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sábado, 17 de maio de 2025

Meios de preparar-se para a morte




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Deus abençoe por Maria!


 Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis.

Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais (Ecl 7,40) 


PONTO I

Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça. 

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende a ter boa ou má morte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte: "Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais." É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as preocupações necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?... Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência. "Quando cair sobre eles a destruição como uma tempestade... então invocar-me-ão e não os escutarei... Comerão os frutos do seu mau proceder" (Pr 1,27. 28. 31). 

A hora da morte é tempo de confusão é de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se veem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. "Aquilo que o homem semeou, isto também colherá" (Gl 6,8). Não bastará receber os Sacramentos, mas será preciso morrer detestando o pecado e amando a Deus sobre todas as coisas.

Como, porém, poderá aborrecer os prazeres ilícitos aquele que até então os amou?... Como amará a Deus sobre todas as coisas aquele que até esse instante tiver amado mais as criaturas do que a Deus? O Senhor chamou loucas - e na verdade o eram - as virgens que queriam preparar as lâmpadas quando já chegava o esposo. Todos temem a morte repentina, que impede regular as contas da alma. Todos confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque souberam preparar-se para a morte antes que essa chegasse...  E nós, que fazemos nós? Queremos correr o perigo de nos prepararmos para bem morrer, quando a morte nos estiver já próxima? Façamos agora o que nesse transe quiséramos ter feito... Oh! quanto é terrível então recordar o tempo perdido, e sobretudo o tempo mal empregado!... O tempo que Deus nos concedeu para merecer, mas que passou para nunca voltar.

Que angústia nos dará o pensamento de que já não é possível fazer penitência, frequentar os sacramentos, ouvir a palavra de Deus, visitar Jesus Sacramentado, fazer oração! O que está feito, está feito (Lc 16,21). 

Seria necessário ter então mais presença de espírito, mais tranquilidade e serenidade para confessar-se bem, para dissipar graves escrúpulos e tranquilizar a consciência... mas já não é tempo! (Ap 10,6). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! se tivesse morrido naquela ocasião que sabeis, onde estaria eu agora? Agradeço-vos o terdes esperado por mim e por todo esse tempo que deveria ter passado no inferno, desde o momento em que vos ofendi. Dai-me luz e conhecimento do grande mal que fiz, perdendo voluntariamente vossa graça, que merecestes para mim com o sacrifício da cruz... Perdoai-me, meu Jesus, que me arrependo de todo o coração e sobre todos os males de ter menosprezado vossa bondade infinita. Espero que já me haveis perdoado... Ajudai-me, meu Salvador, para que não volte a perder-vos jamais... Ah! Senhor! Se tornasse a vos ofender depois de ter recebido de vós tantas luzes e tantas graças, não mereceria um inferno criado de propósito para mim?... Não o permitais pelos merecimentos do sangue que por mim derramastes! Dai-me a santa perseverança; dai-me vosso amor... Amo-vos, meu Sumo Bem; jamais quero deixar de vos amar. Tende, meu Deus, misericórdia de mim, pelo amor de Jesus Cristo. Recomendai-me a Deus, ó Virgem Maria! Que vossos rogos nunca são desatendidos por esse Senhor que tanto vos ama. 


PONTO II

Já é certo, meu irmão, que tens de morrer, prosta-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze - se ainda a não fizeste - uma confissão geral de toda a tua vida... Oh! Quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão. 

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece dicífil, impossível te parecerá no momento da morte.

O que mais importa é que resolvas pôr em excecução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez na semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar-se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. 

Tais são os meios com que podemos alcançar uma boa morte e a salvação eterna. 

Exercer essas práticas será sinal evidente de nossa predestinação. 

Pelo que diz respeito ao passado, confiai no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos dá estas luzes porque quer salvar-nos, e esperai na intercessão de Maria, que vos obterá as graças necessárias. Com a vida assim regulada, e a esperança posta em Jesus e Maria, quanto nos ajuda Deus, e que força não adquire a alma! Coragem, pois, meu leitor, entrega-te todo a Deus, que te chama, e começa a gozar dessa paz que até agora, por culpa tua, não experimentaste. Pode, porventura, uma alma desfrutar paz maior que a de poder dizer todas as noites, ao descansar: se viesse esta noite a morte, morreria, segundo espero, na graça de Deus!? Que consolação se, ao ouvir o fragor do trovão, ao sentir a terra tremer, pudermos esperar resignadamente a morte, se Deus assim o tiver determinado! 


AFETOS E SÚPLICAS

Quanto vos agradeço, Senhor, as luzes que me dais!... Não obstante ter eu tantas vezes vos abandonado e me afastado de vós, não me abandonastes. Se o tivésseis feito, cego estaria eu, como quis sê-lo na vida passada; encontrar-me-ia obstinado em minhas culpas, e não teria vontade nem de renunciar a elas nem de vos amar. Sinto agora dor grandíssima de vos ter ofendido, vivo desejo de estar na vossa graça, e profundo aborrecimento daqueles malditos prazeres que me fizeram perder vossa amizade. Todos estes afetos são graças que de vós procedem e que me induzem a esperar que queirais me perdoar e me salvar... É, pois, a vós, Senhor, que, apesar de meus muitos pecados, não me abandonais e desejais minha salvação, que me entrego inteiramente; aflige-me de todo o coração o ter-vos ofendido, e proponho querer antes perder mil vezes a vida do que vossa graça... Amo-vos, Soberano Bem; amo-vos, meu Jesus, que por mim morrestes, espero por vosso preciosíssimo sangue que jamais tornarei a afastar-me de vós. 

Não, meu Jesus, não quero perder-vos outra vez, mas sim amar-vos eternamente. Conservai sempre e aumentai meu amor para convosco, o que vos suplico pelos vossos próprios merecimentos...

Maria, minha esperança, rogai por mim a Jesus!


PONTO III

É necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte. "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor" (Ap 14,13). Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranquilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor. 

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida. 

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: "Não suspiro, minhas irmãs, por temor à morte, pois há vinte e cinco anos que a espero; suspiro porque vejo tantos pecadores iludidos que esperam para reconciliar-se com Deus até a hora da morte, quando apenas poderão pronunciar o nome de Jesus".

Examina, pois, meu irmão, se teu coração tem apego a qualquer coisa da terra, a determinadas pessoas, honras, riquezas, casa, sociedade ou diversões, e considera que não hás de viver aqui eternamente. 

Virá o dia, talvez próximo, em que deverás deixar tudo. Por que, neste caso, manter o afeto nessas coisas, correndo risco de ter morte inquieta?...

Oferece-te, desde já, por completo a Deus, que pode, quando lhe aprouver, privar-te desses bens. Quem quiser morrer resignado, há de ter resignação desde agora em todos os acidentes contrários que lhe possam suceder; e há de afastar de si os afetos às coisas da terra. - Afigura-te que vais morrer - diz São Jerônimo - e facilmente conseguirás desprezar tudo. 

Se ainda não escolheste estado de vida, toma aquele que na hora da morte quererias ter escolhido e que possa proporcionar-te um trânsito mais consolador à eternidade. Se já tens um estado, faze tudo que ao morrer quiseras ter feito nesse estado. Procede como se cada dia fosse o último da vida, cada ação a derradeira que praticas; a última oração, a última confissão, a última comunhão. Imagina que estás moribundo, estendido sobre o leito, e que ouves aquelas palavras imperiosas: Sai deste mundo. Quando estes pensamentos nos podem ajudar a caminhar bem e a menosprezar as coisas mundanas! "Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar procedendo assim" (Mt 24,46). Aquele que espera a toda hora a morte, ainda que esta venha subitamente, não pode deixar de morrer bem.


AFETOS E SÚPLICAS

Todo cristão, quando se lhe anuncia a hora da morte, deve estar preparado para dizer o seguinte: Senhor, restam-me poucas horas de vida; quero empregá-as em amar-vos quanto posso, para entrar na eternidade amando-vos. Pouco me resta para vos oferecer, mas ofereço-vos estas dores e o sacrifício que vos ofereceu por mim Jesus Cristo na cruz. Poucas e breves são, Senhor, as penas que padeço, em comparação com as que hei merecido; mas, tais como são, abraço-as em sinal do amor que vos tenho. 

