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sábado, 17 de fevereiro de 2024

A humildade com que se deve rezar

                                                              Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.



9. Deus ouve a oração dos humildes e repele a dos orgulhosos

O Senhor atende às orações de seus servos, mas dos servos humildes: "O Senhor atendeu à oração dos humildes" (Sl 101,18). Onde falta humildade, Deus não atende, pelo contrário, repele as orações dos soberbos. "Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes" (Tg 4,6). Deus não ouve as orações dos soberbos, que confiam na própria força e por isso abandona-os à sua miséria. Em tal estado, privados do auxílio divino, perder-se-ão certamente. Chorava Davi: "Antes de ser humilhado, pequei" (Sl 118,67), pequei, porque não fui humilde. O mesmo se deu com São Pedro, o qual, apesar de avisado por Nosso Senhor de que naquela noite os seus discípulos o abandonariam: "a todos vós serei eu nesta noite ocasião de escândalo" (Mt 26,31), em vez de reconhecer sua fraqueza e pedir forças ao Senhor para não lhe ser infiel, confiando demasiadamente em si mesmo, disse que ainda que todos os outros o abandonassem, ele nunca o abandonaria: "Ainda que todos se escandalizem a teu respeito, eu nunca me escandalizarei" (Mt 26,33). E não obstante o Redentor lhe predizer, de novo e em particular, que naquela noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes, confiando em seu valor, gabou-se dizendo: "Ainda que seja necessário morrer eu contigo, não te negarei" (Mt 26,35). Mas, apontado como discípulo de Jesus Cristo, negou-o por três vezes, com juramento, afirmando não conhecê-lo: "Juro que não conheço tal homem" (Mt 26,72). Se Pedro houvesse se humilhado e pedisse ao Senhor a graça da constância, não o teria negado.


10. Sem a graça, nada podemos fazer de meritório

Devemos todos imaginar que estamos sobre as alturas de um monte, suspensos sobre o abismo de todos os pecados e sustentados apenas pelo fio da oração; se este fio se arrebentar, cairemos certamente neste abismo e cometeremos os crimes mais horrorosos. "Se Deus não me tivesse ajudado, já teria caído no inferno" (Sl 93,17). Assim falava o salmista e assim deve dizer cada um de nós. O mesmo queria dizer São Francisco de Assis, quando dizia ser ele o maior pecador do mundo. Mas, meu padre, disse-lhe o companheiro, não é verdade o que dizeis. Existem muitos no mundo que são piores do que vós. É verdade, meu irmão, respondeu o santo, porque se Deus não tivesse sobre mim sua mão protetora, eu cairia em todos os pecados. 


11. Trabalha em vão aquele que trabalha sem Deus 

É um dogma de fé que, sem a graça de Deus, não podemos fazer obra meritória alguma, nem tão pouco ter um bom pensamento. Sem a graça, diz Santo Agostinho, não podem os homens fazer bem algum, quer por pensamentos, quer por palavras ou obras. Como os olhos não podem ver sem luz, assim o homem não pode fazer o bem sem a graça, diz o santo. E, antes, disse o Apóstolo: "Não que sejamos capazes, nós mesmos, de ter algum pensamento como de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus" (2Cor 3,5). E, ainda antes do Apóstolo, disse Davi: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalharão os que procuram construíla". (Sl 126,1). Em vão se esforça o homem em se fazer santo, se Deus não o amparar com o seu poder. "Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente se desvela o seu vigia". Se Deus não preservar a alma do pecado, em vão procurará ela fugir dele com suas próprias forças. Por isso, exclamava o profeta Davi: "Não esperei no meu arco" (Sl 43,7). Pois não quero confiar em minhas armas, mas unicamente em Deus, porquanto só Ele pode salvar-me.


