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domingo, 2 de novembro de 2025

Vida infeliz dos pecadores e vida ditosa do que ama a Deus




 Non est pax impiis, dicit Dominus. 

Não há paz para os ímpios, disse o Senhor (Is 58,24).

Pax multa diligentibus legem tuam. 

Muita paz para os que amam tua lei (Sl 118,65).


PONTO I

Nesta vida, todos os homens se esforçam para conseguir a paz. 

Trabalham o comerciante, o soldado, o advogado, porque pensam que, realizando tal negócio, obtendo tal promoção, ganhando tal demanda, alcançarão os favores da fortuna e poderão gozar da paz. Mas, ó pobres mundanos, que procurais a paz no mundo, que não a pode dar! Deus somente no-la pode dar. Dá a teus servos, - diz a Igreja em suas preces, - aquela paz que o mundo não pode dar. Não, não pode o mundo com todos os seus bens satisfazer o coração humano, porque o homem não foi criado para essa espécie de bens, mas unicamente para Deus; de modo que somente em Deus pode encontrar felicidade e repouso. 

O ser irracional, criado para gozos materiais, procura e encontra a paz nos bens terrestres. Dai a um jumento um feixe de capim, dai a um cão um pedaço de carne, e ficarão satisfeitos, sem desejar mais coisa alguma. Mas a alma, criada para amar a Deus e unir-se a ele, não encontra paz nos deleites sensuais; só Deus a pode fazer plenamente feliz. 

Aquele rico de que fala São Lucas tinha obtido de seus campos abundantíssima colheita, e dizia de si para consigo: "Minha alma, agora possuis bens abundantes, armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe..." (Lc 12,19). Mas este rico infeliz foi chamado louco, e com toda a razão, diz São Basílio. "Desgraçado - exclama o Santo. Acaso, te equiparas a um animal e pretendes contentar tua alma com beber e comer e com os deleites sensuais?" O homem - escreve São Bernardo - poderá fartar-se, mas nunca satisfazer-se com os bens do mundo. O próprio Santo, comentando este texto do Evangelho: "Eis que abandonamos tudo" (Mt 19,27), diz que observou muitos loucos com diversas manias. Todos - acrescenta - sofriam de fome devoradora; mas uns se saciavam com terra, símbolo dos avarentos; outros, aspiravam o ar, figura dos vaidosos; outros, ao redor da boca de um fornalha, recebiam as fugazes centelhas, imagem dos iracundos; aqueles, enfim, símbolo dos desonestos, de um lago fétido bebiam suas águas corrompidas. E, dirigindo-se depois a todos, exclama o Santo: "Ó insensatos, não vedes que todas estas coisas, longe de extinguirem a fome, só a atiçam?" Os bens do mundo são bens aparentes, e, por isso, não podem satisfazer o coração humano (Ag 1,6); assim o avarento, quanto mais entesoura, mais quer entesourar, diz Santo Agostinho. O impudico, quanto mais se engolfa nos prazeres de seu vício, maior desgosto e cada vez mais terríveis desejos sente: e como é que poderia tranquilizar-se se coração com a imundície sensual? O mesmo sucede ao ambicioso, que aspira saciar-se com o fumo sutil de vaidades, poder e riquezas; porque o ambicioso atende mais ao que lhe falta do que ao que possui. 

Alexandre Magno, depois de ter conquistado tantos reinos, lamenta-se por não ter adquirido o domínio das demais nações. Se os bens da terra pudessem contentar o homem, os ricos e os monarcas seriam plenamente felizes; mas a experiência prova o contrário. É o que afirma Salomão, que assegura não ter negado nada a seus desejos (Ecl 2,10), e, contudo, exclama: "Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade" (Ecl 1,2), o que quer dizer; tudo quanto há no mundo é mera vaidade, mentira e loucura...


