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sábado, 24 de maio de 2025

Comentário à Saudação Angélica (Ave-Maria)




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Deus abençoe por Maria!


 São Tomás de Aquino 

A 77 saudação contém três partes. O anjo falou uma parte: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres (Lc 1,28). Isabel, mãe de João Batista, falou outra parte: Bendito é o fruto do teu ventre (ibid., v. 42). A terceira parte foi adicionada pela Igreja: Maria, pois o anjo não disse Ave, Maria, mas Ave, cheia de graça. E este nome, Maria, segundo sua interpretação, está de acordo com as palavras do anjo, como ficará claro.


ARTIGO I

Ave-Maria, cheia de graça, 

o Senhor é contigo.

Quanto à primeira parte, consideremos que, antigamente, era algo muito grandioso quando os anjos apareciam aos homens, ou quando os homens lhes prestavam reverência. Isso era considerado um grande louvor. Por isso se escreveu em louvor de Abraão, que hospedera os anjos e lhes prestara reverência. No entanto, nunca se ouvira falar de um anjo prestando reverência a um homem, exceto depois que um anjo saudou a Virgem Maria, dizendo reverentemente: Ave. O motivo pelo qual no passado o anjo não reverenciava o homem, mas o homem reverenciava o anjo, é porque o anjo era superior ao homem sob três aspectos. 

PRIMEIRO, em relação à dignidade: o anjo possui natureza espiritual. Tu que fazes dos anjos teus espíritos (Sl 103,4); já o homem possui natureza corruptível. Por isso Abraão disse: Falarei ao meu Senhor, ainda que eu seja pó e cinza (Gn 18,27). Portanto, não era apropriado que uma criatura espiritual e incorruptível prestasse reverência a uma criatura corruptível, ou seja, ao homem. 

EM SEGUNDO LUGAR, em relação à familiaridade com Deus, pois o anjo é íntimo de Deus, como um assistente. Eram milhares de milhares os que o serviam, e dez mil vezes uma centena de milhar os que assistiam diante dele (Dn 7,10). Já o homem é como um estranho, afastado de Deus pelo pecado. Eis que me afastei fugindo, e permaneci no deserto (Sl 54,8). Por isso, convinha que o homem reverenciasse o anjo como a alguém próximo e íntimo do Rei. 

EM TERCEIRO LUGAR, os anjos se destacam pela plenitude do esplendor da graça divina, pois participam da luz divina em sua máxima plenitude. Porventura têm número as suas milícias? E sobre quem é que não se levanta a sua luz? (Jó 25,3) Portanto, sempre aparecem rodeados de luz. Mas os homens, embora participem da luz da graça, participam menos, e ainda permanecem em certa obscuridade. 

Portanto, não convinha que os anjos prestassem reverência ao homem, até que aparecesse alguém na natureza humana que superasse os anjos nesses três aspectos. E essa foi a Virgem Maria. Portanto, para mostrar que ela excedia os anjos nesses três aspectos, o anjo quis prestar-lhe reverência, dizendo: Ave. Assim, a Virgem Maria superou os anjos nesses três itens.

EM PRIMEIRO LUGAR, na plenitude da graça, que é maior na Virgem Maria do que em qualquer anjo. Para indicar isso, o anjo lhes prestou reverência, dizendo: cheia de graça. É como se dissesse: "Eu presto reverência a ti, porque me superas na plenitude da graça". Diz-se que a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça em relação a três coisas.

PRIMEIRO, em relação à alma, na qual possuía toda a plenitude da graça. A graça de Deus nos é dada para duas coisas: para fazermos o bem e para evitarmos o mal; e quanto a esses dois aspectos, a Bem-aventurada Virgem teve a graça mais perfeita. Ela evitou todo pecado, mais do que qualquer santo depois de Cristo. O pecado pode ser original: e ela foi purificada do pecado original no útero; ou mortal ou venial; e sempre esteve livre deles 78. Toda és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula (Ct 4,7). Agostinho, no livro De natura et gratia, escreve: "Com exceção da Santa Virgem Maria, se todos os santos e santas estivessem vivos aqui, e lhes fosse perguntado se estiveram sem pecado, todos clamariam a uma só voz: 'Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós' (I Jo 1,8). [Todos os têm] exceto, repito, esta Santa Virgem, sobre a qual, em honra ao Senhor, em se tratando de pecado, não ouso nem sequer mencioná-lo. Sabemos que a ela foi concedida maior graça para vencer completamente o pecado, pois mereceu conceber e dar à luz Aquele que sabemos não ter pecado". 79 Mas Cristo supera a Bem-aventurada Virgem num aspecto, pois foi concebido e nasceu sem pecado original. Já a Bem-aventurada Virgem foi concebida no pecado original, mas não nasceu nele. 80 Ademais, ela praticou as obras de todas as virtudes, enquanto outros santos praticaram virtudes específicas: porque um foi mais humilde, outro mais casto, outro mais misericordioso; e por isso são postos como exemplo de virtudes especiais, como São Nicolau, que é tido como exemplo de misericórdia etc. Mas a Bem-aventurada Virgem é exemplo de todas as virtudes. Nela tempos o modelo da humildade: Eis aqui a serva do Senhor (Lc 1,38); Ele olhou para a humildade de sua serva (ibid., 48); da castidade: porque não conheço homem (ibid., v. 34); e de todas as virtudes, como é bastante claro. Assim, a Bem-aventura Virgem está cheia de graça tanto em relação a praticar o bem, como em relação a evitar o mal. 

SEGUNDO, estava tão cheia de graça que a graça lhe transbordava da alma à carne, ou ao corpo. É grande coisa que os santos tenham abundância de graça, de forma que se santifique a sua alma; mas a alma da Bem-aventurada Virgem estava tão cheia de graça, que esta transbordava em sua carne, de tal modo que pôde conceber o Filho de Deus. Por isso Hugo de São Vitor diz: "Como em seu coração o amor do Espírito Santo ardia de maneira única, em sua carne realizava maravilhas, ao ponto de nascer dela alguém que era Deus e homem". 81 E, por isso mesmo, o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus (Lc 1,35).

TERCEIRO, em relação à difusão da graça para todos os homens. É algo grande que um santo possua tanta graça, que seja suficiente para a salvação de muitos; mas possuir tanta graça, que fosse suficiente para a salvação de todos os homens do mundo, isso seria o máximo: e possuem-na assim Cristo e a Bem-aventurada Virgem. Em todo perigo, podes obter salvação da Virgem gloriosa. Mil escudos, isto é, remédios contra os perigos, pedem dela (Ct 4,4). Da mesma forma, em toda obra de virtude, podes tê-la por auxiliadora; por isso ela mesma diz: Em mim está toda a esperança da vida e da virtude (Eclo 24,25).

Portanto, ela é cheia de graça e supera os anjos na plenitude da graça. Por isso é chamada de Maria, que significa "iluminada em si mesma": [O Senhor] encherá a tua alma de resplendores (Is 58,11); e "iluminadora dos outros", em relação ao mundo inteiro; e por isso é comparada ao Sol e à Lua. 

