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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Eucaristia - O maior dos sacramentos



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Deus abençoe por Maria! 

 Leo J. Trese


Agora que nos dispomos a estudar o sacramento da Sagrada Eucaristia, vamos passar por uma situação semelhante à do viajante que torna a percorrer uma região bem conhecida. Encontraremos muitas paisagens familiares - neste caso, verdades já vistas anteriormente. Mas, nas verdades que vamos recordar, confiamos em que haveremos de notar aspectos de interesse que antes nos passaram despercebidos. Podemos também confiar em descobrir outras paisagens - outras verdades - que escaparam totalmente à nossa observação em viagens anteriores por essa região amada e familiar, que é o tema do maior dos sacramentos. 

Quando dizemos que a Sagrada Eucaristia é o maior dos sacramentos, afirmamos algo evidente. O Batismo é, sem dúvida, o sacramento mais necessário; sem ele, não podemos ir para o céu. No entanto, apesar das maravilhas que o Batismo e os outros cinco sacramentos produzem na alma, não são senão instrumentos de que Deus se serve para nos dar a sua graça; mas na Sagrada Eucaristia não temos apenas um instrumento que nos comunica as graças divinas: é-nos dado o próprio Dador da graça, Jesus Cristo Nosso Senhor, real e verdadeiramente presente. 

"A Eucaristia é <<fonte e centro de toda a vida cristã>> (LG 11). <<Os restantes sacramentos, porém, assim como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa>> (PO 5)" (n. 1324).

 O sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo tem tido muitos nomes ao longo da história cristã: Pão dos Anjos, Ceia do Senhor, Sacramento do altar e outros que nos são bem conhecidos. Mas o nome que permaneceu desde o princípio, o nome que a Igreja dá oficialmente a este sacramento é Sagrada Eucaristia. Provém do Novo Testamento. Os quatro escritores sagrados - Mateus, Marcos, Lucas e Paulo - que nos narram a Última Ceia, dizem-nos que Jesus tomou o pão e o vinho em suas mãos e deu graças". E assim, da palavra grega eucharistia, que significa "ação de graças", resultou o nome do nosso sacramento: Sagrada Eucaristia. 

O Catecismo ensina-nos que a Eucaristia é ao mesmo tempo sacrifício e sacramento. Como sacrifício, a Eucaristia é a Missa, a ação divina em que Jesus, por meio de um sacerdote humano, transforma o pão e o vinho no seu próprio corpo e sangue e continua no tempo o oferecimento que fez a Deus no Calvário, o oferecimento de Si próprio em favor dos homens. 

"A sagrada Eucaristia completa a iniciação cristã. Aqueles que foram elevados à dignidade do sacerdócio real pelo Batismo e configurados mais perfeitamente a Cristo pela Confirmação, esses, por meio da Eucaristia, participam, com toda a comunidade, no próprio sacrifício do Senhor. [...] A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e oferecimento sacramental do seu único sacrifício, na Liturgia do Igreja que é o seu Corpo" (ns. 1322 e 1362). 

O sacramento da Sagrada Eucaristia adquire o seu ser (ou é "confeccionado", como dizem os teólogos) na Consagração da Missa; nesse momento, Jesus torna-se presente sob as aparências do pão e do vinho. E enquanto essas aparências permanecerem, Jesus continua a estar presente e o sacramento da Sagrada Eucaristia continua a existir nelas. O ato pelo qual se recebe a Sagrada Eucaristia chama-se Sagrada Comunhão. Podemos dizer que a Missa é a "confecção" da Sagrada Eucaristia e que a comunhão é a sua recepção. Entre uma e outra, o sacramento continua a existir (como no sacrário), quer o recebamos, quer não. 

Ao tratarmos de aprofundar no conhecimento deste sacramento, não temos melhor maneira de fazê-lo do que começando por onde Jesus começou: por aquele dia na cidade de Cafarnaum em que fez a mais incrível das promessas, a de dar a sua carne e o seu sangue como alimento da nossa alma.  

"Os milagres da multiplicação dos pães - quando o Senhor disse a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão -, prefiguram a superabundância deste pão único da Sua Eucaristia" (n. 1335).

