segunda-feira, 7 de abril de 2025
Morte do justo
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
Da anunciação de Maria - I
Discurso IV - Santo Afonso Maria de Ligório
Maria na Encarnação do Verbo não pôde humilhar-se mais do que se humilhou: Deus, por sua vez, não pôde exaltá-la mais do que a exaltou.
Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. Essa é a palavra do Senhor, não pode errar: Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado (Mt 23,12). Donde, tendo Deus decretado fazer-se homem para redimir o homem perdido e assim manifestar ao mundo a sua bondade infinita, e tendo na terra de escolher a mãe, ia buscando entre as mulheres a que fosse dentre elas a mais santa e mais humilde. Mas de todas uma apenas enxergou, e foi a Virgem Maria, que quanto era mais perfeita nas virtudes, tanto mais simples e humilde, como uma pomba, no conceito que tinha de si. Dizia o Senhor, uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita (Ct 6,9). Por isso essa, disse Deus, seja eleita a minha mãe. Daqui vejamos quanto Maria foi humilde, e por isso quanto Deus a exaltou.
Maria na Encarnação do Verbo não pôde humilhar-se mais do que se humilhou; será esse o primeiro ponto. Deus não pôde exaltá-la mais do que a exaltou; esse será o segundo.
Ponto I - De como Maria não poderia humilhar-se mais do que se humilhou
Falando o Senhor no Cântico dos Cânticos justamente da humildade dessa humilíssima Virgenzinha, disse: Enquanto o rei descansa em seu divã, meu nardo exala o seu perfume (Ct 1,11). Comenta S. Antônio essas palavras, e diz que no nardo, por ser planta tão pequena e baixa, está prefigurada a humildade de Maria, cujo odor subiu ao céu, e do seio do Pai Eterno atraiu ao seu útero virginal o Verbo Divino¹. De modo que o Senhor, atraído pelo odor dessa humilde Virgenzinha, escolheu-a por mãe ao fazer-se homem para redimir o mundo. Mas Ele, para maior glória e mérito dessa mãe, não quis fazer-se dela filho sem ter dela o consentimento, diz Guilherme, o abade. Daqui, enquanto a humilde Virgenzinha estava no seu pobre casebre, e suspirava e rogava a Deus com maior desejo então do que jamais antes que mandasse o Redentor, como foi revelado a S. Isabel, monja de S. Bento, eis que vem o arcanjo Gabriel para trazer-lhe a notícia;entra e a saúda dizendo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres (Lc 1,28; 1,42): Ave, ó Virgem cheia de graça, pois fostes vós sempre rica em graça acima de todos os santos. O Senhor é convosco, porque sois assim tão humilde. Vós sois bendita entre as mulheres, visto que todas as outras incorreram na maldição da culpa, mas vós, porque Mãe do Bendito, fostes e sereis sempre bendita e livre de toda mancha.
A humilde Maria, entretanto, a essa saudação, assim cheia de louvor, o que responde? Nada; não respondeu, mas pensando na saudação perturbou-se: Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação (Lc 1,29). - E por que se perturbou? Acaso por medo que fosse uma ilusão, ou por modéstia, já que via um homem, como tentou explicar alguém pensando que o anjo lhe apareceu sob forma humana? Não, o texto é claro: perturbou-se com estas palavras; repara Eusébio Emisseno: "Não com a aparição, mas com as palavras". Veio portanto a pertubação inteiramente da humildade ao ouvir aqueles louvores tão distantes do conceito que de si fazia. Donde quanto mais ouve exaltar-se pelo anjo, mais se abaixa e põe-se a considerar o seu nada. Reflete aqui S. Bernardino e diz que se o anjo lhe houvesse dito que ela era a maior pecadora do mundo, Maria não se espantaria tanto; mas de ouvir aqueles louvores tão excelsos, perturbou-se toda.² Perturbou-se porque, sendo tão cheia de humildade, aborrecia todo louvor seu, e desejava que o seu Criador e dador de todo bem fosse louvado e bendito; assim, Maria mesma disse a S. Brígida, falando do momento em que foi feita Mãe de Deus.