EM SEGUNDO LUGAR, supera os anjos na familiaridade divina. Por isso os anjos, para designar isso, disse: o Senhor está contigo; como se dissesse: "Presto-te reverência porque tu és mais familiar a Deus do que eu, pois o Senhor está contigo". O Senhor, quer dizer ele, [é] o Pai com o próprio Filho, o que nenhum anjo, nem qualquer criatura jamais teve consigo. E, por isso mesmo, o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus (Lc 1,35). O Filho no ventre era o Senhor. Exulta e louva, casa de Sião, porque se mostra grande no meio de ti o Santo de Israel (Is 12,6). O Senhor está com a Bem-aventurada Virgem de uma maneira distinta daquela que está com o anjo; pois com ela está presente como filho, e com o anjo como Senhor. O Espírito Santo é Senhor, e estava nela como num templo. Por isso a chamamos de "Templo do Senhor", "Sacrário do Espírito Santo", porque concebeu do Espírito Santo: O Espírito Santo descerá sobre ti (Lc 1,35). Assim, a Bem-aventurada Virgem é mais familiar a Deus do que os anjos: pois com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, ou seja, toda a Trindade. Por isso cantamos dela: "Nobre triclínio 82 de toda a Trindade". Estas palavras, o Senhor é contigo, são as mais sublimes que se poderiam dizer a alguém. Portanto, com razão o anjo reverencia a Bem-aventurada Virgem, pois é Mãe do Senhor e, portanto, Senhora. Por isso, convém a ela o nome Maria, que, na língua síria, significa "senhora".

EM TERCEIRO LUGAR, supera os anjos quanto à pureza, pois a Bem-aventurada Virgem não só era pura em si mesma, mas também procurava a pureza para os outros. Foi a mais pura, tanto em relação à culpa, pois não incorreu em pecado mortal nem venial, quanto em relação à pena. Três maldições foram decretadas contra os homens por causa do pecado. A primeira foi decretada contra a mulher: conceberia com corrupção, carregaria com sofrimento e daria à luz com dor. Mas a Bem-aventurada Virgem foi poupada de tudo isso, porque concebeu sem corrupção, carregou com consolo e deu à luz com alegria o Salvador. Lançando gérmenes, ela brotará copiosamente, e exultará de alegria e de louvores (Is 35,2). A segunda pena foi contra o varão: comeria o pão com o suor do rosto. A Bem-aventurada Virgem foi poupada disso também, pois, como diz o Apóstolo, as virgens estão livres dos cuidados deste mundo e se dedicam apenas a Deus (cf. I Cor 7,34). A terceira era comum aos homens e mulheres: retornariam ao pó. E a Bem-aventurada Virgem também foi poupada dessa pena, pois foi assunta ao Céu com seu corpo. Acreditamos, com efeito, que ressuscitou logo após a morte, e foi levada aos céus 83. Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso, tu e a arca da tua santidade (Sl 131,8).


ARTIGO II

Bendita és tu entre as mulheres

Estava imune a toda maldição e, portanto, era bendita entre as mulheres, pois somente ela suprimiu a maldição, trouxe a bênção e abriu a porta do Paraíso. Por isso lhe convém o nome Maria, que significa Estrela do Mar, porque, assim como os navegantes são guiados ao porto pela estrela do mar, assim os cristãos são guiados à glória por Maria. 


ARTIGO III

Bendito é o fruto do teu ventre.

O pecador às vezes busca algo que não pode alcançar, mas o justo o alcança. Os bens do pecador estão reservados para o justo (Pr 13,22). Assim, Eva procurou o fruto, mas nele não encontrou o que desejava; a Bem-aventurada Virgem, no entanto, encontrou em seu fruto tudo o que Eva desejara. Eva desejou três coisas no fruto.

PRIMEIRO, o que o Diabo falsamente lhe prometera: que seriam como deuses, conhecendo o bem e o mal. Sereis, disse o mentiroso, como deuses (Gn 3,5). E mentiu, uma vez que é mentiroso e pai da mentira, pois Eva, por comer do fruto, não se tornou semelhante a Deus, mas dessemelhante: quando pecou, afastou-se de Deus, seu Salvador, razão por que foi expulsa do Paraíso. Mas isso a Bem-aventurada Virgem e todos os cristãos encontram, no fruto do seu ventre, aquilo que Eva buscou, porque por Cristo nos unimos e nos assemelhamos a Deus. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é (I Jo 3,2).

SEGUNDO, Eva desejava deleitar-se no fruto, porque era bom para comer; mas nele não encontrou deleite, pois imediatamente percebeu que estava nua e sentiu dor. Mas no fruto da Virgem encontramos doçura e salvação. O que come a minha carne (...) tem a vida eterna (Jo 6,55).

TERCEIRO, o fruto de Eva era belo à vista; mas mais belo é o fruto da Virgem, que os anjos desejam contemplar. Ultrapassa em formosura os filhos dos homens (Sl 44,3), pois é o esplendor da glória do Pai. 

Eva não pôde encontrar no fruto aquilo que também nenhum pecador encontra em seus pecados. Portanto, aquilo que desejamos, busquemo-lo no fruto da Virgem. Este fruto é bendito de Deus, porque Ele de tal modo o encheu com toda a graça que vem até nós fazendo-Lhe reverência: Bendito Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençou com toda a bênção espiritual do céu em Cristo (Ef 1,3); é bendito dos anjos: Bênção, claridade, sabedoria, ação de graças, honra, virtude e fortaleza ao nosso Deus (Ap 7,12); e dos homens: Toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai (Fl 2,11). Bendito o que vem em nome do Senhor (Sl 117,26). Assim, pois, é bendita a Virgem; mas ainda mais bendito é o seu fruto. 84


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78. Conforme o dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX em 1854 na Bula Ineffabilis Deus (DS 2803): "Por uma graça e favor singular de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição".

79. Cf. cap. 36,42.

80. Cf. Ibid., cap. 19, 21.

81. De B.M. virginitate, Libellus epistolaris, cap. 2. 

82. O triclínio era, entre os antigos romanos, uma sala de refeições guarnecida de três leitos ou canapés (em grego: kliné), dispostos em torno de uma mesa. (N.E.).

83. Conforme o dogma da Assunção de Nossa Senhora, proclamado pelo Papa Pio XII em 1950 na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus (DS 3903): "A imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".


Catequeses de Santo Tomás de Aquino, Editora Minha Biblioteca Católica, 2023. pág 139-148. 


quinta-feira, 27 de março de 2025

Morte do pecador




 Santo Afonso Mª de Ligório

Angustia superveniente, pacem requirent, et non erit; conturbatio super conturbationem veniet. 

Sobrevindo a aflição, procurarão a paz e a não encontrarão; virá confusão sobre confusão (Ez 7,25-26).


PONTO I

Os pecadores afastam a lembrança e o pensamento da morte, e procuram a paz (ainda que jamais a encontrem), vivendo em pecado. 

Quando, porém, se virem em face da eternidade e nas agonias da morte, já não poderão escapar aos tormentos de sua má consciência, nem encontrar a paz que procuram. Pois, como pode encontrá-la uma alma carregada de culpas, que, como víboras, a mordem? Que paz poderão gozar pensando que em breve deverão comparecer ante Cristo Jesus, cuja lei e amizade desprezaram até então? "Confusão sobre confusão" (Ez 7,26). 

O anúncio da morte próxima, a idéia de se separar para sempre de todas as coisas do mundo, os remorsos da consciência, o tempo perdido, o tempo que falta, o rigor do juízo de Deus, a eternidade infeliz que espera o pecador, todas estas coisas produzirão perturbação terrível que acabrunha e confunde o espírito e aumenta a desconfiança. E neste estado de confusão e desespero, o moribundo passará à outra vida. 