AFETOS E SÚPLICAS

Que me resta, meu Deus, das ofensas que vos fiz, senão amarguras e penas e méritos para o inferno? Não me acabrunha a dor que sinto, antes me consola e alivia, porque é um dom de vossa graça que se une à esperança de que me quereis perdoar. O que me aflige é o muito que vos hei injuriado, meu Redentor, que tanto me amastes. Merecia então, Senhor, que me abandonásseis; em vez disso, vejo que me ofereceis o perdão e que sois o primeiro a procurar a paz. Sim, meu Jesus, desejo a paz convosco, e mais que todas as coisas, desejo a vossa graça. Arrependo-me, Bondade infinita, de vos ter ofendido e quisera morrer de pura contrição. Pelo amor que tivestes comigo, morrendo por mim na cruz, perdoai-me e acolhei-me em vosso coração; mudai o meu de tal modo que, se muito vos ofendeu no passado, mais passe a vos agradar no futuro. Renuncio, por vosso amor, a todos os prazeres que o mundo possa oferecer-me e tomo a resolução de perder antes a vida do que vossa graça. Dizei-me o que quereis que eu faça para servir-vos, pois que desejo executá-lo. Nada de prazeres, nem de honras e riquezas; só amo a vós, meu Deus, meu gozo, minha glória, meu tesouro, minha vida, meu amor e meu tudo. Socorrei-me, Senhor, para que vos seja fiel; concedei-me o dom do vosso amor e fazei de mim o que vos aprouver. 

Maria, Mãe  e esperança nossa depois de Jesus Cristo, acolhei-me sob vossa proteção, e fazei que eu seja todo de Deus.


PONTO II 

Além disso, disse Salomão que os bens do mundo não apenas são vaidades que não satisfazem a alma, mas que são penas que afligem o espírito (Ecl 1,14). Os pobres pecadores pretendem ser felizes carregados de suas culpas, mas só encontram amarguras e remorsos (Sl 13,3). Nada de paz, nem de tranquilidade. Deus nos disse: "Não há paz para os ímpios" (Is 48,22). Primeiramente, o pecado traz em si o temor profundo da vingança divina; pois, assim como um homem, que tem um poderoso inimigo, não vive tranquilidade, como poderá o inimigo de Deus repousar em paz? "O caminho do Senhor causa espanto para os que praticam o mal" (Pr 10,29). Quando a terra treme ou o trovão ribomba, como estremece aquele que se acha em pecado! Até o suave movimento da folhagem, às vezes, lhe causa pavor: "O zunido do terror amedronta constantemente os seus ouvidos" (Jo 15,21). Foge sem ver quem o persegue (Pr 28,1, porque seu próprio pecado corre atrás dele. Caim matou seu irmão Abel e exclamou logo: "Todo aquele que me encontrar me matará" (Gn 4,14) E não obstante o Senhor lhe ter assegurado aque nada lhe aconteceria (Gn 4,15), diz a Escritura, - Caim andou sempre fugitivo e errante (Gn 4,16). Quem era o perseguidor de Caim, senão o seu pecado? Além disso, a culpa anda sempre acompanhada do remorso, esse verme roedor que jamais repousa. Dirija-se, embora, o pobre pecador a baquetes, saraus e teatros, a voz da consciência o acompanha e lhe diz: Estás no desafeto de Deus; se morreres, para onde é que irás? O remorso é pena tão angustiosa, mesmo nesta vida, que alguns desgraçados, para se livrar de seu peso, suicidam-se. Um desses foi Judas que, como é sabido, desesperado, se enforcou. Conta-se de outro criminoso que, tendo assassinado uma criança, sentiu remorsos tão horríveis, que para acalmá-los se fez religioso; mas nem no claustro encontrou a paz. Foi ter com o juiz e declarou-lhe o seu delito, pelo qual foi condenado à morte. 

Que é a alma privada de Deus?... Um mar tempestuoso, - diz o Espírito Santo (Is 57,20). Se alguém fosse convidado a uma festa, baile ou concerto, e ali lhe tivessem atado mãos e pés com ligaduras: poderia desfrutar daquela diversão? Tal é a situação do homem que vive na abundância dos bens do mundo sem possuir a Deus. Coma, beba, dance, ostente ricos vestidos, receba honras, ocupe altos cargos e adquira dignidades, mas jamais gozará paz. A paz vem unicamente de Deus e Deus a dá àqueles que o amam; não a seus inimigos.

