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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Morte do justo

 


Santo Afonso Mª de Ligório


Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. 
É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos (Sl 115,15). 


PONTO I 

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa. Preciosa, - disse São Bernardo - porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida". E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos. 
Os mundanos, desejosos de longa vida - diz Sêneca - que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver - exclama Santo Agostinho - senão continuar a sofrer? A vida presente - disse Santo Ambrósio - não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio - mais parece alívio o morrer do que castigo. 
Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar. "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde hoje - disse o Espírito Santo - que descansem de seus trabalhos" (Ap 14,13).
Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos. "As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não os atingirá o tormento da morte" (Sb 3,1). Não temem os Santos aquela ordem de sair desta vida, que tanto amedronta aos mundanos, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca apegaram a eles o seu coração. "Deus do meu coração - repetiram sempre; Deus meu por toda a eternidade" (Sl 72,26). Sois felizes, - escrevia o Apóstolo a seus discípulos, que tinham sido despojados de seus bens por terem confessado a Cristo. - Suportastes essa perda com alegria, sabendo que vos espera patrimônio mais excelente e duradouro (Hb 10,34). Não se afligem os Santos por terem de deixar honras mundanas, pois sempre as desprezaram e as tiveram na conta do que são efetivamente: fumo e vaidade, e somente estimaram a honra de amar a Deus e de ser por Ele amados. Não se afligem por terem de deixar seus parentes, porque somente os amaram em Deus, e, ao morrer, os deixam recomendados àqueles Pai celestial que os ama mais do que eles; e esperando salvar-se, crêem que melhor lhes poderão ajudar lá no céu do que ficando na terra. Em suma: todos aqueles que disseram sempre durante a vida Meu Deus e meu tudo, repetem-no ainda com maior consolo e ternura no momento da morte. 
Quem morre no amor de Deus, não se inquieta com as dores que acompanham a morte, antes se compraz nelas, considerando que a vida vai-se acabar e que já não terá mais a sofrer por Deus nem a testemunhar-lhe novas provas de amor. Assim, com afeto e paz, lhe oferece os últimos restos da sua vida e consola-se, unindo o sacrifício de sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós na cruz a seu eterno Pai. Desta maneira morre satisfeito, dizendo: "Em seu seio dormirei e descansarei em paz" (Sl 4,8). Que felicidade morrer entregando-se nos braços de Cristo, que nos amou até a morte, e que quis sofrer morte tão cruel para alcançar-nos morte doce e consoladora!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó amado Jesus, que para dar-me morte feliz quisestes sofrer morte crudelíssima no Calvário! Quando vos tornarei a ver?... A primeira vez que vos verei será quando me julgardes, no momento de expiar. 
Que vos direi então?... E vós, que me direis?... Não quero esperar até que chegue este instante para pensar nisso; quero meditá-lo desde já. 
Dir-vos-ei: "Senhor: vós, amado Redentor meu, morrestes por mim...
Houve tempo em que vos ofendi, e fui ingrato para convosco e não merecia perdão. Mas, ajudado por vossa graça, procurei emendar-me, e no resto de minha vida chorei meus pecados, e vós me perdoastes.
Perdoai-me de novo agora que estou a vossos pés e outorgai-me vós mesmo a absolvição geral de minhas culpas. Não merecia mais amar-vos, por ter desprezado vosso amor. Mas vós, Senhor, por vossa misericórdia atraístes meu coração, que, se não vos tem amado como mereceis, amou-vos sobre todas as coisas, deixando tudo para vos agradar... Que me direis agora?... Verdade é que a glória de vos contemplar no vosso reino é altíssima distinção de que não sou digno; mas não poderei viver afastado de vós, especialmente agora que me mostrartes a vossa excelsa formosura. Peço-vos, pois, o paraíso, não para poder gozar mais, mas para melhor vos amar. Nem quero tampouco entrar nessa pátria de santidade e ver-me entre aquelas almas puras, manchado como estou agora por minhas culpas. Mandai que antes me purifique, mas não me expulsei para sempre de vossa presença... Basta que algum dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para que ali cante eternamente as vossas misericórdias. Por agora, meu amado Jesus, dai-me vossa benção e garanti-me que sou vosso, que sereis sempre meu, que vos amarei e me amareis para sempre... Aparto-me agora de vós, Senhor, para ir às chamas purificadoras; mas vos contante, porque ali hei de amar-vos, Redentor meu, meu Deus e meu tudo...

Vou contente, sim, mas sabei que, enquanto estiver longe de vós, essa separação temporal será minha maior pena. Contarei, Senhor, os instantes até que me chameis... Tende compaixão de uma alma que vos ama com todas as suas forças, e que suspira por ver-vos para melhor vos amar. Assim, meu Jesus, espero então falar-vos. Até lá, vos peço a graça de viver de modo que possa dizer-vos então o que agora acabo de pensar. Concedei-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor... e ajudai-me. 

Ó Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus por mim! 


PONTO II

Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da  morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma. 

Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça. 

Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando: "Retirai-vos, meu irmão, - dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração - retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder. Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo: "Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida". É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada e inefável dita de jamais poder perder a Deus. 

Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu: "E por que é que chorais, sendo que vos descansar de meu trabalhos?".

Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer: "Consolai-vos comigo, porque deixo este vale de lágrimas e vou para a pátria da paz". Se alguém - disse São Cipriano - habitasse numa casa cujas paredes ameaçassem ruínas, cujo pavimento e teto estremecessem, quanto não desejarias sair dela?... Nesta vida tudo ameaça ruína da alma: o mundo, o inferno, as paixões, os sentidos rebeldes, tudo nos leva ao pecado e à morte eterna. Quem me livrará - exclamava o Apóstolo - deste corpo de morte? (Rm 7,24). Que alegria sentirá a alma quando ouvir: "Vem, minha esposa, sai do lugar do pranto, da cova dos leões que te quiseram devorar e fazer perder a graça divina (Ct 4,11). Por isso, São Paulo, desejando morrer, dizia que Jesus Cristo era a sua única vida, e que estimava a morte como o maior tesouro que pudesse ganhar, já que por meio dela alcançaria a vida que jamais tem fim (Fp 2,21). 

Grande obséquio faz Deus à alma em estado de graça, retirando-a deste mundo, onde poderia transviar-se e perder a amizade divina (Sb 4,11). Feliz aquele que nesta vida está unido a Deus; mas, como o navegante não pode dizer-se seguro enquanto não chega ao porto e ao abrigo da tormenta, assim uma alma só pode ser verdadeiramente feliz, quando sai da vida na graça de Deus. Louva a ventura do navegante que chegou ao porto - disse Santo Ambrósio... Se o navegante se alegra quando, após tantos perigos, está a chegar ao porto desejado, quanto mais se não deve alegrar aquele que está próximo a assegurar sua eterna salvação? Ademais, neste mundo não podemos viver sem culpas, ao menos leves; porque sete vezes cairá o justo (Pr 21,16). Mas aquele que sai desta vida, cessa de ofender a Deus. Que é a morte - disse o mesmo Santo - senão o sepulcro dos vícios? Mais um motivo para os que amam a Deus desejarem vivamente a morte. O venerável P. Vicente Caraffa consolava-se ao morrer, dizendo: Terminando minha vida, acabam minhas ofensas a Deus. E o já citado Santo Ambrósio dizia: Para que desejamos mais longa vida, se, quanto mais longa for, de maior peso de pecado nos carrega? O que falece na graça de Deus chega ao estado feliz de não saber nem poder ofendê-lo mais. O morto não sabe pecar. Eis o motivo por que o Senhor louva mais os mortos que os vivos, ainda que sejam santos (Ec 4,2). Não faltou quem ordenasse que, à hora da morte, lha anunciassem por estes termos: Alegra-te que chegou o tempo em que não mais ofenderás a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

"Em tuas mãos encomendo meu espírito. Tu me remiste, Senhor, Deus da Verdade" (Sl 30,6). Ó doce Redentor meu, que seria de mim se me tivésseis entregado à morte quando me achava afastado de vós?...

Estaria no inferno, onde não vos poderia amar. Agradeço-vos o não me terdes abandonado, e me concederdes tantas graças para atrair o meu coração. Arrependo-me de vos ter ofendido. Amo-vos sobre todas as coisas. Rogo-vos que sempre me façais conhecer o mal que cometi, desprezando-vos, e o grande amor que merece vossa infinita bondade. 

Amo-vos, e, se assim vos apraz, desejo morrer cedo para evitar o perigo de tornar a perder vossa santa graça, e para estar seguro de vos amar eternamente. Dai-me, pois, ó amado Jesus, durante o tempo que me resta de vida, força e ânimo para vos servir antes que chegue a morte. Dai-me força para vencer a tentações e as paixões, sobretudo aquelas que na vida passada mais me levaram a ofender-vos. Dai-me paciência para sofrer as enfermidades e as ofensas que do próximo receber. Eu, por vosso amor, perdoo a todos os que me ofenderam, e vos suplico que lhe outorgueis as graças que desejarem. Dai-me força para que seja mais diligente em evitar as faltas veniais que a miúdo cometo. Ajudai-me, meu Salvador, tudo espero de vossos méritos...

Deposito toda a minha confiança em vossa intercessão, ó Maria, minha mãe e minha esperança!


PONTO III

A morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo. Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2). 

São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus. 

Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!... Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que Davi dizia: "Livrai minha alma da prisão" (Sl 141,8). E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida: "Agora, Senhor, despede o teu servo... (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, - pede ser despedido, como se estivesse preso à força". Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia: "Tenho desejo de me ver livre desta carne, e estar com Cristo" (Fl 3,32). 

Quanta alegria sentiu o copeiro do Faraó ao saber de José que dentro em pouco sairia da prisão e voltaria ao exercício de seu posto. E uma alma que ama a Deus não se regozijará ao pensar que em breve sairá da prisão deste mundo para ir gozar a Deus? Enquanto vivemos unidos ao corpo, estamos impedidos de ver a Deus, e como em terra estranha, fora da pátria. Com razão disse São Bruno que a nossa morte não se deve chamar morte, senão vida. 