Na véspera, Jesus tinha lançado os alicerces da sua promessa. Sabendo que ia fazer uma tremenda exigência à fé dos seus ouvintes, preparou-os para ela. Sentado numa ladeira, do outro lado do mar de Tiberíades, tinha pregado a uma grande multidão que o havia seguido até ali, e agora, já ao cair da tarde, prepara-se para despedi-los. Mas, movido de compaixão e como preparação para a sua promessa do dia seguinte, faz o milagre dos pães e dos peixes. Alimenta a multidão - só os homem eram cinco mil - com cinco pães e dois peixes; e, depois de todos se terem saciado, os seus discípulos recolhem doze cestos de sobra. Esse milagre haveria de estar presente no dia seguinte (ou deveria estar) na mente dos que o escutaram. 

Tendo despedido os que o tinham seguido, subiu monte acima, a fim de orar em solidão como era seu costume. Mas não era muito fácil separar-se daquela multidão, que queria ver mais milagres e ouvir mais palavras de sabedoria de Jesus de Nazaré: acamparam por ali para passar a noite e viram os discípulos embarcar (sem Jesus) rumo a Carfanaum, na única barca que havia. Nessa noite, depois de terminar a oração, Jesus atravessou andando as águas tomentosas do lago e juntou-se aos seus discípulos na barca, e assim chegou com eles a Cafarnaum. 

Na manhã seguinte, a turba não conseguia encontrar Jesus. Quando chegaram outras barcas de Tiberíades, desistiriram de procurá-lo e embarcaram para Carfanaum. Qual não foi o seu assombro ao encontrarem de novo Jesus, que havia chegado antes deles, sem ter subido à barca que partira na noite anterior! Foi outro portento, outro milagre que Jesus fez para fortalecer a fé daquela gente (e dos discípulos), pois ia pô-la à prova pouco depois. 

Os discípulos e os que conseguiram entrar aglomeraram-se em seu redor na sinagoga de Carfanaum. Foi ali e então que Jesus fez a promessa que hoje nos enche de fortaleza e vida: prometeu a sua Carne e o seu Sangue como alimento; prometeu a Sagrada Eucaristia. 

Se tinha poder para multiplicar cinco pães e com eles alimentar cinco mil homens, como não havia de tê-lo para alimentar toda a humanidade com um pão celestial feito por Ele?! Se tinha poder para andar sobre as águas como se fosse terra firme, como não havia de tê-lo para ordenar aos elementos do pão e do vinho que lhe emprestassem a sua aparência e para utilizá-la como capa para a sua Pessoa? Jesus tinha preparado bem os seus ouvintes e, como veremos, eles tinham necessidade disso. 

Se você tem um exemplar do Novo Testamento à mão, será muito bom que leia inteiro o capítulo sexto do Evangelho de São João. Só assim poderá captar todo o ambiente, as circunstâncias e o desenrolar dos acontecimentos na sinagoga de Carfanaum. Vou citar somente as linhas mais pertinentes, que começam no versículo 51 e acabam no 67. 

Disse Jesus: Eu sou o pão vivo que desceu do céu. [...] Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. [...] Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que comeram os vossos pais e morreram. O que come deste pão viverá eternamente [...]. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isso, disseram: Dura é esta linguagem, e quem a pode ouvir? Jesus, conhecendo em si mesmo que os seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: [...] As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem [...] Desde então, muitos dos seus discípulos tornaram atrás e já não andavam com ele. 

 Este breve extrato da capítulo sexto de São João contém os dois pontos que mais nos interessam agora: os dois pontos que nos dizem, meses antes da Última Ceia, que na Sagrada Eucaristia estarão presentes o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Jesus. Lutero rejeitou a doutrina da presença verdadeira e substancial de Jesus na Eucaristia, doutrina que havia sido seguida firmemente por todos os cristãos durante mil e quinhentos anos. Lutero aceitava certa espécie de presença de Cristo, ao menos no momento em que se recebesse a comunhão. Mas no terreno adubado por Lutero brotaram outras confissões protestantes que foram recusando mais e mais a crença na presença real. Na maioria das confissões protestantes de hoje, o "serviço da comunhão" não passa de um simples rito comemorativo da morte do Senhor; o pão continua a ser pão e o vinho continua a ser vinho. 

