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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Remorsos do condenado



Vermis eorum non moritur.

O seu verme não morre (Mc 9,47).


PONTO I

Este verme que não morre nunca significa, segundo São Tomás, o remorso de consciência dos réprobos, o qual há de atormentá-los eternamente no inferno. Muitos serão os remorsos com que a consciência roerá o coração dos condenados. Mas há três que principalmente os atormentarão, a saber: o pensar no nada das coisas pelo qual o réprobo se condenou, no pouco que tinha a fazer para salvar-se e no grande Bem que perdeu. Depois que Esaú tinha comido o prato de lentilhas, preço do seu direito de primogenitura, ficou tão magoado por ter consentindo na perda que, conforme a Escritura, pôs-se a rugir... (Gn 27,34). Que gemidos e clamores soltarão os réprobos ao ponderar que, por prazeres fugidios e envenenados, perderam um reino eterno de felicidade, e se vêem condenados para sempre a contínua e interminável morte! Chorarão mais amargamente que Jônatas, sentenciado a morrer por ordem de Saul, seu pai, sem ter cometido outro delito do que provar um pouco de mel (1Rs 14,43). Que pesar sofrerá o condenado ao recordar-se da causa de sua ruína!... Sonho de um instante nos parece nossa vida passada. O que hão de parecer ao réprobo os cinquenta ou sessenta anos de sua vida terrena, quando se encontra na eternidade, onde, depois de terem decorrido cem ou mil milhões de anos, vir que então aquela sua vida está começando? E, além disso, os cinquenta anos de vida na terra são, acaso, cinquenta anos de prazer? O pecador que vive sem Deus goza sempre de doçuras em seu pecado? Um momento só dura o prazer culpável; no demais, para quem vive separado de Deus, é tempo de penas e aflições... Que serão, portanto, para o infeliz réprobo esses breves momentos de deleite? Que lhe parecerá, particularmente, o último pecado pelo qual se condenou?... "Por um vil prazer que durou apenas um instante e que como o fumo se dissipou, exclamará, hei de arder nestas chamas, desesperado e abandonado, enquanto Deus for Deus, por toda a eternidade!"


AFETOS E SÚPLICAS

Dai-me luz, Senhor, a fim de reconhecer minha maldade em ofender-vos e a pena eterna que por ela mereci. Sinto, meu Deus, grande dor de ter-vos ofendido, mas essa dor me consola e alivia. Se me tivésseis precipitado no inferno, como mereci, o remorso seria ali o meu maior castigo que provocaram minha eterna desgraça. Agora, porém, a dor reanima, consola e me infunde esperança de alcançar perdão, que oferecestes ao que se arrepende. 

Meu Deus e Senhor, arrependo-me de vos ter ultrajado; aceito com alegria essa pena dulcíssima da dor de minhas culpas, e vos rogo que aumenteis e conserveis até à morte, a fim de que não deixe de deplorar um só instante os meus pecados... Perdoai-me, meu Jesus e Redentor, que, por terdes misericórdia de mim, não a tivestes de vós mesmo, e vos condenastes a morrer de dor para livrar-me do inferno. Tende piedade de mim! Fazei, portanto, que meu coração se conserve sempre contrito e inflamado no vosso amor, pois que tanto me tendes amado e aturado com tanta paciência, a ponto de, em vez de castigar-me, me cumulardes de luz e de graça... Agradeço-vos, meu Jesus, e vos amo de todo o coração. 

Não sabeis desprezar a quem vos ama; peço, pois, que não aparteis de mim o vosso rosto divino. Acolhei-me na vossa graça e não permitais que torne a perdê-la...

Maria, Mãe e Senhora nossa, recebei-me como vosso servo e uni-me a vosso Filho Jesus. Suplicai-lhe  que me perdoe e que me conceda, juntamente com o dom do seu amor, a graça da perseverança final.


PONTO II

Diz São Tomás que o principal tormento dos condenados será a consideração de que se perderam por verdadeiros nadas, e que podiam ter alcançado facilmente, se o quisessem, o prêmio da glória. O segundo remorso de sua consciência consistirá, portanto, no pensar quão pouco cumpria para salvar-se. Um condenado que apareceu a Santo Humberto revelou-lhe que sua maior aflição no inferno era reconhecer a indignidade do motivo que o levara à condenação e a facilidade com que poderia ter evitado. O réprobo dirá então: "Se me tivesse mortificado para não olhar aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano ou tal amizade, não me teria condenado... Se me tivesse confessado todas as semanas, se tivesse frequentado as asssociações piedosas, se tivesse feito todos os dias leitura espiritual e se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído em minhas culpas... 