 Os bens deste mundo - diz São Vicente Ferrer - são todos exteriores, não entram no coração. Aquele pecador ostenta, talvez, vestidos bordados e anéis de diamantes, tem mesa esplêndida; mas o seu pobre coração se conservará cheio de espinhos e de fel. Vê-lo-eis, por isso, sempre inquieto, mesmo no meio de tantas riquezas, prazeres e divertimentos. À menor contrariedade se impacienta e se enfurece como um cão hidrófobo. Aquele que ama a Deus, se resigna e se conforma à vontade divina na adversidade e encontrar paz e consolo. Isto, porém, não pode fazer aquele que é inimigo da vontade de Deus. E por isso não encontra meio de tranquilizar-se. 

Este desgraçado serve ao demônio, tirano cruel, que lhe paga com aflições e amarguras. Cumpre-se deste modo a palavra do Senhor, que diz: "Porquanto não serviste com gozo ao Senhor teu Deus, servirás a teu inimigo com fome, com sede, com nudez e com toda espécie de miséria" (Dt 28,47-48). Quanto não sofre o vingativo, depois de se ter vingado! quanto o impudico, apenas tenha conseguido seus intuitos! quanto os ambiciosos e avarentos!... Quantos seriam santos, se sofressem por causa de Deus o que padecem para se condenarem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó tempo que perdi!... Senhor, quantos merecimentos para a glória teria eu agora acumulado, se houvesse sofrido em servir-vos as aflições e trabalhos que padeci, ofendendo-vos. Ah! meu Deus, por que vos abandonei e perdi vossa graça?... Por prazeres envenenados e fugitivos que, apenas desfrutados, desapareceram e me deixaram o coração cheio de feridas e de angústias... Pecados meus! maldigo-vos e detesto-vos mil vezes; assim como bendigo vossa misericórdia, Senhor, que com tamanha paciência me tem sofrido. Amo-vos, meu Criador e Redentor, que por mim destes a vida. E, por isso, vos amo, arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido... Meu Deus, meu Deus, por que vos perdi? Por que vos substituí? Agora reconheço o mal que pratiquei, e estou resolvido a perder tudo, inclusive a própria vida, do que perder vosso amor. Pai Eterno, iluminai-me pelo amor de Jesus Cristo. 

Fazei-me conhecer o bem infinito, que sois vós, e a vileza dos bens que me oferece o demônio para me fazer perder a vossa graça. Amo-vos e desejo amar-vos cada vez mais. Fazei que vós sejais meu único pensamento, meu único desejo, meu único amor. Espero tudo da vossa bondade pelos merecimentos de vosso Filho...

Maria, nossa Mãe, pelo amor que tendes a Jesus Cristo, peço-vos que me alcanceis luz e força para servir-vos e amar-vos até a morte.


PONTO III

Se todos os bens e prazeres do mundo não podem satisfazer o coração humano, quem o poderá contentar?... Só Deus (Sl 36,4). O coração humano anda sempre à procura de bens que o possam saciar. 

Alcança riquezas, honras e prazeres, mas não se satisfaz, porque tais bens são finitos e ele foi criado para o bem infinito. Quando, porém, encontra Deus e se une a ele, se aquieta, acha consolo e não deseja nada mais. Santo Agostinho, enquanto se ateve à vida sensual, jamais gozou de paz; mas, quando passou a entregar-se a Deus, fez esta confissão ao Senhor: "Meu Deus, vejo agora que tudo é dor e vaidade, e que só vós sois a verdadeira paz da alma". Feito assim mestre por experiência própria, escrevia: Que procuras, homem? procuras bens?...

Procura o único Bem, no qual se encerram todos os demais" (Sl 41,3). 

Depois de ter pecado, o rei Davi entregava-se à caça, distraía-se nos seus jardins e em banquetes, gozava de todos os prazeres de um monarca.