Nos seus esforços por eludir a doutrina da presença real, teólogos protestantes procuraram mitigar as palavras de Jesus, afirmando que Ele não pretendia que as tomassem no seu sentido literal, mas apenas espiritual ou simbolicamente. Mas é evidente que não se podem diluir as palavras de Cristo sem violentar o seu sentido claro e rotundo. Jesus não poderia ter sido mais enfático: A minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Não há forma de dizê-lo com mais clareza. No original grego, que é a língua em que São João escreveu o seu Evangelho, a palavra do versículo 55 que traduzimos por "comer" estaria mais próxima do seu sentido original se a traduzíssemos por "mastigar" ou "comer mastigando". 

Tentar explicar as palavras de Jesus como simples modo de expressar-se levar-nos-ia a outro beco sem saída. Entre os judeus, que eram aqueles a quem Jesus se dirigia, a única ocasião em que a frase "comer a carne de alguém" se utilizava figurativamente era para significar ódio a determinada pessoa ou perseguir alguém com furor. De modo parecido, "beber o sangue de alguém" queria indicar que esse alguém seria castigado com penas severas. Nenhum desses significados - os únicos que os judeus conheciam - se revela coerente se os aplicarmos às palavras de Jesus. 

Outra prova de peso, que confirma que Jesus quis verdadeiramente dizer o que disse - que o seu corpo e o seu sangue estariam realmente presentes na Eucaristia - está em que alguns dos seus discípulos o abandonaram por terem achado a ideia de comê-lo demasiado repulsiva. Não tiveram fé suficiente para compreender que, se Jesus lhes ia dar a sua Carne e o seu Sangue em alimento, o faria de forma a não causar repugnância à natureza humana. Por isso o abandonaram, "e já não andavam com ele". 

"O primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da Paixão os escandalizou: Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar? (Jo 6,60). A Eucaristia e a Cruz são pedras de tropeço. É o mesmo mistério e continua a ser motivo de divisão. Também vós quereis ir-vos embora? (Jo 6,67). Esta pergunta do Senhor ecoa através dos tempos, como convite do seu amor a que descubramos que só Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,68) e que acolher na fé o dom da sua Eucaristia é acolhê-lo a Ele mesmo" (n. 1336). 

Jesus nunca os teria deixado ir-se embora se essa deserção fosse simples resultado de um mal-entendido. Muitas vezes antes tinha-se dado ao trabalho de esclarecer as suas palavras quando eram mal compreendidas. Por exemplo, quando disse a Nicodemos que era preciso nascer de novo, e este lhe perguntou como é que um adulto podia entrar de novo no ventre de sua mãe (cf. Jo 3,3 e segs.); pacientemente, Jesus esclareceu-lhes as suas palavras sobre o Batismo. Mas agora, em Carfanaum, Jesus não esboça o menor gesto para impedir que os seus discípulos o abandonem nem para lhes dizer  que o haviam entendido mal. Não pode fazê-lo pela simples razão de que o tinham entendido perfeitamente e por isso o deixaram. O que lhes faltou foi fé, e Jesus, tristemente, teve que resignar-se a vê-los partir. 

 Tudo isto faz com que a afirmação da doutrina da presença real esteja ineludivelmente contida na promessa de Cristo, porque, se não fosse assim, as suas palavras não teriam sentido, e Jesus não falava por enigmas indecifráveis. 

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A fé explicada - Padre Leo J. Trese. Ed.Quadrante, 14ª edição, 2014. 

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555433587197/


 




domingo, 3 de novembro de 2024

A oração dominical

 




Explicação da gravura

1. A gravura trata da oração dominical ou Pai-Nosso; oração dominical quer dizer oração do Senhor, porque Nosso Senhor Jesus Cristo foi quem a compôs, para nos ensinar a orar. 

2. Consta a oração dominical de uma invocação e de sete petições.

3. As palavras da invocação são: Pai Nosso que estais no céu, que são como um pequeno prefácio, ou exordio para a oração dominical.

4. Chamamos a Deus nosso Pai, porque Jesus Cristo quer que oremos a Deus com amor e confiança filial. 

5. Dizemos Pai nosso e não Pai meu porque devemos orar como irmãos uns dos outros, e como membros da Igreja, pertencentes a mesma família do Pai celestial.

6. Acrescentamos: que estais no céu, para levantar nossos corações a contemplar o infinito poder de Deus que resplandece particularmente na obra dos céus, e ainda para nos advertir que a nossa oração, para obter os bens temporais, deve ser também encaminhada a conseguir os bens celestiais.