Resigno-me a todos os castigos que me queirais inflingir nesta e da outra vida. Contanto que possa amar-vos eternamente, castigai-me quanto vos aprouver. Peço não me priveis de vosso amor. Reconheço que não mereço amar-vos por haver tantas vezes desprezado o vosso amor, mas vós não podeis repelir uma alma arrependida. Pesa-me, ó Suma Bondade, de vos ter ofendido. Amo-vos com todas as veras do meu coração, e em vós deposito toda a minha confiança, ó Redentor meu! Nas vossas mãos chagadas encomendo a minha alma... Ó meu Jesus, para salvar-me derramastes todo o vosso sangue. Não permitais que me aparte de vós (Sl 30,6). Amo-vos, Eterno Deus, e espero amar-vos durante toda a eternidade... Virgem e Mãe minha, ajudai-me na minha última hora! Entrego-vos minha alma! Dizei a vosso Filho que tenha piedade de mim! A vós me recomendo: livrai-me da condenação eterna! 

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Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte, pg 101-111. 

Imagem: Jean Louis Ernest Meissonier 





domingo, 23 de março de 2025

Incerteza da hora da morte




 Santo Afonso Mª de Ligório


Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.

Estai previnidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12,40).

PONTO I

É certíssimo que devemos morrer, mas não sabemos quando. 

"Nada há mais certo que a morte. - diz Idiota - porém nada mais incerto que a hora da morte". 

Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (1Ts 5,2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos (Lc 12,40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: a morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar. 

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que havia de acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas. 

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provocar a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia de minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim". (Ecl 9,12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. 

Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Senhor, não é este o lugar em que devia me achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados. Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3,9). Por isso, meu Deus, tivesse paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prosto-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia (Sl 51,3), porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham luzes que me outorgastes. 

Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espero o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. 

Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente! Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a ocasião. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. 

Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16,24). Rogo-vos que me concedais somente a perserverança e o vosso amor. 

Ó Maria, Mãe de Misericórdia, rogai por mim, que confio em vós! 


PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7,13). Vede - disse em outra parte - quantos emerdar, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida (1Ts 5,3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer". Por que tantos avisos do castigo antes de inflingi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta. Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos - disse Santo Agostinho. 

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecl 5,7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. 

E se algum dia hás de abandoná-lo, por que o não deixas desde já? (Santo Agostinho) Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás". 

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor; dizes: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderdes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesse todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesse a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. 

Cuidas de arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier a morte repentina. E se a morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar a minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. 

Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim; eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos. 

Ah! Meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. 

Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induziste-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou. 

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. 

Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor. 

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!


PONTO III

"Estai preparados" - o Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12,19). 

"Justo castigo - disse Santo Agostinho - para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode". Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. 

Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma. 

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer (Hom. XIII). São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo (Fl 2,12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação. 

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ec 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5,6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o Beato P.M. Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! Se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte! Foi por isso que o Abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida". Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar?" (Jó 31,14). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meu pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor. 

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que vos fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor." Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito. 

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte.










 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Certeza da morte

 


Santo Afonso Mª de Ligório


Statutum est hominibus semel mori. 
Foi estabelecido aos homens morrer uma só vez (Hb 9,27). 

PONTO I

A sentença de morte foi escrita para todo gênero humano: É homem, deves morrer. Dizia Santo Agostinho "Só a morte é certa; os demais bens e males nossos são incertos". É incerto, se o recém-nascido será rico ou pobre, se terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho. Tudo isto é incerto, mas é indubitavelmente certo que deve morrer. 

Magnatas e reis também serão ceifados pela morte, a cujo poder não há força que resista. Resiste-se ao fogo, à água, o ferro, ao poder dos príncipe, mas não se pode resistir à morte. Conta Vicente de Beauvais que um rei da França, achando-se no termo da vida, exclamava: "Com todo o meu poder, não posso conseguir que a morte espere mais uma hora". Quando chega esse momento, não poderemos retardá-lo nem por um instante sequer. 

Por muitos anos, querido leitor, que ainda tenhas de viver, há de chegar um dia, e nesse dia uma hora, que te será a última. Tanto para mim, que escrevo, como para ti, que lês este livro, está decretado o dia, o instante, em que nem eu poderei mais escrever nem tu ler. "Quem é o homem que viverá e não verá a morte?" (Sl 89,49). Está proferida a sentença. Nunca existiu homem tão néscio que se julgasse isento da morte. O que sucedeu a teus antepassados, também sucederá a ti. De quantas pessoas, que, no princípio do século passado, viviam em tua pátria, nenhuma existe com vida. Até os príncipes e monarcas deixarão este mundo. Não subsistirá deles mais que um mausoléu de mármore com inscrição pomposa que somente serve para nos patentear que dos grandes deste mundo só resta um pouco de pó resguardado por aquelas lajes. São Bernardo pergunta: "Dizei-me: onde estão os amadores do mundo? E responde: Nada deles resta, senão cinza e vermes". 
É mister, portanto, que não procuramos essa fortuna perecedora, mas a que não tem fim, já que nossas almas são imortais. De que te serviria ser feliz neste mundo, - ainda que a verdadeira felicidade não se pode encontrar numa alma que vive afastada de Deus - se depois tens de ser desgraçado eternamente? Já tens preparado tua casa a teu gosto, mas reflete que cedo terás de deixá-la para ir apodrecer numa cova. Talvez alcançaste uma dignidade que te torna superior aos outros, mas a morte virá e te igualará aos mais vis e plebeus deste mundo. 


AFETOS E SÚPLICAS
      
Infeliz de mim, que durante tantos anos só pensei em ofender-vos, ó Deus de minha alma! Passaram-se já esse anos; a minha morte talvez esteja tão próxima, e não acho em mim senão remorso e arrependimento. 
Ah, Senhor, tivesse eu sempre vos servido! Quão insensato fui! Em tantos anos de vida, não adquiri méritos para a outra vida, mas, ao contrário, me endividei para com a justiça divina! Meu amado Redentor, dai-me agora luz e ânimo para acertar minhas contas. 
Talvez a morte não esteja longe; quero preparar-me para este momento decisivo da minha felicidade ou da minha desgraça eterna. Mil graças dou-vos por terdes esperado até agora por mim. Já que me haveis dado tempo para remediar o mal cometido, aqui estou, meu Deus, dizei-me o que desejais que faça por vós. Quereis que me arrependas das ofensas que fiz? Arrependo-me delas e as detesto de toda a minha alma. Quereis que me empregue em amar-vos os anos e os dias que me restam de vida? Pois bem, assim o farei, Senhor. Ó meu Deus, já no passado mais de uma vez formei essa mesma resolução, mas minhas promessas se converteram depois em outros tantos anos de infidelidade. Não, meu Jesus, não quero mostrar-me ingrato a tantos benefícios que me dispensastes. Se agora, pelo menos, não mudar de vida, como é que na hora da morte poderei esperar perdão e alcançar a glória? Tomo, pois, nesta hora, a firme resolução de dedicar-me verdadeiramente ao vosso serviço. Mas vós, Senhor, ajudai-me e não me abandoneis. Já que não me abandonastes quando vos ofendi, espero com maior confiança vosso socorro agora que estou resolvido a sacrificar tudo para vos agradar. 
Permitir que vos ame, ó Deus digno de infinito amor! Recebei o traidor que, arrependido, se prosta a vossos pés e vos pede misericórdia. Amo-vos, meu Jesus, de todo o meu coração e mais que a mim mesmo. Sou vosso; disponde de mim e de tudo que me pertence, como vos aprouver. 
Concedei-me a perseverança em vos obedecer; dai-me vosso amor, e fazei de mim o que quiserdes. 
Maria, mãe, refúgio e esperança minha, a vós me recomendo; a vós entrego a minha alma; rogai a Jesus por mim. 