Mas pelo menos, digo eu, já bem havia a Santíssima Virgem aprendido nas Sagrdas Escrituras que já era chegado o tempo predito pelos Profetas da vinda do Messias, já foram cumpridas as semanas de Daniel, já fora, segundo a profecia de Jacó, passado à mão de Herodes, rei estrangeiro, o cetro de Judá, já sabia que uma virgem que não lhe pareciam havia de ser a mãe do Messias; ouve então do anjo aqueles louvores, que não lhe pareciam convir a outra senão à mãe de Deus; terá lhe ocorrido então o pensamento, ao menos um: quem sabe não era ela essa mãe eleita de Deus? Não, a sua profunda humildade não deixou nem mesmo passar por ela esse pensamento. Puderam aqueles louvores somente incutir-lhe grande temor, de tal modo que, como reflete S. Pedro Crisólogo, tal como o Salvador quis ser confortado por um anjo, assim foi necessário que S. Gabriel, vendo Maria tão espantada com aquela saudação, a animasse dizendo: Não temais, ó Maria, nem vos assombreis com os títulos grandiosos com que vos saudei, pois, se aos vossos olhos vós sois pequena e baixa. Deus, que exalta os humildes, fez-vos digna de encontrar a graça perdida pelos homens, e por isso Ele vos preservou da comum mancha de todos os filhos de Adão; por isso desde a vossa Conceição vos honrou com uma graça maior do que a de todos os santos; por isso, enfim, agora vos exalta a o ponto de fazer-vos sua mãe: Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus (Lc 1,31).
Pois agora, então, o que aguarda? "Senhora, o anjo aguarda a vossa resposta" - diz S. Bernardo - "antes, aguardamo-la nós, condenados que somos à morte. Eis, ó mãe nossa, a vós já se oferece o preço da nossa salvação, que será o Verbo Divino em vós tornado homem; se vós tornado homem; se vós o aceitardes por filho, imediatamente seremos da morte libertados; o vosso mesmo Senhor, por enamorado que esteja da vossa beleza, ainda assim deseja o vosso consentimento, pelo qual determinou salvar o mundo".¹ Retoma S. Agostinho: "Depressa, Senhora, respondei; não adieis mais ao mundo a salvação, que do vosso consentimento depende.¹
Mas eis que Maria responde; responde ao anjo e diz: Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Ó resposta, que mais bela, mais humilde e mais prudente não poderiam ter inventado toda a sabedoria dos homens e dos anjos em conjunto, mesmo que pensassem por um milhão de anos! Ó resposta poderosa, que alegrastes o céu e trouxestes à terra um mar imenso de graças e de bens! Resposta que, apenas saída do humilde coração de Maria, atraíste do seio do Pai Eterno o unigênito Filho ao seu puríssimo útero para tornar-se homem! Sim, porque apenas proferiu aquelas palavras, o Filho de Deus virou filho também de Maria. "Ó poderoso faça-se!" - exclama S. Tomás de Vilanova - ó faça-se eficaz, ó augustíssimo faça-se!". Pois com os outros faça-se Deus criou a luz, o céu, a terra; mas com esse de Maria, diz o santo, um Deus virou homem como nós.
Mas não nos afastemos do nosso ponto; consideremos como foi grande a humildade da Virgem nessa resposta. Por certo fora ela iluminada a conhecer como era excelsa a dignidade de ser Mãe de Deus. Assegurava-lhe já o anjo que era ela essa beata mãe eleita pelo Senhor. Mas apesar disso não cresce nada o conceito que tem de si mesma, não se detém nem por um momento para comprazer-se da sua exaltação; tendo em vista de um lado o seu nada e de outro a infinita majestade do seu Deus, que a escolhia por mãe, reconhece-se indigna de tamanha honra, mas não quer opor-se nem um pouco à sua vontade. De modo que, solicitado o seu consentimento, o que faz? O que diz? Ela, anulada de si mesma, toda inflamada, por outro lado, pelo desejo de unir-se mais com Deus, abandonado-se toda à divina vontade: Eis, aqui, responde, a escrava do Senhor. Eis a escrava do Senhor, obrigada a fazer o que o seu Senhor comanda. E queria com isso dizer: "Se o Senhor escolhe por mãe a mim, que nada tenho de meu próprio, tudo o que tenho é presente seu, quem poderá pensar que Ele me escolhe por mérito meu? Eis a escrava do Senhor. Que mérito poderá ter uma escrava para se tornar mãe do seu Senhor? Eis a escrava do Senhor.
Louve, apenas, pois, a bondade do Senhor, e não se louve a escrava já que é nada mais do que bondade sua pôr os olhos numa criatura tão baixa como eu e tão grande torná-la".