Daí vem o chamar-se nascimento a morte dos Santos, porque nesse instante nascem para a bem-aventurança eterna, que não terá fim. "Para o justo - disse Santo Atanásio - não há morte, apenas trânsito, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz. "Ó morte amável! - exclama Santo Agostinho - quem não tem te desejará, pois és fim dos trabalhos, termo das angústias, princípio do descanso!" E com instância pedia: Oxalá morresse, Senhor, para vos poder ver! O pecador teme a morte - diz São Cipriano, - porque da vida temporal passará à morte eterna, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida. Na vida de São João, o Esmoler, se refere que um homem rico dera ao Santo esmolas avultadas, a fim de pedir este a Deus vida longa para o único filho que ele tinha. Mas o moço morreu pouco tempo depois. Como o pai se lamentasse dessa morte inesperada, Deus lhe enviou um anjo que lhe disse: "Pediste longa vida para teu filho, pois saibas que já está no céu gozando da eterna felicidade." Tal é a graça que vos alcança Jesus Cristo, segundo a promessa que foi feita pelo profeta Oséias: Ó morte, eu hei de ser a tua morte (Os 13,14). Cristo, morrendo por nós, fez com que a morte se transformasse em vida. Aqueles que conduziram ao suplício o mártir São Piôncio, perguntaram-lhe maravilhados como podia ir tão alegremente para a morte. "Ah! - respondeu o Santo, - estais enganados! Não vou para a morte e sim para a vida". Do mesmo modo também a mãe do jovem Sinforiano exortava seu filho quando estava para sofrer o martírio: "Ó meu filho, não vão tirar-te a vida, senão para convertê-la em outra melhor!"


AFETOS E SÚPLICAS

Ó Deus de minha alma! Ofendi-vos em minha vida passada, afastando-me de vós; mas vosso Divino Filho vos honrou na cruz com o sacrifício de sua vida. Em consideração dessa honra que vos tributou vosso amantíssimo, perdoai-me as injúrias que vos fiz. Arrependo-me, Senhor, de vos ter ofendido, e prometo amar somente a vós doravante. De vós espero minha eterna salvação, assim como reconheço que todos os bens que possuo, houve-os de vossa graça, pois todos são dons de vossa bondade. "Pela graça de Deus sou o que sou" (1Cor 15,10). Se, pelo passsado, vos ofendi, espero honrar-vos eternamente, louvando vossa misericórdia... Sinto vivíssimo desejo de vos amar... Sois vós, Senhor, que mo inspirais, e vos dou, meu amor, fervorosas graças. 

Continuai, continuai a ajudar-me como agora, que espero ser vosso, inteiramente vosso. Renuncio aos prazeres deste mundo. Que maior gozo, Senhor, posso ter que comprazer-me em vós, meu Senhor, que sois tão amável e que tanto me tendes amado? Só vos peço, ó Deus de minha alma! Amor e sempre amor espero pedir-vos, até que, morrendo em vosso amor, alcance o reino do verdadeiro amor, onde, sem o pedir, de amor me abrase, não cessando de vos amar nem um momento por toda a eternidade, e com todas as minhas forças. 

Maria, minha Mãe, que tanto amais a Deus e tanto desejais que seja amado, fazei que muito o ame nesta vida, a fim de que possa amá-lo para sempre na eternidade! 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte






quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Da anunciação de Maria - I





 Discurso IV - Santo Afonso Maria de Ligório 

 

Maria na Encarnação do Verbo não pôde humilhar-se mais do que se humilhou: Deus, por sua vez, não pôde exaltá-la mais do que a exaltou.

 

Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. Essa é a palavra do Senhor, não pode errar: Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado (Mt 23,12). Donde, tendo Deus decretado fazer-se homem para redimir o homem perdido e assim manifestar ao mundo a sua bondade infinita, e tendo na terra de escolher a mãe, ia buscando entre as mulheres a que fosse dentre elas a mais santa e mais humilde. Mas de todas uma apenas enxergou, e foi a Virgem Maria, que quanto era mais perfeita nas virtudes, tanto mais simples e humilde, como uma pomba, no conceito que tinha de si. Dizia o Senhor, uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita (Ct 6,9). Por isso essa, disse Deus, seja eleita a minha mãe. Daqui vejamos quanto Maria foi humilde, e por isso quanto Deus a exaltou. 

Maria na Encarnação do Verbo não pôde humilhar-se mais do que se humilhou; será esse o primeiro ponto. Deus não pôde exaltá-la mais do que a exaltou; esse será o segundo. 


Ponto I - De como Maria não poderia humilhar-se mais do que se humilhou

Falando o Senhor no Cântico dos Cânticos justamente da humildade dessa humilíssima Virgenzinha, disse: Enquanto o rei descansa em seu divã, meu nardo exala o seu perfume (Ct 1,11). Comenta S. Antônio essas palavras, e diz que no nardo, por ser planta tão pequena e baixa, está prefigurada a humildade de Maria, cujo odor subiu ao céu, e do seio do Pai Eterno atraiu ao seu útero virginal o Verbo Divino¹. De modo que o Senhor, atraído pelo odor dessa humilde Virgenzinha, escolheu-a por mãe ao fazer-se homem para redimir o mundo. Mas Ele, para maior glória e mérito dessa mãe, não quis fazer-se dela filho sem ter dela o consentimento, diz Guilherme, o abade. Daqui, enquanto a humilde Virgenzinha estava no seu pobre casebre, e suspirava e rogava a Deus com maior desejo então do que jamais antes que mandasse o Redentor, como foi revelado a S. Isabel, monja de S. Bento, eis que vem o arcanjo Gabriel para trazer-lhe a notícia;entra e a saúda dizendo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres (Lc 1,28; 1,42): Ave, ó Virgem cheia de graça, pois fostes vós sempre rica em graça acima de todos os santos. O Senhor é convosco, porque sois assim tão humilde. Vós sois bendita entre as mulheres, visto que todas as outras incorreram na maldição da culpa, mas vós, porque Mãe do Bendito, fostes e sereis sempre bendita e livre de toda mancha. 