PONTO II

É certo, pois que todos fomos condenados à morte. Todos nascemos - disse São Cipriano - com a corda ao pescoço, e a cada passo que damos mais nos aproximamos da morte. Meu irmão, assim como foste inscrito no livro do batismo, assim, um dia, o serás no registro dos mortos. Assim como, às vezes, mencionas teus antepassados, dizendo: meu pai, meu tio, meu irmão, de saudosa memória, o mesmo dirão de ti os teus descendentes. Como muitas vezes tens ouvido planger os sinos pela morte de outros, assim outros ouvirão os que tocam por ti. 
Que dirias de um condenado à morte que se encaminhasse ao patíbulo galhofando e rindo-se, olhando para todos os lados e pensando em teatros, festins e divertimentos? E tu, neste momento, não caminhas também para a morte? E em que pensas? Contempla nessas sepulturas teus parentes e amigos, cuja sentença já foi executada. Que terror se apodera de um condenado, quando vê seus companheiros pendentes na forca e já mortos! Observa esses cadáveres; cada um deles diz: "Ontem, a mim; hoje, a ti" (Eclo 38,23). O mesmo te repetem, todos os dias, os retratos de teus parentes já falecidos, os livros, as casas, os leitos, as roupas que deixaram. 
Que loucura extrema, não pensar em ajustar as contas da alma e não aplicar os meios necessários para alcançar uma boa morte, sabendo que temos de morrer, que depois da morte nos está reservada uma eternidade de gozo ou de tormento, e que desse ponto depende o sermos para sempre felizes ou desgraçados! Temos compaixão dos que morrem repentinamente e não se acham preparados para a morte e, contudo não tratamos de nos preparar, a fim de não nos acontecer o mesmo. Cedo ou tarde, quer estejamos apercebidos, quer de improviso, pensemos ou não na morte, ela há de vir; e a toda hora, a cada instante nos vamos aproximando do nosso patíbulo, ou seja da última enfermidade que nos deve tirar deste mundo. 
Em cada século, as casas, as praças, as cidades enchem-se de novos habitantes. Os antigos estão no túmulo. Assim como para esses passaram os dias da vida, assim virá o tempo em que nem tu nem eu, nem pessoa alguma das que vivemos atualmente, existirá na terra. Todos estaremos na eternidade, que será para nós, ou intérmino dia de gozo, ou noite eterna de tormentos. Não há aqui meio termo. É certo, e é de fé que um ou outro destino nos espera. 

AFETOS E SÚPLICAS

Meu amado Redentor! Não me atreveria a aparecer diante de vós, se não vos visse pregado à cruz, despedaçado, escarnecido e morto por minha causa. Grande é minha ingratidão, porém maior é ainda vossa misericórdia. Muito grande foram meus pecados, maiores são vossos méritos. Em vossas chagas, em vossa morte ponho minha esperança. 
Mereci o inferno desde o primeiro momento do meu pecado e, apesar disso, voltei a ofender-vos mil e mil vezes. E vós, não só me haveis conservado a vida, mas com extrema bondade e amor me ofereceste o perdão e a paz. Como posso recear que me afasteis agora que vos amo, e que não desejo senão vossa graça? 
Sim, amo-vos de todo o coração, ó meu Senhor, e meu único anseio é amar-vos. Adoro-vos, e pesa-me de ter-vos ofendido, não tanto porque mereci o inferno, como por ter desprezado a vós, meu Deus, que tanto me amais. Abri, pois, meu Jesus, o tesouro de vossa bondade, e acrescentai misericórdia a misericórdia. Fazei com que eu não tome a ser ingrato para convosco e mudai completamente o meu coração, a fim de que seja todo vosso, e inflamado sempre pelas chamas do vosso amor, já que outrora vos menosprezou, preferindo os vis prazeres deste mundo. 
Espero alcançar o paraíso, para vos amar sempre; e ainda que ali não poderei tomar lugar entre os inocentes, colocar-me-ei ao lado dos penitentes, desejando, entre estes, amar-vos mais que os inocentes. 
Para glória da vossa misericórdia, veja o céu como arde em vosso amor um pecador que tanto vos ofendeu. Tomo hoje a resolução de entregar-me todo a vós, e de só pensar em vos amar. Ajudai-me com vossa luz e graça, a fim de que cumpra este desejo, inspirado também por vossa bondade. 
Ó Maria, mãe da perseverança, alcançai-me a graça de ser fiel à minha promessa! 


PONTO III

A morte é certa. Tantos cristãos sabem-no, o crêem, o vêem e, entretanto, vivem no esquecimento da morte como se nunca tivessem de morrer! Se depois desta vida não houvesse nem paraíso nem inferno, seria possível pensar menos na morte do que se pensa atualmente? Daí procede a má vida que levam. 
Meu irmão, se queres viver bem, procura passar o resto dos teus dias sem perder de vista a morte. Quanto aprecia com acerto as coisas e dirige suas ações sensatamente aquele que as aprecia e dirige pela ideia de que se deve morrer! (Eclo 41,3). A lembrança da morte - disse São Lourenço Justiniano - desprende o coração de todas as coisas terrenas. Todos os bens do mundo se reduzem a prazeres sensuais, riquzezas e honras ( 1Jo 2,16). Aquele, porém, que considera que em breve não será mais que pó e que, em baixo da terra, servirá de pasto aos vermes, despreza todos esses bens. 

Foi efetivamente pensando na morte que os santos desprezaram os bens terrestres. Por este motivo, São Carlos Borromeu conservava sobre sua mesa um crânio humano; tinha a morte continuamente diante dos olhos. O cardeal Barônio tinha gravado no anel esta inscrição: "Memento mori": Lembra-te que tens de morrer. O venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, gravara numa caveira essas palavras: "Fui o que és, serás o que sou". Um santo ermitão, a quem perguntaram na hora da morte por que se mostrava tão contente, respondeu: Tantas vezes tive a morte diante dos olhos, que agora, quando se aproxima, não vejo coisa nova. 
Que loucura seria a de um viajante que só cuidasse de ostentar o luxo e grandezas nas localidades por onde teria de passar, sem pensar sequer que depois teria de viver miseravelmente no lugar onde durante toda a sua vida ia residir? E não será igualmente demente aquele que procura ser feliz neste mundo, onde são poucos os dias que tem de passar, e se arrisca a ser desgraçado no outro, onde viverá eternamente? Quem pede emprestado um objeto, pouca afeição lhe pode ter, porque sabe que em breve o tem de restituir. Os bens da terra são todos dados de empréstimo; é, pois, grande loucura tomar-lhes afeição, porque dentro de pouco tempo temos de abandoná-los. A morte de tudo nos privará. Todas as nossas propriedades e riquezas acabar-se-ão com o último suspiro, com o funeral, com o trajeto ao túmulo. A casa que mandastes construir passará às mãos de outrem; o túmulo será morada do seu corpo até ao dia do juízo, depois do qual passará ao céu, ou ao inferno, onde tua alma já lhe terá precedido. 


AFETOS E SÚPLICAS
  
Tudo, portanto, se há de acabar para mim na hora da morte? Nada me restará, meu Deus, senão o pouco que fiz por vosso amor? Que estou esperando? Que a morte venha e me encontre no estado miserável de culpas em que me acho atualmente? Se morresse neste momento, bem inquieto ficaria, e bem aflito quanto à vida passada. Não, meu Jesus, não quero morrer assim. Agradeço-vos por me terdes dado tempo para amar-vos, chorar meus pecados. Quero começar desde já. 

Pesa-me de todo o coração o ter-vos ofendido, e amo-vos sobre todas as coisas, Suprema Bondade, mais que a minha própria vida. Dou-me todo a vós, meu Jesus; abraço-vos, vos aperto ao coração e desde este momento vos recomendo minha alma (Sl 31,6). Não quero esperar, para vo-la dar, até ao momento em que se lhe ordene sair deste mundo. Não quero guardar minha súplica para quando me chamardes. "Ó Jesus, sede para mim Jesus". Salvai-me agora, perdoai-me e concedei-me a graça do vosso amor! Quem sabe se esta consideração, que hoje leio, seja o último aviso que me dais e a derradeira misericórdia para comigo? Estendei a vossa mão, meu Amor, e fazei-me sair da minha tibieza. 

Dai-me eficaz fervor e amorosa obediência a tudo que queres de mim. 

Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e o dom de amar-vos durante o resto de minha vida. 

Ó Maria, mãe de misericórdia, pelo amor que tendes ao vosso Jesus, alcançai-me estas duas graças, a perseverança e o amor!

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Santo Afonso Mª de Ligório, Preparação para a morte.  


















































 








domingo, 9 de março de 2025

Brevidade da vida



 Santo Afonso Mª de Ligório 


Quae est vita vestra? Vapor est ad modicum parens. 