Mas as festas, as florestas e as demais criaturas em que ele se comprazia, não faziam senão dizer-lhe a seu modo: "Davi, queres encontrar em nós paz e satisfação? Não te podemos contentar... Procura teu Deus, pois que unicamente ele te pode satisfazer". Por essa razão, Davi gemia no meio de seus prazeres, e exclamava: "Minhas lágrimas me têm servido de alimento dia e noite, e me dizem dia-a-dia: Onde está teu Deus? Como sabe Deus, ao contrário, contentar as almas fiéis que o amam! São Francisco de Assis, que abandonou tudo por causa de Deus, achava-se descalço, meio morto de frio e de fome, coberto de farrapos, mas, só ao proferir as palavras "Meu Deus e meu tudo", já sentia gozo inefável e celestial. São Francisco de Bórgia que, durante suas viagens de religioso, muitas vezes, teve de pernoitar sobre um monte de palha, experimentava tamanha consolação que o privava de dormir. Da mesmo maneira, São Filipe Néri, despojando e livre de todas as coisas, não conseguia repousar à vista dos consolos que Deus lhe dava, em tal escala, que dizia: "Deixai-me descansar, meu Jesus". O padre jesuíta Carlos de Lorena, da família dos príncipes de Lorena, punha-se, às vezes, a dançar de alegria, quando entrava em sua pobre cela. Nas Índias, São Francisco Xavier, no meio de seus trabalhos apostólicos, descobria o peito, exclamando: Basta, Senhor, de consolações, que meu coração já não as suporta. Santa Teresa dizia que dá mais contentamento uma gota de celestial consolação, que todos os prazeres do mundo. Efetivamente, não podem faltar as promessas do Senhor, que ofereceu dar, ainda nesta vida, aos que renunciam por seu amor aos bens de terra, o cêntuplo de paz e de alegria (Mt 19,29). 

Que andamos, pois, a procurar tanto? Procuremos a Jesus Cristo, que nos chama e diz: "Vinde a mim todos os que estais carregados e fatigados e eu vos aliviarei" (Mt 11,28). A alma que ama a Deus, encontra essa paz que excede todos os prazeres e todas as satisfações que podem vir do mundo e dos sentidos (Fp 4,7). É verdade que nesta vida até os santos têm que sofrer; porque a terra é lugar para merecimentos e não se pode merecer sem sofrer. Diz, contudo, São Boaventura, que o amor divino é semelhante ao mel que torna doces e agradáveis as coisas mais amargas. Quem ama a Deus, ama sua divina vontade, e é por isso que goza espiritualmente nas próprias tribulações, porque sabe que, resignando-se, agrada e compraz ao Senhor... Ó meu Deus! Os pecadores desprezam a vida espiritual sem tê-la experimentado. Veêm somente, diz São Bernardo, as mortificações que sofrem os amigos de Deus e os deleites de que se privam; mas não consideram as inefáveis delícias espirituais com que o Senhor nos cumula e acaricia. Ah! se os pecadores provassem a paz de que desfruta a alma que só ama a Deus! "Experimentai e vede - diz Davi - quão suave é o Senhor" (Sl 33,9). 

Começa, pois, meu irmão, a fazer meditação diária, a comungar com frequência, a visitar devotamente o Santíssimo Sacramento; começa a desprezar o mundo e a entregar-te a Deus, e verás como o Senhor te dá, no pouco tempo que lhe consagras, maiores consolações que todas as que o mundo te deu com os seus prazeres. Provai e vereis. 

Quem não experimentar, não poderá compreender o quanto Deus sabe contentar uma alma que o ama. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, quanto fui cego ao apartar-me de vós, Sumo Bem, Fonte de todo consolo, entregando-me aos pobres e miseráveis prazeres do mundo! Minha cegueira assombra-me; porém mais ainda vossa misericórdia, que com tanta bondade me tem suportado.

