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quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria

 A gloriosa Virgem Maria nasceu da estirpe régia de Davi na tribo de Judá. Mateus e Lucas não descrevem a genealogia de Maria, e sim de José, que nada teve com a concepção de Cristo, devido ao costume da Escritura de mostrar o encadeamento das gerações não a partir de mulheres, mas de homens. É verdade, contudo, que a beata Virgem descende de Davi, o que fica patente na Escritura quando atesta muitas vezes que Cristo originou-se da semente de Davi. Logo, como Cristo nasceu apenas da Virgem, é claro que a própria Virgem nasceu de Davi, do ramo de Natã. 

Davi teve, entre outros, dois filhos, Natã e Salomão. Como certifica João Damasceno, Levi - do ramo de Natã, filho de Davi - gerou Melque e Pantar, Pantar gerou Barpantar e Barpantar gerou Joaquim e Joaquim a Virgem Maria. Do ramo de Salomão, uma filha foi esposa de Natã com o qual gerou Jacó. Falecido Natã, um membro da sua tribo, Melque, filho de Levi, irmão de Pantar, casou com a viúva de Natã, mãe de Jacó, e dela gerou Eli. Assim, Jacó e Eli são irmãos uterinos, mas Jacó sendo da tribo de Salomão e Eli da de Natã. Falecido Eli, da tribo de Natã, sem filhos e filhas, Jacó seu irmão, que era da tribo de Salomão, tomou sua mulher e ressuscitou a semente de seu irmão, gerando José. Portanto, José é segundo a natureza filho de Jacó, descendente de Salomão, e segundo a lei filho de Eli, descendente de Natã. De fato, o filho nascido dessa forma era daquele que o gerava segundo a natureza e do defunto segundo a lei. Até aqui, falou Damasceno.

Diz a HISTÓRIA ECLESIÁSTICA e atesta BEDA em sua Crônica que, como todas as genealogias dos hebreus e dos estrangeiros estavam secretamente guardadas nos arquivos do templo, Herodes mandou queimá-las pensando que com falta de provas poderia fazer acreditar que sua ascendência era de Israel e que ele era nobre. Contudo aqueles nazarenos, chamados "senhoriais" por seu parentesco com Cristo, restabeleceram a genealogia de Cristo, em parte seguindo o que diziam os antepassados e em parte seguindo os livros que tinham em casa.

Joaquim tomou uma mulher de nome Ana, que tinha uma irmã chamada Isméria. Esta Isméria gerou Isabel e Eliúde, e Isabel gerou João Batista. De Eliúde nasceu Eminem, de Eminem nasceu São Servácio, cujo corpo está em Maastricht, fortaleza à margem do Mosa, no episcopado de Liège. Conta-se que Ana teve três maridos, a saber, Joaquim, Cleofas e Salomé. Do primeiro destes maridos, quer dizer, Joaquim, teve uma filha, Maria, mãe e progenitora do Senhor, que deu em casamento a José e que gerou e pariu o Senhor Cristo. Falecido Joaquim, Ana aceitou Cleofas, irmão de José, e dele gerou outra filha, chamada pelo mesmo nome de Maria e que uniu em casamento a Alfeu. Esta Maria gerou de seu marido Alfeu quatro filhos, a saber, Tiago, o Menor, José, o Justo, conhecido como Barsabás, Simão e Judas. Falecido seu segundo marido, Ana aceitou um terceiro, Salomé, do qual gerou outra filha, chamada mais uma vez Maria e deu-a em casamento a Zebedeu. Esta Maria gerou dois filhos de seu marido Zebedeu, a saber, Tiago, o Maior, e João Evangelista. Daí os versos a este respeito:

Tem-se o costume de dizer que Ana concebeu três Marias,

Geradas de seus maridos Joaquim, Cleofas e Salomé.

Elas foram entregues a José, Alfeu e Zebedeu, seus maridos.

A primeira pariu Cristo, a segunda Tiago, o Menor,

José, o Justo, Simão e Judas.

A terceira Tiago, o Maior, e o alado João.


Mas o admirável, como dito acima, é como a bem-aventurada Maria pôde ser prima de Isabel. Sabe-se que Isabel foi mulher de Zacarias, da tribo de Levi, pois segundo a lei todos deveriam ter esposa de sua tribo e família, e foi atestado por Lucas que Isabel estava entre as filhas de Aarão. Ana, segundo Jerônimo, era de Belém e da tribo de Judá. Mas sabe-se que Aarão e seu irmão, o sumo sacerdote Joiada, tomaram ambos esposas da tribo de Judá, de forma que a tribo sacerdotal passaram a estar ligadas pelo sangue. Pode ser, como afirma Beda, que este tipo de relação com a troca de mulheres entre as tribos fosse recente. De toda forma, a beata Maria, descendente da tribo régia, tinha relações consanguíneas com a tribo sacerdotal, e deste modo pertencia a ambas as tribos. 

Quis o Senhor que estas tribos privilegiadas se miscigenassem, porque no seu mistério estava para nascer delas aquele que verdadeiramente foi rei e sacerdote, que se sacrificou por nós e que dirige seus fiéis em meio à malícia das lutas desta vida, para coroá-los após a vitória. Daí o nome de Cristo, isto é, "ungido", "escolhido", pois na antiga lei apenas os sacerdotes, reis e profetas eram ungidos, e por isso nós somos chamados "cristãos", "povo eleito", e "povo do sacerdócio real". Quando se diz que as mulheres uniam-se com os homens de sua tribo, era para que a distribuição as terras não fossem alteradas, mas como a tribo dos levitas, ao contrário das outras, não tinha terra, as mulheres desta tribo podiam casar com quem quisessem.

No prólogo da História da Natividade da Virgem, o bem-aventurado Jerônimo conta o que ainda adolescente leu em um opúsculo, mas que só muito tempo depois releu e a pedido transcreveu. Joaquim era da Galiléia, da cidade de Nazaré, e tomou como esposa Santa Ana, de Belém. Ambos eram justos e seguiam irreprensivelmente todos os mandamentos do Senhor, dividindo em três partes todos os seus bens, uma destinada ao templo e seus servidores, outras aos peregrinos e pobres, e a terceira reservada para eles e sua família. Como por vinte anos não tiveram filhos fizeram uma promessa ao Senhor, que se este lhes concedesse descendência eles a entregariam a Seu serviço. A fim de obterem a graça do Rei, iam todos os anos às três principais festas em Jerusalém.

Na festa da Dedicação, Joaquim foi com os outros de sua tribo até Jerusalém e ao chegar ao altar quis oferecer sua oblação junto com os demias. Vendo isso cheio de indignação, o sacerdote agarrou-o, afastou-o e repreendeu sua presunção de se aproximar do altar, porque não era conveniente, sob pena de maldição da lei, que oferecesse oblações ao Senhor quem não tivesse feito crescer o povo de Deus, quem era infecundo entre os fecundos. Confuso e envergonhado, Joaquim não quis voltar para casa a fim de não ouvir ofensas. Ele afastou-se, foi para junto de seus pastores e ficou com eles por algum tempo, até que um dia, estando sozinho, um anjo apareceu com tão forte luminosidade que deixou sua visão turva. 