Que é nossa vida? É vapor que aparece por um instante. (Tg 4,14). 


Ponto I

Que é nossa vida? Assemelha-se a um tênue vapor por que o ar dispersa e desaparece completamente. Todos sabemos que temos de morrer. Muitos, porém, se iludem, imaginando a morte tão afastada que jamais houvesse de chegar. Jó, entretanto, nos adverte que a vida humana é brevíssima: "O homem, vivendo breve tempo, brota como flor e murcha (Jó 14,1-2). Foi esta a mesma verdade que Isaías anunciou por ordem do Senhor. "Clama - disse-lhe - que toda carne é erva... verdadeira erva é o povo; seca a erva, cai a flor" (Is 40,6-8). A vida humana é, pois, semelhante à de uma planta. Chega a morte, seca a erva; acaba a vida e murcha, cai a flor das grandezas e dos bens terrenos. 

A morte corre ao nosso encontro mais rápido que um corredor. E nós, a cada instante, corremos para ela (Jo 9,25). A cada passo, a cada respiração chegamos mais perto da morte. "Este momento em que escrevo - disse São Jerônimo - faz-me caminhar para a morte." "Todos temos de morrer, e nós deslizamos como água sobre a terra, a qual não volta para trás. (2Sm 14,14). Vê como corre o regato para o mar; suas águas não retrocedem; assim, meu irmão, passa teus dias e cada vez mais te acercas da morte. Prazeres, divertimentos, faustos, lisonjas e honras, tudo passa. E o que fica? "Só me resta o sepulcro" (Jó 17,1). Seremos lançados numa cova e, ali, entregues à podridão, privados de tudo. No transe da morte, a lembrança de todos os gozos que em vida desfrutamos e bem assim das honras adquiridas só servirá para aumentar a nossa mágoa e nossa desconfiança em obter a salvação eterna. Dentro em breve, o pobre mundano terá que dizer: minha casa, meus jardins, esses móveis preciosos, esses quadros raríssimos, daqueles vestuários já não serão para mim! "Só me resta o sepulcro."

Ah! com que dor profunda há de olhar para os bens terrestres aquele que os amou apaixonadamente! Mas essa mágoa já não valerá senão para aumentar o perigo em que se acha a salvação. A experiência nos tem provado que tais pessoas, apegadas ao mundo, mesmo no leito da morte, só querem que se lhes fale de sua enfermidade, dos médicos que se possam consultar, dos remédios que os aliviem. Mas, logo que se trata da alma, enfadam-se e pedem para descansar, porque lhes dói a cabeça e não podem ouvir conversação. Se, por acaso, respondem, é confusamente e sem saberem o que dizem. Muitas vezes, o confessor lhes dá a absolvição, não porque os acha bem preparados, mas porque já não há tempo a perder. Assim costumam morrer aqueles que pensam pouco na morte. 

AFETOS E SÚPLICAS

Meu Senhor e meu Deus de infinita majestade! Envergonho-me de aparecer ante da vossa presença Quantas vezes injuriei vossa honra, preferindo à vossa graça um indigno prazer, um ímpeto de cólera, um pouco de barro, um capricho, um fumo leve! Adoro e beijo vossas santas chagas, que vos inflingi com meus pecados. Pelas mesmas espero meu perdão e salvamento. Fazei-me conhecer, ó Jesus, a gravidade da ofensa que cometi, sendo como sois a fonte de todo bem e eu vos abandonei para saciar-me em águas corruptas e envenenadas. Que me resta de tantas ofensas, senão angústias, remorsos e méritos para o inferno? "Meu pai, não sou digno de chamar-me vosso filho" (Lc 15,21). Não me abandoneis, pai. 

Verdade é que não mereço a graça de chamar-me vosso filho. Mas morrestes para salvar-me. Dissestes, Senhor: "Convertei-vos a mim e eu me voltarei para vós" (Zc 1,3). Renuncio, pois, a todas as minhas satisfações. Deixo o mundo quantos prazeres se me podem oferecer e me converto a vós. 

Perdoai-me, pelo sangue que derramastes por mim. Senhor, arrependo-me e vos amo sobre todas as coisas. Não sou digno de amar, mas vós, que mereceis tanto amor, não desprezeis o amor de um coração que em outro tempo vos desprezava. A fim de que vos amasse, não me deixaste morrer quando me achava em estado de pecado. 

Quero amar-vos na vida que me resta, e não amar a nada mais que a vós. Assisti-me, meu Deus; dai-me o dom da perseverança e o vosso santo amor. 

Maria, meu refúgio, recomendai-me a Jesus Cristo. 


PONTO II

Exclamava o Rei Ezequias: "Minhas vida foi cortada como por tecelão. Quando estava urdindo, ele me cortou" (Is 38,12). Quantas pessoas andam preocupadas a tecer a teia de sua vida, ordenando e combinando com arte seus mundanos desígnios, quando os surpreende a morte e rompe tudo! Ao pálido resplendor da última luz todas as coisas deste mundo se obscurecem: aplausos, prazeres, pompas e grandezas. 

Grande segredo o da morte! Sabe mostrar-nos o que não veem os amantes do mundo. As mais cobiçadas fortunas, os postos mais elevados, os triunfos mais estupendos, perdem todo o seu esplendor considerados à vista do leito mortuário. Convertem-se então em indignação contra nossa própria loucura as idéias que tínhamos formado de certa felicidade ilusória. A sombra negra da morte cobre e obscurece até as dignidades régias. 

Durante a vida, nossa paixões nos apresentam os bens do mundo de modo mui diferente do que são. A morte, porém, lhes tira o véu e os mostra na sua realidade: fumo, logo, vaidade e miséria. Meu Deus, para que servem depois da morte riquezas, domínio e reinos, quando ao morrer, temos apenas necessidade de um ataúde de madeira e de uma mortalha para cobrir o corpo? Para que servem honras, se apenas nos darão um cortejo fúnebre ou pomposas exéquias, que de nada nos aproveitarão se a alma está perdida? Para que serve formosura do corpo, se não restam mais que vermes, podridão espantosa e, pouco depois, pó infecto? Ele me reduziu a ser como a fábula do povo, e sou um lúbrico diante deles (Jó 17,6). 

Morre um ricaço, um governador, um capitão, e por toda a parte sua morte será apregoada. Mas, se viveu mal, virá a ser censurado pelo povo, exemplo da vaidade do mundo e da justiça divina, e escarmento para muitos. Na cova será confundido com os cadáveres dos pobres. "Grandes e pequenos ali estão" (Jó 3,19). De que lhe serviu a garlhadia do seu corpo, se agora não passa de um montão de vermes? De que lhe valeu a autoridade que possuía, se agora seus restos mortais estão condenados a apodrecer numa vala e sua alma arrojadas nas chamas do inferno? Oh, que desdita ser para os demais objeto de semelhantes reflexões, e não as haver feito em benefício próprio! Persuadamo-nos, portanto, que, para remediar as desordens da consciência, não é apropriado o tempo da morte, mas sim o da vida. 

Apressemo-nos a pôr as mãos à obra naquilo que então não poderemos fazer. Tudo passa e fenece depressa (1Cor 7,29). Procuremos agir de modo que tudo nos sirva para conquistar a vida eterna. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó Deus de minha alma, ó bondade infinita! Tende compaixão de mim, que tanto vos tenho ofendido. Sabia que, pecando perdia vossa graça, e quis perdê-la. Dizei-me, Senhor, o que devo fazer para recuperá-la. 

Se quereis que me arrependa dos meus pecados, deles me arrependo de todo o coração, e tanto que quisera morrer de dor por havê-los cometido. Se quereis que espere o vosso perdão, espero-o pelos merecimentos do vosso sangue. Se quereis que vos ame sobre todas as coisas, tudo deixo, renuncio a todos os prazeres que o mundo pode me oferecer, e vos amo mais que todos os bens, ó amabilíssimo Salvador meu! Se quereis, enfim, que vos peça alguma graça, ouso pedir-vos as seguintes: que não permitais que vos torne a ofender e que me concedais que vos ame verdadeiramente; depois fazei de mim o que quiseres. 

Maria, esperança minha, alcançai-me estas duas graças. É de vós que as espero. 