Agradeço-vos de todo o coração por me terdes feito conhecer meu triste estado e o dever que me impele a amar-vos cada vez mais. Aumentai em mim o desejo e o amor... Fazei, ó Amabilidade infinita, que, enlevado eu de vós, considere que nada mais tendes a fazer para ser amado por mim e que desejais o meu amor. Se quiserdes, podereis purificar-me (Mt 8,8). Purificai, pois, meu coração, caríssimo Redentor; purificai-o de tantos afetos impuros que me não deixam amar-vos como quisera. 

Não conseguem minhas forças que meu coração se una inteiramente a vós e a vós que somente ame. Deve ser este um efeito de vossa graça, para a qual nada há de impossível. Desligai-me de tudo; arrancai-me de minha alma tudo o que não conduz a vós, e fazei que seja inteiramente vosso. Arrependo-me de todas as ofensas que vos fiz e proponho consagrar o restante da minha vida ao vosso santo amor. Vós, porém, o haveis de realizar. Fazei-o pelo sangue que derramastes por mim com tanto amor e dor. Seja para glória da vossa onipotência que meu coração, outrora cativo de afeições terrenas, arda doravante em amor por vós, ó Bondade infinita!...

Mãe do belo amor! Alcançai que, por meio de vossas súplicas, minha alma se abrase, como a vossa, em caridade para com Deus.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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domingo, 15 de junho de 2025

Vaidade do mundo




Ajude este apostolado colaborando com qualquer valor. 

Deus abençoe por Maria! 


Santo Afonso Mª de Ligório 

Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma? (Mt 16,26).


PONTO I 

Numa viagem marítima, um filósofo antigo, de nome Aristipo, naufragou com o navio em que ia, perdendo todos os bens. Pôde, entretanto, chegar salvo à terra, e os habitantes do país a que arribou, entre os quais Aristipo gozava de grande fama por seu saber, o indenizaram de tudo que havia perdido. Admirado, escreveu logo a seus amigos e patrícios incitando-os a que aproveitassem o seu exemplo, e que somente se premunissem das riquezas que nem com os naufrágios se podem perder. É isto exatamente o que nos recomendam nossos parentes e amigos que já chegaram à eternidade. Advertem-nos para que este mundo procuremos adquirir antes de tudo os bens que nem a morte nos faz perder. O dia da morte é chamado o dia da perda, porque nele perdemos as honras, as riquezas e os prazeres, enfim, todos os bens terrenos. Por esta razão, diz Santo Ambrósio, que não podemos chamar nossos a esses bens, porque os não podemos levar conosco para o outro mundo; somente as virtudes nos acompanham para a eternidade. 

"De que serve, pois - diz Jesus Cristo (Mt 16,26) - ganhar o mundo inteiro, se à hora da morte, perdendo a alma, tudo perde?"... Oh! quantos jovens, penetrados desta grande máxima, resolveram entrar na clausura! Quantos anacoretas conduziu ao deserto! A quantos mártires moveu a dar a vida por Cristo! Por meio desta máximas soube Santo Inácio de Loiola chamar para Deus inúmeras almas, entre elas a alma formosíssima de São Francisco Xavier, que, residindo em Paris, ali se ocupava em pensamentos mundanos. "Pensa, Francisco - lhe disse um dia o Santo, - pensa que o mundo é traidor, que promete e não cumpre; mas, ainda que cumprisse o que promete, jamais poderia satisfazer teu coração. E supondo que o satisfizesse, quanto tempo poderá durar essa felicidade? Mais que tua vida? E no fim dela, levarás tua dita para a eternidade? Existe, porventura, algum poderoso que tenha levado para o outro mundo uma moeda sequer ou um criado para seu serviço? Há algum rei que tenha levado consigo um pedaço de púrpura em sinal de dignidade?..." Movido por estas considerações, São Francisco Xavier renunciou ao mundo, seguiu a Santo Inácio de Loiola e se tornou um grande Santo.