O anjo avisou para não ter medo, dizendo:

Eu sou o anjo do Senhor enviado para anunciar que suas preces foram ouvidas e que suas esmolas subiram até o Senhor. Vi a sua vergonha ouvi o opróbio de esterilidade que foi injustamente imputado a você. Deus vinga o pecado mas não a natureza, por isso se Ele fecha um útero o faz para abri-lo novamente de maneira maravilhosa, para que saiba que o nascido não é produto libidinoso, mas presente divino. Não é verdade que Sara, a primeira mãe de seu povo, suportou a injúrias da esterilidade até os noventa anos de idade e ainda assim gerou Isaac, ao qual foi prometida a bênção de todas as nações? Não é verdade que Raquel foi estéril por muito tempo, e contudo gerou José, que teve domínio sobre todo o Egito? Há alguém mais forte do que Sansão ou mais santo do que Samuel? Todavia ambos nasceram de mães estéreis. Creia em minhas considerações e exemplos. As concepções adiadas por muito tempo e os partos de quem parecia estéril são os mais admiráveis. Também sua esposa Ana parirá uma filha e você lhe dará o nome de Maria. De acordo com a promessa que fizeram, ela será consagrada ao Senhor desde a infância. Desde o útero de sua mãe será cheia do Espírito Santo. A fim de que não haja qualquer suspeita que lhe seja desfavorável, não terá contado com o mundo, ficará sempre morando no templo do Senhor. Ela própria, nascida de mãe estéril, gerará maravilhosamente seu filho altíssimo, cujo nome será Jesus e por meio do qual todos os povos serão salvos. Dou a você uma prova: quando chegar à porta dourada de Jerusalém, sua esposa Ana virá ao seu encontro, e de inquieta com sua demora ela passará a demonstrar alegria!


Dito isso, o anjo retirou-se. 

Ana chorava amargamente por ignorar aonde seu marido tinha ido, quando o mesmo anjo lhe apareceu e anunciou a mesma coisa, acrescentando como prova que fosse à porta dourada de Jerusalém onde encontraria o marido indo em sua direção. Logo, seguindo o preceito do anjo, um foi ao encontro do outro, felizes com a visão mútua e certos da prole prometida. Voltaram para casa, depois de adorar o Senhor, esperando alegremente a promessa divina.




Então Ana concebeu e deu à luz uma filha, à qual chamou Maria. Completados os três anos de amamentação, levaram a Virgem com oferendas ao templo do Senhor. O templo fora construído em um monte, com o altar do holocausto sendo externo e só podendo ser atingido depois de se subir quinze degraus, correspondentes aos quinze salmos graduais¹. Quando a jovenzíssima Virgem foi colocada junto com os outros, subiu sem a ajuda de ninguém, como se já fosse adulta. Concluído o ofertório, Joaquim e Ana voltaram para casa deixando sua filha com outras virgens no templo.

A Virgem, por seu lado, progredia cotidianamente em todo tipo de santidade. Cotidianamente era visitada por anjos e desfrutava de visões divinas. Jerônimo diz em uma carta a Cromácio e Heliodoro que a beata Virgem estabelecera para si esta regra: de matinas até à terça, oração; da terça até a nona, trabalho manual de tecelã; da nona até aparecer o anjo que lhe dava alimento, novamente orações.²

Quando ela fez catorze anos, o pontífice proclamou publicamente que as virgens que era instruídas no templo e haviam atingido aquela idade deveriam voltar para suas casas a fim de serem legitimamente casadas. Diante desta ordem todas partiram, apenas a bem-aventurada Virgem Maria respondeu que não podia fazê-lo, pois seus pais haviam-na entregue ao serviço do Senhor e prometido a Ele a virgindade dela. O pontífice ficou angustiado, porque não queria ir contra a Escritura que diz: "Prometa e cumpra o prometido"³, nem ousava introduzir novidade nos costumes do povo. Ao aproximar-se uma festividade dos judeus, convocou todos os anciãos e a sentença unânime foi que em assuntos tão duvidoso deveria ser buscado o conselho do Senhor. Eles permaneceram em oração, e quando o pontífice dirigiu-se ao oratório para consultar o Senhor, todos ouviram vindo dali uma voz dizer: "Todos os homens da casa de Davi que não estão convenientemente unidos em casamento devem levar um ramo ao altar, e aquele cujo ramo germinar e em cuja ponta o Espírito Santo pousar em forma de pomba, conforme profetizou Isaías, deve sem qualquer dúvida desposar a Virgem".

Entre os membros da casa de Davi estava José, ao qual pareceu inconveniente que um homem de idade tão avançada** tomasse como esposa uma virgem tão jovem. Assim, enquanto os demais levavam seus ramos, ele escondeu o seu. Como não aconteceu nada de acordo com o que a voz divina anunciara, o pontífice mais uma vez decidiu consultar o Senhor, que respondeu que somente aquele que não levara sua vara deveria desposar a Virgem. Diante disso José levou sua vara, que floresceu e em cujo topo pousou uma pomba vinda do Céu. Ficou evidente para todos que ele deveria desposar a Virgem. Combinado portanto o casamento com a Virgem, José voltou para sua casa na cidade de Belém para tomar as providências necessárias para as núpcias. Quanto à Virgem Maria, voltou para a casa de seus pais em Nazaré acompanhada, por determinação do sacerdote, como testemunha do milagre, por sete colegas, virgens da mesma idade que ela. Por aqueles dias o anjo Gabriel apareceu a ela enquanto orava e anunciou que dela nasceria o filho de Deus. 

Durante muito tempo, a data do nascimento da Virgem escondida dos fiéis. JOÃO BELETH conta da seguinte maneira como ela foi descoberta: certo homem santo, constante na contemplação, ouvia todos os anos, no dia 8 de setembro, uma alegríssima celebração por parte da comunidade dos anjos. Com muita devoção, ele pedia que lhe fosse revelado por que ouvia aquilo naquele dia do ano e não em outro, e recebeu a resposta divina: aquele era o dia em que a gloriosa Virgem Maria havia nascido no mundo, e ele deveria divulgar o fato aos filhos da Santa Igreja a fim de que se reunisse à corte celeste nesta celebração. Ele comunicou isso ao sumo pontífice e outros prelados, que por meio de orações e jejuns descobriram a verdade das Escrituras e em antigas tradições, dedicando em todo mundo este dia para a celebração da natividade da Virgem. 

