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domingo, 15 de junho de 2025

Vaidade do mundo




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Deus abençoe por Maria! 


Santo Afonso Mª de Ligório 

Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma? (Mt 16,26).


PONTO I 

Numa viagem marítima, um filósofo antigo, de nome Aristipo, naufragou com o navio em que ia, perdendo todos os bens. Pôde, entretanto, chegar salvo à terra, e os habitantes do país a que arribou, entre os quais Aristipo gozava de grande fama por seu saber, o indenizaram de tudo que havia perdido. Admirado, escreveu logo a seus amigos e patrícios incitando-os a que aproveitassem o seu exemplo, e que somente se premunissem das riquezas que nem com os naufrágios se podem perder. É isto exatamente o que nos recomendam nossos parentes e amigos que já chegaram à eternidade. Advertem-nos para que este mundo procuremos adquirir antes de tudo os bens que nem a morte nos faz perder. O dia da morte é chamado o dia da perda, porque nele perdemos as honras, as riquezas e os prazeres, enfim, todos os bens terrenos. Por esta razão, diz Santo Ambrósio, que não podemos chamar nossos a esses bens, porque os não podemos levar conosco para o outro mundo; somente as virtudes nos acompanham para a eternidade. 

"De que serve, pois - diz Jesus Cristo (Mt 16,26) - ganhar o mundo inteiro, se à hora da morte, perdendo a alma, tudo perde?"... Oh! quantos jovens, penetrados desta grande máxima, resolveram entrar na clausura! Quantos anacoretas conduziu ao deserto! A quantos mártires moveu a dar a vida por Cristo! Por meio desta máximas soube Santo Inácio de Loiola chamar para Deus inúmeras almas, entre elas a alma formosíssima de São Francisco Xavier, que, residindo em Paris, ali se ocupava em pensamentos mundanos. "Pensa, Francisco - lhe disse um dia o Santo, - pensa que o mundo é traidor, que promete e não cumpre; mas, ainda que cumprisse o que promete, jamais poderia satisfazer teu coração. E supondo que o satisfizesse, quanto tempo poderá durar essa felicidade? Mais que tua vida? E no fim dela, levarás tua dita para a eternidade? Existe, porventura, algum poderoso que tenha levado para o outro mundo uma moeda sequer ou um criado para seu serviço? Há algum rei que tenha levado consigo um pedaço de púrpura em sinal de dignidade?..." Movido por estas considerações, São Francisco Xavier renunciou ao mundo, seguiu a Santo Inácio de Loiola e se tornou um grande Santo.

Vaidades das vaidades (Ecl 1,2). Assim chamou Salomão aos bens do mundo, depois de ter experimentado, como ele mesmo confessou, todos os prazeres da terra (Ecl 2,10). Soror Margarida de Sant'Ana, carmelita descalça, filha do imperador Rodolfo II, dizia: "Para que servem os tronos da hora da morte?..." Coisa admirável! Tremem os Santos ao pensar em sua salvação eterna. Tremia o Padre Ségneri, que, todo assustado, perguntava a seu confessor: "Que me dizeis, Padre, salvar-me-ei?" Tremia Santo André Avelino quando, gemendo, exclamava: "Quem sabe se me salvarei!" Esse mesmo pensamento afligia a São Luís Bertram, e o fez levantar-se muitas noites do leito, exclamando: "Quem sabe se me condenarei?..." E contudo os pecadores vivem em estado de condenação, e dormem, e riem, e se divertem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Jesus, meu Redentor! De todo o coração vos agradeço por me terdes dado a conhecer minha insensatez e o mal que cometi afastando-me de vós, que por mim sacrificastes sangue e vida. Em verdade, não merecíeis da minha parte ser tratado como vos tratei. Se a morte me ferisse agora, que acharia em mim senão pecados e remorsos de consciência, que me tornariam bem angustiosos os últimos momentos? Confesso, meu Salvador, que fiz mal, que a mim mesmo me enganei, trocando o Bem Supremo pelos míseros prazeres deste mundo. 

Arrependo-me de todo o coração, e vos suplico, pelas dores que na cruz sofretes, me deis a mim tão grande dor de meus pecados, que me faça chorar durante o resto de minha vida as culpas que cometi. 

Perdoai-me, meu Jesus; prometo nunca mais vos ofender, e amar-vos sempre. Sei que não sou digno de vosso amor, porque o desprezei tantas vezes; mas também sei que amais a quem vos ama... (Pr 8,17). 

Amo-vos, Senhor; amai-me, pois, também. Não quero tornar a perder vossa amizade e graça. Renuncio a todos os prazeres e a todas as pompas deste mundo, contanto que me ameis... Ouvi-me, meu Deus, por amor de Jesus Cristo, que vos pede não me arrojeis de vosso coração. 

A vós me ofereço inteiramente e vos consagro minha vida, meus sentidos, minha alma, meu corpo, minha vontade e minha liberdade. 

Aceitai, Senhor, a oferta e não me desprezeis como mereço, por ter desprezado tantas vezes vosso amor... (Sl 50,13).

Virgem Santíssima, minha Mãe, rogai por mim a Jesus. Em vossa intercessão confio. 


PONTO II

É mister pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo, que é falsa e enganadora (Os 12,71). Os bens do mundo são desprezíveis, não satisfazem e acabam depressa. "Meus dias passaram mais depressa que um correio; passaram como um navio..." (Jo 9,25-26). 

Passam e fogem velozes os breves dias desta vida; e que resta por fim dos prazeres terrenos? Passaram como navios. O navio não deixa vestígio de sua passagem (Sb 5,10). Perguntemos a todos esses ricos, sábios, príncipes, imperadores, que estão na eternidade, o que acham ali de suas passadas grandezas, pompas e delícias deste mundo. Todos responderão: Nada, nada. Ó homens, exclama Santo Agostinho, vós considerais somente os bens que possui aquele magnata; atentai também nas coisas que leva consigo ao sepulcro: um cadáver pestilento e uma mortalha que com ele se consumirá. Quando morre algum dos grandes, apenas se fala dele algum tempo; depois até sua memória se perde (Sl 9,7). E se caem no inferno, que farão e que dirão ali?... Chorarão, dizendo: Para que nos serviram o luxo e a riqueza? Tudo agora se passou como sombra (Sb 5,8-9) e nada nos resta senão penas, pranto e desespero sem fim. 

"Os filhos do século são mais prudentes em seus negócios que os filhos da luz" (Lc 18,8). Causa pasmo ver quão prudentes são os mundanos no que diz respeito às coisas da terra. Que passos não dão para adquirir honras ou fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo!... Escolhem e empregam os meios mais adequados, os médicos mais afamados, os melhores remédios, o clima mais saudável... e, entretanto, quão descuidados são para a alma!... E, no entanto, é certo que a saúde, as honrarias e as riquezas devem acabar-se um dia,  ao passo que a alma, imortal, não tem fim. "Observemos - disse Santo Agostinho - quanto sofre o homem pelas coisas que ama desordenadamente". Quanto não sofrem os vingativos, ladrões e licenciosos para atingir seus malvados desígnios? E para o bem da alma nada querem sofrer. Ó Deus! À luz do círio que na hora da morte se acende, naquele momento de grandes verdades, os mundanos reconhecem e confessam sua grande loucura. Então desejariam ter renunciado ao mundo e levado vida santa. 

Ó Pontífice Leão XI disse na hora da morte: "Em vez de ser Papa, melhor fora para mim ter sido porteiro no meu convento". Honório III, também Pontífice, exclamou ao morrer: "Melhor teria feito, se ficasse na cozinha de minha comunidade para lavar a louça". Filipe II, rei de Espanha, chamou seu filho na hora da morte, e, depois de afastar a roupa, lhe mostrou o peito roído de vermes, dizendo: "Vê, príncipe, como se morre, e como se acabam as grandezas do mundo". Depois exclamou: "Por que não fui eu, em vez de monarca, simples frade leigo de qualquer ordem!" Mandou depois que lhe pusessem ao pescoço uma cruz de madeira; e tendo disposto todas as coisas para sua morte, disse a seu herdeiro: Quis, meu filho, que estivesses presente a este ato, para que visses como, no fim da vida, o mundo trata ainda os próprios reis. Sua morte é igual à dos mais pobres da terra. Aquele que melhor tiver vivido, esse é que achará junto de Deus mais alto favor". E este mesmo filho, que foi depois Filipe III, ao morrer com apenas 43 anos de idade, disse: "Atendei, meus súditos, a que no meu necrológio somente se fale do espetáculo que tendes presente. Dizei que na morte de nada serve o título de rei, a não ser para sentir-se maior tormento de o haver sido... Oxalá, em vez de rei, tivesse vivido em um deserto servindo a Deus!... Ir-me-ia agora apresentar com mais confiança entre seu tribunal, e não correria tamanho risco de me condenar!..." De que valem, porém, tais desejos no transe da morte, senão para maior desespero e pena de quem não amou a Deus durante a vida? Dizia, por isto, Santa Teresa: "Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida. A verdadeira vida consiste em viver de modo que nada se tenha a recear da morte..." Portanto, se desejamos compreender o que valem os bens da terra, consideremo-los do leito da morte e digamos logo: Aquelas riquezas, estas honras, estes prazeres, se acabarão um dia. É necessário, assim, que procuremos santificar-nos e enriquecer-nos somente dos bens únicos que hão de acompanhar-nos sempre e que constituirão nossa dita por toda a eternidade.


