Mostrando postagens com marcador pecador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pecador. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Dos enganos que o inimigo sugere ao pecador

 



(Apesar de que muitos pensaamentos incluídos nesta meditação já tenham sido considerados nas precedentes, é útil, todavia, compendiá-los e reuni-los aqui a fim de combater os enganos usuais de que se serve o demônio para iludir os pecadores à reincidência em suas culpas.)

PONTO I

Imaginemos que um jovem, réu de graves pecados, se confessou e recobrou a graça divina. O demônio tenta-o novamente, a fim de que recaia em seus pecados. O jovem resiste no princípio, mas começa a vacilar em vista das ilusões que o inimigo lhe sugere. "Meu irmão - lhe direi - que queres fazer? Desejas, porventura, sacrificar a uma vil satisfação essa excelsa graças de Deus, que reconquistaste, e cujo valor excede ao do mundo inteiro? Queres firmar por tuas próprias mãos a tua sentença de morte eterna e condenar-te a sofrer para sempre no inferno?" - "Não - responder-me- ás - não quero condenar-me, mas salvar a minha alma. Mesmo que cometa esse pecado, confessá-lo-ei logo..." Tal é a primeira sugestão do tentador. Confessar-se depois! Entretanto, perder-se a alma! Dize-me: se tivesses na mão uma formosa jóia de altíssimo valor, lançá-la-ias ao rio, dizendo: procurá-la-ei com cuidado, pois espero encontrá-la? Tens entretanto, em tua mão, essa jóia riquíssima de tua alma, que Jesus Cristo resgatou com seu sangue.

Voluntariamente a lanças no inferno, pois no ato de pecar cais condenado e dizes que a recobrarás pela confissão. E se não a recobras? Para recuperá-la é mister verdadeiro arrependimento, que é um dom de Deus. E Deus pode não te conceder. E se a morte vier e te arrebatar o tempo para a confissão? Asseguras que não deixas passar uma semana sem confessar tuas culpas. E quem te prometeu essa semana? Dizes que te confessarás amanhã. E quem te promete esse dia? O dia de amanhã - diz Santo Agostinho - Deus não te prometeu; talvez te concederá, talvez não, como aconteceu a muitos, que se recolheram sadios à noite para dormir em suas camas e amanheceram mortos. A quantos o Senhor feriu de morte no próprio ato de pecado e os precipitou no inferno! E se fizesse o mesmo contigo? Como conseguirias remediar tua eterna perdição? Persuade-te, pois, de que com o dizer "depois me confessarei" o demônio tem arrastado ao inferno milhares e milhares de almas. Porque raras vezes se encontrarão pecadores tão desesperados que queiram condenar-se a si mesmos. Todos, ao pecar, o fazem com esperança de reconciliar-se depois com Deus. É esta causa por que tantos infelizes têm sido condenados, tornando-se irremediavelmente perdidos. 

Talvez digas que não poderás resistir à tentação que se apresenta.

Este é o segundo que sugere o inimigo, fazendo-te crer que não tens forças para combater e vencer tuas paixões. Em primeiro lugar, é mister que saibas - como diz o Apóstolo - que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados com violência superior às nossas forças (2Cor 10,13).

Além disso, se agora não és capaz de resistir, como podes ter esperança de consegui-lo depois, quando o inimigo não cessar de induzir-te a novos pecados e tiver sobre ti muito mais força que antes, enquanto tu serás mais fraco? Se pensas que agora não podes extinguir essa chama, como crês que a apagarás mais tarde, quando ela lavrar com mais violência?... Afirmas que Deus te ajudará. Mas esse seu auxílio poderoso ele te dá agora. Por que não queres valer-te dele para resistir? Esperas, acaso, que Deus multiplique seu auxílio e sua graça a teu favor, quando tiveres avolumado as tuas culpas? E se desejas maior socorro e mais forças, por que é que não os pedes a Deus? Duvidas, talvez, da fidelidade do Senhor, que prometeu conceder tudo o que se lhe pedir? (Mt 7,7). Deus não se esquece de suas promessas. Recorre a ele e dar-te-á força de que necessitas para resistir à tentação. Deus - segundo a palavra do Concílio de Trento - não ordena coisas impossíveis.

Ao dar o preceito, quer que façamos o que estiver ao nosso alcance com o auxílio atual que nos proporciona; e se este auxílio atual não for suficiente para resistir, nos exorta a que o impetremos mais, pois, pedindo-lhe com os devidos requisistos, o concederá certamente. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus, por terdes sido vós tão bondoso para comigo é que eu tenho sido tão ingrato para convosco? Como à porfia, Senhor, afastei-me de vós e vós a procurar-me. Vós a cumular-me de bens e eu a ofender-vos! Ó meu Senhor! mesmo que fosse somente pela vossa bondade para comigo, devia inflamar-me no amor que vos devo, porque, à medida em que eu avolumava as culpas, vós me aumentáveis a graça para emendar-me. Como é que mereci a luz com que iluminais a minha alma? Agradeço-vos, meu Deus, de todo o coração e espero ir agradecer-vos eternamente no céu, pois os merecimentos de vosso sangue preciosíssimo me infundem consoladora esperança de salvação, fundada na imensa misericórdia que me tendes prodigalizado. Espero, entretanto, que me dareis força para nunca mais vos trair, e proponho, com o auxílio de vossa graça, preferir mil vezes a morte a tornar ofender-vos. Basta de ofensas que vos fiz! Quero passar o resto da vida, entregando-me a vosso amor. E como não hei de amar um Deus que morreu por mim e que me tem aturado com tanta paciência, apesar das ofensas que pratiquei?... Arrependo-me de todo o coração, Deus de minha alma, e quisera morrer de dor!... Se na vida passada me apartei de vós, agora amo-vos sobre todas as coisas, mais que a mim mesmo...

Eterno Pai, pelos merecimentos de Jesus Cristo, socorrei um miserável pecador que vos deseja amar... 

Maria, minha esperança, ajudai-me! Alcançai-me a graça de recorrer sempre a vosso divino Filho e a vós, todas as vezes que o inimigo me excitar a cometer novos pecados.


PONTO II

Dizes que o Senhor é Deus de misericórdia. Aqui se oculta o terceiro engano, muito comum entre os pecadores, e pelo qual não poucos se condenam. Escreve um sábio autor que mais almas envia ao inferno a misericórdia do que a justiça de Deus, porque os pecadores, confiando temerariamente naquela, não deixam de pecar, e se perdem. 

O Senhor é Deus de misericórdia: quem o nega? Contudo, quantas almas manda Deus todos os dias às penas eternas! É, na verdade, misericordioso, mas é também justiceiro; e este predicado o obriga a castigar a quem o ofende. Usa de misericórdia com aqueles que o temem (Sl 102, 11-13). Naqueles, entretanto, que o desprezam e abusam da clemência divina para continuar a ofendê-lo, tem que resplandecer somente a justiça de Deus. E com toda a razão, porque o Senhor perdoa o pecado, mas não pode perdoar a vontade de pecar. Aquele que peca - diz Santo Agostinho - pensando que se arrependerá depois de ter pecado, não é penitente, mas zomba de Deus e o menospreza.

Ora, o Apóstolo nos adverte de que Deus não consente que zombem dele (Gl 6,7). E que irrisão maior haveria do que ofendê-lo como e quando quiséramos, e ainda aspirar à glória? "Assim como Deus foi tão misericordioso para comigo em minha vida passada, espero que o será também no futuro". "Este é o quarto engano. Porque o Senhor se compadeceu de ti até agora, porventura, usará sempre de clemência e não castigará jamais?... Muito pelo contrário. 

Quanto maior tenha sido sua clemência, tanto mais deves temer que deixe de perdoar-te, e que te castigue com rigor se voltares a ofendê-lo. 

"Não digas - exclama o Eclesiástico - pequei e não recebi castigo, porque o Altíssimo, ainda que paciente, é justiceiro" (Ecl 5,4). Quando sua misericórdia chega ao limite que determinou para cada pecador, passa a castigá-lo por todas as culpas que o ingrato cometeu. E a pena será tanto mais dura, quanto mais tempo Deus esperou o culpado, disse São Gregório.

Se vires, pois, meu irmão, que, apesar de tuas frequentes ofensas a Deus, ainda não foste castigado, deves dizer: "Senhor, grande é meu reconhecimento, porque ainda não me condenastes ao inferno, que ainda não me condenastes ao inferno, que tantas vezes mereci" (Lm 3,22). Considera que muitos pecadores, por culpas menos graves que as tuas, foram condenados irremediavelmente.

Trata, por isso, de satisfazer por teus pecados mediante o exercício da penitência e de outras boas obras. A benevolência com que Deus te travou deve ensinar-te não só a deixar de ofendê-lo, mas a servi-lo e amá-lo sempre, tendo em vista a imensa misericórdia que te fez de preferência a outros. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus crucificado, meu Redentor e meu Deus, a vossos pés se prosta este traidor infame, envergonhando-se de comparecer ante vossa presença. Quantas vezes vos tenho desprezado! Quantas vezes prometi não tornar a vos ofender! Entretanto, minhas promessas foram outras tantas traições, pois assim que se me ofereceu ocasião de pecar, esqueci-vos e vos abandonei novamente. Dou-vos mil graças, porque ainda não me condenastes ao inferno e me permitis estar a vossos pés, iluminando minha alma e me atraindo a vosso amor. Quero amar-vos, Salvador, e jamais desprezar-vos, pois bastante me tendes esperado. 

Infeliz de mim se, apesar de tantas graças recebidas, tornasse a ofender-vos! Senhor, estou resolvido a mudar de vida e quero amar-vos na proporção em que vos ofendi. O que me consola é o considerar que sois a bondade infinita. Arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado e vos ofereço, para o futuro, todo o meu amor. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa sagrada Paixão. Esqueci os pecados com que vos injuriei e dai-ne forças para vos ser sempre fiel. Amo-vos, meu Sumo Bem; espero amar-vos eternamente, e não quero tornar a abandonar-vos...

Ó Maria, Mãe de Deus, uni-me a meu Salvador Jesus Cristo e alcançai-me a graça de jamais apartar-me de seus benditos pés!... Em vós confio. 


PONTO III

"Ainda sou moço... Deus tem compaixão da mocidade; mais tarde entregar-me-ei a ele". Consideremos este quinto engano. És moço: mas não sabes que Deus conta os pecados de cada homem e não os anos?...

Quantos tens cometido?... Muitos velhos haverá que não tenham feito nem a décima parte dos que cometeste. Ignoras que o Senhor fixou o número e a medida das culpas que a cada pecador há de perdoar? "O Senhor - diz a Escritura - espera com paciência para castigar as nações da plenitude de seus pecados, quando chegar o dia do juízo" (2Mc 6,14). Quer dizer que o Senhor é paciente e espera até certo limite; logo, porém, que se encha a medida dos pecados que a cada homem quer perdoar, cessa o perdão e ele executa o castigo, ferindo-o de morte súbita no estado de condenação em que se acha, ou abanhonando-o a seu pecado, que é pior castigo que a morte (Is 5).

Se possuis um terreno, que cercaste e, apesar de cultivado durante longos anos com gastos consideráveis, vês que não te dá fruto algum: que farás?... Arrancas-lhe o cercado e o deixas abandonado. Pois bem, teme que Deus não proceda do mesmo modo contigo. Se continuas pecando, irás perdendo o remorso da consciência; não pensarás na eternidade nem em tua alma; perderás quase de todo a luz que nos guia; acabarás por perder todo o temor... Com isto podes considerar abatida a cerca que te defendia, para dar lugar ao abandono de Deus. 

Examinemos, enfim, o derradeiro engano. Dizes: "É verdade que com este pecado perderei a graça de Deus e ficarei condenado ao inferno.

Pode assim suceder que me condene; mas também pode acontecer que me confesse logo e me salve..." Concedo que assim possa ser. 

Desejo que te salves. Não sou profeta e, portanto, não me é dado asseverar com certeza que, depois de cometido esse novo pecado, já não haverá para ti perdão de Deus. Contudo, não podes negar que se, depois de tantas graças que o Senhor te concedeu, voltas a ofendê-lo, é muito fácil que para sempre te percas. Assim o patenteia a Sagrada Escritura: "O coração rebelde será oprimido em seus males" (Ecl 3,27). 

Os que cometem maldades serão exterminados (Sl 36,9). Aquele que semeia pecados, colherá por fim castigos e tormentos (Gl 6,8). "Chamei-vos - disse Deus - e vós não quisestes ouvir-me... Também eu me rirei da vossa ruína" (Pr 1,24-26). "A mim pertence a vingança, e eu lhes darei o pagamento a seu tempo". Deste modo fala a Sagrada Escritura dos pecadores obstinados, e assim o exigem a razão e a justiça.

E, não obstante, dizes que, apesar de tudo, talvez te salvarás. Repetirei que isso não é impossível. Entretanto, não constitui tremenda loucura arriscar a eterna salvação por um talvez e por um talvez tão pouco provável? É este negócio de tão pouco valor, que podemos pô-lo em tão grave risco?


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, prostrado a vossos pés, agradeço-vos de toda a minha alma que, apesar de minhas ofensas, não me abandonastes. Quantos há que menos vos ofenderam do que eu e não receberam as inspirações que agora me dais! Vejo que quereis realmente salvar-me e eu uno aos vossos os meus desejos. Quero exaltar eternamente no céu a vossa misericórdia. Espero, Senhor, que já me haveis perdoado; se, entretanto, ainda não recuperei vossa graça porque não soube arrepender-me de minhas culpas, como devia, agora me arrependo de todo o coração, e as detesto mais que todos os males.

Perdoai-me, por piedade, e aumentai em mim a dor de vos ter ofendido, meu Deus, suma e inefável bondade. Enchei-me de dor e amor; mesmo que vos ame sobre todas as coisas, ainda é pouco. Quero amar-vos mais e vos peço e de vós espero alcançar esse grande amor. Ouvi-me, meu Jesus, já que prometestes ouvir a quem vos suplica...

Ó Virgem Maria, Mãe de Deus, o mundo inteiro afirma que nunca deixais de desconsolado a quem a vós se recomenda. Depois de Jesus Cristo, sois minha única esperança. A vós, Senhora, eu recorro e em vós confio. Recomendai-me a vosso divino Filho e salvai-me. 

_______________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555429780769/


domingo, 2 de novembro de 2025

Vida infeliz dos pecadores e vida ditosa do que ama a Deus




 Non est pax impiis, dicit Dominus. 

Não há paz para os ímpios, disse o Senhor (Is 58,24).

Pax multa diligentibus legem tuam. 

Muita paz para os que amam tua lei (Sl 118,65).


PONTO I

Nesta vida, todos os homens se esforçam para conseguir a paz. 

Trabalham o comerciante, o soldado, o advogado, porque pensam que, realizando tal negócio, obtendo tal promoção, ganhando tal demanda, alcançarão os favores da fortuna e poderão gozar da paz. Mas, ó pobres mundanos, que procurais a paz no mundo, que não a pode dar! Deus somente no-la pode dar. Dá a teus servos, - diz a Igreja em suas preces, - aquela paz que o mundo não pode dar. Não, não pode o mundo com todos os seus bens satisfazer o coração humano, porque o homem não foi criado para essa espécie de bens, mas unicamente para Deus; de modo que somente em Deus pode encontrar felicidade e repouso. 

O ser irracional, criado para gozos materiais, procura e encontra a paz nos bens terrestres. Dai a um jumento um feixe de capim, dai a um cão um pedaço de carne, e ficarão satisfeitos, sem desejar mais coisa alguma. Mas a alma, criada para amar a Deus e unir-se a ele, não encontra paz nos deleites sensuais; só Deus a pode fazer plenamente feliz. 

Aquele rico de que fala São Lucas tinha obtido de seus campos abundantíssima colheita, e dizia de si para consigo: "Minha alma, agora possuis bens abundantes, armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe..." (Lc 12,19). Mas este rico infeliz foi chamado louco, e com toda a razão, diz São Basílio. "Desgraçado - exclama o Santo. Acaso, te equiparas a um animal e pretendes contentar tua alma com beber e comer e com os deleites sensuais?" O homem - escreve São Bernardo - poderá fartar-se, mas nunca satisfazer-se com os bens do mundo. O próprio Santo, comentando este texto do Evangelho: "Eis que abandonamos tudo" (Mt 19,27), diz que observou muitos loucos com diversas manias. Todos - acrescenta - sofriam de fome devoradora; mas uns se saciavam com terra, símbolo dos avarentos; outros, aspiravam o ar, figura dos vaidosos; outros, ao redor da boca de um fornalha, recebiam as fugazes centelhas, imagem dos iracundos; aqueles, enfim, símbolo dos desonestos, de um lago fétido bebiam suas águas corrompidas. E, dirigindo-se depois a todos, exclama o Santo: "Ó insensatos, não vedes que todas estas coisas, longe de extinguirem a fome, só a atiçam?" Os bens do mundo são bens aparentes, e, por isso, não podem satisfazer o coração humano (Ag 1,6); assim o avarento, quanto mais entesoura, mais quer entesourar, diz Santo Agostinho. O impudico, quanto mais se engolfa nos prazeres de seu vício, maior desgosto e cada vez mais terríveis desejos sente: e como é que poderia tranquilizar-se se coração com a imundície sensual? O mesmo sucede ao ambicioso, que aspira saciar-se com o fumo sutil de vaidades, poder e riquezas; porque o ambicioso atende mais ao que lhe falta do que ao que possui. 

Alexandre Magno, depois de ter conquistado tantos reinos, lamenta-se por não ter adquirido o domínio das demais nações. Se os bens da terra pudessem contentar o homem, os ricos e os monarcas seriam plenamente felizes; mas a experiência prova o contrário. É o que afirma Salomão, que assegura não ter negado nada a seus desejos (Ecl 2,10), e, contudo, exclama: "Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade" (Ecl 1,2), o que quer dizer; tudo quanto há no mundo é mera vaidade, mentira e loucura...


AFETOS E SÚPLICAS

Que me resta, meu Deus, das ofensas que vos fiz, senão amarguras e penas e méritos para o inferno? Não me acabrunha a dor que sinto, antes me consola e alivia, porque é um dom de vossa graça que se une à esperança de que me quereis perdoar. O que me aflige é o muito que vos hei injuriado, meu Redentor, que tanto me amastes. Merecia então, Senhor, que me abandonásseis; em vez disso, vejo que me ofereceis o perdão e que sois o primeiro a procurar a paz. Sim, meu Jesus, desejo a paz convosco, e mais que todas as coisas, desejo a vossa graça. Arrependo-me, Bondade infinita, de vos ter ofendido e quisera morrer de pura contrição. Pelo amor que tivestes comigo, morrendo por mim na cruz, perdoai-me e acolhei-me em vosso coração; mudai o meu de tal modo que, se muito vos ofendeu no passado, mais passe a vos agradar no futuro. Renuncio, por vosso amor, a todos os prazeres que o mundo possa oferecer-me e tomo a resolução de perder antes a vida do que vossa graça. Dizei-me o que quereis que eu faça para servir-vos, pois que desejo executá-lo. Nada de prazeres, nem de honras e riquezas; só amo a vós, meu Deus, meu gozo, minha glória, meu tesouro, minha vida, meu amor e meu tudo. Socorrei-me, Senhor, para que vos seja fiel; concedei-me o dom do vosso amor e fazei de mim o que vos aprouver. 

Maria, Mãe  e esperança nossa depois de Jesus Cristo, acolhei-me sob vossa proteção, e fazei que eu seja todo de Deus.


PONTO II 

Além disso, disse Salomão que os bens do mundo não apenas são vaidades que não satisfazem a alma, mas que são penas que afligem o espírito (Ecl 1,14). Os pobres pecadores pretendem ser felizes carregados de suas culpas, mas só encontram amarguras e remorsos (Sl 13,3). Nada de paz, nem de tranquilidade. Deus nos disse: "Não há paz para os ímpios" (Is 48,22). Primeiramente, o pecado traz em si o temor profundo da vingança divina; pois, assim como um homem, que tem um poderoso inimigo, não vive tranquilidade, como poderá o inimigo de Deus repousar em paz? "O caminho do Senhor causa espanto para os que praticam o mal" (Pr 10,29). Quando a terra treme ou o trovão ribomba, como estremece aquele que se acha em pecado! Até o suave movimento da folhagem, às vezes, lhe causa pavor: "O zunido do terror amedronta constantemente os seus ouvidos" (Jo 15,21). Foge sem ver quem o persegue (Pr 28,1, porque seu próprio pecado corre atrás dele. Caim matou seu irmão Abel e exclamou logo: "Todo aquele que me encontrar me matará" (Gn 4,14) E não obstante o Senhor lhe ter assegurado aque nada lhe aconteceria (Gn 4,15), diz a Escritura, - Caim andou sempre fugitivo e errante (Gn 4,16). Quem era o perseguidor de Caim, senão o seu pecado? Além disso, a culpa anda sempre acompanhada do remorso, esse verme roedor que jamais repousa. Dirija-se, embora, o pobre pecador a baquetes, saraus e teatros, a voz da consciência o acompanha e lhe diz: Estás no desafeto de Deus; se morreres, para onde é que irás? O remorso é pena tão angustiosa, mesmo nesta vida, que alguns desgraçados, para se livrar de seu peso, suicidam-se. Um desses foi Judas que, como é sabido, desesperado, se enforcou. Conta-se de outro criminoso que, tendo assassinado uma criança, sentiu remorsos tão horríveis, que para acalmá-los se fez religioso; mas nem no claustro encontrou a paz. Foi ter com o juiz e declarou-lhe o seu delito, pelo qual foi condenado à morte. 

Que é a alma privada de Deus?... Um mar tempestuoso, - diz o Espírito Santo (Is 57,20). Se alguém fosse convidado a uma festa, baile ou concerto, e ali lhe tivessem atado mãos e pés com ligaduras: poderia desfrutar daquela diversão? Tal é a situação do homem que vive na abundância dos bens do mundo sem possuir a Deus. Coma, beba, dance, ostente ricos vestidos, receba honras, ocupe altos cargos e adquira dignidades, mas jamais gozará paz. A paz vem unicamente de Deus e Deus a dá àqueles que o amam; não a seus inimigos.

 Os bens deste mundo - diz São Vicente Ferrer - são todos exteriores, não entram no coração. Aquele pecador ostenta, talvez, vestidos bordados e anéis de diamantes, tem mesa esplêndida; mas o seu pobre coração se conservará cheio de espinhos e de fel. Vê-lo-eis, por isso, sempre inquieto, mesmo no meio de tantas riquezas, prazeres e divertimentos. À menor contrariedade se impacienta e se enfurece como um cão hidrófobo. Aquele que ama a Deus, se resigna e se conforma à vontade divina na adversidade e encontrar paz e consolo. Isto, porém, não pode fazer aquele que é inimigo da vontade de Deus. E por isso não encontra meio de tranquilizar-se. 

Este desgraçado serve ao demônio, tirano cruel, que lhe paga com aflições e amarguras. Cumpre-se deste modo a palavra do Senhor, que diz: "Porquanto não serviste com gozo ao Senhor teu Deus, servirás a teu inimigo com fome, com sede, com nudez e com toda espécie de miséria" (Dt 28,47-48). Quanto não sofre o vingativo, depois de se ter vingado! quanto o impudico, apenas tenha conseguido seus intuitos! quanto os ambiciosos e avarentos!... Quantos seriam santos, se sofressem por causa de Deus o que padecem para se condenarem!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó tempo que perdi!... Senhor, quantos merecimentos para a glória teria eu agora acumulado, se houvesse sofrido em servir-vos as aflições e trabalhos que padeci, ofendendo-vos. Ah! meu Deus, por que vos abandonei e perdi vossa graça?... Por prazeres envenenados e fugitivos que, apenas desfrutados, desapareceram e me deixaram o coração cheio de feridas e de angústias... Pecados meus! maldigo-vos e detesto-vos mil vezes; assim como bendigo vossa misericórdia, Senhor, que com tamanha paciência me tem sofrido. Amo-vos, meu Criador e Redentor, que por mim destes a vida. E, por isso, vos amo, arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido... Meu Deus, meu Deus, por que vos perdi? Por que vos substituí? Agora reconheço o mal que pratiquei, e estou resolvido a perder tudo, inclusive a própria vida, do que perder vosso amor. Pai Eterno, iluminai-me pelo amor de Jesus Cristo. 

Fazei-me conhecer o bem infinito, que sois vós, e a vileza dos bens que me oferece o demônio para me fazer perder a vossa graça. Amo-vos e desejo amar-vos cada vez mais. Fazei que vós sejais meu único pensamento, meu único desejo, meu único amor. Espero tudo da vossa bondade pelos merecimentos de vosso Filho...

Maria, nossa Mãe, pelo amor que tendes a Jesus Cristo, peço-vos que me alcanceis luz e força para servir-vos e amar-vos até a morte.


PONTO III

Se todos os bens e prazeres do mundo não podem satisfazer o coração humano, quem o poderá contentar?... Só Deus (Sl 36,4). O coração humano anda sempre à procura de bens que o possam saciar. 

Alcança riquezas, honras e prazeres, mas não se satisfaz, porque tais bens são finitos e ele foi criado para o bem infinito. Quando, porém, encontra Deus e se une a ele, se aquieta, acha consolo e não deseja nada mais. Santo Agostinho, enquanto se ateve à vida sensual, jamais gozou de paz; mas, quando passou a entregar-se a Deus, fez esta confissão ao Senhor: "Meu Deus, vejo agora que tudo é dor e vaidade, e que só vós sois a verdadeira paz da alma". Feito assim mestre por experiência própria, escrevia: Que procuras, homem? procuras bens?...

Procura o único Bem, no qual se encerram todos os demais" (Sl 41,3). 

Depois de ter pecado, o rei Davi entregava-se à caça, distraía-se nos seus jardins e em banquetes, gozava de todos os prazeres de um monarca.

Mas as festas, as florestas e as demais criaturas em que ele se comprazia, não faziam senão dizer-lhe a seu modo: "Davi, queres encontrar em nós paz e satisfação? Não te podemos contentar... Procura teu Deus, pois que unicamente ele te pode satisfazer". Por essa razão, Davi gemia no meio de seus prazeres, e exclamava: "Minhas lágrimas me têm servido de alimento dia e noite, e me dizem dia-a-dia: Onde está teu Deus? Como sabe Deus, ao contrário, contentar as almas fiéis que o amam! São Francisco de Assis, que abandonou tudo por causa de Deus, achava-se descalço, meio morto de frio e de fome, coberto de farrapos, mas, só ao proferir as palavras "Meu Deus e meu tudo", já sentia gozo inefável e celestial. São Francisco de Bórgia que, durante suas viagens de religioso, muitas vezes, teve de pernoitar sobre um monte de palha, experimentava tamanha consolação que o privava de dormir. Da mesmo maneira, São Filipe Néri, despojando e livre de todas as coisas, não conseguia repousar à vista dos consolos que Deus lhe dava, em tal escala, que dizia: "Deixai-me descansar, meu Jesus". O padre jesuíta Carlos de Lorena, da família dos príncipes de Lorena, punha-se, às vezes, a dançar de alegria, quando entrava em sua pobre cela. Nas Índias, São Francisco Xavier, no meio de seus trabalhos apostólicos, descobria o peito, exclamando: Basta, Senhor, de consolações, que meu coração já não as suporta. Santa Teresa dizia que dá mais contentamento uma gota de celestial consolação, que todos os prazeres do mundo. Efetivamente, não podem faltar as promessas do Senhor, que ofereceu dar, ainda nesta vida, aos que renunciam por seu amor aos bens de terra, o cêntuplo de paz e de alegria (Mt 19,29). 

Que andamos, pois, a procurar tanto? Procuremos a Jesus Cristo, que nos chama e diz: "Vinde a mim todos os que estais carregados e fatigados e eu vos aliviarei" (Mt 11,28). A alma que ama a Deus, encontra essa paz que excede todos os prazeres e todas as satisfações que podem vir do mundo e dos sentidos (Fp 4,7). É verdade que nesta vida até os santos têm que sofrer; porque a terra é lugar para merecimentos e não se pode merecer sem sofrer. Diz, contudo, São Boaventura, que o amor divino é semelhante ao mel que torna doces e agradáveis as coisas mais amargas. Quem ama a Deus, ama sua divina vontade, e é por isso que goza espiritualmente nas próprias tribulações, porque sabe que, resignando-se, agrada e compraz ao Senhor... Ó meu Deus! Os pecadores desprezam a vida espiritual sem tê-la experimentado. Veêm somente, diz São Bernardo, as mortificações que sofrem os amigos de Deus e os deleites de que se privam; mas não consideram as inefáveis delícias espirituais com que o Senhor nos cumula e acaricia. Ah! se os pecadores provassem a paz de que desfruta a alma que só ama a Deus! "Experimentai e vede - diz Davi - quão suave é o Senhor" (Sl 33,9). 

Começa, pois, meu irmão, a fazer meditação diária, a comungar com frequência, a visitar devotamente o Santíssimo Sacramento; começa a desprezar o mundo e a entregar-te a Deus, e verás como o Senhor te dá, no pouco tempo que lhe consagras, maiores consolações que todas as que o mundo te deu com os seus prazeres. Provai e vereis. 

Quem não experimentar, não poderá compreender o quanto Deus sabe contentar uma alma que o ama. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, quanto fui cego ao apartar-me de vós, Sumo Bem, Fonte de todo consolo, entregando-me aos pobres e miseráveis prazeres do mundo! Minha cegueira assombra-me; porém mais ainda vossa misericórdia, que com tanta bondade me tem suportado.

Agradeço-vos de todo o coração por me terdes feito conhecer meu triste estado e o dever que me impele a amar-vos cada vez mais. Aumentai em mim o desejo e o amor... Fazei, ó Amabilidade infinita, que, enlevado eu de vós, considere que nada mais tendes a fazer para ser amado por mim e que desejais o meu amor. Se quiserdes, podereis purificar-me (Mt 8,8). Purificai, pois, meu coração, caríssimo Redentor; purificai-o de tantos afetos impuros que me não deixam amar-vos como quisera. 

Não conseguem minhas forças que meu coração se una inteiramente a vós e a vós que somente ame. Deve ser este um efeito de vossa graça, para a qual nada há de impossível. Desligai-me de tudo; arrancai-me de minha alma tudo o que não conduz a vós, e fazei que seja inteiramente vosso. Arrependo-me de todas as ofensas que vos fiz e proponho consagrar o restante da minha vida ao vosso santo amor. Vós, porém, o haveis de realizar. Fazei-o pelo sangue que derramastes por mim com tanto amor e dor. Seja para glória da vossa onipotência que meu coração, outrora cativo de afeições terrenas, arda doravante em amor por vós, ó Bondade infinita!...

Mãe do belo amor! Alcançai que, por meio de vossas súplicas, minha alma se abrase, como a vossa, em caridade para com Deus.

_________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555425689195/








domingo, 26 de outubro de 2025

Loucura do pecador

 



Sapientia enim hujus mundi stultitta est apud Deum. 

A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Cor 3,19).


PONTO I

O  bem-aventurado João d'Ávila dizia que neste mundo deveria haver dois grandes cárceres: um para aqueles que não têm fé, e outro para aqueles que, tendo-a, vivem em pecado e afastados de Deus. A estes, acrescentava, conviria o hospício de loucos. Mas a maior desdita destes miseráveis consiste em que, não obstante sua cegueira e insensatez, julgam ser sábios e prudentes. E pior é que seu número é infinito (Ecl 1,15) Há quem enlouqueça pelas honras; outros, pelos prazeres; não poucos, pelas futilidades da terra. E se atrevem a considerar loucos os santos, que desprezam os bens mesquinhos do mundo para conquistar a salvação eterna e o Sumo Bem, que é Deus. A seus olhos é loucura sofrer desprezos e perdoar ofensas; loucura, o privar-se dos prazeres sensuais e preferir a mortificação; loucura, renunciar às honras e às riquezas, e amar a solidão, a vida humilde e oculta. Não consideram, no entanto, que a essa sua sabedoria mundana Deus chama necessidade: "A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (1Cor 3,19). Ah!... Virá o dia em que confessarão e reconhecerão a sua demência...

Quando, porém? Quando já não houver remédio possível e tenham que exclamar desesperados: "Desgraçados de nós, que reputávamos loucura a vida dos santos! Agora compreendemos que os loucos fomos nós. Eles já se conta no número feliz dos filhos de Deus e compartilham a sorte dos bem-aventurados, que durará eternamente e os fará felizes para sempre... ao passo que nós ficamos escravos do demônio, condenado a arder deste cárcere de tormentos por toda a eternidade!... Enganamo-nos, pois, querendo cerrar os olhos à luz divina (Sb 5,6), e nossa maior desventura é sabermos que o nosso erro não tem  nem terá remédio enquanto Deus for Deus. 

Que imensa loucura é, portanto, perder a graça de Deus em troca de um pouco de fumo, de um breve deleite!... Que não faz um vassalo para obter as boas graças de seu soberano?... E, no entanto, ó meu Deus, por uma miserável satisfação perder o Bem supremo, perder a glória, perder também a paz nesta vida, deixando que o pecado reine na alma e a atormente com seus incessantes remorsos... Perder tudo, e condenar-se voluntariamente à desgraça interminável!... Entregar-te-ias àquele prazer ilícito, se, de antemão, soubesses que te queimarias a mão ou que ficarias encerrado por um ano, num túmulo? Cometerias tal pecado, se, por causa dele, perderias cem escudos? E, contudo, tens fé e crês que, pecando, perderás a Deus e serás condenado ao fogo eterno... Como te atreves a pecar?


AFETOS E SÚPLICAS

Deus de minha alma!... Que seria agora de mim se não tivésseis tido tanta misericórdia para comigo? Estaria no inferno, entre os insensatos a quem fui semelhante. Dou-vos graças, Senhor, e vos peço que não me abandoneis em minha cegueira. Bem o merecia, mas vejo felizmente que vossa graça ainda não me tem abandonado. Ouço que me chamais amorosamente e me convidais a pedir-vos perdão e esperar de vós a concessão de dons altíssimos, apesar das graves ofensas que vos fiz. Sim, meu Salvador, espero que me acolhereis como filho vosso. 

Não sou digno de que me chameis filho, porque vos ultrajei atrevidamente (Lc 5,21). Sei, porém, que vos comprazeis em ir à procura da ovelha tresmalhada e em abraçar os filhos perdidos. Meu Pai amantíssimo, arrependo-me de vos ter ofendido; a vossos pés me prosto e os abraço e não me levantarei enquanto não me concederdes o perdão e a benção! (Gn 32,26). Abençoai-me, meu Pai, e com vossa benção despertai em mim grande dor de meus pecados e amor ardente por vós. Amo-vos meu Pai, de todo o coração. Não permitais que me afaste de vós! Privai-me de tudo, menos do vosso amor. 

Ó Maria, se Deus é meu Pai, sois vós minha Mãe. Abençoai-me também, e, já que não mereço ser filho, recebei-me como vosso servo.

Fazei, porém, que seja um servo que vos ame sempre com ternura e confie sempre em vossa proteção.


PONTO II

Pobres pecadores! Afadigam-se com empenho para adquirir a ciência humana e procurar os bens da vida presente, que tão cedo se acaba, e desprezam os bens dessa outra vida, que jamais terá fim! De tal modo perdem o juízo, que não somente se tornam insensatos, mas se reduzem à condição dos brutos; porque, vivendo como irracionais, sem considerar o que é o bem e o mal, seguem unicamente o instinto das afeições sensuais, entregam-se ao que lisonjeia a carne, sem pensar no que perdem, nem na ruína eterna que os ameaça. Isto não é portar-se como homem, senão como besta. "Chamamos homem, - diz São João Crisóstomo, - aquele que conserva a imagem essencial do ser humano". Ser homem é, por conseguinte, ser racional, isto é, governar-se segundo os ditames da razão e não segundo o apetite sensual.  

Se Deus desse a uma besta o uso da razão, e ela conforme a razão procedesse, diríamos que procedia como homem. E, ao contrário, quando o homem se deixar pelos sentidos contra a razão, deve dizer-se que procede como besta. 

"Oxalá que eles tivessem sabedoria e compreendessem e previssem o fim" (Dt 32,29). O homem que se guia razoavelmente em suas obras, prevê o futuro, isto é, considera o que lhe há de acontecer no fim da vida: a morte, o juízo, e depois dele o inferno ou a glória. Quanto mais sábio é um simples aldeão que se salva, do que um monarca que se condena. "Vale mais um moço pobre, mas sábio, do que um rei velho e néscio, que não sabe prever nada para o futuro" (Ecl 4, 13). Ó Deus! Não teríamos por louco aquele que, para ganhar um real, se arriscasse a perder todos os bens? E não deve passar por louco aquele que, a troco de um breve prazer, perde a sua alma e se expõe ao perigo de perdê-la para sempre? Esta é a causa de condenação de muitíssimas almas: ocupam-se em demasia dos bens e dos males presentes, e não pensam nos eternos. 

Deus não nos colocou neste mundo para alcançarmos riquezas, nem adquirimos honras ou contentarmos os sentidos, senão para procurarmos a vida eterna (Rm 6,22). E a consecução desta finalidade deve ser o nosso único interesse. Uma só coisa é necessária (Lc 10,42).

Ora, os pecadores desprezam este fim. Só pensam no presente. Caminham até ao término da vida e se acercam da eternidade, sem saberem para onde se dirigem. "Que diríeis de um piloto - diz Santo Agostinho - que mostrasse ignorar completamente o rumo que deve dar a seu navio? Todos diriam que leva a nau à sua perdição". "Tais são - continua o Santo - esses sábios do mundo, que sabem ganhar dinheiro, entregar-se aos prazeres, obter altos cargos, mas não acertam salvar suas almas". Sábio do mundo foi Alexandre Magno, que conquistou numerosos reinos; mas, decorrido pouco tempo, morreu, e se condenou para sempre. Sábio foi o rico avarento que soube enriquecer; e, todavia, morreu e foi sepultado no inferno (Lc 15,22). Sábio dessa espécie foi Henrique VIII, que soube manter-se no trono, apesar de sua revolta contra a Igreja. Mas, no fim de seus dias, reconhecendo que tinha perdida sua alma, exclamou: Tudo para mim está perdido! Quantos desgraçados gemem agora no inferno! Vede, dizem eles, como todos os bens do mundo passaram qual sombra e já não nos causam senão constante pesar e eterno pranto (Sb 5,8)! "Ante o homem, a vida e a morte: aquilo que ele escolher, ser-lhe-á dado" (Ecl 15,18). Cristão! diante de ti se apresentam a vida e a morte, isto é, a voluntária privação das coisas ilícitas para ganhar a vida eterna, ou o entregar-te a eles e à morte eterna... Que dizes? Que escolhes?...

Procede como homem e não como bruto. Escolhe como cristão que tem fé, e dize: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo todo e perder sua alma?" (Mt 16,26). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! Deste-me a razão, a luz da fé e, contudo, portei-me como um irracional, preterindo vossa divina graça aos vís prazeres mundanos, que se dissiparam como o fumo, deixando apenas remorsos de consciência e dívidas para com vossa justiça. Ah, Senhor, não me jugueis pelo que mereço (Sl 142,2), mas tratai-me segundo vossa misericórdia! Iluminai-me, meu Senhor; dai-me dor sobre meus pecados, e perdoai-me. Sou a ovelha tresmelhada; se me preocurardes, perdido continuarei (Sl 118,176). Tende piedade de mim, pelo sangue precioso que por mim derramastes. Arrependo-me, meu Sumo Bem, de vos ter abandonado e de ter renunciado voluntariamente à vossa graça. 

Quisera morrer de dor; aumentai em mim essa contrição profunda e fazei que chegue ao céu para exaltar ali vossa infinita misericórdia... 

Nossa Mãe Maria, meu refúgio e minha esperança, rogai por mim a Jesus; intercedei para que me perdoe e me conceda a santa perseverança. 


PONTO III

Compenetremo-nos bem de que o verdadeiro sábio é aquele que sabe adquirir a graça divina e a glória. Roguemos ao Senhor para que nos conceda a ciência dos Santos, ciência que ele dá a quem lha pede (Sb 10,10). Que bela ciência, a de saber amar a Deus e salvar a nossa alma! Isto é, a de acertar na escolha do caminho da eterna salvação e dos meios para consegui-la. O livro da salvação é, sem dúvida, o mais necessário de todos. Se o soubermos todo, sem saber salvar-nos, de nada nos aproveita o nosso saber. Seríamos para sempre infelizes. 

Mas, ao contrário, seremos eternamente venturosos, se soubermos amar a Deus, ainda que ignoremos todas as demais coisas, como dizia Santo Agostinho. Certo dia, Frei Gil disse o São Boaventura: "Sois feliz, Padre Boaventura, pelo vosso profundo saber. Eu, pobre ignorante, nada sei. Sem dúvida, podereis tornar-vos mais santo do que eu. - Persuadi-vos, - respondeu o Santo, - de que uma pobre velha ignorante, que sabe amar a Deus melhor que eu, será mais santa que eu. - Ouvindo isto, o santo frei Gil exclamou: "Ó pobre velhinha, se amares a Deus, podes tornar-te mais santa que o Padre Boaventura".

Quantos ignorantes há - dizia Santo Agostinho - que nunca aprenderam a ler, mas que sabem amar a Deus, e se salvam, e quantos doutos do mundo que se condenam!... Quão sábios foram um São Pascoal, um São Félix, capuchinho, um São João de Deus, apesar de ignorarem as ciências humanas! Quão sábios todos aqueles que, renunciando ao mundo, se encerram nos claustros ou viveram em desertos, como um São Bento, um São Francisco de Assis, um São Luís de Tolosa, que renunciou a coroa! Quão sábios, tantos mártires e tantas virgens, que renunciaram a honras, prazeres e riquezas para morrer por Cristo!... Ainda os próprios mundanos reconhecem esta verdade, e proclamam feliz aquele que se entrega a Deus e sabe o que tem de fazer para salvar a sua alma. Em suma: aqueles que renunciam aos bens da terra para se consagrar a Deus são chamados homens desenganados. 

Como deveremos chamar os que preferem a Deus os bens do mundo?... Homens enganados.

Meu irmão! a qual dessas duas falanges queres pertencer? Para fazer boa escolha nos aconselha São João Crisóstomo que visitemos os cemitérios. Os sepulcros são escola excelente para reconhecer a vaidade dos bens deste mundo e para aprender a ciência dos Santos. 

Dizei-me - adverte o Santo - saberíeis distinguir ali o príncipe do nobre ou do letrado? "Eu, por mim, nada vejo, senão podridão e vermes". 

Todas as coisas do mundo passarão em breve, dissipar-se-ão como fábulas, sonhos e sombras. 

Entretanto, cristão, se quiseres adquirir a verdadeira sabedoria, não basta que reconheças a importância de tua finalidade, mas é mister seguir os meios estabelecidos para alcançá-la. Não há ninguém que se não quisera salvar e sacrificar, mas como não empregam os meios convenientes, condenam-se. É preciso evitar as ocasiões de pecar, frequentar os sacramentos, fazer oração, e, sobretudo, gravar no coração as máximas do Evangelho, como, por exemplo, as seguintes: "Que aproveita ao homem se ganhar o mundo todo? (Mt 16,26). Quem ama desordenadamente a sua alma, perdê-la-á" (Jo 12,25). Ou seja, convém perder a vida, se necessário for, para salvar a alma. "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo" (Mt 16,20). Para seguir a Jesus Cristo é preciso recusar ao amor próprio a satisfação que exige. 

Nossa salvação consiste no cumprimento da vontade divina (Sl 29,61). 


AFETOS E SÚPLICAS

Pai de misericórdia! Lançai um olhar sobre minha grande miséria e compadecei-vos de mim. Iluminai-me, Senhor; fazei que reconheça minha loucura passada para que a deplore e aprecie e ame vossa bondade infinita. Ó meu Jesus, que destes vosso sangue para me remir; não permitais que volte a ser, como fui, escravo do mundo! (Sl 19). Arrependo-me, Sumo Bem, de ter-vos abandonado. Amaldiçoo todos os momentos em que minha vontade consentiu no pecado, e abraço-me com vossa santíssima vontade, que só deseja a minha felicidade. Concedei-me, Eterno Pai, pelos merecimentos de Jesus Cristo, força para executar tudo quanto vos agrade, e fazei que prefira morrer a opor-me à vossa vontade. Ajudai-me com a vossa graça a depositar em vós todo o meu amor, e a desligar-me de todo afeto que não conduza a vós. Amo-vos, ó Deus de minha alma, amo-vos sobre todas as coisas e de vós espero toda a felicidade; o perdão, a perseverança em vosso amor e a glória para vos amar eternamente... 

Ó Maria, alcançai-me estas graças! O vosso divino Filho nada vos recusa. Confio em vós, minha esperança!

_______________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/10273905395171231/

sábado, 4 de outubro de 2025

Da misericórdia de Deus




 Superexaltat autem misericordia judicium.

A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2,13).


PONTO I 

A bondade é comunicativa por natureza, isto é, tende a transmitir aos outros os seus bens. Deus, que por sua natureza é a bondade infinita, sente vivo desejo de comunicar-nos sua felicidade e, por isso, propende mais à misericórdia do que ao castigo. Castigar - diz Isaías - é obra alheia às inclinações da vontade divina. "Levantar-se-á para fazer a sua obra (ou vingança), obra que lhe é alheia, obra que lhe é estranha. (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, é para fazer misericórdia na outra (Sl 59,3). Mostra-se irritado a fim de que nos emendemos e detestemos o pecado (Sl 5). Se nos manda algum castigo, é porque nos ama e nos quer livrar das penas eternas (Sl 6). Quem poderá admirar e louvar suficientemente a misericórdia com que Deus trata os pecadores, esperando-os, chamando-os, acolhendo-os quando voltam para Ele?...  E antes de tudo, que graça valiosíssima nos concede Deus em esperar pela nossa penitência!... Quando o ofendestes, meu irmão, o Senhor te podia ter feito morrer, mas, ao contrário, te esperou; e, em vez de castigar-te, te cumulou de bens e te conservou a vida em sua paterna providência. Fingia não ver teus pecados, a fim de que te convertesses (Sb 2,24).

E como é isto, Senhor!Vós que não podeis ver um só pecador, vedes tantos e vos calais? (Hb 1,15). Vedes aquele impudico, aquele vingativo, esse blasfemo, cujos pecados crescem dia-a-dia e não os castigais? Por que tanta paciência?... Deus espera o pecador, a fim de que se arrependa e desse modo lhe perdoa e o salve (Is 30,18). 

Disse Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a água, a terra, o ar, por natural instinto se prestam a castigar o pecador pelas ofensas feitas ao Criador: mas Deus, pela sua misericórdia, os impede... Vós, Senhor, aguardais o ímpio para que se serve de vossa clemência para vos ofender? (Is 26,15) Por que tamanha paciência?... Porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e se salve (Ez 22,11).

Ó paciência divina! Disse Santo Agostinho que, se Deus não fosse Deus, pareceria injusto pela sua paciência para com o pecador, pois esperar, assim, pelo homem que se vale daquela paciência para continuar a pecar, parece em certo modo uma injustiça contra a honra divina. 

"Nós pecamos - continua dizendo o mesmo Santo, - entregamo-nos ao pecado (alguns há que vivem em paz com o pecado, dormem no pecado meses e anos inteiros), regozijamo-nos no pecado (pois não poucos até se gloriam de seus delitos), e vós usais de misericórdia".

Parece que teimosamente combatemos contra Deus; nós, provocando a sua vingança, Ele, convidando-nos ao perdão.


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e Senhor! Reconheço que sou digno de estar no inferno (Jo 17,13). Graças, porém, à vossa misericórdia não me acho nele, mas sim prostado a vossos pés e conhecedor do vosso preceito em que me ordenais que vos ame. "Ama o Senhor teu Deus" (Mt 22,37). Dizeis-me que quereis perdoar-me se me arrepender das injúrias que vos fiz...

Sim, meu Deus; já que desejais que vos ame, mesmo que seja um miserável rebelde contra vossa soberana majestade, amo-vos de todo o coração, e me dói ter-vos ofendido; isto me aflige mais que qualquer outra desgraça que me pudesse suceder. Iluminai-me, pois, ó Bondade infinita, e fazei-me conhecer a horrenda malícia de minhas culpas. Não; não resistirei mais à vossa voz, nem tornarei a injuriar a um Deus que tanto me ama, e que tantas vezes e com tanto amor me perdoou... Ah, se nunca vos tivesse ofendido, Jesus de minha alma! Perdoai-me e fazei que de hoje em diante a nada mais ame mais do que a vós; que somente viva para vós, que morrestes por mim; e que somente  por vosso amor sofra, já que por mim tanto padecestes. Eternamente me tendes amado; concedei-me que durante toda a eternidade arda eu no vosso amor. 

Tudo espero, ó meu Salvador, de vossos infinitos merecimentos. 

Em vós confio, Virgem Santíssima, pois com vossa intercessão me haveis de salvar. 


PONTO II

Consideremos, além disso, a misericórdia de Deus, quando chama o pecador à penitência... Adão, depois de ter-se rebelado contra Deus, escondeu-se. Mas o Senhor, que tinha perdido Adão, vai à procura dele e, quase a soluçar, o chama: "Onde estás, Adão?... (Gn 3,9) "Palavras de um pai - diz o Padre Pereira - que procura um filho que perdeu". O mesmo tem feito Deus contigo muitas vezes, meu irmão. 

Fugias de Deus, e Deus te chamava, ora com inspirações, ora com remorsos de consciência, já por meio de prédicas, já com atribulações ou com a morte de teus amigos. Parece que, falando de ti, Jesus Cristo exclamava: "Meu filho, quase perdi a voz a chamar-te" (Se 63,4).

Considerai, pecadores - diz Santa Teresa, - que vos chama aquele Senhor que um dia vos há de julgar.

Quantas vezes, cristão, te mostrastes surdo à voz de Deus? Há muito merecias que não te chamasse mais. Deus, entretanto, não cessa de chamar-te, porque deseja que estejas em paz com ele e assim te possa salvar... Quem é aquele que te chama assim? Um Deus de infinita majestade. E quem eras tu senão um verme miserável e vil?... E para que te chama? Não pode ser senão para te restituir a vida da graça que tinhas perdido. "Convertei-vos e vivei". (Ez 18,32). Para recuperar a graça divina, seria pouco passar a vida inteira no deserto. Deus, porém, se ofereceu dar-te de novo sua graça em um momento, e tu a recusaste. E, contudo, Deus não te abandona, mas acerca-se de ti e, solícito, te procura, e, lamentando-se, te diz: "Meu filho, por que queres te condenar?" (Ez 18,31).

Quando o homem comete um pecado mortal, expele o Deus de sua alma (Jo 19,14). Que faz Deus, porém?... Conserva-se à porta dessa alma ingrata e clama (Ap 3,20); pede à alma que o deixe entrar (Ct 5,5), e roga até cansar-se (Jr 15,6). Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus corre, como amante desesperado, atrás do pecador, exortando-o a que não se perca. É exatamente o que São Paulo exprimia quando escrevia a seus discípulos: "Rogamo-vos por Cristo, que vos reconcilieis com Deus" (2Cor 5,20). Belíssima é a reflexão que sobre este texto faz São João Crisóstomo. Diz: "O próprio Cristo vos roga. E que vos roga? Que vos reconcilieis com Deus. De sorte que ele não é inimigo vosso, senão vós dele". O Santo faz ver que não é o pecador que se deve esforçar para conseguir que Deus se mova à reconciliação com ele, mas que só lhe é preciso resolver-se a aceitar a amizade divina, porque é ele e não Deus que se nega a fazer a paz. 

Ah! como este bondosíssimo Senhor corre sem cessar atrás de tantos pecadores e lhes vai dizendo: "Ingratos! não fujais de mim... Por que fugis? Dizei-mo. Quero fazer-vos bem, e somente procuro tornar-vos felizes... Por que vos quereis perder?" - Mas, Senhor, que é que fazeis? Para que empregar tanta paciência e tanto amor para com estes rebeldes? Que compensação esperais deles? Que honra procurais em vos mostrardes tão apaixonado por estes miseráveis vermes da terra que fogem  de vós? "Que ser é o homem para que o engrandeças?... ou por que pões sobre o teu coração?" (Jo 7,17).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés um ingrato que vos pede misericórdia; Meu Pai, perdoai-me. Ouso chamar-vos Pai, porque assim quereis que vos chame. Não mereço compaixão, porque, quanto mais bondoso fostes para comigo, tanto mais ingrato mostrei-me para convosco. Por esta mesma bondade que vos moveu, meu Deus, a não me desamparar quando fugia de vós, recebei-me agora quando volto para vós. Inspirai-me, meu Jesus, grande dor das ofensas que vos fiz, e dai-me vosso beijo de paz. Arrependo-me, sobretudo, das ofensas que vos fiz, e as detesto e abomino, unindo este aborrecimento ao que sentistes vós, ó Redentor meu, no horto de Getsêmani. Perdoai-me, pelos merecimentos do preciosos sangue que por mim derramastes naquele horto. Prometo resolutamente nunca mais afastar-me de vós e banir de meu coração todo afeto que não seja para vós. Jesus, meu amor, amo-vos sobre todas as coisas, quero amar-vos sempre e somente amar a vós. Mas dai-me, Senhor, força, para consegui-lo. Fazei-me inteiramente vosso. 

Ó Maria, minha esperança, Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim e rogai por mim a Deus.


PONTO III

Os príncipes da terra, às vezes, julgam ser baixeza fitar os vassalos que lhes vêm pedir perdão. Não é assim, porém, que Deus procede conosco. "Não voltará de vós o rosto, se contritos a ele vos chegardes" (2 Par 30,9). Não, Deus não oculta sua face aos que se convertem. Ao contrário, ele mesmo os convida e promete recebê-los logo que se apresentem... (Jr 3,1; Zc 1,3) Oh, com quanto amor e ternura Deus abraça o pecador que volta para ele! Jesus Cristo claramente no-lo ensina por meio da parábola do Bom Pastor, que, falando da ovelha perdida, a põe amorosamente aos ombros (Lc 15,5) e convida seus amigos para que com ele se regozigem (Lc 15,6). E São Lucas acrescenta: "Haverá gozo no céu por um pecador que faz penitência" (Lc 15,7). O mesmo manifestou o Redentor na parábola do Filho pródigo, quando declarou que ele próprio é aquele pai que, ao ver voltar o filho perdido, corre-lhe ao encontro, e, antes que lhe fale, o abraça e cobre de beijos, e nem mesmo com essas ternas carícias pode expressar o consolo que sente (Ez 18,21-22). 

O Senhor chega até a assegurar que, quando o pecador se arrepende, ele risca da memória as ofensas, como se nunca houvessem existido. Veja-se o que diz: "Vinde e argüi-me; se vossos pecados forem cor de escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18; Ez 18,21-22), ou ainda: "Vinde, pecadores, se não vos perdoar, repreendei-me e acusai-me de infidelidade..." Mas, não, Deus não sabe desprezar um coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19). 

Gloria-se o Senhor de usar de misericórdia, perdoando aos pecadores (Is 30,18). E quando perdoa?... Num instante (Is 30,19). Pecador, diz o Profeta, não terás que chorar muito. Enquanto derramas a primeira lágrima, o Senhor terá piedade de ti (Is 30,19). Não procede Deus conosco como nós para com ele. Deus nos chama e nós não queremos atendê-lo. Deus, não. Logo que nos arrependemos, nos responde prontamente e logo nos perdoa. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus!... Contra quem me atrevi a resistir?... Contra vós, Senhor, que sois a própria bondade, que me criastes e morrestes por mim, que me tendes conservado, apesar de minhas reiteradas infidelidades...

A consideração da paciência com quem me tendes tratado deveria bastar para que meu coração vivesse ardendo perpetuamente em vosso amor.

Quem poderia ter aturado as ofensas que vos fiz, como vós a sofrestes? Desgraçado seria eu se tornasse a vos ofender e me condenasse! A misericórdia com que me distinguistes seria para mim, ó Deus, um inferno mais intolerável que o próprio inferno. Não, meu Redentor, não permitais que torne a separar-me de vós. Pefiro morrer... Reconheço que vossa misericórdia já não pode suportar minha maldade. Arrependo-me, porém, ó sumo Bem, de vos ter ofendido; amo-vos de todo o coração e proponho consagrar-vos por completo o resto da vida... Ouvi-me, Pai eterno, e pelos merecimentos de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e vosso santo amor. Ouvi-me, meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim: Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. 

Ó Maria, minha Mãe, volvei a mim vossos olhos misericordiosos: Illos tuos misericordes oculos ad me converte; e uni-me inteiramente a Deus. 


___________________________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/85990674130767563/











terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da malícia do pecado mortal

 



Filios enutri et exaltavi; ipsi autem spreverunt me.

Filhos criei e engrandeci-os; mas eles me desprezavam (Is 1,2).


PONTO I

Que faz aquele que comete pecado mortal?... Injuria a Deus, desonra-o e, no que depende dele, cobre-o de amargura. 

Primeiramente, o pecado mortal é uma ofensa grave que se faz a Deus. A malícia de um ofensa, diz São Tomás, se mede pela pessoa que a recebe e pela pessoa que a comete. A ofensa feita a um simples particular é sem dúvida um mal; mas constitui delito maior se é feita a uma pessoa de alta dignidade, e muito mais grave quando visa o rei... E Quem é, Deus? É o Rei dos reis (Ap 17,14). Deus é a Majestade infinita, perante quem todos os príncipes da terra e todos os santos e anjos do céu são menos que um grão de areia (Is 40,15). Diante da grandeza de Deus, todas as criaturas são como se não existissem (Is 40,17). Eis o que é Deus... E o homem, o que é? Responde São Bernardo: saco de vermes, pasto de vermes, que cedo o hão de devorar. O homem é um miserável que nada pode, um cego que nada vê; pobre e nu, que nada possui (Ap 3,17). E este verme miserável se atreve a injuriar a Deus? exclama o mesmo São Bernardo. Com razão, pois, afirma o Doutor Angélico, que o pecado do homem contém uma malícia quase infinita. 

Por isso, Santo Agostinho chama, absolutamente, o pecado mal infinito.

Daí se segue que todos os homens e todos os anjos não poderiam satisfazer por um só pecado, mesmo que se oferecessem à morte e ao aniquilamento. Deus castiga o pecado mortal com as penas terríveis do inferno; contudo, esse castigo é, segundo dizem todos os teólogos, citra condignum, isto é, menor que a pena com que tal pecado deveria ser castigado.

E, na verdade, que pena bastará para castigar como merece um verme que se rebela contra seu Senhor? Somente Deus é Senhor de tudo, porque é o Criador de todas as coisas (Et 13,9). Por isso, todas as criaturas lhe devem obediência. "Obedecem-lhe os ventos e os mares" (Mt 9,27). "O fogo, o granizo, a neve e o gelo"... executam suas ordens (Sl 148,8). Mas o homem, quando peca, que faz senão dizer a Deus: Senhor, não quero servir-te (Sm 2,20).

O Senhor lhe diz: "Não te vingues", e o homem responde: quero vingar-me. "Não te aposses dos bens alheios", e deseja apoderar-se deles. "Abstém-te do prazer impuro", e não se resolve a privar-se dele. 

O pecador fala a Deus do mesmo modo que o ímpio Faraó, quando Moisés lhe comunicou a ordem divina de que desse liberdade ao povo de Israel. Aquele temerário respondeu: "Quem é o Senhor, para que eu obedeça à sua voz?... Não conheço o Senhor" (Êx 5,2). O pecador diz a mesma coisa: Senhor, não te conheço; quero fazer o que me agrada. 

Em suma: na presença de Deus mesmo lhe falta o respeito e se afasta dele e nisto consiste propriamente o pecado mortal: o ato com que o homem se alheia de Deus. Disto se lamentava o Senhor, dizendo: Ingrato foste, "tu me abandonastes"; eu jamais quisera apartar-me de ti; "tu me voltastes as costas" (Sm 15,6). 

Deus declarou que aborrece o pecado, de modo que não pode deixar de aborrecer a quem o comete (Sb 14,9). Quando o homem peca, ousa declarar-se inimigo de Deus e combate frente a frente contra Ele (Jo 12,25). Que dirias se visses uma formiga a lutar como um soldado?...

Deus é esse onipotente Senhor, que, com um ato de sua vontade, arrancou do nada o céu e a terra (2Mc 7,28). E, se quisesse, por um sinal seu, poderia aniquilá-los (2Mc 8,18). O pecador, quando consente no pecado, levanta a mão contra Deus, e "com colo erguido", isto é, com orgulho, corre a insultar a Deus; arma-se de grossa cerviz (Jo 15,25) (símbolo de ignorância), e exclama: "Que grande mal é o pecado que fiz?... Deus é bom e perdoa aos pecadores..." Que injúria! que temeridade! que cegueira tão grande!


AFETOS E SÚPLICAS

Eis-me aqui, meu Deus! A vossos pés está o rebelde temerário, que tantas vezes em vossa presença se atreveu a vos injuriar e a vos voltar as costas, mas agora implora a vossa piedade. Vós, Senhor, dissestes: Clama a mim e te ouvirei (Jr 33,3). Reconheço que o inferno é pouco castigo para mim; mas sabeis que tenho maior dor de vos ter ofendido, ó Bondade infinita, que se tivesse perdido tudo o que me pertence, sem excetuar a vida. Perdoai-me, Senhor, e não permitais que vos torne a ofender. Haveis esperado por mim, a fim de que vos amasse e bendissesse para sempre vossa misericórdia. Oh!sim, eu vos amo e bendigo, e espero que, pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, nunca mais me separarei do vosso amor. Ele me livrará do pecado no futuro. Dou-vos mil graças pelas luzes e pelo desejo que me dais de amar-vos sempre. Tomai posse de todo o meu ser, alma, corpo, faculdades, sentidos, vontade e liberdade. Sou vosso, salvai-me (Sl 118,94).

Sois o único Bem, o único Amável, sede meu amor. Dai-me fervor vivíssimo no nosso amor, pois, já que tanto vos ofendi, não me pode bastar o amor simples, mas um desejo de amar-vos muito a fim de compensar as ofensas que vos fiz. De vós, que sois onipotente, espero alcançá-lo... Também, ó Maria, o espero das vossas orações, que são onipotentes junto de Deus. 


PONTO II

O pecador não só ofende a Deus, mas também o desonra (Rm 2,23). Com efeito, renunciando à graça divina por um miserável prazer, menospreza e rejeita a amizade de Deus. Se o homem perdesse esta soberana amizade para ganhar um reino ou ainda o mundo inteiro, não há dúvida que faria um mal imenso, pois a amizade de Deus vale mais que o mundo e que mil mundos. E por que será que se ofende a Deus? (Sl 10,13). Por um punhado de terra, por um ímpeto de ira, por um prazer brutal, por uma quimera, por um capricho (Ez 13,19). Quando o pecador começa a deliberar consigo mesmo se deve ou não dar consentimento ao pecado, toma, por assim dizer, em suas mãos, a balança e se põe a considerar o que pesa mais, se a graça de Deus ou a ira, a quimera, o prazer... E quando, por fim, dá o consentimento, declara que para ele vale mais aquela quimera ou aquele prazer que a amizade divina. Vede, pois, como Deus é menosprezado pelo pecador. Davi, ao considerar a grandeza e majestade de Deus, exclamava: "Senhor, quem há que vos seja semelhante? (Sl 34,10). Mas Deus, ao contrário, vendo-se comparado pelos pecadores a uma satisfação vilíssima e proposto a ela, lhes diz: "A quem me comparastes e igualastes"? (Is 40,25).

De modo que, exclama o Senhor: vale aquele prazer mais que minha graça? (Eclo 23,25). Não terias pecado, se soubesses que ao cometê-lo perderias uma das mãos, ou dez escudos, ou menos talvez. Assim, diz Salviano, só Deus parece tão vil a teus olhos que merece ser propsoto a um ímpeto de cólera, a um gozo indigno. 

Além disso, quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus converte em sua divindade essa paixão, porque nela põe o seu últio fim. Assim diz São Jerônimo: "Aquilo que alguém deseja, se o venera, é para ele um Deus. Vício no coração é ídolo no altar." Do mesmo modo diz São Tomás: "Se amas os prazeres, estes são teu Deus". E São Cipriano: "Tudo quanto o homem antepõe a Deus, converte-o em seu Deus". Quando Jeroboão se revoltou contra o Senhor, procurou levar consigo o povo à idolatria, e, apresentando os ídolos, disse-lhes: "Aqui estão, Israel, os teus deuses" (3Rs 12). De modo semelhante procede o demônio; apresenta ao pecador os prazeres e lhe diz: "Que tens que ver com Deus ... Eis aqui o teu deus: é esta paixão, este prazer. Toma-os e abandona a Deus" É isto o que faz o pecador, dando o seu consentimento: adora no seu coração o prazer em lugar de Deus.

"Vício no coração é ídolo no altar".

Se ao menos os pecadores não desonrassem a Deus em sua presença!...

Mas injuriam-no e o desonram face a face, porque Deus está presente em todos os lugares (Sm 23,24). O pecador o sabe. E, apesar de tudo, atreve-se a provocar o Senhor na mesma presença divina (Is 65,3).


AFETOS E SÚPLICAS

Vós, Senhor, sois o bem infinito, e muitas vezes vos hei preterido por vil prazer que, apenas gozado, logo desaparece. Mas vós, apesar de vos ter desprezado, ofereceis-me agora o perdão, se o quiser aceitar, e prometeis receber-me na vossa graça, se me arrepender de vos ter ofendido. Sim, meu Senhor, dói-me de todo o coração tanta ofensa e detesto meus pecados mais que todos os males. Retorno a vós e espero que me recebereis e me abraçareis como a um filho. Agradeço-vos, ó infinita Bondade! Ajudai-e, Senhor, e não permitais que novamente vos afaste de mim. Não deixará o inferno de tentar-me; mas vós sois mais poderoso que ele. Bem sei que não me apartarei jamais de vós se a vós sempre me recomendar. Esta é a graça que vos suplico: que sempre me recomende a vós e vos implore como o faço agora, dizendo: Senhor, ajudai-me; dai-me luz, força, perseverança... Dai-me o paraíso e, sobretudo, concedei-me vosso amor, que é a verdadeira glória da alma. Amo-vos, Bondade infinita, e quero sempre amar-vos. Ouvi-me, pelo amor de Cristo Jesus...

Ó Maria, refúgio dos pecadores, socorrei a um pecador que quer amar a Deus!

PONTO III

O pecador injuria, desonra a Deus, e, no que toca sua parte, o cobre de amargura, pois não há amargura mais sensível do que ver-se pago com ingratidão pela pessoa amada em extremo favorecida. E a que se atreve o pecador?... Ofende ao Deus que o criou e tanto o amou, que deu por seu amor o sangue e a vida. E o homem o expulsa de seu coração ao cometer um pecado mortal. Deus habita na alma que o ama. 

"Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo 14,23). Notai a expressão faremos morada; Deus vem a essa alma e nela fixa sua mansão; de sorte que não a deixa, a não ser que a alma o expulse. "Não abandona se não é abandonado", como diz o Concílio de Trento. E já que sabeis, Senhor, que aquele ingrato há de expulsar-vos, por que não o deixais desde já? Abandonai-o, parti antes que vos faça tão grande ofensa... Não, diz o Senhor; não quero deixá-lo, senão esperar que ele formalmente me despeça. 

Assim, quando a alma consente no pecado, diz a seu Deus: Senhor, apartai-vos de mim (Jo 31,14). Não o diz por palavras, mas de fato, como adverte São Gregório. Bem sabe o pecador que Deus não pode harmonizar com o pecado. Bem vê que, pecando, obriga Deus a afastar-se dele. Rigorosamente, é como se lhe dissesse: Já que não, podeis ficar com pecado e tendes de afastar-vos de mim, - ide quando vos aprouver. E expulsando a Deus da alma, deixa entrar o inimigo que dela toma posse. Pela mesma porta por onde sai Deus, entra o demônio. "Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e moram ali" (Mt 12,45). Ao batizar-se um menino, o sacerdote exorciza o inimigo, dizendo-lhe: "Sai daqui, espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo"; porque a alma do batizado, ao receber a graça, converte-se em templo de Deus (1Cor 3,16). Quando, porém, o homem consente no pecado, efetua precisamente o contrário, dizendo a Deus, que reside na sua alma: "Sai daqui, Senhor, e cede lugar ao demônio". É disto de que se queixa o Senhor a Santa Brigída quando lhe diz que, ao despedi-lo, o pecador procedia como aqueles que expulsassem o seu rei do próprio trono: "Sou como um rei bandido de seu próprio reino, elegendo-se em meu lugar um péssimo ladrão..." Que mágoa não sentiríeis se recebêsseis grande ofensa duma pessoa, a quem tivésseis feito grande benefício? Esta mesma mágoa causais a Deus, que chegou a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor à terra e ao céu para que se compadeçam dele à vista da ingratidão com que o tratam os pecadores: "Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta... Filhos criei e engrandeci... mas eles me desprezaram" (Is 1,2). Em suma, os pecadores afligem com seus pecados o coração do Senhor... (Is 63,10) Deus não está sujeito à dor, mas - como disse o Padre Medina - se fosse suscetível de sofrer, um só pecado mortal bastaria para o fazer morrer, pelo infinito pesar que lhe causaria. Assim, pois, afirma São Bernardo, "o pecado, quanto em si é, dá morte a Deus". De modo que o pecador, ao cometer um pecado mortal, fere, por assim dizer, a seu Senhor, e nada omite para tirar-lhe a vida, se pudesse (Sl 30,4). Segundo a expressão de São Paulo, calca aos pés o Filho de Deus (Hb 10,29), e despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo. 

  

AFETOS E SÚPLICAS

Assim, meu Redentor, todas as vezes em que pequei vos expulsei de minha alma, e fiz tudo para vos tirar a vida, se pudésseis morrer.

Ouço-vos dizer: "Que mal te fiz ou em que te contristei para me causares tanto desgostos... Perguntais-me, Senhor, que mal me fizestes?...

Destes-me o ser, morrestes por mim: é este o mal que me haveis feito!...

Que hei de responder?... Confesso, Senhor, que mereci mil vezes o inferno, e que mui justamente já me poderíeis ter condenado a ele.

Lembrai-vos, porém, do amor que vos fez morrer por mim na cruz; lembrai-vos do sangue que por meu amor derramastes, tende compaixão de mim... Mas já sei, Senhor: não quereis que desespere, e me dizeis que estais à porta de meu coração (deste coração que vos expulsou), e que bateis nele com vossas inspirações para entrar, pedindo-me que vos abra... (Ap 3,20; Ct 5,2). Sim, meu Jesus, estou resolvido a apartar-me do pecado; dói-me de todo o coração de vos ter ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Entrai, meu amor; a porta está aberta; entrai, e não vos afasteis mais de mim. Abrasai-me com vosso amor, e não permitais que torne a separar-me de vós... Não, meu Deus, não queremos mais separar-nos. Abraço-vos e aperto-vos a meu coração...

Dai-me a santa perseverança...

Maria, minha Mãe, socorrei-me sempre; rogai por mim a Jesus, e alcançai-me a dita de jamais perder a sua graça.

_____________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/8725793025115961/

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A morte do justo e a do pecador

 



1. Morte boa e feliz é a morte do Cristão que está em graça.

2. Morte desgraçada é a do pecador em estado de pecado mortal: é a suprema desgraça para o homem. 

3. Diz a Sagrada Escritura que a morte dos pecadores é péssima.

4. Péssima é, 1º porque o pecador sente muito deixar os bens temporais aos quais ele unicamente se afeiçoou, e que lhe lembram os seus pecados; 2º porque há de sofrer em breve no inferno o terrível castigo duma vida criminosa.

5. Morte péssima foi a de Herodes que nos é narrada nos Atos dos Apóstolos: Herodes, tendo feito buscar a Pedro (que o anjo livrara da prisão), e não o achando, feito exame a respeito dos guardas, os mandou justiçar, e passando da Judéia e a Cesaréia, deixou-se aqui ficar. Ora Herodes estava irritado contra os de Tiro e de Sidônia. Mas estes, de comum acordo o foram buscar, e com o favor de Blasto, que era seu camarista, pediram paz, porque das terras do rei é que o seu país tirava a subsistência. E um dia assinado, Herodes vestido em traje real, se assentou no tribunal e lhes fazia uma falta. E o povo o aplaudia dizendo: Isto são vozes de Deus e não de homem. Porém subitamente o feriu o anjo do Senhor, pelo motivo de que não tinha tributado honra a Deus, e comido de bichos, expirou. (At 12, 19-24).

6. Péssima também foi a morte de Judas o traídor, cuja narração lemos nos mesmos Atos: Então (depois da Ascenção do Senhor) os Apóstolos voltaram para Jerusalém... e tendo entrado em certa casa, subiram aos quartos de cima onde permaneciam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago filho de Alfeu, Simão o zeloso, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveraram unanimamente na oração com as mulheres e com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos deles. Naquele dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (e montava a multidão dos que ali se achavam juntos a quase cento e vinte pessoas) disse: Varões irmãos, e necessário que se cumpra a Escritura, que o Espírito Santo predisse por boca de Davi acerca de Judas, que foi o condutor daqueles que prenderam a Jesus, o qual estava entre nós alistado no mesmo número, e a quem coube a sorte deste ministério. E este possui de fato um campo do preço da iniquidade, e depois de se pendurar rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. E tão notório se fez a todos os habitantes de Jerusalém aquele sucesso, que se ficou chamando aquele campo, na língua deles, Haceldama, isto é, campo de sangue. (At 1,12-20). 

10. A Sagrada Escritura diz que a morte dos justos é preciosa aos olhos do Senhor.

11. A morte do justo é preciosa, 1º porque ela livra o justo de todos os males desta vida; 2º porque o justo ama a Deus e tem a consciência em paz; 3º porque o justo está para receber no céu o prêmio das boas obras que praticou durante a vida.

Explicação da gravura

12. Representa a gravura a morte do justo, e a morte do pecador. O justo, resignado e sossegado recebe as últimas consolações da religião, cercado dos parentes e amigos que oram por ele, animado pelo santo anjo da guarda; Jesus Cristo e a Virgem Santíssima o contemplam do céu, e o demônio envergonhado e raivoso foge para o inferno. 

13. O pecador repele com desprezo o sacerdote: o seu anjo da guarda afasta-se chorando, e os demônios cercam a cama, esperando o último suspiro do doente para se apoderarem da alma pecadora.

______________________________________________
Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.