"Ó grande humildade de Maria" - exclama aqui Guerrico, o abade -, "que a tornou pequena para si mesma, mas grande diante de Deus! Indigna aos olhos seus, mas digna aos olhos do seu imenso Senhor, que nem o mundo inteiro pôde abarcar!".
Porém, mais bela ainda a esse respeiro é a exclamação de S. Bernardo no sermão quarto sobre a Assunção de Maria, onde diz, admirando a humildade de Maria: "Senhora, como pudestes unir no vosso coração conceito de vós mesma tão humilde com tanta pureza, com tanta inocência, com tanta plenitude de graça?". "E donde", segue o santo, "ó Virgem beata, se arraigou tanto em vós essa humildade, e humildade tamanha, sendo que vos víeis tão honrada e exaltada por Deus?".
Lúcifer, vendo-se dotado de grande beleza, aspirou a alçar o seu trono sobre as estrelas e tornar-se semelhante a Deus: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas... Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo (Is 14,13-14). Ora, o que diria, ao que aspiraria o Soberbo, caso se visse ornado das qualidades de Maria? A humilde Maria não fez assim: quanto mais se viu exaltada, tanto mais se humilhou. "Ah, Senhora, por essa tão bela humildade" - conclui S. Bernardo - "bem vos tornastes digna que vos resguarde Deus com singular amor digna que de vós se enamore o vosso Rei pela vossa beleza: digna que arrasteis pelo suave odor de vossa humildade o eterno Filho do seu repouso, do seio de Deus, ao vosso puríssimo útero". Donde diz Bernardino de Bustis que Maria mereceu mais por aquela resposta, Eis a escrava do Senhor, do que seriam capazes de merecer juntas todas as criaturas com todas as suas obras¹. Assim é, diz S. Bernardo, uma vez que essa inocente Virgem, ainda que pela sua virgindade se tivesse tornado cara a Deus, não obstante pela humildade tornou-se ainda por cima digna, tanto quanto o poderia uma criatura, de ser feita Mãe do seu Criador.¹ E o confirma S. Jerônimo dizendo que Deus mais pela sua humildade do que por todas as suas outras excelsas virtudes a escolheu por Mãe, Maria mesma o exprimiu à S. Brígida, dizendo: "Donde mereci uma graça tal de ser feita Mãe do meu Senhor, senão porque reconheci o meu nada e me humilhei?". E antes o declarara no seu humilíssimo cântico, quando disse: Porque olhou para sua pobre serva... Porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso (Luc. 1,48-49). Onde nota S. Lourenço Giustiniani que a Santíssima Virgem "alude a que Deus antes olhou à sua baixeza do que à sua virgindade e inocência". E por essa humildade, adverte S. Francisco de Sales, não pretendia Maria louvar a sua virtude da humildade, mas declarar que Deus considerara o seu nada, e por sua mera bondade quisera assim exaltá-la.
Em suma, diz S. Agostinho que a humildade de Maria foi como uma escada pela qual o Senhor se dignou descer à terra para fazer-se homem em seu seio.² E confirmou-o S. Antonino, dizendo que a humildade da Virgem foi a sua disposição mais perfeita e mais próxima para ser Mãe de Deus.³ E com isso entende-se o que predisse Isaías: Um renovo saíra do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes (Is 11,1). Reflete o Santo Alberto Magno que a flor divina, isto é, o Unigênito de Deus, como disse Isaías, devia nascer não da sumidade ou do tronco da planta de Jessé, mas da raiz, justamente para denotar a humildade da mãe. E mais claramente o explica o abade de Celles: "Repara que não é da sumidade, mas da raiz que sobe a flor". E por isso disse o Senhor a essa sua dileta filha: Seus olhos são como pombas à beira dos regatos (Ct 5,12). S. Agostinho: "E voar de onde, senão do seio do Pai ao útero da Mãe?" Sobre o qual o douto intérprete Fernandez que os humilíssimos olhos de Maria, pelos quais remirava sempre a divina grandeza, sem jamais perder de vista o seu nada, fizeram tal violência a Deus mesmo que o arrastaram ao seu seio.¹ E com isso se entende, diz o abade Francone, por que o Espírito Santo levou tanto a beleza dessa sua esposa pelos seus olhos de pomba: Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas (Ct 4,1). Porque Maria, olhando para Deus com olhos de pomba simples e humilde, tanto o enamorou por sua beleza que com liames de amor o fez prisioneiro no seu útero virginal. Assim fala o abade Francone: "Onde por toda a terra tão formosa Virgem se poderia encontrar, que capturasse pelos olhos o Rei dos céus e com grilhões de caridade o trouxesse cativo por meio de pia violência".² De modo que Maria - encerremos este ponto - na Encarnação do Verbo, como vimos no começo, não pôde humilhar-se mais do que se humilhou. Vejamos agora como Deus, tendo-a feito sua mãe, não pôde exaltá-la mais do que a exaltou.
