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sábado, 5 de outubro de 2024

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó


 183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca. 

Ei-la tal como a conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a explicação.


ARTIGO I

Rebeca e Jacó

§I. História de Jacó

184. Esaú vendera a Jacó seu direito de primogenitura. Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a Jacó, - que ela amava ternamente -, as vantagens daquele privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e, chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente, pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava. Em seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse, tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a Voz de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz que ele reconhecia como a de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho, murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos; e terminou a bênção com estas palavras: "Aquele que te amaldiçar seja amaldiçoado, e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos". 

Apenas Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano, mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus. Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste de seu irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção. Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao mesmo tempo as consolações do céu e as da terra, Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou, enfim, mas a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu.


§ II. Interpretação da história de Jacó

185. Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que, conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó e figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta, apenas, examinar a atitude de um e de outro para verificá-lo.

1º) Esaú, figura dos réprobos

1º) Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça. 

2º) Quase não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre.

3º) Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela.

4º) Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

5º) Estava, como Caim. cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas.

186. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias: 

1º) Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do céu: "In terrenis fortes, in caelestibus debiles". Por isso: 

187. 2º) Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de espíritos acanhados, carolas e selvagens aqueles que são espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que fora.

188. 3º) Os réprobos não se preocupam de modo algum com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó. Acham motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam os bons filhos e servos da Virgem Santíssima para obter sua afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária à salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da Santíssima Virgem e são seis servos, ao recitarem ou resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor ternura por ela nem emenda para eles. 

189. 4º) Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura, isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, jogam, dançam, etc., sem a mínima preocupação, como Esaú, de se tornarem dignos de bênção do Pai celeste. Em três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só falam e agem pela terra e pelos prazeres, por uma vã fumaça de honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança. 

190. 5º) Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras, odeiam e perseguem diariamente os predestinados. Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó; enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres, vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e levam vida folgada. 


2º) Jacó, figura dos predestinados

191. 1º) Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

192. 2º) Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho. 

193. 3º) Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discenir, fez exatamente como ela mandou.

194. 4º) Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e a consultava em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez de bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

195. 5º) Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más companhia, que corrompem os costumes. Por tal motivo, tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido pai.

196. Eis também a conduta diária dos predestinados:

1º) Vivem em casa, sedentariamente, com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a vida inteira, tanto amou o retirou e a oração. É verdade que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém,  em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para cumprir os deveres de estado. Por grandes coisas que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as que fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado da qual todas as outras são como brinquedos de criança. Por isso, enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso, recebendo os louvores e aprovações do mundo, eles sabem, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos. "Gloria et divitiae in domo eius" (Sl 111,3) - a glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se na casa de Maria. 

Senhor Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É nesta casa de predestinados que ele de Vós somente recebe socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de lágrimas. "Quam dilecta tabernacula..." (Sl 83).

197. 2º) Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que creem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó, 1º) para que ela os receba como um dom que lhe pertence; 2º) para que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si próprios, escorchando-os e despojando-os da própria pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a Jesus, seu Filho, que não quer para amigos e discípulos, senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos; 3º) para que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir à sua maior glória, que ela conhece melhor que nenhuma outra criatura; 4º) para que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado, digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e Maria um amor efetivo e corajoso?

Os réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não com sua substância¹, com os seus haveres, ao ponto de lhes sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as paixões, como fazem os predestinados. 

198. 3º) Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como a sua boa Mãe, a exemplo de Jesus Cristo, que, dos trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem, seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó seguia os de sua mãe, que lhe diz: "Acquiesce consiliis meis" (Gn 27,8) - Meu filho, segue meus conselhos; ou como os criados nas bodas de Caná, aos quais a Santíssima Virgem diz: "Quodcumque dixerit vobis facite" - Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,5). Por ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque os servos nas bodas de Caná seguiram o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só receberão estas graças em consequência de sua perfeita obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem. 

199. 4º) Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar seu socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas aflições e contrariedades. Atiram-se até, escondem-se e se perdem de um modo admirável em seu regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de amor, para aí se purificarem das menores manchas, e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como no mais glorioso dos tronos. Oh!  que felicidade! "Não creiais, diz o Abade Guerrico, que seja maior felicidade habitar o seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o Senhor o seu trono: Ne credideris maioris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae, cum in eo Dominus posuerit thronum suum".²

Os réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos, não apreciam as doçuras e suavidades do seio de Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São Gregório³, porque não querem provar a suavidade que está preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de Maria. 

200. 5º) Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes diz: "Beati qui custodiunt vias meas" (Pr 8,32) - Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça. Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e tranquila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na eternidade, porque jamais perdeu algum dos meus servos, que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas virtudes. 

Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua honra ou fazer qualquer devoção exterior. 

Ó Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles - eu o repito com transportes de coração - quão felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles, que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho! "Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis" - Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl 118,21).

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1. Cf. Pr 3,9: "Honora Dominum de tua substantia" (Honra o Senhor com os teus haveres).

2. Sermo 1 in Assumptione, n.4.

3. "Amamus foris miseri famem nostram" (Homil. 36 in Evangel.).

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.










sábado, 17 de agosto de 2024

Esta devoção é um meio admirável de perseverança




 Artigo VIII


173. Oitavo motivo. Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos induz a esta devoção à Santíssima Virgem, é constituir um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Como se explica que a maior parte das conversões dos pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham? Esta infelicidade provém, como já o demonstrei (cf. n. 87-89), de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e crê-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e méritos. 

Por esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos; tornamo-la por depositária universal de todos os bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, no seu poder que nos apoiamos, em sua misericórdia e caridade que nos baseamos, para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-lhe como um bom filho a sua mãe: "Depositum custodi" (1Tm 6,20), isto é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa intercessão do que mereço, e minha funesta experiência me ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em mim: "adolescentulus sum ergo et contemptus" (Sl 118,141); recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-mo por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada penderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos. 

174. É o que diz São Bernardo para inspirar-nos esta prática: "Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais; e, sendo-vos propícia. chegareis ao porto de salvação: Ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis"¹. O mesmo parece dizer São Boaventura em termos ainda mais claros: A Santíssima Virgem, diz ele, está não só detida na plenitude dos santos, mas também guarda e detém os santos na plenitude para que esta não diminua; impede que suas virtudes se dissipem, que seus méritos pereçam, que se percam suas graças, que os prejudiquem os demônios, impede, por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores: "Virgo non solum in plenitudine sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne plenitudo minuatur; detinet virtutes ne fugiant;detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant; detinet daemones ne noceant; detinet Filium ne peccatores percutiat"². 

175. A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, por sua fidelidade a Deus, repara as perdas que Eva infiel causou por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso um santo a compara à âncora firme, porque os retém e impede de soçobrar no mar agitado deste mundo, onde tantas pessoas naufragam por não se firmarem nesta âncora inabalável. "Prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança, como a uma âncora firme: Animas ad spem tuam sicut ad firmam anchoram alligamus"³. Foi a ela que os santos mais se agarraram, e prenderam os outros, com o fito de perseverar na virtude. Felizes, mil vezes felizes os cristãos que agora se apegam fiel e inteiramente a ela, como a uma âncora firme. Os arrancos da tempestade deste mundo não os farão submergir, nem perder os tesouros celestes. Bem-aventurados os que nela buscam abrigo como na arca de Noé. As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não lhes farão mal, pois: "Qui operantur in me non peccabunt" - os que se guiam por mim não pecarão (Eclo 24,30), diz ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos infiéis da desgraçada Eva que se apegam à Mãe e Virgem fiel, que permanecem sempre fiéis e que não faltam jamais à sua palavra: "Fidelis permanet, se ipsam negare non potest"4, e que ama aqueles que a amam: "Ego diligentes me diligo" (Pr 8,17), não só de um amor afetivo, mas de um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de recuar na virtude, ou de cair no caminho, perdendo a graça de seu Filho.

176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo que lhe entregamos em depósito; e, desde que ela o recebeu como depositária, é obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a guadá-lo para nós; do mesmo modo que uma pessoa, a quem eu confiasse mil escudos, seria obrigada a guardá-los para mim, de tal modo que se, por sua negligência, meus mil escudos se perdessem, seria ela, com justiça, a responsável. Mas isto não acontece, pois Maria, a Virgem fiel, jamais deixaria se perder, por sua negligência, o que lhe tivéssemos confiado. Antes passarão o céu e a terra do que ela ser negligente e infiel para com aqueles que dela se fiam.


***

177. Pobres filhos de Maria! extrema é vossa fraqueza, grande, vossa inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais devotos. 

Não deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis a água pura e cristalina da fonte em vossos vasos manchados e infeccionados pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja, mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis. 

178. Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

Depositai, derramais no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: "Vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis". Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa, com todas as suas perfeições, este vaso tornou-se todo espiritual, e a morada espiritual das almas mais espirituais. Tornou-se honorável, e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em doçura, em graças e virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como a torre de Davi, puro como uma torre de marfim. 

179. Oh! quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que nela confia em tudo e por tudo. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele. Pode dizer afoitamente com David: "Haec facta est mihi: Maria foi feita para mim" (Sl 118,56); ou com o discípulo amado: "Accepi eam in mea" (Jo 19,27) - Eu a tomei como toda a minha riqueza; ou com o próprio Jesus Cristo: "Omnia mea tua sunt, et omnia tua mea sunt: Todas as minhas coisas são suas, e as tuas são minhas" (Jo 17,10). 


***

180. Se algum crítico, ao ler isto, achar que falo exageradamente e por excesso de devoção, infeliz dele, pois não me compreende, ou por ser um homem carnal que não aprecia as coisas do espírito, ou por ser do mundo que não pode receber o Espírito Santo, ou, ainda, por ser orgulhoso e crítico, que condena e despreza o que não entende. As almas, porém, que não nasceram do sangue nem da vontade da carne (Jo 1,13) mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo. 

181. Digo, entretanto, para uns e outros, voltando ao assunto interrompido, que Maria Santíssima, porque é a mais honesta e a mais generosa de todas as puras criaturas, não se deixa vencer jamais em amor e liberalidade. E por um ovo, diz um santo homem ela dá um boi, isto é, por pouco que lhe demos ela dá mais do que recebeu de Deus; e, por conseguinte, se uma alma se lhe entrega sem reserva, ela se dá a esta alma também sem reserva, se nela depositamos toda a nossa confiança, trabalhando de nosso lado em adquirir as virtudes e domar as paixões. 

182. Que os fiéis servidores de Maria digam, pois, ousadamente com São João Damasceno: "Tendo confiança em vós, ó Mãe de Deus, serei salvo; tendo vossa proteção, não temerei; com vosso auxílio, combaterei os meus inimigos e os porei em fuga; pois vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá a quem quer salvar: Spem tuam habens, o Deipara, servavbor; defensionem tuam possidens, non timebo; persequar inimicos meos et in fugam vertam, habens protectionem tuam et auxilium tuum; nam tibi devotum esse est arma quaedam salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri" (Sermo de Annunc). 

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1. Homilia 2 super "Missus est" n. 17.

2. Speculum B.V., lect. VII, §6.

3. SÃO JOÃO DAMASCENO. "Sermo 1 in Dormitione B.M.V.".

4. Aplicação à Santíssima Virgem das palavras de São Paulo: 2 Tm 2,13.

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Série Tratado: Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção




 Artigo VII

171. Sétimo motivo. O que pode ainda nos levar a abraçar esta devoção são os grandes bens que por ela receberá nosso próximo. Pois, praticando-a, exercemos para com ele a caridade de uma maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório o impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento; consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de adquirir de satisfações, seja, até a hora da morte, empregado conforme a vontade da Santíssima Virgem, à conversão dos pecadores ou a libertação das almas do purgatório. 

Não é isto amar perfeitamente o próximo? Não é este o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? (Jo 13,35). Não é este o meio de converter os pecadores, sem temer a vaidade, e de livrar as almas do purgatório, sem fazer quase nada mais do que aquilo a que cada um está obrigado em seu estado?

172. Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório: bem infinito, maior que criar o céu e a terra¹, pois que é dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática, não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? 

É preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza, e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório; por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar as almas do purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que damos pela Santíssima Virgem, sem vontade própria, e por uma desinteressada caridade, torna-se, em verdade, bem mais potente para abrandar a cólera de Deus e atrair sua misericórdia; e há de verificar-se à hora da morte que uma pessoa fiel a esta prática terá, por este meio, libertado inúmeras almas do purgatório, e convertido muitos pecadores, conquanto não tenha feito as ações comuns e ordinárias do seu estado. Que alegria haverá em seu julgamento! Qu glória na eternidade!


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1. SANTO AGOSTINHO. Tract. 72 in Ionam. a medio. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

domingo, 14 de julho de 2024

Série Tratado: Esta devoção dá uma grande liberdade interior


 

Artigo VI

169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá, às pessoas que a praticam fielmente, uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Visto que, por esta devoção, nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos todo a Ele nesta condição, este bom Mestre, em recompensa do cativeiro por amor a que nos submetemos, tira, primeiro, à alma todo escrúpulo e temor servil, que a constrangem, escravizam e perturbam; segundo, alarga o coração por uma santa confiança em Deus, fazendo-o considerá-lo como Pai; terceiro, inspira-lhe um amor terno e filial. 

170. Sem me deter em amontoar razões para provar esta verdade, contento-me de citar uma passagem histórica que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa Jacobina¹ do convento de Langeac em Auvergne, a qual morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Não tinha ela ainda sete anos, quando, uma ocasião sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de sua Mãe Santíssima. Mal chegou em casa, entregou-se inteiramente a Jesus e Maria, como lhe aconselhara a voz, embora não soubesse antes em que consistia esta devoção; e, tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela os rins e a usou até a morte. Depois desse ato todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isto a levou a ensinar esta devoção a muitas outras pessoas, que fizeram grandes progressos, entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário... Um dia a Santíssima Virgem lhe apareceu e lhe pôs ao pescoço uma cadeia de ouro para lhe testemunhar a alegria de tê-la como escrava de seu Filho e sua; e Santa Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, lhe disse: Felizes os fiéis escravos da Rainha do céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: "Tibi servire libertas".


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1. Até a Revolução Francesa os religiosos da Ordem de São Domingos eram chamados jacobinos, do nome da igreja de Saint-Jacques (São Tiagos) em Paris, perto da qual a Ordem se estabeleceu. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

sábado, 13 de julho de 2024

Série Tratado: § IV. Esta devoção é um caminho seguro

 



159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a ele:

1º) Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon4, em um livro que escreveu sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja5.

Santo Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um dos primeiros que a praticaram na França, conforme está anotado em sua vida. 

O Cardeal Pedro Damião6 refere que em em 1016 o bem aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal de seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e consolado por sua boa Soberana, de cujo lábios recebeu as promessas do paraíso em recompensa de seus serviços. 

Cesário Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak, parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300, fez esta consagração à Santíssima Virgem. 

Esta devoção foi praticada por muitos particulares até ao século XVII, quando se tornou pública.

160. O Padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da redenção dos cativos, pregador do Rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na Alemanha7; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.

O padre de Los Rios, da Ordem de Santo Agostinho, aplicou-se com seu íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e pregações. Compôs um grosso volume intitulado Hierarquia Mariana8, no qual trata, com piedade e erudição, da Antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção. 

161. Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na Sicília e na Saboia, no século XVII.

O Rev. Pe. Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou maravilhosamente esta devoção na Polônia9.

O Rev. Pe. Cornélio a Lápide, recomendável tanto por sua piedade como por seu profundo saber, tendo recebido de dar seu parecer sobre esta devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras pessoas importantes. 

Os reverendos padres jesuítas, sempre zelosos do serviço da Santíssima Virgem, apresentaram ao Duque Fernando da Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno tratado desta devoção10. O duque, que era, então arcebispo de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção. 

162.  O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelsos em espalhar esta devoção, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe levantaram e moveram os críticos e os libertinos. Acusaram-no de inventar novidade e superstição; escreveram e publicaram contra ele um panfleto difamatório, e serviram-se, ou antes o demônio, por seu ministério, de mil estratagemas para impedi-lo de divulgar na França esta devoção. Mas o grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma inalterável paciência, e às suas objeções, contidas no tal libelo, um pequeno escrito em que se refuta energicamente, demonstrando que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que lhe devemos, e nos votos que fizemos no santo batismo; e é especialmente com esta última razão que ele fecha a boca a seus adversários, fazendo ver que esta consagração à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo por suas mãos, nada mais é que uma perfeita renovação das promessas do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se pode ler em suas obras. 

163. No livro de Boudon, já citado (n. 150), encontram-se os nomes dos papas que aprovaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram, pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais papa algum a tenha condenado; nem seria possível fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo. 

Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo mundo.

164. 2º) Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e para cada um em particular, fosse um empecilho a uma alma que busca a grande graça da união com Ele? Seria possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de Ele encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente unida a Deus? 

É verdade que a vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia, talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que o produz; quem quer possuir o fruto de vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna fértil e fecundo, como já dissemos alhures (n. 20-21).

165. Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de um modo distinto e perceptível, ao menos geral e imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda abismada em Deus, está longe de tornar-se um obstáculo aos perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e, bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos comunicará, pois ninguém fica cheio do pensamento de Deus se não for por ela, diz um santo11: "Nemo cogitatione Dei repletur nisi per te"; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra o qual ela vos garantirá. 

166. Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe frequentemente. É esta a opnião de um santo12 que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.

167. Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz: "Sola cunctas haereses interemisti in universo mundo"13; e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmene, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro material, e, quando o reconhecer, não teimará de modo algum em crer e sustentar o que tomara por verdade. 

***

168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, "corde magno et animo volenti" (2Mc 1,3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1 Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar enganados. 

É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida terrena. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até a plenitude da idade de Jesus Cristo. (cf. Ef 4,13). 


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Notas.

4. Henri-Marie Boudon, doutor em teologia, falecido em odor de santidade, em 1702, como arcediago de Evreux. Autor do livro intitulado "A santa escravidão da admirável Mãe de Deus", e de outras obras, todas impregnadas de uma ardente devoção à Santíssima Virgem.

5. O santo Rei Dagoberto II (século VII) consagrou-se assim à Santíssima Virgem, na qualidade de escravo (apud KRONENBURG. "Maria's Heerlikheid", 1,98). O mesmo fez o Papa João VII (701-707). 

6. Declarado "doutor da Igreja" por Leão XII. 

7. O próprio Imperador Fernando II fez esta consagração com toda a sua corte, em 1640.

8. Editado em Antuérpia em 1641. 

9. O rei da Polônia Wladislaf encarregou os jesuítas de pregá-la em seu reino.

10. Intitulado "Mancipium Virginis" - A escravidão da Virgem. Colônia, 1634. 

11. SÃO GERMANO DE CONSTANTINOPLA (Sermo 2 in Dormit.). 

12. Id. Orat. in Encaenia veneranda aedis B.V. 

13. Ofício da Santíssima Virgem, 1ª antífona do 3º noturno. 

Imagem: Swieci Patroni 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Nossa Senhora de Paris

 Paris (França)




A Catedral Metropolitana de Paris é como que o símbolo do amor filial devotado à Mãe de Deus pelo povo da França. 

A primeira igreja, dedicada a Nossa Senhora, existia desde o século IV, e em 1163 foi começada a Catedral atual, sobre o qual tantas vezes se estendeu a proteção da Mãe de Deus, fazendo sua a divisa da cidade - "Fluctuat, nec mergitur".

A igreja é um hino de louvor a Maria; seu estudo arqueológico merece um lugar à parte.





A imagem venerada nessa igreja (Catedral), a qual recebeu o título de - Nossa Senhora de Paris, segundo o costume da França, que dá às suas imagens célebres, quase sempre, por título, o nome do lugar onde são veneradas, essa imagem, digo, é uma preciosa Virgem do século XIV, que se acha no transepto, do lado do Epístola, colocada sob um docel.







A Catedral de Paris possui insignes relíquias da paixão: a "Coroa de Espinhos", um pedaço da "Cruz verdadeira", e um dos "Cravos", cuja veneração atrai na sexta-feira santa uma multidão tão densa, que transborda da Igreja.



Nos dias de perigo e de calamidades, o povo de Paris, atendendo ao apelo de seu Bispo, enche a vasta nave, e as preces públicas ressoam até ao espaçoso adro, onde o povo que a Igreja não comporta se ajoelha, ao ar livre. 

O Santuário de Nossa Senhora de Paris viu sob suas arcadas todas as glórias e todos os lutos da França: os do antigo regime, que seria muito longo enumerar; a sagração de Napoleão; os funerais e os serviços fúnebres dos Marechais das últimas guerras, etc.

Há peregrinações durante o ano todo e nas festa da Santíssima Virgem.

(Versão meio resumida do livro "Mille Pèlerinages de Notre-Dame", de I. Coutunier de Chefdubois.)


**No ano de 2019, houve um terrível incêndio na Catedral que danificou parte da estrutura. A maioria das relíquias foram salvas, mas algumas se perderam. Até hoje não sabemos ao certo qual foi o tamanho dessa perda. A Catedral segue fechada para reformas desde então, com expectativas de ser reaberta ano que vem 2024. 



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Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

Fonte das imagens: 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Notre-Dame_de_Paris

https://www.arch2o.com/photos-from-inside-notre-dame-after-the-fire/#google_vignette

https://davidphenry.com/Paris/paris591.htm

domingo, 17 de dezembro de 2023

Série Tratado: § II. Esta devoção é um caminho curto

 

 Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 



155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto² para encontrar Jesus Cristo, seja porque dele não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nele marchamos com mais alegria e facilidade, e, consequentemente, com mais prontidão. Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e depedência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; pois o homem obediente e submisso a Maria Santíssima cantará vitórias (Pv 21,28) assinaladas sobre seus inimigos. Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a recuar, ou derrubá-lo;  mas, apoiado, auxiliado e guiado por Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo se atrasar, avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18,6), Jesus trilhou para vir a nós em largos passos e em pouco tempo.

156. Por que viveu Jesus Cristo tão pouco sobre a terra, e por que esses poucos anos que aqui viveu passou-os quase todos em submissão e obediência a sua Mãe? Ah! é que, tendo vivido pouco, encheu a carreira de uma longa vida (Sb 4,13); viveu longamente e mais do que Adão, do qual veio reparar as perdas, embora este tenha vivido mais de novencentos anos; e Jesus Cristo viveu longamente, porque viveu bem submisso e bem unido a sua Mãe Santíssima, para obedecer a Deus seu Pai; pois: 1º) aquele que honra sua mãe assemelha-se a um homem que entesoura, diz o Espírito Santo, isto é, aquele que honra a Maria, sua Mãe, ao ponto de submeter-se a ela e obedecer-lhe em tudo, em breve se tornará rico, pois acumula tesouros todos os dias, pelo segredo desta pedra filosofal: "Qui honorat matrem, quasi qui thesaurizat" (Eclo 3,5); 2º) porque, conforme uma interpretação espiritual da palavra do Espírito Santo: "Senectus mea in misericordia uberi, - Minha velhice se encontra na misericórdia do seio" (Sl 91,11), é no seio de Maria, que "envolveu e gerou um homem perfeito" (cf. Jr 31,22), e que "teve a capacidade de conter aquele que o universo todo não compreende nem contém"³, é no seio de Maria que os jovens envelhecem em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e onde, em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo.

§ III. Esta devoção é um caminho perfeito.

157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incompreensível, o Inacessível, aquele que é, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma. O Incompreensível deixou-se compreender e conter perfeitamente por Maria, sem nada perder de sua imensidade; é também pela pequena Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter perfeitamente sem a menor reserva. O Inacessível aproximou-se, uniu-se estreitamente, perfeitamente e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem perder uma parcela de sua majestade; é também por Maria que devemos aproximar-nos de Deus e unir-nos a sua majestade, perfeita e estreitamente, sem temor de repulsa. Aquele que é quis, enfim, vir ao que não é, e fazer que aquele que não é se torne Deus ou aquele que é. E Ele o fez perfeitamente, dando-se e submetendo-se inteiramente à Virgen Maria sem deixar de ser no tempo aquele que é na eternidade; outrossim, é por Maria que, se bem que sejamos nada, podemos tornar-nos semelhantes a Deus, pela graça e pela glória, dando-nos a ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo nela, sem receio de nos enganar. 

158. Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos bem-aventurados, ornado de todas as suas virtudes heroicas, iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos lá estejam para conduzir, defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o caminho imaculado de Maria: "Possui immaculatam viam meam" (Sl 18,33), via ou caminho sem a menor nódoa ou mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem trevas;  e quando meu amável Jesus vier, em sua glória, uma segunda vez à terra (como é certo) para aqui reinar, o caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo qual ele veio com segurança entre a primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender: "Hic taceat omnis lingua".

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2. "Tu es via compendiosa in caelo" (SÃO BERNARDO. Laudes glor. Virginis). Cf. "Recta et tanquam compendiaria via ad Iesum per Mariam itur" (BENTO XV. Epist. ad R.P.D. Schoepfer. - AAS 1914, p. 515).

3. Cf. Gradual da Missa da Santíssima Virgem (de Pentecostes ao Advento); 1º Responso do Ofício da Santíssima Virgem. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.


domingo, 14 de maio de 2023

Série Tratado: Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus

  Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 



ARTIGO IV

Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus 

151. Quarto motivo. Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com este nobre intuito, apesar de a isto estarmos obrigados, ou porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus, ou porque não a quer. Mas a Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de Deus, e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um perfeito servo desta amável Soberana, que a ela se consagrou inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que revogue expressamente a intenção de sua oferta. Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que ama a Deus com um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios interesses?

ARTIGO V

Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor

152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão. 

§ I. Esta devoção é um caminho fácil.

É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminnho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranquilidade. 

Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes para vencer. Mas esta boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, este caminho virginal, para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que trilharam este caminho ameno para ir a Jesus Cristo, porque o Espírito Santo, esposo fiel de Maria, o indicou a eles por uma graça especial; os outros santos, porém, que são em muito maior número, embora tenham tido devoção à Santíssima Virgem, não entraram, ou entraram muito pouco, nesta via. E por isso tiveram de arrostar provas bem mais rudes e mais perigosas. 

153. A que atribuir, então - dirá algum fiel servidor desta boa Mãe -, que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam¹; ou, então, andam em trevas interiores, e em aridez de deserto onde não pinga nem uma gota de orvalho celeste. Se esta devoção torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão desprezados? 

154. Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem, por que são seus grandes favoritos, recebem dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas. E creio que uma pessoa que quer ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente até o fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que torna doces as cruzes; do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes verdes que não fossem saturadas de açúcar. 

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1. "Servientes tibi plus aliis invadunt dracones inferni" (São Boaventura. Psalter. maius B.V., Sl 118). 


Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.




sexta-feira, 12 de maio de 2023

Série Tratado: Maria se dá a quem é seu escravo por amor.

 Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 




ARTIGO III
 Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima Virgem

§ I. Maria se dá a quem é seu escravo por amor.

144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e misericórdia, que jamais se deixa vencer em amor e liberalidade, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente, para honrá-la e servir-lhe, despojando-se do que tem de mais caro para com isso adorná-la, entrega-se também inteiramente e de um modo inefável, a quem tudo lhe dá. Ela o faz imergir no abismo de suas graças, reveste-o de seus merecimentos, dá-lhe o apoio de seu poder, ilumina-o com sua luz, abrasa-o de seu amor, comunica-lhe suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.: constitui-se seu penhor, seu suplemento, seu tudo para com Jesus. Como, enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si próprio, que a tomou como um bem, para sua casa: "Accepit eam discipulus in sua" (Jo 19,27).
145. É isto que produz na alma fiel uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, ao lado de uma confiança ilimitada na Santíssima Virgem, sua boa Senhora. Já não procura, como antes, o seu apoio em suas próprias disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras, pois, tendo sacrificado tudo a Jesus por esta boa Mãe, só lhe resta um tesouro que resume todos os seus bens e de que Ele não dispõe, e esse tesouro é Maria. 
É o que faz aproximar-se de Nosso Senhor, sem receio servil nem escrupuloso, e rezar com extrema confiança; é o que o faz adquirir os sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, o qual, aludindo à vitória de Jacob sobre um anjo (cf. Gn 32,24), dirige à Santíssima Virgem estas belas palavras: "Ó Maria, minha princesa e Mãe Imaculada de Deus-homem, Jesus Cristo, é meu desejo lutar com este Homem, isto é, o Verbo divino, armado não com meus próprios méritos, mas com os vossos: "O Domina, Dei Genitrix, Maria, et incorrupta Mater Dei et hominis, non meis, sed tuis armatus meritis, cum isto Viro, scilicet Verbo Dei, luctare cupio"6.
Oh! quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo-poderoso.


§ II. Maria purifica nossas boas obras, embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.

146. Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a seu Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção, as damos todas a Ele pelas mãos de sua Mãe Santíssima.
1º) Ela as purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, apego que se insinua insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não foram jamais manchadas nem ociosas, e que purificam tudo que tocam, tiram do presente que lhe fazemos tudo que pode deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito. 
147. 2º) Ela embeleza nossas boas ações, ornando-as com seus méritos e virtudes. É como se um campônio, querendo ganhar a amizade do rei, se dirigisse à rainha, e lhe apresentasse uma maçã, que representasse todo o seu lucro, e lhe pedisse que a oferecesse ao rei. A rainha, acolhendo a pobre dádiva do camponês, punha-a no centro de grande e magnífico prato de ouro, e apresentava-a assim ao rei, da parte do ofertante. Nestas circunstâncias, a maçã, indigna por si mesma de ser oferecida ao rei, torna-se um presente digno de sua majestade, devido ao prato de ouro e à importância da pessoa que a apresenta. 
148. 3º) Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada retém para si do que lhe ofertamos. Tudo remete fielmente a Jesus. Se algo lhe damos a ela, damos necessariamente a Jesus. Se a louvamos e glorificamos, logo ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como outrora, quando Santa Isabel a exaltou, ela canta, quando a louvamos e bendizemos: "Magnificat anima mea Dominum..." (Lc 1,46).
149. 4º) Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos santos e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente, e muitas vezes o rejeita em vista das manchas que a dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de vontade própria. Quando, porém, lhe apresentamos algo pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, tomamo-lo pelo seu lado fraco, se me é permitida a expressão. Ele não considera tanto a oferta que lhe fazemos como sua boa Mãe que lha apresenta; não olha tanto a procedência do presente como a portadora. Deste modo, Maria, que nunca foi repelida, e, pelo contrário, foi sempre bem recebida, faz que seja agradavelmente recebido pela Majestade divina tudo que lhe apresenta, pequeno ou grande: basta que Maria lho apresente para que Jesus o receba e acolha. Conselho valioso é o que dava São Bernardo aos que dirigia no caminho da perfeição: "Quando quiserdes oferecer qualquer coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê-lo pelas mãos agradáveis e digníssimas de Maria, a menos que queiras ser rejeitados" - Modicum quid offerre desideras, manibus Mariae offerendum tradere cura, si non vis sustinere repulsam¹. 
 150. E, como vimos (n. 146), a própria natureza não inspira aos pequenos como agir em relação aos grandes? Por que não há de levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos menos que átomos? tendo além disso uma advogada tão poderosa, que não foi jamais repelida; tão habilidosa que conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que seja. 
Referirei mais adiante a verdadeira figura das verdades que afirmo, na história de Jacob e Rebeca (cf. cap. VI).


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6. Rup., Prolog. in. Cant.
1. São Bernardo: "De Aquaeductu".

Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.








quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Função de Maria na vida Cristã *






155. 1º - Fundamento da sua função. A função de Maria repousa no fato de sua íntima união com Jesus ou, dito de outro modo, do dogma da maternidade divina, e tem como consequência a sua excelsa dignidade e seu ofício de mãe dos homens. 
A. No dia  da Encarnação Maria torna-se Mãe de Jesus, Mãe do Filho-Deus, Mãe de Deus. Quando olhamos com atenção o diálogo entre o anjo e a Virgem Maria, vemos que Maria não somente é mãe de Jesus como indivíduo, pessoa privada, mas também enquanto Salvador e Redentor. "O anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus, mas propõe a Maria a maternidade do Messias esperado, do Rei eterno da humanidade regenerada. ...Toda a obra redentora depende do Fiat de Maria e disso ela tem plena consciência. Sabe o que Deus lhe propõe; consente no que Deus lhe pede sem qualquer restrição ou condição. O seu Fiat responde à magnitude da proposta divina e alcança toda a obra redentora". 70  Portanto, Maria é mãe do Redentor e, por sê-lo,  está associada à obra redentora. Ocupa, na ordem da redenção, o lugar que Eva teve no da nossa ruína espiritual, como observam os Santos Padres, seguindo Santo Irineu. 
Por ser mãe de Jesus, Maria tem relação muito íntima com as três Pessoas divinas. É a filha muito amada do Pai e associada na obra da Encarnação. É a Mãe do Filho, com direito a dele ter respeito, amor e, na terra, até mesmo obediência. Em razão do papel que exerceu nos seus mistérios, secundário mas real, é colaboradora na obra da salvação e santificação dos homens. Enfim, é o templo vivo, o santuário privilegiado do Espírito Santo e, em sentido analógico, a sua Esposa, posto que com Ele e dependendo Dele, contribui na regeneração das almas para Deus.
156. B) No mesmo dia da Encarnação Maria também tornou-se mãe dos homens. Como dissemos (nº142), Jesus é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça de um corpo místico cujos membros somos nós, e como tal, ou seja, em sua completude, Maria o gerou. Além disso, gera também todos os membros do corpo místico de Jesus, todos aqueles que Lhe serão incorporados, todos os regenerados ou aqueles que serão chamados a sê-lo. Portanto, ao tornar-se Mãe de Jesus segundo a carne, tornou-se simultaneamente Mãe dos membros de Jesus segundo o espírito. O episódio do calvário somente confirma essa verdade. No exato momento a Maria, referindo-se a São João e, por ele, a todos os seus discípulos presentes ou tradição que remonta até Orígenes, declarar que todos os regenerados eram filhos espirituais de Maria.
Deste duplo título, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é que se origina o papel que Maria exerce em nossa vida espiritual.
157. 2º - Maria causa meritória da graça. Já vimos (nº 133) que, em sentido próprio, Jesus é a causa meritória principal de todas as graças que recebemos. Maria, sua colaboradora na obra  da nossa santificação, mereceu todas essas mesmas graças, mas apenas secundariamente, ou seja, na dependência de seu Filho e porque este lhe deu o poder de merecer por nós; e somente de côngruo,71 isto é, com mérito de conveniência. Mereceu-as, inicialmente no dia da Encarnação, no momento em que deu o seu fiat. A Encarnação é a Redenção começada e, portanto, cooperar em Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que são fruto dela e, por conseguinte, em nossa salvação e santificação.
158. Maria, cuja vontade é em tudo conforme a de Deus e de seu Filho, ao longo de toda a sua vida associa-se à obra redentora. É ela que cria e educa Jesus, alimenta-o e prepara-o para a imolação como vítima no calvário.Tomando parte nas suas alegrias e tribulações, em seu humilde trabalho na casa de Nazaré, em suas virtudes, une-se, com generosíssima compaixão, à paixão e morte de seu Filho, reiterando o seu fiat ao pé da cruz e consentindo na imolação daquele que ama muito mais que a si mesma. Nesse momento, seu amoroso coração é transpassado por uma espada de dor: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35). Quantos méritos não conquistou com tão perfeita imolação!
E em razão do longo martírio que padeceu depois da ascensão de seu Filho ao céu, continuou a aumentá-los. Privada da presença daquele que era a sua felicidade, ansiava ardentemente pelo momento em que se uniriam para sempre, e aceitava amorosamente essa provação para cumprir a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente. Com isso, Maria acumulou para nós inumeráveis merecimentos. Suas obras são tão mais meritórias porque: foram praticadas com a mais perfeita pureza de intenção. "Minha alma glorifica ao Senhor." (Lc 1,46); e cumprem, em sua integridade, a vontade de Deus, com o mais intenso fervor e a mais estreita união com Jesus, fonte de todo mérito. "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38).
Sem dúvida esses merecimentos, que eram principalmente para Ela mesma, aumentavam o seu manancial de graça e os seus direitos à glória. Mas, em razão da função que exercia na obra redentora, Maria merecia também, de côngruo, para todos e, conforme a expressão de São Bernardo:72 "aquela que era cheia de graça, deixou transbordar essa graça sobre nós."
159. 3º - Maria causa exemplar. Depois de Jesus, Maria é o mais belo modelo que podemos imitar. O Espírito Santo que habitava em Maria em razão dos merecimentos do seu Filho, fez dela uma imagem viva das virtudes de Jesus. Jamais cometeu a mínima falta ou teve a mínima resistência à graça, levando à letra o "seja feito conforme a tua palavra". Por isso os Santos Padres, sobretudo Santo Ambrósio e o Papa São Libério, apresentam-na como modelo perfeito de todas as virtudes, "caritativa e atenciosa com todas as suas companheiras, sempre pronta a servi-las, não dizendo ou fazendo coisa alguma que pudesse desgostá-las, amando todas e sendo por todas amada".73
É suficiente indicar as virtudes constantes no próprio Evangelho: 1) a sua profunda fé, que a fez crer sem vacilar nas coisas que o anjo da parte de Deus lhe anuncia. Por essa fé Isabel, inspirada pelo Espírito Santo, a congratulou: "Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir coisas que da parte do Senhor te foram ditas!" (Lc 1,45); 2) a sua virgindade, revelada na resposta do anjo, "Como se fará isso pois não conheço homem?" (Lc 1,34), mostra sua determinação de permanecer virgem, mesmo que isso significasse sacrificar a dignidade de Mãe do Messias; 3) a sua humildade é evidenciada na perturbação que experimenta diante dos elogios do anjo, na declaração de ser escrava do Senhor no mesmo instante em que é proclamada Mãe de Deus, na oração do Magnificat, que já foi chamado o êxtase da humildade, no amor que mostra pela vida oculta, apesar de ter, na qualidade de Mãe de Deus, o direito a todas as honras; 4) o seu recolhimento interior a fez guardar em silêncio e meditar tudo o que se relacionava com o divino Filho. "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração." (Lc 2,19); 5) o seu amor para com Deus e o próximo, que generosamente a fez aceitar todas as provações de uma longa vida, principalmente a imolação de seu Filho no calvário e a longa separação desse Filho tão amado, desde a Ascensão até o momento de sua morte.
160. Esse modelo tão perfeito é, ao mesmo tempo, inteiramente atrativo. Maria é uma simples criatura como nós, uma irmã, uma Mãe que nos convida a imitá-la, ainda que seja somente para manifestar-lhe nossa gratidão, veneração e amor. Destarte, é um modelo fácil de imitar, no sentido de que Maria santificou-se na vida comum, no cumprimento de seus deveres de jovem e de mãe, nos humildes trabalhos domésticos, na vida oculta, nas alegrias e nas tristezas, na exaltação e nas mais profundas humilhações.
Portanto, temos a certeza de estar trilhando caminho seguríssimo quando imitamos a Santíssima Virgem. É o melhor meio de imitar a Jesus e de alcançar a sua poderosa mediação.
161. 4º - Maria medianeira universal da graça. São Bernardo formulou essa doutrina há muito tempo, num texto muito conhecido: "É da vontade de Deus que recebamos todas as graças através de Maria." 74 É importante esclarecer como deve ser entendido. É certo que Maria, ao dar-nos Jesus, autor e causa meritória da graça, deu-nos também de maneira mediata, todas as graças. Contudo, além disso, segundo o ensino cada vez mais comum,75 não há uma só graça concedida aos homens, que não venha imediatamente por Maria, isto é, sem a sua intercessão. Portanto, trata-se de uma mediação imediata, universal, mas subordinada à de Jesus.
162. Para dar mais precisão a essa doutrina, acompanhamos o Pe. De la Broise,76 que diz: "a atual ordenação dos decretos divinos dispõe que todos os bens sobrenaturais, concedidos ao mundo, sejam outorgados com o concurso de três vontades e nenhum sem essa condição. A primeira é a vontade de Deus, que confere todas as graças. Depois, a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mediador, que as merece por si mesmo, obtendo-as por estrita justiça. Por fim, a vontade de Maria, mediadora secundária, que as merece e obtém por conveniência, através de Nosso Senhor." Essa mediação é imediata, no sentido de que, para cada graça dada por Deus, Maria intervém pelos seus méritos passados ou pelas suas presentes súplicas. Porém, tal fato não implica que, quem as recebe, deva pedi-las necessariamente através de Maria, pois ela pode intervir sem que ninguém o peça. Essa mediação é universal, abrangendo todas as graças concedidas ao homem desde a queda de Adão. Contudo, está subordinada à mediação de Jesus, porque Maria não pode merecer ou obter graça alguma senão pelo seu divino Filho. Desse modo, a mediação de Maria somente realça o valor e a fecundidade da mediação de Jesus.
Essa doutrina foi confirmada pelo Ofício e a Missa dedicados à honra de Maria Medianeira, concedidos pelo Papa Bento XV às igrejas da Bélgica e a qualquer outra que pedir, de toda a cristandade.77 Portanto, a doutrina é segura, pode ser utilizada na prática e move-nos a uma grande confiança em Maria.

CONCLUSÃO: DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM

163. Por ser tão importante o papel de Maria em nossa vida  espiritual, devemos dedicar-lhe muitíssima devoção. Essa palavra dedicação quer dizer entrega voluntária de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos entregarmos completamente a Ela e, por Ela, a Deus. Isso somente nos fará imitar o próprio Deus, que se entregou por nós e também nos deu o seu Filho por intermédio de Maria. Entregaremos o nosso entendimento com a mais profunda veneração; a nossa vontade com confiança absoluta; o nosso coração com um amor terníssimo de filho; inteiramente todo o nosso ser com a imitação mais perfeita possível de suas virtudes.
164. A) Veneração profunda. Essa veneração funda-se na dignidade de Mãe de Deus e nas consequências que dela derivam. Com efeito, jamais poderemos honrar em excesso aquela que o Verbo Encarnado venera como Mãe, que o Pai contempla amorosamente como Filha muito amada e que o Espírito Santo considera seu templo predileto. O Pai trata-a com sumo respeito ao enviar-lhe um anjo para saudá-la como cheia de graça e pede-lhe o consentimento na obra da Encarnação, à qual deseja associá-la intimamente. O Filho venera-a, ama-a como sua mãe e é-lhe obediente. O Espírito Santo desce sobre ela e nela tem as suas complacências. Portanto, ao venerar Maria apenas nos associamos às três divinas Pessoas, estimando o que elas estimam.
Não há dúvida que há excessos que devemos evitar, especialmente todo aquele que tenda a fazê-la igual a Deus ou torná-la a fonte da graça. Todavia, enquanto a considerarmos criatura, que em si mesma não tem grandeza, nem santidade, nem poder, a não ser na medida em que recebe de Deus, não há razão para temer o excesso; é Deus que veneramos nela.
Essa veneração deve ser maior que a dedicada aos anjos e aos outros santos, precisamente porque pela dignidade de Mãe de Deus, pelo ofício de mediadora, pela santidade, Maria está acima de todas as criaturas. Por isso, o seu culto, que é culto de dulia e não de latria, é com razão chamado culto de hiperdulia, pois é superior ao que se dedica aos anjos e santos.
165. B) Confiança absoluta, baseada no poder e bondade de Maria. a) Este poder não procede de si mesma, mas do poder de intercessão, porque Deus não quer negar nada de legítimo Àquela que ama e venera acima de todas as criaturas. Nada mais justo. Tendo Maria dado a humanidade a Jesus, com a qual Ele pode merecer, e colaborado com Ele na redenção por meio de suas obras e dores, era conveniente que fosse partícipe na distribuição dos frutos dessa redenção. Assim, Jesus não lhe negará nada que pela de legítimo e por isso podemos dizer que Ela é onipotente pelas suas súplicas (omnipotentia supplex); b) Com relação à bondade, é aquela pela qual a Mãe nos transmite, como membros de Jesus Cristo, o afeto que dedica ao seu Filho; uma Mãe que, tendo-nos dado à luz na dor, em meio às angústias do Calvário, tanto mais nos amará quando mais lhe custarmos. Portanto, nossa confiança nela deve ser inabalável e universal. 
1) Inabalável, em que pese nossas misérias e pecados. Maria é Mãe de misericórdia, cuja função não é ocupar-se com a justiça; foi escolhida antes de tudo para exercer a compaixão, a bondade, a condescendência. Sabendo que estamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não deixamos de ser seus filhos, ainda que caiamos em pecado. Assim, basta que manifestemos um mínimo de boa vontade e o desejo de voltar a Deus para que ela bondosamente nos acolha. Muitas vezes é ela que, antecipando-se a esses bons propósitos, alcança-nos graças  que os suscitam em nossa alma. Compreendendo muito bem essa doutrina a Igreja instruiu, em certas dioceses, uma festa com um título que à primeira vista parece estranho, mas que no fundo é perfeitamente justificável. Trata-se da festa do Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores. Justamente por ser Imaculada e jamais ter cometido a menor falta é que Maria tem mais compaixão dos seus pobres filhos, que não têm, como ela, o privilégio de ser livre da concupiscência.
2) Universal, ou seja, abrange todas as graças que precisamos; graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de proteção no meio dos perigos, das angústias, das mais graves dificuldades que se possam apresentar. Essa é a confiança que tão encarecidamente São Bernardo recomenda: 78 "Se as tempestades das tentações se levantam, se estiveres no meio dos perigos das tribulações, lança os olhos para a estrela do mar, invoca Maria em teu auxílio; se és agitado pelas ondas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olha para a estrela, invoca Maria; se a cólera, a avareza, os prazeres da carne agitam a barca da tua alma, olha para Maria; se, perturbado pela grandeza dos teus crimes, confuso pela estado miserável da tua consciência, horrorizado pelo pensamento do juízo, começas a afundar no abismo da tristeza e do desespero, pensa em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, não se afaste o seu nome dos teus lábios, nem o coração do pensamento dela e, para obteres mais seguramente o auxílio de tuas súplicas, não descuides de imitar os seus exemplos. Seguindo-a, não te extravias; suplicando-a, não te desesperas; pensando nela, não te perdes. Enquanto ela te levar pela mão, não cairás; sob sua proteção, não terás nada a temer; sob o seu governo, não te fatigarás; com o seu favor, chegarás certamente ao termo." Como continuamente precisamos de graça para vencer os nossos inimigos e progredir na virtude, devemo-nos dirigir frequentemente Àquela que tão acertadamente é chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
166. C) O amor filial, cheio de candura, simplicidade, generosidade e ternura, deve ser unido à confiança. Seguramente Maria é a mais amável das mães, pois Deus, havendo-a escolhido para ser Mãe do seu Filho, deu-lhe todas as qualidades que tornam amável uma pessoa: delicadeza, prudência, bondade e dedicação de mãe. É a mais amante, pois o seu coração foi criado especificamente para amar um Filho-Deus, e amá-lo o mais perfeitamente possível. Esse mesmo amor que tinha por Jesus, tem também por nós que somos membros vivos do seu divino Filho, seu prolongamento e complemento. E esse amor brilha mais forte: no mistério da Visitação, quando correu pressurosa para levar à sua prima Isabel aquele Jesus que recebeu em seu seio e que, só pela sua presença, santificou toda a casa; nas bodas de Caná onde, atenta a tudo o que se passava, intercedeu junto a seu Filho para evitar uma triste humilhação aos recém-casados; no Calvário, onde aceita sacrificar o que tem de mais precioso para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter para os Apóstolos uma maior abundância de dons do Espírito Santo.
167. Sendo Maria a mais amável e a mais amante das mães, deve ser também a mais amada. Este é um de seus mais gloriosos privilégios. Onde quer que Jesus seja conhecido e amado, Maria também o o é. Não se pode separar a Mãe do Filho e, nunca esquecendo a diferença entre um e outro, temos o mesmo afeto por ambos ainda que em grau diferente: ao Filho tributa-se o amor devido a Deus, a Maria, o devido à Mãe de um Deus: amor terno, generoso, devotado, mas subordinado ao amor de Deus.
É amor de complacência, que se deleita nas grandezas, virtudes e privilégios de Maria, meditando amiúde nessas qualidades, admirando-as, comprazendo-se nelas e felicitando-a por ser tão perfeita. Porém, também é amor de benevolência, que sinceramente deseja que o nome de Maria seja cada vez mais conhecido e amado; ora para que se expanda a sua influência sobre as almas e, à essa oração, agrega a palavra e a ação. É amor filial, cheio de confiança e simplicidade, de ternura e devoção, que chega até aquela respeitosa intimidade que uma mãe consente ao filho. Por fim e sobretudo, é amor de conformidade, que se esforça para submeter a sua vontade à de Maria em todas as coisas e, desse modo, à de Deus, posto que a sua união das vontades é o sinal mais autêntico de amizade. Isso é o que nos leva a imitar a Santíssima Virgem.
168. D) A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que lhe podemos oferecer; é proclamar não somente com palavras, mas também com atos, que Ela é um modelo perfeito que muito nos alegra tenta imitar. Já dissemos (nº159) como Maria, que é um retrato vivo de seu Filho, dá-nos exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus. Portanto, nada melhor podemos fazer que estudar suas virtudes, meditar frequentemente nelas e esforçar-nos para reproduzi-las em nós.
Para melhor atingir esse objetivo, o mais eficaz é praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria (per Ipsam et cum Ipsa, et in Ipsa). 79 Por Maria, isto é, por sua intercessão pedir as graças necessárias para imitá-la, indo por Ela para ir a Jesus (ad Jesum per Mariam). Com Maria, isto é, considerando-a como modelo e colaboradora e perguntando-nos sempre: O que Maria faria se estivesse no meu lugar? Então humildemente lhe pedimos auxílio para conformar nossas ações com os seus desejos. Em Maria, ou seja, submissos a ela, aderindo ao seu modo seu ver e às suas intenções e realizando as nossas ações como Ela, isto é, para glorificar a Deus (Minha alma glorifica ao Senhor).
169. Com essas disposições interiores é que devemos recitar em honra à nossa Mãe: a Ave Maria e o Ângelus, que nos recordam a Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sob a Vossa Proteção, que é um ato de confiança naquela que nos protege de todos os perigos; o Ato de Consagração a Maria, que é um ato de total entrega em suas mãos, pelo qual lhe confiamos nosso ser, nossas ações e méritos; sobretudo, o Santo Rosário que, unindo-nos aos mistérios gozosos, luminosos, 80 dolorosos e gloriosos, permite-nos santificar em união com Maria e com Jesus, as nossas alegrias, tristezas e glórias. O Pequeno Ofício da Santíssima Virgem equivale ao Breviário para as pessoas que podem recitá-lo. Faz com que muitas vezes  ao dia lembremo-nos da grandeza, santidade e da obra santificadora dessa boa Mãe.

ATO DE CONSAGRAÇÃO TOTAL A MARIA 81


170. Natureza e extensão desse ato. É um ato de consagração que encerra todos os demais. Foi proposto por São Grignion de Montfort e consiste em entregar-se inteiramente a Jesus por Maria, abrangendo dois elementos: um ato de consagração, que se renova de tempos em tempos, e um estado habitual, pelo qual vivemos e operamos subordinados a Maria. O ato de consagração, diz São Grignion,"consiste em dar-se inteiramente, na qualidade de escravo, a Maria e a Jesus, por meio de Maria". Não nos deve escandalizar o termo escravo, do qual devemos excluir todo sentido pejorativo, isto é, toda a ideia de opressão. Longe de implicar opressão, esse ato é manifestação do mais puro amor. Devemos dar atenção somente ao elemento positivo, conforme explica o Santo: um simples servo, que recebe seu salário, é livre para deixar o patrão, o qual não dá mais do que o seu trabalho. Não lhe dá a sua pessoa, seus direitos pessoais, seus bens. Um escravo concorda livremente em trabalhar sem salário, confiando que seus senhor lhe dará sustento e abrigo. Dá-se para sempre, com todos os seus recursos, sua pessoas e seus direitos, para viver inteiramente sob a dependência dele.
171. Aplicando agora essa doutrina ao contexto espiritual, o perfeito escravo de Maria dá a esta Senhora e, por ela, a Jesus:
a) Seu corpo, com todos os seus sentidos, conservando-lhe somente o uso, e comprometendo-se a servir-se dele somente na medida em que agrade a SS. Virgem ou o seu Filho. De antemão aceita todas as disposições da Providência referentes à saúde, enfermidade, vida e morte;
b) Todas as posses terrenas, utilizando-as somente sob a dependência de Maria, para sua glória e de Deus;
c) A alma com todas as suas faculdades, consagrando-as ao serviço de Deus e das almas, sob a condução de Maria, e renunciando a tudo quanto possa pôr em risco a salvação e a santificação;
d) Todos os bens interiores e espirituais, seus méritos, satisfações e o valor impetratório das boas obras, na medida em que esses bens forem alienáveis. Esclareçamos este último ponto:
1. Nossos méritos propriamente ditos (de condigno), pelos quais merecemos aumento de graça e de glória para nós mesmos, são inalienáveis. Quando os entregamos a Maria, é para que ela os conserve e aumente e não para aplicá-los a outros. Porém, deixamos Maria dispor livremente dos méritos de simples conveniência ( de congruo), que podem ser oferecidos por intenção de outras pessoas.
2. O valor satisfatório das nossas obras, incluindo as indulgências, é alienável e entregamo-lo à Santíssima Virgem para que ela o aplique. 82
3. O valor impetratório, isto é, as nossas orações e boas obras, posto que se reveste do mesmo valor, pode ser oferecido, e de fato o é, por esse ato de consagração.
172. Após realizado o ato, não mais podemos dispor desses bens sem a permissão da SS. Virgem, mas podemos e por vezes devemos pedir-lhe que se digne, segundo sua vontade, utilizá-los em favor de pessoas com as quais temos obrigações particulares. Para harmonizar tudo, o melhor é oferecer-lhe simultaneamente com a nossa pessoa e os nossos bens, todos os nossos entes queridos (Eu sou todo Teu, tudo o que é meu é Teu). 83 Assim, a SS. Virgem empregará nossos bens e, sobretudo, os seus tesouros e os de seu Filho, em favor dessas pessoas que, desse modo, nada perdem com a nossa consagração; pelo contrário, ganham muito.
173. A excelência desse ato. É um ato de santo abandono, excelente por si mesmo, mas que, além disso, abarca atos das mais belas virtudes:
1. Um ato de profunda religião para com Deus Pai, Jesus e Maria. Por ele reconhecemos concretamente o soberano domínio de Deus, o nosso próprio nada, e proclamamos de todo o coração os direitos que Deus concedeu a Maria sobre nós.
2. Um ato de humildade, pelo qual reconhecemos o nosso nada e a nossa impotência, despojamo-nos de tudo que Deus nos deu, devolvendo-lhe pelas mãos de Maria, de quem, depois dele e por Ele, tudo recebemos.
3. Um ato de amor confiante, posto que o amor é o dom de si mesmo e, para doar-se, é preciso confiança perfeita e fé viva.
Portanto, podemos dizer que se este ato de consagração for bem feito, renovado de coração com frequência e colocado em prática, é mais excelente que o ato heroico em que cedemos apenas o valor satisfatório dos nossos atos e as indulgências que lucramos.
174. Os frutos dessa devoção decorrem da sua própria natureza. 1) É um modo perfeito de glorificar a Deus e a Maria, pois damos-lhe tudo o que somos e temos, sem restrição e sem volta. E fazemos isso de maneira mais agradável a Deus, conforme a ordem estabelecida pela sua sabedoria, isto é, retornando a Ele pelo menos caminho que Ele seguiu para vir a nós.
175. 2) Destarte, desse modo asseguramos nossa própria santificação. Na realidade, Maria, ao ver que lhe entregamos o nosso ser e nossos bens, sente-se fortemente movida a ajuda e santificar aqueles que são, por assim dizer, propriedade sua. Obterá para nós graças muito abundantes, com as quais poderemos aumentar nosso pequeno tesouro espiritual que é seu, conservá-lo e fazê-lo frutificar até o fim da nossa vida. Para isso, Ela se servirá tanto do seu poder de intercessão junto a Deus como da superabundância dos seus méritos e satisfações.
3) Por fim, desse modo são beneficiadas a santificação do próximo e, sobretudo, as almas a nós confiadas. Colocando nas mãos de Maria a distribuição dos nossos méritos e satisfações, conforme o seu agrado, estaremos seguros de que tudo será feito da maneira mais sábia. Ela é mais prudente, previdente e dedicada que nós. Portanto, os nossos parentes e amigos só têm a ganhar.
176. Sem dúvida, pode-se argumentar que desse modo alienamos todo o nosso haver espiritual, sobretudo nossas obras satisfatórias, indulgências e sufrágios, que poderiam ser oferecidos por nós e que, desse modo, poderíamos ficar muitos anos no purgatório. Não deixa de ser verdade, mas é uma questão de confiança. Afinal, temos ou não mais confiança em Maria que em nós mesmos e em nossos amigos? Se sim, não há o que temer; ela cuidará da nossa alma e dos nossos interesses melhor que nós. Se não, devemos evitar esse ato de consagração total, pois poderíamos nos arrepender mais tarde. De qualquer modo, não convém fazê-lo senão depois de madura reflexão e de acordo com o diretor espiritual.


Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, pgs 111-119.

Notas
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*69 SANTO TOMÁS, Suma Teológica, In Salut. Angel. expositio; SUAREZ, De mysteriis Christi, disp. I-XXIII; BOSSUET, Sermons sur la Ste. Vierge; TERRIEN,S.J. La Mère de Dieu et la Mère des hommes, t. III; L. GARRIGUET, La Vierge Marie; Dict. d'Apolog. (d'Alès), no artigo Marie; HUGON, O.P., Marie, pleine de grâce; R. - M. DE LA BROISE E J. - B. BAINVEL, Marie, mêre de grâce, 1921; Synop. Theol. dogm., t. II, nº 1226-1263.

70 BAINVEL, op. cit. P.73 - 75. Essa tese pode-se apoiar nas palavras do anjo: "Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó." (Lucas, 1, 32-32).

71 Essa expressão foi ratificada por São Pio X na Encíclica de 1904, em que declara que Maria mereceu de congruo toda as graças que Jesus mereceu de condigno.

72 In Assumpt, sermo II,2.

73 J.V. BAINVEL, Le Saint Cceur de Marie, pp. 313-314.

74 Sermo de aquaeductu, n . .

75 Provas dessa afirmação podem ser obtidas na obra citada do Pe. Terrien, t. III (todo).

76 Marie, mère de grâce, p. 23-24.

77 Sua Eminência o Cardeal Mercier, em carta de 27 de janeiro de 1921, anunciou o fato aos seus diocesanos nestes termos: "Há vários anos que o Episcopado belga, a faculdade de teologia da Universidade de Lovaina e todas as ordens religiosas, pleiteavam ao Papa para que a SS. Virgem Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, fosse reconhecida como Mediadora universal da obtenção e distribuição das graças divinas. Sua Santidade, Bento XV, concedeu, às igrejas da Bélgica e a toda a Cristandade que lhe pediram, um ofício e Missa próprios, na data de 31 de maio, em honra a Maria Medianeira." 

78 Homil. II, De Laudibus Virg. Matris, 17.

79 Essa era a prática piedosa de M. Olier que São Grignion de Montfort aperfeiçoou e tornou popular no Tratado de Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

80 Os mistérios luminosos foram introduzidos por sugestão do Santo Papa João Paulo II, na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, de 16 de outubro de 2002 - NT.

81 GRIGNION DE MONTFORT, op. cit.; A. LHOUMEAU, La vie spirituelle à l'école de S. Grignion de Montfort, 1920, p. 240- 247.

82 SANTO TOMÁS, Supplement., q. 13, a. 2.

83 Tuus totus sunt, omnia mea tua sunt, et omnes mei tui sunt.