Abraão, confiando na palavra divina, esperou em Deus contra toda a esperança humana, e por este motivo foi insigne o seu merecimento (Rm 4,18). Mas os pecadores, por desdita sua, iludem-se quando esperam, não só contra a esperança, mas também contra a fé, quando desprezam as ameaças que Deus faz aos obstinados. Receiam a morte infeliz; mas não temem levar a vida má. Quem lhes dá, pois, a certeza de que não hão de morrer subitamente feridos por um raio? E ainda que tivessem nesse momento tempo de se converter, quem lhes assegura que realmente se converterão? Santo Agostinho teve de lutar doze anos para vencer suas más inclinações. Como é que um moribundo, que teve quase sempre a consciência manchada, poderá fazer facilmente uma conversão verdadeira, no meio dos sofrimentos, das dores de cabeça e da confusão da morte? Digo conversão verdadeira, porque então não o bastará dizer e prometer com os lábios, mas será preciso que palavras e promessas saiam do fundo do coração. Ó Deus, que confusão e susto os do pobre enfermo que se descuida de sua consciência, quando se vir oprimido pelo peso dos pecados, do temor do juízo, do inferno e da eternidade! Que confusão e angústia produzirão nele tais pensamentos, quando se achar desfalecido, a mente obscurecida, e entregue às dores da morte já próxima! Confessar-se-á, prometerá, chorará, pedirá perdão a Deus, mas sem saber o que faz. Nesse caos de agitação, de remorso, de agonia e ansiedade, passará à outra vida. 

Diz com razão um autor que as súplicas, as lágrimas e promessas do pecador moribundo são comparáveis às do indivíduo que se vê assaltado por um inimigo que lhe aponta o punhal ao peito e o ameaça de morte. Infeliz quem cai de cama na inimizade de Deus, e dali passa para a eternidade!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó chagas de Jesus, vós sois a minha esperança! Desesperaria do perdão de minhas culpas e salvação eterna, se não vos mirasse como fonte de graça e misericórdia, por meio da qual Deus derramou todo o seu sangue, a fim de purificar minha alma de tantas faltas cometidas. 

Adoro-vos, pois, ó sacrossantas chagas! e em vós confio. Detesto e amaldiçôo mil vezes os prazeres indignos com que ofendi a meu Redentor e miseravelmente perdi sua amizade. Contemplando-vos renasce minha esperança, e se encaminham para vós as minhas afeições. 

Ó amantíssimo Jesus, mereceis que todos os homens vos amem de todo o coração; e, apesar de que eu tanto vos haja ofendido e desprezado vosso amor, vós me haveis suportado e até convidado a procurar o perdão. Ah, meu Salvador, não permitais que vos torne a ofender e que me condene. Que tormento sofreria no inferno à vista do vosso sangue e dos atos de misericórdia que por mim fizestes! Eu vos amo, Senhor, e quero amar-vos sem cessar. Dai-me a perseverança; desenraizai do meu coração todo o amor que não seja o vosso e infundi em minha alma o firme desejo e a verdadeira resolução de não amar no futuro senão a vós, ó meu Sumo Bem. 

Ó Maria, Mãe amorosa, guiai-me até Deus, e fazei que seja todo seu antes de morrer!


PONTO II

Não uma só, senão muitas serão as angústias que hão de aflingir o pobre pecador moribundo. Ver-se-á atormentado pelos demônios, porque estes terríveis inimigos empregam nesse transe todos os seus esforços para perder a alma que está prestes a sair desta vida. Sabem que lhes resta pouco tempo para apoderar-se dela e que, escapando-se agora, jamais será sua (Ap 12,12). Não estará ali apenas um só, mais muitos demônios hão de rodear o moribundo para o perder. Dirá um: "Nada temas, que te restabelecerás". Outro exclamará: "Tu, que durante tantos anos foste surdo à voz de Deus, esperas agora que ele tenha misericórdia de ti?" "Como - intervém outro - poderás reparar os danos que fizestes, restituir as reputações que prejudicastes?" Outro, enfim, dirá: "Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, sem contrição, sem propósito? Como podes agora renová-las? Por outro lado, o moribundo se verá rodeado por suas culpas. Estes pecados, como outros tantos verdugos - disse São Bernardo, acercar-se-ão dele e lhe dirão: "Somos a tua obra, e não te deixaremos. Acompanhar-te-emos à outra vida, e contigo nos apresentaremos ao eterno Juiz". Quisera então o moribundo desembaraçar-se de tais inimigos, mas para consegui-lo seria preciso detestá-los e converter-se de Deus de todo o coração. O espírito, porém, está coberto de trevas, e o coração endurecido. "O coração duro será oprimido de males no fim; e quem ama o perigo, nele perecerá" (Eclo 3,27). 

Afirma São Bernardo que o coração, obstinado no mal durante a vida, se esforçará, no momento da morte, para sair do estado de condenação; mas não chegará a livrar-se dele, e, oprimido por sua própria malícia, terminará a sua vida no mesmo estado. Tendo amado o pecado, amava também o perigo da condenação. É por isso justamente que o Senhor permitirá que ele pereça nesse perigo, no qual quis viver até a morte. Santo Agostinho disse que aquele que não abandona o pecado antes que o pecado abandone a ele, dificilmente poderá na hora da morte detestá-lo como é devido, pois tudo o que fizer nessa emergência, o fará obrigadamente. 

Quão infeliz é o pecador obstinado que resiste à voz divina! O ingrato, ao invés de se entregar e enternecer à voz de Deus, se endurece mais e mais, à semelhança da bigorna sob os golpes do martelo (Jó 41,15). Para seu justo castigo, achar-se-á neste estado, na hora da morte, às portas da eternidade. "O coração duro será oprimido de males no fim". Por amor às criaturas - disse o Senhor - os pecadores me voltaram as costas. À hora da morte recorrerão a Deus, e Deus lhes dirá "Agora recorreis a mim? Pedi socorro às criaturas, já que foram elas os vossos deuses" (Jr 2,27). Deste modo falar-lhe-á o Senhor, porque, mesmo que a Ele se dirijam, não será com verdadeira disposição de se converterem. Dizia São Jerônimo que ele tinha por certo, pois a experiência lho manifestara, que não alcançaria bom fim aquele que até ao fim houvesse levado vida má. 


AFETOS E SÚPLICAS

Socorrei-me e não me abandoneis, amado Salvador meu! Vejo minha alma ferida pelos pecados; as paixões me violentam, oprimem-me os maus hábitos. Prosto-me a vossos pés. Tende piedade de mim e livrai-me de tantos males. "Em vós, Senhor, esperei; não seja confundido eternamente" (Sl 30,2). Não permitais que se perca uma alma que em vós confia (Sl 73,19). Pesa-me de vos ter ofendido, ó infinita Bondade! Confesso que hei cometido muitas faltas, mas a todo custo quero emendar-me. Se não me ajudardes, porém, com vossa graça, estarei perdido. Recebei, Senhor, este rebelde que tanto vos ultrajou. Refleti que vos custei o sangue e a vida. Pelos merecimentos de vossa paixão e morte, recebei-me em vossos braços e dai-me a santa perseverança. 

Estava já perdido, e me chamastes. Já não quero resistir, e me consagro a vós. Prendei-me ao vosso amor, e não permitais que me perca, perdendo de novo vossa graça. Jesus meu, não o permitais! Não o permitais, ó Maria, Rainha de minha alma; enviai-me a morte, e ainda mil mortes, mas que não perca de novo a graça do vosso divino Filho!


PONTO III

Caso digno de admiração! Deus não cessa de ameaçar o pecador com o castigo de uma morte infeliz. "Virá um dia em que me invocarão e então já não os atenderei" (Pr 1,28). Esperam, porventura, que Deus dê ouvidos a seu clamor quando estiver na desgraça? (Jó 27,9). Rir-me-ei de sua morte e escanecerei de sua miséria (Pr 1,26). "Rir-se Deus significa não querer de usar de misericórdia" (São Gregório).