Muitas vezes, resolvi fazer tudo isso, mas, infelizmente, não perseverei. 

Dava começo à pratica do bem, mas, em breve, desprezei o caminho encetado. Por isso, me perdi".

Aumentará o pesar causado por este remorso a lembrança dos exemplos de companheiros virtuosos e de amigos do condenado, assim como dos dons que Deus lhe concedeu para salvar-se: dons naturais, como boa saúde, fortuna e talento, que, bem aproveitados segundo a vontade de Deus, teriam servido para a santificação; dons sobrenaturais, como luzes, inspirações, convites, largos anos para reparar as faltas cometidas. O réprobo, porém, deverá reconhecer que, no estado em que se acha, já não há remédio. Ouvirá a voz do Anjo do Senhor, que exclama e jura: "por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que já não haverá tempo..." (Ap 10, 5-6). Como espadas agudas atuarão sobre o coração do condenado as recordações de todas as graças que recebeu, quando vir que já não é possível reparar a ruína eterna. Exclamará com seus companheiros de desespero: "Passou a ceifa, findo o estio, e nós não fomos salvos" (Jr 8,20). Se tivesse empregado no serviço de Deus o tempo e o trabalho passado em perder-me, teria sido santo... E, agora, que me restam, senão remorsos e mágoas sem fim? Sem dúvida, o pensamento de que poderia ser eternamente feliz e que será para sempre desgraçado, atormentará mais terrivelmente o condenado do que todos os demais castigos infernais. 


AFETOS E SÚPLICAS

Como é que pudestes, meu Jesus, aturar-me tanto tempo? Tantas vezes que me apartei de vós, outras tantas viestes procurar-me; ofendi-vos e me perdoastes; voltei a ofender-vos e novamente me concedestes perdão... Fazei, Senhor, que participe da dor amarga que, sob suores de sangue, sofrestes por meus pecados no horto de Getsêmani. Arrependo-me, caríssimo Redentor, de ter tão indignamente desprezado o vosso amor... Malditos prazeres, detesto-vos e vos amaldiçôo, porque me fizestes perder a graça de Deus!... Meu diletíssimo Redentor, amo-vos sobre todas as coisas; renuncio a todas as satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que tornar a ofender-vos... Pelo afeto com que me amastes na cruz e oferecestes a vida por mim, concedei-me luz e força para resistir à tentação e pedir vosso poderoso auxílio...

Ó Maria, meu amparo e minha esperança, que tudo podeis conseguir de Deus, alcançai-me a graça de que não me aparte nunca mais de seu amor santíssimo! 


PONTO III

Considerar o grande Bem que perderam, será o terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segundo São João Crisóstomo, será mais grave pela privação da glória do que pelos próprios tormentos do inferno. 

"Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renunciarei gostosamente ao seu paraíso", disse a infeliz princesa Isabel da Inglaterra...

Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certamente, não pensará o mesmo. Que aflição e que desespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos entre angústias e temores, gozando um torno temporal, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior aflição, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por acidentes de má sorte nem pela malevolência de outros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livremente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre vontade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como se salvaram muitos de seus companheiros que, não obstante terem de passar por perigos idênticos ou maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendando-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levantar-se e se consagraram novamente ao serviço do Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair desastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos, onde não existe a esperança.

Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, para não renunciar a um mísero deleite, preferiste perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir chorá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações que lês sejam o último apelo de Deus? Se não mudares de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eternamente entre aquela multidão de insensatos que agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam desesperados, porque não ignoram que é irremediável. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no inferno e recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio inferno. "Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás jamais" (Eclo 7,40), porque esse pensamento te fará recorrer a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, soberano Bem! Quantas vezes vos perdi por um nada, e quantas vezes mereci perder-vos para sempre! Reanimam-me e consolam-me, entretanto, aquelas palavras do Profeta: "Alegra-se o coração dos que buscam ao Senhor" (Sl 104,3). Não devo, pois, perder a esperança de recuperar vossa graça e vossa amizade, se vos procuro com sinceridade.

Sim, meu Senhor, suspiro por vossa graça mais que por qualquer outro bem. Prefiro ver-me privado de tudo, até a vida, a perder o vosso amor. Amo-vos, meu Criador, amo-vos sobre todas as coisas; e porque vos amo pesa-me de vos ter ofendido... Meu Deus, desprezei-vos e perdi-vos; perdoai-me e permiti que vos encontre, porque não quero tornar a vos perder. Admiti-me de novo na vossa amizade e abandonarei tudo para amar unicamente a vós. Assim o espero da vossa misericórdia...

