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domingo, 19 de abril de 2026

Da eternidade do inferno


 

Et ibunt hi in supplicium aeternum.

E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave. 

Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.

E se durasse um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10). 

Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. - E irão estes ao suplício eterno. - Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo" (Mt 25, 41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. "Ali o fogo consome de tal modo -  disse São Bernando - que conserva sempre".

Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo. 

Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: "Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais".


AFETOS E SÚPLICAS

Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...

E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender. 

Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.

Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos. 

Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça. 

Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança. 


PONTO II

Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei Davi exclamava trêmulo: "Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca" (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: "O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos". Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinquente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. "Uns para a vida eterna, e outros para o opróbio que terão sempre diante dos olhos" (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade. 

"O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre". "Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade". 

Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: "Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade". Os castigos da vida presente são transitórios: "As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou" (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". Diz a Escritura em roda, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).

Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? "Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea". Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração. 

Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48, 8-9). "Ali a culpa - disse o Belluacense - poderá ser castigada, mas jamais expiada" (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, "ali o pecador é incapaz de arrependimento". 

O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: "Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perveserança do ódio". São Jerônimo afirma que "no réprobos, o desejo de pecar é insaciável" (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).


AFETOS E SÚPLICAS

Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso  desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...

Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me contra Deus e contra vós!


PONTO III

No inferno, o que mais se deseja é a morte. "Buscarão os homens a morte e não a encontrarão" (Ap 9,6). Por isso, exclama São Jerônimo.

"Ó morte, quão agradável serias àqueles para quem foste tão amarga!". Disse Davi que a morte se apascentará com os réprobos (Sl 48,15). E explica-o São Bernardo, acrescentando que, assim como, ao pastar, os rebanhos comem apenas as pontas das ervas e deixam a raiz, assim a morte devora os condenados, mata-os a cada instante e conserva-lhes a vida para continuar a atormentá-los com castigo eterno. 

De sorte que, diz São Gregório, o réprobo morre continuamente sem morrer nunca. Quando um homem sucumbe de dor, todos têm compaixão dele. Mas o condenado não terá quem dele se compadeça. 

Estará sempre a morrer de angústia e não encontrará comiseração... O imperador Zenão, sepultado vivo numa masmorra, gritava e pedia que, por piedade, o retirassem dali, mas não o atenderam e, depois, o encontraram morto. As mordeduras que a si mesmo havia feito nos braços, patenteavam o horrível desespero que sentira... Os condenados, exclama São Cirilo de Alexandria, gritam no cárcere infernal, mas ninguém acode a libertá-los, ninguém deles se compadecerá jamais. 

E quanto tempo durará tão triste estado?... Sempre, sempre. Lê-se no Exército Espirituais, do Pe. Segneri, publicados por Muratori, que, em Roma, se interrogou a um demônio (na pessoa de um possesso), quanto tempo devia ficar no inferno... Respondeu com raiva e desespero: Sempre, sempre!... Foi tal o terror que se apoderou dos circunstantes, que muitos jovens do Seminário Romano, ali presentes, fizeram confissão geral, e sinceramente mudaram de vida, consternados por esse breve sermão de duas palavras apenas...

Infeliz Judas!... Há mais de mil e novecentos anos que já está no inferno e, não obstante, se diria que seu castigo apenas vai em princípio!... 

Desgraçado Caim!... Há cerca de seis mil anos que sofre o suplício infernal e pode-se dizer que ainda se acha no princípio de sua pena! Um demônio a quem perguntaram quanto tempo estava no inferno, respondeu: Desde ontem. E como se lhe replicou que isso não era possível, porque sua condenação já transcorrera há mais de cinco mil anos, exclamou: "Se soubésseis o que é a eternidade, compreenderíeis que, em comparação a ela, cinquenta séculos nem sequer chegam a ser um instante". 

Se um anjo fosse dizer a um réprobo: "Sairás do inferno quando se tiverem passado tantos séculos quantas gotas houver de água na terra, folhas nas árvores e areia do mar", o réprobo se regozijaria tanto como um mendigo que recebesse a nova de que ia ser rei. Com efeito, passarão todos esses milhões de séculos e outros inumeráveis a seguir, e contudo o tempo de duração do inferno estará sempre no seu começo...

Os réprobos desejariam propor a Deus que lhes aumentasse quanto quisesse a intensidade das penas e as prolongasse tanto quanto fosse. 

Esse fim e essa limitação, entretanto, não existe nem existirão. A voz da divina justiça só repete no inferno as palavras sempre, nunca! Os demônios, por escárnio, perguntarão aos réprobos: "Vai muito adiantada a noite?" (Is 21,11). Quando amanhecerá? Quando acabarão essas vozes, esses prantos, essa infecção, esses tormentos e essas chamas? E os infelizes responderão: Nunca! Nunca!... Mas quanto tempo hão de durar?... Sempre! Sempre!... Ah, Senhor! Iluminai a tantos cegos que, sendo advertidos para tratare de sua salvação, respondem: "Deixai-nos. Se formos para o inferno, que havemos de fazer?... Paciência?..." Meu Deus! não têm paciência para suportar, às vezes, os incômodos do calor e do frio, nem para sofrer uma leve ofensa, e hão de ter paciência, depois, para serem mergulhados num mar de fogo, suportar tormentos diabólicos o abandono absoluto de Deus e de todos, durante toda a eternidade?


AFETOS E SÚPLICAS

Pai das misericórdias! Nunca abandonais a quem vos procura. Se na vida tantas vezes me apartei de vós sem que me abandonasses, não me desprezeis agora que vos procuro. Pesa-me, Sumo Bem, de ter feito tão pouco caso de vossa graça, trocando-a por coisas de somenos valor. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz que clama perdão para mim. Perdoai-me, pois, Senhor... E vós, meu Redentor, recordai-me sempre os sofrimentos que por mim passastes, o amor que me tendes e a minha ingratidão, que tantas vezes me fez merecer a condenação eterna, a fim de que chore minhas culpas e viva ardendo em vosso amor... Ah, meu Jesus! Como não hei de abrasar-me em vosso amor ao pensar que há muitos anos já devia estar queimando nas chamas infernais durante toda a eternidade, e que vós morrestes para me livrar das mesmas e efetivamente me livrastes com tão grande misericórdia? Se estivesse no inferno vos aborreceria eternamente. Mas agora vos amo e desejo amar-vos sempre. Espero, pelos merecimentos do vosso precioso sangue, que assim me concedereis... Vós, Senhor, me amais e eu vos amo também: amar-me-eis sempre, se de vós não me apartar. Livrai-me, meu Salvador, da grande desdita de separar-me de vós e fazei o que vos aprouver... Mereço todos os castigos, e os aceito voluntariamente, contanto que não me priveis do vosso amor...

Ó Maria Santíssima, amparo e refúgio meu, quantas vezes me condenei por mim próprio ao inferno e dele me tendes livrado!... Livrai-me, no futuro, de todo pecado, causa única que me pode privar da graça de Deus e lançar-me ao inferno. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da malícia do pecado mortal

 



Filios enutri et exaltavi; ipsi autem spreverunt me.

Filhos criei e engrandeci-os; mas eles me desprezavam (Is 1,2).


PONTO I

Que faz aquele que comete pecado mortal?... Injuria a Deus, desonra-o e, no que depende dele, cobre-o de amargura. 