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Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório, Ed. MBC. 2019
sábado, 10 de fevereiro de 2024
As condições da oração
Livro: A Oração - Cap. III
Santo Afonso Maria de Ligório(1696-1787)
Bispo e Doutor da Igreja
Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.
I - Por quem e o que devemos pedir
1. As condições da oração
Jesus Cristo fez-nos a seguinte promessa: "Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai, em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Muitos, diz São Tiago, pedem e não recebem, porque pedem mal: "Pedis e não recebeis porque pedis mal" (Tg 4,3). São Basílio, explicando as palavras do Apóstolo, diz: "Pedes e não recebes, porque tua oração foi malfeita ou sem fé, sem devoção ou desejo; ou porque pediste coisa que não se referia à tua salvação eterna, ou pediste sem perseverança". Por isso Santo Tomás reduziu a quatro as condições requeridas na oração, para que obtenham o seu fruto: isto é, que o homem peça para si coisas necessárias à salvação, com devoção e com perseverança.
2. A primeira condição da oração é que rezemos por nós mesmos
Pois o Doutor Angélico julga que ninguém pode impetrar para outros, como mérito de justiça, a vida eterna e, por conseguinte, também as graças necessárias para a salvação deles, porque a promessa, diz ele, foi feita não para os que rezam para outros, mas os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á.
Não obstante, há muitos doutores que afirmam o contrário, apoiados na autoridade de São Basílio, que ensina ter a oração infalivelmente o seu efeito, ainda que se reze pelos outros, contanto que esses não oponham uma resistência positiva. Estes escritores se baseiam sobre textos das Sagradas Escrituras: "Orai uns pelos outros, para serdes salvos, porquanto muito vale a oração perseverante do justo" (Tg 5,16). "Rezai pelos que vos perseguem e caluniam" (Mt 5,44). O melhor texto é de São João: "Se alguém vir seu irmão cometer um pecado, que não é de morte, peça e será concedida a vida àquele cujo pecado não é de morte" (1Jo 5,16). As palavras: Cujo pecado não é de morte, Santo Agostinho, Beda, Ambrósio e outros explicam que se devem entender do pecador, que não quer viver obstinado até a morte; pois, para tal pecador, seria necessário uma graça muito extraordinária. Quanto aos outros pecadores, não atingiriam um grau tão alto de maldade, se alguém rezar por eles, promete-lhe, o Apóstolo, a conversão deles: "Peça e será dada a vida ao pecador".
3. As orações pelos outros, mormente pelos pecadores, são muito agradáveis a Deus
Não se duvida, entretanto, que as orações que fazemos pelos outros, mormente pelos pecadores, sejam muito agradáveis a Deus. O Senhor queixa-se de seus servos, que não rezam pelos pecadores. Um dia, lamentava-se Nosso Senhor a Santa Maria Madalena de Pazzi, a quem disse: "Vede, minha filha, como caem os cristãos nas mãos do demônio; se os meus escolhidos não os livrassem por suas orações, seriam tragados por ele". De um modo todo especial, porém, Nosso Senhor deseja e exige isso dos sacerdotes e religiosos. Por isso, dizia muitas vezes a santa às suas religiosas: "Irmãs, Deus nos separou do mundo, não somente para fazermos bem a nós mesmas, mas também para procurarmos aplacar sua ira contra os pecadores". Falou-lhe, uma vez, o Senhor: "Eu vos dei, a vós, esposas escolhidas, a cidade de refúgio (isto é, a Paixão de Jesus Cristo), para que tenhais onde recorrer para ajudar minhas criaturas; por isso, recorrei a ela e ali oferecei auxílio às minhas criaturas que perecem; sacrificai mesmo a vossa vida por elas". Pelo que a santa, inflamada de tanto zelo, oferecia a Deus, cinquenta vezes por dia, o sangue do Redentor pelos pecadores e se consumia em desejos por sua conversão, dizendo: "Que pena, Senhor! Como sinto ver que posso ajudar às tuas criaturas com o sacrifício de minha vida e, contudo, não poder realizá-lo!"
Ela, em todos os exercícios de piedade, recomendava os pecadores a Deus; e em sua vida se conta que não passava uma hora do dia em que não pedisse por eles. Frequentemente levantava-se à meia-noite e se dirigia à igreja, onde estava o Santíssimo Sacramento, para rezar pelos pecadores. Apesar de tudo isso, foi encontrada uma vez a chorar e, interrogada do motivo das lágrimas, respondeu: "Porque me parece que nada faço pela conversão dos pecadores". Chegou até a se oferecer a padecer as penas do inferno pela conversão deles, contanto que lá não tivesse de odiar a Deus. Frequentes vezes conseguiu ser atormentada de graves dores e enfermidades pela salvação dos pecadores. Rezava especialmente pelos sacerdotes, vendo que estes, com uma vida exemplar, seriam causa da salvação de muitos e com uma vida má levariam grande número à ruína e à perdição. Pedia a Nosso Senhor que a castigasse pelas culpas deles e dizia: "Senhor, fazei-me morrer tantas vezes e tornar à vida, até satisfazer por eles à vossa justiça". Em sua vida, conta-se que a santa, por suas orações, libertou de fato muitas almas das garras de Satanás.
4. Rezemos muito pela conversão dos pecadores!
Quis propositadamente dizer alguma coisa mais particular sobre o zelo desta santa. Enfim, todas as almas que amam sinceramente a Deus não cessam de rezar pelos pobres pecadores. E como é possível que uma pessoa que ama a Deus, vendo o amor que tem às almas e o que fez e sofreu por ela Nosso Senhor Jesus Cristo e o desejo que tem o Salvador que rezemos pelos pecadores, como é possível, digo, ver indiferente tantas almas vivendo sem Deus, feitas escravas do inferno e não se mover e se esforçar por pedir com insistência ao Senhor, queira conceder luzes e energias a estes infelizes, para saírem do estado em que se acham?
É certo que Deus não prometeu atender-nos, quando aqueles por quem rezamos se opõem à conversão. Entretanto, Nosso Senhor, por bondade e em atenção às orações de seus servos, dignou-se reconduzir ao caminho da salvação mesmo os pecadores mais obcecados e obstinados. Por isso, recomendemos sempre a Deus os pobre pecadores ao celebrarmos a santa Missa, na comunhão, na meditação e na visita ao Santíssimo Sacramento.
Diz um ilustre escritor que, rezando pelos outros, seremos atendidos mais prontamente do que quando rezamos por nós mesmos. Disse isso de passagem. Examinemos as outras condições da oração segundo Santo Tomás.
5. A segunda condição
É que peçamos as graças necessárias à salvação, porque a promessa divina não foi dada para os bens temporais, que não são necessários à salvação da alma. Diz Santo Agostinho, explicando as palavras do Evangelho, em meu nome, anteriormente citadas, que "não se pede em nome do Salvador o que é contrário aos interesses de nossa salvação".
6. Motivos por que Deus muitas vezes parece não nos atender
Às vezes, pedimos algumas graças temporais e Deus não nos atende; mas não nos atende porque nos ama, diz o mesmo Doutor, e quer usar de misericórdia para conosco: "Quem pede a Deus humilde e confiantemente coisas necessárias para esta vida, ora é ouvido por misericórdia e ora não é atendido por misericórdia; pois, do que o doente tem necessidade, melhor sabe o médico do que o doente". O médico que se interessa pelo doente nunca permitirá coisas que lhe possam fazer mal.
Quantos, se fossem pobres ou doentes, não cometeriam os pecados que cometem sendo ricos e sadios! Por isso o Senhor nega a alguns, que lhe pedem a saúde do corpo ou os bens da fortuna, porque os ama, vendo que isso lhes seria ocasião de perderem a sua graça, ou ao menos de se entibiarem na vida espiritual. Contudo, não queremos dizer com isso que seja uma falta pedir a Deus as coisas necessárias à vida presente, contanto que estejam em relação com a salvação eterna, como pediu o sábio: "Dai-me, Senhor, unicamente o que for necessário para viver" (Pr 30,8). Não é uma falta, diz Santo Tomás, ter um cuidado moderado por estas coisas; proibido é desejar e procurar estes bens como principais e ter por eles um cuidado demasiado, como se formassem toda a nossa felicidade. Quando pedirmos a Deus bens temporais, devemos pedi-los com resignação e sob a condição de aproveitarem à alma. Se vemos que o Senhor não os concede, tenhamos por certo que os nega pelo amor que nos tem e porque prevê que vão prejudicar à salvação de nossa alma.
7. Quando Deus não atende é sempre para nosso próprio bem
Muitas vezes pedimos a Deus que nos livre de alguma tentação perigosa, e Deus não nos atende e permite que a tentação continue. Nesse caso, devemos entender que Deus assim permite para nosso próprio bem. Não são as tentações e maus pensamentos que nos afastam de Deus, mas sim o consentimento dado. Quando a alma tentada se recomenda a Deus e, com o seu auxílio, resiste aos ataques de seus inimigos, progride na virtude e une-se mais estreitamente a Ele. Esta é a razão por que o Senhor deixa de atendê-la. São Paulo pedia insistentemente ao Senhor que o livrasse das tentações impuras: "Permitiu Deus que sentissse em minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás, para me esbofetear; por cuja causa roguei ao Senhor três vezes que o afastasse de mim" (2Cor 12,7). Mas o Senhor respondeu: "Basta-te a minha graça".
Devemos, pois, nas tentações pedir a Deus com resignação, dizendo: Senhor, livrai-me deste tormento, se assim for conveniente para minha salvação; senão, dai-me ao menos o auxílio para resistir-lhe.
Devemos lembrar aqui o que diz São Bernardo, que, quando pedimos a Deus alguma graça, Ele nos dá a graça pedida ou outra melhor. Deus muitas vezes nos deixa sofrer no meio da tempestade, a fim de provar a nossa fidelidade e para o nosso maior proveito. Parece, então, surdo às nossas orações. Não! Estejamos seguros de que Deus nos ouve e nos ajuda ocultamente, dando-nos forças para resistirmos aos assaltos dos inimigos. Isto Ele nos assegura por boca do Salmista: "Na tribulação me invocaste e te livrei: eu te ouvi no escondido da tempestade; provei-te junto à água da contradição" (Sl 80,8).
8. Condições dadas por Santo Tomás
Finalmente eis as outras condições que Santo Tomás exige para a oração: Que se reze com devoção e perseverança. Com devoção, quer dizer, com humildade e confiança; com perseverança, quer dizer, sem deixar de rezar até a morte.
Destas condições, pois, da humildade, confiança e perseverança, que são as mais necessárias à oração, importa falar de cada uma distintamente.
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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.
quinta-feira, 26 de outubro de 2023
Vida de oração - Introdução
A ORAÇÃO
Santo Afonso Maria de Ligório
(1696-1787)
Bispo e Doutor da Igreja
Editora Santuário
Ao Verbo Encarnado
Jesus Cristo
DILETO DO ETERNO PAI,
BENDITO DO SENHOR, AUTOR DA VIDA,
REI DA GLÓRIA, SALVADOR DO MUNDO,
DESEJADO DAS NAÇÕES,
DESEJO DAS COLINAS ETERNAS,
PÃO CELESTE, JUIZ UNIVERSAL,
MEDIANEIRO ENTRE DEUS E OS HOMENS,
MESTRE DA VIRTUDE,
CORDEIRO SEM MANCHA,
HOMEM DAS DORES, SACERDOTE ETERNO,
VÍTIMA DE AMOR, FONTE DE GRAÇA,
BOM PASTOR, AMANTE DAS ALMAS,
dedico esta obra Afonso, pecador.
INTRODUÇÃO
1. Publiquei várias obras espirituais. Penso, entretanto, não ter escrito obra mais útil do que esta, na qual trato da oração, porque a oração é o meio necessário e certo de alcançarmos todas as graças necessárias para a salvação. Se me fosse possível, faria imprimir tantos exemplares deste livro quantos são os fiéis de todo o mundo. Daria um exemplar a cada um, a fim de que todos pudessem compreender a necessidade que temos de orar para nos salvar.
2. Falo assim porque vejo, de um lado, a absoluta necessidade da oração, tão altamente recomendada pelas Santas Escrituras e por todos os santos Padres. E de outro lado, vejo que poucos cuidam de empregar este grande meio de salvação. E o que mais me causa dor é ver que pregadores e confessores tão pouco se lembram de recomendar a oração a seus ouvintes penitentes! Mesmo os livros espirituais, que hoje em dia andam nas mãos dos fiéis, não tratam suficientemente desse assunto, quando é certo que todos os pregadores e confessores e todos os livros não deveriam incutir nada com mais empenho e afinco do que a necessidade de rezar.
Ensinam às almas tantos meios de se conservarem na graça de Deus, como fugir das ocasiões, frequentar os sacramentos, resistir às tentações, ouvir a Palavra de Deus, meditar nas verdades eternas e outros tantos meios, todos eles, certamente de muita utilidade. Digo, porém: de que servem as pregações, as meditações e todos os outros meios aconselhados pelos mestres da vida espiritual, se faltar oração, quando é certo que o Senhor diz não "conceder suas graças, senão a quem pedir?" "Pedi e recebereis" (Mt 7,7).
Sem a oração, segundo a providência ordinária de Deus, serão inúteis todas as meditações, todos os propósitos e todas as promessas. Se não rezarmos, seremos infiéis a todas as luzes recebidas e a todas as nossas promessas. A razão é a seguinte: para fazer atualmente o bem, para vencer as tentações e para praticar a virtude, numa palavra, para observar inteiramente todos os preceitos divinos, não bastam as luzes recebidas anteriormente, nem as meditações e os propósitos que fizemos. É necessário ainda o auxílio de Deus. E este auxílio atual, como logo veremos, Deus não o concede senão a quem reza e reza com perseverança. As luzes recebidas, as considerações e os bons propósitos que fazemos, servem para que rezemos nas ocasiões iminentes de desobedecer à lei divina e, assim, possamos obter o socorro divino, que nos conservará incólumes do pecado. Sem isto, sucumbiremos.
3. Eu queria, amigo leitor, antes de tudo o que vou dizer aqui, explicar esta minha sentença para agradecerdes a Deus que, por meio deste meu livreto, vos dá a graça de refletir mais profundamente sobre a importância deste grande meio da oração, pois todos os que se salvam, falando dos adultos, ordinariamente só por meio da oração é que conseguem salvar-se. Por isso, repito, agradecei a Deus, pois muito grande é a sua misericórdia concedendo-nos a luz e a graça de rezar.
Espero, irmão caríssimo, que depois de terdes lido esta obra, não vos esquecereis de recorrer sempre a Deus pela oração, quando fordes tentado a ofendê-lo. E, se alguma vez sentirdes a consciência gravada com muitos pecados, sabeis que a causa disto é a falta de oração e de pedir a Deus auxílios necessários para resistir às tentações que vos assaltam. Peço-vos, portanto, que leiais este livreto e o torneis a ler, com toda atenção, não por ser trabalho meu, mas sim porque é um meio que Deus vos concede para conseguirdes a vossa salvação eterna, dando-vos assim a entender, de modo particular, que vos quer salvar. E, depois de o terdes lido, peço-vos que, sendo possível, o façais ler a vossos conhecidos e amigos.
Comecemos, pois, em nome do Senhor!
4. Escrevendo a Timóteo, o Apóstolo diz: "Rogo-te, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças" (1Tm 2,1). Santo Tomás, o Doutor Angélico, explica essas palavras dizendo que a oração consiste propriamente na elevação da alma a Deus. A prece consiste em pedir a Deus coisas, quer particulares e determinadas, quer indeterminadas, por exemplo quando dizemos: Senhor, vinde em meu socorro! O pedido consiste em impetrar a graça. Assim como quando dizemos: Por vossa paixão e cruz, livrai-nos, Senhor!
A ação de graças, enfim, consiste em agradecer os benefícios recebidos, pelo que, como diz Santo Tomás, merecemos receber benefícios ainda maiores. A oração no sentido estrito, diz o Santo Doutor, significa recorrer simplesmente a Deus. Mas, em sua acepção geral, compreende todas as outras espécies já mencionadas. Deste modo, nós a entendemos e neste sentido é que, daqui por diante, empregaremos a palavra "oração".
Para concebermos um grande amor à oração e para usarmos com fervor deste grande meio da salvação, consideremos, antes de tudo, quanto ela nos é necessária e quão poderosa é para nos obter todas as graças, que desejamos de Deus, se pedirmos como devemos.
Por isso, na primeira parte, trataremos da necessidade e do valor da oração e, depois, das qualidades que a oração deve ter para ser eficaz diante de Deus.
Livro: A oração - Santo Afonso Mª de Ligório, pág. 10-14. Ed. Santuário.