Vaidades das vaidades (Ecl 1,2). Assim chamou Salomão aos bens do mundo, depois de ter experimentado, como ele mesmo confessou, todos os prazeres da terra (Ecl 2,10). Soror Margarida de Sant'Ana, carmelita descalça, filha do imperador Rodolfo II, dizia: "Para que servem os tronos da hora da morte?..." Coisa admirável! Tremem os Santos ao pensar em sua salvação eterna. Tremia o Padre Ségneri, que, todo assustado, perguntava a seu confessor: "Que me dizeis, Padre, salvar-me-ei?" Tremia Santo André Avelino quando, gemendo, exclamava: "Quem sabe se me salvarei!" Esse mesmo pensamento afligia a São Luís Bertram, e o fez levantar-se muitas noites do leito, exclamando: "Quem sabe se me condenarei?..." E contudo os pecadores vivem em estado de condenação, e dormem, e riem, e se divertem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Jesus, meu Redentor! De todo o coração vos agradeço por me terdes dado a conhecer minha insensatez e o mal que cometi afastando-me de vós, que por mim sacrificastes sangue e vida. Em verdade, não merecíeis da minha parte ser tratado como vos tratei. Se a morte me ferisse agora, que acharia em mim senão pecados e remorsos de consciência, que me tornariam bem angustiosos os últimos momentos? Confesso, meu Salvador, que fiz mal, que a mim mesmo me enganei, trocando o Bem Supremo pelos míseros prazeres deste mundo. 

Arrependo-me de todo o coração, e vos suplico, pelas dores que na cruz sofretes, me deis a mim tão grande dor de meus pecados, que me faça chorar durante o resto de minha vida as culpas que cometi. 

Perdoai-me, meu Jesus; prometo nunca mais vos ofender, e amar-vos sempre. Sei que não sou digno de vosso amor, porque o desprezei tantas vezes; mas também sei que amais a quem vos ama... (Pr 8,17). 

Amo-vos, Senhor; amai-me, pois, também. Não quero tornar a perder vossa amizade e graça. Renuncio a todos os prazeres e a todas as pompas deste mundo, contanto que me ameis... Ouvi-me, meu Deus, por amor de Jesus Cristo, que vos pede não me arrojeis de vosso coração. 

A vós me ofereço inteiramente e vos consagro minha vida, meus sentidos, minha alma, meu corpo, minha vontade e minha liberdade. 

Aceitai, Senhor, a oferta e não me desprezeis como mereço, por ter desprezado tantas vezes vosso amor... (Sl 50,13).

Virgem Santíssima, minha Mãe, rogai por mim a Jesus. Em vossa intercessão confio. 


PONTO II

É mister pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo, que é falsa e enganadora (Os 12,71). Os bens do mundo são desprezíveis, não satisfazem e acabam depressa. "Meus dias passaram mais depressa que um correio; passaram como um navio..." (Jo 9,25-26). 

Passam e fogem velozes os breves dias desta vida; e que resta por fim dos prazeres terrenos? Passaram como navios. O navio não deixa vestígio de sua passagem (Sb 5,10). Perguntemos a todos esses ricos, sábios, príncipes, imperadores, que estão na eternidade, o que acham ali de suas passadas grandezas, pompas e delícias deste mundo. Todos responderão: Nada, nada. Ó homens, exclama Santo Agostinho, vós considerais somente os bens que possui aquele magnata; atentai também nas coisas que leva consigo ao sepulcro: um cadáver pestilento e uma mortalha que com ele se consumirá. Quando morre algum dos grandes, apenas se fala dele algum tempo; depois até sua memória se perde (Sl 9,7). E se caem no inferno, que farão e que dirão ali?... Chorarão, dizendo: Para que nos serviram o luxo e a riqueza? Tudo agora se passou como sombra (Sb 5,8-9) e nada nos resta senão penas, pranto e desespero sem fim. 

"Os filhos do século são mais prudentes em seus negócios que os filhos da luz" (Lc 18,8). Causa pasmo ver quão prudentes são os mundanos no que diz respeito às coisas da terra. Que passos não dão para adquirir honras ou fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo!... Escolhem e empregam os meios mais adequados, os médicos mais afamados, os melhores remédios, o clima mais saudável... e, entretanto, quão descuidados são para a alma!... E, no entanto, é certo que a saúde, as honrarias e as riquezas devem acabar-se um dia,  ao passo que a alma, imortal, não tem fim. "Observemos - disse Santo Agostinho - quanto sofre o homem pelas coisas que ama desordenadamente". Quanto não sofrem os vingativos, ladrões e licenciosos para atingir seus malvados desígnios? E para o bem da alma nada querem sofrer. Ó Deus! À luz do círio que na hora da morte se acende, naquele momento de grandes verdades, os mundanos reconhecem e confessam sua grande loucura. Então desejariam ter renunciado ao mundo e levado vida santa. 

