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sábado, 4 de outubro de 2025

Da misericórdia de Deus




 Superexaltat autem misericordia judicium.

A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2,13).


PONTO I 

A bondade é comunicativa por natureza, isto é, tende a transmitir aos outros os seus bens. Deus, que por sua natureza é a bondade infinita, sente vivo desejo de comunicar-nos sua felicidade e, por isso, propende mais à misericórdia do que ao castigo. Castigar - diz Isaías - é obra alheia às inclinações da vontade divina. "Levantar-se-á para fazer a sua obra (ou vingança), obra que lhe é alheia, obra que lhe é estranha. (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, é para fazer misericórdia na outra (Sl 59,3). Mostra-se irritado a fim de que nos emendemos e detestemos o pecado (Sl 5). Se nos manda algum castigo, é porque nos ama e nos quer livrar das penas eternas (Sl 6). Quem poderá admirar e louvar suficientemente a misericórdia com que Deus trata os pecadores, esperando-os, chamando-os, acolhendo-os quando voltam para Ele?...  E antes de tudo, que graça valiosíssima nos concede Deus em esperar pela nossa penitência!... Quando o ofendestes, meu irmão, o Senhor te podia ter feito morrer, mas, ao contrário, te esperou; e, em vez de castigar-te, te cumulou de bens e te conservou a vida em sua paterna providência. Fingia não ver teus pecados, a fim de que te convertesses (Sb 2,24).

E como é isto, Senhor!Vós que não podeis ver um só pecador, vedes tantos e vos calais? (Hb 1,15). Vedes aquele impudico, aquele vingativo, esse blasfemo, cujos pecados crescem dia-a-dia e não os castigais? Por que tanta paciência?... Deus espera o pecador, a fim de que se arrependa e desse modo lhe perdoa e o salve (Is 30,18). 

Disse Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a água, a terra, o ar, por natural instinto se prestam a castigar o pecador pelas ofensas feitas ao Criador: mas Deus, pela sua misericórdia, os impede... Vós, Senhor, aguardais o ímpio para que se serve de vossa clemência para vos ofender? (Is 26,15) Por que tamanha paciência?... Porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e se salve (Ez 22,11).

Ó paciência divina! Disse Santo Agostinho que, se Deus não fosse Deus, pareceria injusto pela sua paciência para com o pecador, pois esperar, assim, pelo homem que se vale daquela paciência para continuar a pecar, parece em certo modo uma injustiça contra a honra divina. 

"Nós pecamos - continua dizendo o mesmo Santo, - entregamo-nos ao pecado (alguns há que vivem em paz com o pecado, dormem no pecado meses e anos inteiros), regozijamo-nos no pecado (pois não poucos até se gloriam de seus delitos), e vós usais de misericórdia".

Parece que teimosamente combatemos contra Deus; nós, provocando a sua vingança, Ele, convidando-nos ao perdão.


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e Senhor! Reconheço que sou digno de estar no inferno (Jo 17,13). Graças, porém, à vossa misericórdia não me acho nele, mas sim prostado a vossos pés e conhecedor do vosso preceito em que me ordenais que vos ame. "Ama o Senhor teu Deus" (Mt 22,37). Dizeis-me que quereis perdoar-me se me arrepender das injúrias que vos fiz...

Sim, meu Deus; já que desejais que vos ame, mesmo que seja um miserável rebelde contra vossa soberana majestade, amo-vos de todo o coração, e me dói ter-vos ofendido; isto me aflige mais que qualquer outra desgraça que me pudesse suceder. Iluminai-me, pois, ó Bondade infinita, e fazei-me conhecer a horrenda malícia de minhas culpas. Não; não resistirei mais à vossa voz, nem tornarei a injuriar a um Deus que tanto me ama, e que tantas vezes e com tanto amor me perdoou... Ah, se nunca vos tivesse ofendido, Jesus de minha alma! Perdoai-me e fazei que de hoje em diante a nada mais ame mais do que a vós; que somente viva para vós, que morrestes por mim; e que somente  por vosso amor sofra, já que por mim tanto padecestes. Eternamente me tendes amado; concedei-me que durante toda a eternidade arda eu no vosso amor. 

Tudo espero, ó meu Salvador, de vossos infinitos merecimentos. 

Em vós confio, Virgem Santíssima, pois com vossa intercessão me haveis de salvar. 


PONTO II

Consideremos, além disso, a misericórdia de Deus, quando chama o pecador à penitência... Adão, depois de ter-se rebelado contra Deus, escondeu-se. Mas o Senhor, que tinha perdido Adão, vai à procura dele e, quase a soluçar, o chama: "Onde estás, Adão?... (Gn 3,9) "Palavras de um pai - diz o Padre Pereira - que procura um filho que perdeu". O mesmo tem feito Deus contigo muitas vezes, meu irmão. 

Fugias de Deus, e Deus te chamava, ora com inspirações, ora com remorsos de consciência, já por meio de prédicas, já com atribulações ou com a morte de teus amigos. Parece que, falando de ti, Jesus Cristo exclamava: "Meu filho, quase perdi a voz a chamar-te" (Se 63,4).

Considerai, pecadores - diz Santa Teresa, - que vos chama aquele Senhor que um dia vos há de julgar.

Quantas vezes, cristão, te mostrastes surdo à voz de Deus? Há muito merecias que não te chamasse mais. Deus, entretanto, não cessa de chamar-te, porque deseja que estejas em paz com ele e assim te possa salvar... Quem é aquele que te chama assim? Um Deus de infinita majestade. E quem eras tu senão um verme miserável e vil?... E para que te chama? Não pode ser senão para te restituir a vida da graça que tinhas perdido. "Convertei-vos e vivei". (Ez 18,32). Para recuperar a graça divina, seria pouco passar a vida inteira no deserto. Deus, porém, se ofereceu dar-te de novo sua graça em um momento, e tu a recusaste. E, contudo, Deus não te abandona, mas acerca-se de ti e, solícito, te procura, e, lamentando-se, te diz: "Meu filho, por que queres te condenar?" (Ez 18,31).

Quando o homem comete um pecado mortal, expele o Deus de sua alma (Jo 19,14). Que faz Deus, porém?... Conserva-se à porta dessa alma ingrata e clama (Ap 3,20); pede à alma que o deixe entrar (Ct 5,5), e roga até cansar-se (Jr 15,6). Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus corre, como amante desesperado, atrás do pecador, exortando-o a que não se perca. É exatamente o que São Paulo exprimia quando escrevia a seus discípulos: "Rogamo-vos por Cristo, que vos reconcilieis com Deus" (2Cor 5,20). Belíssima é a reflexão que sobre este texto faz São João Crisóstomo. Diz: "O próprio Cristo vos roga. E que vos roga? Que vos reconcilieis com Deus. De sorte que ele não é inimigo vosso, senão vós dele". O Santo faz ver que não é o pecador que se deve esforçar para conseguir que Deus se mova à reconciliação com ele, mas que só lhe é preciso resolver-se a aceitar a amizade divina, porque é ele e não Deus que se nega a fazer a paz. 

Ah! como este bondosíssimo Senhor corre sem cessar atrás de tantos pecadores e lhes vai dizendo: "Ingratos! não fujais de mim... Por que fugis? Dizei-mo. Quero fazer-vos bem, e somente procuro tornar-vos felizes... Por que vos quereis perder?" - Mas, Senhor, que é que fazeis? Para que empregar tanta paciência e tanto amor para com estes rebeldes? Que compensação esperais deles? Que honra procurais em vos mostrardes tão apaixonado por estes miseráveis vermes da terra que fogem  de vós? "Que ser é o homem para que o engrandeças?... ou por que pões sobre o teu coração?" (Jo 7,17).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés um ingrato que vos pede misericórdia; Meu Pai, perdoai-me. Ouso chamar-vos Pai, porque assim quereis que vos chame. Não mereço compaixão, porque, quanto mais bondoso fostes para comigo, tanto mais ingrato mostrei-me para convosco. Por esta mesma bondade que vos moveu, meu Deus, a não me desamparar quando fugia de vós, recebei-me agora quando volto para vós. Inspirai-me, meu Jesus, grande dor das ofensas que vos fiz, e dai-me vosso beijo de paz. Arrependo-me, sobretudo, das ofensas que vos fiz, e as detesto e abomino, unindo este aborrecimento ao que sentistes vós, ó Redentor meu, no horto de Getsêmani. Perdoai-me, pelos merecimentos do preciosos sangue que por mim derramastes naquele horto. Prometo resolutamente nunca mais afastar-me de vós e banir de meu coração todo afeto que não seja para vós. Jesus, meu amor, amo-vos sobre todas as coisas, quero amar-vos sempre e somente amar a vós. Mas dai-me, Senhor, força, para consegui-lo. Fazei-me inteiramente vosso. 

Ó Maria, minha esperança, Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim e rogai por mim a Deus.


PONTO III

Os príncipes da terra, às vezes, julgam ser baixeza fitar os vassalos que lhes vêm pedir perdão. Não é assim, porém, que Deus procede conosco. "Não voltará de vós o rosto, se contritos a ele vos chegardes" (2 Par 30,9). Não, Deus não oculta sua face aos que se convertem. Ao contrário, ele mesmo os convida e promete recebê-los logo que se apresentem... (Jr 3,1; Zc 1,3) Oh, com quanto amor e ternura Deus abraça o pecador que volta para ele! Jesus Cristo claramente no-lo ensina por meio da parábola do Bom Pastor, que, falando da ovelha perdida, a põe amorosamente aos ombros (Lc 15,5) e convida seus amigos para que com ele se regozigem (Lc 15,6). E São Lucas acrescenta: "Haverá gozo no céu por um pecador que faz penitência" (Lc 15,7). O mesmo manifestou o Redentor na parábola do Filho pródigo, quando declarou que ele próprio é aquele pai que, ao ver voltar o filho perdido, corre-lhe ao encontro, e, antes que lhe fale, o abraça e cobre de beijos, e nem mesmo com essas ternas carícias pode expressar o consolo que sente (Ez 18,21-22). 

O Senhor chega até a assegurar que, quando o pecador se arrepende, ele risca da memória as ofensas, como se nunca houvessem existido. Veja-se o que diz: "Vinde e argüi-me; se vossos pecados forem cor de escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18; Ez 18,21-22), ou ainda: "Vinde, pecadores, se não vos perdoar, repreendei-me e acusai-me de infidelidade..." Mas, não, Deus não sabe desprezar um coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19). 

Gloria-se o Senhor de usar de misericórdia, perdoando aos pecadores (Is 30,18). E quando perdoa?... Num instante (Is 30,19). Pecador, diz o Profeta, não terás que chorar muito. Enquanto derramas a primeira lágrima, o Senhor terá piedade de ti (Is 30,19). Não procede Deus conosco como nós para com ele. Deus nos chama e nós não queremos atendê-lo. Deus, não. Logo que nos arrependemos, nos responde prontamente e logo nos perdoa. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus!... Contra quem me atrevi a resistir?... Contra vós, Senhor, que sois a própria bondade, que me criastes e morrestes por mim, que me tendes conservado, apesar de minhas reiteradas infidelidades...

A consideração da paciência com quem me tendes tratado deveria bastar para que meu coração vivesse ardendo perpetuamente em vosso amor.

Quem poderia ter aturado as ofensas que vos fiz, como vós a sofrestes? Desgraçado seria eu se tornasse a vos ofender e me condenasse! A misericórdia com que me distinguistes seria para mim, ó Deus, um inferno mais intolerável que o próprio inferno. Não, meu Redentor, não permitais que torne a separar-me de vós. Pefiro morrer... Reconheço que vossa misericórdia já não pode suportar minha maldade. Arrependo-me, porém, ó sumo Bem, de vos ter ofendido; amo-vos de todo o coração e proponho consagrar-vos por completo o resto da vida... Ouvi-me, Pai eterno, e pelos merecimentos de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e vosso santo amor. Ouvi-me, meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim: Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. 

Ó Maria, minha Mãe, volvei a mim vossos olhos misericordiosos: Illos tuos misericordes oculos ad me converte; e uni-me inteiramente a Deus. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/85990674130767563/











terça-feira, 1 de abril de 2025

Sentimentos de um moribundo não acostumado a pensar na morte




Santo Afonso Mª de Ligório 


 Disponde domui tuar, quia morieris tu, et non vives.

Dispõe de tua casa, porque morrerás e não viverás (Is 38,1). 

PONTO I

Imagina que te achas junto a um enfermo a quem restam poucas horas de vida... Pobre enfermo! Considera como o oprimem e angustiam as dores, os desfalecimentos, a asfixia e falta de respiração, o suor frio e o entorpecimento até ao ponto de quase não ouvir, quase não compreender e quase não falar... Entretanto, a sua maior desgraça consiste em que, estando próximo à morte, em vez de pensar na alma e de preparar as contas para a eternidade, só pensa nos médicos, nos remédios, para se livrar da doença que o vai vitimando. Não são capazes de pensar em outra coisa que em si mesmos, disse São Lourenço Justiniano, falando dos moribundos desta espécie... Mas, certamente, os parentes e amigos lhe manifestarão o perigoso estado em que se acha?... Não; não há entre todos eles nenhum que se atreva a lhe falar na morte e adverti-lo de que deve receber os santos sacramentos. Todos se escusam de lhe falar para não molestá-lo. 

Ó meu Deus, dou-vos graças mil porque na hora da morte fazeis que seja assistido pelos queridos confrades de minha congregação, os quais, sem outro interesse que o de minha salvação, me ajudarão a todos a bem morrer. 

No entanto, ainda que se lhe não anuncie a aproximação da morte, o pobre enfermo, vendo a confusão da família, as consultas dos médicos, os remédios multiplicados, frequentes e violentos, que aplicam, se enche de angústia e terror, entre contínuos assaltos de receio, desconfiança e remorsos, dizendo de si para si: quem sabe se terá chegado o fim de meus dias?... Quem não sentirá quando, enfim, recebe a notícia da sua morte próxima! Dispõe as coisas de tua casa, porque morrerás e não viverás... (Is 38,1). Que mágoa terá ao saber que sua enfermidade é mortal, que é tempo de receber os sacramentos, de se unir com Deus e de despedir-se do mundo!... Despedir-se do mundo! Mas como?... Há de abandonar tudo, a casa, a cidade, os parentes e amigos, as sociedades, os jogos, os divertimentos?... Sim, tudo. Ante o tabelião, já presente, escreve-se esta despedida com a fórmula: Deixo a tal pessoa; deixo... E que levará consigo? Apenas uma pobre mortalha, que dentro em breve se deverá consumir com ele próprio na sepultura. 

Que perturbação e que tristeza sentirá o moribundo quando vir as lágrimas da família, o silêncio dos amigos, que, mudos, o cercam, pois não têm ânimo para falar! Maior angústia lhe darão os remorsos da consciência, que nesse momento se manifestam vivíssimos pelas desordens da vida passada, depois de tantos convites e luzes, depois de tantos avisos dos padres espirituais, de tantas resoluções tomadas, mas nunca executadas ou depressa esquecidas. "Pobre de mim, dirá o moribundo, que recebi de Deus tantas luzes, tanto tempo para pôr em ordem a minha consciência, e não o fiz! E eis que agora que me vejo no transe da morte! Que me teria custado evitar esta ocasião, afastar-me daquela amizade, confessar-me todas as semanas?... E ainda que isto fosse muito custoso, não o devia fazer para salvar minha alma, que vale mais que tudo?... Ah, se tivesse executado aquela boa resolução que tinha formado, se tivesse continuado, como então comecei, quanto estaria hoje contente! Mas não o fiz e agora já não é tempo de fazê-lo"... 

Os sentimentos destes moribundos, que durante a vida desprezaram a consciência, se assemelham aos dos condenados que, sem fruto sem remédio, choram no inferno seus pecados como causa de suas penas. 


AFETOS E SÚPLICAS

São estes, Senhor, os sentimentos e angústias que teria, se neste momento me avisassem do fim próximo... Dou-vos fervorosas graças por estas considerações e por haver-me dado tempo para emendar-me. 

Não, meu Deus, não quero mais afastar-me de vós. Repetidas vezes me haveis procurado e se agora resistir e não me entregar a vós, fundamente deveria temer que me abandonásseis para sempre. Deste-me um coração para vos amar; mas dele fiz mau uso, amando as criaturas e não a vós, Criador e Redentor meu, que por mim destes a vida. 

Não apenas deixei de vos amar, mas mil vezes vos hei desprezado e ofendido; e sabendo que o pecado vos desgostaria em extremo, não hesitei em cometê-lo... Ó Jesus meu, arrependo-me e de todo o coração detesto o mal! Quero mudar de vida, renunciando a todos os prazeres mundanos para somente vos amar e servir, ó Deus de minha alma! Tendes-me dado grandes provas de vosso amor, quisera também, antes de morrer, dar-vos algumas do meu amor... Aceito, desde já, todas as enfermidades e cruzes que me enviais, todos os trabalhos e desprezos que receber dos homens. Dai-me forças para suportar tudo em paz, por vosso amor, como desejo. Amo-vos, Bondade infinita; amo-vos sobre todas as coisas. Aumentai meu amor e concedei-me a santa perseverança...

Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim!


PONTO II

Como no momento da morte brilham e resplandecem as verdades da fé para maior tormento do moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus e que, portanto, tinha mais facilidade e tempo para servi-lo, mais inspirações e melhores exemplos! Ó Deus, que dor sentirá essa pessoa ao pensar e dizer: Repreendi os outros e fui pior do que eles; deixei o mundo, e vivi preso às vaidades e às afeições do mundo!... Que remorsos terá ao considerar que, com as graças que Deus lhe concedeu, não já um cristão, mas até um pagão se tornaria santo! Que dor não sofrerá, recordando-se que menosprezou as práticas de piedade como fraquezas de espírito, e aprovou certas máximas mundanas, frutos de estima e de amor próprio, por exemplo, como a de não humilhar-se, não mortificar-se, não recusar os prazeres que lhes ofereciam. 

O desejo dos pecadores perecerá (Sl 111,10). Quanto desejaremos ter na hora da morte o tempo que agora perdemos!... Refere São Gregório em seus Diálogos, que havia um tal Crisanto, homem rico, mas de maus costumes, o qual, na hora da morte, dirigiu-se aos demônios, que visivelmente apareciam para arrebatar-lhe a alma, gritando: Dai-me tempo, dai-me tempo até amanhã. Mas estes lhe respondiam: "Insensato! agora pedes tempo? Não o tiveste e perdeste e o empregaste em pecar? E o pedes agora, quando já não há para ti?" O desgraçado continuava a gritar e a pedir socorro. Havia ali perto um monge, seu filho, chamado Máximo, e o moribundo lhe dizia: Ajuda-me, meu filho; Máximo, socorre-me! No entanto, com o rosto chamejante, revolvia-se furioso no seu leito, até que, nessa agitação e gritos de desespero, expirou miseravelmente. 

Vede como estes desgraçados, durante a vida, se comprazem em sua loucura, mas na hora da morte abrem os olhos e reconhecem sua demência passada. Mas isto apenas lhes serve para aumentar sua desconfiança de remediar o mal que fizeram. E correndo neste estado, deixam grande incerteza sobre sua salvação... Creio, meu irmão, que, ao leres este ponto, dirás a ti mesmo que é grande verdade. Pois, se assim é, maior será tua loucura se, conhecendo estas verdades, não te emendares a tempo. Esta mesma leitura, que acabas de fazer, ser-te-á, na hora da morte, como nova espada de dor. 

Eia, pois, coragem! Já que ainda tens tempo de evitar morte tão deplorável, apressa-te a aplicar o remédio, sem esperar por ocasião oportuna a que não há de oferecer nenhuma esperança. Não o deixes para outro mês, nem o adies por uma semana...

Quem sabe se esta luz que Deus, em sua misericórdia, te concede, será a última exortação que te faz?... É necessidade não querer pensar na morte, que é certa e da qual depende a eternidade. Mas loucura ainda maior é pensar na morte e não preparar-se para morrer bem. Faze agora as reflexões e resoluções que farias se estivesses nesse transe. Aquilo que agora fizeres, o farás com fruto, e naquela hora será em vão. Agora, com esperança de salvação; então, com desconfiança de alcançá-la...

Ao despedir-se de Carlos V um personagem que abandonava o mundo para dedicar-se ao serviço de Deus, perguntou o imperador por que deixava a corte. Respondeu aquele: "É necessário, para salvar-se, que, entre a vida desordenada e a morte, exista um intervalo de penitência".


AFETOS E SÚPLICAS

Não, meu Deus, não quero continuar a abusar de vossa misericórdia. 

Agradeço-vos a luz com que me iluminais agora, e prometo mudar de vida, pois reconheço que já não podeis suportar minha ingratidão...

Acaso, posso eu querer que me envieis ao inferno, ou que me entregueis a uma vida relaxada, que seria maior castigo que a própria morte? Prosto-me a vossos pés para rogar que me recebais em vossa graça. Não o mereço, mas vós, Senhor, dissestes: "Em qualquer dia em que o ímpio se converter, a impiedade não o prejudicará" (Ez 33,12). Se no passado, meu Jesus, ofendi vossa infinita bondade, hoje arrependo-me de todo o coração, e espero de vós o perdão. Direi com Santo Anselmo: Não permitais, Senhor, que se perca a minha alma, já que a resgatastes com vossa sangue. Não olheis minha ingratidão, mas sim o amor que vos fez morrer por mim, não obstante ter perdido vossa graça. Vós, Senhor, não perdestes o poder de má restituir. Tende compaixão de mim, ó amado Redentor meu! Perdoai-me e dai-me a graça de vos amar. 

Eu vos prometo que somente a vós quero amar. Se, pois, me escolhestes para outorgar-me vosso amor, eu vos elejo, ó Soberano Bem, para amar-vos sobre todo outro bem... Precedestes-me carregando a cruz; eu vos seguirei com a cruz que me derdes para levar, abraçando os trabalhos e as mortificações. Para gozo do meu espírito, basta-ne que não me priveis de vossa graça...

Maria Santíssima, minha esperança, alcançai-me de Deus a perseverança e a graça de o amar: e nada mais peço. 


PONTO III

Para o moribundo que, durante sua existência, não zelou o bem de sua alma, serão espinho todos os objetos que se lhe apresentarem. 

Espinhos a lembrança dos prazeres gozados, dos triunfos e das vaidades do mundo. Espinhos a presença dos amigos que o visitem e as coisas que eles lhe recordarão. Espinhos os sacerdotes que o assistem, e os sacramentos que deve receber, confissão, comunhão e extrema-unção; até o crucifixo que apresentam será como espinho de remorso, porque o pobre moribundo verá na santa imagem quão pouco correspondeu ao amor de um Deus que morreu para salvá-lo. 

"Grande foi minha insensatez! - dirá então o enfermo. - Podia ter-me santificado com as luzes e os meios que o Senhor me ofereceu; podia ter levado vida feliz na graça de Deus, e que me resta depois de tantos anos perdidos, senão desconfiança e angústia e remorso de consciência, e contas severas a dar a Deus? Difícil é agora a salvação de minha alma..." E quando fará ele tais reflexões?... Quando está para se extinguir a lâmpada da vida, quando está a finalizar a cena deste mundo, quando se encontra face a face com as duas eternidades, a feliz e a desgraçada, quando está prestes a exalar o último suspiro, de que dependem a bem-aventurança ou a condenação permanentes, eternas, enquanto Deus for Deus. O que daria então para dispor de mais de um ano, um mês, uma semana sequer, em juízo perfeito, porque naquele estado de enfermidade, aturdida a mente, oprimido o peito, alterado o coração, nada pode fazer, nada pode meditar, nem conseguir que o espírito abatido leve a cabo um ato meritório! Sente-se como encerrado num fosse escuro, onde tudo é confusão, onde nada percebe senão a grande ruína que o ameaça e à qual se vê na impossibilidade de fugir...

Pedirá tempo. Mas ser-lhe-á dito: Proficiscere, parte: em seguida tuas contas como melhor puderes neste agitado momento, e parte sem demora. Não sabes que a morte nunca espera, nem tem consideração com ninguém? Oh! com que terror o enfermo refletirá: nesta manhã ainda vivo; à noite talvez já esteja morto! Hoje estou ainda em meu quarto; amanhã estarei na sepultura... e minha alma: onde estará?... Que susto quando vir preparar o círio fúnebre; quando sentir o suor frio da morte; quando ouvir seus parentes dizer que sairá do quarto para nunca mais entrar; quando começar a perder a vista, e por último, quando acenderem a luz que há de brilhar no derradeiro instante de sua vida. Ó luz bendita, quantas verdades descobrirás então! Como farás ver as coisas diferentes do que são agora! Como farás ver as coisas diferentes do que são agora! Como farás conhecer que todos os bens deste mundo são vaidades, loucuras e mentiras!... Mas de que servirá compreender estas verdades, quando já não haverá tempo para se aproveitaram? 


AFETOS E SÚPLICAS

Não quereis, Senhor, a minha morte, mas que me converta e viva. 

Profunda gratidão me inspiram vossa paciência em esperar de mim até hoje, e as graças que me outorgastes. Conheço o erro que cometi, preferindo à vossa amizade os vis e míseros bens pelos quais vos desprezei. 

Arrependo-me de todo o coração de ter-vos ofendido. Não deixeis, pois, de assistir-me com vossa luz e vossa graça, nos dias que me restam de vida, a fim de que possa conhecer e praticar o que deva fazer para emendar minha vida. Que proveita teria, se arrependesse estas verdades; mas já não houvesse tempo de me corrigir?... "Não entregues às feras as almas que te louvam" (Sl 73,19). Quando o demônio me excitar a ofender-vos de novo, rogo-vos, ó Jesus, pelos merecimentos de vossa Paixão, que me livreis de recair em pecado e de voltar à escravidão do inimigo. Fazei que sempre recorra a vós, e que não cesse de encomendar-me a vós enquanto durar a tentação. Vosso sangue é minha esperança, e vossa bondade o meu amor. Amo-vos, ó Deus, digno de amor infinito; fazei que vos ame sempre e que conheça as coisas de que devo afastar-me para ser todo vosso como desejo. Dai-me forças para executar esta resolução. Vós, Rainha do céu e minha Mãe, rogai por mim, pobre pecador. Fazei que nas tentações não deixe de recorrer a Jesus, e a vós, que, pela vossa intercessão, preservais de cair em pecado a quantos invocam vosso auxílio. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte. 

Fonte imagem: The death of Cardinal Wolsey at Leicester Abbey, 1530. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

3º Mandamento de Deus (continuação): Guardar domingos e festas



 1. As obras liberais, nas quais o espírito toma mais parte que o corpo, como escrever, ler, ensinar, desenhar, estudar, tocar instrumentos de música, etc., etc., são permitidas nos domingos. 

2. São também permitidas as obras que se chamam comuns, como varrer, caçar, pescar, etc.

3. A profanação do domingo é muito nociva à sociedade, e muitas vezes Deus a pune nesta vida com terríveis castigos.

4. O descanso do domingo é muito útil ao nosso corpo, porque assim reparam-se as forças, conserva-se a saúde e prolonga-se a vida.

5. Na lei antiga, a profanação do sábado era castigada com a morte. Por isso, os Fariseus e os Escribas, que buscavam sempre a ocasião de por Jesus em contradição com a lei de Moisés, acusavam-no de violar a lei do sábado, porque fazia milagres nesse dia curando os enfermos. Eis aqui o que nos narram os evangelistas a esse respeito: Num dia de sábado, ia Jesus caminhando, e seus discípulos, que tinham fome, começaram a colher espigas e a comer delas. E vendo isto os Fariseus, lhe disseram: Estão fazendo os teus discípulos o que não é permitido fazer nos sábados. Porém ele lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi quando ele teve fome e os que com ele estavam, como entrou na casa de Deus e comeu os pães da proposição, os quais não era lícito comer nem a ele, nem aos que com ele estavam, mas unicamente aos sacerdotes? Ou não tendes lido na lei que os sacerdotes nos sábados, no templo, quebrantam o sábado e ficam sem pecado? Pois digo-vos que aqui está o que é maior que o templo. E se vós soubesseis o que é: misericórdia quero e não sacrifício, jamais condenareis aos inocentes. E porque o Filho do Homem é senhor até do sábado mesmo. E depois de partir dali veio à sinagoga deles, e aparece um homem que tinha paralisada uma das mãos, e eles, para terem do que o arguir, lhe fizeram esta pergunta: será  por ventura lícito curar aos sábados? E ele lhes disse: Que homem haverá por acaso entre vós, que tenha uma ovelha, e se esta lhe cair  no sábado em uma cova não lhe lance a mão para dali a tirar? Ora, quanto mais excelente é um homem do que uma ovelha. Logo é lícito fazer bem nos dias de sábado. Então disse para o homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu e lhe foi restituída sã como a outra. Mas os Fariseus saindo dali consultavam contra ele, como o fariam morrer. (Mt 12, 1-14).

Lemos no evangelho de São Lucas: Jesus estava ensinado na sinagoga dos Judeus nos sábados, e eis que veio ali uma mulher, que estava possessa dum espírito imundo que a tinha doente havia dezoito anos, e andava ela encurvada, e não podia absolutamente olhar para cima. Vendo-a Jesus, chamou-a a si e disse-lhe: Mulher, estás livre do teu mal. E pôs sobre ela as mãos, e no mesmo instante ficou direita e glorificava a Deus. Mas entrando a falar o chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus fazia curas em dia de sábado, disse para o povo: Seis dias estão destinados para trabalhar: vinde pois nestes dias a ser curados, e não em dia de sábado. Mas o Senhor respondendo lhe disse: Hipócritas, não desprende cada um de vós nos sábados o seu boi, ou o seu jumento, e não os tira da estrebaria para o levar a beber? Por que razão se não devia livrar deste cativeiro em dia de sábado esta filha de Abraão que Satanás tinha assim presa do modo que vedes havia dezoito anos? E dizendo ele estas palavras, se envergonhavam todos os seus adversários. (Lc 12, 10-17).


Explicação da gravura

6. A lei antiga mandava lapidar os profanadores do sábado. Vê-se na parte superior o suplício de um homem que tinha apanhado lenha no sábado.

7. Na parte inferior esquerda está representado o Senhor com os seus discípulos que, tendo fome, colhem espigas e as comem.

8. Na parte inferior direita vê-se a cura, feita num sábado, do homem que tinha a mão ressequida.



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Como Jesus fundou a sua Igreja

Quando Jesus andava neste mundo, seu proceder foi inteiramente excepcional. Filho de mãe pobre, de nome Maria, desposada com um modesto carpinteiro, chamado José, não frequentou aulas. Aos trinta anos de idade começou repentinamente, sem preparação alguma, confiando unicamente em si mesmo, a pregar uma nova doutrina, dizendo-se Filho de Deus vivo. Jamais mortal algum, antes ou depois de Jesus, se lembrou de proclamar-se Deus. E ele provou a sua divindade, sua missão e doutrina com inúmeros milagres, cada qual mais estupendo. Enfim pôs remate a todos: ressuscitou ao terceiro dia como claramente predissera. 
Para provar ainda mais sua divindade e, por conseguinte, a de sua doutrina, de sua obra e de seu reino, escolheu pescadores, simples pescadores ignorantes, para fundar um reino acima de todos os reinos: são baldos de toda instrução superior, sem jurisprudência, sem filosofia, sem diplomacia, sem estratégia; falta-lhes tudo: dinheiro, recursos, exércitos, simplesmente tudo. 
Assim começaram a loucura da pregação, contrariando em tudo as inclinações humanas, declarando guerra a soberba, ao luxo, a riqueza, a sensualidade, ao gozo e a liberdade desenfreada, a tudo que o homem por natureza estima; eles declaram guerra sem tréguas a todas as religiões pagãs, a todos os deuses, que não são o Deus deles e dali a todas as instituições pagãs, a todos os sacerdotes pagãos, a todos os governos pagãos. 
E milagre dos milagres: eles venceram e estão vencendo ainda. 
O que parecia loucura rematada, revela-se sabedoria e poder divino, avança, derruba, triunfa. 
Contra os doze pescadores desarmados, ignorantes, as legiões romanas, jamais vencidas, se põem em movimento, marcham, desembainham os gládios luzentes e afiados. Agora, porém, se lhe opõe outro exército, capitaneado por pescadores, composto de gente inocua: homens e jovens sem armas, que nem querem defender-se, mas preferem oferecer sem resistência alguma os seus pescoços desnudados, para que sejam cortados; mulheres fracas, donzelas tímidas, até crianças.
Será possível que soldados briosos, que comandantes invictos se aviltem ao ponto  de enodar, sujar as suas espadas com sangue de gente pacata, inerme, até de mulheres e crianças? Sim. Fizeram-no! 
O sangue inocente, inocuo, corre a rios, embebendo a terra: a espada romana fica desprezada, pois ficou manchada de sangue imbele: a águia romana torna a ser simples ave de rapina, de garras sujas, manchada de sangue fraco, mas desprezível que o abutre, o urubu. 
Após três séculos de luta inglória para os romanos, a cruz é plantada sobre o frotispicio do Capitolio de Roma: Júpiter destronado jaz esmagado por terra, ainda úmida do sangue dos mártires da fé. 
Os pescadores venceram, imolando o seu próprio sangue. 
Assim se fundou o cristianismo, continuou pelos séculos, assim hoje ainda é: haja visto o México, a Hungria, a Turquia, a Rússia, a China: em breve seguirão outros países. 
Eis o maior milagre de Cristo Deus: a fundação e extensão de sua Igreja.
A vitória de Jesus continua, é a vitória dos mártires da fé. 
Após dezenove séculos (vinte e um) Jesus ainda vence até no sexo fraco: o corpo débil, tenro, duma criança inocente jaz morto por terra, ainda verte sangue, mas a vontade ficou firme, inabalável, não se dobrou, mas triunfou da ferocidade satânica; foi assim no tempo dos Cesares, e assim é hoje com Calles, Lenines, Trotzkys, Bela Kuns, Stalins e outros demônios em carne humana. 
O corpo sucumbe, mas a vontade, a alma venceu, apesar de atrocidades inauditas. A doutrina de Cristo é sublime e sem comparação: é divina. 
A sua verdade fulge e brilha para esclarecimento dos bem intencionados, ofuscando os olhos do espírito aos demais, que não querem o triunfo da virtude. 
Só Deus pode proceder e vencer assim. 

F.I. Westerveld, O.F.M - 1930

terça-feira, 24 de setembro de 2013

" Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29)

Ladainha da Humildade

( Que Dom Columba Marmion e o Servo de Deus, o Cardeal Merry del Val, entre outros, costumavam recitar frequentemente).
Santa Tereza: "Enquanto vivemos nesta terra, não há coisa que mais importa para nós do que a humildade" ( Cap. 2° das Moradas, n° 9).

Rezemos, pois, com frequência a Ladainha da Humildade!

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus, manso e humildade de coração, ouvi-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser amado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser buscado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser louvado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser honrado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser preferido, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser consultado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser adulado, livrai-me, Jesus!

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser desprezado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser rejeitado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser caluniado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser esquecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser escarnecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser injuriado, livrai-me, Jesus!

Que os outros sejam mais amados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam mais estimados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam crescer na opinião do mundo e que eu possa diminuir - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que aos outros seja concedida mais confiança no seu trabalho e que eu seja deixado de lado - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam louvados e eu esquecido - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser preferidos a mim em tudo - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser mais santos do que eu, contanto que eu pelo menos me torne santo como puder - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo! 
Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por nós!
São José, protetor das almas humildes, rogai por nós!
São Miguel, que fostes o primeiro a lutar contra o orgulho e o primeiro a abatê-lo, rogai por nós!

Ó justos todos, santificados a partir do espírito da humildade, rogai por nós!

Oração

Ó Deus que, através do ensinamento e do exemplo do Vosso Filho Jesus, apresentastes a humildade como chave que abre os tesouros da graça ( cfr. Tg 4,6) e como fundamento de todas as outras virtudes - caminho certo para o Céu - concedei-nos, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais humilde e a mais santa de todas as criaturas, aceitar agradecendo todas as humilhações que a Vossa Divina Providência nos oferecer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

A humildade
I. O que é

A humildade é a virtude sobrenatural que, pelo conhecimento de Deus e de nós mesmos, nos mostra nosso verdadeiro valor e, por isso, regula em nós as duas profundas e desordenadas inclinações da estima de si e do desejo de estima dos outros - opõe-se pois à soberba. 

II. Necessidade da Humildade

Jesus disse: "Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos Céus" (Mt 18, 3-4)

De fato, duas expressões sintetizam a vida do soberbo:

1. "Eu conto comigo" - Insensatez! Jesus, pois, disse: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15,17)

2. "Eu trabalho pra mim" Desordem e injustiça! Pois Deus deve ser o objeto final de tudo aquilo que Ele criou.

A vida do humilde, pelo contrário, sintetiza-se nas duas expressões opostas:

1° "Eu conto com Deus" Confiança e Coragem.

2° "Eu trabalho para Deus!" Reta intenção.

III. Difícil prática da Humildade

Três são os principais meios para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

1. Pedi-la incessantemente a Deus (ótimo hábito de rezar diariamente a Ladainha da Humildade).

2. Meditar frequentemente sobre os motivos pelos quais devemos ser humildes. Que não saiam de nossos olhos: a altíssima lição dos exemplos do Messias humilde em sua vida, em sua morte e na Eucaristia; e a insistente exortação de Jesus sobre a humildade de coração.

3. Aceitar, agradecendo, todas as humilhações que a Providência nos oferecer.

"Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes concede a graça" (Pr 3,36; 1P 5,5; Tg 9,4-6).

"Aquele que se exaltar será humilhado; e quem se humilhar será exaltado" (Mt 23,12).

Fonte: Folheto n° 6 da Série: "Doutrina Católica", editado pelo Instituto Diocesano Missionário dos Servos da Igreja - Com Aprovação Eclesiástica