PONTO III

Que grande loucura expor-se ao perigo de uma morte infeliz e começar com ela uma eternidade desditosa, por causa dos breves e miseráveis deleites desta vida tão curta! Oh, quanta importância tem esse último instante, esse último suspiro, esta última cena! Vale uma eternidade de gozos ou de tormentos. Vale uma vida sempre feliz ou sempre desgraçada. Consideremos que Jesus Cristo quis morrer vítima de tanta amargura e ignomínia para nos obter morte venturosa. Com este fito nos dirige tantas vezes seu convite, dá-nos suas luzes, nos admoesta e ameaça, tudo para que procuremos concluir a hora derradeira na graça e na amizade de Deus. 

Até um pagão, Antístenes, a quem perguntaram qual era a maior dita deste mundo, respondeu que era uma boa morte. Que dirá, pois, um cristão, a quem a luz da fé ensina que nesse momento começa a eternidade e se toma um dos dois caminhos, o do eterno sofrimento ou o da eterna alegria? Se numa bolsa metessem dois bilhetes: um com a palavra inferno, outro com a palavra glória, e tivesses que tirar à sorte um deles para seguir imediatamente ao lugar indicado, que precaução não tomarias para tirar o que desse entrada para o céu? Os desgraçados, condenados a jogar a vida, como tremem ao estender a mão para lançar os dados, dos quais depende sua vida ou morte. 

Com que espanto te verás próximo desse momento solene em que poderás dizer a ti mesmo: Deste momento depende minha vida ou minha morte eterna! Decide-se agora se hei de ser eternamente feliz ou desesperado para sempre. Refere São Bernardino de Sena que certo príncipe, ao expirar, dizia atemorizado: Eu, que tantas terras e palácios possuo neste mundo, não sei, se morrer esta noite, que mansão irei habitar! Se crês, meu irmão, que hás de morrer, que existe eternidade, que se morre só uma vez, e que, dado este passo em falso, o erro é irreparável para sempre e sem esperança de remédio: por que não te decides, desde o momento em que isto lês, a praticar quanto puderes para te assegurar uma boa morte? Era a tremer que Santo André Avelino dizia: Quem sabe a sorte que me estará reservada na outra vida: salvar-me-ei? Tremia um São Luís Beltrão de tal maneira que, em muitas noites, não lograva conciliar o sono, acabrunhado pelo pensamento que lhe dizia: Quem sabe se te condenarás? E tu, meu irmão, que de tantos pecados és culpado, não tremes? Apressa-te em tomar o remédio oportuno; decide entregar-te inteiramente a Deus, e começa, desde já, uma vida que não te aflija, mas proporcione consolo na hora da morte. Dedica-te à oração; frequenta os sacramentos, evita ocasiões perigosas e, se tanto for preciso, abandona o mundo para assegurar tua salvação, persuadido de que, quando esta se trata, não há confiança que baste. 


AFETOS E SÚPLICAS

Quanta gratidão vos devo, meu amado Salvador! Como pudestes prodigalizar tantos benefícios a um traidor e ingrato para convosco? Criaste-me, e criando-me, já prevíeis quantas ofensas vos havia de fazer um dia. Remiste-me, morrendo por mim, e, já então, víeis toda a ingratidão com que havia de proceder. Apenas entrando no mundo, afastei-me de vós; entreguei-me à morte, à corrupção, mas vós, por vossa graça, me restituístes à vida. Estava cego e me abristes os olhos. Tinha-vos perdido, e fizestes que vos tornasse a encontrar. Era vosso inimigo e me oferecestes vossa amizade.

Ó Deus de misericórdia, fazei-me conhecer o muito que vos devo e que chore as ofensas que vos fiz. Vingai-vos de mim, dando-me dor profunda pelos meus pecados; mas não me castigueis, privando-me de vossa graça e de vosso amor.

Ó Pai Eterno, abomino e detesto acima de tudo os ultrajes que fiz. 

Tende piedade de mim, por amor de Jesus Cristo! Olhai vosso Filho morto na cruz, e desça sobre mim o seu sangue divino para lavar a minha alma. Ó Rei do meu coração, venha o vosso Reino. Estou resolvido a repelir toda a afeição que não seja por vós. Amo-vos sobre todas as coisas; vinde reinar em minha alma. Fazei que eu vos ame como o único objeto de meu amor. Desejo agradar-vos quanto me for possível no tempo de vida que me resta. Abençoai, meu Pai, este meu desejo, e concedei-me a graça de permanecer sempre unido a vós. Consagro-vos todas as minhas afeições e doravante só quero ser vosso, ó meu tesouro, minha paz, minha esperança, meu amor, meu tudo! Tudo espero de vós pelos merecimentos de vosso Filho. 

Ó Maria, minha Rainha e minha Mãe, ajudai-me pela vossa intercessão! Mãe de Deus, rogai por mim. 

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Santo Afonso Mª de Ligório, Preparação para a morte.      







segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Tudo se acaba com a morte - parte II



Achando-se Filipe II, rei de Espanha, às portas da morte, mandou vir seu filho à sua presença e, abrindo o manto real com que se cobria, mostrou-lhe o peito já roído de vermes, dizendo: Príncipe, vede como se mede e como se acabam todas as grandezas deste mundo. Foi com razão que Teodoreto disse que a morte não teme riquezas, nem poder, nem púrpura; e que tanto os vassalos como os príncipes se tornam presa de corrupção. Assim, todo aquele que morre, ainda que seja príncipe, nada leva consigo ao túmulo. Toda a glória acaba no leito mortuário (Sl 48,18). 

Refere Santo Antônio que, na morte de Alexandre Magno, exclamara um filósofo: "Ai está quem ontem calcava a terra aos pés; hoje é pela terra oprimido. Ontem cobiçava a terra inteira; hoje basta-lhe um espaço de sete palmos. Ontem dirigia exércitos inumeráveis através do mundo; hoje uns poucos coveiros o levam ao túmulo". Mas escutemos, antes de tudo, o que disse o próprio Deus: "Por que se ensoberbece o pó e a cinza? (Eclo 10,9). Homem, não vês que és pó e cinza, de que te orgulhas? Para que te serve consumir teus anos e teu espírito em adquirir grandezas deste mundo? Virá a morte e então se dissiparão todas as grandezas e todos os teus projetos (Sl 145,4). 

Quão preferível foi a morte de São Paulo Eremita, que viveu sessenta anos em uma gruta, à de Nero, imperador de Roma! Quanto mais feliz a morte de São Félix, simple frade capuchinho, do que a de Henrique VIII, que passou sua vida entre as pompas reais, mas sendo inimigo de Deus! É preciso considerar, porém, que os Santos, para alcançar morte semelhante, abandonaram tudo: pátria, delícias e quantas esperanças o mundo lhes oferecia, para abraçarem a vida pobre e menosprezada. 

Sepultaram-se em vida sobre a terra, para não serem sepultados no inferno depois da morte. Como, porém, os mundanos podem esperar morte feliz, vivendo como vivem, em pecados, prazeres terrestres e ocasiões perigosas? Deus preveniu os pecadores que na hora da morte o procurarão e não o hão de achar (Jo 7,34). Disse que então já não será tempo de misericórdia, mas sim de justa vingança (Dt 32,15). 

A razão nos ensina esta mesma verdade, porque, na hora da morte, o mundano se achará fraco de espiríto, obscurecido e duro de coração pelos maus hábitos que contraiu; as tentações então manifestar-se-ão mais violentas, e ele, que em vida se acostumou a render-se e a deixar-se vencer, como resistirá naquele transe? Seria uma graça extraordinária e poderosa para lhe transformar o coração. Mas será Deus obrigado a lhe conceder? Ou talvez a mereceu pela vida desordenada que levou? E, no entanto, trata-se nessa ocasião da desdita ou da felicidade eterna. Como é possível, ao pensar nisto, que aquele que crê nas verdades da fé não renuncie a tudo para entregar-se inteiramente a Deus, que nos julgará segundo nossas obras? 


AFETOS E SÚPLICAS 

Ah, Senhor! quantas noites passei sem vossa graça! Em que estado miserável se achava então a minha alma! Vós a odiáveis, e ela queria vosso ódio! Estava condenado ao inferno; só faltava executar a sentença. 