Ó Pontífice Leão XI disse na hora da morte: "Em vez de ser Papa, melhor fora para mim ter sido porteiro no meu convento". Honório III, também Pontífice, exclamou ao morrer: "Melhor teria feito, se ficasse na cozinha de minha comunidade para lavar a louça". Filipe II, rei de Espanha, chamou seu filho na hora da morte, e, depois de afastar a roupa, lhe mostrou o peito roído de vermes, dizendo: "Vê, príncipe, como se morre, e como se acabam as grandezas do mundo". Depois exclamou: "Por que não fui eu, em vez de monarca, simples frade leigo de qualquer ordem!" Mandou depois que lhe pusessem ao pescoço uma cruz de madeira; e tendo disposto todas as coisas para sua morte, disse a seu herdeiro: Quis, meu filho, que estivesses presente a este ato, para que visses como, no fim da vida, o mundo trata ainda os próprios reis. Sua morte é igual à dos mais pobres da terra. Aquele que melhor tiver vivido, esse é que achará junto de Deus mais alto favor". E este mesmo filho, que foi depois Filipe III, ao morrer com apenas 43 anos de idade, disse: "Atendei, meus súditos, a que no meu necrológio somente se fale do espetáculo que tendes presente. Dizei que na morte de nada serve o título de rei, a não ser para sentir-se maior tormento de o haver sido... Oxalá, em vez de rei, tivesse vivido em um deserto servindo a Deus!... Ir-me-ia agora apresentar com mais confiança entre seu tribunal, e não correria tamanho risco de me condenar!..." De que valem, porém, tais desejos no transe da morte, senão para maior desespero e pena de quem não amou a Deus durante a vida? Dizia, por isto, Santa Teresa: "Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida. A verdadeira vida consiste em viver de modo que nada se tenha a recear da morte..." Portanto, se desejamos compreender o que valem os bens da terra, consideremo-los do leito da morte e digamos logo: Aquelas riquezas, estas honras, estes prazeres, se acabarão um dia. É necessário, assim, que procuremos santificar-nos e enriquecer-nos somente dos bens únicos que hão de acompanhar-nos sempre e que constituirão nossa dita por toda a eternidade.


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Redentor!... Sofrestes tantos sacrifícios e tantas ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e as vaidades do mundo, que por sua causa fui levado a calcar aos pés inúmeras vezes a vossa graça. Mas, ainda que vos desprezasse, não deixáveis de me procurar; por isso, ó meu Jesus, não posso temer que me abandonareis agora que vos procuro e amo de todo o coração, e me dói mais de vos ter ofendido que se tivesse sofrido qualquer outro mal. Ó Deus de minha alma, não quero tornar a ofender-vos nem nas coisas mínimas. 

Fazei-me conhecer aquilo que vos desagrada e que não o pratique por nada deste mundo. Fazei que saiba o que vos é agradável e o ponha em execução. Quero amar-vos verdadeiramente; e por vós, Senhor, aceitarei gostosamente todos os sofrimentos e todas as cruzes que me vierem. Dai-me a resignação de que necessito. Queimai, cortai... Castigai-me nesta vida, a fim de que na outra possa amar-vos eternamente. 

Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim. 


PONTO III

"O tempo é breve... os que se servem do mundo, sejam como se dele não se servissem, porque a figura deste mundo passa..." (1Cor 7,31). Que é com efeito nossa vida temporal senão uma cena que passa e se acaba logo? "Passa a figura deste mundo", quer dizer, a aparência, a cena de comédia. "O mundo é como um teatro - diz Cornélio a Lápide; - desaparece uma geração e outra lhe sucede. Quem representou o papel de rei, não levará consigo a púrpura... dize-me, ó cidade, ó casa, quantos donos tivestes?" Quando acaba a peça, o rei deixa de ser rei, o senhor deixa de ser senhor. Possuis agora essa quinta ou palácio; mas virá a morte e outros passarão a ser donos de tudo. 

A hora da morte faz esquecer todas as grandezas, honras e vaidades do mundo (Ecl 11,29). Casimiro, rei da Polônia, morreu de repente, quando, achando-se à mesa com grandes do reino, levava aos lábios a taça para beber. Rapidamente acabou para ele a cena do mundo... O imperador Celso foi assassinado oito dias depois de ter sido elevado ao trono, e assim acabou para Celso a peça da vida. Ladislau, rei da Boêmia, jovem de dezoito anos, esperava a sua esposa, filha do rei da França, e lhe preparava grandes festejos, quando certa manhã o acometeu dor veementíssima da qual caiu fuminando. Expediram-se imediatamente correios, advertindo a esposa que voltasse para a França, porque para Ladislau o drama do mundo já tinha acabado... Este pensamento da vaidade do mundo fez santo a Francisco de Borja que (como em outro lugar dissemos), ao ver o cadáver da imperatriz Isabel, falecida no meio das grandezas e na flor da idade, resolveu entregar-se inteiramente a Deus, dizendo: "Assim acabam as grandezas e coroas do mundo?... Não quero servir a senhor que me possa ser roubado pela morte". 

Procuremos, pois, viver de maneira que à hora de nossa morte não se nos possa dizer o que se disse ao néscio mencionado no Evangelho: "Insensato, nesta noite hão de exigir de ti a entrega de tua alma; e as coisas que juntastes, para quem serão? (Lc 12,20).  E logo acrescenta São Lucas: Assim é que sucede a quem enriquece para si, e não é rico aos olhos de Deus (Lc 12,21). Mais adiante se diz: Procurai entesourar para o céu, onde não chegam os ladrões nem rói a traça" (Mt 6,20); ou seja; procurai enriquecer, não com os bens do mundo, senão de Deus, com virtudes e merecimentos que estarão convosco eternamente no céu. Façamos, pois, todo o esforço, para adquirir o grande tesouro do amor divino. "Que possui o rico, se não tem caridade? E se o pobre tem caridade, que não possui?" - diz Santo Agostinho. - Quem possui todas as riquezas, mas não possui a Deus, é o mais pobre do mundo. Mas o pobre que possui a Deus possui tudo... E quem é que possui a Deus? Aquele que o ama. "Quem permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele" (Mt 4,16).


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, não quero que o demônio volte a reinar na minha alma, mas que vós sejais meu único dono e senhor... Quero renunciar a tudo para alcançar vossa graça, que prefiro a mil coroas e mil reinos. E a quem deveria amar senão a vós, amabilidade infinita, bem infinito, beleza, bondade, amor infinitos? Na vida passada, enjeitei-vos pelas criaturas e isto será sempre para mim profunda dor que me atravessará o coração por vos ter ofendido, que tanto me tendes amado. Mas já que me haveis atraído com vossa graça, espero que não hei de ver-me privado novamente de vosso amor. Tomai, ó meu Amor, toda a minha vontade e tudo o que me pertence e fazei de mim o que vos aprouver. Peço-vos perdão por minhas culpas e desordens passadas. Nunca mais me queixarei das disposições da vossa providência, porque sei que todas elas são santas e ordenadas para meu bem. Fazei, pois, meu Deus, o que quiserdes, e eu vos prometo aceitar com alegria, e dar-vos graças... 

Fazei que vos ame, e nada mais pedirei... Basta de riquezas, basta de honras, basta de mundo. A meu Deus, só a meu Deus quero.

E vós, bem-aventurada Virgem Maria, modelo de amor de Deus, alcançai-me que, ao menos no resto de minha vida, vos acompanhe nesse amor. É em vós, Senhora, que confio. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte