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sábado, 4 de outubro de 2025

Da misericórdia de Deus




 Superexaltat autem misericordia judicium.

A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2,13).


PONTO I 

A bondade é comunicativa por natureza, isto é, tende a transmitir aos outros os seus bens. Deus, que por sua natureza é a bondade infinita, sente vivo desejo de comunicar-nos sua felicidade e, por isso, propende mais à misericórdia do que ao castigo. Castigar - diz Isaías - é obra alheia às inclinações da vontade divina. "Levantar-se-á para fazer a sua obra (ou vingança), obra que lhe é alheia, obra que lhe é estranha. (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, é para fazer misericórdia na outra (Sl 59,3). Mostra-se irritado a fim de que nos emendemos e detestemos o pecado (Sl 5). Se nos manda algum castigo, é porque nos ama e nos quer livrar das penas eternas (Sl 6). Quem poderá admirar e louvar suficientemente a misericórdia com que Deus trata os pecadores, esperando-os, chamando-os, acolhendo-os quando voltam para Ele?...  E antes de tudo, que graça valiosíssima nos concede Deus em esperar pela nossa penitência!... Quando o ofendestes, meu irmão, o Senhor te podia ter feito morrer, mas, ao contrário, te esperou; e, em vez de castigar-te, te cumulou de bens e te conservou a vida em sua paterna providência. Fingia não ver teus pecados, a fim de que te convertesses (Sb 2,24).

E como é isto, Senhor!Vós que não podeis ver um só pecador, vedes tantos e vos calais? (Hb 1,15). Vedes aquele impudico, aquele vingativo, esse blasfemo, cujos pecados crescem dia-a-dia e não os castigais? Por que tanta paciência?... Deus espera o pecador, a fim de que se arrependa e desse modo lhe perdoa e o salve (Is 30,18). 

Disse Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a água, a terra, o ar, por natural instinto se prestam a castigar o pecador pelas ofensas feitas ao Criador: mas Deus, pela sua misericórdia, os impede... Vós, Senhor, aguardais o ímpio para que se serve de vossa clemência para vos ofender? (Is 26,15) Por que tamanha paciência?... Porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e se salve (Ez 22,11).

Ó paciência divina! Disse Santo Agostinho que, se Deus não fosse Deus, pareceria injusto pela sua paciência para com o pecador, pois esperar, assim, pelo homem que se vale daquela paciência para continuar a pecar, parece em certo modo uma injustiça contra a honra divina. 

"Nós pecamos - continua dizendo o mesmo Santo, - entregamo-nos ao pecado (alguns há que vivem em paz com o pecado, dormem no pecado meses e anos inteiros), regozijamo-nos no pecado (pois não poucos até se gloriam de seus delitos), e vós usais de misericórdia".

Parece que teimosamente combatemos contra Deus; nós, provocando a sua vingança, Ele, convidando-nos ao perdão.


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e Senhor! Reconheço que sou digno de estar no inferno (Jo 17,13). Graças, porém, à vossa misericórdia não me acho nele, mas sim prostado a vossos pés e conhecedor do vosso preceito em que me ordenais que vos ame. "Ama o Senhor teu Deus" (Mt 22,37). Dizeis-me que quereis perdoar-me se me arrepender das injúrias que vos fiz...

Sim, meu Deus; já que desejais que vos ame, mesmo que seja um miserável rebelde contra vossa soberana majestade, amo-vos de todo o coração, e me dói ter-vos ofendido; isto me aflige mais que qualquer outra desgraça que me pudesse suceder. Iluminai-me, pois, ó Bondade infinita, e fazei-me conhecer a horrenda malícia de minhas culpas. Não; não resistirei mais à vossa voz, nem tornarei a injuriar a um Deus que tanto me ama, e que tantas vezes e com tanto amor me perdoou... Ah, se nunca vos tivesse ofendido, Jesus de minha alma! Perdoai-me e fazei que de hoje em diante a nada mais ame mais do que a vós; que somente viva para vós, que morrestes por mim; e que somente  por vosso amor sofra, já que por mim tanto padecestes. Eternamente me tendes amado; concedei-me que durante toda a eternidade arda eu no vosso amor. 

Tudo espero, ó meu Salvador, de vossos infinitos merecimentos. 

Em vós confio, Virgem Santíssima, pois com vossa intercessão me haveis de salvar. 


PONTO II

Consideremos, além disso, a misericórdia de Deus, quando chama o pecador à penitência... Adão, depois de ter-se rebelado contra Deus, escondeu-se. Mas o Senhor, que tinha perdido Adão, vai à procura dele e, quase a soluçar, o chama: "Onde estás, Adão?... (Gn 3,9) "Palavras de um pai - diz o Padre Pereira - que procura um filho que perdeu". O mesmo tem feito Deus contigo muitas vezes, meu irmão. 

Fugias de Deus, e Deus te chamava, ora com inspirações, ora com remorsos de consciência, já por meio de prédicas, já com atribulações ou com a morte de teus amigos. Parece que, falando de ti, Jesus Cristo exclamava: "Meu filho, quase perdi a voz a chamar-te" (Se 63,4).

Considerai, pecadores - diz Santa Teresa, - que vos chama aquele Senhor que um dia vos há de julgar.

Quantas vezes, cristão, te mostrastes surdo à voz de Deus? Há muito merecias que não te chamasse mais. Deus, entretanto, não cessa de chamar-te, porque deseja que estejas em paz com ele e assim te possa salvar... Quem é aquele que te chama assim? Um Deus de infinita majestade. E quem eras tu senão um verme miserável e vil?... E para que te chama? Não pode ser senão para te restituir a vida da graça que tinhas perdido. "Convertei-vos e vivei". (Ez 18,32). Para recuperar a graça divina, seria pouco passar a vida inteira no deserto. Deus, porém, se ofereceu dar-te de novo sua graça em um momento, e tu a recusaste. E, contudo, Deus não te abandona, mas acerca-se de ti e, solícito, te procura, e, lamentando-se, te diz: "Meu filho, por que queres te condenar?" (Ez 18,31).

Quando o homem comete um pecado mortal, expele o Deus de sua alma (Jo 19,14). Que faz Deus, porém?... Conserva-se à porta dessa alma ingrata e clama (Ap 3,20); pede à alma que o deixe entrar (Ct 5,5), e roga até cansar-se (Jr 15,6). Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus corre, como amante desesperado, atrás do pecador, exortando-o a que não se perca. É exatamente o que São Paulo exprimia quando escrevia a seus discípulos: "Rogamo-vos por Cristo, que vos reconcilieis com Deus" (2Cor 5,20). Belíssima é a reflexão que sobre este texto faz São João Crisóstomo. Diz: "O próprio Cristo vos roga. E que vos roga? Que vos reconcilieis com Deus. De sorte que ele não é inimigo vosso, senão vós dele". O Santo faz ver que não é o pecador que se deve esforçar para conseguir que Deus se mova à reconciliação com ele, mas que só lhe é preciso resolver-se a aceitar a amizade divina, porque é ele e não Deus que se nega a fazer a paz. 

Ah! como este bondosíssimo Senhor corre sem cessar atrás de tantos pecadores e lhes vai dizendo: "Ingratos! não fujais de mim... Por que fugis? Dizei-mo. Quero fazer-vos bem, e somente procuro tornar-vos felizes... Por que vos quereis perder?" - Mas, Senhor, que é que fazeis? Para que empregar tanta paciência e tanto amor para com estes rebeldes? Que compensação esperais deles? Que honra procurais em vos mostrardes tão apaixonado por estes miseráveis vermes da terra que fogem  de vós? "Que ser é o homem para que o engrandeças?... ou por que pões sobre o teu coração?" (Jo 7,17).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés um ingrato que vos pede misericórdia; Meu Pai, perdoai-me. Ouso chamar-vos Pai, porque assim quereis que vos chame. Não mereço compaixão, porque, quanto mais bondoso fostes para comigo, tanto mais ingrato mostrei-me para convosco. Por esta mesma bondade que vos moveu, meu Deus, a não me desamparar quando fugia de vós, recebei-me agora quando volto para vós. Inspirai-me, meu Jesus, grande dor das ofensas que vos fiz, e dai-me vosso beijo de paz. Arrependo-me, sobretudo, das ofensas que vos fiz, e as detesto e abomino, unindo este aborrecimento ao que sentistes vós, ó Redentor meu, no horto de Getsêmani. Perdoai-me, pelos merecimentos do preciosos sangue que por mim derramastes naquele horto. Prometo resolutamente nunca mais afastar-me de vós e banir de meu coração todo afeto que não seja para vós. Jesus, meu amor, amo-vos sobre todas as coisas, quero amar-vos sempre e somente amar a vós. Mas dai-me, Senhor, força, para consegui-lo. Fazei-me inteiramente vosso. 

Ó Maria, minha esperança, Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim e rogai por mim a Deus.


PONTO III

Os príncipes da terra, às vezes, julgam ser baixeza fitar os vassalos que lhes vêm pedir perdão. Não é assim, porém, que Deus procede conosco. "Não voltará de vós o rosto, se contritos a ele vos chegardes" (2 Par 30,9). Não, Deus não oculta sua face aos que se convertem. Ao contrário, ele mesmo os convida e promete recebê-los logo que se apresentem... (Jr 3,1; Zc 1,3) Oh, com quanto amor e ternura Deus abraça o pecador que volta para ele! Jesus Cristo claramente no-lo ensina por meio da parábola do Bom Pastor, que, falando da ovelha perdida, a põe amorosamente aos ombros (Lc 15,5) e convida seus amigos para que com ele se regozigem (Lc 15,6). E São Lucas acrescenta: "Haverá gozo no céu por um pecador que faz penitência" (Lc 15,7). O mesmo manifestou o Redentor na parábola do Filho pródigo, quando declarou que ele próprio é aquele pai que, ao ver voltar o filho perdido, corre-lhe ao encontro, e, antes que lhe fale, o abraça e cobre de beijos, e nem mesmo com essas ternas carícias pode expressar o consolo que sente (Ez 18,21-22). 

O Senhor chega até a assegurar que, quando o pecador se arrepende, ele risca da memória as ofensas, como se nunca houvessem existido. Veja-se o que diz: "Vinde e argüi-me; se vossos pecados forem cor de escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18; Ez 18,21-22), ou ainda: "Vinde, pecadores, se não vos perdoar, repreendei-me e acusai-me de infidelidade..." Mas, não, Deus não sabe desprezar um coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19). 

Gloria-se o Senhor de usar de misericórdia, perdoando aos pecadores (Is 30,18). E quando perdoa?... Num instante (Is 30,19). Pecador, diz o Profeta, não terás que chorar muito. Enquanto derramas a primeira lágrima, o Senhor terá piedade de ti (Is 30,19). Não procede Deus conosco como nós para com ele. Deus nos chama e nós não queremos atendê-lo. Deus, não. Logo que nos arrependemos, nos responde prontamente e logo nos perdoa. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus!... Contra quem me atrevi a resistir?... Contra vós, Senhor, que sois a própria bondade, que me criastes e morrestes por mim, que me tendes conservado, apesar de minhas reiteradas infidelidades...

A consideração da paciência com quem me tendes tratado deveria bastar para que meu coração vivesse ardendo perpetuamente em vosso amor.

Quem poderia ter aturado as ofensas que vos fiz, como vós a sofrestes? Desgraçado seria eu se tornasse a vos ofender e me condenasse! A misericórdia com que me distinguistes seria para mim, ó Deus, um inferno mais intolerável que o próprio inferno. Não, meu Redentor, não permitais que torne a separar-me de vós. Pefiro morrer... Reconheço que vossa misericórdia já não pode suportar minha maldade. Arrependo-me, porém, ó sumo Bem, de vos ter ofendido; amo-vos de todo o coração e proponho consagrar-vos por completo o resto da vida... Ouvi-me, Pai eterno, e pelos merecimentos de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e vosso santo amor. Ouvi-me, meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim: Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. 

Ó Maria, minha Mãe, volvei a mim vossos olhos misericordiosos: Illos tuos misericordes oculos ad me converte; e uni-me inteiramente a Deus. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/85990674130767563/











quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mais um filho!?


Tal texto foi extraído do Blog comshalon.org, postado no dia 11 último, e, realmente, vale a pena difundi-lo, pois bem retrata a realidade de uma família que deseja resistir às ondas destrutivas da Civilização Cristã, como, por exemplo, o controle de natalidade. Trata-se de um relato de autoria de Renato Guimarães Varges — responsável pelo referido blog.

Filhos, uma escola de amor

No dia 07 de maio de 2013, meu quarto filho foi concebido. Poucos dias depois veio a confirmação da gravidez e naturalmente a notícia foi se espalhando.
Algumas pessoas como minha mãe e amigos próximos ficaram imensamente felizes e já foram logo dando palpite sobre o sexo do bebê. Outras pessoas já sorriram só com o canto da boca, respiraram fundo e deram uns parabéns amarelado ou por pura educação. Outras sequer conseguiram disfarçar seus pensamentos e teceram comentários divididos por categoria, os irônicos diziam: “vocês são animados hein!” ou “vocês não tem TV em casa?”; os pseudo-entusiastas: “vocês são guerreiros!” ou “nossa, que coragem!”; os calculistas: “mais um? meu Deus!” ou “quem vai pagar suas contas?” ou “vocês planejaram isso?” ou “já marcaram a laqueadura de trompas?”; e por fim os dramáticos: “foi um acidente?” ou “como vocês vão viver?” .
Comentários à parte, estamos imensamente felizes com a chegada do caçula da vez. No entanto, a decisão de escrever esse artigo é fruto do desejo de fazer uma pequena partilha do que vivo como pai e defensor da cultura da vida e expressar um pouco algo que me incomoda muito na cultura que vivemos atualmente.
Ah sim, você pode perguntar “E o que isso tem a ver com bioética?” Respondo: ABSOLUTAMENTE TUDO!!! Pois a bioética não pode ficar presa nos livros, conceitos e teorias, mas para defende-la e exercê-la com autoridade, é preciso antes de tudo acreditar nela na nossa própria vida.
Ao observar a postura de certos casais diante da realidade dos filhos, tenho me perguntado: Por que alguns casais estão convencidos de que os filhos são verdadeiros estraga prazeres da vida conjugal? De onde vem esta mentalidade de que os filhos diminuem a qualidade de vida do casal? Por que existe tanto espaço para a cultura materialista que só consegue enxergar os filhos como potenciais consumidores, gastadores e devoradores de salário? Por que alguns pais querem dar aos filhos um padrão de vida que não possuem como se isso fosse a fórmula do sucesso pessoal e familiar? Por que as pessoas tem tanto pavor do trabalho que as crianças dão em casa, enquanto se matam no trabalho para cumprir metas e conseguir promoções? Por que o cansaço e as exigências com a educação dos filhos são tão rejeitados? Por que as mulheres valorizam tanto o trabalho fora de casa como se educar um filho em casa não fosse um serviço tão ou mais nobre à sociedade quanto qualquer outro trabalho?
Passaria horas aqui somente escrevendo perguntas do tipo, mas esse não é meu objetivo, como também não é responde-las ou levantar um debate sobre cada um dos temas, isso daria um livro o qual eu não tenho competência para escrever.
Gostaria simplesmente de tentar descrever porque considero os filhos um dom preciosíssimo de Deus e uma verdadeira escola de amor. Nossos planos como casal nunca foram baseados no conforto, nem nas férias inesquecíveis na Disney, nem na casa dos sonhos, mas sempre foram baseados no papel que estávamos assumindo diante de Deus e da Igreja, ou seja, o compromisso de ser uma família. Não tenho nada contra as férias (aliás estou precisando das minhas), nem contra a Disney (dizem que é muito divertido), mas os que se casam confiando unicamente em planos materiais e só tomam decisões com a segurança da conta corrente não estão preparados para construir uma família que ama a Deus acima de todas as coisas e provavelmente não terão a fé como seu maior valor. Se você nunca pensou nisso ou simplesmente nem leva isso em consideração, sinceramente você tem meu respeito, mas, por experiência própria, posso garantir que o matrimônio como um empreendimento meramente humano perde uma dimensão que considero essencial.
Recordo quando descobrimos a gravidez do nosso 3º filho, uma pessoa chegou para mim e disse:“Ih… agora vocês se danaram. Saiba que o mundo foi feito pra quem tem no máximo dois filhos!” Eu estava um pouco destemperado no momento e respondi sem medir muito as palavras, mas expressando o que se passava no fundo do meu coração: – “E quem disse que nós geramos filhos pensando neste mundo minha senhora?”. Ela arregalou os olhos e viu que eu tinha me ofendido, mas fui obrigado a continuar, especialmente porque eu sabia que ela já havia criticado um outro casal amigo. Eu concluí dizendo: – “Uma família católica gera filhos para povoar o Céu e não nossas cidades, queremos gerá-los para a eternidade, pois é lá que desejamos encontrá-los um dia, a herança que temos para deixar para nossos filhos é a fé, o amor de Deus e a santidade, todo resto é consequência. O bem estar que ofereço é aquele que Divina Providência nos conceder”… Pelo silêncio acho que ela acabou entendendo. Mas é exatamente isso!
Um casal que rejeita o dom dos filhos ou se fecha irreversivelmente a essa possibilidade está invertendo em absoluto a razão de ser do matrimônio, do ato conjugal e do propósito de estarem unidos por um sacramento. Não estou aqui fazendo apologia à mera quantidade de filhos. Ninguém pode me acusar disso. Sobre esse assunto, o que digo é que existem quatro critérios que devemos adotar quando pensamos em ter filhos:
1. A confiança na vontade de Deus e na Divina Providência deve ser maior que nossos fundos de investimentos.
2. A quantidade de filhos não se calcula pela quantidade dos que já temos, mas pela generosidade com os que ainda podemos ter.
3. O próximo filho será ainda mais exigente, portanto, nos fará crescer ainda mais na partilha e no amor.
4. O melhor presente que posso dar aos meus filhos é o próximo irmão.
Ou seja, não é simplesmente uma questão ter muitos filhos, mas ter o máximo que o casal puder. Quanto mais filhos um casal tiver, mais experimentarão da Providência de Deus. Não estou fazendo apologia à irresponsabilidade, mas à generosidade.
Os filhos só terão sentido na vida de um casal e assim contribuir para a santidade da família se eles forem entendidos e acolhidos como dons de Deus e não como intrusos, vilões ou saqueadores de seu cheque especial. Você pode estar ai dizendo que isso é um exagero ou que eu vivo fora da realidade. Nada disso! Há momentos, não poucos, em que temos a impressão que os filhos exigem mais do que podemos dar, humana e financeiramente, ou que a educação que damos vai parar em qualquer outro lugar que não seja a cabecinha da criança. Isso tira qualquer um do sério, mas não justifica a rejeição dos filhos, nem a substituição do nosso papel na sua educação, muito menos achar que tudo que fizemos até hoje de nada valeu. Ultimamente, quando estou muito cansado e me pego rejeitando dar atenção ou calculando quanto amor vou dar a um filho, penso em três coisas, exatamente nessa ordem:
1. Como São José agiria nesse momento?
2. Nas crianças abortadas que não tiveram a chance de nascer.
3. Nas famílias que estão na fila da adoção na esperança de ter pelo menos um filho em casa. Pode parecer um pouco ingênuo, mas pelo menos funciona.
Há duas coisas que vem junto com os filhos. Uma é inversa e outra diretamente proporcional à sua quantidade. O tempo livre será sempre inversamente proporcional e o cansaço sempre diretamente proporcional à quantidade de filhos. Isso não tem escapatória! Quanto ao tempo, não tem jeito, se não tivessem os filhos, seria ocupado com outra coisa, talvez até menos nobre.
Nunca considero o tempo que passo com meus filhos uma perda, nem fico ponderando mentalmente o que eu poderia estar fazendo caso não estivesse ali com eles, pois isso seria uma espécie de traição e talvez diminuísse minha alegria de estar com eles. Não adianta, educação não se terceiriza e quem cai nessa cilada, muito cedo paga o preço. Educar os filhos exige muito mais esforço que os mais árduos trabalhos profissionais. Talvez por isso alguns preferem, consciente ou inconscientemente, distrair os filhos do que educá-los. Outros talvez tenham medo de colocar limites claros e dar punições para não perder a amizade dos filhos. Mas a realidade da boa educação exige exatamente o contrário. Meus filhos ainda são pequenos, ainda me idolatram como qualquer criança, mas tenho certeza que seria muito mais fácil eu perder a amizade futura dos meus filhos por não tê-los deixado aprender com as quedas do que pela liberdade que dei para aprenderem a caminhar com suas próprias pernas e entender que crescer e amadurecer dói. Educar é penoso e por vezes vergonhoso porque mostra muito mais os limites dos pais do que as capacidades dos filhos. Por isso, ao invés de fugir desta sadia responsabilidade, devemos abraça-la ainda com mais dedicação.
Quanto ao cansaço, esse é uma marca do sofrimento físico de quem ama. Um corpo sem as marcas do sofrimento, das exigências de quem se doa ao outro é um corpo que reflete muito mais o que faço para mim do que o que faço pelos outros. O corpo de quem ama é esculpido pelo amor e não pelas academias, por isso, nossos melhores “personal trainers” são nossos filhos. Um corpo que se desgasta por amor é um corpo sarado sim, mas sarado no sentido de ser curado a todo instante de um possível egoísmo ou fechamento aos outros.
Sempre confesso meu cansaço ao cuidar das crianças, mas ajudar nas tarefas de casa, dar as refeições, conviver com meus filhos, poder sorrir com eles, ouvir suas palhaçadas, consolar as dores das suas quedas, fingir que eles são engraçados, dar atenção, corrigir seus erros, tirar as dúvidas brincar, contar histórias, escovar os dentes, brigar, cantar e rezar com eles é um grande presente de Deus.
Concluo dizendo que só sabe educar quem decide amar. Definitivamente, amar não é uma emoção agradável, nem um sentimento gostoso, como descer numa montanha russa. Amor é uma decisão séria e comprometida que envolve em primeiro lugar a felicidade do outro e não a minha. Amar é um sim mútuo entre dois imperfeitos que se escolhem. Amar é decidir-se por fazer o que é melhor pelo outro ainda que isso custe o meu tempo, meus planos, meu sono, minha beleza, minhas últimas energias. Com alegria digo que Deus não me deu o dom da vida para ser retido, afinal, o que guardamos demais acaba perdendo a validade e apodrecendo. Nunca o cansativo cuidado com os meus filhos aliviou tanto meu cansaço.
Por fim, posso dizer, não se descansa apenas dormindo. Descansa-se acima de tudo amando e servindo aos outros. Quando se ama de verdade, até o sono é uma forma de amar, pois o repouso nos fará servir melhor aos outros ao despertar. Por essas e outras razões, posso afirmar que os filhos são uma escola de amor!
Por Renato Guimarães Varges