"A mim pertence a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo, quando seu pé resvalar" (Dt 32,15). O mesmo ameaça o Senhor em outros lugares da Escritura, e, não obstante, os pecadores vivem tão tranquilos e seguros, como se Deus lhes houvesse prometido o perdão e o paraíso na hora da morte. É verdade, sempre que o pecador se converter Deus prometeu perdoar. Mas não disse que o pecador se converterá no transe da morte. Pelo contrário, repetiu muitas vezes que aquele que vive em pecado, em pecado morrerá (Jo 8,21-24) e que, se na morte o procurar, não o encontrará (Jo 7,34). É mister, pois, procurar a Deus, enquanto o podemos encontrar (Is 55,6), porque virá tempo em que já não será possível encontrá-lo. Pobres pecadores! pobres cegos que se contentam com a esperança de se converter na hora da morte, quando já não o poderão fazer! Disse Santo Ambrósio: "Os ímpios não aprenderão a praticar o bem, senão quando já não é tempo". Deus quer que todos os homens se salvem; mas castiga os pecadores obstinados. 

Se infeliz, em estado de pecado, fosse acometido repentinamente por mal violento e perdesse os sentidos, que compaixão não inspiraria a todos os que o vissem morrer sem sacramentos e sem sinal de contrição! E que contentamento teriam todos se ele, voltando a si, pedisse a absolvição, fazendo atos de arrependimento! Mas, não é um louco aquele que, tendo tido tempo de pôr em ordem a sua consciência, permanecesse no pecado, ou voltasse a pecar, expondo-se assim ao perigo de ser surpreendido pela morte quando, talvez, não pudesse arrepender-se? Espantamo-nos ao ver morrer alguém de repente, e, contudo, quantas pessoas se expõem voluntariamente ao perigo de morrer assim, estado em pecado! "Peso e balança são os juízos do Senhor" (Pr 16,11). Não fazemos caso das graças que o Senhor nos dá; mas Ele as conta e mede, e quando as vê desprezadas até ao limite que fixa sua justiça, abandona o pecador no pecado, e o deixa morrer neste estado. Desgraçado daquele que difere a conversão até ao último dia! Como diz Santo Agostinho: "Penitentia, quae ab infirmo petitur, infirma est". E São Jerônimo dizia que, cem mil pecadores que teimam viver no pecado até a morte, apenas um só se salvará no momento supremo. São Vicente Ferrer afirmava que a salvação de um desses pecadores seria um milagre maior que a ressureição de um morto. Que arrependimento se pode esperar na hora derradeira de quem viveu amando o pecado até àquele instante? Conta Belarmino que, assistindo a um moribundo e tendo-o exortado a fazer o ato de contrição, lhe respondeu o enfermo que não sabia o que era contrição. Tratou Belarmino de lho explicar, mas disse-lhe o doente: "Padre, não compreendo, nem estou agora capaz de entender essas coisas". E nesse estado faleceu, "dando visíveis sinais de sua condenação", segundo o testemunho escrito de Belarmino. É para o pecador justo castigo - disse Santo Agostinho - o esquecer-se de si próprio na morte, depois de ter esquecido a Deus durante a vida. 

O Apóstolo dá-nos este aviso: "Não vos enganeis, de Deus não se pode zombar. Aquilo que o homem semeia, isto também colherá. Aquele que semeia em sua carne, da carne colherá corrupção" (Gl 6,7). Seria zombar de Deus o viver no desprezo de sua leis e alcançar depois eterna recompensa e glória. "Mas Deus não pode ser burlado". O que nesta vida se semeia, recolhe-se na outra. Aquele que semeia proibidos prazeres carnais, não recolhe, por conseguinte, senão corrupção, miséria e morte eterna. 

Cristão, aquilo que se diz relativamente aos outros, aplica-se também a ti. Se te visses no transe da morte, abandonado dos médicos, privado do uso dos sentidos e já agonizando: quanto não rogarias a Deus que te concedesse ainda um mês, uma semana de vida para regular as contas de tua consciência?! Deus te dá agora esse tempo preciso. Agradece-lhe, pois, e remedeia sem demora o mal que tens feito, aplicando todos os meios precisos para te achares em estado de graça quando a morte vier, porque então já não será tempo de o fazer. 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Deus! Quem, como vós, teria tido tanta paciência para comigo? Se não fosse infinita vossa bondade, não ousaria esperar perdão. 

Mas o meu Deus morreu para me perdoar e para me salvar, ordena-me, pois, que tenha esperança: nele esperarei... Se me espantam e me condenam os meus pecados, vossos merecimentos e promessas me animam. Prometestes a vida da graça a quem voltar a vossos braços. 

Convertei-vos e vivei (Ez 18,32). Prometestes abraçar o que a vós acudir: Convertei-vos a mim e eu me voltarei para vós (Zc 1,3). Dissestes que não sabeis desprezar o que se arrepende e se humilha (Sl 50,19).

Aqui me tendes, Senhor: a vós recorro; reconheço-me merecedor de mil infernos e arrependo-me de vos ter ofendido. Proponho firmemente não tornar a ofender-vos, mas amar-vos sempre. Não permitais que continue ingrato a tanta bondade. Pai eterno, pelos méritos da obediência de Jesus Cristo, que morreu para vos satisfazer, fazei com que obedeça à vossa vontade até à morte. Amo-vos, meu Sumo Bem; e pelo amor que vos tenho quero obedecer-vos em tudo. Dai-me a santa perseverança; dai-me vosso amor, e nada mais vos peço. Maria, minha mãe, rogai por mim. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte













domingo, 23 de março de 2025

Incerteza da hora da morte




 Santo Afonso Mª de Ligório


Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.

Estai previnidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12,40).

PONTO I

É certíssimo que devemos morrer, mas não sabemos quando. 

"Nada há mais certo que a morte. - diz Idiota - porém nada mais incerto que a hora da morte". 

Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (1Ts 5,2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos (Lc 12,40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: a morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar. 

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que havia de acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas. 

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provocar a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia de minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim". (Ecl 9,12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. 

Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Senhor, não é este o lugar em que devia me achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados. Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3,9). Por isso, meu Deus, tivesse paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prosto-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia (Sl 51,3), porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham luzes que me outorgastes. 

Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espero o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. 

Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente! Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a ocasião. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. 

Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16,24). Rogo-vos que me concedais somente a perserverança e o vosso amor. 

Ó Maria, Mãe de Misericórdia, rogai por mim, que confio em vós! 


PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7,13). Vede - disse em outra parte - quantos emerdar, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida (1Ts 5,3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer". Por que tantos avisos do castigo antes de inflingi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta. Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos - disse Santo Agostinho. 

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecl 5,7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. 

E se algum dia hás de abandoná-lo, por que o não deixas desde já? (Santo Agostinho) Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás". 

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor; dizes: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderdes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesse todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesse a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. 

Cuidas de arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier a morte repentina. E se a morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah! Meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar a minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. 

Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim; eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos. 

Ah! Meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. 

Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induziste-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou. 

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. 

Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor. 

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!


PONTO III

"Estai preparados" - o Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12,19). 

"Justo castigo - disse Santo Agostinho - para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode". Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. 

Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma. 

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer (Hom. XIII). São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo (Fl 2,12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação. 

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ec 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5,6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o Beato P.M. Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! Se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte! Foi por isso que o Abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida". Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar?" (Jó 31,14). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meu pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor. 

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que vos fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor." Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito. 

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte.










 

sábado, 9 de novembro de 2024

Da Saudação Angélica

 



Explicação da gravura

1. A gravura trata da saudação angélica, chamada vulgarmente Ave-Maria, porque principia por estas palavras. Chama-se saudação angélica porque as primeiras palavras referem-se à saudação que o Arcanjo Gabriel dirigiu à Virgem de Nazaré, quando foi mandado por Deus, anunciar-lhe o mistério da Encarnação.