Meu Deus, dignaste aproximar-vos de mim, incitando-me ao perdão. Mas quem me assegurará que agora já me haveis perdoado? Ó meu Jesus, devo viver nesse receio até que venhais julgar-me? Contudo, a dor que sinto de vos ter ofendido, meu desejo de amar-vos e sobretudo vossa Paixão, é Redentor meu, dão-me confiança de que me acho em vossa graça. Arrependo-me de vos ter ofendido, ó Soberano Bem, e amo-vos sobre todas as coisas. Prefiro perder tudo a perder a vossa graça e o vosso amor. Quereis que sinta alegria o coração que vos procura (1Cr 16,10). Detesto, Senhor, as injúrias que vos fiz; inspirai-me confiança e coragem. Não me lanceis em rosto minha ingratidão, que eu mesmo reconheço e destesto. Dissestes que não quereis a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11). Pois bem, meu Deus, renuncio a tudo e me converto à vós: é a vós a quem procuro, a vós a quem eu quero, a vós a quem eu amo sobre todas as coisas. 

Dai-me vosso amor e nada mais vos peço. 

Ó Maria, que sois minha esperança, alcançai-me a santa perseverança. 


Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte, pg. 19-22. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Tudo se acaba com a morte




 Finis venit; venit finis. 

O fim chega; chega o fim (Ez 7,6). 


Ponto I

Os mundanos só consideram feliz quem goza dos bens deste mundo: honras, prazeres e riquezas. Mas a morte acaba com esta ventura terrestre. "Que é vossa vida? É um vapor que aparece por um momento" (Tg 4,15). Os vapores que a terra exala, quando sobem ao ar, sob o efeito dos raios solares oferecem, às vezes, aspecto vistoso; mas quanto tempo dura essa aparência brilhante? Ao sopro do menor vento, tudo desaparece. Aquele poderoso do mundo, hoje tão acatado, tão temido, quase adorado, amanhã, quando estiver morto, será desprezado, olvidado e amaldiçoado. A morte obriga a deixar tudo. O grande servo de Deus Tomás de Kempis ufanava-se de ter construído uma casa magnífca. Um de seus amigos, porém, observou-lhe que notava um grave defeito. 

- Qual? - perguntou ele. 

- O defeito que encontro nela - respondeu-lhe o amigo - é que mandaste fazer uma porta.

- Como? - retorquiu o dono da casa - a porta é um defeito? - Sim - acrescentou o outro - porque virá o dia em que, por essa porta, deverás sair morto, deixando a casa e tudo o mais que te pertence. 

A morte, enfim, despoja o homem de todos os bens do mundo.

Que espetáculo ver arrancar este príncipe de seu próprio palácio para nunca mais entrar nele, e considerar que outros tomam posse de seus móveis, de seus tesouros e de todos os demais bens! Os servos deixam-no na sepultura coberto apenas com uma veste suficiente para cobrir-lhe as carnes; já não há quem o estime nem o adule; nem se levam em conta as ordens que deixou. Saladino, conquistador de muitos reinos na Ásia, ordenou, ao morrer, que, quando transportassem seu corpo à sepultura, um soldado precedesse o esquife, levando suspensa de uma lança a mortalha e gritasse: "Eis aqui tudo o que Saladino leva para a sepultura!" Quando um cadáver de um príncipe desce à sepultura, desfazem-se suas carnes, e nos restos mortais não se conserva indício algum que o distingua dos outros. "Contempla os sepulcros, - disse São Basílio - e não poderás distinguir quem foi o servo e quem o amo." Na presença de Alexandre Magno, certo dia, Diógenes mostrou-se mui absorvido em procurar alguma coisa entre um montão de ossos humanos. 

- Que procuras aí? - perguntou Alexandre, com curiosidade. 

- Procuro - respondeu Diógenes - o crânio do rei Filipe, vosso pai, e não o encontro. Mostrai-me, se o podeis encontrar.

Neste mundo todos os homens nascem em condições desiguais, mas a morte os iguala - disse Sêneca. Horácio dizia também que a morte nivela os cetros e os cajados. Numa palavra, quando a morte chega, finis venit, tudo se acaba e tudo se deixa; de todas as coisas deste mundo nenhuma levamos para a tumba. 


AFETOS E SÚPLICAS

Senhor, já que me fazes reconhecer que tudo quanto o mundo estima não passa de fumo e demência, dai-me força para livrar-me dele antes que a morte me arrebate. Infeliz de mim, que tantas vezes, por míseros prazeres e bens terrenos, vos ofendi e perdi a vós que sois o Bem infinito! Ó meu Jesus, médico celestial, volvei os vossos olhos para minha pobre alma; vede as feridas que eu mesmo lhe abri com meus pecados, e tende piedade de mim. Mas, para me curar, quereis também que me arrependa das ofensas que vos fiz. Já que me arrependo de coração, curai-me, agora que podeis fazê-lo ( Sl 40,5). Esqueci-me de vós; mas vós não me esquecestes, e agora me dais a entender que até quereis olvidar minhas ofensas, se eu as detestar (Ez 18,21). 

Sim, detesto e aborreço-as mais que todos os males. Esquecei, pois, meu Redentor, as amarguras que vos causei. Doravante, prefiro perder tudo, até a vida, a perder a vossa graça. De que me serviriam, sem ela, todos os bens do mundo? Dignai-vos ajudar-me, Senhor, já que conheceis minha fraqueza. 

O inferno não deixará de tentar-me; prepara mil assaltos para me reduzir de novo à condição de seu escravo. Mas, vós, meu Jesus, não me abandoneis! Quero ser escravo de vosso amor. Sois meu único Senhor, que me criastes, que me remistes e que me amastes sem limites. Sois o único que mereceis amor, e só a vós é que eu quero amar. 


Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte, pg. 16-19. 

domingo, 28 de julho de 2024

Regras de vida cristã¹

                                                                         Livro: A Oração 

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)
 
 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


I. De manhã, ao se levantar, fazer os atos indicados posteriormente. Todos os dias fazer meia hora de oração mental e pelo menos um quarto de hora de leitura de algum livro espiritual. Participar da Missa. Fazer a visita do Santíssimo Sacramento e à Mãe de Deus. Rezar o Rosário. À noite, fazer o exame de consciência, ato de arrependimento, os atos cristãos e rezar a Ladainha de Nossa Senhora.

II.  Confessar-se e comungar pelo menos semanalmente e até mais vezes, se o Diretor espiritual o permitir.

III. Escolher um bom confessor, instruído e piedoso; seguir suas orientações tanto no tocante aos atos de devoção, como nas questões importantes; não abandoná-lo sem motivo grave. 

IV. Evitar a ociosidade, as más companhias, as conversas inconvenientes e, principalmente, as ocasiões de pecado, especialmente quando há perigo para a castidade.

V. Nas tentações, principalmente nas impuras, fazer logo o Sinal da Cruz e invocar os nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação.

VI. Se cometer algum pecado, arrepender-se logo e resolver emendar-se. Se o pecado for grave, confessar-se o quanto antes.

VII. Sempre que possível ouvir as pregações; pertencer a alguma irmandade ou grupo, ali procurando apenas a salvação eterna.

VIII. Para honrar a Maria Santíssima, jejuar nos sábados e na vigília de suas festas, fazendo ao mesmo tempo alguma outra mortificação corporal conforme o conselho do diretor espiritual. Fazer a novena para as festas de Maria, do Natal, de Pentecostes e do próprio padroeiro. 

Nas situações desagradáveis, doenças, perdas, perseguições, conformar-se com a vontade de Deus e ficar em paz, dizendo: "Assim Deus quer, assim seja!". 

Todos os anos fazer os Exercícios Espirituais em alguma casa religiosa ou algum lugar retirado. Ou, pelo menos, fazê-lo em casa mesmo, dedicando-se o mais possível à oração, às leituras espirituais e ao silêncio. Do mesmo modo fazer um dia de Retiro cada mês, evitando as conversas e recebendo a Eucaristia.  



