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sábado, 15 de janeiro de 2022

Nossa Senhora dos Mártires


 Lisboa - Portugal


D. Afonso Henriques, primeiro monarca português, via com grande mágoa tremularem, as luas maometanas na ínclita cidade de Lisboa, e o desejo de libertar a cidade do jugo odioso dos inimigos da sua fé aumentava dia a dia em seu piedoso coração. E um dia, quando estava entregue a esses pensamentos, eis que surge, no vasto oceano, a verdadeira Estrela do Mar, Maria Santíssima, que, representada em uma devota imagem, vem acompanhando uma luzida armada de Cruzados, composta de alemães, franceses e ingleses; vinham dos portos do norte com o fim de resgatar a Terra Santa do poder dos bárbaros, e, inesperadamente, por disposição divina, arribaram à costa de Portugal. 

O piedoso Monarca, depois de saber qual era o fim daquela armada, convida-os à conquista de Lisboa, porque, explicou-lhe ele, seria muito do agrado do Senhor contribuirem para a exaltação da santa Religião em um reino que o mesmo Senhor pouco antes fundara de uma maneira tão gloriosa. 

Aceitaram os Cruzados o convite, e se dispuseram para um tão ilustre feito, de cujo resultado não duvidou o Rei, quando soube que eles traziam na armada, como sua Protetora, uma imagem de Nossa Senhora. 

Deixando, pois, as naus, desembarcaram os Cruzados nas praias de Lisboa, conduzindo igualmente para terra a sagrada imagem, que desde o princípio da viagem lhes havia servido de consoladora companhia.

O lugar onde hoje se acha construído o templo de São Vicente de Fora é ocupado pela divisão dos Cruzados, ocupando a divisão dos portugueses o lugar em que foi construído o santuário em que é venerada hoje a imagem de que nos ocupamos, a qual foi colocada nesse lugar, com a permissão do general dos Cruzados, Guilherme da Longa Espada. 

Transportado de júbilo, por possuir no seu arraial um tão precioso tesouro, o rei Afonso, confiando firmemente na proteção da Santíssima Virgem, fez o voto de erigir em sua honra um santuário, que aos vindouros patenteasse o seu reconhecimento, se por intercessão de tão poderosa Protetora conseguisse a suspirada vitória. 

Quando o Rei formava o plano do grande ataque, que havia de decidir a conquista de Lisboa, inesperadamente é informado de que um reforço considerável de infiéis avançava pelo lado de Sacavem, com o fim de socorrer os irmãos avançava mas, e malograr os seus (dele, do Rei) projetos. Longe, porém, de se aterrar com tão inesperada nova, o Rei julga-a como feliz anúncio de suas futuras vitórias; porque, escudado com a proteção de Maria Santíssima, Senhora nossa, nada tem a temer dos setários de Mafoma, e sai ao encontro do tal reforço, e tão valorosamente o investe, que muitos dos inimigos acham desprezível sepulcro no mesmo lugar em que pouco antes se prometiam mutuamente a vitória. 

O rei Afonso reconhece no feliz resultado deste primeiro conflito a proteção visível da Santíssima Virgem, e, em solene testemunho de sua gratidão, manda ali mesmo edificar uma pequena capela em honra de Maria Santíssima. 

Na tomada de Lisboa, os soldados de Afonso com os seus aliados foram novamente auxiliados pela puríssima Mãe de Deus, que os protegeu até entrarem na posse da sede da monarquia dos lusos, cujas portas lhes foram gloriosamente abertas no dia 25 de outubro de 1147, dia memorável em que, entrando em Lisboa o exército vencedor, os cristãos, prostrados diante da verdadeira Judite, sua libertadora, representada naquela imagem, a saudaram agradecidos com os betulianos à vencedora de Holofernes - Tu és a glória de Lisboa, a alegria dos seus habitantes, a honra do povo português. 

Libertada Lisboa do bárbaro jugo pela poderosa proteção de Maria Santíssima, o Rei tratou zeloso do bem estar daqueles generosos Cruzados que tanto o haviam ajudado na sua conquista, e, não se esquecendo dos mortos, procurou um lugar decente, em que pudessem ser sepultados os corpos daqueles a quem a piedade dos fiéis já chamava mártires, por terem dado com a vida um testemunho da sua fé. 

Benzido o terreno, foram sepultados os restos mortais dos devotos guerreiros falecidos na batalha, e os sobreviventes construíram uma capela, para a qual logo transladaram a imagem de Nossa Senhora, e, para maior veneração da Santíssima Virgem, edificaram na proximidade da capela umas pequenas celas para habitação dos vários sacerdotes inglêses, a quem presidia o venerável sacerdote Gilberto, com o fim de se empregarem cotidianamente nos louvores da Mãe de Deus. 

Logo depois tratou o agradecido Monarca de dar cumprimento fiel ao voto que tinha feito à Santíssima Virgem; manda, pois, levantar em seu louvor um santuário, para nele ser colocada a veneranda imagem dedicado à Mãe de Deus, com a invocação ou título de - Nossa Senhora dos Mártires, por ser o templo edificado no lugar em que estavam sepultados os valorosos cristãos que haviam morrido em defesa da Fé, e que eram chamados mártires. 




O Rei esmerou-se na construção deste santuário, que seria santificado pela real presença de Deus, e aformoseado com a imagem de sua Mãe Santíssima.

Os muitos terremotos que lastimosamente se fizeram sentir em Lisboa, em diferentes ocasiões, arruinaram mais uma vez este majestoso santuário, que foi sempre reparado.

A últíma reconstrução foi concluída a 18 de março de 1774, e nesse mesmo dia foi para lá transladada a imagem de Nossa Senhora dos Mártires, que lá está até hoje. 

Este título foi consentido pelos venerando bispos daqueles tempos, e depois pelo Sumo Pontífice Urbano VI, que elevou o santuário à categoria de Basílica, com o nome de - Basílica de Santa Maria junto aos Mártires. 

É esta a origem do título -  Nossa Senhora dos Mártires, título que por outros motivos já lhe era sumamente glorioso; porque, sendo Ela a Mãe do maior dos Mártires, Nosso Senhor Jesus Cristo, sua alma santíssima sentiu todos os tormentos da paixão de seu Filho, e a ímpia lançada, que o Filho morto já não sentiu, foi cravada em sua puríssima alma; é Rainha dos Mártires, como lhe chama a Santa Igreja, porque, pelo seu martírio inigualável, é a Fortaleza dos mártires em seus combates, e a Consoladora dos que vivem martirizados pelos trabalhos e sofrimentos desta triste vida, e, nos dias de hoje, acrescentemos nós a esta notícia antiga, é a Fortaleza e a Consoladora dos que vivem martirizados ou martirizados morrem pela sua Fé, pela crueldade dos desumanos inimigos de Deus e de nossa Santa Religião. 

É grande a devoção e gratidão dos portugueses a Nossa Senhora dos Mártires. 


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Católicos que ledes este livro, não vos esqueçais de que é moralmente impossível perder-se um verdadeiro devoto de Maria Santíssima.

Aprendei, pois, com o rei Afonso e seus patrícios a depor na Mãe de Deus a vossa confiança, invocando-A também com este apropriado título de  - Nossa Senhora dos Mártires, principalmente nas vossas angústias e sofrimentos. 

(Esta notícia histórica é um resumo do folheto "Novena em obséquio a Nossa Senhora dos Mártires", cuja imagem se venera na real paróquia deste título em Lisboa, folheto este impresso em 1889.)



Maria e seus gloriosos títulos - Edéssia Aducci

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Como Jesus fundou a sua Igreja

Quando Jesus andava neste mundo, seu proceder foi inteiramente excepcional. Filho de mãe pobre, de nome Maria, desposada com um modesto carpinteiro, chamado José, não frequentou aulas. Aos trinta anos de idade começou repentinamente, sem preparação alguma, confiando unicamente em si mesmo, a pregar uma nova doutrina, dizendo-se Filho de Deus vivo. Jamais mortal algum, antes ou depois de Jesus, se lembrou de proclamar-se Deus. E ele provou a sua divindade, sua missão e doutrina com inúmeros milagres, cada qual mais estupendo. Enfim pôs remate a todos: ressuscitou ao terceiro dia como claramente predissera. 
Para provar ainda mais sua divindade e, por conseguinte, a de sua doutrina, de sua obra e de seu reino, escolheu pescadores, simples pescadores ignorantes, para fundar um reino acima de todos os reinos: são baldos de toda instrução superior, sem jurisprudência, sem filosofia, sem diplomacia, sem estratégia; falta-lhes tudo: dinheiro, recursos, exércitos, simplesmente tudo. 
Assim começaram a loucura da pregação, contrariando em tudo as inclinações humanas, declarando guerra a soberba, ao luxo, a riqueza, a sensualidade, ao gozo e a liberdade desenfreada, a tudo que o homem por natureza estima; eles declaram guerra sem tréguas a todas as religiões pagãs, a todos os deuses, que não são o Deus deles e dali a todas as instituições pagãs, a todos os sacerdotes pagãos, a todos os governos pagãos. 
E milagre dos milagres: eles venceram e estão vencendo ainda. 
O que parecia loucura rematada, revela-se sabedoria e poder divino, avança, derruba, triunfa. 
Contra os doze pescadores desarmados, ignorantes, as legiões romanas, jamais vencidas, se põem em movimento, marcham, desembainham os gládios luzentes e afiados. Agora, porém, se lhe opõe outro exército, capitaneado por pescadores, composto de gente inocua: homens e jovens sem armas, que nem querem defender-se, mas preferem oferecer sem resistência alguma os seus pescoços desnudados, para que sejam cortados; mulheres fracas, donzelas tímidas, até crianças.
Será possível que soldados briosos, que comandantes invictos se aviltem ao ponto  de enodar, sujar as suas espadas com sangue de gente pacata, inerme, até de mulheres e crianças? Sim. Fizeram-no! 
O sangue inocente, inocuo, corre a rios, embebendo a terra: a espada romana fica desprezada, pois ficou manchada de sangue imbele: a águia romana torna a ser simples ave de rapina, de garras sujas, manchada de sangue fraco, mas desprezível que o abutre, o urubu. 
Após três séculos de luta inglória para os romanos, a cruz é plantada sobre o frotispicio do Capitolio de Roma: Júpiter destronado jaz esmagado por terra, ainda úmida do sangue dos mártires da fé. 
Os pescadores venceram, imolando o seu próprio sangue. 
Assim se fundou o cristianismo, continuou pelos séculos, assim hoje ainda é: haja visto o México, a Hungria, a Turquia, a Rússia, a China: em breve seguirão outros países. 
Eis o maior milagre de Cristo Deus: a fundação e extensão de sua Igreja.
A vitória de Jesus continua, é a vitória dos mártires da fé. 
Após dezenove séculos (vinte e um) Jesus ainda vence até no sexo fraco: o corpo débil, tenro, duma criança inocente jaz morto por terra, ainda verte sangue, mas a vontade ficou firme, inabalável, não se dobrou, mas triunfou da ferocidade satânica; foi assim no tempo dos Cesares, e assim é hoje com Calles, Lenines, Trotzkys, Bela Kuns, Stalins e outros demônios em carne humana. 
O corpo sucumbe, mas a vontade, a alma venceu, apesar de atrocidades inauditas. A doutrina de Cristo é sublime e sem comparação: é divina. 
A sua verdade fulge e brilha para esclarecimento dos bem intencionados, ofuscando os olhos do espírito aos demais, que não querem o triunfo da virtude. 
Só Deus pode proceder e vencer assim. 

F.I. Westerveld, O.F.M - 1930