12. Pela graça de Deus, sou o que sou

Quem achar que fez algum bem e que não caiu em maiores pecados, diga com São Paulo: "Pela graça de Deus, sou o que sou" (1Cor 15,10). Pela mesma razão, não deixe o homem de tremer e recear cair em todas as ocasiões. "Quem está de pé, veja que não caia" (1Cor 10,12). Com isto, quer São Paulo advertir-nos que está em grande perigo de cair quem se julga seguro. Em outro lugar, diz: "Quem julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se" (Gl 6,3). Muito sabiamente escreveu Santo Agostinho: "Muitos, sendo fracos, não se fortificam, porque se julgam fortes; só os que se sentem fracos serão fortes". Quem diz que não tem medo de si próprio prova que confia em si mesmo e em suas resoluções. mas, com esta confiança perniciosa, engana-se. Quem diz que não tem medo, não receia mais e, não receando, não reza mais; então, cairá eternamente.

Não devemos desprezar os outros por terem caído e nós não; pelo contrário, quando virmos outros caírem, julguemos que somos piores de todos e digamos ao Senhor: Se não me tivésseis ajudado, Senhor, eu teria feito pior ainda. De outro modo, permitirá Deus, por causa do nosso orgulho, que cometamos pecados maiores ainda. Por isso avisa-nos o Apóstolo que procuremos a nossa salvação eterna. Mas como? Sempre temendo e tremendo. "Com medo e tremor, operai a vossa salvação" (Fl 2,12). "Com medo e tremor, pois quem vive em temor e cuidado para não cair desconfia de suas próprias forças e põe toda a sua confiança em Deus, recorrendo a Ele nos perigos. Deus o ajudará, vencerá as tentações e salvar-se-á. São Filipe Néri, passando um dia pelas ruas de Roma, exclamava: "Sou um desesperado". Um religioso, que ouviu estas palavras, perguntou-lhe por que falava daquele modo. O santo respondeu: "Meu padre, eu desespero, sim, mas de mim mesmo". Este deve ser o nosso modo de agir, se quisermos nos salvar. É necessário que tenhamos uma completa desconfiança de nós mesmos. São Filipe, desde o primeiro momento em que despertava pela manhã, dizia a Deus: "Senhor, protegei-me hoje, senão eu Vos trairei e o venderei!"


13. Eis a grande ciência do cristão

Diz Santo Agostinho, conhecer que nada é e nada pode! Assim, nunca deixará de pedir a Deus a força necessária para resistir às tentações e para fazer o bem, e fará tudo com o auxílio de Deus, que não repele nenhuma súplica dos humildes. "A oração do que se humilha penetrará as nuvens e não se afastará até que o Altíssimo ponha nela os seus olhos" (Eclo 35,21). E por mais carregada que esteja uma alma de pecados, Deus não pode desprezar um coração que se humilha. "Não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado" (Sl 50,12). "Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes" (Tg 4,6). Deus é severo com os soberbos e resiste às suas súplicas; benigno, porém, e misericordioso com os humildes. Um dia, falou Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena: "Saibas, filha, que toda alma que perseverar humildemente na oração chegará a conseguir todas as virtudes".


14. Bela advertência de Monsenhor Palafox

É útil citar aqui uma bela advertência de Monsenhor Palafox, piedosíssimo bispo de Osma, às pessoas piedosas que procuram santificar-se, em sua anotação à 18ª carta de Santa Tereza a seu confessor. Ali conta-lhe a Santa todos os degraus de oração sobrenatural com que o Senhor lhe havia favorecido. 

A esse propósito, o mencionado prelado prescreve que essas graças sobrenaturais, que Deus se dignou conceder à Santa Teresa e tem concedido a outros santos, não são necessárias para alcançar a santidade, porque muitas outras almas chegaram à santidade sem essas graças extraordinárias e até há muitas que, apesar de terem recebido aquelas graças, estão condenadas. Portanto, diz ser coisa supérflua e presunçosa desejar e pedir tais dons sobrenaturais, quando o verdadeiro e único caminho para a santidade é o exercício de todas as virtudes, especialmente do amor de Deus; e a isto se chega por meio da oração e pela correspondência às luzes e aos auxílios de Deus, o qual outra coisa não quer senão a nossa santificação. "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação" (1Ts 4,3).


15. Os diversos graus da oração e como alcançá-los

Por isso, o referido autor, falando dos graus da oração sobrenatural, de que tratava a santa, a saber: da oração de repouso, do sono e da suspensão das faculdades da alma, da união, do êxtase, do arrebatamento, do voo e ímpeto do espírito e da chaga espiritual, sabiamente escreve e diz que, quanto à oração de repouso, o que devemos desejar e pedir a Deus é que nos livre do apego e desejo dos bens terrenos, os quais não dão paz, mas sim trazem aflições e inquietações ao espírito. Bem falou Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!" (Eclo 1,14). O coração do homem jamais encontrará a verdadeira paz, senão se livrando de tudo o que não é de Deus, para dar lugar a seu santo amor, para que Ele só o possua. Mas a alma por si própria não pode alcançar isso, mas unicamente por meio de repetidas orações.

Quanto ao sono e suspensão das faculdades da alma, devemos pedir a Deus que essas faculdades durmam para as coisas terrenas e só estejam acordadas para considerar a divina bondade, para aspirar ao amor divino e aos bens eternos.

Quanto à oração da união, devemos pedir a Deus a graça de não pensar, de não procurar e de não querer senão o que Deus quer, pois que toda a santidade e perfeição do amor consiste em conformar-se a nossa vontade com a vontade de Deus. 

Quanto ao êxtase e ao arrebatamento, peçamos a Deus que nos livre do amor desregrado de nós mesmos e das criaturas, para nos atrair todos a si.

Quanto ao voo do espírito, roguemos a Deus a graça de vivermos desapegados do mundo e de fazermos como as andorinhas, que, nem mesmo para se alimentar, param no chão e voando tomam o seu alimento. Isto quer dizer que devemos nos servir destes bens temporais tanto quanto for necessário à vida, mas sempre voando, sem nos determos sobre a terra para procurar os prazeres mundanos. 

Quanto ao ímpeto do espírito, peçamos a Deus que nos dê coragem e fortaleza para fazermos violência a nós mesmos, quando for necessário, a fim de resistir aos assaltos dos inimigos, vencer as paixões e abraçar o sofrimento no meio de desconsolações e tédios do espírito.

Enfim, quando chega à chaga de amor, assim como a chaga com sua dor sempre renova a recordação do mal, do mesmo modo devemos pedir a Deus que nos fira o coração de tal sorte com o seu santo amor, a fim de que nos recordemos sempre de sua bondade e de seu afeto para conosco e assim vivamos ocupados sempre em amá-lo e agradecer-lhe com as nossas ações e afeto. Mas todas essas graças não se obtém sem a oração; e com a oração, contanto que seja humilde, confiante e perseverante, tudo se alcança. 

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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Trecho 11 - Tratado da Conformidade com a vontade de Deus

 




Mas devemos também persuadir-nos de que a secura espiritual não é sempre um castigo, mas muitas vezes disposição de Deus para nosso maior bem e também para nos conservar humildes. Para que São Paulo não se tornasse vaidoso com as graças que tinha recebido, permtiu o Senhor que ele fosse molestado com tentações de impureza: "E para que a grandeza das revelações não me exaltasse, me foi dado o estímulo de minha carne, um anjo de Satanás, para atormentar-me" (2Cor 12,7). Aquele que ora a Deus com espiritual doçura e deleite, bem pouco faz. "É um amigo e um companheiro à mesa, mas me deixará no dia da aflição" (Eclo 6,10). Vós não considerais como verdadeiro amigo aquele que só vier à vossa mesa e tomar parte em vossos divertimentos; mas sim aquele que vos vem valer nos trabalhos e vos acudir nas tribulações sem que disso tire vantagem própria. Quando Deus manda obscuridade e desolação é para pôr à prova os seus verdadeiros amigos. Paládio, tendo sofrido grande secura espiritual na oração, foi consultar São Maurício, que lhe disse: "Quando o inimigo vos tentar para que deixeis a oração, dizei-lhe: 'Eu me satisfaço de aqui ficar pelo amor de Jesus Cristo, e mesmo só para guardar as paredes desta cela'". Tal deve ser a vossa resposta quando fordes tentado a não continuar na oração, porque vos parece que nisso perdeis tempo. Dizei nessas ocasiões: "Aqui estou para agradar a Deus". São Francisco de Sales diz que "se nós nada mais fazemos quando rezamos do que afastar as distrações e tentações, quão bem rezamos!" Taulero também diz que aquele que no tempo da secura espiritual perseverar na oração, lhe concederá Deus maiores graças do que aquele que orar com sensível devoção. O padre Rodriguez diz que certo homem confessava que pelo espaço de quarenta anos não tinha experimentado consolação alguma na oração, mas que naqueles dias que orava conforme o costume, sentia-se possuído de tal fraqueza que era inteiramente incapaz de fazer alguma boa obra. São Boaventura e Gerson dizem que muitos que durante a oração não têm a atenção que desejam, servem mais a Deus do que outros que a conservam, porque esta falta os obriga a serem mais diligentes: pois que, se assim não fosse, se poderiam tornar negligentes e soberbos, na ideia de que haviam achado o que procuravam. E o que temos dito da secura espiritual, podemos também dizer das tentações; porém, se Deus permite que sejamos tentados, sejam estas tentações contra a pureza, ou contra qualquer virtude, não devemos lastimar-nos, mas também nisto resignar-nos à divina vontade. A São Paulo, quando implorava para ser livre de tentação impura, respondeu o Senhor: "A minha graça te é suficiente" (2Cor 12,9). E assim, quando Deus não nos concede a graça de vivermos libertos de tentações que nos molestam, digamos: "Senhor faze e permite  o que quiseres; a tua graça me é suficiente, mas dá-me o teu auxílio para que eu não a perca". Não são as tentações, mas o consentir nelas, que nos priva da divina graça. Quando resistimos às tentações, tornamo-nos mais humildes e adquirimos mais merecimento, o que nos induz a recorrer a Deus com mais frequência, e nós estamos mais longe de o ofendermos, unindo-nos mais intimamente a Ele com o seu Santo amor. 



 Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Biblioteca Católica

sábado, 14 de março de 2020

Trecho 5 - Tratado da Conformidade com a Vontade de Deus




5.
Os santos, por sua uniformidade com a vontade divina, gozavam de um Céu sobre a Terra.
Os antigos padres, diz Santa Doroteia, conservavam em si uma paz constante porque recebiam tudo como vindo da mão de Deus. Santa Maria Madalena de Pazzi, ao ouvir somente as palavras  - vontade de Deus -, ficou tão consolada que se extasiou de amor. A diversidade, sem dúvida, causa pena e dor em nossos sentidos, mas isto só tem lugar na parte inferior, porque o espírito, que é parte superior, deve ser todo tranquilidade e paz, estando a vontade unida à de Deus: "O vosso gozo", disse o Senhor aos seus Apóstolos, "ninguém lho tirará, e será completo" (Jo 16, 22-24).
Aquele que está sempre em uniformidade com a divina vontade, goza de uma paz inteira e perpétua: inteira, porque ele tem tudo quanto deseja, como acima dissemos; perpétua, porque ninguém o pode privar de tanto prazer, assim como ninguém pode obstar ao que Deus quer.
O padre João Taulero, segundo o padre Sangiore (Erar. Tom.3) e o padre Nieremberg (Vita. Div.), conta de si mesmo, que tendo por  muitas vezes pedido a Deus que lhe ensinasse o caminho da vida espiritual, ouviu um dia uma voz que lhe dizia que fosse a certa igreja e ali acharia a pessoa que procurava. Ele se dirigiu à dita igreja, e à porta da mesma encontrou um miserável mendigo, descalço e esfarrapado, a quem saudou, dizendo: "Bom dia, irmão". O pobre lhe respondeu: "Não me lembro de ter passado um só dia mau, senhor". O padre replicou: "Deus vos dê uma vida feliz"; ao que ele lhe tornou: "Eu nunca fui infeliz", acrescentando: "Padre, não foi o acaso que me fez responder-vos que nunca tive um dia mau: porque, se tenho fome, louvo a Deus; quando cai neve ou chove, eu O bendigo; se alguém me despreza, me despede ou me aflige, ou se encontro outra qualquer tribulação, dou sempre graças a Deus. Disse-vos que nunca fui infeliz, falei a verdade, pois me tenho acostumado a conformar-me com a vontade de Deus, sem reserva; assim, tudo quando me acontece de bem ou de mal, eu o recebo de Suas mãos com alegria, como se fosse a minha melhor sorte, e isto me torna feliz".
- E se Deus quisesse - disse Taulero - a vossa condenação, que havíeis de dizer?
- Se tal fosse a vontade de Deus - respondeu o pobre -, eu com humildade e amor me abraçaria com Nosso Senhor, e me lançaria de tal modo com Ele, que quando me quisesse precipitar no inferno, O obrigaria a ir ali comigo, e me acharia então mais feliz com Ele no abismo do que gozando das delícias do Céu sem Ele.
- Onde achaste a Deus? - perguntou o padre.
- Achei-o onde deixei as criaturas.
- Quem sois vós?
- Eu sou um rei.
- Onde é vosso reino?
- Na minha alma, onde conservo a ordem: as minhas paixões obedecem à razão, e a minha razão obedece a Deus.
Por fim, Taulero lhe perguntou o que tinha feito para se adiantar na perfeição. "Guardei silêncio", respondeu o mendigo: "ser silencioso com os homens para melhor falar com Deus; e na união que tenho achado e acho toda a minha paz". Tal era, em uma palavra, este pobre homem, pela sua uniformidade com a vontade divina: ele na sua pobreza era seguramente mais rico do que todos os prazeres. Quão grande é a estupidez daquele que resiste à vontade divina! Forçoso é sofrer tribulações, porque ninguém se pode subtrair ao cumprimento dos divinos decretos. Quem resiste a Sua vontade? (Rm 9,19). E sofrê-las-ão sem fruto, e também trarão sobre si maiores castigos na vida futura, e maior ansiedade na presente. Quem jamais lhe resistiu, e obteve paz? (Jó 9,4). Se o homem enfermo se queixa de suas dores e enfermidades, se o que é pobre lamenta a sua sorte perante Deus, e se enfurece e blasfema, que lhe resulta senão o aumento de suas aflições? "Que procuras tu, ó homem", diz Santo Agostinho, "quando procuras bens? Procura o único bem, no qual se encerram todos os bens". Que procuras tu exceto Deus? Procura-o, e acha-o; una-te e liga-te a Ele, à Sua vontade, e viverás feliz nesta vida e na outra vida.



Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Biblioteca Católica

sábado, 30 de novembro de 2013

A humildade interior é a mais perfeita

Desejarás, Filotéia, que te introduza ainda mais na prática da humildade; este desejo merece o meu aplauso e eu o quero satisfazer; pois, no que tenho dito até agora, há mais prudência que humildade. 
Encontram-se pessoas que nunca querem prestar atenção às graças particulares que Deus lhes faz, temerosas que seu coração, enchendo-se duma vã complacência, não dê toda a glória a Deus. É um falso temor e um verdadeiro erro. 
Pois, desde que a consideração dos benefícios de Deus é um meio eficacíssimo de amá-lo, assim, diz o doutor angélico, quando mais o conhecemos, tanto mais o amamos. Mas, sendo nosso coração mais sensível às graças particulares que aos benefícios gerais, é exatamente sobre aquelas graças que devemos refletir. 
Nada é tão próprio para nos humilhar ante a misericórdia de Deus que a multidão de suas graças e a multidão dos nossos pecados ante a sua justiça. Consideremos, com muita atenção, o que Deus fez por nós e o que nós fizemos contra ele. Ao passo que examinamos também as graças que Deus nos concedeu, e já não há que temer que este conhecimento nos ensoberbeça, se refletirmos que não temos nada de bom em nós. Porventura as bestas de carga não permanecem animais grosseiros e brutos, embora caminhem carregados de trastes preciosos e perfumados dum príncipe?
Que temos nós de bom, que não tenhamos recebido? E, se o temos recebido, por que nos gloriamos disso?
Ao contrário, a viva consideração das  graças de Deus nos torna humildes, porque o conhecimento dum benefício produz naturalmente o seu reconhecimento; e, se esta consideração excitar em nós alguma complacência de vaidade, temos um remédio infalível, contra este mal, na lembrança de nossas ingratidões, imperfeições e misérias. Sim, se considerarmos o que fizermos, quando Deus não estava conosco, havemos de conhecer que o que fazemos, quando ele está conosco, não provém de nossa indústria e diligência. 
Na verdade, regozijar-nos-emos do bem que ele em nós e nós memos nos regozijaremos, porque somos nós que o possuímos; mas toda a glória é devida unicamente a Deus, que é o seu autor. 
Assim a SS. Virgem confessou publicamente que Deus tinha operado nela grandes coisas e fez isso ao mesmo tempo para se humilhar e para dar glória a Deus. Minha alma, diz ela, glorifica o Senhor; porque tem operado em mim grandes coisas.
Muitas vezes dizemos que nada somos, que somos a mesma miséria e, como diz São Paulo, o lixo do mundo; mas muito nos melindraríamos se nos compreendessem verbalmente e nos tratassem quais dizemos ser. 
Pelo contrário, outras vezes fugimos para que nos venham atrás, escondemo-nos para que nos procurem, damos mostras de querer o último lugar, para que nos levem com muita manifestação de honra ao primeiro. O verdadeiro humilde não quer parecer que o é e nunca fala de si mesmo; a humildade, pois, não só procura esconder as outras virtudes, mas ainda mais a si mesma e, se a dissimulação, a mentira, o mau exemplo fossem coisas lícitas, ela cometeria atos de soberba e ambição, para esconder-se mesmo debaixo das capas do orgulho e subtrair-se mais seguramente ao conhecimento dos homens.
Fica aqui o meu conselho, Filotéia, ou nunca falemos de nós com termos de humildade, ou conformemos com eles os nossos pensamentos, pelo usentimento interior duma verdadeira humildade. Nunca abaixemos os olhos, sem humilharmos o coração; nunca procuremos o últimos lugar, sem que de bom grado e sinceramente o queiramos tomar. Esta regra é tão geral que não se pode abrir exceção alguma. 
Unicamente acrescento que a civilidade requer às vezes que ofereçamos certas honrar a pessoas que certamente não as hão de aceitar, e que isso não é dobrez nem humildade falsa, porque esta deferência é um simples modo de os honrar; e, conquanto não se lhes possa ceder toda a honra, não tem nada de mal que se lhe ofereça. Digo o mesmo de certas expressões de acatamento que não são inteiramente segundo as regras rigorosas das verdades, mas também não lhes são contrárias, contanto que se tenha um desejo sincero de honrar as pessoas com quem se fala; pois, ainda que haja um certo excesso nessas expressões, não andamos mal se as empregarmos segundo o uso geral, como as recebem e entendem. Desejaria, contudo, que se conformassem o mais possível as palavras com as intenções, para que em nada se afastem da simplicidade do coração e exatidão da sinceridade. 
O homem verdadeiramente humilde gostará mais que os outros digam dele que é um miserável, que nada é e nada vale, do que se o dizer por si mesmo; ao menos, se sabe que falam assim dele, sofre com paciência e, como está persuadido que é verdade o que dizem, facilmente se conforma com esses juízos, aliás iguais aos seus. 
Dizem muitos que deixam a oração mental para os perfeitos e que se acham indignos de fazê-la; outros protestam que não comungam muitas vezes, porque não se sentem com a pureza da alma requerida; outros ainda dizem que temem profanar a devoção, habituando-se a ela, por causa de suas misérias e fragilidades; muitos outros, por fim, recusam empregar os seus talentos no serviço de Deus e salvação do próximo, porque, conhecendo a sua fraqueza, dizem eles, temem que o orgulho se aproveite do bem de que seriam os instrumentos e assim, enquanto iluminam a outros, venham eles mesmos a perder-se. Tudo isso não passa dum artifício de humildade não só falsa, mas até maligna, porque se servem dela para desprezar de um modo sutil e oculto as coisas de Deus ou esconder melhor sob pretextos de humildade o seu amor-próprio, a sua própria vontade, o seu mau humor e preguiça. 
Pede ao Senhor teu Deus para ti algum sinal que chegue ao profundo do inferno ou ao mais alto do céu, disse o profeta Isaías ao ímpio Acás e este respondeu: Não pedirei tal, nem tentarei ao Senhor.
- Ó perversidade! Finge grande reverência para com Deus e sob esse pretexto de humildade rejeita uma graça que a Bondade divina lhe queira dar. E não sabia ele que, quando Deus nos quer conceder uma graça, é um ato de orgulho recusá-la, que esses dons por sua própria natureza nos obrigam a aceitá-los e que a humildade consiste em conformar-se o mais possível com a vontade divina? Ora, Deus deseja sumamente que sejamos perfeitos, para nos unir a ele pela imitação mais exata possível de sua santidade. O soberbo que se fia em si mesmo muita razão tem para não se atrever a intentar coisa alguma; mas o humilde é tanto mais animoso quanto mais impotente se vê, e se torna tanto mais resoluto quanto mais o desprezo de si mesmo o faz parecer pequeno a seus olhos, porque ele deposita toda a sua confiança em Deus, que se compraz em magnificar a sua onipotência em nossa fraqueza e a sua misericórdia em nossa miséria. É, pois, necessário empreender com uma humildade corajosa tudo quanto os que nos guiam julgam útil ao nosso adiantamento.
Pensar que se sabe o que se ignora é uma loucura manifesta; fazer-se de sábio em matéria ignorada é uma vaidade insuportável. Eu para mim nem queria fazer-me sábio nem de ignorante. Se a caridade o exige, cumpre ajudar o próximo com bondade e doçura em tudo o que é necessário para a sua instrução e consolação; pois a humildade, que esconde as virtudes, para as conservar, também as deixa aparecer, se a caridade o exige, para as exercer e aperfeiçoar. Neste ponto, pode-se comparar a humildade às árvores das ilhas de Tilos, que de noite conservam muito vivo, e só as abrem ao nascer do sol; o que faz os habitantes da ilha dizerem que estas flores dormem de noite. Com efeito, a humildade esconde as virtudes e as boas qualidades e só as mostra pela caridade, que, não sendo uma virtude humana e mortal, mas celeste e divina e o sol das virtudes, deve sempre dominar sobre todas; de  sorte que, se a humildade prejudica a caridade em alguma coisa, é, sem dúvida, uma humildade falsa. 
Quanto a mim, não quisera fazer-me de louco, nem de prudente, porque, se a humildade me impede de fazer-me prudente, a sinceridade e a simplicidade me devem impedir de fazer-me de louco; se a vaidade é contrária à humildade, o fingimento e o ardil são contrários à simplicidade e à candura da alma. Se alguns servos de Deus se fingiram loucos, para serem desprezados, é preciso admirá-los e não imitá-los, porque os motivos que os levaram a esses excessos foram neles tão extraordinários e adaptados às suas disposições particulares, que ninguém pode tirar daí uma consequência para a sua vida. No tocante à ação de Davis, dançando e saltando ante a arca da aliança um pouco mais do que era decente, sua intenção não foi fazer-se de louco; abandonou-se simplesmente e sem fingimento ao instinto e impetuosidade de sua alegria, de que o Espírito de Deus lhe inundava o coração. É verdade que, quando Micol, sua mulher, o repreendeu, como tendo feito uma loucura, ele não se alterou e assegurava, ainda tomado dessa alegria espiritual, que de boa vontade recebia este desprezo, para a glória de Deus. Assim, se, por ações que tem um cunho ingênuo de verdadeira devoção, todo o mundo te tiver na conta de vil, abjeto ou extravagante, a humildade te fará achar alegria neste opróbrio precioso, cujo princípio e causa não és tu que o sofrerás, mas aquele donde ele vier. 

São Francisco de Sales

terça-feira, 24 de setembro de 2013

" Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29)

Ladainha da Humildade

( Que Dom Columba Marmion e o Servo de Deus, o Cardeal Merry del Val, entre outros, costumavam recitar frequentemente).
Santa Tereza: "Enquanto vivemos nesta terra, não há coisa que mais importa para nós do que a humildade" ( Cap. 2° das Moradas, n° 9).

Rezemos, pois, com frequência a Ladainha da Humildade!

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus, manso e humildade de coração, ouvi-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser amado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser buscado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser louvado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser honrado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser preferido, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser consultado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser adulado, livrai-me, Jesus!

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser desprezado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser rejeitado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser caluniado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser esquecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser escarnecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser injuriado, livrai-me, Jesus!

Que os outros sejam mais amados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam mais estimados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam crescer na opinião do mundo e que eu possa diminuir - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que aos outros seja concedida mais confiança no seu trabalho e que eu seja deixado de lado - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam louvados e eu esquecido - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser preferidos a mim em tudo - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser mais santos do que eu, contanto que eu pelo menos me torne santo como puder - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo! 
Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por nós!
São José, protetor das almas humildes, rogai por nós!
São Miguel, que fostes o primeiro a lutar contra o orgulho e o primeiro a abatê-lo, rogai por nós!

Ó justos todos, santificados a partir do espírito da humildade, rogai por nós!

Oração

Ó Deus que, através do ensinamento e do exemplo do Vosso Filho Jesus, apresentastes a humildade como chave que abre os tesouros da graça ( cfr. Tg 4,6) e como fundamento de todas as outras virtudes - caminho certo para o Céu - concedei-nos, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais humilde e a mais santa de todas as criaturas, aceitar agradecendo todas as humilhações que a Vossa Divina Providência nos oferecer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

A humildade
I. O que é

A humildade é a virtude sobrenatural que, pelo conhecimento de Deus e de nós mesmos, nos mostra nosso verdadeiro valor e, por isso, regula em nós as duas profundas e desordenadas inclinações da estima de si e do desejo de estima dos outros - opõe-se pois à soberba. 

II. Necessidade da Humildade

Jesus disse: "Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos Céus" (Mt 18, 3-4)

De fato, duas expressões sintetizam a vida do soberbo:

1. "Eu conto comigo" - Insensatez! Jesus, pois, disse: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15,17)

2. "Eu trabalho pra mim" Desordem e injustiça! Pois Deus deve ser o objeto final de tudo aquilo que Ele criou.

A vida do humilde, pelo contrário, sintetiza-se nas duas expressões opostas:

1° "Eu conto com Deus" Confiança e Coragem.

2° "Eu trabalho para Deus!" Reta intenção.

III. Difícil prática da Humildade

Três são os principais meios para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

1. Pedi-la incessantemente a Deus (ótimo hábito de rezar diariamente a Ladainha da Humildade).

2. Meditar frequentemente sobre os motivos pelos quais devemos ser humildes. Que não saiam de nossos olhos: a altíssima lição dos exemplos do Messias humilde em sua vida, em sua morte e na Eucaristia; e a insistente exortação de Jesus sobre a humildade de coração.

3. Aceitar, agradecendo, todas as humilhações que a Providência nos oferecer.

"Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes concede a graça" (Pr 3,36; 1P 5,5; Tg 9,4-6).

"Aquele que se exaltar será humilhado; e quem se humilhar será exaltado" (Mt 23,12).

Fonte: Folheto n° 6 da Série: "Doutrina Católica", editado pelo Instituto Diocesano Missionário dos Servos da Igreja - Com Aprovação Eclesiástica