Pai Eterno, ouvi-me; por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e concedei-me a graça de nunca mais me separar de vós. Se de novo e voluntariamente vos tornasse a ofender, teria justa razão para recear que me abandonásseis...

Ó Maria, a esperança dos pecadores, reconciliai-me com o meu Deus e guardai-me debaixo do vosso manto, a fim de que nunca mais me separe do meu Redentor. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte




domingo, 2 de novembro de 2025

Vida infeliz dos pecadores e vida ditosa do que ama a Deus




 Non est pax impiis, dicit Dominus. 

Não há paz para os ímpios, disse o Senhor (Is 58,24).

Pax multa diligentibus legem tuam. 

Muita paz para os que amam tua lei (Sl 118,65).


PONTO I

Nesta vida, todos os homens se esforçam para conseguir a paz. 

Trabalham o comerciante, o soldado, o advogado, porque pensam que, realizando tal negócio, obtendo tal promoção, ganhando tal demanda, alcançarão os favores da fortuna e poderão gozar da paz. Mas, ó pobres mundanos, que procurais a paz no mundo, que não a pode dar! Deus somente no-la pode dar. Dá a teus servos, - diz a Igreja em suas preces, - aquela paz que o mundo não pode dar. Não, não pode o mundo com todos os seus bens satisfazer o coração humano, porque o homem não foi criado para essa espécie de bens, mas unicamente para Deus; de modo que somente em Deus pode encontrar felicidade e repouso. 

O ser irracional, criado para gozos materiais, procura e encontra a paz nos bens terrestres. Dai a um jumento um feixe de capim, dai a um cão um pedaço de carne, e ficarão satisfeitos, sem desejar mais coisa alguma. Mas a alma, criada para amar a Deus e unir-se a ele, não encontra paz nos deleites sensuais; só Deus a pode fazer plenamente feliz. 

Aquele rico de que fala São Lucas tinha obtido de seus campos abundantíssima colheita, e dizia de si para consigo: "Minha alma, agora possuis bens abundantes, armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe..." (Lc 12,19). Mas este rico infeliz foi chamado louco, e com toda a razão, diz São Basílio. "Desgraçado - exclama o Santo. Acaso, te equiparas a um animal e pretendes contentar tua alma com beber e comer e com os deleites sensuais?" O homem - escreve São Bernardo - poderá fartar-se, mas nunca satisfazer-se com os bens do mundo. O próprio Santo, comentando este texto do Evangelho: "Eis que abandonamos tudo" (Mt 19,27), diz que observou muitos loucos com diversas manias. Todos - acrescenta - sofriam de fome devoradora; mas uns se saciavam com terra, símbolo dos avarentos; outros, aspiravam o ar, figura dos vaidosos; outros, ao redor da boca de um fornalha, recebiam as fugazes centelhas, imagem dos iracundos; aqueles, enfim, símbolo dos desonestos, de um lago fétido bebiam suas águas corrompidas. E, dirigindo-se depois a todos, exclama o Santo: "Ó insensatos, não vedes que todas estas coisas, longe de extinguirem a fome, só a atiçam?" Os bens do mundo são bens aparentes, e, por isso, não podem satisfazer o coração humano (Ag 1,6); assim o avarento, quanto mais entesoura, mais quer entesourar, diz Santo Agostinho. O impudico, quanto mais se engolfa nos prazeres de seu vício, maior desgosto e cada vez mais terríveis desejos sente: e como é que poderia tranquilizar-se se coração com a imundície sensual? O mesmo sucede ao ambicioso, que aspira saciar-se com o fumo sutil de vaidades, poder e riquezas; porque o ambicioso atende mais ao que lhe falta do que ao que possui. 

Alexandre Magno, depois de ter conquistado tantos reinos, lamenta-se por não ter adquirido o domínio das demais nações. Se os bens da terra pudessem contentar o homem, os ricos e os monarcas seriam plenamente felizes; mas a experiência prova o contrário. É o que afirma Salomão, que assegura não ter negado nada a seus desejos (Ecl 2,10), e, contudo, exclama: "Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade" (Ecl 1,2), o que quer dizer; tudo quanto há no mundo é mera vaidade, mentira e loucura...