Atos cristãos para cada dia


De manhã ao levantar-se, tendo feito o Sinal da Cruz, faça os seguintes atos de adoração, de amor, de agradecimento, de propósito e de súplica:

I. Meu Deus, eu vos adoro e vos amo com todo o meu ser.

II. Agradeço todos os vossos benefícios, especialmente o de me terdes conservado nesta noite.

III. Eu vos ofereço as minhas ações, os meus sofrimentos deste dia, em união com as ações e os sofrimentos de Jesus e de Maria, com a intenção de ganhar todas as indulgências que puder.

IV. Proponho-me fugir de todos os pecados, especialmente... (é bom fazer um propósito particular quanto ao defeito em que mais se cai). Nos contratempos quero conformar-me sempre à vossa vontade. Meu Jesus, guardai-me; Maria protegei-me sob vosso manto. Pai eterno, ajudai-me por amor de Jesus e de Maria. Meu Anjo da Guarda, meus Santos Padroeiros, acompanhai-me. Reze depois o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e três Ave-Marias em honra e pureza de Nossa Senhora. 

Ao começar um trabalho, estudo ou qualquer outra ocupação, diga: "Senhor, eu vos ofereço este meu esforço". Às refeições: "Meu Deus, seja tudo para a vossa glória. Abençoai-me para que não caia em nenhuma falta". Depois das refeições: "Agradeço, Senhor, o benefício que fizestes a quem vos ofendeu". Ao soar das horas: "Jesus, eu vos amo. Não permitais que me separe de vós". Nos contratempos: "Senhor, assim quisestes, assim também eu quero". Nas tentações repita frequentemente os nomes de Jesus e Maria. Tendo cometido alguma falta: "Senhor, eu me arrependo porque ofendi a vós, bondade infinita. Não quero fazê-lo novamente". Se houve pecado grave, confessar-se logo.

À noite, antes de se deitar, agradeça a Deus as graças recebidas; faça o exame de consciência, o ato de arrependimento e os atos do cristão. 


Modo prático de fazer oração mental

Como preparação, diga:

I. Meu Deus, creio que estais aqui presente. Eu vos adoro com todo o meu ser.

II. Senhor, mereceria estar agora no inferno; arrependo-me de vos haver ofendido; perdoai-me.

III. Pai Eterno, por amor de Jesus e de Maria, iluminai-me.

Depois, recomende-se a Maria Santíssima com uma Ave-Maria, recomende-se a São José, ao Anjo da Guarda, ao Santo Padroeiro.

Agora leia a Meditação; vá interrompendo a leitura sempre que encontrar uma passagem que tenha um significado maior para você. Faça atos de humildade, de agradecimento e, principalmente, de arrependimento e amor. Diga: "Senhor, fazei de mim o que quiserdes, ajudai-me a conhecer o que quereis de mim; quero fazer o que vos agrada". Ore muito, pedindo a Deus a perseverança, o amor, a luz, a força para fazer sempre a vontade divina, a graça de orar sempre.

Antes de terminar a oração, faça um propósito particular, de evitar alguma falha mais frequente. Termine com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Nunca deixe de recomendar a Deus as almas do Purgatório e os pecadores. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

 












sexta-feira, 12 de julho de 2024

A perseverança na oração

 Livro: A Oração - Cap. IV

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




32. Devemos rezar com perseverança

É, pois, necessário que rezemos com humildade e confiança. Entretanto, isto só não basta para alcançarmos a perseverança final e, com ela, a salvação eterna. As graças particulares que pedimos a Deus podemos obtê-las por meio de orações particulares. Mas se não perseverarmos na oração, não conseguiremos a perseverança final, a qual compreende uma cadeia de graças e, por isso, supõe oração repetidas e continuadas até a morte.

A graça da salvação não é uma só graça, mas uma corrente de graças, as quais vêm todas se unir à graça da perseverança final. Ora, esta corrente de graça deve, por assim dizer, corresponder à outra corrente de nossas orações. Se deixarmos de rezar, rompemos a corrente de nossas orações e, então, romper-se-á igualmente a corrente das graças, que nos hão de alcançar a salvação e, assim, não nos salvaremos.


33. Não podemos merecer a perseverança final

É verdade que não podemos merecer a perseverança, final, como ensina o santo Concílio de Trento: "Unicamente pode no-la dar Aquele que tem o poder de sustentat os que estão de pé, para que eles se conservem de pé até o fim". Apesar disso, julga Santo Agostinho que podemos merecer de certo modo este grande dom da perseverança, por meio de nossas orações, isto é, por súplicas insistentes. E quem reza, ajunta Soares, consegue-a infalivelmente. 

Entretanto, para alcançar esta graça e conseguir a salvação eterna, são necessárias - diz Santo Tomás - orações perseverantes e contínuas. "Depois do batismo, é necessária ao homem a oração contínua para poder entrar no céu". E antes dele, repetidas vezes, já o disse o Salvador: "É preciso rezar sempre e nunca descuidar" (Lc 18,1). "Vigiai, portanto, orando em todo o tempo, para que sejais dignos de evitar todas estas coisas, que hão de acontecer, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do homem" (Lc 21,36). Já no Antigo Testamento lemos: "Nada te impeça de rezar sempre" (Eclo 18,22). "Bendize a Deus em todo e pede-lhe que dirija os teus caminhos" (Tb 4,26). Por isso aconselhava o Apóstolo aos seus discípulos que nunca deixassem de rezar: "Orai sem intermissão" (Ts 5,17). "Perseverai e vigiai na oração!" (Cl 4,2). "Quero, pois, que os homens rezem em todo lugar" (1Tm 2,8). O Senhor quer dar-nos a perseverança e a vida eterna, mas diz São Nilo: "Não a quer dar senão a quem lhe pede com perseverança". Muitos pecadores chegam a se converter com auxílio da graça e a receber o perdão. Mas, porque deixam de rezar e pedir a perseverança, tornam a cair e perdem tudo.


34. Deve-se pedir diariamente a graça de perseverança

Não basta, diz Belarmino, pedir a graça da perseverança uma vez só ou mesmo algumas vezes. Devemos pedi-la sempre, todos os dias, até a morte, se quisermos alcançá-la. Quando a pedirmos, alcançaremos. No dia em que a pedirmos, Deus no-la concederá. Mas, no outro dia, em que deixarmos de pedi-la, cairemos em pecado. Isto é o que Nosso Senhor queira nos ensinar, propondo a parábola do amigo que não queria dar os pães ao que lhe pedia, senão depois de muitos e importunos rogos: "Se ele não se levantar para dar-lhe os pães, por ser amigo, pelo menos vai se levantar por causa da amolação. E vai dar tudo o que amigo precisa" (Lc 11,8). Ora, diz Santo Agostinho, se este homem levanta-se e dá-lhe os pães, para não ser importunado, quanto mais Nosso Senhor atenderá, sendo Ele que nos exorta a pedir e se desgosta, quando não pedimos!

O Senhor quer conceder-nos a salvação e todas as graças necessárias para consegui-la. Mas Ele quer que o importunemos com nossas orações. Diz Cornélio a Lápide, sobre o mencionado texto do Evangelho: "Deus quer que perseveremos na oração até a importunação. Os homens deste mundo não suportam importunos, mormente em pedir-lhe a graça da perseverança". 


35. Rezemos sempre!

Para alcançarmos, pois, a graça da perseverança é mister recomendarmo-nos sempre a Deus, de manhã à noite, na meditação, na Missa, na comunhão, em uma palavra: sempre, especialmente, porém, no tempo das tentações. Então, devemos dizer e repetir sempre: Senhor, ajudai-me! Senhor, assisti-me, protegei-me! Senhor, não me abandoneis; tende piedade de mim! Pode haver coisa mais fácil do que dizer: Senhor, ajudai-me, assisti-me!?

Sobre as palavras do Salmista: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida", diz a glosa: "Dirá alguém: não posso jejuar, não posso dar esmolas; mas não poderá dizer: eu não posso rezar, pois é a coisa mais fácil que há". Contudo, não devemos cessar de rezar. É preciso que continuamente façamos, por assim dizer, violência a Deus, para que Ele sempre nos auxilie com a sua graça. "Esta violência é agradável a Deus", escreveu Tertuliano, São Jerônimo diz: "Quanto mais forem importunas e perseverantes as nossas orações, tanto mais agradáveis serão a Deus".


36. "Bem-aventurado o homem que ouve e que vela diariamente à entrada da minha casa" (Pr 8,34). 