A humilde Maria, entretanto, a essa saudação, assim cheia de louvor, o que responde? Nada; não respondeu, mas pensando na saudação perturbou-se: Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação (Lc 1,29). - E por que se perturbou? Acaso por medo que fosse uma ilusão, ou por modéstia, já que via um homem, como tentou explicar alguém pensando que o anjo lhe apareceu sob forma humana? Não, o texto é claro: perturbou-se com estas palavras; repara Eusébio Emisseno: "Não com a aparição, mas com as palavras". Veio portanto a pertubação inteiramente da humildade ao ouvir aqueles louvores tão distantes do conceito que de si fazia. Donde quanto mais ouve exaltar-se pelo anjo, mais se abaixa e põe-se a considerar o seu nada. Reflete aqui S. Bernardino e diz que se o anjo lhe houvesse dito que ela era a maior pecadora do mundo, Maria não se espantaria tanto; mas de ouvir aqueles louvores tão excelsos, perturbou-se toda.² Perturbou-se porque, sendo tão cheia de humildade, aborrecia todo louvor seu, e desejava que o seu Criador e dador de todo bem fosse louvado e bendito; assim, Maria mesma disse a S. Brígida, falando do momento em que foi feita Mãe de Deus. 

Mas pelo menos, digo eu, já bem havia a Santíssima Virgem aprendido nas Sagrdas Escrituras que já era chegado o tempo predito pelos Profetas da vinda do Messias, já foram cumpridas as semanas de Daniel, já fora, segundo a profecia de Jacó, passado à mão de Herodes, rei estrangeiro, o cetro de Judá, já sabia que uma virgem que não lhe pareciam havia de ser a mãe do Messias; ouve então do anjo aqueles louvores, que não lhe pareciam convir a outra senão à mãe de Deus; terá lhe ocorrido então o pensamento, ao menos um: quem sabe não era ela essa mãe eleita de Deus? Não, a sua profunda humildade não deixou nem mesmo passar por ela esse pensamento. Puderam aqueles louvores somente incutir-lhe grande temor, de tal modo que, como reflete S. Pedro Crisólogo, tal como o Salvador quis ser confortado por um anjo, assim foi necessário que S. Gabriel, vendo Maria tão espantada com aquela saudação, a animasse dizendo: Não temais, ó Maria, nem vos assombreis com os títulos grandiosos com que vos saudei, pois, se aos vossos olhos vós sois pequena e baixa. Deus, que exalta os humildes, fez-vos digna de encontrar a graça perdida pelos homens, e por isso Ele vos preservou da comum mancha de todos os filhos de Adão; por isso desde a vossa Conceição vos honrou com uma graça maior do que a de todos os santos; por isso, enfim, agora vos exalta a o ponto de fazer-vos sua mãe: Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus (Lc 1,31).

Pois agora, então, o que aguarda? "Senhora, o anjo aguarda a vossa resposta" - diz S. Bernardo - "antes, aguardamo-la nós, condenados que somos à morte. Eis, ó mãe nossa, a vós já se oferece o preço da nossa salvação, que será o Verbo Divino em vós tornado homem; se vós tornado homem; se vós o aceitardes por filho, imediatamente seremos da morte libertados; o vosso mesmo Senhor, por enamorado que esteja da vossa beleza, ainda assim deseja o vosso consentimento, pelo qual determinou salvar o mundo".¹ Retoma S. Agostinho: "Depressa, Senhora, respondei; não adieis mais ao mundo a salvação, que do vosso consentimento depende.¹

Mas eis que Maria responde; responde ao anjo e diz: Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Ó resposta, que mais bela, mais humilde e mais prudente não poderiam ter inventado toda a sabedoria dos homens e dos anjos em conjunto, mesmo que pensassem por um milhão de anos! Ó resposta poderosa, que alegrastes o céu e trouxestes à terra um mar imenso de graças e de bens! Resposta que, apenas saída do humilde coração de Maria, atraíste do seio do Pai Eterno o unigênito Filho ao seu puríssimo útero para tornar-se homem! Sim, porque apenas proferiu aquelas palavras, o Filho de Deus virou filho também de Maria. "Ó poderoso faça-se!" - exclama S. Tomás de Vilanova - ó faça-se eficaz, ó augustíssimo faça-se!". Pois com os outros faça-se Deus criou a luz, o céu, a terra; mas com esse de Maria, diz o santo, um Deus virou homem como nós. 

Mas não nos afastemos do nosso ponto; consideremos como foi grande a humildade da Virgem nessa resposta. Por certo fora ela iluminada a conhecer como era excelsa a dignidade de ser Mãe de Deus. Assegurava-lhe já o anjo que era ela essa beata mãe eleita pelo Senhor. Mas apesar disso não cresce nada o conceito que tem de si mesma, não se detém nem por um momento para comprazer-se da sua exaltação; tendo em vista de um lado o seu nada e de outro a infinita majestade do seu Deus, que a escolhia por mãe, reconhece-se indigna de tamanha honra, mas não quer opor-se nem um pouco à sua vontade. De modo que, solicitado o seu consentimento, o que faz? O que diz? Ela, anulada de si mesma, toda inflamada, por outro lado, pelo desejo de unir-se mais com Deus, abandonado-se toda à divina vontade: Eis, aqui, responde, a escrava do Senhor. Eis a escrava do Senhor, obrigada a fazer o que o seu Senhor comanda. E queria com isso dizer: "Se o Senhor escolhe por mãe a mim, que nada tenho de meu próprio, tudo o que tenho é presente seu, quem poderá pensar que Ele me escolhe por mérito meu? Eis a escrava do Senhor. Que mérito poderá ter uma escrava para se tornar mãe do seu Senhor? Eis a escrava do Senhor. 

Louve, apenas, pois, a bondade do Senhor, e não se louve a escrava já que é nada mais do que bondade sua pôr os olhos numa criatura tão baixa como eu e tão grande torná-la". 

"Ó grande humildade de Maria" - exclama aqui Guerrico, o abade -, "que a tornou pequena para si mesma, mas grande diante de Deus! Indigna aos olhos seus, mas digna aos olhos do seu imenso Senhor, que nem o mundo inteiro pôde abarcar!". 

Porém, mais bela ainda a esse respeiro é a exclamação de S. Bernardo no sermão quarto sobre a Assunção de Maria, onde diz, admirando a humildade de Maria: "Senhora, como pudestes unir no vosso coração conceito de vós mesma tão humilde com tanta pureza, com tanta inocência, com tanta plenitude de graça?". "E donde", segue o santo, "ó Virgem beata, se arraigou tanto em vós essa humildade, e humildade tamanha, sendo que vos víeis tão honrada e exaltada por Deus?". 

Lúcifer, vendo-se dotado de grande beleza, aspirou a alçar o seu trono sobre as estrelas e tornar-se semelhante a Deus: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas... Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo (Is 14,13-14). Ora, o que diria, ao que aspiraria o Soberbo, caso se visse ornado das qualidades de Maria? A humilde Maria não fez assim: quanto mais se viu exaltada, tanto mais se humilhou. "Ah, Senhora, por essa tão bela humildade" - conclui S. Bernardo - "bem vos tornastes digna que vos resguarde Deus com singular amor digna que de vós se enamore o vosso Rei pela vossa beleza: digna que arrasteis pelo suave odor de vossa humildade o eterno Filho do seu repouso, do seio de Deus, ao vosso puríssimo útero". Donde diz Bernardino de Bustis que Maria mereceu mais por aquela resposta, Eis a escrava do Senhor, do que seriam capazes de merecer juntas todas as criaturas com todas as suas obras¹. Assim é, diz S. Bernardo, uma vez que essa inocente Virgem, ainda que pela sua virgindade se tivesse tornado cara a Deus, não obstante pela humildade tornou-se ainda por cima digna, tanto quanto o poderia uma criatura, de ser feita Mãe do seu Criador.¹ E o confirma S. Jerônimo dizendo que Deus mais pela sua humildade do que por todas as suas outras excelsas virtudes a escolheu por Mãe, Maria mesma o exprimiu à S. Brígida, dizendo: "Donde mereci uma graça tal de ser feita Mãe do meu Senhor, senão porque reconheci o meu nada e me humilhei?". E antes o declarara no seu humilíssimo cântico, quando disse: Porque olhou para sua pobre serva... Porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso (Luc. 1,48-49). Onde nota S. Lourenço Giustiniani que a Santíssima Virgem "alude a que Deus antes olhou à sua baixeza do que à sua virgindade e inocência". E por essa humildade, adverte S. Francisco de Sales, não pretendia Maria louvar a sua virtude da humildade, mas declarar que Deus considerara o seu nada, e por sua mera bondade quisera assim exaltá-la. 

Em suma, diz S. Agostinho que a humildade de Maria foi como uma escada pela qual o Senhor se dignou descer à terra para fazer-se homem em seu seio.² E confirmou-o S. Antonino, dizendo que a humildade da Virgem foi a sua disposição mais perfeita e mais próxima para ser Mãe de Deus.³ E com isso entende-se o que predisse Isaías: Um renovo saíra do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes (Is 11,1). Reflete o Santo Alberto Magno que a flor divina, isto é, o Unigênito de Deus, como disse Isaías, devia nascer não da sumidade ou do tronco da planta de Jessé, mas da raiz, justamente para denotar a humildade da mãe. E mais claramente o explica o abade de Celles: "Repara que não é da sumidade, mas da raiz que sobe a flor". E por isso disse o Senhor a essa sua dileta filha: Seus olhos são como pombas à beira dos regatos (Ct 5,12). S. Agostinho: "E voar de onde, senão do seio do Pai ao útero da Mãe?" Sobre o qual o douto intérprete Fernandez que os humilíssimos olhos de Maria, pelos quais remirava sempre a divina grandeza, sem jamais perder de vista o seu nada, fizeram tal violência a Deus mesmo que o arrastaram ao seu seio.¹ E com isso se entende, diz o abade Francone, por que o Espírito Santo levou tanto a beleza dessa sua esposa pelos seus olhos de pomba: Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas (Ct 4,1). Porque Maria, olhando para Deus com olhos de pomba simples e humilde, tanto o enamorou por sua beleza que com liames de amor o fez prisioneiro no seu útero virginal. Assim fala o abade Francone: "Onde por toda a terra tão formosa Virgem se poderia encontrar, que capturasse pelos olhos o Rei dos céus e com grilhões de caridade o trouxesse cativo por meio de pia violência".² De modo que Maria - encerremos este ponto - na Encarnação do Verbo, como vimos no começo, não pôde humilhar-se mais do que se humilhou. Vejamos agora como Deus, tendo-a feito sua mãe, não pôde exaltá-la mais do que a exaltou.

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Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório, Ed. MBC. 2019








sábado, 10 de fevereiro de 2024

As condições da oração

                                                             

                                                                   Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


 I - Por quem e o que devemos pedir



1. As condições da oração

Jesus Cristo fez-nos a seguinte promessa: "Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai, em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Muitos, diz São Tiago, pedem e não recebem, porque pedem mal: "Pedis e não recebeis porque pedis mal" (Tg 4,3). São Basílio, explicando as palavras do Apóstolo, diz: "Pedes e não recebes, porque tua oração foi malfeita ou sem fé, sem devoção ou desejo; ou porque pediste coisa que não se referia à tua salvação eterna, ou pediste sem perseverança". Por isso Santo Tomás reduziu a quatro as condições requeridas na oração, para que obtenham o seu fruto: isto é, que o homem peça para si coisas necessárias à salvação, com devoção e com perseverança. 


2. A primeira condição da oração é que rezemos por nós mesmos

Pois o Doutor Angélico julga que ninguém pode impetrar para outros, como mérito de justiça, a vida eterna e, por conseguinte, também as graças necessárias para a salvação deles, porque a promessa, diz ele, foi feita não para os que rezam para outros, mas os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á. 

Não obstante, há muitos doutores que afirmam o contrário, apoiados na autoridade de São Basílio, que ensina ter a oração infalivelmente o seu efeito, ainda que se reze pelos outros, contanto que esses não oponham uma resistência positiva. Estes escritores se baseiam sobre textos das Sagradas Escrituras: "Orai uns pelos outros, para serdes salvos, porquanto muito vale a oração perseverante do justo" (Tg 5,16). "Rezai pelos que vos perseguem e caluniam" (Mt 5,44). O melhor texto é de São João: "Se alguém vir seu irmão cometer um pecado, que não é de morte, peça e será concedida a vida àquele cujo pecado não é de morte" (1Jo 5,16). As palavras: Cujo pecado não é de morte, Santo Agostinho, Beda, Ambrósio e outros explicam que se devem entender do pecador, que não quer viver obstinado até a morte; pois, para tal pecador, seria necessário uma graça muito extraordinária. Quanto aos outros pecadores, não atingiriam um grau tão alto de maldade, se alguém rezar por eles, promete-lhe, o Apóstolo, a conversão deles: "Peça e será dada a vida ao pecador". 


3. As orações pelos outros, mormente pelos pecadores, são muito agradáveis a Deus

Não se duvida, entretanto, que as orações que fazemos pelos outros, mormente pelos pecadores, sejam muito agradáveis a Deus. O Senhor queixa-se de seus servos, que não rezam pelos pecadores. Um dia, lamentava-se Nosso Senhor a Santa Maria Madalena de Pazzi, a quem disse: "Vede, minha filha, como caem os cristãos nas mãos do demônio; se os meus escolhidos não os livrassem por suas orações, seriam tragados por ele". De um modo todo especial, porém, Nosso Senhor deseja e exige isso dos sacerdotes e religiosos. Por isso, dizia muitas vezes a santa às suas religiosas: "Irmãs, Deus nos separou do mundo, não somente para fazermos bem a nós mesmas, mas também para procurarmos aplacar sua ira contra os pecadores". Falou-lhe, uma vez, o Senhor: "Eu vos dei, a vós, esposas escolhidas, a cidade de refúgio (isto é, a Paixão de Jesus Cristo), para que tenhais onde recorrer para ajudar minhas criaturas; por isso, recorrei a ela e ali oferecei auxílio às minhas criaturas que perecem; sacrificai mesmo a vossa vida por elas". Pelo que a santa, inflamada de tanto zelo, oferecia a Deus, cinquenta vezes por dia, o sangue do Redentor pelos pecadores e se consumia em desejos por sua conversão, dizendo: "Que pena, Senhor! Como sinto ver que posso ajudar às tuas criaturas com o sacrifício de minha vida e, contudo, não poder realizá-lo!"

Ela, em todos os exercícios de piedade, recomendava os pecadores a Deus; e em sua vida se conta que não passava uma hora do dia em que não pedisse por eles. Frequentemente levantava-se à meia-noite e se dirigia à igreja, onde estava o Santíssimo Sacramento, para rezar pelos pecadores. Apesar de tudo isso, foi encontrada uma vez a chorar e, interrogada do motivo das lágrimas, respondeu: "Porque me parece que nada faço pela conversão dos pecadores". Chegou até a se oferecer a padecer as penas do inferno pela conversão deles, contanto que lá não tivesse de odiar a Deus. Frequentes vezes conseguiu ser atormentada de graves dores e enfermidades pela salvação dos pecadores. Rezava especialmente pelos sacerdotes, vendo que estes, com uma vida exemplar, seriam causa da salvação de muitos e com uma vida má levariam grande número à ruína e à perdição. Pedia a Nosso Senhor que a castigasse pelas culpas deles e dizia: "Senhor, fazei-me morrer tantas vezes e tornar à vida, até satisfazer por eles à vossa justiça". Em sua vida, conta-se que a santa, por suas orações, libertou de fato muitas almas das garras de Satanás.


4. Rezemos muito pela conversão dos pecadores!

Quis propositadamente dizer alguma coisa mais particular sobre o zelo desta santa. Enfim, todas as almas que amam sinceramente a Deus não cessam de rezar pelos pobres pecadores. E como é possível que uma pessoa que ama a Deus, vendo o amor que tem às almas e o que fez e sofreu por ela Nosso Senhor Jesus Cristo e o desejo que tem o Salvador que rezemos pelos pecadores, como é possível, digo, ver indiferente tantas almas vivendo sem Deus, feitas escravas do inferno e não se mover e se esforçar por pedir com insistência ao Senhor, queira conceder luzes e energias a estes infelizes, para saírem do estado em que se acham?

É certo que Deus não prometeu atender-nos, quando aqueles por quem rezamos se opõem à conversão. Entretanto, Nosso Senhor, por bondade e em atenção às orações de seus servos, dignou-se reconduzir ao caminho da salvação mesmo os pecadores mais obcecados e obstinados. Por isso, recomendemos sempre a Deus os pobre pecadores ao celebrarmos a santa Missa, na comunhão, na meditação e na visita ao Santíssimo Sacramento.

Diz um ilustre escritor que, rezando pelos outros, seremos atendidos mais prontamente do que quando rezamos por nós mesmos. Disse isso de passagem. Examinemos as outras condições da oração segundo Santo Tomás. 


5. A segunda condição

É que peçamos as graças necessárias à salvação, porque a promessa divina não foi dada para os bens temporais, que não são necessários à salvação da alma. Diz Santo Agostinho, explicando as palavras do Evangelho, em meu nome, anteriormente citadas, que "não se pede em nome do Salvador o que é contrário aos interesses de nossa salvação".


6. Motivos por que Deus muitas vezes parece não nos atender

Às vezes, pedimos algumas graças temporais e Deus não nos atende; mas não nos atende porque nos ama, diz o mesmo Doutor, e quer usar de misericórdia para conosco: "Quem pede a Deus humilde e confiantemente coisas necessárias para esta vida, ora é ouvido por misericórdia e ora não é atendido por misericórdia; pois, do que o doente tem necessidade, melhor sabe o médico do que o doente". O médico que se interessa pelo doente nunca permitirá coisas que lhe possam fazer mal.

Quantos, se fossem pobres ou doentes, não cometeriam os pecados que cometem sendo ricos e sadios! Por isso o Senhor nega a alguns, que lhe pedem a saúde do corpo ou os bens da fortuna, porque os ama, vendo que isso lhes seria ocasião de perderem a sua graça, ou ao menos de se entibiarem na vida espiritual. Contudo, não queremos dizer com isso que seja uma falta pedir a Deus as coisas necessárias à vida presente, contanto que estejam em relação com a salvação eterna, como pediu o sábio: "Dai-me, Senhor, unicamente o que for necessário para viver" (Pr 30,8). Não é uma falta, diz Santo Tomás, ter um cuidado moderado por estas coisas; proibido é desejar e procurar estes bens como principais e ter por eles um cuidado demasiado, como se formassem toda a nossa felicidade. Quando pedirmos a Deus bens temporais, devemos pedi-los com resignação e sob a condição de aproveitarem à alma. Se vemos que o Senhor não os concede, tenhamos por certo que os nega pelo amor que nos tem e porque prevê que vão prejudicar à salvação de nossa alma.


7. Quando Deus não atende é sempre para nosso próprio bem

Muitas vezes pedimos a Deus que nos livre de alguma tentação perigosa, e Deus não nos atende e permite que a tentação continue. Nesse caso, devemos entender que Deus assim permite para nosso próprio bem. Não são as tentações e maus pensamentos que nos afastam de Deus, mas sim o consentimento dado. Quando a alma tentada se recomenda a Deus e, com o seu auxílio, resiste aos ataques de seus inimigos, progride na virtude e une-se mais estreitamente a Ele. Esta é a razão por que o Senhor deixa de atendê-la. São Paulo pedia insistentemente ao Senhor que o livrasse das tentações impuras: "Permitiu Deus que sentissse em minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás, para me esbofetear; por cuja causa roguei ao Senhor três vezes que o afastasse de mim" (2Cor 12,7). Mas o Senhor respondeu: "Basta-te a minha graça".

Devemos, pois, nas tentações pedir a Deus com resignação, dizendo: Senhor, livrai-me deste tormento, se assim for conveniente para minha salvação; senão, dai-me ao menos o auxílio para resistir-lhe.

Devemos lembrar aqui o que diz São Bernardo, que, quando pedimos a Deus alguma graça, Ele nos dá a graça pedida ou outra melhor. Deus muitas vezes nos deixa sofrer no meio da tempestade, a fim de provar a nossa fidelidade e para o nosso maior proveito. Parece, então, surdo às nossas orações. Não! Estejamos seguros de que Deus nos ouve e nos ajuda ocultamente, dando-nos forças para resistirmos aos assaltos dos inimigos. Isto Ele nos assegura por boca do Salmista: "Na tribulação me invocaste e te livrei: eu te ouvi no escondido da tempestade; provei-te junto à água da contradição" (Sl 80,8).


8. Condições dadas por Santo Tomás

Finalmente eis as outras condições que Santo Tomás exige para a oração: Que se reze com devoção e perseverança. Com devoção, quer dizer, com humildade e confiança; com perseverança, quer dizer, sem deixar de rezar até a morte.  

Destas condições, pois, da humildade, confiança e perseverança, que são as mais necessárias à oração, importa falar de cada uma distintamente. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.




quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Vida de oração - Introdução

A ORAÇÃO 

Santo Afonso Maria de Ligório

(1696-1787)

Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário




 Ao Verbo Encarnado

Jesus Cristo


DILETO DO ETERNO PAI, 

BENDITO DO SENHOR, AUTOR DA VIDA,

REI DA GLÓRIA, SALVADOR DO MUNDO, 

DESEJADO DAS NAÇÕES,

DESEJO DAS COLINAS ETERNAS, 

PÃO CELESTE, JUIZ UNIVERSAL,

MEDIANEIRO ENTRE DEUS E OS HOMENS,

MESTRE DA VIRTUDE, 

CORDEIRO SEM MANCHA, 

HOMEM DAS DORES, SACERDOTE ETERNO, 

VÍTIMA DE AMOR, FONTE DE GRAÇA,

BOM PASTOR, AMANTE DAS ALMAS,


dedico esta obra Afonso, pecador.





INTRODUÇÃO

1. Publiquei várias obras espirituais. Penso, entretanto, não ter escrito obra mais útil do que esta, na qual trato da oração, porque a oração é o meio necessário e certo de alcançarmos todas as graças necessárias para a salvação. Se me fosse possível, faria imprimir tantos exemplares deste livro quantos são os fiéis de todo o mundo. Daria um exemplar a cada um, a fim de que todos pudessem compreender a necessidade que temos de orar para nos salvar.

2. Falo assim porque vejo, de um lado, a absoluta necessidade da oração, tão altamente recomendada pelas Santas Escrituras e por todos os santos Padres. E de outro lado, vejo que poucos cuidam de empregar este grande meio de salvação. E o que mais me causa dor é ver que pregadores e confessores tão pouco se lembram de recomendar a oração a seus ouvintes penitentes! Mesmo os livros espirituais, que hoje em dia andam nas mãos dos fiéis, não tratam suficientemente desse assunto, quando é certo que todos os pregadores e confessores e todos os livros não deveriam incutir nada com mais empenho e afinco do que a necessidade de rezar. 

Ensinam às almas tantos meios de se conservarem na graça de Deus, como fugir das ocasiões, frequentar os sacramentos, resistir às tentações, ouvir a Palavra de Deus, meditar nas verdades eternas e outros tantos meios, todos eles, certamente de muita utilidade. Digo, porém: de que servem as pregações, as meditações e todos os outros meios aconselhados pelos mestres da vida espiritual, se faltar oração, quando é certo que o Senhor diz não "conceder suas graças, senão a quem pedir?" "Pedi e recebereis" (Mt 7,7).

Sem a oração, segundo a providência ordinária de Deus, serão inúteis todas as meditações, todos os propósitos e todas as promessas. Se não rezarmos, seremos infiéis a todas as luzes recebidas e a todas as nossas promessas. A razão é a seguinte: para fazer atualmente o bem, para vencer as tentações e para praticar a virtude, numa palavra, para observar inteiramente todos os preceitos divinos, não bastam as luzes recebidas anteriormente, nem as meditações e os propósitos que fizemos. É necessário ainda o auxílio de Deus. E este auxílio atual, como logo veremos, Deus não o concede senão a quem reza e reza com perseverança. As luzes recebidas, as considerações e os bons propósitos que fazemos, servem para que rezemos nas ocasiões iminentes de desobedecer à lei divina e, assim, possamos obter o socorro divino, que nos conservará incólumes do pecado. Sem isto, sucumbiremos. 

3. Eu queria, amigo leitor, antes de tudo o que vou dizer aqui, explicar esta minha sentença para agradecerdes a Deus que, por meio deste meu livreto, vos dá a graça de refletir mais profundamente sobre a importância deste grande meio da oração, pois todos os que se salvam, falando dos adultos, ordinariamente só por meio da oração é que conseguem salvar-se. Por isso, repito, agradecei a Deus, pois muito grande é a sua misericórdia concedendo-nos a luz e a graça de rezar.

Espero, irmão caríssimo, que depois de terdes lido esta obra, não vos esquecereis de recorrer sempre a Deus pela oração, quando fordes tentado a ofendê-lo. E, se alguma vez sentirdes a consciência gravada com muitos pecados, sabeis que a causa disto é a falta de oração e de pedir a Deus auxílios necessários para resistir às tentações que vos assaltam. Peço-vos, portanto, que leiais este livreto e o torneis a ler, com toda atenção, não por ser trabalho meu, mas sim porque é um meio que Deus vos concede para conseguirdes a vossa salvação eterna, dando-vos assim a entender, de modo particular, que vos quer salvar. E, depois de o terdes lido, peço-vos que, sendo possível, o façais ler a vossos conhecidos e amigos.

Comecemos, pois, em nome do Senhor!

4. Escrevendo a Timóteo, o Apóstolo diz: "Rogo-te, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças" (1Tm 2,1). Santo Tomás, o Doutor Angélico, explica essas palavras dizendo que a oração consiste propriamente na elevação da alma a Deus. A prece consiste em pedir a Deus coisas, quer particulares e determinadas, quer indeterminadas, por exemplo quando dizemos: Senhor, vinde em meu socorro! O pedido consiste em impetrar a graça. Assim como quando dizemos: Por vossa paixão e cruz, livrai-nos, Senhor!

A ação de graças, enfim, consiste em agradecer os benefícios recebidos, pelo que, como diz Santo Tomás, merecemos receber benefícios ainda maiores. A oração no sentido estrito, diz o Santo Doutor, significa recorrer simplesmente a Deus. Mas, em sua acepção geral, compreende todas as outras espécies já mencionadas. Deste modo, nós a entendemos e neste sentido é que, daqui por diante, empregaremos a palavra "oração".

Para concebermos um grande amor à oração e para usarmos com fervor deste grande meio da salvação, consideremos, antes de tudo, quanto ela nos é necessária e quão poderosa é para nos obter todas as graças, que desejamos de Deus, se pedirmos como devemos.

Por isso, na primeira parte, trataremos da necessidade e do valor da oração e, depois, das qualidades que a oração deve ter para ser eficaz diante de Deus.



Livro: A oração - Santo Afonso Mª de Ligório, pág. 10-14. Ed. Santuário.