AFETOS E SÚPLICAS

Que me resta, meu Deus, das ofensas que vos fiz, senão amarguras e penas e méritos para o inferno? Não me acabrunha a dor que sinto, antes me consola e alivia, porque é um dom de vossa graça que se une à esperança de que me quereis perdoar. O que me aflige é o muito que vos hei injuriado, meu Redentor, que tanto me amastes. Merecia então, Senhor, que me abandonásseis; em vez disso, vejo que me ofereceis o perdão e que sois o primeiro a procurar a paz. Sim, meu Jesus, desejo a paz convosco, e mais que todas as coisas, desejo a vossa graça. Arrependo-me, Bondade infinita, de vos ter ofendido e quisera morrer de pura contrição. Pelo amor que tivestes comigo, morrendo por mim na cruz, perdoai-me e acolhei-me em vosso coração; mudai o meu de tal modo que, se muito vos ofendeu no passado, mais passe a vos agradar no futuro. Renuncio, por vosso amor, a todos os prazeres que o mundo possa oferecer-me e tomo a resolução de perder antes a vida do que vossa graça. Dizei-me o que quereis que eu faça para servir-vos, pois que desejo executá-lo. Nada de prazeres, nem de honras e riquezas; só amo a vós, meu Deus, meu gozo, minha glória, meu tesouro, minha vida, meu amor e meu tudo. Socorrei-me, Senhor, para que vos seja fiel; concedei-me o dom do vosso amor e fazei de mim o que vos aprouver. 

Maria, Mãe  e esperança nossa depois de Jesus Cristo, acolhei-me sob vossa proteção, e fazei que eu seja todo de Deus.


PONTO II 

Além disso, disse Salomão que os bens do mundo não apenas são vaidades que não satisfazem a alma, mas que são penas que afligem o espírito (Ecl 1,14). Os pobres pecadores pretendem ser felizes carregados de suas culpas, mas só encontram amarguras e remorsos (Sl 13,3). Nada de paz, nem de tranquilidade. Deus nos disse: "Não há paz para os ímpios" (Is 48,22). Primeiramente, o pecado traz em si o temor profundo da vingança divina; pois, assim como um homem, que tem um poderoso inimigo, não vive tranquilidade, como poderá o inimigo de Deus repousar em paz? "O caminho do Senhor causa espanto para os que praticam o mal" (Pr 10,29). Quando a terra treme ou o trovão ribomba, como estremece aquele que se acha em pecado! Até o suave movimento da folhagem, às vezes, lhe causa pavor: "O zunido do terror amedronta constantemente os seus ouvidos" (Jo 15,21). Foge sem ver quem o persegue (Pr 28,1, porque seu próprio pecado corre atrás dele. Caim matou seu irmão Abel e exclamou logo: "Todo aquele que me encontrar me matará" (Gn 4,14) E não obstante o Senhor lhe ter assegurado aque nada lhe aconteceria (Gn 4,15), diz a Escritura, - Caim andou sempre fugitivo e errante (Gn 4,16). Quem era o perseguidor de Caim, senão o seu pecado? Além disso, a culpa anda sempre acompanhada do remorso, esse verme roedor que jamais repousa. Dirija-se, embora, o pobre pecador a baquetes, saraus e teatros, a voz da consciência o acompanha e lhe diz: Estás no desafeto de Deus; se morreres, para onde é que irás? O remorso é pena tão angustiosa, mesmo nesta vida, que alguns desgraçados, para se livrar de seu peso, suicidam-se. Um desses foi Judas que, como é sabido, desesperado, se enforcou. Conta-se de outro criminoso que, tendo assassinado uma criança, sentiu remorsos tão horríveis, que para acalmá-los se fez religioso; mas nem no claustro encontrou a paz. Foi ter com o juiz e declarou-lhe o seu delito, pelo qual foi condenado à morte. 

Que é a alma privada de Deus?... Um mar tempestuoso, - diz o Espírito Santo (Is 57,20). Se alguém fosse convidado a uma festa, baile ou concerto, e ali lhe tivessem atado mãos e pés com ligaduras: poderia desfrutar daquela diversão? Tal é a situação do homem que vive na abundância dos bens do mundo sem possuir a Deus. Coma, beba, dance, ostente ricos vestidos, receba honras, ocupe altos cargos e adquira dignidades, mas jamais gozará paz. A paz vem unicamente de Deus e Deus a dá àqueles que o amam; não a seus inimigos.