Antigamente, a oitava4 da natividade da beata Maria não era celebrada, mas o senhor Inocêncio IV, de origem genovesa, instituiu tal celebração. A causa disto foi que com a morte de Gregório IX todos os cardeais fecharam-se em conclave para rapidamente escolherem um novo chefe da Igreja5. Mas como por vários dias não puderam chegar a um acordo e eram muitos pressionados pelos romanos, prometeram à Rainha do Céu que se pelos méritos dela eles viessem a concordar e pudessem sair dali livremente, estabeleceriam a celebração da oitava de sua natividade negligenciada por tanto tempo. Eles concordaram em escolher o senhor Celestino e foram libertados. No entanto Celestino viveu pouco tempo e por isso não pôde cumprir a promessa, o que foi feito por Inocêncio IV. Note-se que a Igreja celebra três natividades, a saber, a de Cristo, a de Santa Maria e a de João Batista, que designam três natividades espirituais: renascemos com João pela água, com Maria pela penitência e com Cristo na glória. Em relação aos adultos, convém que a natividade da contrição preceda a natividade do batismo e da glória. Por isso estas duas festas merecem ter vigílias, mas como a natividade da Virgem é penitência, e portanto toda orientada para a vigília, não precisa ter vigília. Todas têm oitavas porque na verdade todas anseiam pela oitava da Ressureição. 

2. Um cavaleiro muito valente e muito devoto da beata Maria ia a um torneio, e ao encontrar no caminho o primeiro mosteiro construído em honra da bem-aventurada Virgem, entrou para ouvir missa. Como a uma missa seguia-se outra, ele não quis deixar de honrar a Virgem, e quando enfim saiu do mosteiro dirigiu-se rapidamente para o local do torneio. No caminho encontrou alguns que voltavam do torneio e comentavam como ele havia lutado valentemente. Mais adiante outros aclamavam sua valentia militar e aqueles que tinham sido capturados por ele rendiam-se inteiramente. Ele entendeu então que a gentil rainha o honrara, contou o que acontecera e voltando ao mosteiro entrou ao serviço do filho da Virgem. 

3. Um bispo que tinha extrema reverência e devoção pela beata Virgem dirigia-se no meio da noite, por devoção, a um igreja da bem-aventurada Maria. Então a Virgem das virgens, acompanhada de todo o coro das virgens, foi até ele e com extrema honra conduziu-o à igreja para a qual se encaminhava. Quando começou a conduzi-lo, duas jovens do coro entoaram um prelúdio: "Cantemos ao Senhor, companheiras, cantemos em sua honra,/ Que nossas bocas ressoem piamente o doce amor de Cristo!".

Este versos foram repetidos pelo coro de virgens, e a seguir as duas primeiras cantavam os seguintes versos: "Por sua grande luz, o primeiro soberbo foi precipitado no abismo,/ E arrastou consigo o primeiro homem".

Assim, a procissão conduziu o homem de Deus até a igreja, com as duas jovens sempre reiniciando o canto e as demais respondendo.

4. Uma mulher sozinha, abandonada por seu marido, tinha um único filho, ao qual amava ternamente. Este filho foi capturado pelos inimigos, que o prenderam e acorrentaram. Ao saber da notícia, ela chorou inconsolavelmente e orou pela libertação de seu filho à beata Virgem, da qual era muito devota. Enfim, vendo que não conseguia nada, entrou sozinha na igreja em que estava esculpida a imagem da beata Maria e em pé diante dela disse: "Bem-aventurada Virgem, pedi muitas vezes a você pela libertação de meu filho, sem nenhum resultado. Então, assim como meu filho me foi tirado, eu também tomo o seu e o manterei preso como penhor pelo meu filho". Dizendo isso, chegou mais perto e retirou a imagem do menino que a Virgem segurava no colo e foi para casa. Ali envolveu a imagem do menino em linho branquíssimo, escondeu-a em uma arca que fechou cuidadosamente à chave e guardou-a diligentemente, feliz por ter um bom refém por seu filho. Então na noite seguinte a bem-aventurada Virgem apareceu ao jovem e abrindo a porta do cárcere disse que saísse dali e recomendou: "Filho, diga a sua mãe e contou como a beata Virgem o libertara. Ela, por sua vez, exultante, pegou a imagem do menino e, indo à igreja da beata Maria, devolveu o filho desta dizendo: "Agradeço, Senhora, por ter devolvido meu único filho, e então devolvo o seu". 

5. Havia um ladrão que realizava frequentes roubos mas tinha muita devoção pela beata Maria, a quem sempre saudava. Quando ele foi enforcado, a bem-aventurada Virgem com suas mãos manteve-o suspenso por três dias e ele não sofreu ferimento algum. Passando pelo local acaso, e encontrando-o vivo e com rosto alegre, os que o haviam enforcado julgaram que não haviam apertado bem o laço e quiseram degolá-lo com a espada, mas a beata Maria impediu segurando a espada e eles não puderam lhe fazer mal. Quando souberam que a beata Virgem que o socorria, ficaram admirados e por amor à Virgem soltaram-no e deixaram-no partir livre. O ladrão entrou em um mosteiro e enquanto viveu permaneceu ao serviço da mãe de Deus.

6. Havia um clérigo que, muito atencioso com a beata Maria, jamais deixava de cantar as horas dedicadas a ela. Falecidos seus pais sem terem outro herdeiro, deixaram-lhe suas terras. Os amigos incentivaram-no a arrumar uma esposa e a administrar sua herança. No dia em que devia celebrar suas núpcias, encontrou no caminho uma igreja e recordando seus serviços à bem-aventurada Virgem entrou nela e começou a dizer suas horas. Nesse momento apareceu-lhe a beata Maria e repreendeu-o severamente: "Ó insensato e infiel, por que você me abandona, sua amiga e esposa, e prefere outra mulher a mim?". Ele encontrou seus companheiros, compungido, mas dissimulou o ocorrido, celebrou as núpcias e, no meio da noite, abandonou todos e fugiu de casa para entrar em um mosteiro e servir devotamente a beata Maria. 

7. O sacerdote de uma paróquia, pessoa de vida honesta, não sabia outra missa a não ser a da beata Maria, que ele repetia diligentemente em sua honra. Foi denunciado por causa disso ao bispo, que mandou chamá-lo imediatamente. Como disse que realmente desconhecia outra missa, o bispo qualificou-o duramente como enganador, suspendeu-o de suas obrigações e proibiu-o de rezar aquela missa dali em diante. Na noite seguinte a bem-aventurada Maria apareceu ao bispo, repreendeu-o severamente e perguntou por que tratara mal seu devoto, acrescentando que morreria em trinta dias se não readmitisse o sacerdote em seu ofício. Apavorado, o bispo mandou chamar o presbítero, pediu perdão e ordenou que não celebrasse nenhuma outra missa a não ser a que sabia, a da bem-aventurada Maria. 

8. Um clérigo fútil e lúbrico, mas que amava muito a mãe de Deus e cantava suas horas santas devota e vivamente, certa noite viu-se em visão diante do tribunal de Deus. O Senhor disse aos que o rodeavam: "Quanto a este que os observa, decidam de que sentença ele é digno. Há muito tempo o tolero e não encontrei nele nenhum sinal de arrependimento". Então, com a aprovação de todos, o Senhor proclamou contra ele a sentença da danação. A bem-aventurada Virgem levantou-se e disse a seu filho: "Rogo sua clemência por ele, piedoso filho, a fim de que mitigue a sentença de danação. Se bem que tenha sido conduzido à morte por seus próprios méritos, que viva pelos serviços prestados a mim". O Senhor: "Aceito sua petição, desde que a partir de agora eu veja que ele se corrigiu". A Virgem voltou-se para o homem e disse: "Vá e não peque mais, para que não aconteça o pior com você". Ao acordar ele mudou de vida, tornou-se monge e acabou sua vida em boas obras.