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Redentor!... Sofrestes tantos sacrifícios e tantas ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e as vaidades do mundo, que por sua causa fui levado a calcar aos pés inúmeras vezes a vossa graça. Mas, ainda que vos desprezasse, não deixáveis de me procurar; por isso, ó meu Jesus, não posso temer que me abandonareis agora que vos procuro e amo de todo o coração, e me dói mais de vos ter ofendido que se tivesse sofrido qualquer outro mal. Ó Deus de minha alma, não quero tornar a ofender-vos nem nas coisas mínimas. 

Fazei-me conhecer aquilo que vos desagrada e que não o pratique por nada deste mundo. Fazei que saiba o que vos é agradável e o ponha em execução. Quero amar-vos verdadeiramente; e por vós, Senhor, aceitarei gostosamente todos os sofrimentos e todas as cruzes que me vierem. Dai-me a resignação de que necessito. Queimai, cortai... Castigai-me nesta vida, a fim de que na outra possa amar-vos eternamente. 

Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim. 


PONTO III

"O tempo é breve... os que se servem do mundo, sejam como se dele não se servissem, porque a figura deste mundo passa..." (1Cor 7,31). Que é com efeito nossa vida temporal senão uma cena que passa e se acaba logo? "Passa a figura deste mundo", quer dizer, a aparência, a cena de comédia. "O mundo é como um teatro - diz Cornélio a Lápide; - desaparece uma geração e outra lhe sucede. Quem representou o papel de rei, não levará consigo a púrpura... dize-me, ó cidade, ó casa, quantos donos tivestes?" Quando acaba a peça, o rei deixa de ser rei, o senhor deixa de ser senhor. Possuis agora essa quinta ou palácio; mas virá a morte e outros passarão a ser donos de tudo. 

A hora da morte faz esquecer todas as grandezas, honras e vaidades do mundo (Ecl 11,29). Casimiro, rei da Polônia, morreu de repente, quando, achando-se à mesa com grandes do reino, levava aos lábios a taça para beber. Rapidamente acabou para ele a cena do mundo... O imperador Celso foi assassinado oito dias depois de ter sido elevado ao trono, e assim acabou para Celso a peça da vida. Ladislau, rei da Boêmia, jovem de dezoito anos, esperava a sua esposa, filha do rei da França, e lhe preparava grandes festejos, quando certa manhã o acometeu dor veementíssima da qual caiu fuminando. Expediram-se imediatamente correios, advertindo a esposa que voltasse para a França, porque para Ladislau o drama do mundo já tinha acabado... Este pensamento da vaidade do mundo fez santo a Francisco de Borja que (como em outro lugar dissemos), ao ver o cadáver da imperatriz Isabel, falecida no meio das grandezas e na flor da idade, resolveu entregar-se inteiramente a Deus, dizendo: "Assim acabam as grandezas e coroas do mundo?... Não quero servir a senhor que me possa ser roubado pela morte". 

Procuremos, pois, viver de maneira que à hora de nossa morte não se nos possa dizer o que se disse ao néscio mencionado no Evangelho: "Insensato, nesta noite hão de exigir de ti a entrega de tua alma; e as coisas que juntastes, para quem serão? (Lc 12,20).  E logo acrescenta São Lucas: Assim é que sucede a quem enriquece para si, e não é rico aos olhos de Deus (Lc 12,21). Mais adiante se diz: Procurai entesourar para o céu, onde não chegam os ladrões nem rói a traça" (Mt 6,20); ou seja; procurai enriquecer, não com os bens do mundo, senão de Deus, com virtudes e merecimentos que estarão convosco eternamente no céu. Façamos, pois, todo o esforço, para adquirir o grande tesouro do amor divino. "Que possui o rico, se não tem caridade? E se o pobre tem caridade, que não possui?" - diz Santo Agostinho. - Quem possui todas as riquezas, mas não possui a Deus, é o mais pobre do mundo. Mas o pobre que possui a Deus possui tudo... E quem é que possui a Deus? Aquele que o ama. "Quem permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele" (Mt 4,16).


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, não quero que o demônio volte a reinar na minha alma, mas que vós sejais meu único dono e senhor... Quero renunciar a tudo para alcançar vossa graça, que prefiro a mil coroas e mil reinos. E a quem deveria amar senão a vós, amabilidade infinita, bem infinito, beleza, bondade, amor infinitos? Na vida passada, enjeitei-vos pelas criaturas e isto será sempre para mim profunda dor que me atravessará o coração por vos ter ofendido, que tanto me tendes amado. Mas já que me haveis atraído com vossa graça, espero que não hei de ver-me privado novamente de vosso amor. Tomai, ó meu Amor, toda a minha vontade e tudo o que me pertence e fazei de mim o que vos aprouver. Peço-vos perdão por minhas culpas e desordens passadas. Nunca mais me queixarei das disposições da vossa providência, porque sei que todas elas são santas e ordenadas para meu bem. Fazei, pois, meu Deus, o que quiserdes, e eu vos prometo aceitar com alegria, e dar-vos graças... 

Fazei que vos ame, e nada mais pedirei... Basta de riquezas, basta de honras, basta de mundo. A meu Deus, só a meu Deus quero.

E vós, bem-aventurada Virgem Maria, modelo de amor de Deus, alcançai-me que, ao menos no resto de minha vida, vos acompanhe nesse amor. É em vós, Senhora, que confio. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte









 

terça-feira, 3 de junho de 2025

Importância da salvação




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Deus abençoe por Maria!


Santo Afonso Mª de Ligório

 Rogamus autem vos, frates... ut vestrum negotium agatis.

Mas vos rogamos, irmãos, a avançar cada vez mais (1Ts 4,10).


PONTO I 

O negócio da eterna salvação é, sem dúvida, o mais importante, e, contudo, é aquele de que os cristãos mais se esquecem. Não há diligência que não se efetue, nem tempo que não se aproveite para obter algum cargo, ganhar uma demanda, ou contratar tal casamento...

Quantos conselhos, quantas precauções se tomam! Não se come, não se dorme!... E para alcançar a salvação eterna? Que se faz? Que procedimento se segue?... Nada se costuma fazer; ao contrário, tudo o que se faz é para perdê-la, e a maior parte dos cristãos vive como se a morte, o juízo, o inferno, a glória e a eternidade não fossem verdades da fé, mas apenas fábulas inventadas pelos poetas. Quanta aflição quando se perde um processo ou uma colheita e quanto cuidado para reparar o prejuízo!... Quando se extravia um cavalo ou um cão, quantas diligências para encontrá-los. Muitos perdem a graça de Deus, e entretanto dormem, riem e gracejam!... Coisa estranha, por certo! Não há quem não core ao passar por negligente nos negócios da salvação, que mais do que tudo importa. Confessam que os Santos são verdadeiros sábios porque só trabalham para salvar-se, enquanto eles atendem a todas as coisas do mundo, sem se importar com sua alma. Mas vós - disse São Paulo - vós, meus irmãos, pensai unicamente no magno assunto de vossa salvação, pois constitui o negócio da mais alta importância. 

Persuadamo-nos, pois, de que a felicidade eterna é para nós o negócio mais importante, o negócio único, o negócio irreparável se não o pudermos realizar. 

É, sem contestação, o negócio mais importante, porque é das mais graves consequências, vem vista de se tratar da alma, e, perdendo-se esta, tudo está perdido. Devemos estimar a alma - disse São João Crisóstomo - como o mais precioso dos bens. Para compreender esta verdade, basta considerar que Deus sacrificou seu próprio Filho à morte para salvar nossas almas (Jo 3,16). O Verbo Eterno não vacilou em resgatá-las com seu próprio sangue (1Cor 6,20). De maneira que - disse um Santo Padre, - parece que o homem vale tanto como Deus. 

Daí esta palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Que dará o homem em troco de sua alma"? (Mt 16,26). Se tem tamanho valor a alma, qual o bem do mundo que poderá dar em troca o homem que a vem a perder? Razão tinha São Filipe Néri em chamar de louco ao homem que não trabalhava na salvação de sua alma. Se houvesse na terra dos homens mortais e homens imortais e aqueles vissem estes se aplicarem afanosamente às coisas do mundo, procurando honras, riquezas e prazeres terrenos, dir-lhes-iam sem dúvida: "Quanto sois insensatos! podeis adquirir bens eternos e só pensais nas coisas miseráveis e passageiras, condenando-vos a penas eternas na outra vida!... Deixai-os, pois; nesses bens só devem pensar os desventurados que, como nós, sabem que tudo se acaba com a morte!..." Isto, porém, não é assim: todos somos imortais... Como se haverá, portanto, a aquele que, por causa dos miseráveis prazeres do mundo, perde a sua alma?... Como se explica - disse Salviano - que os cristãos creiam no juízo, no inferno, na eternidade, e vivam sem receio de nenhuma dessas coisas? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Meu Deus! De que me serviriam tantos anos de vida que me concedestes para adquirir a salvação eterna?... Vós, Redentor meu, resgatastes minha alma com o vosso sangue e me entregastes para que a salvasse; entretanto eu apenas me tenho aplicado em perdê-la, ofendendo-vos, que tanto me haveis amado! De todo o coração, agradeço-vos que ainda me concedeis tempo para reparar o mal que fiz. 

Perdi a alma e vossa santa graça; arrependo-me, Senhor, e detesto sinceramente os meus pecados. Perdoai-me, pois que estou firmemente resolvido a perder todos os bens, inclusive a vida, mas não quero perder a vossa amizade. Amo-vos sobre todas as coisas e tenho a firme vontade de amar-vos sempre, ó Sumo Bem, digno de infinito amor! Ajudai-me, meu Jesus, a fim de que esta minha resolução não seja semelhante a meus propósitos anteriores, que foram outras tantas infidelidades.

Fazei que morra, antes que volte a ofender-vos e deixar de vos amar...

Ó Maria, minha esperança, salvai-me, obtendo para mim o dom da perseverança!


PONTO II

A salvação eterna não é só o mais importante, senão o único negócio que nesta vida nos impende (Lc 10,42). São Bernardo deplora a cegueira dos cristãos que, qualificando de brinquedos infantis certos passatempos da infância, chamam negócios sérios suas ocupações mundanas. Maiores loucuras são as néscias puerilidades dos homens. 

 "Que aproveita ao homem - disse o Senhor - ganhar o mundo inteiro e perder sua alma? (Mt 16,26). Se tu te salvas, meu irmão, nada importa que no mundo hajas sido pobre,  perseguido e desprezado. Salvando-te, acabar-se-ão os males e serás feliz por toda a eternidade. Mas, se te enganares e te perderes, de que te servirá no inferno haveres desfrutado de todos os prazeres do mundo, teres sido rico e cortejado? Perdida a alma, tudo está perdido: honras, divertimentos e riquezas. 

Que responderás a Jesus Cristo no dia do juízo? Se um rei enviasse um embaixador a uma grande cidade, a fim de tratar de um negócio importante, e esse ministro, em vez de ali dedicar-se à missa que lhe fora confiada, só se ocupasse de banquetes, festas e espetáculos, de modo que por sua negligência fracassasse a negociação, que contas poderia dar ao rei à sua volta? Do mesmo modo, ó meu Deus, que conta poderá dar ao Senhor no dia do juízo, aquele que, colocado neste mundo, não para divertir-se, nem enriquecer, nem adquirir honras, senão para salvar sua alma, infelizmente a tudo atendeu, menos à sua alma? Os mundanos não pensam no presente e nunca no futuro. São Filipe Néri, falando certa vez em Roma com um jovem talentoso chamado Francisco Nazzera, assim se expressou: "Tu, meu filho, terás carreira brilhante: serás bom advogado, depois prelado, a seguir cardeal, quem sabe? Talvez Papa... mas depois? e depois? Ide, disse-lhe ao fim, pensai nestas últimas palavras." Foi Francisco para casa e, meditando no sentido daquelas palavras "e depois? e depois?" abandonou os negócios terrenos, deixou o mundo para ingressar na mesma congregação a que pertencia São Filipe Néri, e aí ocupar-se somente em servir a Deus. 

Este é o único negócio, porque só temos uma alma. Certo príncipe solicitou a Bento XII uma graça que não podia ser concedida sem pecado. 

Respondeu o Papa ao embaixador: "Dizei a vosso soberano que, se eu tivesse duas almas, poderia sacrificar uma por ele e reservar a outra para mim, mas como só tenho uma, não quero perdê-la". São Francisco Xavier dizia que no mundo há um só bem e um só mal. O único bem, salvar-se; condenar-se, o único mal. A mesma verdade expunha Santa Teresa e suas religiosas: "Minhas irmãs, uma alma e uma eternidade"; o que quer dizer: há uma alma, e perdida esta, tudo está perdido; há uma eternidade, e a alma, uma vez perdida, para sempre o será. Por isso, David suplicava a Deus, e dizia: Senhor, uma só coisa vos peço: salvai-me a alma, e nada mais quero (Sl 26,4). 

Com receio e com temor trabalhai na vossa salvação (Fl 2,12). 

Quem não receia nem teme perder-se, não se salvará, porque para se salvar é preciso trabalhar e empregar violência (Mt 11,12). Para alcançar a salvação é necessário que, na hora da morte, apareça a nossa vida semelhante à de Nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 8,29). Para este fim devemos esforçar-nos em evitar as ocasiões perigosas e empregar os meios necessários para conseguir a salvação. "O reino dos céus não se dará aos indolentes - diz São Bernardo, - senão aos que trabalharam no serviço do Senhor". 

Todos desejariam salvar-se, mas sem o menor incômodo. "O demônio - diz Santo Agostinho - trabalha sem repouso para perder-te, e tu, tratando-se de tua felicidade ou da tua desgraça eterna, tanto te descuidas?". 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! Quanto vos agradeço terdes permitido que me ache agora a vossos pés e não no inferno, que tantas vezes mereci! De que me serviria a vida que me reservais, se continuasse a viver privado de vossa graça?... Ah, nunca mais será assim! Voltei-vos a costas, e vos perdi, meu Sumo Bem!... Mas arrependo-me de todo o coração... Oxalá tivesse eu morrido antes de mil vezes! Perdi-vos, mas vosso Profeta me assegura que sois todo bondade e que vos deixais achar pelas almas que vos procuram. Se no passado me afastei de vós, ó Rei de minh'alma, agora vos procuro... A vós somente procuro, Senhor. Amar-vos com todas as minhas forças. Aceitai-me e não vos indigneis de que vos ame este coração que outrora vos desprezou. Ensinai-me o que tenho a fazer para vos agradar (Sl 143,10), pois desejo pô-lo em prática. Ó meu Jesus, salvai esta alma que redimistes com vossa vida e vosso sangue. 

Dai-me a graça de vos amar sempre nesta vida e na outra. Assim o espero pelos vossos infinitos merecimentos. 

E também, Maria Santíssima, por vossa poderosa intercessão.


PONTO III

Negócio importante, negócio único, negócio irreparável. Não há falta que se possa comparar, diz Santo Eusébio, ao desprezo da salvação eterna. Todos os demais erros podem ter remédio. Perdidos os bens, é possível readquirir outros por meio de novos trabalhos. Perdido um emprego, pode ser recuperado. Ainda no caso de perder a vida, se salvar a alma, tudo está preparado. Mas para quem se condena, não há possibilidade de remédio. Morre-se uma vez, e perdida uma vez a alma, está perdida para sempre. Só resta o pranto eterno com os outros míseros insensatos do inferno, cuja pena e maior tormento consiste em pensar que para eles já não há mais tempo de remediar sua desdita (Jr 8,20). Perguntai a esses sábios do mundo, mergulhados agora no fogo infernal, perguntai-lhes o que sentem e pensam; se estão contentes por terem feito fortuna na terra, mesmo que se condenaram à eterna prisão. 

Escutai como gemem dizendo: Erramos, pois... (Sb 5,6). Mas de que lhes serve agora reconhecer o seu erro, quando já a condenação é irremediável para sempre? Qual não seria o pesar daquele que, tendo podido prevenir e evitar com pouco esforço a ruína de sua casa, a encontrasse um dia desabada, e só então considerasse seu próprio descuido, quando não houvesse já remédio possível? Esta é a maior aflição dos réprobos: pensar que perderam sua alma e se condenaram por sua culpa (Os 13,9). Disse Santa Teresa que, se alguém perde, por sua culpa, um vestido, um anel ou outro objeto, perde a tranquilidade e, às vezes, não come nem dorme. Qual será, pois, ó meu Deus, a angústia do condenado quando, ao entrar no inferno, se vir sepultado naquele cárcere de tormentos, e, atendendo à sua desgraça, considerar que durante toda a eternidade não há de chegar remédio algum! Sem dúvida exclamará: "Perdi a alma e o paraíso, perdi a Deus; tudo perdi para sempre, e por quê? por minha culpa! E se alguém objetar: Mesmo que cometa esta pecado, porque hei de me condenar?... Acaso, não poderei salvar-me? Responder-lhe-ei: Também pode ser que te condenes". Ainda direi que até há mais probabilidade em favor de tua condenação, porque a Santa Escritura ameaça com este tremendo castigo aos pecadores obstinados, como tu o és neste instante. "Ai dos filhos que desertam!" (Is 30,1) - diz o Senhor. - "Ai daqueles que se afastam de mim" (Os 7,13). E não pões ao menos, com esse pecado cometido, a tua salvação eterna em grande perigo e grande incerteza? E qual é este negócio que assim se pode arriscar? Não se trata de uma casa, de uma cidade, de um emprego; trata-se, - diz São João Crisóstomo, - de padecer uma eternidade de tormentos e de perder um paraíso de delícias. E este negócio, que tanto te deve importar, queres arriscá-lo por um talvez? "Quem sabe - dizes, - quem sabe se me condenarei? Esquero que Deus mais tarde me há de perdoar". 

E entretanto?... Entretanto, por ti mesmo te condenas ao inferno. 

Por acaso te atirarias a um poço, dizendo: talvez escape da morte? - Não, de certo. Como podes expor tua eterna salvação numa tão frágil esperança, num quem sabe? Oh! quantos, por causa dessa maldita falsa esperança, se perderam!... Não sabes que a esperança dos obstinados no pecado não é esperança, mas presunção e ilusão que não promovem a misericórdia divina, mas provocam sua indignação? Se dizes que presentemente não estás em estado de resistir às tentações, à paixão dominante, como resistirás mais tarde, quando, em vez de aumentar, te faltará a força pelo hábito de pecar? Por uma parte, a alma estará mais cega e mais endurecida na malícia, e por outra faltar-lhe-á o auxílio divino... Acaso, esperas que Deus aumente para ti suas luzes e suas graças depois que tu hajas aumentado ilimitadamente tuas faltas e pecados? 


AFETOS E SÚPLICAS 

Ah, meu Jesus! Atendendo à morte que por mim padecestes, aumentai minha esperança. Temo que, no fim de minha vida, o demônio me faça cair em desespero, em vista das inúmeras infidelidades que para convosco hei cometido. Quantas vezes prometi não tornar a ofender-vos, movido pelas luzes que me haveis dado, e voltei a afastar-me de vós na esperança do perdão. Foi por não me haverdes castigado, que tanto vos ofendi! Porque usastes de misericórdia para comigo, que tantos ultrajes vos fiz!? Dai-me, meu Redentor, antes que deixe esta vida, profundo e verdadeiro arrependimento de meus pecados. Pesa-me, ó Suma Bondade, de vos ter ofendido, e prometo firmemente antes morrer mil vezes que separar-me de vós... Permiti, entretanto, que ouça as palavras que dissestes a Santa Madalena: "Teus pecados estão perdoados" (Lc 7,48), e inspirai-me grande dor de minhas culpas antes que chegue o transe da morte. Doutro modo, receio que essa hora vá trazer-me inquietação e desgraça. Naquele momento extremo, vossa presença não me cause receio, meu Jesus crucificado! Se morresse agora, antes de chorar minhas culpas, antes de vos amar, então vossas chagas e vosso sangue me causariam mais susto que esperança. Não vos peço, pois, consolo e bens terrestres para o resto da vida. Peço-vos somente amor e dor. Ouvi-me, amantíssimo Salvador, por aquele amor que vos fez sacrificar por mim a vida no Calvário... 

Maria, minha Mãe, alcançai-me estas graças unidas à da perseverança  até à morte. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte