São Bernardo de Claraval
Acabamos de ver que a verdadeira sabedoria deve por si mesma edificar sua própria casa; acrescentamos agora que esta casa deve assentar-se sobre sete colunas, nas quais haverá de apoiar-se e sustentar-se todo o edifício espiritual.
O edifício ou casa é a consciência; as sete colunas são: a boa vontade, a lembrança constante dos benefícios de Deus: o coração puro; o entendimento livre (livre de todo preconceito); espírito reto; a alma devota; a razão iluminada (iluminada do alto).
A boa vontade é a primeira coluna que haveremos de levantar; porque de todos os dons de Deus que concorrem para a santificação do homem, o primeiro e principal bem é a boa vontade, em virtude da qual a imagem ou semelhança com Deus é restaurada. É o primeiro bem, porque pela bondade da vontade começa todo bem, é o principal bem, porque nada melhor nem mais útil foi dado ao homem que a boa vontade; faça o homem o que fizer, nenhuma ação humana será boa se não procede da boa vontade. Sem esta, ninguém pode salvar-se; com a boa vontade ninguém pode perecer. A boa vontade não pode ser dada a quem não a queira, nem recusada, tirada de quem a deseje. A boa vontade pertence ao homem; o poder, a Deus.
A vontade é do homem porque o querer é inerente à sua natureza e seu mérito todo está em sua vontade. Quanto mais queirais, tanto mais merecereis, isto é, quando maior seja vossa boa vontade, tanto maior será vosso mérito. Admiremos a misericórdia de Deus que colocou nossa redenção em coisa da qual ninguém pode carecer, nem dela ser pobre, a menos que queira sê-lo; antes, todos podem na mesma medida dispor de riqueza, todos, ricos e pobres, podem com idêntica intensidade, querer, da mesma maneira amar. Mas não esqueçamos que a vontade é boa, enquanto opera o que pode operar.
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São Bernardo de Claraval - Tratado da Consciência ou do Conhecimento de si mesmo.
Editora Nebil, 2015. pág. 26-8.
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