9. Como conta o bispo FULBERTO DE CHARTRES, no ano do Senhor de 537 havia na Sicília um homem de nome Teófilo que administrava os bens eclesiásticos de forma tão prudente, que falecido o bispo todo o povo o aclamou como digno para o episcopado. Mas ele estava contente com sua função e preferiu que ordenassem outro como bispo, mas este o destituiu de seu ofício. Impaciente por recuperar seu cargo, ele procurou o conselho de um judeu especialista em magia. Este invocou o diabo, que logo apareceu. Por ordem do demônio, Teófilo renegou Cristo e sua mãe, renunciou à condição de cristão, escreveu com seu próprio sangue a renúncia e a abjuração, selou-o com seu anel, entregou o escrito selado ao demônio e entrou a seu serviço. Na manhã seguinte, por obra do demônio, Teófilo recuperou a graça do bispo e a dignidade de suas funções.Quando finalmente caiu em si, lamentou muito o que fizera. Recorreu a toda devoção de seu espírito a fim de que a gloriosa Virgem viesse em seu socorro. A beata Maria apareceu a ele e visão, criticou sua impiedade e mandou que renunciasse ao diabo. Fez com que reconhecesse que Cristo era o filho de Deus e aceitasse todas as proposições do cristianismo. Dessa forma Teófilo recuperou a graça dela e de seu Filho. Como indício de que ele recebera perdão, ela apareceu de novo, agora com o manuscrito que entregara ao diabo, devolveu-o e colocou-o sobre o peito dele a fim de que não temesse mais ser escravo do diabo e sim que se alegrasse por ter sido libertado pela Virgem. Depois de receber o papel, exultante, Teófilo contou ao bispo e a todo o povo o que acontecera. Admirados, todos louvaram a gloriosa Virgem. Três dias mais tarde Teófilo descansou em paz. 

10. Um homem e sua esposa tinham uma única filha, que deram em casamento a um jovem, e por amor a ela mantinham o genro em sua casa. Por amor à filha, a mãe cuidava tão carinhosamente do jovem, que o amor da moça por ele não era maior que o amor da sogra pelo genro. Enquanto isso, começaram a falar maliciosamente que a sogra levara o genro para sua casa não pela filha, mas por si mesma. Com a alma agitada com tanta mentira, temendo tornar-se assunto do povo, a mulher ofereceu a dois camponeses vinte moedas a cada um para que estrangulassem o genro secretamente. Assim, certo dia ela escondeu os camponeses no celeiro, mandou o marido fazer algo em outro lugar e enviou a filha para outro lado. O jovem ao entrar no celeiro onde sua senhora o mandara pegar vinho, foi imediatamente estrangulado pelos camponeses. Logo depois, a sogra o colocou no leito da filha, vestido como se estivesse dormindo.

Assim que o marido e a filha voltaram e sentaram à mesa, a mãe mandou-a acordar o marido e chamá-lo para comer. Quando o encontrou morto e anunciou o fato a todos, a família prorrompeu em lamentos, e a homicida, fingindo estar aflita, lamentava-se com os demais. Mas enfim a mulher realmente deplorou o crime perpetrado e confessou tudo a um sacerdote. Algum tempo depois surgiu uma desavença entre a mulher e o sacerdote, e este a acusou pelo homicídio do genro.6

Quando a notícia chegou aos parentes do jovem, a mulher foi levada a julgamento e condenada a ser queimada. Diante de seu fim iminente, decidiu voltar-se para a beata Virgem e, entrando em uma de suas igrejas, prostou-se em oração, com lágrimas. Um pouco depois, obrigada a sair, foi jogada em uma grande fogueira onde todos a viram permanecer ilesa e incólume. 

Os parentes do jovem acharam que o fogo estava fraco, aproximaram-se e jogaram sarmento na fogueira, mas vendo que nem assim ela era atingida, começaram a atacá-la com lanças e dardos. Fortemente impressionado, o juiz que estava ali impediu tais ataques, examinou a mulher com atenção e não encontrou nela sinal do fogo, apenas feridas de lanças. Seus parentes levaram-na para casa e reanimaram-na com remédios e banhos. Deus não querendo que ela fosse desonrada pelas suspeitas humanas por mais tempo, depois de três dias - durante os quais louvou a Virgem com perseverança - afastou-a desta vida.






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1. A palavra "gradual" deriva de gradus, "degrau", indicando a subida que os judeus faziam até o templo cantando determinados salmos (os de número 119 a 133). Na liturgia romana, os salmos graduais (que podem ser aqueles, ou outros) eram cantados na missa entre a leitura da Epístola e do Evangelho, e assim se organizou o Gradual, livro de canto gregoriano utilizado na missa.

2. Sobre as horas canônicas, ver nota 5 do capítulo 2.

3. Números 30,2. 

4. Conforme nota 2 do Prólogo.

5. Conforme nota 1  do capítulo 22. 

6. Estranho esse relato de Jacopo, pois o segredo da confissão sempre foi extremamente preservado. Conhece-se, por exemplo, a história de um cavaleiro que matou um homem, revelou o crime ao padre e este o denunciou ao príncipe esperando ser recompensado. Diante da ruptura da norma, o príncipe perdoou o assassino e mandou cegar e cortar a língua do sacerdote que não mantivera a confidência do confessionário: F.C. Tubach, Index exemplorum: a handbook of medieval religious tales. Helsinki, 1969, n. 1203.

** A tradição conta a história de duas formas, S. José como um velho de idade avançada e S. José como um rapaz novo. O mais provável mesmo é que S. José fosse um rapaz novo, preparado por Deus para proteger a Virgem Santíssima e o Menino Jesus dos perigos que os rondariam por anos a fio. 


Fonte: Legenda Áurea - Jacopo de Varazze


sábado, 7 de dezembro de 2013

Nossa Senhora da Glória

(Ou Nossa Senhora da Assunção)

Festa - 15 de agosto


Maria, a criatura privilegiada com a isenção do pecado original e com a prerrogativa de ter sido escolhida para ser Mãe-virgem do Filho do Altíssimo, Maria subiu ao céu em corpo e alma.
Aquele corpo imaculado não podia ser desfeito na sepultura, como um corpo qualquer.
Com grande veneração amor foi o Santo Corpo depositado no sepulcro pelos Apóstolos, que, conforme reza a tradição, estavam presentes na ocasião de sua bendita morte e de seu sepultamento, menos o Apóstolo São Tomé, que, chegaram ao terceiro dia, quis ver mais uma vez o sagrado Corpo; abriram, pois, o sepulcro, e eis que o encontraram vazio, porém alcatifado de frescas e lindas flores, que exalavam um agradabilíssimo perfume!
Estava confirmado o que os Apóstolos e os outros fiéis suspeitavam; tendo eles passado três dias e três noites junto do sepulcro, revezando-se em grupos, ouviam de contínuo coros angélicos que louvavam a Mãe de Deus, aos quais juntavam os seus fracos louvores.
E os coros haviam cessado; é que Maria subira ao céu! Maria ressuscitara!
Convencidos de que o Senhor, antecipando-se à ressurreição geral, tinha-a feito entrar triunfalmente na glória, os Apóstolos e seus sucessores sempre o creram e ensinaram, e tal é o sentir da Igreja no decorrer dos séculos.
E quem poderia supor que assim não fosse?
Ah! não, não pode haver cristão-católico que não creia e professe que Maria Santíssima subiu rediviva para a Glória, para continuar a sua missão de Corredentora, mormente agora depois que o Santo Padre Pio XII, anuindo ao desejo dos católicos do mundo inteiro, proclamou o Dogma da Assunção.