Bem-aventurado, diz Nosso Senhor, é aquele homem que ouve e continuamente vela às portas da minha misericórdia com as suas orações. 

Isaías diz: "Bem-aventurados todos os que o esperam" (30,18). Bem-aventurados aqueles que até ao fim, pedindo e rezando, aguardam do Senhor a sua salvação. 

Por isso, no Evangelho, Nosso Senhor nos exorta a pedir, mas de que maneira? "Pedi e recebereis; buscai e achareis; bateis e abrir-se-vos-á" (Lc 11,9) Bastava dizei: "Pedi". Para que acrescentar: "buscai", "batei"? Mas não. Não foi supérfluo acrescentar essas palavras. Com isso, queria Jesus ensinar-nos que devemos fazer como fazem os pobres, quando vão pedir esmolas. Esses, quando não recebem a esmola perdida, pedem uma e mais vezes, batem repetidas vezes à porta, quando não vem logo alguém atendê-los, e, por fim, tornam-se molestos e importunos. Deus quer que façamos assim também. Quer que supliquemos e tornemos a suplicar, e não cessemos de suplicar que nos assista, nos socorra, nos ilumine, nos fortaleça, e não permita que venhamos ainda a perder a sua graça. Diz o douto Léssio que dificilmente se pode desculpar de pecado mortal aquele que, em estado de pecado ou em perigo de morte, não reza. Do mesmo modo, peca quem deixa de rezar por um notável espaço de tempo, isto é, por um ou dois meses. Isto se deve entender fora do tempo da tentação, porquanto que, for assaltado por qualquer tentação grave e não recorrer a Deus logo, sem dúvida, peca gravemente, expondo-se desta forma a um perigo próximo e certo de cair.


37. Por que Deus não concede a graça da perseverança de uma só vez? 

Já que Deus pode e quer dar-me a graça da perseverança, por que não ma concede toda de uma só vez, quando lhe peço? São muitas as razões que nos dão os santos Padres. Deus não a concede de uma vez e difere a sua concessão, para, antes de tudo, experimentar a nossa confiança. Depois, diz Santo Agostinho, para que a desejamos mais ardentemente: "Os grandes dons exigem um grande desejo, porquanto tudo o que se alcança com facilidade não se estima tanto como o que se desejou por muito tempo. Deus não quer dar-te logo o que pedes, para aprenderes a desejar com grande desejo". 

Outro motivo é para nós não esquecermos dele. Se já estivéssemos seguros de perseverarmos e de alcançarmos a salvação e não necessitássemos continuamente do auxílio de Deus para conservarmos sua graça e nos salvarmos, facilmente nos esqueceríamos dele. A necessidade obriga os pobres a frequentar as casas dos ricos. Por esta razão, querendo Deus atrair-nos a si, como diz São João Crisóstomo, e ver-nos muitas vezes a seus pés, a fim de nos conceder a graça, que completa a nossa salvação, até a hora de nossa morte. "Deus demora em atender-nos, não por repelir as nossas orações, mas para nos tornar mais fervorosos e nos atrair para Si."

Além disso, Deus age desse modo para que nós, rezando sempre, nos unamos mais estreitamente a Ele pelos doces laços do amor. "A oração, diz São João Crisóstomo, não é um vínculo insignificante do amor de Deus. É ela que nos acostuma a falar com Deus". Que incentivo e que vínculo de amor são o recurso contínuo a Deus pela oração e a confiança com que esperamos as graças! Quanto nos inflama e une a Deus!


38. Até quando devemos rezar?

Devemos rezar sempre, responde o mesmo Santo, até que nos seja proferida a sentença tão auspiciosa da salvação eterna, isto é, até a hora de nossa morte. "Não desistas até receberes." E ajunta que quem disser: "Não deixarei de rezar até que me salve", certamente se salvará. Escreve o Apóstolo: "Muitos correm no estádio em busca de prêmio, mas unicamente um o alcança, não sabeis disto? Correi para alcançá-lo" (1Cor 9,24). Não basta, pois, pedir a graça da salvação. É necessário pedir sempre, até alcançarmos a coroa prometida por Deus unicamente aos que a pedirem constantemente até o fim. 


39. Para se alcançar a salvação, é necessário rezar sempre

Devemos fazer como Davi, que tinha os seus olhos constantemente voltados para Deus a fim de implorar o seu socorro e para não ser vencido por seus inimigos: "Os meus olhos se volvem continuamente para Deus, porquanto Ele afastará os meus pés do laço" (Sl 24,15). Assim como o demônio não descansa, armando-nos contínuas ciladas para nos devorar, como nos escreve São Pedro: "O demônio, adversário vosso, anda rodeando-vos, como um leão que ruge, buscando sua presa" (1 Pd 5,8), do mesmo modo, nós, para sermos protegidos contra tal inimigo, nunca devemos depor as armas, mas devemos dizer com o real Profeta: "Perseguirei os meus inimigos e não voltarei atrás, enquanto não derrubá-los por terra" (Sl 17,4). Não cessarei de combater, até que veja meus inimigos destroçados.

Mas como poderemos alcançar esta vitória, para nós tão difícil? Por meio de constantes orações, responde-nos Santo Agostinho, e só com orações perseverantes.

E até quando? Durante todo o tempo de combate. "Assim como nunca cessa a luta, diz São João Boaventura, assim também nunca devemos deixar de pedir a misericórdia divina, para não sermos vencidos". Ai daquele que, durante o combate, abandonar a oração, diz o Sábio, "ai dos que não perseveram na oração! (Eclo 2,16). Chegaremos à salvação, diz o Apóstolo, mas com esta condição: contanto que sejamos fiéis e perseverantes na oração, até a morte. 


40. Quem nos separará do amor do Cristo?

Confiados, pois, na divina misericórdia e em suas promessas, digamos com São Paulo: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação? Ou a angústia?... Ou o perigo? Ou a perseguição? Ou a espada?" (Rm 8,35). Quem nos separará do amor de Cristo? Talvez a tribulação? o perigo de perder os bens desta terra, as perseguições dos demônios ou dos homens? Os tormentos dos tiranos? "Superaremos tudo por Aquele que nos ama" (Rm 8,37). Não, dizia ele, nenhuma tribulação, nenhuma angústia, perigo ou perseguição jamais nos poderá separar do amor de Jesus Cristo. Porque, com o auxílio divino, venceremos tudo, pois combateremos por aquele Senhor que deu a vida por nós. 

Depois de ter o Padre Hipólito Durazzo resolvido renunciar uma prelazia romana, a fim de entregar-se todo a Deus, e entrar na Companhia de Jesus, como o fez mais tarde, receava muito, por causa da sua fraqueza, não ser fiel a Nosso Senhor. Por isso, dizia: "Não me desampareis, Senhor, mormente agora que me consagrei todo a vós". Mas ouviu o Senhor falar-lhe ao coração: "Não me abandones tu também!" Confiado na bondade de Deus e no seu auxílio, concluiu o servo de Deus dizendo: "Pois bem, meu Deus, vós não me abandonareis e eu não abandonarei a Vós".


41. "Seremos salvos pela esperança"

Se quisermos, pois, que Deus não nos abandone, devemos pedir-lhe sempre que nos auxilie. Fazendo assim, certamente Ele nos assistirá sempre e não permitirá que nos separemos dele e percamos a sua amizade. Procuraremos, por isso, rezar sempre e pedir a graça da perseverança final, bem como as graças para consegui-la.

Não nos esqueçamos também da graça de rezarmos sempre. Foi esta a grande promessa que fez pelos lábios do Profeta: "Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito da graça e da prece" (Zc 12,10). Oh! que grande graça é o espírito das preces, isto é, a graça que Deus concede a uma alma de rezar sempre! Não cessemos, pois, de pedir a Deus essa graça e esse espírito de oração. Porquanto, se pedirmos, certamente obteremos de Nosso Senhor a perseverança e todo e qualquer outro dom que desejarmos. Deus não pode deixar de nos ouvir, porque prometeu ouvir-nos: "Seremos salvos pela esperança". Por causa dessa esperança de rezar sempre, podemos julgar-nos salvos. Essa Esperança, diz Beda, o Venerável, dar-nos-á entrada segura na cidade eterna do paraíso.


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Pintura: Jean Louis Ernest Meissonier

A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.