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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Santo Antônio - Martelo dos Hereges

 



Ajude este apostolado colaborando com qualquer valor. 

Deus abençoe por Maria!


Antônio, a despeito da nova tarefa, não abandonou o ministério da pregação. A carreira do ensino, que ainda apenas se abria diante dele, ia fechar-se logo depois; ela foi em sua vida só um curto parêntesis. Sua verdadeira vocação era o apostolado; salvo, porém, que exigindo-o as circunstâncias, ele era de estatura para conduzir qualquer empresa. 

Em 1224, pregou a quaresma em Vercelli. Esta missão lhe fora oferecida pelo bispo Hugo, que governava a diocese; desempenhou-a com o zelo de costume, e os resultados excederam a expectativa. Segundo o testemunho dos historiadores, a igreja de Sto. Eusébio, cujas proporções eram consideráveis, não estava um instante vazia: noite e dia o povo se aglomerava, impaciente de ouvir a palavra do homem apostólico que a Providência lhe tinha enviado. Um acontecimento extraordinário veio ainda aumentar o movimento de conversão que a graça havia produzido. Uma manhã, quando o infatigável missionário pregava diante de numerosa assistência, ouviram-se soluços e gritos dilacerantes que partiam de uma das capelas laterais da basílicas: celebravam-se os funerais de um jovem que a morte roubara à ternura da família. Os parentes e os amigos, tomados de viva dor, banhavam de lágrimas o caixão, lamentando a perda sofrida. A cena comoveu os presentes, e o logo ressoaram na igreja exclamações tristes e gemidos que saíam de todos os peitos. Antônio participou da comoção geral, e interrompeu o seu discurso. Levantou os olhos para o céu, e pareceu como que absorto em ardente oração. Quando retomou a palavra, foi para se dirigir ao morto, que ia se enterrar: ordenou-lhe em nome de Jesus Cristo, que tinha ressuscitado o filho da viúva de Naim, que voltasse à vida e saísse do seu caixão. À voz do apóstolo, que já não estava só na estreia do ofício de milagreiro, o moço ergue-se, e caminhou radiante de saúde, à frente de sua família, transportada de assombro e de felicidade. O efeito deste prodígio foi imenso: renderam-se logo a Deus solenes ações de graças. Porém, o lucro o qual, desde esse momento, o custo pôde bastar para a tarefa; tão abundante se tornou a messe. 

Depois do primeiro Capítulo geral da Ordem, em 1216, S. Francisco havia estabelecido a missão de França. 

Em 1224, o seu fundador sempre inspirado por Deus, se decidiu a lá enviar Antônio, "a pérola de sua Ordem".

A escolha de um tal obreiro explica-se pelo deplorável estado a que se achavam reduzidas as províncias meridionais desse país. Meu assunto leva-me a traçar disto um rápido esboço. 

Desde cem anos, a heresia parecia ter-se naturalizado na região que se estende dos Alpes ao Garona e dos Prineus às montanhas do Auvergne. Quando ela em algum lugar sucumbia, era para em breve renascer sob outra forma, conservando a mesma índole. Na primeira metade do século XII, Pedro de Bruys, e seu discípulo Henrique, ambos monges que abandonaram a religião, agitaram o Delfinado e o Languedoc. Engêncio III enviou S. Bernardo para combater estes inimigos da fé e da paz pública. O abade de Claraval descarregou sobre eles duros golpes a que não haviam de sobreviver. Os Valdenses tomavam-lhes o lugar. Herdaram estes algumas de suas ideias, e sobretudo o seu fanatismo, continuando, ainda em maior escala, as devastações que eles tinham começado. Foram, porém, atacados com vigor; e, quando, esmagados pelo número, se recolheram às montanhas das Cévennes e do Piemonte, os Albigenses ocuparam o primeiro plano da cena. 

Os Albigenses eram a expressão mais completa dos erros que as seitas precedentes arrastavam como um barro impuro. À maneira de todas as escolas pagãs ou anticristãs, eles tinham duas doutrinas: uma doutrina metafísicas, professada em segredo por um número pequeno de iniciados; e uma doutrina popular, destinada aos simples e aos ignorantes. Sua metafísica não era outra coisa mais do que o maniqueísmo, velha heresia que havia atravessado os século no estado de sociedade secreta, para ela o único meio de escapar às sanções da opinião humana; e que aparecia aqui e ali a grandes intervalos como esses monstros que seguem no fundo do oceano caminhos ignorados, e que às vezes levantam a sua cabeça secular acima das ondas.  A doutrina popular consistia em recusar o batismo às crianças antes da idade da razão; em não permitir nem altares nem igrejas; em proibir adorar-se a cruz, e obrigar a celebração da missa; enfim, em rejeitar as orações e as boas obras pelos mortos. 

A moral dos Albigenses era conforme o seu símbolo. Partindo da ideia de que o mal é eterno como Deus e, por conseguinte, Deus como Ele, acabavam logicamente pelo fatalismo que destrói a responsabilidade da consciência, negando sua Liberdade, e autoriza todas as desordens. Daí um sensualismo desenfreado, pior que o de Maomé, professado no Alcorão, e que os seus fiéis fizeram entrar em seus costumes. Atacando o matrimônio, que chamavam coito impudico, tomavam ares de apóstolos da castidade; ao passo que sobre os destroços da instituição conjugal estabeleciam uma vergonhosa libertinagem, nos mistérios de suas reuniões privadas. 

Os Albigenses, porém, eram mais do que uma escola, constituíram uma sociedade que, ficando meio subterrânea para ocultar sua feiúra, tinha aparecido para o mundo exterior e tomara lugar ao sol da Europa cristã, a despeito da Igreja e das leis do Estado. Não contentes de vulgarizar seus dogmas, eles os praticavam, atacando a ferro e fogo populações pacíficas, que entendiam governar o que era seu e manter a posse de sua fé e dos direitos políticos e civis que dela decorriam nessa época. 

A idade média, que não poupava o erro puro, não devia perdoar ao erro armado e fraticida. Por conseguinte, os papas e os reis uniram-se contra os Albigenses, como se haviam unido contra os Sarracenos. Alexandre III excomungou-os no terceiro Concílio de Latrão, no ano de 1179. Inocêncio III organizou contra eles a primeira cruzada. 

Agora, qual foi a parte dos Frades Pregadores e dos Frades Menores nestas duas expedições, cujo caráter era uma vez político-religioso? Durante a primeira expedição, a parte principal pertence incontestevelmente aos Frades Pregadores. Eles nasceram no campo de batalha, e expressamente para marchar contra os novos maniqueus com o gládio da palavra. Enquanto S. Francisco se recolhia com seus filhos sob cabanas de folhas, armadas no fundo do vale de Assis, S. Domingos tirava de seu coração uma nova mílicia que ia acampar altiva junto aos muros de Tolosa. 

Estava, pois, o nosso herói tão bem armado de texto decisivos tomados à Santa Escritura, suas provas eram tão sólidas e evidentes, que os míseros adeptos do erro não ousavam aparecer em sua presença nem abrir a boca para lhe responder. Podiam ser-lhe aplicadas, em toda a verdade, as palavras de Jesus Cristo a seus discípulos: Dar-vos-ei lábios eloquentes e uma sabedoria, a que os vossos inimigos não poderão resistir e que eles se guardarão de contradizer. Era mestre na arte de descobrir as fraudes e os artifícios dos hereges; sabia frustar os seus projetos; desmacarava suas doutrinas abomináveis e imprimia-hes o estigma de sua palavra. Como ele mesmo confessava-o de público, não era fácil achar parte alguma quem perseguisse os hereges com tanto ardor e constância.

Vieram por isso todos a chamá-lo o incansável Martelo dos hereges. Os trabalhos deste homem apostólico não ficaram sem fruto. A maior parte dos hereges e os que os favoreciam, voltavam para a verdade, e submetiam-se à autoridade da Santa Madre Igreja. 

Em Montpellier como em Bolonha, Antônio soube conciliar os deveres do mestre com os trabalhos do apóstolo. Pregava frequentemente, fazendo-se tudo para todos segundo o conselho de S. Paulo, a fim de ganhar a todos para Jesus. Sábio com os Maniques, simples com o pobre povo, correspondia a todas as necessidades da situação. Nesse tempo, ocorreu um acontecimento que faz sua santidade resplandecer aos olhos até dos mais prevenidos. Estando ele no púlpito, num dia de grande festa, em presença de todo o clero da cidade, e no meio de enorme concurso de povo, ao começar em seu convento um ofício, para o qual, por descuido, não buscara quem o subtituísse. Era regra que nas principais solenidades dois Frades, dos mais considerados na comunidade, cantassem no coro durante a missa conventual. Naquele dia o servo Deus era um dos designados para essa tarefa. A lembrança causou-lhe viva contrariedade. Viram-no então inclinar-se no púlpito, como que cedendo ao sono, a cabeça envolta no capuz. Mas oh prodígio! No mesmo instante, o homem de Deus apareceu na igreja dos Frades Menores, onde cantou a antífona, enquanto o imenso auditório da catedral o contemplava imóvel e silencioso na tribuna. Este espetáculo durou uma boa hora. Porém o milagre foi logo descoberto. 

Em Tolosa, Antônio operou o famoso milagre, conhecido sob o nome de milagre da mula. Não seja esquecido que entre os erros professados pelos Albigenses estava a negação da presença real de Jesus Cristo no Sacramento do altar. Ora, um dia Antônio sustentou sobre este artigo da fé católica uma longa discussão com certo herege obstinado e influente na cidade. Apertado pela razões sólidas e luminosas do apóstolo, o herege parecia abalado, e propenso a render tributo à verdade; mas parou a meio em tão bom caminho. Como os judeus, esses eternos modelos da cegueira intelectual, pediu sinais prodigiosos: "Prova-me", disse, "por um milagre público, que Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia, como vos esforçastes por estabelecer com os vossos silogismos. Eu juro que renunciarei logo as minhas doutrinas, para me submeter humildemente às que pregais". O desafio era solene: outro qualquer teria hesitado em aceitá-lo. Antônio, sempre inspirado pelo Espírito Santo, respondeu tranquilamente que o aceitava. "Eu possuo uma mula; por três dias deixá-la-ei presa na estrebaria, sem lhe dar nenhum alimento. Decorrido esse tempo, levá-la-ei para a praça diante de todo o povo reunido, e lhe oferecerei de comer. Por vosso lado, vós trareis a hóstia consagrada e apresentá-la-eis à minha mula. Se, a despeito da fome de que estará devorada, ela se desviar do feno e da aveia que eu lhe oferecerei, para ir se prostar ante o vosso Sacramento, eu ficarei convencido, e declarar-me-ei católico". Antônio deu seu consenso à proposta e retirou-se. Foi preparar-se pela oração para vingar a Jesus Cristo dos ultrajes que lhe inflingia a impiedade maniqueia. Reconhecendo-se indigno de ser o instrumento da graça que esperava, pedia a Deus que arrancasse da escravidão do erro tantas almas simples e retas que a torrente da opinião triunfante arrastava para longe de sua Igreja. Chegado o dia da prova imposta, o herege caminhou para a praça, acompanhado de imensa multidão de adeptos, que supunham ir gozar a humilhação do apóstolo franciscano: conduzia a mula pela brida, e levava consigo o alimento que sabia ser o que ela mais gostava. Entretanto, Antônio celebrava a missa numa capela vizinha, com um fervor maior que de ordinário. Quando acabou, recomendou-se aos anjos do santuário; e calmo, não obstante a emoção que o agitava no íntimo, dirigiu-se para o local em que o poder do céu ia manifestar-se. Tinha nas mãos o ostensório de ouro, no meio do qual repousava o Cordeiro que apaga os pecados do mundo. Sua cabeça inclinada, os olhos velados pela modéstia, a fronte resplandecente de uma luz sobrenatural, o andar que lhe traía a santidade: tudo isso era já um espetáculo imponente. Caminhavam atrás dele numerosos fiéis, que recitavam hinos, e estavam impacientes por saber o que sucederia. Chegando à presença de seus adversários, Antônio parou; recolheu-se um instante; em seguida, impôs silêncio à multidão, e voltando-se para a mula, assim lhe falou: "Em nome de teu Criador; que eu trago realmente nas mãos, apesar da minha indignidade; eu te digo, ó animal privado de razão, e te ordeno que venhas imediatamente com humildade prestar-lhe a reverência que lhe deves, a fim de que diante deste sinal os pervertidos hereges reconheçam que toda criatura se deve submeter a seu Criador, que o sacerdócio toca todos os dias no altar". No mesmo instante o dono da mula deu-lhe de comer. Mas - oh prodígio! - o animal que há três dias era guardado à vista e mantido em jejum rigoroso, afastou-se do alimento que se lhe apresentava; e dócil à voz do santo, prostou-se no solo com os dois joelhos e ficou imóvel nessa posição. O povo, que apenas respirava, não pôde conter o seu entusiasmo: aclamações e gritos de alegria romperam de todos os peitos. Os hereges eram derrotados no próprio terreno em que se haviam colocado. Eles sumiram-se logo caladinhos, indo sepultar longe no silêncio a sua derrota e o seu partidarismo obstinado.

Entretanto o servo de Deus não havia perdido o seu tempo. O herege que provocava o milagre se lança aos pés do santo, e adora em alta voz o augusto Mistério, que momentos antes chamava supertição. 

Não se limitou a isto a vitória. O convertido, por sua vez feito apóstolo, reconduziu à verdade toda sua família. Fez construir à própria custa uma igreja que dedicou a S. Pedro, sem dúvida para honrar nele a prerrogativa da fé ortodoxa. Seus descendentes foram além no seu reconhecimento; e, para perpetuarem a lembrança do milagre, edificaram uma capela no próprio lugar em que se havia operado, com uma inscrição em versos destinada a rememorá-lo para sempre. 




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Pe. Antônio At. - História de Santo Antônio de Pádua, Ed. Minha Biblioteca Católica.





sábado, 17 de maio de 2025

Nossa Senhora da Escada





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Deus abençoe por Maria!


 Nossa Senhora da (Conceição) da Escada 

Lisboa - Portugal

A remota tradição da existência deste título é anterior à conquista de Lisboa. Chamaram-lhe primeiro da Corredoura, nome da antiquíssima ermida gótica ao norte do Rocio, e depois, no reinado de D. Afonso II, Nossa Senhora da Conceição da Escada, ou, abreviando, Nossa Senhora da Escada

Edificado o convento de S. Domingos, no reinado de D. Sancho II, a ermida ficou junto da nova igreja. Foi o povo quem deu a essa imagem de Nossa Senhora o título de - da Escada, aludindo aos 31 degraus que dava acesso ao seu Santuário. 

Junto da sua ermida buscavam remanso os pescadores, amarrando os seus barcos aos argolões de ferro chumbados em pilares de cantaria lavrada, e, ao descerem o esteiro do tejo, de gorros sobraçados e de mãos erguidas, pediam-lhe que lhes protegesse as redes. Tão querida e popular foi, que, pelo testemunho de Frei Luís de Souza, todas as procissões que a cidade ordenava, ou para pedir a Deus remédio, ou para necessidades públicas, ou para agradecer mercês recebidas, a essa ermida se dirigiam. 

No reinado de D. Afonso III mais se avigorou esse culto. Gente do mar e da terra procurava-a em romarias, e muitos vinham de longe em batéis enramados, levando-lhe o cumprimento de votos e promessas.

D. Diniz rendeu-lhe preito, dizendo-nos o mesmo historiador que, desde aquela época, uma procissão de brandões acesos se organizavam todos os anos.

No reinado de D. Fernando foi restaurado o seu pequeno Santuário. 

Chegara a época solene e decisiva da sucessão, hora dolorosíssima para o povo português. Campos e várzeas portuguesas eram taladas pela avidez castelhana, avançando para o festim de uma conquista que parecia fácil; porém mais uma vez desceu sobre Portugal o olhar misericordioso de Deus, e o Condestável e D. João lançaram-se no choque tremendo e rápido da batalha de Aljubarrota. 

Quando, no outro dia, um cativo dos castelhanos confirmou a notícia da vitória alcançada, o povo em massa, gente de todas as classes, caminhou descalço para o seu altar. 

Cumprindo o povo os votos que fizera - de três procissões anuais, uma delas no dia 1º de maio, dirigia-se à sua ermida, e as casas punham-se em festa. D. João I restaurou-lhe a ermida. Enfim, todos os monarcas foram devotos de Nossa Senhora da Escada

Em 1531 um terremoto abateu-lhe a ermida, porém a imagem ficou ilesa no seu altar. 

D. João III, reconstruindo Lisboa, logo determinou fosse a ermida a primeira obra a reconstruir; porém, novamente destruída pelos dominadores, a imagem foi salva, tendo ido para a casa dos Franciscanos da Terceira Ordem, onde ficou numa ermidinha; mas em 1505 levantou-se o convento, e, como a imagem tinha o título de - da Escada, e também para ocultá-la à impiedade, colocaram-na no Oratório de uma escadaria que dos claustros dava passagem para as tribunas da capela-mor. 

Na manhã de 1º de novembro de 1755 o seu pequeno refúgio foi novamente abalado pelo grande terremoto que destruiu parte da cidade. O convento e a igreja tornaram-se ruínas; só uma escadaria ficou intacta, mostrando a imagem no pequeno Oratório. 

Acolheram-na almas piedosas, sendo depois levada para a igreja paroquial de Nossa Senhora das Mêrces, onde é venerada, pois o seu culto afervorou-se novamente, fundando-se em 1761 a sua Irmandade. 

(Esta notícia histórica foi-me também enviada de Portugal.)

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Edésia Aducci - Maria e seus gloriosos títulos.

Fonte da imagem: https://www.a12.com/academia/titulos-de-nossa-senhora?s=nossa-senhora-da-conceicao-da-escada

sábado, 15 de janeiro de 2022

Nossa Senhora dos Mártires


 Lisboa - Portugal


D. Afonso Henriques, primeiro monarca português, via com grande mágoa tremularem, as luas maometanas na ínclita cidade de Lisboa, e o desejo de libertar a cidade do jugo odioso dos inimigos da sua fé aumentava dia a dia em seu piedoso coração. E um dia, quando estava entregue a esses pensamentos, eis que surge, no vasto oceano, a verdadeira Estrela do Mar, Maria Santíssima, que, representada em uma devota imagem, vem acompanhando uma luzida armada de Cruzados, composta de alemães, franceses e ingleses; vinham dos portos do norte com o fim de resgatar a Terra Santa do poder dos bárbaros, e, inesperadamente, por disposição divina, arribaram à costa de Portugal. 

O piedoso Monarca, depois de saber qual era o fim daquela armada, convida-os à conquista de Lisboa, porque, explicou-lhe ele, seria muito do agrado do Senhor contribuirem para a exaltação da santa Religião em um reino que o mesmo Senhor pouco antes fundara de uma maneira tão gloriosa. 

Aceitaram os Cruzados o convite, e se dispuseram para um tão ilustre feito, de cujo resultado não duvidou o Rei, quando soube que eles traziam na armada, como sua Protetora, uma imagem de Nossa Senhora. 

Deixando, pois, as naus, desembarcaram os Cruzados nas praias de Lisboa, conduzindo igualmente para terra a sagrada imagem, que desde o princípio da viagem lhes havia servido de consoladora companhia.

O lugar onde hoje se acha construído o templo de São Vicente de Fora é ocupado pela divisão dos Cruzados, ocupando a divisão dos portugueses o lugar em que foi construído o santuário em que é venerada hoje a imagem de que nos ocupamos, a qual foi colocada nesse lugar, com a permissão do general dos Cruzados, Guilherme da Longa Espada. 

Transportado de júbilo, por possuir no seu arraial um tão precioso tesouro, o rei Afonso, confiando firmemente na proteção da Santíssima Virgem, fez o voto de erigir em sua honra um santuário, que aos vindouros patenteasse o seu reconhecimento, se por intercessão de tão poderosa Protetora conseguisse a suspirada vitória. 

Quando o Rei formava o plano do grande ataque, que havia de decidir a conquista de Lisboa, inesperadamente é informado de que um reforço considerável de infiéis avançava pelo lado de Sacavem, com o fim de socorrer os irmãos avançava mas, e malograr os seus (dele, do Rei) projetos. Longe, porém, de se aterrar com tão inesperada nova, o Rei julga-a como feliz anúncio de suas futuras vitórias; porque, escudado com a proteção de Maria Santíssima, Senhora nossa, nada tem a temer dos setários de Mafoma, e sai ao encontro do tal reforço, e tão valorosamente o investe, que muitos dos inimigos acham desprezível sepulcro no mesmo lugar em que pouco antes se prometiam mutuamente a vitória. 

O rei Afonso reconhece no feliz resultado deste primeiro conflito a proteção visível da Santíssima Virgem, e, em solene testemunho de sua gratidão, manda ali mesmo edificar uma pequena capela em honra de Maria Santíssima. 

Na tomada de Lisboa, os soldados de Afonso com os seus aliados foram novamente auxiliados pela puríssima Mãe de Deus, que os protegeu até entrarem na posse da sede da monarquia dos lusos, cujas portas lhes foram gloriosamente abertas no dia 25 de outubro de 1147, dia memorável em que, entrando em Lisboa o exército vencedor, os cristãos, prostrados diante da verdadeira Judite, sua libertadora, representada naquela imagem, a saudaram agradecidos com os betulianos à vencedora de Holofernes - Tu és a glória de Lisboa, a alegria dos seus habitantes, a honra do povo português. 

Libertada Lisboa do bárbaro jugo pela poderosa proteção de Maria Santíssima, o Rei tratou zeloso do bem estar daqueles generosos Cruzados que tanto o haviam ajudado na sua conquista, e, não se esquecendo dos mortos, procurou um lugar decente, em que pudessem ser sepultados os corpos daqueles a quem a piedade dos fiéis já chamava mártires, por terem dado com a vida um testemunho da sua fé. 

Benzido o terreno, foram sepultados os restos mortais dos devotos guerreiros falecidos na batalha, e os sobreviventes construíram uma capela, para a qual logo transladaram a imagem de Nossa Senhora, e, para maior veneração da Santíssima Virgem, edificaram na proximidade da capela umas pequenas celas para habitação dos vários sacerdotes inglêses, a quem presidia o venerável sacerdote Gilberto, com o fim de se empregarem cotidianamente nos louvores da Mãe de Deus. 

Logo depois tratou o agradecido Monarca de dar cumprimento fiel ao voto que tinha feito à Santíssima Virgem; manda, pois, levantar em seu louvor um santuário, para nele ser colocada a veneranda imagem dedicado à Mãe de Deus, com a invocação ou título de - Nossa Senhora dos Mártires, por ser o templo edificado no lugar em que estavam sepultados os valorosos cristãos que haviam morrido em defesa da Fé, e que eram chamados mártires. 




O Rei esmerou-se na construção deste santuário, que seria santificado pela real presença de Deus, e aformoseado com a imagem de sua Mãe Santíssima.

Os muitos terremotos que lastimosamente se fizeram sentir em Lisboa, em diferentes ocasiões, arruinaram mais uma vez este majestoso santuário, que foi sempre reparado.

A últíma reconstrução foi concluída a 18 de março de 1774, e nesse mesmo dia foi para lá transladada a imagem de Nossa Senhora dos Mártires, que lá está até hoje. 

Este título foi consentido pelos venerando bispos daqueles tempos, e depois pelo Sumo Pontífice Urbano VI, que elevou o santuário à categoria de Basílica, com o nome de - Basílica de Santa Maria junto aos Mártires. 

É esta a origem do título -  Nossa Senhora dos Mártires, título que por outros motivos já lhe era sumamente glorioso; porque, sendo Ela a Mãe do maior dos Mártires, Nosso Senhor Jesus Cristo, sua alma santíssima sentiu todos os tormentos da paixão de seu Filho, e a ímpia lançada, que o Filho morto já não sentiu, foi cravada em sua puríssima alma; é Rainha dos Mártires, como lhe chama a Santa Igreja, porque, pelo seu martírio inigualável, é a Fortaleza dos mártires em seus combates, e a Consoladora dos que vivem martirizados pelos trabalhos e sofrimentos desta triste vida, e, nos dias de hoje, acrescentemos nós a esta notícia antiga, é a Fortaleza e a Consoladora dos que vivem martirizados ou martirizados morrem pela sua Fé, pela crueldade dos desumanos inimigos de Deus e de nossa Santa Religião. 

É grande a devoção e gratidão dos portugueses a Nossa Senhora dos Mártires. 


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Católicos que ledes este livro, não vos esqueçais de que é moralmente impossível perder-se um verdadeiro devoto de Maria Santíssima.

Aprendei, pois, com o rei Afonso e seus patrícios a depor na Mãe de Deus a vossa confiança, invocando-A também com este apropriado título de  - Nossa Senhora dos Mártires, principalmente nas vossas angústias e sofrimentos. 

(Esta notícia histórica é um resumo do folheto "Novena em obséquio a Nossa Senhora dos Mártires", cuja imagem se venera na real paróquia deste título em Lisboa, folheto este impresso em 1889.)



Maria e seus gloriosos títulos - Edéssia Aducci