Primeiramente, o pecado mortal é uma ofensa grave que se faz a Deus. A malícia de um ofensa, diz São Tomás, se mede pela pessoa que a recebe e pela pessoa que a comete. A ofensa feita a um simples particular é sem dúvida um mal; mas constitui delito maior se é feita a uma pessoa de alta dignidade, e muito mais grave quando visa o rei... E Quem é, Deus? É o Rei dos reis (Ap 17,14). Deus é a Majestade infinita, perante quem todos os príncipes da terra e todos os santos e anjos do céu são menos que um grão de areia (Is 40,15). Diante da grandeza de Deus, todas as criaturas são como se não existissem (Is 40,17). Eis o que é Deus... E o homem, o que é? Responde São Bernardo: saco de vermes, pasto de vermes, que cedo o hão de devorar. O homem é um miserável que nada pode, um cego que nada vê; pobre e nu, que nada possui (Ap 3,17). E este verme miserável se atreve a injuriar a Deus? exclama o mesmo São Bernardo. Com razão, pois, afirma o Doutor Angélico, que o pecado do homem contém uma malícia quase infinita. 

Por isso, Santo Agostinho chama, absolutamente, o pecado mal infinito.

Daí se segue que todos os homens e todos os anjos não poderiam satisfazer por um só pecado, mesmo que se oferecessem à morte e ao aniquilamento. Deus castiga o pecado mortal com as penas terríveis do inferno; contudo, esse castigo é, segundo dizem todos os teólogos, citra condignum, isto é, menor que a pena com que tal pecado deveria ser castigado.

E, na verdade, que pena bastará para castigar como merece um verme que se rebela contra seu Senhor? Somente Deus é Senhor de tudo, porque é o Criador de todas as coisas (Et 13,9). Por isso, todas as criaturas lhe devem obediência. "Obedecem-lhe os ventos e os mares" (Mt 9,27). "O fogo, o granizo, a neve e o gelo"... executam suas ordens (Sl 148,8). Mas o homem, quando peca, que faz senão dizer a Deus: Senhor, não quero servir-te (Sm 2,20).

O Senhor lhe diz: "Não te vingues", e o homem responde: quero vingar-me. "Não te aposses dos bens alheios", e deseja apoderar-se deles. "Abstém-te do prazer impuro", e não se resolve a privar-se dele. 

O pecador fala a Deus do mesmo modo que o ímpio Faraó, quando Moisés lhe comunicou a ordem divina de que desse liberdade ao povo de Israel. Aquele temerário respondeu: "Quem é o Senhor, para que eu obedeça à sua voz?... Não conheço o Senhor" (Êx 5,2). O pecador diz a mesma coisa: Senhor, não te conheço; quero fazer o que me agrada. 

Em suma: na presença de Deus mesmo lhe falta o respeito e se afasta dele e nisto consiste propriamente o pecado mortal: o ato com que o homem se alheia de Deus. Disto se lamentava o Senhor, dizendo: Ingrato foste, "tu me abandonastes"; eu jamais quisera apartar-me de ti; "tu me voltastes as costas" (Sm 15,6). 

Deus declarou que aborrece o pecado, de modo que não pode deixar de aborrecer a quem o comete (Sb 14,9). Quando o homem peca, ousa declarar-se inimigo de Deus e combate frente a frente contra Ele (Jo 12,25). Que dirias se visses uma formiga a lutar como um soldado?...

Deus é esse onipotente Senhor, que, com um ato de sua vontade, arrancou do nada o céu e a terra (2Mc 7,28). E, se quisesse, por um sinal seu, poderia aniquilá-los (2Mc 8,18). O pecador, quando consente no pecado, levanta a mão contra Deus, e "com colo erguido", isto é, com orgulho, corre a insultar a Deus; arma-se de grossa cerviz (Jo 15,25) (símbolo de ignorância), e exclama: "Que grande mal é o pecado que fiz?... Deus é bom e perdoa aos pecadores..." Que injúria! que temeridade! que cegueira tão grande!


AFETOS E SÚPLICAS

Eis-me aqui, meu Deus! A vossos pés está o rebelde temerário, que tantas vezes em vossa presença se atreveu a vos injuriar e a vos voltar as costas, mas agora implora a vossa piedade. Vós, Senhor, dissestes: Clama a mim e te ouvirei (Jr 33,3). Reconheço que o inferno é pouco castigo para mim; mas sabeis que tenho maior dor de vos ter ofendido, ó Bondade infinita, que se tivesse perdido tudo o que me pertence, sem excetuar a vida. Perdoai-me, Senhor, e não permitais que vos torne a ofender. Haveis esperado por mim, a fim de que vos amasse e bendissesse para sempre vossa misericórdia. Oh!sim, eu vos amo e bendigo, e espero que, pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, nunca mais me separarei do vosso amor. Ele me livrará do pecado no futuro. Dou-vos mil graças pelas luzes e pelo desejo que me dais de amar-vos sempre. Tomai posse de todo o meu ser, alma, corpo, faculdades, sentidos, vontade e liberdade. Sou vosso, salvai-me (Sl 118,94).

Sois o único Bem, o único Amável, sede meu amor. Dai-me fervor vivíssimo no nosso amor, pois, já que tanto vos ofendi, não me pode bastar o amor simples, mas um desejo de amar-vos muito a fim de compensar as ofensas que vos fiz. De vós, que sois onipotente, espero alcançá-lo... Também, ó Maria, o espero das vossas orações, que são onipotentes junto de Deus. 


PONTO II

O pecador não só ofende a Deus, mas também o desonra (Rm 2,23). Com efeito, renunciando à graça divina por um miserável prazer, menospreza e rejeita a amizade de Deus. Se o homem perdesse esta soberana amizade para ganhar um reino ou ainda o mundo inteiro, não há dúvida que faria um mal imenso, pois a amizade de Deus vale mais que o mundo e que mil mundos. E por que será que se ofende a Deus? (Sl 10,13). Por um punhado de terra, por um ímpeto de ira, por um prazer brutal, por uma quimera, por um capricho (Ez 13,19). Quando o pecador começa a deliberar consigo mesmo se deve ou não dar consentimento ao pecado, toma, por assim dizer, em suas mãos, a balança e se põe a considerar o que pesa mais, se a graça de Deus ou a ira, a quimera, o prazer... E quando, por fim, dá o consentimento, declara que para ele vale mais aquela quimera ou aquele prazer que a amizade divina. Vede, pois, como Deus é menosprezado pelo pecador. Davi, ao considerar a grandeza e majestade de Deus, exclamava: "Senhor, quem há que vos seja semelhante? (Sl 34,10). Mas Deus, ao contrário, vendo-se comparado pelos pecadores a uma satisfação vilíssima e proposto a ela, lhes diz: "A quem me comparastes e igualastes"? (Is 40,25).

De modo que, exclama o Senhor: vale aquele prazer mais que minha graça? (Eclo 23,25). Não terias pecado, se soubesses que ao cometê-lo perderias uma das mãos, ou dez escudos, ou menos talvez. Assim, diz Salviano, só Deus parece tão vil a teus olhos que merece ser propsoto a um ímpeto de cólera, a um gozo indigno. 

Além disso, quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus converte em sua divindade essa paixão, porque nela põe o seu últio fim. Assim diz São Jerônimo: "Aquilo que alguém deseja, se o venera, é para ele um Deus. Vício no coração é ídolo no altar." Do mesmo modo diz São Tomás: "Se amas os prazeres, estes são teu Deus". E São Cipriano: "Tudo quanto o homem antepõe a Deus, converte-o em seu Deus". Quando Jeroboão se revoltou contra o Senhor, procurou levar consigo o povo à idolatria, e, apresentando os ídolos, disse-lhes: "Aqui estão, Israel, os teus deuses" (3Rs 12). De modo semelhante procede o demônio; apresenta ao pecador os prazeres e lhe diz: "Que tens que ver com Deus ... Eis aqui o teu deus: é esta paixão, este prazer. Toma-os e abandona a Deus" É isto o que faz o pecador, dando o seu consentimento: adora no seu coração o prazer em lugar de Deus.

"Vício no coração é ídolo no altar".

Se ao menos os pecadores não desonrassem a Deus em sua presença!...

Mas injuriam-no e o desonram face a face, porque Deus está presente em todos os lugares (Sm 23,24). O pecador o sabe. E, apesar de tudo, atreve-se a provocar o Senhor na mesma presença divina (Is 65,3).


AFETOS E SÚPLICAS

Vós, Senhor, sois o bem infinito, e muitas vezes vos hei preterido por vil prazer que, apenas gozado, logo desaparece. Mas vós, apesar de vos ter desprezado, ofereceis-me agora o perdão, se o quiser aceitar, e prometeis receber-me na vossa graça, se me arrepender de vos ter ofendido. Sim, meu Senhor, dói-me de todo o coração tanta ofensa e detesto meus pecados mais que todos os males. Retorno a vós e espero que me recebereis e me abraçareis como a um filho. Agradeço-vos, ó infinita Bondade! Ajudai-e, Senhor, e não permitais que novamente vos afaste de mim. Não deixará o inferno de tentar-me; mas vós sois mais poderoso que ele. Bem sei que não me apartarei jamais de vós se a vós sempre me recomendar. Esta é a graça que vos suplico: que sempre me recomende a vós e vos implore como o faço agora, dizendo: Senhor, ajudai-me; dai-me luz, força, perseverança... Dai-me o paraíso e, sobretudo, concedei-me vosso amor, que é a verdadeira glória da alma. Amo-vos, Bondade infinita, e quero sempre amar-vos. Ouvi-me, pelo amor de Cristo Jesus...

Ó Maria, refúgio dos pecadores, socorrei a um pecador que quer amar a Deus!

PONTO III

O pecador injuria, desonra a Deus, e, no que toca sua parte, o cobre de amargura, pois não há amargura mais sensível do que ver-se pago com ingratidão pela pessoa amada em extremo favorecida. E a que se atreve o pecador?... Ofende ao Deus que o criou e tanto o amou, que deu por seu amor o sangue e a vida. E o homem o expulsa de seu coração ao cometer um pecado mortal. Deus habita na alma que o ama. 

"Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo 14,23). Notai a expressão faremos morada; Deus vem a essa alma e nela fixa sua mansão; de sorte que não a deixa, a não ser que a alma o expulse. "Não abandona se não é abandonado", como diz o Concílio de Trento. E já que sabeis, Senhor, que aquele ingrato há de expulsar-vos, por que não o deixais desde já? Abandonai-o, parti antes que vos faça tão grande ofensa... Não, diz o Senhor; não quero deixá-lo, senão esperar que ele formalmente me despeça. 

Assim, quando a alma consente no pecado, diz a seu Deus: Senhor, apartai-vos de mim (Jo 31,14). Não o diz por palavras, mas de fato, como adverte São Gregório. Bem sabe o pecador que Deus não pode harmonizar com o pecado. Bem vê que, pecando, obriga Deus a afastar-se dele. Rigorosamente, é como se lhe dissesse: Já que não, podeis ficar com pecado e tendes de afastar-vos de mim, - ide quando vos aprouver. E expulsando a Deus da alma, deixa entrar o inimigo que dela toma posse. Pela mesma porta por onde sai Deus, entra o demônio. "Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e moram ali" (Mt 12,45). Ao batizar-se um menino, o sacerdote exorciza o inimigo, dizendo-lhe: "Sai daqui, espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo"; porque a alma do batizado, ao receber a graça, converte-se em templo de Deus (1Cor 3,16). Quando, porém, o homem consente no pecado, efetua precisamente o contrário, dizendo a Deus, que reside na sua alma: "Sai daqui, Senhor, e cede lugar ao demônio". É disto de que se queixa o Senhor a Santa Brigída quando lhe diz que, ao despedi-lo, o pecador procedia como aqueles que expulsassem o seu rei do próprio trono: "Sou como um rei bandido de seu próprio reino, elegendo-se em meu lugar um péssimo ladrão..." Que mágoa não sentiríeis se recebêsseis grande ofensa duma pessoa, a quem tivésseis feito grande benefício? Esta mesma mágoa causais a Deus, que chegou a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor à terra e ao céu para que se compadeçam dele à vista da ingratidão com que o tratam os pecadores: "Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta... Filhos criei e engrandeci... mas eles me desprezaram" (Is 1,2). Em suma, os pecadores afligem com seus pecados o coração do Senhor... (Is 63,10) Deus não está sujeito à dor, mas - como disse o Padre Medina - se fosse suscetível de sofrer, um só pecado mortal bastaria para o fazer morrer, pelo infinito pesar que lhe causaria. Assim, pois, afirma São Bernardo, "o pecado, quanto em si é, dá morte a Deus". De modo que o pecador, ao cometer um pecado mortal, fere, por assim dizer, a seu Senhor, e nada omite para tirar-lhe a vida, se pudesse (Sl 30,4). Segundo a expressão de São Paulo, calca aos pés o Filho de Deus (Hb 10,29), e despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo. 

  

AFETOS E SÚPLICAS

Assim, meu Redentor, todas as vezes em que pequei vos expulsei de minha alma, e fiz tudo para vos tirar a vida, se pudésseis morrer.

Ouço-vos dizer: "Que mal te fiz ou em que te contristei para me causares tanto desgostos... Perguntais-me, Senhor, que mal me fizestes?...

Destes-me o ser, morrestes por mim: é este o mal que me haveis feito!...

Que hei de responder?... Confesso, Senhor, que mereci mil vezes o inferno, e que mui justamente já me poderíeis ter condenado a ele.

Lembrai-vos, porém, do amor que vos fez morrer por mim na cruz; lembrai-vos do sangue que por meu amor derramastes, tende compaixão de mim... Mas já sei, Senhor: não quereis que desespere, e me dizeis que estais à porta de meu coração (deste coração que vos expulsou), e que bateis nele com vossas inspirações para entrar, pedindo-me que vos abra... (Ap 3,20; Ct 5,2). Sim, meu Jesus, estou resolvido a apartar-me do pecado; dói-me de todo o coração de vos ter ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Entrai, meu amor; a porta está aberta; entrai, e não vos afasteis mais de mim. Abrasai-me com vosso amor, e não permitais que torne a separar-me de vós... Não, meu Deus, não queremos mais separar-nos. Abraço-vos e aperto-vos a meu coração...

Dai-me a santa perseverança...

Maria, minha Mãe, socorrei-me sempre; rogai por mim a Jesus, e alcançai-me a dita de jamais perder a sua graça.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

A inveja - A ira - A preguiça


 


A inveja

1. A inveja é um sentimento que temos do bem do próximo, e uma alegria interna do mal que lhe acontece. 

2. Este vício dá-se a conhecer quando estamos desfazendo nos merecimentos e nos louvores alheios, ou falamos com gosto nos defeitos do próximo.

3. Os principais pecados do que a inveja é causa são o ódio do próximo, a alegria dos seus males, o desejo de os causar, as maledicências, as calúnias e toda a sorte de injustiças. 

4. A virtude oposta a inveja é o amor fraternal, virtude pela qual desejamos ao próximo aquele bem que quereríamos para nós mesmos, e nos entristecemos dos seus males como se fossem nossos próprios. 

5. Os remédios contra a inveja são: 1º lembrarmos que somos todos filhos do mesmo Deus e irmãos em Jesus Cristo; 2º rezar por aqueles a quem nós temos inveja e fazer-lhes bem; 3º aplicar-se na prática da humildade.


A ira 

6. A ira é uma alteração desordenada da alma que nos faz repelir com violência o que nos desagrada, a qual anda acompanhada do desejo de vingança. 

7. Os principais pecados do que a ira é causa são: as blasfêmias, as imprecações ou pragas, as injúrias, as rixas e os homicídios.  

8. As causas ordinárias da ira são a soberba e a teima na própria opinião. 

9. A ira não é pecado quando tem por fim opôr-se ao mal e o que está regulada pela moderação. 

10. Por falta de advertência e de consentimento o primeiro movimento da ira não é pecado; ms devemos reprimi-lo logo que demos por ele. 

11. A virtude oposta a ira é a paciência, pela qual sofremos em paz as injúrias e as tribulações por amor de Deus. 

12. Os remédios contra a ira são: 1º Lembrar-nos frequentemente da mansidão e paciência de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua vida, na sua paixão e na cruz. 2º Acostumar-se a calar e a reprimir-se. 


A preguiça

13. A preguiça é um gosto desordenado de descanso e uma frouxião e desprazer em cumprir o próprio dever. Há também a preguiça espiritual, chamada acídia, que é uma desordenada tristeza e fastio das coisas de Deus. 

14. Os principais pecados de que a preguiça é causa são a ociosidade, o desalento, a frouxidão, a negligência dos deveres de cristão, e a desesperação. 

15. A preguiça é mãe de todos os vícios; produz a inconstância e a inutilidade da vida. 

16. A virtude oposta a preguiça é a diligência e o zelo ao serviço de Deus. A diligência é uma virtude pela qual com facilidade e prontidão cumprimos os nossos deveres e exercitamos as obras de zelo.

17. Para vencer a preguiça é preciso: 1º lembra-se que o trabalho é uma lei imposta por Deus a todos os homens; 2º fazer um regulamento de vida e cumpri-lo; 3º não dormir muito; 4º não perder inutilmente o tempo. 


Explicação da gravura

18. São três gravuras. A primeira representa a José que, por inveja, foi pelos seus irmãos vendido a mercadores ismaelita que o levaram para o Egito. 

19. A segunda representa Esaú voltando da caça furioso ao saber que o irmão Jacó tinha recebido a bênção do pai. 

20. A terceira representa o preguiçoso deitado na sua fazenda inculta. 


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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Fuga do pecado mortal - Primeiro grau de piedade



133. O pecado. - O pecado mortal é o domínio da satisfação humana ao ponto de infrigir de modo grave e formal um preceito divino. É a completa e radical perturbação da ordem essencial da minha criação; é a destruição da vida de Deus em mim; é a desordem em toda a sua horrível perversidade. Coloco-me acima de Deus e calco aos pés a sua glória, imolando-a ao meu prazer. Todos aqueles que pecam estão privados da glória de Deus (Rm 3,23).
É preciso chorar esse mal com aquelas lágrimas que a Escritura chama tão apropriadamente "sem consolo" (Tob 10,4). Assim chorava Jeremias: "Considerai, pois, se jamais aconteceu coisa semelhante! Acaso um povo troca de deuses? - e esses nem são deuses! Mas meu povo trocou a mim, seu Deus e sua glória, por ídolos que nada valem! Espantai-vos disso, ó Céus, horrorizai-vos e abalai-vos profundamente - oráculo do Senhor" (Jr 2,10-12).

134. A recuperação. - Os primeiros esforços da piedade se dirigem contra essa abominação, e sua primeira honra será triunfar dela. Não importa o quanto custe, ela se empenhará em reduzir a satisfação à sua ordem de submissão e de serviço, sem permitir-lhe nenhuma usurpação de seu percurso estará concluída quando ela tiver elevado e fortificado suficientemente o espírito, o coração e os sentidos para que a glória divina seja considerada, amada e buscada preferenciamente a qualquer prazer desordenado capaz de ofender mortalmente a Deus. 
Se o prazer não é, em si mesmo ou em suas circunstâncias, proibido pela lei de Deus, e se ele pode conviver com a glória divina, eu me contentarei com situá-lo em seu lugar e restituir-lhe seu papel auxiliar. Mas, se um preceito exige o seu sacrifício, eu o sacrificarei sem nenhuma chance de conciliação, ainda que isso me custe a vida. Esse é o preço da primazia dos direitos de Deus sobre a existência: nenhuma satisfação, nem mesmo a da vida, pode prevalecer sobre eles. 

135. O hábito. - Quando me encontro na disposição de reorientar e de sacrificar, se necessário, qualquer satisfação, de preferência a cometer voluntariamente qualquer falta grave; quando, nessas circunstâncias, consigo agir com prontidão e facilidade; quando essa disposição torna-se solidamente estabelecida, então cheguei ao primeiro grau de piedade. 
Mas ao alcance dessa disposição só estará completo quando ela tiver conquistado todas as minhas potencialidades, sendo capaz de governá-las e defendê-las de forma suficientemente poderosa para que nenhuma criatura, nenhuma circunstância consiga fazer penetrar o inimigo, a menos que ocorra algum imprevisto. O pecado mortal já não pode ter lugar, nem no espírito, nem no corpo (Rm 6,12). "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu entendimento, com todo o teu coração, com toda a tua alma e todas as tuas forças".
Se eu disse: "a menos que ocorra algum imprevisto", é porque a pobre fraqueza humana faz com que essas misérias sejam sempre possíveis, mesmo com as melhores e mais fortes disposições. Mas esses acidentes passageiros não impedem que o hábito adquirido subsista, nem fazem a alma decair do estado a que chegou. Ao falar em estado de alma ou em grau de virtude, nunca devemos ter em conta os simples sobressaltos das faltas resultantes da pura fragilidade. 

136. Atos e hábito. - Esse grau, como os seguintes, não se caracteriza pelo maior ou menor número de atos praticados, mas pela unidade e perfeição atingidas pela disposição. Com efeito, a alma só pode atingir um estado definido na medida em que conquista a unidade de sua disposição característica. Bem sei que essa disposição se adquire pela repetição dos atos; mas a repetição dos atos, embora contribua poderosamente para formar o hábito, não é o hábito em si. Este tem sua raiz natural nas tendências da alma, e sua raiz sobrenatural nas graças infusas. E não se desenvolve apenas pelo meu trabalho humano, mas sobretudo pelo trabalho de Deus em mim, como veremos na segunda Parte. Portanto, na elaboração da minha vida concorrem, em primeiro lugar, as tendências naturais; depois, as graças sobrenaturais; em seguida, a ação providencial, e por fim a minha ação pessoal. A piedade é o resultado final desses quatro fatores. (...)

138. Altura desse primeiro grau. - Trata-se já de um grau de piedade, uma vez que é pelo conhecimento, amor e busca de Deus que se evita o pecado. Onde essas três coisas estão unidas: conhecimento, amor e busca de Deus, a piedade sempre está presente. Por mais débeis que sejam os inícios, não deixam de fazer parte da grande disposição que é o resumo e a unidade dinâmica da vida cristã. 
Além disso, não é tarefa de um dia chegar, não simplesmente a evitar de fato o pecado mortal e sentir-me disposto a evitá-lo a todo custo, mas a cultivar, fundamentar e forticar essa disposição, de forma a ter facilidade e prontidão para os sacrifícios realmente necessários, mesmo o da própria vida, para evitar o pecado mortal, e de forma que essa facilidade e prontidão se estabeleçam nos sentidos, no coração, no espírito, em todo o meu ser. 
Terei chegado a esse ponto? Não me vejo, às vezes, claudicando entre dois partidos? Terei compreendido até que ponto o Senhor é meu Deus e de que forma devo segui-lo? (1Rs, 18,21). Em minha luta contra o pecado, já resisti até o sangue? (Hb 12,4). Poderei dizer, ó meu Deus, que já galguei ao menos o primeiro degrau? Estou seguro disso? Meu espírito, meu coração, meus sentidos... terão eles facilidade e prontidão para rejeitar o pecado, a simples ideia do pecado? Já vivi no pecado... tê-lo-ei eliminado por completo? Já estive mergulhado no atoleiro... estarei realmente liberto e completamente limpo? Que sou eu, meu Deus? De que me glorifico, eu que não passo de um amontoado de terra e cinza? (Eclo 10,9). Que piedade é a minha, se ainda não cheguei ao primeiro degrau?!...


Fonte: Livro A vida interior- de François de Sales Pollien, Joseph Tissot