2. Essas palavras são: "Ave-Maria, cheia de graça o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres."

3. As outras palavras são parte de Santa Isabel, parte da Igreja. - As de Santa Isabel são: "E bendito é o fruto do vosso ventre", dirigidas a Nossa Senhora quando foi a visitar Santa Isabel, sua prima. - As palavras da Igreja são: "Jesus, Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Assim seja."

4. A oração principia pela saudação Ave-Maria, para testemunhar-lhe o nosso profundo respeito, chamando-lhe Senhora e Rainha, que tanto significa o nome de Maria, - Estas palavras estão representadas da gravura pela Anunciação do Anjo. 

5. Chamamos à Maria cheia de graça, porque, havendo de ser mãe de Deus, foi enriquecida de todas as graças que podem convir a uma pura criatura. - Palavras representadas na gravura pela Imaculada Conceição.

6. Dizemos: O Senhor é convosco, para significar que o Senhor foi sempre com a Virgem desde o princípio da sua conceição que por isso foi isenta de toda a culpa tanto original como atual. - Palavras representadas pela Virgem tendo ao colo a Nosso Senhor. 

7. "Sois bendita entre as mulheres" - quer dizer que a Virgem foi cheia de maiores graças que qualquer outra criatura. Foi, com efeito, preservada da culpa original: foi Mãe de Deus sempre Virgem: foi a criatura mais santa e mais agradável a Deus por todas as suas virtudes, abaixo da alma de Jesus Cristo. - Palavras representadas por Maria no meio de mulheres e mais elevada do que todas elas.

8. "Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus," quer dizer que assim como o seu divino Filho é bendito sobre todas as coisas, assim também Maria, como Mãe sua, é bendita sobre todas as puras criaturas tanto na terra, como no céu. - Palavras representadas na gravura por a Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, e pela Virgem tendo o menino Jesus ao colo e ao pé de si São João Batista. 

9. Dizemos "Santa Maria Mãe de Deus" porque, havendo de interessar a Senhora no despacho que lhe pedimos, nos lembra a Igreja que Ela é Mãe de Deus, isto é, que nada pode ser superior ao seu valimento. - Palavras representadas por Maria coroada no céu Rainha dos Anjos e dos homens.

10. Acrescentamos: "Rogai por nós pecadores", para movê-la à piedade para conosco que somos miseráveis pelo pecado. - Palavras representadas por Maria ajoelhada diante de Jesus Cristo e rogando por nós. 

11. Dizemos: "Agora e na hora de nossa morte", porque sempre temos necessidade do seu auxílio, especialmente na hora da morte em que é perigosíssimo o combate. - Palavras representadas pela Virgem aparecendo a um moribundo.

12. Devemos tributar à Virgem Maria respeito profundo e terna confiança, porque é Mãe do Salvador e Mãe nossa, Rainha dos Anjos e dos homens, e a mais santa das criaturas.

13. Devemos pois invocá-la muitas vezes, pedindo-lhe a sua proteção, celebrar as suas festas com piedade filial, e fazer diligência por imitar as suas virtudes.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 




sábado, 12 de outubro de 2024

Nossa Senhora Aparecida




 São Paulo (Brasil)

Festa a 12 de outubro


No ano de 1717, ao passar por Guaratinguetá o Conde de Assumar, a Câmara notificou aos pescadores que se fizessem ao rio, para pescarem, pois desejavam honrar, com lauta mesa, um tão alto personagem. 

Entre outros foram então pescar Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, em suas canoas. Porém, todos, ainda que continuassem até o pôrto de Itaguassu, muito distante do ponto da partida, nada conseguiram.

Desapontados com a inutilidade dos seus esforços, tentam contudo novamente pescar aqui e além, e, lançando João Alves a sua rede de arrasto, tirou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça, pelo que lançou outra vez a rede mais abaixo, e tirou a cabeça da mesma imagem, não se tendo sabido nunca quem a tinha lançado ao rio. Não tinham conseguido pegar um só peixe, como já dissemos; porém, continuando a pescaria depois do precioso achado, foi tão copiosa em poucos lanços, que, receosos de naufragarem, voltaram para suas casas assombrados com o que lhes tinha sucedido.

Felipe Pedroso conservou a referida imagem (que o povo chamou logo de Senhora Aparecida) em sua casa durante vários anos, e depois presenteou-a a seu filho Atanásio, que morava em Itaguassu, em cujo porto tinham encontrado a pequenina imagem. Atanásio, inspirado pela sua fé, fez um oratório e colocou num altar a aparecida imagem, e aos sábados, à noite, o povo da vizinhança ali se reunia para rezar o terço e outras devoções.

Em uma dessas rezas, estando a noite serena, apagaram-se repentinamente as velas que alumiavam a imagem de Nossa Senhora, e, querendo alguém acendê-las de novo, vê o povo, com pasmo, que as velas por si sós, sem ninguém lhes tocar, acendem-se de repente!

Foi este o primeiro prodígio, que se repetiu várias vezes, de modo que a notícia do estranho fato chegou ao conhecimento do Vigário de Guaratinguetá, Pe. José Alves Vilela, que, com outros devotos, lhe edificaram uma capelinha; mas essa capelinha logo se tornou pequena, pelo que foi demolida, e, no lugar em que hoje está, edificaram outra maior, que, reformada e aumentada, é a Basílica atual (velha).





A imagem está hoje em um nicho riquíssimo, tendo na cabeça uma coroal real que foi benzida pelo Santo Padre.

Eis por que Nossa Senhora grangeou mais um título em nossa amada pátria: Nossa Senhora Aparecida, por ter uma imagem sua aparecido na rede de um pescador.

Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil, e terá em breve um santuário condigno na nova basílica que lhe será construída em Aparecida (Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida, SP, Brasil).




Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, rogai por nós. (300 dias de indulgência - Pio XI).


Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

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sábado, 5 de outubro de 2024

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó


 183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca. 

Ei-la tal como a conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a explicação.


ARTIGO I

Rebeca e Jacó

§I. História de Jacó

184. Esaú vendera a Jacó seu direito de primogenitura. Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a Jacó, - que ela amava ternamente -, as vantagens daquele privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e, chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente, pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava. Em seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse, tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a Voz de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz que ele reconhecia como a de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho, murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos; e terminou a bênção com estas palavras: "Aquele que te amaldiçar seja amaldiçoado, e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos". 

Apenas Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano, mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus. Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste de seu irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção. Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao mesmo tempo as consolações do céu e as da terra, Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou, enfim, mas a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu.


§ II. Interpretação da história de Jacó

185. Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que, conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó e figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta, apenas, examinar a atitude de um e de outro para verificá-lo.

1º) Esaú, figura dos réprobos

1º) Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça. 

2º) Quase não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre.

3º) Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela.

4º) Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

5º) Estava, como Caim. cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas.

186. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias: 

1º) Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do céu: "In terrenis fortes, in caelestibus debiles". Por isso: 

187. 2º) Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de espíritos acanhados, carolas e selvagens aqueles que são espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que fora.

188. 3º) Os réprobos não se preocupam de modo algum com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó. Acham motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam os bons filhos e servos da Virgem Santíssima para obter sua afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária à salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da Santíssima Virgem e são seis servos, ao recitarem ou resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor ternura por ela nem emenda para eles. 

189. 4º) Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura, isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, jogam, dançam, etc., sem a mínima preocupação, como Esaú, de se tornarem dignos de bênção do Pai celeste. Em três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só falam e agem pela terra e pelos prazeres, por uma vã fumaça de honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança. 