7. 1º petição: Santificado seja o vosso nome. - Pedimos nesta primeira petição que Deus seja conhecido em todo o mundo e que o seu santo Nome seja honrado e glorificado como cumpre. Podemos todos santificar o nome de Deus, reconhecendo como dom seu todo bem assim espiritual como temporal, mas santificar-se particularmente aquele santo nome obedecendo ao que ele nos manda. Está representada esta petição pela cura dum coxo, operada por São Pedro quando disse: Em nome de Jesus, levanta-te e anda.

8. 2º petição: Venha a nós o vosso reino. - Pedimos com estas palavras que venha depressa o reino de Deus, isto é, que Deus reine nas almas dos cristãos pela graça, e que acabamos as batalhas que temos com o mundo, o demônio e a carne, cheguemos à eterna bem-aventurança. Mas devemos fazer violência a nós mesmo para arrebatar esta glória. Está representada esta petição por Tobias profetizando o advento do reino de Deus. 

9. 3ª petição: Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. - Pedimos a graça para cumprir os mandamentos, venerada e obedecida em todo o mundo de tão bom grado como os Anjos obedecem no céu. Está representada no centro da gravura por Nosso Senhor orando no jardim das Oliveiras.

10. 4ª petição: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Pedimos assim o pão quotidiano tanto espiritual que é a graça de Deus, como temporal, que é o sustento necessário para nos conservar no serviço de Deus. Representada está a 4ª petição por um anjo que traz um pão ao profeta Elias. 

11. 5ª petição: Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos nossos pecados como perdoamos as ofensas que nos fazem. O perdão das injúrias é uma condição sem a qual é uma condição sem a qual não podemos receber de Deus o perdão de nossos pecados. A petição quinta está representada por Jesus Cristo perdoando na cruz aos seus verdugos, e por Davi poupando a Saul que o perseguia para matá-lo.

12. 6ª petição: Não nos deixeis cair em tentação, - Pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou não permitindo que sejamos tentados, ou dando-nos a graça de não sermos vencidos. As tentações, se não consentimos nelas, são úteis e meritórias, porque nos fazem ser humildes e recorrer à Deus: vem a ser uma ocasião de merecimento na terra, e de glória no céu quando ficamos vencedores. Para não sermos tentados devemos fugir particularmente três coisas: a ociosidade, o dormir muito e a intemperança. 
A gravura representa a tentação de Nosso Senhor no deserto.

13. 7ª petição: << Mas livrai-nos do mal. >> Pedimos a Deus que nos livre de todo o mal tanto da alma como do corpo, no tempo e para a eternidade. Nas adversidades devemos sofrer com paciência e submeter-nos à vontade de Deus. 
A gravura representa Daniel miraculosamente preservado da fúria dos leões. 


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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 

sábado, 28 de setembro de 2013

O Protestantismo

São compreendidas debaixo deste nome as centenas de seitas protestantes, como os Luteranos, Calvinistas, Remonstrantes, Contraremonstrantes, Batistas, Anabatistas, Metodistas, Pentecostes, etc., etc., que não vale a pena enumerar todas. Não quero falar do fundador, Lutero, que, primeiro frade agostiniano, depois de ingresso se juntou com uma freira, também ingressa - cada qual com seu igual. Não quero referir-me a sua vida particular, para que ninguém pense que eu tencione rebaixá-lo e com ele os protestantes, embora isso possa servir de argumento. Pois si Deus o tivesse chamado para restabelecer a verdadeira doutrina da Igreja, como dizem os protestantes, conviria a escolha de um homem santo e não de um frade apostata, perjuro, amasiado, revolucionário, etc. - Calemo-nos, pois, de Lutero e contentemo-nos com o exame da doutrina protestante, confrontando-a com a doutrina católica. Para irmos ao amago da questão, inquiramos logo: qual a questão fundamental entre o catolicismo e o protestantismo? 
Muitos autores tratam questão por questão e escrevem grandes volumes. Isto, geralmente, é muito bom, mas nem todos tem o tempo disponível para ler e estudar tudo, e, não obstante, querem ter ideia exata, baseada em argumentos sólidos, irrefutáveis e evidentes. É para estes que escrevo. 
Já provei nos primeiros três capítulos que a Igreja Católica é única, verdadeira Igreja de Cristo. No capítulo presente resta-me mostrar que o fundamento sobre o qual foi construído o edifício protestante está errado e, por conseguinte, errada toda a doutrina protestante, em quanto difere da doutrina católica.

Lutero protestou contra a autoridade do Papa na explicação da religião. Para maior clareza lembre-se o leitor da doutrina católica, explanada nos capítulos passados: Jesus ensinou os apóstolos e mandou-os pregar a sua doutrina a todo o mundo: "Ide e ensina-e todos os povos, etc." - Obrigou o mundo todo a aceitar a doutrina dos apóstolos, dizendo por cima: "Quem crê, será salvo, quem não crê, será condenado", - Jesus prometeu ficar com os seus apóstolos até o fim do mundo: " e eis que estarei convosco, etc." - Mandou o divino Espírito Santo: " e eu rogarei ao Pai que vos mandará outro Consolador, o Espírito da verdade, etc." - Acrescentou: "Assim como meu Pai me enviou, eu vos envio: 'quem vos ouve, a mim me ouve, quem vos despreza, a mim despreza e quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou". (Lc 10,16).

Este e outros textos provam a autoridade da Igreja, para ensinar a doutrina revelada por Jesus Cristo. Só a ela cabe a última palavra em questão de fé e de moral. E conforme as palavras claríssimas de Jesus, à sua ordem categórica, todos nós temos que ouvir a Igreja e aceitar a sua decisão, cada vez que haja alguma dúvida sobre artigos de fé. Assim a Igreja procedeu durante todos os séculos, ainda o faz e continuará a fazer até o fim do mundo. Nestas suas decisões ela é assistida pelo divino Espírito Santo, e por Jesus mesmo, como Ele garantiu. É preservada do erro, para que todos possam crer o que ela ensina. Se Jesus não tivesse ficado com a sua Igreja, teria faltado à Sua palavra, à Sua promessa. Quem então nos garantiria ainda a verdade de sua doutrina após tantos séculos? Neste caso Jesus não seria o Filho de Deus, mas um impostor, e toda a religião um logro infernal.

Isto, porém, não pode ser: Jesus se legitimou por muitos meios: pela doutrina, o cumprimento das profecias, a vida santa, por milagres estupendos e pela continuação de sua Igreja. Por isto o divino Espírito Santo e Jesus protegem a Igreja contra todo erro no terreno da fé e da moral.

Lutero protestou contra esta autoridade da Igreja. Segundo ele, toda a doutrina está na Bíblia, e cada um deve haurir da Bília a verdadeira doutrina. - Substituiu, pois, a autoridade da Igreja pelo juízo individual. Rejeitou a autoridade da Igreja, protestando contra ela; dali o nome de protestantismo. Cada um - diz ele - deve achar a verdade na Bíblia. Os  protestantes o fizeram. Aceitaram como única fonte de fé revelada a Bíblia, explicada pela razão individual de cada um.

Qual o resultado? Lisonjeou muito a soberba humana, favoreceu mais ainda certos vícios, em pouco tempo cada um seguia a sua própria cabeça. 
Cada qual achou na Bíblia o que lhe agradava. Acabou entre eles a unidade da fé e de sacramentos. Os anglicanos queriam continuar com a Santa Missa, os outros rejeitaram-na. Cada um era o seu próprio chefe, naturalmente - segundo eles diziam - assistido do Espírito Santo. Em pouco tempo o protestantismo se subdividiu espantosamente. Faltou-lhe a necessária certeza na fé, o que é proveniente do próprio sistema: a razão humana é sujeita ao erro. Sabemos por própria experiência. 

Já os romanos diziam: errare humanum est. Por conseguinte, a explicação da Bília ficava sujeita à razão humana, e por isto ao erro, ao engano. Assim esta parte da religião perdeu seu cunho divino. O que um aceitava como revelado, outro entendia de outro modo, até o contrário e assim por diante, até que enfim... sim, senhores, até que a Bíblia toda perdesse para eles o seu valor divino. A Bíblia, sem a autoridade do Papa, fica sem autoridade revelada. Jesus não deixou escrita nenhuma palavra. A maior parte dos apóstolos também não escreveu. Dois evangelhos são de discípulos dos apóstolos. A Bíblia do Novo Testamento consiste só de fragmentos, de cartas propriamente falando particulares, isto é, escritas para fins particulares, dos atos dos apóstolos e de um compêndio de profecias obscuras, que custa muitíssimo entender. 

Tudo isto estava espalhado e misturado com cartas apócrifas. Quem podia garantir que uma carta ou um evangelho eram escritos com assistência divina? Tanto mais quando dois evangelhos não foram escritos por apóstolos! 

O cristianismo já existia há séculos, e a Bíblia ainda não era joeirada, isto é, não se determinará ainda o canon dos livros inspirados. 

Só após quatro séculos, o Papa mandou examinar os escritos e separar as obras legítimas, e assim nasceu o conjunto da Bíblia do Novo Testamento. Mas com que autoridade? 
Quem nos garante a divina inspiração desta Bíblia, tal qual hoje a temos?
Porque não foram aceitas outras cartas e escritos, que existiam, mas declarados apócrifos?
Talvez alguém responda que há provas para a autenticidade dos livros reconhecidos, por exemplo: pelo evangelho de São João temos Polycarpo, discípulo de São João; e Irineus, bispo de Lyon, que foi discípulo de Polycarpo, escreveu sobre o evangelho que São João compôs. Depois temos Justino e também Santo Inácio, bispo de Antioquia, que só poucos anos após São João morreu em Roma. Replico: Pois não, concedo a autenticidade, pela qual atribuímos a São João a autoria do quarto evangelho, mas isto não é a questão: a questão é saber quem me garante que este livro foi escrito sob influência divina, que é a palavra revelada por Jesus Cristo? De mais a mais só existiam ainda cópias: os manuscritos autografados já tinham deixado de existir há muito tempo.

Quem me garante que tudo isso foi fielmente copiado? Daí, si não aceitamos a autoridade do Papa, só nos resta dizer: adeus, Bíblia revelada! Ou aceitar a autoridade do Papa, transmitida por Jesus Cristo, e receber das mãos desta autoridade a Bíblia como livro escrito com assistência divina ou renunciar a autoridade da Bíblia como palavra revelada de Deus. Outro caminho não há.

Os protestantes, porém, rejeitaram a autoridade do Papa, assim como a Tradição: consequentemente devem também rejeitar a Bíblia como livro revelado. 

Sem o Papa não tem e nunca poderão achar prova alguma da origem divina da Bíblia e, conseguinte, das verdades que ela contém.

A doutrina católica é inteiramente outra. Nós, católicos, aceitamos a inspiração divina da Bíblia, e com isto toda a sua autoridade divina, mas não só a Bíblia: antes e em primeiro lugar aceitamos a Tradição,  que contém toda a doutrina e que desde os tempos dos apóstolos foi comunicada oralmente por toda a parte. Temos como axioma: o que por toda a parte foi ensinado e aceito como revelado por Deus sobre a religião dentro da Igreja, é genuinamente católico. 

Se no decurso dos séculos houve alguma dificuldade, recorria-se ao sucessor de São Pedro, ao Papa de Roma, que decidia a questão,declarando o que foi revelado e o que não o foi -  Roma locuta, causa finita,  depois de Roma ter falado, acabou-se a questão. - Desta tradição uma grande parte foi escrita sob inspiração divina e este livro nós chamamos Bíblia. 

A Tradição é o fundamento: pela Tradição sabemos que São Pedro foi designado e instituído chefe da Igreja - o que depois também foi escrito na Bíblia. - Pela Tradição sabemos que São Pedro morreu em Roma - verdade confirmada pela história eclesiástica e profana, mas que não está na Bíblia, embora seja uma das principais questões; - pela Tradição e não pela Bíblia sabemos que devemos santificar os domingos e não os sábados, etc. A Tradição abrange tudo; a Bíblia, uma grande parte do todo. 

O centro do catolicismo, pois, é o sucessor infalível de São Pedro ou o Papa de Roma. Sem o Papa a Igreja não existiria, teríamos a mesma mixórdia dos protestantes ou pior; sem o Papa, adeus unidade de fé, dos sacramentos, do sacrifício, de tudo!

Protestantes eruditos sabem perfeitamente o que acabo de escrever.

Justamente por isto, os mais eruditos entre eles não falam mais contra o catolicismo. Muitos até se convertem.

Outros há que rejeitam o cristianismo, pois se quisessem continuar a ser cristãos, deveriam ficar católicos e isto lhes custa demais. Preferem seguir o ceticismo, um certo agnosticismo. 

Isto para os eruditos. Para os que não estão a par da ciência ou para os ignorantes na matéria, ainda serve o materialismo, que cientificamente está inteiramente derrubado e teve de fugir de todas as universidades dignas de nome. 

Só os ignorantes, portanto, ainda podem ser protestantes. 

Num país culto, como por exemplo, a Alemanha, não há mais que vinte por cento de protestantes desta ou daquela denominação de seita, que ainda acredita num Deus pessoal, criador do céu e da terra. 

Entre os protestantes alemães não haverá mais cinco por cento que ainda creem na divindade de Jesus, e assim está acabando o protestantismo genuíno na Alemanha, onde nasceu. 

Vejam outro país: a Holanda. Este povo, que parece mais conservador, vai pelo mesmo caminho. Muitos há que ainda se chamam protestantes por costume, ou porque os pais assim se chamavam, mas os crentes na Bíblia, na divindade de Jesus, estão diminuindo cada vez mais. 

O protestantismo não resiste à crítica, à ciência histórica, à lógica: não tem base científica.

Um povo erudito, como é o alemão, não pode aceitar incongruências, sistemas sem fundamento provado e por isso rejeita o protestantismo.

O que na Alemanha fica de pé, são o catolicismo e o judaísmo.

A América do Norte em geral é ainda menos culta que a Alemanha, mas também lá começa a mesma tendência. Nem sequer a metade os protestantes manda batizar as crianças. Lá a religião é muitas vezes como a própria moda. Outra vezes serve de reclame para negócio.

Mas também ainda há gente religiosa entre os protestantes, que tanto mais se agara à sua seita e ajunta dinheiro para propaganda em países, que eles julgam menos civilizados. As igrejas protestantes na América do Norte, porém, com isto se enchem? Pelo contrário, ficam cada vez mais vazias, sempre mais despedaçadas. É para ter dó daqueles coitados, que querem o bem, a religião, e devem ver como a sua religião é mais e mais despedaçada, justamente pela parte erudita dos protestantes. Veem como floresce o catolicismo, como este sempre mais se ergue, se propaga, sempre é mais presado, justamente dos mais eruditos, também dos próprios protestantes: estes catolicismo que aprenderam a odiar e que tem ideias tão errôneas e contraditórias. Do seu lado, no protestantismo, só observam desanimo, discórdia, dissidência, a morte lenta e, por cúmulo da desgraça, o desprezo do mundo científico, partindo este desprezo das próprias fileiras dos homens eruditos que nasceram no protestantismo, e que pelo estudo se viram obrigados a deixá-lo. 
Começou com um grande homem, a que dão o nome de filósofo: Emmanuel Kant. Este ainda conservou durante algum tempo como postulado da razão política - embora contra a ciência do seu cristicismo- uma espécie de religião.
Mais tarde, porém, na sua idade mais avançada, também deixou o pietismo, inventado por ele mesmo. E notemos bem que nunca se ouvir que Emmanuel Kant tenha manifestado aversão ou antipatia contra o protestantismo. Isto mesmo observamos hoje entre os protestantes eruditos da Alemanha, Holanda, etc. Eles não odeiam, não perseguem; pelo contrário, queriam muito que a sua religião vencesse o catolicismo e é com mágoa que são testemunhas da vitória científica do catolicismo. 

Quem, por exemplo, há cem anos, no Norte da Europa estudava a filosofia de Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomé, Dum Scoto, etc.?

E hoje? Hoje por toda parte esta filosofia, que é católica, está avançando, alcança vitória sobre vitória, sempre conquista mais adeptos: venceu o materialismo e está vencendo o ceticismo. Os próprios protestantes o reconheceram, já há muito tempo.
Foram eles mesmos que concederam o prêmio Nobel de filosofia ao Cardeal Mercier, foram e são eles mesmos que convidam, por exemplo, na universidade de Amsterdam filósofos católicos para ensinar a filosofia católica. Já se nomeiam frades e padres para lentes catedráticos nas universidades protestantes, por exemplo: Utrecht e outras. 

Estamos, pois, diante do dilema: ou aceitar o Papa de Roma como chefe da Igreja, sucessor legítimo de São Pedro, investido com toda a autoridade por Jesus mesmo, ou negar toda a nossa fé cristã. 
O meio caminho do protestantismo só serve para embair os retrógrados. Nunca satisfará a um homem que está a par da ciência religiosa.  

fonte: F.I. Westerveld, O.F.M. 1930