boêmia, jovem de dezoito anos, esperava a sua esposa, filha do rei da França, e lhe preparava grandes festejos, quando certa manhã o acometeu dor veementíssima da qual caiu fuminando. Expediram-se imediatamente correios, advertindo a esposa que voltasse para a França, porque para Ladislau o drama do mundo já tinha acabado... Este pensamento da vaidade do mundo fez santo a Francisco de Borja que (como em outro lugar dissemos), ao ver o cadáver da imperatriz Isabel, falecida no meio das grandezas e na flor da idade, resolveu entregar-se inteiramente a Deus, dizendo: "Assim acabam as grandezas e coroas do mundo?... Não quero servir a senhor que me possa ser roubado pela morte". 

Procuremos, pois, viver de maneira que à hora de nossa morte não se nos possa dizer o que se disse ao néscio mencionado no Evangelho: "Insensato, nesta noite hão de exigir de ti a entrega de tua alma; e as coisas que juntastes, para quem serão? (Lc 12,20).  E logo acrescenta São Lucas: Assim é que sucede a quem enriquece para si, e não é rico aos olhos de Deus (Lc 12,21). Mais adiante se diz: Procurai entesourar para o céu, onde não chegam os ladrões nem rói a traça" (Mt 6,20); ou seja; procurai enriquecer, não com os bens do mundo, senão de Deus, com virtudes e merecimentos que estarão convosco eternamente no céu. Façamos, pois, todo o esforço, para adquirir o grande tesouro do amor divino. "Que possui o rico, se não tem caridade? E se o pobre tem caridade, que não possui?" - diz Santo Agostinho. - Quem possui todas as riquezas, mas não possui a Deus, é o mais pobre do mundo. Mas o pobre que possui a Deus possui tudo... E quem é que possui a Deus? Aquele que o ama. "Quem permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele" (Mt 4,16).


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, não quero que o demônio volte a reinar na minha alma, mas que vós sejais meu único dono e senhor... Quero renunciar a tudo para alcançar vossa graça, que prefiro a mil coroas e mil reinos. E a quem deveria amar senão a vós, amabilidade infinita, bem infinito, beleza, bondade, amor infinitos? Na vida passada, enjeitei-vos pelas criaturas e isto será sempre para mim profunda dor que me atravessará o coração por vos ter ofendido, que tanto me tendes amado. Mas já que me haveis atraído com vossa graça, espero que não hei de ver-me privado novamente de vosso amor. Tomai, ó meu Amor, toda a minha vontade e tudo o que me pertence e fazei de mim o que vos aprouver. Peço-vos perdão por minhas culpas e desordens passadas. Nunca mais me queixarei das disposições da vossa providência, porque sei que todas elas são santas e ordenadas para meu bem. Fazei, pois, meu Deus, o que quiserdes, e eu vos prometo aceitar com alegria, e dar-vos graças... 

Fazei que vos ame, e nada mais pedirei... Basta de riquezas, basta de honras, basta de mundo. A meu Deus, só a meu Deus quero.

E vós, bem-aventurada Virgem Maria, modelo de amor de Deus, alcançai-me que, ao menos no resto de minha vida, vos acompanhe nesse amor. É em vós, Senhora, que confio. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte









 

sábado, 3 de maio de 2025

Das sete colunas necessárias no edifício espiritual




São Bernardo de Claraval 


Acabamos de ver que a verdadeira sabedoria deve por si mesma edificar sua própria casa; acrescentamos agora que esta casa deve assentar-se sobre sete colunas, nas quais haverá de apoiar-se e sustentar-se todo o edifício espiritual. 

O edifício ou casa é a consciência; as sete colunas são: a boa vontade, a lembrança constante dos benefícios de Deus: o coração puro; o entendimento livre (livre de todo preconceito); espírito reto; a alma devota; a razão iluminada (iluminada do alto). 

A boa vontade é a primeira coluna que haveremos de levantar; porque de todos os dons de Deus que concorrem para a santificação do homem, o primeiro e principal bem é a boa vontade, em virtude da qual a imagem ou semelhança com Deus é restaurada. É o primeiro bem, porque pela bondade da vontade começa todo bem, é o principal bem, porque nada melhor nem mais útil foi dado ao homem que a boa vontade; faça o homem o que fizer, nenhuma ação humana será boa se não procede da boa vontade. Sem esta, ninguém pode salvar-se; com a boa vontade ninguém pode perecer. A boa vontade não pode ser dada a quem não a queira, nem recusada, tirada de quem a deseje. A boa vontade pertence ao homem; o poder, a Deus. 

A vontade é do homem porque o querer é inerente à sua natureza e seu mérito todo está em sua vontade. Quanto mais queirais, tanto mais merecereis, isto é, quando maior seja vossa boa vontade, tanto maior será vosso mérito. Admiremos a misericórdia de Deus que colocou nossa redenção em coisa da qual ninguém pode carecer, nem dela ser pobre, a menos que queira sê-lo; antes, todos podem na mesma medida dispor de riqueza, todos, ricos e pobres, podem com idêntica intensidade, querer, da mesma maneira amar. Mas não esqueçamos que a vontade é boa, enquanto opera o que pode operar. 


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São Bernardo de Claraval - Tratado da Consciência ou do Conhecimento de si mesmo.

Editora Nebil, 2015. pág. 26-8.

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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Trecho 10 - Tratado de Conformidade com a vontade de Deus




 Também nos devemos resignar na desolação do espírito. Nosso Senhor, quando uma alma se entrega à vida espiritual, costuma socorrê-la com abundantes consolações místicas, de modo a subtraí-la aos mundanos deleites; porém, vendo-a estabelecida em espírito, retira sua onipotente mão para obter uma prova de amor que esta alma lhe dedica, e ver se ela o servirá sem a recompensa neste mundo de delícias sensíveis. "Enquanto vivermos no mundo", diz Santa Tereza, "a nossa vantagem não é tanto em gozar de Deus em si mesmo, como em fazer a Sua divina vontade". E em outra parte, diz: "O amor de Deus não consiste tanto em ternuras espirituais, como em servi-lo com fortaleza e humildade". E continua: "Deus experimenta aqueles que ama com securas espirituais e tentações". Deve, pois, a alma agradecer ao Senhor quando Lhe apraz favorecê-la com doçuras espirituais; mas não afligir-se, nem impacientar-se, quando a entrega à desolação. Devemos especialmente atender a este ponto; porque algumas almas fracas, quando experimentam securas espirituais pensam que Deus as tem abandonado, ou ao menos que lhes não é própria a vida espiritual, e por este motivo descuidam-se da oração e perdem o benéfico resultado do que até ali haviam praticado. Não há melhor ocasião para a conformidade com a vontade de Deus do que o tempo da secura espiritual. Não digo que não seja sensível a perda da divina presença: impossível que a alma não a sinta, e não a lamente, quando o nosso mesmo Redentor a sentiu e lamentou sobre a cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Mt 27,46). Porém, em tão grande aflição, devemos resignar-nos inteiramente com a vontade de Nosso Senhor. Todos os santos sofreram securas e desolação do espírito. "Que dureza de coração eu experimento?", dizia São Bernardo, "já não gozo na leitura espiritual, nem na meditação". A maior parte dos santos viveu em secura espiritual e sem consolações. Estas o Senhor não as concede senão raras vezes e talvez aos espíritos mais fracos, para que não parem na carreira espiritual. As delícias da recompensa nos são preparadas por Ele no Céu. Este mundo é o lugar onde as adquirimos pela penitência; o Céu é o lugar da recompensa. Por consequência os santos não se entregavam ao fervor com deleites, mas sim com penitências. O venerável João D'Ávila dizia: "Ó quão melhor é estar em secura e tentação com a vontade de Deus, do que em contemplação sem ela!" (Audi. Fil. G. 26). 

Mas direis vós: "Se eu soubesse que esta desolação vinha de Deus ficaria satisfeito; porém o que me aflige e me perturba é o temor que proceda das minhas faltas e que seja um castigo de minha fraqueza". Pois bem, lançai fora essa fraqueza e sede mais diligente. Mas, talvez porque estais em trevas, vos achais inquieto, vos descuidais da oração e do exercício espiritual, e assim tornais o mal pior? A secura espiritual pode-vos ter sido mandada como um castigo, como eu tenho dito; mas não vos é ela mandada pelo Altíssimo? Aceita-a, pois, como um castigo que tendes merecido, e uni-vos à divina vontade. Não direis vós que tendes merecido o inferno? Então, por que vos lamentais agora? Acaso mereceis receber consolações de Deus? Ficai, pois, satisfeito da maneira com que o Senhor apraz o tratar-vos: continuai vossas devoções e avançai com intrepidez,  receando que para o futuro vossos lamentos procedam de falta de humildade e resignação à vontade de Deus. Quando a alma se entrega à oração, não pode derivar dela maior vantagem do que a união com a vontade divina; resignai-vos, pois, e dizei: "Senhor, eu aceito esta tribulação da tua mão, e a aceito pelo tempo que tu quiseres: mesmo quando te fosse agradável que eu permanecesse aflito por toda a eternidade, eu estou satisfeito". E assim, esta oração, ainda que penosa, vos será mais vantajosa do que as mais suaves consolações. 


Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Biblioteca Católica