190. 5º) Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras, odeiam e perseguem diariamente os predestinados. Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó; enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres, vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e levam vida folgada. 


2º) Jacó, figura dos predestinados

191. 1º) Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

192. 2º) Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho. 

193. 3º) Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discenir, fez exatamente como ela mandou.

194. 4º) Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e a consultava em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez de bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

195. 5º) Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más companhia, que corrompem os costumes. Por tal motivo, tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido pai.

196. Eis também a conduta diária dos predestinados:

1º) Vivem em casa, sedentariamente, com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a vida inteira, tanto amou o retirou e a oração. É verdade que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém,  em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para cumprir os deveres de estado. Por grandes coisas que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as que fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado da qual todas as outras são como brinquedos de criança. Por isso, enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso, recebendo os louvores e aprovações do mundo, eles sabem, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos. "Gloria et divitiae in domo eius" (Sl 111,3) - a glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se na casa de Maria. 

Senhor Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É nesta casa de predestinados que ele de Vós somente recebe socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de lágrimas. "Quam dilecta tabernacula..." (Sl 83).

197. 2º) Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que creem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó, 1º) para que ela os receba como um dom que lhe pertence; 2º) para que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si próprios, escorchando-os e despojando-os da própria pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a Jesus, seu Filho, que não quer para amigos e discípulos, senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos; 3º) para que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir à sua maior glória, que ela conhece melhor que nenhuma outra criatura; 4º) para que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado, digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e Maria um amor efetivo e corajoso?

Os réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não com sua substância¹, com os seus haveres, ao ponto de lhes sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as paixões, como fazem os predestinados. 

198. 3º) Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como a sua boa Mãe, a exemplo de Jesus Cristo, que, dos trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem, seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó seguia os de sua mãe, que lhe diz: "Acquiesce consiliis meis" (Gn 27,8) - Meu filho, segue meus conselhos; ou como os criados nas bodas de Caná, aos quais a Santíssima Virgem diz: "Quodcumque dixerit vobis facite" - Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,5). Por ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque os servos nas bodas de Caná seguiram o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só receberão estas graças em consequência de sua perfeita obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem. 

199. 4º) Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar seu socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas aflições e contrariedades. Atiram-se até, escondem-se e se perdem de um modo admirável em seu regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de amor, para aí se purificarem das menores manchas, e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como no mais glorioso dos tronos. Oh!  que felicidade! "Não creiais, diz o Abade Guerrico, que seja maior felicidade habitar o seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o Senhor o seu trono: Ne credideris maioris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae, cum in eo Dominus posuerit thronum suum".²

Os réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos, não apreciam as doçuras e suavidades do seio de Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São Gregório³, porque não querem provar a suavidade que está preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de Maria. 

200. 5º) Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes diz: "Beati qui custodiunt vias meas" (Pr 8,32) - Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça. Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e tranquila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na eternidade, porque jamais perdeu algum dos meus servos, que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas virtudes. 

Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua honra ou fazer qualquer devoção exterior. 

Ó Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles - eu o repito com transportes de coração - quão felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles, que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho! "Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis" - Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl 118,21).

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1. Cf. Pr 3,9: "Honora Dominum de tua substantia" (Honra o Senhor com os teus haveres).

2. Sermo 1 in Assumptione, n.4.

3. "Amamus foris miseri famem nostram" (Homil. 36 in Evangel.).

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.










quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Santíssimo Nome de Maria


 12 de setembro




1- O quanto é doce na vida e na morte o nome de Maria 

O grande nome de Maria, que foi dado à divina Mãe, não foi encontrado na terra nem inventado pela mente ou arbítrio dos homens, como acontece com todos os outros nomes que se dão; não, ele desceu dos céus e foi imposto por prescrição divina, como declara S. Jerônimo, S. Epifânio, S. Antonino e outros. "Do tesouro da divindade, ó Maria, proveio o vosso excelso e admirável nome", fala Ricardo de S. Lourenço, "pois a SS. Trindade inteira", segue dizendo o mesmo autor, "deu a vós um tal nome, superior a todo nome depois do nome do vosso Filho, e o dotou de tanta majestade e poder, que à enunciação do vosso nome quis ele que por reverência prostados todos o venerassem no céu, na terra e no inferno.¹ Mas dentre outros méritos que o Senhor deu ao nome de Maria, vejamos agora como o fez doce aos servos desta Santíssima Senhora, tanto em vida como em morte. 

E em primeiro lugar, para falar do período da vida, dizia Honório, santo anacoreta, o nome de Maria é repleto de todas as doçuras divinas. De modo que o glorioso S. Antônio de Pádua reconhecia no nome de Maria as mesmas doçuras que S. Bernardo contemplava no nome de Jesus: "O nome desta Virgem Mãe é júbilo ao coração, mel à boca, melodia aos ouvidos dos seus devotos". Narra-se do venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, como lemos na sua vida, que ele ao nomear Maria experimentava uma doçura sensível tamanha que chegava a lamber os lábios. Lê-se de modo parecido que certa mulher de Colônia disse ao bispo Marsílio que sempre que ela pronunciava o nome de Maria, sentia na boca um sabor mais doce que o mel. O que vindo a praticar também Marsílio saboreou a mesma doçura. Deduz-se do Cântico dos Cânticos que na Assunção da Virgem os anjos três vezes pediram o seu nome: Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça? (Ct 3,6) Em outro trecho: Quem é esta que surge como a aurora? (Ct 6,10). E por fim: Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? (Ct 8,5). Ora, pergunta Ricardo de S. Lourenço porque os anjos demandam tantas vezes o nome desta Rainha, e responde: "mesmo aos anjos era tão doce ouvir soar o nome de Maria que é por isso que o pedem tantas vezes".

Mas eu não falo aqui desta doçura sensível, pois esta não se concede habitualmente a todos; falo da doçura salutar de conforto, amor, alegria, confiança e fortaleza que dá habitualmente este nome de Maria aos que o proferem com devoção. Falando a este respeito o abade Francone diz que, depois do sacrossanto nome de Jesus, o nome de Maria é tão abundante em bens que nenhum outro, ao pronunciá-lo no céu e na terra, enche as almas devotas de tanta graça, esperança e doçura. Pois, segue a dizer, o nome de Maria contém em si alguma coisa de admirável, de doce e de divino, que quando se reúne com os corações amigos sopra neles uma fragrância de santa doçura. E é tão maravilhoso este grande nome, conclui, que, por mil vezes que o ouçam os amantes de Maria, sempre o escutam como pela primeira vez, experimentando sempre a mesma doçura em ouvi-lo chamar. 

Falando igualmente desta doçura, o Beato Henrique de Suso dizia que ao nomear Maria sentia-se de tal modo elevar em confiança e com tal júbilo abrasar em amor que entre o gozo e as lágrimas em meio às quais proferia o amado nome, desejava que desde o peito o coração se lhe saltasse para fora da boca, enquanto afirmava que este dulcíssimo nome, como um favo de mel, derretia no fundo da alma. Por isso então exclamava: "Ó suavíssimo nome! Ó Maria, como sereis vós em pessoa, se o vosso nome por si já é tão amável e gracioso?"

Por este motivo voltado à sua boa Mãe, o enamorado S. Bernardo com ternura lhe diz: "Ó grande, ó pia, ó digna de todo louvor, SS. Virgem Maria, o vosso nome é tão doce e amável que não pode ser nomeado sem que incendeies de amor para convosco e com Deus quem o nomeia; ou ainda, basta apenas que ele se apresente ao pensamento dos vossos amantes para incitá-los ainda mais a vos amar e para consolá-vos!".¹ "E se as riquezas consolam os pobres, pois que os aliviam da sua miséria, oh, quanto melhor consola a nós, miseráveis" - fala Ricardo de S. Lourenço - "o vosso nome, ó Maria, uma vez que, muito mais do que todas as riquezas da terra, ele nos alivia das angústias da presente vida".²

Em suma, o vosso nome, ó Mãe de Deus, é todo cheio de graças e bênçãos divinas, como diz S. Metódio.³ De tal modo que, como declara S. Boaventura, o vosso nome não pode ser proferido sem que traga alguma graça a quem devotamente o nomeia. Qualquer coração, por duro que seja, por desconfiado que seja, diz o Idiota, se este vos nomeia, ó benigníssima Virgem, é tamanha a virtude do vosso nome que ele maravilhosamente amolecerá a sua dureza, já que sois vós a que confortais os pecadores com a esperança de perdão e de graça.4 O vosso dulcíssimo nome, no dizer de S. Ambrósio, é um unguento cheiroso que exala odor de graça divina.5 Roga o santo à divina Mãe dizendo: "Desça ao íntimo das nossas almas este unguento de salvação. Quer dizer: fazei, Senhora, que nos recordemos com frequência de repetir o vosso nome com amor e confiança, pois assim nomear-vos é sinal ou de já possuir a divina graça, ou de haver de recuperá-la em breve".

"Sim, pois recordar-se do vosso nome, ó Maria, consola os aflitos, devolve ao caminho de salvação os que estão fora dele, e conforta os pecadores a fim de que não se entreguem ao desespero", assim discorre Ludolfo da Saxônia.¹ E diz o Pe. Pelbarto que, tal como Jesus Cristo por suas cinco chagas preparou ao mundo o remédio dos seus males, assim igualmente Maria por seu santíssimo nome, que é composto de cinco letras, confere todos os dias o perdão aos pecadores. 




Por isso o santo nome de Maria no Cântico dos Cânticos é equiparado ao azeite: "Tal como o azeite sara os enfermos", comenta o Beato Alano, "verte odor e acende chamas, assim o nome de Maria, sara os pecadores reanima os corações e os incendeia de amor divino". Por isso Ricardo de S. Lourenço encoraja os pecadores a recorrerem a este grande nome, porque ele sozinho bastará para curá-los de todos os seus males, dizendo que não há enfermidade tão maligna que não ceda imediatamente à força deste nome.²

Por outro lado, os demônios, afirma Tomás de Kempis, temem de tal maneira a Rainha do céu que ao ouvir pronunciar o seu grande nome fogem de quem o pronuncia como de um fogo a queimá-los.

A mesma Santíssima Virgem revelou à S. Brígida que não há nesta vida pecador tão frio no amor divino que, invocando ele o seu santo nome com o propósito de converter-se, o demônio dele não se afaste imediatamente. E o confirmou ainda outra vez dizendo-lhe que todos os demônios de tal maneira têm respeito e medo por seu nome que ao ouvi-lo soar imediatamente soltam as almas das garras com que as mantinham presas.

E tal como se afastam os anjos rebeldes dos pecadores que invocam o nome de Maria, assim por sua vez, disse a mesma Senhora nossa à S. Brígida, os anjos bons se aproximam ainda mais das almas justas que devotamente o pronunciam.

E declara S. Germano que, tal como respirar é sinal de vida, assim pronunciar frequentemente o nome de Maria é sinal ou de já viver na divina graça ou de que em breve nela viverá; pois este poderoso nome tem a virtude de obter o auxílio e a vida a quem devotamente o invoca.¹ Em suma, este admirável nome, acrescenta Ricardo de S. Lourenço, é como uma torre fortíssima, na qual o pecador, buscando abrigo, será livrado da morte, já que por esta torre celestial são com toda segurança defendidos e salvos os mais perdidos pecadores.²

É porém uma torre de fortaleza que não só liberta os pecadores do castigo, mas também defende os justos das investidas do inferno. Assim diz o mesmo Ricardo, afirmando que depois do nome de Jesus não há nome em que se encontre tamanho auxílio, que confira aos homens tanta salvação, como o nome de Maria. Em tudo o que é lugar sabe-se especialmente bem, que o seu grande nome dá força para vencer as tentações da castidade. Reflete o mesmo autor sobre as palavras de S. Lucas, E o nome da Virgem era Maria (Lc 1,27), que estes dois nomes, Maria e Virgem, são pronunciados juntos pelo evangelista para que entendamos que o nome dessa puríssima Virgenzinha não deve estar jamais separado da castidade. Por isso diz S. Pedro Crisólogo que o nome de Maria é indício de castidade, querendo com isso dizer que quem nas dúvidas quanto o haver pecado nas tentações à pureza se lembra de haver invocado o nome de Maria tem nisto um indício seguro de que não ofendeu a castidade. 

De modo que nos valhamos sempre do belo conselho de S. Bernardo, que diz: "Diante do perigo de perder a divina graça, pensemos em Maria, invoquemos Maria juntamente com o nome de Jesus, pois estes nomes vão sempre juntos. Não partam jamais este dois dulcíssimos e poderosíssimos nome nem do nosso coração nem da nossa boca, pois estes dois grandiosos nomes nos darão força para não cair e para vencer sempre todas as tentações." São muito belas as graças prometidas por Jesus Cristo aos devotos dos nomes de Maria, como ele mesmo, falando com sua Santa Mãe, deu a entender à S. Brígida, revelando-lhe que quem invocar o nome de Maria com confiança e propósito de corrigir-se receberá três graças singulares: uma perfeita dor dos pecados, o desagravo deles e a fortaleza para chegar à perfeição, e mais, enfim, a glória do paraíso. "Pois", acrescenta o divino Salvador, "são para mim tão doce e caras, ó minha Mãe, as tuas palavras, que não posso negar-te nada do que me peças".

Chega por fim, a dizer S. Efrém que o nome de Maria é a chave da porta do céu para quem o invoca com devoção.¹ E por isso tem razão S. Boaventura em chamar Maria de salvação de todos os que a invocam, como se fosse o mesmo invocar o nome de Maria e obter a salvação eterna; ao passo que o Idiota afirma que a invocação deste santo e doce nome leva à conquista de uma graça superabundante nesta vida e uma glória sublime na outra.² "Se buscais, portanto, ó irmãos", conclui Tomás de Kempis, "ser consolados em todo sofrimento, recorrei a Maria, invocai Maria, obsequiai a Maria, encomendai-vos a Maria. Com Maria alegrai-vos, com Maria chorai, com Maria caminhai, com Maria buscai Jesus; com Jesus e Maria, enfim, ansiai por viver e morrer". "Assim fazendo", diz ele, "sempre avançareis na via do Senhor, pois Maria de bom grado rogará por vós, e o Filho com segurança atenderá a Mãe". 

Assaz doce, portanto, é em vida para os devotos de Maria o seu santíssimo nome por causa das sumas graças que ele lhes obtém, como já vimos. Porém mais doce ainda se lhes mostrará na hora da morte por causa da santa e doce morte que lhes há de impretar. O Pe. Sartório Caputo da Companhia de Jesus exortava a todos que estivessem a assistir algum morimbundo que lhes pronunciassem frequentemente o nome de Maria, dizendo que este nome de vida e de esperança, apenas proferindo na hora da morte, basta para debandar os inimigos e confortar os moribundos em todas as suas angústias. Do mesmo modo S. Camilo de Lelis deixou fortemente recomendado aos seus religiosos que aos moribundos de lembrassem com frequência de invocar o nome de Maria e Jesus, como já ele aplicara sempre aos outros; mas com aidna mais doçura o aplicou mais tarde a si mesmo à beira da sua morte, na qual, como se narra na sua Vida, pronunciava com tanta ternura os seus amados nomes de Jesus e de Maria que incendiava de amor até mesmo quem o escutava. E finalmente, com os olhos fixos às suas adoradas imagens, com os braços em cruz, viu-se o santo expirar com o semblante e a paz do paraíso, proferindo as suas últimas palavras com a invocação dos dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria. Esta breve oração de invocar os sacrossantos nomes de Jesus e de Maria, diz Tomás de Kempis que é tão fácil de guardar na memória quanto amável de contemplar, e poderosa para proteger quem a emprega de todos os inimigos da nossa salvação.

"Beato aquele", dizia S. Boaventura "que ama o teu doce nome, ó Mãe de Deus! É tão glorioso e admirável o vosso nome que quem se lembre de invocá-lo à beira da morte não teme investida nenhuma dos inimigos."¹

Oh, feliz de quem tivesse a sorte de morrer como morreu o Pe. F. Fulgêncio de Ascoli, capuchinho, que expirou cantando: "Ó Maria, a mais bela das que há, quero andar em tua companhia". Ou ainda como morreu o Beato Henrique cisterciense, de quem se conta nos Anais da Ordem (An. 1109) que terminou a vida articulando o nome de Maria. 

Roguemos, pois, meu devoto leitor, roguemos a Deus para que nos conceda esta graça, que a última palavra da nossa língua na hora da morte seja o nome de Maria, como desejava e rogava a S. Germano.² Oh doce morte, morte segura, que é acompanhada e protegida por tal nome de salvação, que Deus não concede invocar na hora da morte senão àqueles que quer salvos!

Ó minha doce Senhora e Mãe, eu vos amo muito, e porque vos amo tanto, também amo o vosso santo nome. Proponho-me e espero com vossa ajuda sempre invocá-lo na vida e na morte. Pela glória, portanto, do vosso nome - concluamos com a terna prece de S. Boaventura - quando a minha alma partir deste mundo, vinde-lhe vós ao encontro, Senhora bendita, e tomai-a nos vossos braços. Não nos negueis, ó Maria - seguimos rogando com o santo - a vir consolá-la então com a vossa presença. Sede vós a sua escada e o seu caminho ao paraíso. Impetrai-lhe vós a graça do perdão e o repouso eterno. E o santo enfim termina dizendo: "Ó Maria, advogada nossa, a vós toca defender os vossos devotos e assumir as suas causas perante o tribunal de Jesus Cristo".


EXEMPLO

Conta o Pe. Rho nos seus Sábados e o Pe. Lireo no seu Triságio Mariano que na Guéldria, por volta de 1465, uma donzela de nome Maria foi mandada um dia pelo seu tio ao mercado da cidade de Nimega para comprar algumas coisas, com a ordem de que passasse a noite em casa de uma outra tia que ali morava. Obedeceu a senhorita, porém ao entardecer, indo encontrar a tia, foi por ela enxotada muito grosseiramente, de modo que se pôs de volta a caminho de casa; chegada, porém, a noite no meio do caminho, encolerizou-se a moça e chamou o demônio em voz alta. Eis que este imediatamente lhe apareceu sob a forma de um homem e prometeu ajudá-la contanto que fizesse uma coisa. "Farei tudo", respondeu a desgraçada. "Não quero outra coisa", disse o inimigo, "senão que de hoje em diante não faças mais o sinal da cruz e mudes de nome". Respondeu ela: "Quanto ao sinal da cruz não o farei mais; mas o meu nome, Maria, é muito caro a mim, não quero mudá-lo". "Então não te ajudo", disse o demônio. Finalmente, depois de muita discussão, assentaram em que ela se chamasse com a primeira letra do nome de Maria, isto é Eme. E com isso mandaram-se para Antuérpia; e ali ficou a infeliz seis anos com tão mau companheiro, vivendo uma vida perversa para escândalo de todos.

Um dia ela disse ao demônio que desejava rever a pátria; o inimigo recusava, mas enfim foi forçado a consentir. Chegando os dois na cidade de Nimega, viram que ali se encenava uma ópera sobre a vida de Maria SS. Diante de tal visão a pobre Eme, pela pouca devoção que lhe restava à Mãe de Deus, começou a chorar. "O que estamos fazendo aqui?", disse-lhe então o companheiro. "Por acaso vamos encenar aqui outra comédia?". Pegou nela para afastá-la daquele local, mas ela resistia; por isso ele, enfurecido, vendo que a estava perdendo, suspende-a no ar e a faz cair no meio do teatro. Então a pobre coitada contou o ocorrido. Foi confessar-se com o pároco, mas o pároco a remeteu ao bispo de Colônia, e o bispo ao Papa; o qual, ouvida a confissão, impôs-lhe como penitência levar ao corpo o tempo todo três aros de ferro, um ao pescoço, e dois aos braços. Obedeceu a penitente, e chegada a Mastrique, ali se encerrou num mosteiro de arrependidas, onde viveu quatorze anos em árdua penitência; e, certa manhã, levantando-se da cama, viu rompido e soltos os três aros, e dois anos depois morreu com fama de santidade, com o desejo de ser sepultada com aqueles três aros que de escrava do inferno a transformaram em feliz escrava da sua libertadora. 


ORAÇÃO

Ó grande Mãe de Deus e minha mãe, Maria, é verdade que não sou digno de nomear-vos; mas vós, que me amais e desejais a minha salvação, vós me haveis de conceder, embora a minha língua seja imunda, que eu possa sempre invocar em meu socorro o vosso santíssimo e poderosíssimo nome, já que o vosso nome é o auxílio de quem vive e a salvação de quem morre.

Ah, Maria puríssima, Maria dulcíssima, ai, fazei que o vosso nome seja de hoje em diante o alento de minha vida. Senhora, não tardeis a socorrer-me sempre que eu vos chamar, já que em todas as tentações que me travarem combater, em todas as necessidades que me sobrevierem, eu não quero deixar jamais de vos chamar, repetindo sempre Maria, Maria. Assim espero fazer na vida, assim espero particularmente na hora da morte, para depois dela vir a louvar eternamente no céu o vosso amado nome: O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria [Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria]. Ah, Maria, amabilíssima Maria, qual conforto, qual doçura, qual confiança, qual ternura sente a minha alma apenas em nomear-vos, apenas em pensar em vós! Agradeço o meu Deus e Senhor, que vos deu para o meu bem este nome tão doce, tão amável e tão poderoso. 

Mas, Senhora, não me contento somente em nomear-vos; quero nomear-vos, ademais, por amor; quero que o amor me lembre de chamar-vos a toda hora, de modo que eu possa ainda exclamar, com S. Anselmo: "Ó nome da Mãe de Deus, vós sois o meu amor". 

Ó minha cara Maria, ó meu amado Jesus, vivam sempre, pois, no meu e em todos os corações os vossos dulcíssimos nomes. Esqueça a minha mente todos os outros nomes para lembrar apenas e para sempre invocar os vossos adorados nomes.

Ah, Jesus, meu Redentor, e minha mãe Maria, quando chegar a hora da minha morte, em que a minha alma, expirando, haverá de partir desta vida, ah, pelos vossos méritos concedei então a graça de proferir minhas últimas palavras dizendo e repetindo: "Amo-vos, Jesus e Maria; Jesus e Maria, dou-vos o coração e a minha alma".


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**Abade de Celles, denominado o Idiota.

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, Ed. Minha Biblioteca Católica, pág.191-200.