 Os bens deste mundo - diz São Vicente Ferrer - são todos exteriores, não entram no coração. Aquele pecador ostenta, talvez, vestidos bordados e anéis de diamantes, tem mesa esplêndida; mas o seu pobre coração se conservará cheio de espinhos e de fel. Vê-lo-eis, por isso, sempre inquieto, mesmo no meio de tantas riquezas, prazeres e divertimentos. À menor contrariedade se impacienta e se enfurece como um cão hidrófobo. Aquele que ama a Deus, se resigna e se conforma à vontade divina na adversidade e encontrar paz e consolo. Isto, porém, não pode fazer aquele que é inimigo da vontade de Deus. E por isso não encontra meio de tranquilizar-se. 

Este desgraçado serve ao demônio, tirano cruel, que lhe paga com aflições e amarguras. Cumpre-se deste modo a palavra do Senhor, que diz: "Porquanto não serviste com gozo ao Senhor teu Deus, servirás a teu inimigo com fome, com sede, com nudez e com toda espécie de miséria" (Dt 28,47-48). Quanto não sofre o vingativo, depois de se ter vingado! quanto o impudico, apenas tenha conseguido seus intuitos! quanto os ambiciosos e avarentos!... Quantos seriam santos, se sofressem por causa de Deus o que padecem para se condenarem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó tempo que perdi!... Senhor, quantos merecimentos para a glória teria eu agora acumulado, se houvesse sofrido em servir-vos as aflições e trabalhos que padeci, ofendendo-vos. Ah! meu Deus, por que vos abandonei e perdi vossa graça?... Por prazeres envenenados e fugitivos que, apenas desfrutados, desapareceram e me deixaram o coração cheio de feridas e de angústias... Pecados meus! maldigo-vos e detesto-vos mil vezes; assim como bendigo vossa misericórdia, Senhor, que com tamanha paciência me tem sofrido. Amo-vos, meu Criador e Redentor, que por mim destes a vida. E, por isso, vos amo, arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido... Meu Deus, meu Deus, por que vos perdi? Por que vos substituí? Agora reconheço o mal que pratiquei, e estou resolvido a perder tudo, inclusive a própria vida, do que perder vosso amor. Pai Eterno, iluminai-me pelo amor de Jesus Cristo. 

Fazei-me conhecer o bem infinito, que sois vós, e a vileza dos bens que me oferece o demônio para me fazer perder a vossa graça. Amo-vos e desejo amar-vos cada vez mais. Fazei que vós sejais meu único pensamento, meu único desejo, meu único amor. Espero tudo da vossa bondade pelos merecimentos de vosso Filho...

Maria, nossa Mãe, pelo amor que tendes a Jesus Cristo, peço-vos que me alcanceis luz e força para servir-vos e amar-vos até a morte.


PONTO III

Se todos os bens e prazeres do mundo não podem satisfazer o coração humano, quem o poderá contentar?... Só Deus (Sl 36,4). O coração humano anda sempre à procura de bens que o possam saciar. 

Alcança riquezas, honras e prazeres, mas não se satisfaz, porque tais bens são finitos e ele foi criado para o bem infinito. Quando, porém, encontra Deus e se une a ele, se aquieta, acha consolo e não deseja nada mais. Santo Agostinho, enquanto se ateve à vida sensual, jamais gozou de paz; mas, quando passou a entregar-se a Deus, fez esta confissão ao Senhor: "Meu Deus, vejo agora que tudo é dor e vaidade, e que só vós sois a verdadeira paz da alma". Feito assim mestre por experiência própria, escrevia: Que procuras, homem? procuras bens?...

Procura o único Bem, no qual se encerram todos os demais" (Sl 41,3). 

Depois de ter pecado, o rei Davi entregava-se à caça, distraía-se nos seus jardins e em banquetes, gozava de todos os prazeres de um monarca.

Mas as festas, as florestas e as demais criaturas em que ele se comprazia, não faziam senão dizer-lhe a seu modo: "Davi, queres encontrar em nós paz e satisfação? Não te podemos contentar... Procura teu Deus, pois que unicamente ele te pode satisfazer". Por essa razão, Davi gemia no meio de seus prazeres, e exclamava: "Minhas lágrimas me têm servido de alimento dia e noite, e me dizem dia-a-dia: Onde está teu Deus? Como sabe Deus, ao contrário, contentar as almas fiéis que o amam! São Francisco de Assis, que abandonou tudo por causa de Deus, achava-se descalço, meio morto de frio e de fome, coberto de farrapos, mas, só ao proferir as palavras "Meu Deus e meu tudo", já sentia gozo inefável e celestial. São Francisco de Bórgia que, durante suas viagens de religioso, muitas vezes, teve de pernoitar sobre um monte de palha, experimentava tamanha consolação que o privava de dormir. Da mesmo maneira, São Filipe Néri, despojando e livre de todas as coisas, não conseguia repousar à vista dos consolos que Deus lhe dava, em tal escala, que dizia: "Deixai-me descansar, meu Jesus". O padre jesuíta Carlos de Lorena, da família dos príncipes de Lorena, punha-se, às vezes, a dançar de alegria, quando entrava em sua pobre cela. Nas Índias, São Francisco Xavier, no meio de seus trabalhos apostólicos, descobria o peito, exclamando: Basta, Senhor, de consolações, que meu coração já não as suporta. Santa Teresa dizia que dá mais contentamento uma gota de celestial consolação, que todos os prazeres do mundo. Efetivamente, não podem faltar as promessas do Senhor, que ofereceu dar, ainda nesta vida, aos que renunciam por seu amor aos bens de terra, o cêntuplo de paz e de alegria (Mt 19,29). 

Que andamos, pois, a procurar tanto? Procuremos a Jesus Cristo, que nos chama e diz: "Vinde a mim todos os que estais carregados e fatigados e eu vos aliviarei" (Mt 11,28). A alma que ama a Deus, encontra essa paz que excede todos os prazeres e todas as satisfações que podem vir do mundo e dos sentidos (Fp 4,7). É verdade que nesta vida até os santos têm que sofrer; porque a terra é lugar para merecimentos e não se pode merecer sem sofrer. Diz, contudo, São Boaventura, que o amor divino é semelhante ao mel que torna doces e agradáveis as coisas mais amargas. Quem ama a Deus, ama sua divina vontade, e é por isso que goza espiritualmente nas próprias tribulações, porque sabe que, resignando-se, agrada e compraz ao Senhor... Ó meu Deus! Os pecadores desprezam a vida espiritual sem tê-la experimentado. Veêm somente, diz São Bernardo, as mortificações que sofrem os amigos de Deus e os deleites de que se privam; mas não consideram as inefáveis delícias espirituais com que o Senhor nos cumula e acaricia. Ah! se os pecadores provassem a paz de que desfruta a alma que só ama a Deus! "Experimentai e vede - diz Davi - quão suave é o Senhor" (Sl 33,9). 

Começa, pois, meu irmão, a fazer meditação diária, a comungar com frequência, a visitar devotamente o Santíssimo Sacramento; começa a desprezar o mundo e a entregar-te a Deus, e verás como o Senhor te dá, no pouco tempo que lhe consagras, maiores consolações que todas as que o mundo te deu com os seus prazeres. Provai e vereis. 

Quem não experimentar, não poderá compreender o quanto Deus sabe contentar uma alma que o ama. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, quanto fui cego ao apartar-me de vós, Sumo Bem, Fonte de todo consolo, entregando-me aos pobres e miseráveis prazeres do mundo! Minha cegueira assombra-me; porém mais ainda vossa misericórdia, que com tanta bondade me tem suportado.

Agradeço-vos de todo o coração por me terdes feito conhecer meu triste estado e o dever que me impele a amar-vos cada vez mais. Aumentai em mim o desejo e o amor... Fazei, ó Amabilidade infinita, que, enlevado eu de vós, considere que nada mais tendes a fazer para ser amado por mim e que desejais o meu amor. Se quiserdes, podereis purificar-me (Mt 8,8). Purificai, pois, meu coração, caríssimo Redentor; purificai-o de tantos afetos impuros que me não deixam amar-vos como quisera. 

Não conseguem minhas forças que meu coração se una inteiramente a vós e a vós que somente ame. Deve ser este um efeito de vossa graça, para a qual nada há de impossível. Desligai-me de tudo; arrancai-me de minha alma tudo o que não conduz a vós, e fazei que seja inteiramente vosso. Arrependo-me de todas as ofensas que vos fiz e proponho consagrar o restante da minha vida ao vosso santo amor. Vós, porém, o haveis de realizar. Fazei-o pelo sangue que derramastes por mim com tanto amor e dor. Seja para glória da vossa onipotência que meu coração, outrora cativo de afeições terrenas, arda doravante em amor por vós, ó Bondade infinita!...

Mãe do belo amor! Alcançai que, por meio de vossas súplicas, minha alma se abrase, como a vossa, em caridade para com Deus.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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