Assunta est Maria in coelum!...

A festa da Assunção de Nossa Senhora enche-nos de alegria, por ser mais uma prerrogativa, a engrandecê-la, a sua triunfante entrada na Glória, "em corpo e alma"; é por este motivo que o dia da Assunção, 15 de agosto, é celebrado como dia de Nossa Senhora da Glória, isto é, Maria grandeou, com sua gloriosa subida ao Céu, mais um título. Há quem diga também, pelo mesmo motivo, Nossa Senhora da Assunção.

fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nossa Senhora da Conceição

Festa dia 8 de dezembro



É este um dos títulos que mais dignificam e engrandecem Nossa Senhora, o título predileto de quem escreve estas linhas, o título mais conhecido e mais querido do povo brasileiro. 
Não há quem não tenha, neste imenso Brasil, pedido a Nossa Senhora da Conceição alguma graça; não há cidade ou povoado que não possua uma igreja ou capela, ou pelo menos um altar ou um quadro dedicado à Imaculada Conceição; e não é para menos, pois desde a época do seu descobrimento foi a Imaculada Conceição  invocada na Terra de Santa Cruz, e há três séculos, com as outras terras de língua portuguesa, foi o Brasil consagrado a Nossa Senhora da Conceição.
Não é de admirar, portanto, que os brasileiros conheçamos e veneramos uma das maiores prerrogativas de Nossa Senhora, sua Imaculada Conceição; porém talvez nem todos saibam o que quer dizer - Nossa Senhora da Conceição, ou Imaculada Conceição.
É difícil resumir um assunto tão importante, como é o dogma da Imaculada Conceição; tentaremos, contudo, explicá-lo em poucas palavras, singelamente e com a maior clareza, tal como convém a um opúsculo escrito para o povo. 
Maria foi concebida sem a mancha do pecado original, e nasceu portanto, sem o pecado original, prerrogativa esta concedida unicamente, exclusivamente a Nossa Senhora.
E por quê? É fácil compreender, meus irmãos, que Deus forçosamente havia de formar de um modo extraordinário aquela criatura que Ele destinava para Mãe de seu Divino Filho; aquele tabernáculo vivo, que conteria o corpo de Deus, não podia ser profanado, nem por um segundo sequer, com o bafo pestífero do pecado, mesmo só de origem; a serpente infernal, pervertedora dos primeiros homens, não lograria o diabólico prazer de manchar, nem com a sombra do pecado, a alma predestinada, "ab eterno", para ser a Mãe do Filho do Altíssimo!
Maria haveria de vencer o inimigo figadal de Deus desde o primeiro instante de sua conceição! Maria, a diva aurora da redenção dos homens, nasceria pura, imaculada!
E assim foi: o Todo Poderoso realizou o seu intento - Maria foi concebida sem o pecado original. Mas não foi só esta a prerrogativa que o bom Deus concedeu a Maria: a sua alma santíssima jamais foi manchada pela mais leve imperfeição!
Eis o dogma da Imaculada Conceição explicado em palavras singelas e claras, ao alcance de todos.
Da palavra "concebida" formou-se o derivado "conceição"; a sua conceição foi, pois, imaculada, como já dissemos; daí veio a expressão - a Imaculada Conceição, que, com o tempo, começou a ser ligada ao vocativo "Nossa Senhora", pois o povo, naquela linguagem franca que tão bem traduz os seus sentimentos, começou a dizer - Nossa Senhora da Conceição.
Quando dizemos, portanto, Nossa Senhora da Conceição, queremos dizer que Maria é imaculada desde a sua conceição, e que o inimigo infernal jamais teve poder sobre Ela.
Continuemos, caros leitores, a invocar Nossa Senhora da Conceição; jamais se ouviu dizer que alguém tenha recorrido em vão a Nossa Senhora, salvo se a graça pedida era prejudicial à alma; porém, mesmo neste caso, não teremos recorrido em vão; porque Nossa Senhora nos terá atendido indiretamente, isto é, ter-nos-á dado, para recompensar a nossa confiança, uma graça muito melhor do que a que desejávamos.
Na certeza de que continuareis a invocar Nossa Senhora da Conceição com toda a confiança, passo a outro título.

fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Oração a Nossa Senhora



Querendo celebrar vossa bondade, 
De alguns títulos vossos fiz um ramo,
Mãe de Deus; vede só como vos amo, 
Senhora do Pilar, da Caridade!

Da Conceição Senhora amada, 
Velai pela criança e juventude, 
Que não fujam da trilha da virtude,
Que não sigam dos maus a via errada.

Minha Nossa Senhora Aparecida, 
Padroeira do Brasil, a vós recorro,
Que deis à nossa Pátria o Bom Socorro
De vosso puro amor, ó Mãe querida!

Senhora do Sagrado Coração,
Da Salette, do Vale, do Rocio,
De Fátima, da Luz, em vós confio,
Não deixeis de escutar minha oração.

Mãe das Graças, das Dores, da Abadia, 
Da Ajuda, das Mercês, Auxiliadora, 
Da Guarda, de Sião, Libertadora, 
Sede sempre dos homens a valia. 

Das Angústias, do Ó, da Candelária,
Do Desterro, da Paz, da Soledade,
De Bolonha, de Puy, da Piedade,
Valei-nos, doce Virgem de Bonária.

Senhora de Lujan, do Bom Conselho,
Do Brasil, da Cabeça, da Esperança,
Temos em vós inteira confiança,
Ó Virgem, da justiça puro espelho!

Da Virgem de Collell a aparição
Ao amor de Maria nos incita,
Porém por qualquer título palpita
Nosso Peito de amor e gratidão.

Do Perpétuo Socorro vos chamamos, 
De Loreto, do Mar, da Providência, 
Porém nunca será vossa clemência
Assaz louvada, ó Mãe que muito amamos.

Ó Senhora da Penha, Mãe bendita. 
De Czestochowska ó Mãe maravilhosa, 
Rainha terna e boa, linda Rosa,
De o inimigo vencer dai-nos a dita.

Ó de Lourdes Senhora Imaculada,
Neste ano de vosso centenário, 
Ano santo mariano extraordinário, 
Protegei tanta vida maltratada.

Que brilhe a caridade, a segurança, 
A justiça, o bom senso, o pundonor;
Que voltem para Deus, nosso Senhor, 
Reinando a paz, a mútua confiança.

Se dos títulos mil que nós vos damos
Vos comprazeis, Senhora das Batalhas, 
Do domínio do mal cortando as malhas.
A Rússia convertei, vos suplicamos.

Minha Nossa Senhora das Vitórias, 
De Montserrat ó Virgem sempre amada, 
De Kevelaer, das Neves, da Estrada, 
Que no céu celebremos vossas glórias!

Minha Nossa Senhora do Rosário, 
De Guadalupe ó Mãe, Nossa Senhora,
Não deixeis de atender quem vos implora, 
No sofrer do seu hórrido Calvário!

O vosso amor, a vossa proteção,
Eu canto neste livro, agradecida, 
Mas canto sobretudo, embevecida, 
A vossa Imaculada Conceição.

Ave, Maria, 
Nívea cecém,
Ave, Jesus, 
Para sempre. Amém.

fonte: Maria e seus gloriosos títulos

sábado, 28 de setembro de 2013

A santa modéstia no dia a dia da católica piedosa

A santa modéstia, a pureza, o recato, o pudor; todas essas virtudes cristãs que a boa, fervorosa e piedosa católica deve guardar, são aplicáveis a todos os domínios da nossa vida.


Muitas vezes, quando falamos em modéstia, toda a gente pensa que falamos somente de roupas modestas, de vestuário decente e condizente com a nossa santa fé e com uma vida autenticamente radicada em Cristo. É isso, claro, mas não é só isso.


A santa modéstia tem que estar igualmente presente em todas as nossas atitudes na vida quotidiana: nos nossos gestos concretos com os outros – ser amáveis sem excessiva familiaridade -, nos nossos olhares – devemos ter olhos puros para os outros, não pretender julgar o interior dos nossos semelhantes, não usar ninguém como trampolim para subir, etc – e nas nossas palavras.


Mulheres modestas, consagradas à Santíssima Virgem, não devem utilizar determinada linguagem menos correta, como o recurso ao palavrão, por exemplo. É uma grande impureza, uma imundice, que uma mulher piedosa use linguagem inadequada, indecente e imodesta. É grave falta ao recato e à virtude da santa pureza.


Nas universidades e no trabalho, por exemplo, esforço-me sempre por tratar todos com amabilidade e gentileza, mas sem excessiva familiaridade – no caso de pessoas que não são propriamente minhas amigas – precisamente para evitar a imodéstia e as faltas ao recato. Os nossos olhos podem ser causa de grave escândalo para os outros, se não soubermos direcionar o nosso olhar do modo correto, se não soubermos ter um olhar puro e natural, transparente, para as diversas realidades da vida.


Nunca uma mulher católica deve permitir excessivas familiaridades com desconhecidos; e esse mal corta-se logo de raiz. O modo de olhar, já traz consigo implícito o respeito (ou a falta dele) que a mulher pretende impor. Olhares demasiado fixos e profundos, com pessoas que não fazem parte do nosso ciclo de amigos e de quem quase nada sabemos, podem prejudicar a nossa honra e levar-nos, ao menos exteriormente, a faltar ao recato. Então, haveria que manter o sorriso gentil, a delicadeza no trato, mas simultaneamente a distância prudencial mínima exigida a mulheres que se pretendem recatadas. Tem que haver uma atitude de discrição, de prudência, de moderação nos gestos, nas manifestações físicas de carinho, mesmo entre bons amigos.


Não sou puritana, muito longe de mim tal coisa horripilante! Mas é sim necessário guardar-se o recato com atitudes e não só com palavras vãs e inúteis. Ou seja, o recato é uma virtude prática, no sentido de que temos a oportunidade de a praticar todos os dias. Não é teórica.


Do mesmo modo a língua. A nossa grande e comprida língua! Falar só o necessário, calar o mais das vezes. Quanta insensatez, quanta iniquidade já cometeram as nossas línguas!


Uma mulher católica recatada não pode tomar – nunca! – parte em conversas obscenas, nem sequer com a sua presença. Deve retirar-se e mostrar o seu descontentamento com a situação. Uma mulher católica não deve – jamais! – reproduzir a outros o que ouviu ou leu se isto for imodesto, indecente e faltar ao recato que ela, como filha de Maria, se deve esforçar por praticar. 

A nossa Santíssima e amável Mãe é o nosso perfeitíssimo modelo de modéstia, recato e santa pureza. Devemos imitá-la, ser novas Marias, pequenas Marias, como dizia o fundador do movimento apostólico de Schoenstatt.

É n’Ela que nos devemos inspirar.



Assim sendo, algumas atitudes são muito indignas de uma filha de Maria. Por exemplo, cruzar as pernas quando estamos sentadasnum local público, longe da nossa casa – além de ser de péssimo gosto e uma falta à classe e à elegância, e bem mais grave do que isso, é uma grande falta ao recato!


Tenhamos a imagem da nossa Santíssima Mãe sempre muito presente em nós, sempre muito interiorizada nos nossos gestos, palavras e olhares.


Pensemos em como Maria agiria perante determinada situação e Vamos com toda a certeza envergonharmo-nos de muitas das nossas atitudes imodestas e indecentes!


Não nos esqueçamos de nos consagrarmos todos os dias a esta tão bondosa e solícita Mãe. Peçamos-Lhe que guarde o nosso coração, os nossos olhos, os nossos ouvidos e, sobretudo, a nossa língua, os nossos lábios, de todo o pensamento, de todo o desejo, de toda a palavra impura, imodesta, indecente e que falte ao recato. Estas imundices afastam-nos muito do caminho espiritual, do crescimento na prática das virtudes e da imitação da nossa excelsa Rainha, lírio de santa pureza e de angélico recato!




Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço toda a Vós. E em prova da minha devoção e afeto filial para convosco, vos consagro neste dia: os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser. E porque assim sou vossa, ó boa e incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como coisa e propriedade vossa. Lembrai-vos que vos pertenço, terna Mãe, Senhora nossa; guardai-me e defendei-me, como coisa própria vossa.


Não permitais, ó Mãe amadíssima, que me manche pela imundícia e pela impureza; que cometa alguma falta ao recato e escandalize os meus irmãos; que negligencie os meus deveres para com a santa virtude da modéstia. Guardai os meus olhos, ouvidos, coração e lábios, para que me não manche pelo pecado!


Maria Santíssima, Mãe do divino amor, Rainha da pureza, Senhora de todo o recato e modéstia, rogai por todas as vossas filhas muito amadas, para que não se extraviem do recto caminho! Intercedei por mim, minha Mãe, para que me esforce sempre por agradar-vos e dar bom exemplo aos meus semelhantes! Que, nem por uma má palavra minha, nem por um impuro olhar meu, alguém se perca, doce Senhora! Que eu não tome parte com nada imodesto e indecente, ó sublime Rainha do mundo! Que sejais Vós sempre a minha guia e a guarda da minha pureza, modéstia e recato.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Maria - Mãe de Cristo, Mãe da Igreja




" Com efeito, a Virgem Maria (...) é reconhecida e honrada como a verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. (...) Ela é também verdadeiramente ' Mãe dos membros [de Cristo] (...), porque cooperou pela caridade para que na Igreja nascessem os fiéis que são os membros desta Cabeça'." " (..) Maria, Mãe de Cristo, Mãe da Igreja". 


I. A maternidade de Maria com relação à Igreja

TOTALMENTE UNIDA A SEU FILHO

O papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, decorrendo diretamente dela (dessa união). 
"Esta união de Maria com seu Filho na obra da salvação manifesta-se desde a hora da concepção virginal de Cristo até sua morte." Ela é particularmente manifestada na hora da paixão de Jesus:

A bem aventurada Virgem avançou em sua peregrinação de fé, manteve fielmente sua união com o Filho até a cruz, onde esteve de pé não sem desígnio divino, sofreu intensamente junto com seu unigênito. E com ânimo materno se associou a seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima por ela gerada. Finalmente, pelo próprio Jesus moribundo na cruz, foi dada como mãe ao discípulo com estas palavras: " Mulher, eis aí teu filho" (Jo 19,26-27).

Após a ascensão de seu Filho, Maria "assistiu com suas orações a Igreja nascente". Reunida com os apóstolos e algumas mulheres, "vemos Maria pedindo, também ela, com suas orações, o dom do Espírito, o qual, na Anunciação, a tinha coberto com sua sombra".

... TAMBÉM EM SUA ASSUNÇÃO...

"Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste.
E para que mais plenamente estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como Rainha do universo. A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:

Em vosso parto, guardastes a virgindade; em vossa dormição, não deixastes o mundo, ó mãe de Deus: fostes juntar-vos à fonte da vida, vós que concebestes o Deus vivo e, por vossas orações, livrareis nossas almas da morte.


...ELA É NOSSA MÃE NA ORDEM DA GRAÇA

Por sua adesão total à vontade do Pai, à obra redentora de seu Filho, a cada moção do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Com isso, ela é "membro supereminente e absolutamente único da Igreja", sendo até a "realização exemplar (typus)" da Igreja.
Mas seu papel em relação à Igreja e a toda humanidade vai ainda mais longe. "De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por este motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça."
"Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na anunciação, que sob a cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos. Assunta aos céus, não abandonou estes múnus salvífico, mas, por  sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. (...) Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, protetora, medianeira. 

" A missão materna de Maria em favor dos homens de modo algum obscurece nem diminui a mediação única de Cristo; pelo contrário, até ostenta sua potência, pois todo o salutar influxo da bem-aventurada Virgem (...) deriva dos superabundantes méritos de Cristo, estriba-se em sua mediação, dela depende inteiramente e dela aufere toda a sua força."
"Com efeito, nenhuma criatura jamais pode ser equiparada ao Verbo encarnado e Redentor. Mas, da mesma forma que o sacerdócio de Cristo é participado de vários modos, seja pelos ministros, seja pelo povo fiel, e da mesma forma que a indivisa bondade de Deus é realmente difundida nas criaturas de modos diversos, assim também a única mediação do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas uma variegada cooperação que participa de uma única fonte."

II. Culto da Santíssima Virgem

"Todas as gerações me chamarão bem-aventurada" (Lc 1,48).
" A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto  cristão".
A Santíssima Virgem " é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de 'Mãe de Deus', sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os perigos e necessidades. (...) Este culto (...) embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encarnado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece poderosamente"; este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, "resumo de todo o Evangelho".

III. Maria - ícone escatológico da Igreja

Depois de termos falado da Igreja, de sua origem, de sua missão e de seu destino, a melhor maneira de concluir é voltar o olhar para Maria, a fim de contemplar nela (Maria) o que é a Igreja em seu ministério, em sua "peregrinação de fé", e o que ela (Igreja) será na pátria ao termo final de sua caminhada, onde a espera, "na glória da Santíssima e indivisível Trindade", "na comunhão de todos os santos", aquela que a Igreja venera como a Mãe de seu Senhor e como sua própria Mãe:

Assim como no céu, onde está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a Igreja em sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta terra, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal da esperança segura e consolação para o Povo de Deus em peregrinação. 

RESUMINDO

Ao pronunciar o "fiat" (faça-se) da Anunciação e ao dar seu consentimento ao Mistério da Encarnação, Maria já colabora para toda a obra que seu Filho deverá realizar. Ela é Mãe onde Ele é Salvador e Cabeça do Corpo Místico.
Depois de encerrar o curso de sua vida terrestre, a Santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma à glória do Céu, onde já participa da glória da ressurreição de seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros de seu corpo.
" Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo."

fonte: Catecismo da Igreja Católica


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pequena Coroa da Santíssima Virgem - São Luis Maria Montfort


     V: Concedei-me que Vos louve, Virgem Sagrada.
      R: Dai-me valor contra os Vossos inimigos.
      Creio em Deus Pai ... 
     I
      Pai nosso... Ave Maria...  

      Sois Bem-aventurada, Virgem Maria, que levastes em Vosso seio o Senhor, Criador do mundo; destes à luz a Quem Vos formou, e sois Virgem perpétua.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
      R: Alegrai-Vos mil vezes.
      Ave Maria...
            
      Ó santa e imaculada Virgindade, não sei com que louvores Vos possa exaltar, pois Quem os Céus não contêm, Vós O levastes em Vosso seio.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
      R: Alegrai-Vos mil vezes.
      Ave Maria... 

      Sois toda formosa, Virgem Maria, e não há mancha em Vós.
      
     V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Ave Maria... 

      Possuís, ó Virgem Santíssima, tantos privilégios quantas são as estrelas no céu.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Glória ao Pai... 

II 
      Pai nosso... Ave Maria... 

      Glória a Vós, Imperatriz do Céu; conduzi-nos conVosco aos gozos do Paraíso.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Ave Maria... 

      Glória a Vós, Tesoureira das graças do Senhor; dai-nos parte  em Vosso tesouro.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Ave Maria... 

     Glória a Vós, Medianeira entre Deus e os homens tornai-nos propício o Todo-Poderoso.

     V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Ave Maria... 

     Glória a Vós, que esmagais as heresias e o demônio; sede nossa bondosa Guia.

     V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
     Glória ao Pai... 

III 
      Pai nosso... Ave Maria... 

      Glória a Vós, Refúgio dos pecadores; intercedei por nós junto ao Senhor.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
Ave Maria... 

      Glória a Vós, Mãe dos órfãos; fazei que nos seja propício o Todo-Poderoso.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
Ave Maria... 

      Glória a Vós, Alegria dos Justos; conduzi-nos conVosco às alegrias do Céu.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
Ave Maria... 

      Glória a Vós, nossa Auxiliadora mui prestimosa na vida e na morte; conduzi-nos conVosco ao Reino do Céu.

      V: Alegrai-Vos, Virgem Maria.
     R: Alegrai-Vos mil vezes.
Glória ao Pai... 

Oremos:  
Ave, Maria, Filha de Deus Pai.
Ave, Maria, Mãe de Deus Filho.
Ave, Maria, Esposa do Espírito Santo.
Ave, Maria, templo da Santíssima Trindade.
Ave, Maria, Senhora minha, meu bem, meu amor.
Rainha do meu coração,
Mãe, vida, doçura e esperança minha mui querida,
Meu coração e minha alma.
Sou todo Vosso,
E tudo que possuo é Vosso,
Ó Virgem sobre todos bendita.
Esteja, pois, em mim, Vossa alma,
Para engrandecer o Senhor.
Esteja em mim Vosso espírito,
Para rejubilar em Deus.
Colocai-Vos, ó Virgem Fiel,
Como selo sobre o meu coração
Para que, em Vós e por Vós,
Seja eu achado fiel a Deus.
Concedei, ó Mãe de Misericórdia,
Que me encontre no número dos que amais,
Ensinais, guiais, sustentais e protegeis
Como filhos.
Fazei que, por Vosso amor,
Despreze todas as consolações da terra
E aspire só às celestes;
Até  que, para a glória do Pai,
Jesus Cristo, Vosso Filho, seja formado em mim,
Pelo Espírito Santo, Vosso Esposo fidelíssimo,
E por Vós,
Sua Esposa mui fiel.

Assim seja.  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A realeza de Maria nos textos da Tradição

Documento Pontifício- Papa Pio XII 1959
Sobre a realeza de Maria

Com razão acreditou sempre o povo fiel, já nos séculos passados, que a Mulher, de quem nasceu o Filho do Altíssimo - o qual "reinará eternamente na casa de Jacob" (será) ' Príncipe da Paz', 'Rei dos Reis e Senhor dos Senhores', - recebeu mais que todas as outras criaturas singulares privilégios de graça. E considerando que há estreita relação entre uma mãe e o seu filho, sem dificuldade reconheceu na Mãe de Deus a dignidade real sobre todas as coisas. 
Assim, baseando-se nas palavras do Arcanjo São Gabriel, que predisse o Reino eterno do Filho de Maria, e nas de Santa Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como ' Mãe do meu Senhor', compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria 'Mãe do Rei' e 'Mãe do meu Senhor', dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência. 
Santo Efrém, com grande inspiração poética, põe estas palavras na boca de Maria: 'Erga-me o firmamento nos seus braços, porque eu estou mais honrada do que ele. O céu não foi tua mãe, e fizeste dele seu trono. Ora, quanto mais se deve honrar e venerar a Mãe do Rei, do que o seu trono!' E noutro passo, assim invoca a Maria Santíssima: "... Virgem Augusta e Protetora, Rainha e Senhora, protegei-me à tua sombra, guarda-me, para que Satanás, que semeia ruínas, me não ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário".
A Maria chama São Gregório Nazianzeno " Mãe de todo o universo", "Mãe Virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo". Prudêncio diz que a Mãe se maravilha "de ter gerado a Deus não só como homem mas também como Sumo Rei".
E afirmam claramente a dignidade real de Maria aqueles que lhe chamam "Senhora", "Dominadora" e "Rainha". 
Já numa homilia atribuída a Orígenes, Maria é chamada por Santa Isabel não só "Mãe do meu Senhor" mas também "Tu, minha Senhora". 
O mesmo conceito se pode deduzir dum texto de São Jerônimo, em que expõe o próprio parecer acerca das várias interpretações do nome de Maria: 'Saiba-se que Maria, na língua siríaca, significa Senhora'. Igualmente e com mais decisão, se exprime depois São Pedro Crisólogo: " O nome hebraico Maria traduz-se por 'Domina" em latim: "portanto o anjo chama-lhe Senhora, para livrar do temor de escrava a Mãe do Dominador, a qual nasce e se chama Senhora pelo poder do Filho".
São Epifânio, Bispo de Constantinopla, escreve ao Papa Hormisdas que se deve pedir a conservação da unidade da Igreja " mediante a graça da Trindade Una e Santa e por intercessão de Nossa Senhora, a Santa e Gloriosa Virgem Maria, Mãr de Deus".
Um autor do mesmo tempo dirige-se a Maria Santíssima, sentada à direita de Deus, invocando-a solenemente como " Senhora dos mortais, Santíssima Mãe de Deus".
Santo André Cretense atribui muitas vezes a dignidade real à Virgem Maria; escreve por exemplo: "Leva [ Jesus Cristo ] neste dia da morada terrestre [ para o céu ], como Rainha do gênero humano, a sua Mãe sempre Virgem, em cujo seio, permanecendo Deus, tomou a carne humana". E noutro lugar: " Rainha de todo gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus".
Do mesmo modo se dirige São Germano à humildade da Virgem: " Senta-te, ó Senhora; sendo tu Rainha e mais eminente que todos os reis, pertence-te estar sentada no lugar mais nobre"; e chama-lhe "Senhora de todos aqueles que habitam a terra".
São João Damasceno proclama-a "Rainha, Protetora e Senhora" e também: " Senhora de todas as criaturas; e um antigo escritor da Igreja Ocidental chama-lhe: " Ditosa Rainha", "Rainha eterna junto do Filho Rei", e diz que Ela tem a "nívea cabeça ornada com um diadema de ouro".

Finalmente, Santo Ildefonso de Toledo resume-lhe quase todos os títulos de honra nesta saudação: " Ó minha Senhora, minha Dominadora: tu dominas em mim, ó Mãe do meu Senhor... Senhora entre as escravas, Rainha entre as irmãs". 
Recolhendo a lição destes e outros quase inumeráveis testemunhos antigos, chamaram os teólogos à Santíssima Virgem, Rainha de todas as coisas criadas, Rainha do mundo e Senhora do universo. 
Por sua vez, os Sumos Pastores da Igreja julgaram obrigação sua aprovar e promover a devoção à celeste Mãe e Rainha com exortação e louvores. Pondo de parte os documentos dos Papas recentes, recordamos que já no século VII o Nosso Predecessor São Martinho I chamou Maria " gloriosa Senhora nossa, sempre Virgem", São Agatão, na carta sinodal enviada aos Padres do sexto Concílio Ecumênico, chamou-lhe " Senhora nossa, verdadeiramente e com propriedade Mãe de Deus"; e no século oitavo, Gregório II, em carta ao Patriarca São Germano, que foi lida entre as aclamações dos Padres do sétimo Concílio Ecumênico, proclamava Maria "Senhora de todos e verdadeira Mãe de Deus" e "Senhora de todos os Cristãos". 
Apraz-nos recordar também que o Nosso Predecessor de imortal memória Sixto IV, querendo favorecer a doutrina da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem, começa as Letras Apostólicas Cum praeexcelsa chamando precisamente a Maria " Rainha sempre vigilante, a interceder junto do Rei, que Ela gerou".

Do mesmo modo Bento XIV, nas Letras Apostólicas Gloriosae Dominae, chama a Maria " Rainha do céu e da terra", afirmando que o Sumo Rei lhe confiou, em certo modo, o seu próprio império.

Por isso, Santo Afonso de Ligório, tende presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pode escrever com a maior devoção: " Porque a Virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos Reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha".