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domingo, 25 de maio de 2025

Valor do tempo




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Deus abençoe por Maria!



Santo Afonso Maria de Ligório 


Fili, conserva tempus. 
Filho, aproveita o tempo (Sr 4,23).

PONTO I

Diligencia, meu filho, - diz o Espírito Santo, - em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna. 
O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: "Oh! se tivéssemos uma hora!"... Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bem-aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava de plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até o dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria. 
E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?... Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti. 
Só dispões do tempo presente para agir... Ó infeliz! - adverte São Bernardo, - por que ousas contar com o vindouro, como se Deus tivesse posto o tempo em teu poder?". E Santo Agostinho disse: Como te podes prometer o dia de amanhã, se não dispões de uma hora de vida? "Daí conclui Santa Teresa: "Se não estiveres preparado hoje para morrer, teme morrer mal..."


AFETOS E SÚPLICAS

Dou-vos graças, meu Deus, pelo tempo que me concedes para reparar as desordens de minha vida passada. Se chegasse a morrer neste momento, a maior de minhas penas seria pensar no tempo que perdi!... Ah! Senhor meu, deste-me o tempo para vos amar e empreguei-o a ofender-vos. Merecia ser lançado no inferno desde o primeiro momento em que me apartei de vós; mas chamastes-me à penitência e me perdoastes. Prometi jamais tornar a ofender-vos, entretanto quantas vezes voltei a injuriar-vos e vós ainda me perdoastes!... Bendita seja eternamente a vossa misericórdia! Se não fosse infinita, como teria podido aturar-me tanto tempo? Quem poderia ter comigo a paciência  que vós tivestes?... Quanto me pesa ter ofendido um Deus tão bom!...

Meu querido Salvador, mesmo que fosse somente pela paciência que tínheis comigo, deveria estar inflamado de amor por vós. Não permitais que viva por mais tempo ingrato ao amor que me tendes demonstrado.

Desprendei-me de tudo e atrai-me ao vosso amor... Não, meu Deus, não quero continuar a perder o tempo que me dais para remediar as faltas cometidas, mas empregá-lo todo no vosso serviço e no vosso amor. Amo-vos, bondade infinita, e espero amar-vos eternamente. 

Mil graças vos dou, Virgem Maria, por terdes sido minha advogada na consecução deste tempo da vida. Auxiliai-me agora e fazei que o empregue sem reserva em amar o vosso Filho, meu Redentor, e a vós também, minha Rainha e minha Mãe!


PONTO II

Nada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo: "Passam rapidamente os dias da salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam". Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: "Passar o tempo". Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte... Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!... Ainda que fosse para alcançar só uma hora - disse São Lourenço Justiniano - dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua... Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti. 

Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!... Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. "Virá a noite em que ninguém poderá fazer mais nada". (Jo 9,4). Então o momento da morte será para ele o tempo da noite, em que nada mais poderá fazer. "Clamou contra mim o tempo" (Lm 1,15). A consciência recordar-lhe-á todo o tempo que teve e que empregou em prejuízo de sua alma; todas as graças que recebeu de Deus para se santificar e de que não quis aproveitar; e ver-se-á depois privado de todos os meios de fazer o bem. Por isso exclamará gemendo: Como fui insensato!... Ó tempo perdido, em que podia ter-me santificado!... Mas não o fiz e agora já não é tempo de o fazer... De que servem tais suspiros e lamentações, quando a vida está prestes a terminar e a lâmpada se vai extinguindo, vendo-se o moribundo próximo do solene instante de que depende a eternidade? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Jesus! santificastes toda a vida para salvar minha alma; nem um instante deixastes de vos oferecer por mim ao Eterno Pai, a fim de me alcançar perdão e salvação... e eu, ao cabo de tantos anos de vida neste mundo, quanto tempo empreguei em vosso serviço? As recordações de meus atos fazem-me remorsos de consciência. O mal foi grande. O bem pouquíssimo e cheio de imperfeições, de tibieza, de amor próprio e de distrações. Ah, meu Redentor, tudo isto tem sido porque olvidei o que por mim fizestes! Esqueci-vos, Senhor, mas vós não vos esquecestes de mim; viestes a procurar-me e repetidas vezes me oferecestes o vosso amor enquanto eu fugia de vós. Aqui estou, ó bom Jesus; não quero resistir por mais tempo, nem pensar que me abandonareis. Pesa-me, meu soberano Bem, de ter-me afastado de vós pelo pecado. Amo-vos, bondade infinita, digna de infinito amor. Não permitais que perca o tempo que vossa misericórdia me concede. 

Lembrai-vos, amado Salvador meu, do amor que me tendes e das dores que por mim padecestes. Fazei que esqueça tudo na vida que me resta, exceto pensar só em vos agradar. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo. Prometo fazer frequentíssimos atos de Amor. Concedei-me a santa perseverança, como espero, confiado nos merecimentos de vosso sangue precioso...

E em vossa intercessão confio ó Maria, minha Mãe querida!


PONTO III

Devemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito esta feito... Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!... O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna... e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém: "Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus". Sabe - respondo - que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais com alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste... Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar. "Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo" (Ap 12,12). De sorte que o inimigo não perde nem um instante para desgraçar-nos e nós não aproveitamos, o tempo para nos salvar! Outro dia: Qual é o mal que faço?... Ó meu Deus! E já não é um mal perder o tempo em jogos e conversações inúteis, que de nada servem à nossa alma? Acaso nos dá Deus esse tempo para que assim o percamos? Não, diz o Espírito Santo: Particula boni doni non te praetereat (Ecl 14,14). Aqueles operários de que fala São Mateus não faziam nenhum mal; somente perdiam o tempo, e é por isso que o dono da vinha os repreendeu: "Que estais aqui todo o dia ociosos?" (Mt 20). No dia do juízo, Jesus Cristo nos pedirá conta de toda palavra ociosa. Todo o tempo que não é empregado para Deus, é tempo perdido. E o Senhor nos diz: "Qualquer coisa que possa fazer tua mão, fá-la com instância; porque nem obra, nem razão de sabedoria, nem ciência haverá no sepulcro, para onde caminhas célere" (Ecl 9,10). A venerável irmã Joana da Santíssima Trindade, filha de Santa Teresa, dizia que na vida dos Santos não há dia de amanhã; só o que há na vida dos pecadores, que dizem sempre "mais tarde, mais tarde" e é assim que chegam à morte. "É agora o tempo favorável" (2Cor 6,2). "Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer vossos corações" (Sl 94,8). Hoje Deus te chama a fazer o bem; faze-o hoje mesmo, porque amanhã talvez já não terás tempo, ou Deus não te chamará. 

E, se por desgraça na vida passada empregaste o tempo em ofender a Deus, procura agora expiar essa falta no resto de tua vida mortal, como resolveu fazer o rei Ezequias: "Repassarei diante de ti todos os meus anos com a amargura de minha alma" (Is 38,15). Deus te prolonga a vida para que resgates o tempo perdido: "Recobrando o tempo, pois que os dias são maus" (Ef 5,16); ou ainda, segundo comenta Santo Anselmo: "Recuperarás o tempo se fizeres o que descuidastes de fazer". 

São Jerônimo diz de São Paulo que, não obstante ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro em méritos pelos seus trabalhos depois da vocação. Consideremos ao menos que em cada instante podemos ganhar maior cópia de bens eternos. Se nos cedessem a propriedade do terreno que pudéssemos contar num dia, ou o dinheiro que pudéssemos contar num dia, que esforços não faríamos! Pois, se podemos adquirir em um instante tesouros eternos, por que havemos de malgastar o tempo? O que podes fazer hoje não diga que o farás amanhã, porque o dia de hoje se perderá e não mais voltará. Quando São Francisco de Borja ouvia falar das coisas mundanas, elevava o coração a Deus com tão santos afetos que não sabia responder quando lhe perguntavam qual era o seu sentir acerca do que haviam dito. Repreenderam-no por isso, e ele contestou que antes preferia parecer homem rude do que perder futilmente o tempo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não, meu Deus, não quero perder o tempo que me haveis concedido por vossa misericórdia... Mereci estar já no inferno, gemendo sem esperança. Dou-vos, pois, fervorosas graças por me terdes conservado a vida. Desejo, nos dias que me restam, viver somente para vós. Se estivesse no inferno, choraria desesperado e sem fruto. Agora chorarei as ofensas que cometi contra vós e, chorando-as, estou certo de que mas perdoareis, segundo assegura o Profeta (Is 30,19). No inferno me seria impossível amar-vos; agora vos amo e espero amar-vos sempre. 

No inferno jamais poderia pedir a vossa graça; agora ouço que dizeis: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24). Posto que ainda é tempo para vos pedir graças, duas são as que vos peço: Concedei-me, ó Deus, a perseverança no vosso santo serviço e dai-me o vosso amor; depois fazei de mim o que quiserdes. Fazei que, em todos os instantes que me restam da vida, eu me recomende a vós, dizendo: "Ajudai-me, Senhor... Senhor, tende piedade de mim; fazei que não vos ofenda; fazei que vos ame". 

Virgem Santíssima, minha mãe, alcançai-me a graça de me recomendar sempre a Deus e pedir-lhe seu santo amor e a perseverança.

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Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte













segunda-feira, 7 de abril de 2025

Morte do justo

 


Santo Afonso Mª de Ligório


Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. 
É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos (Sl 115,15). 


PONTO I 

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa. Preciosa, - disse São Bernardo - porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida". E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos. 
Os mundanos, desejosos de longa vida - diz Sêneca - que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver - exclama Santo Agostinho - senão continuar a sofrer? A vida presente - disse Santo Ambrósio - não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio - mais parece alívio o morrer do que castigo. 
Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar. "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde hoje - disse o Espírito Santo - que descansem de seus trabalhos" (Ap 14,13).
Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos. "As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não os atingirá o tormento da morte" (Sb 3,1). Não temem os Santos aquela ordem de sair desta vida, que tanto amedronta aos mundanos, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca apegaram a eles o seu coração. "Deus do meu coração - repetiram sempre; Deus meu por toda a eternidade" (Sl 72,26). Sois felizes, - escrevia o Apóstolo a seus discípulos, que tinham sido despojados de seus bens por terem confessado a Cristo. - Suportastes essa perda com alegria, sabendo que vos espera patrimônio mais excelente e duradouro (Hb 10,34). Não se afligem os Santos por terem de deixar honras mundanas, pois sempre as desprezaram e as tiveram na conta do que são efetivamente: fumo e vaidade, e somente estimaram a honra de amar a Deus e de ser por Ele amados. Não se afligem por terem de deixar seus parentes, porque somente os amaram em Deus, e, ao morrer, os deixam recomendados àqueles Pai celestial que os ama mais do que eles; e esperando salvar-se, crêem que melhor lhes poderão ajudar lá no céu do que ficando na terra. Em suma: todos aqueles que disseram sempre durante a vida Meu Deus e meu tudo, repetem-no ainda com maior consolo e ternura no momento da morte. 
Quem morre no amor de Deus, não se inquieta com as dores que acompanham a morte, antes se compraz nelas, considerando que a vida vai-se acabar e que já não terá mais a sofrer por Deus nem a testemunhar-lhe novas provas de amor. Assim, com afeto e paz, lhe oferece os últimos restos da sua vida e consola-se, unindo o sacrifício de sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós na cruz a seu eterno Pai. Desta maneira morre satisfeito, dizendo: "Em seu seio dormirei e descansarei em paz" (Sl 4,8). Que felicidade morrer entregando-se nos braços de Cristo, que nos amou até a morte, e que quis sofrer morte tão cruel para alcançar-nos morte doce e consoladora!


AFETOS E SÚPLICAS

Ó amado Jesus, que para dar-me morte feliz quisestes sofrer morte crudelíssima no Calvário! Quando vos tornarei a ver?... A primeira vez que vos verei será quando me julgardes, no momento de expiar. 
Que vos direi então?... E vós, que me direis?... Não quero esperar até que chegue este instante para pensar nisso; quero meditá-lo desde já. 
Dir-vos-ei: "Senhor: vós, amado Redentor meu, morrestes por mim...
Houve tempo em que vos ofendi, e fui ingrato para convosco e não merecia perdão. Mas, ajudado por vossa graça, procurei emendar-me, e no resto de minha vida chorei meus pecados, e vós me perdoastes.
Perdoai-me de novo agora que estou a vossos pés e outorgai-me vós mesmo a absolvição geral de minhas culpas. Não merecia mais amar-vos, por ter desprezado vosso amor. Mas vós, Senhor, por vossa misericórdia atraístes meu coração, que, se não vos tem amado como mereceis, amou-vos sobre todas as coisas, deixando tudo para vos agradar... Que me direis agora?... Verdade é que a glória de vos contemplar no vosso reino é altíssima distinção de que não sou digno; mas não poderei viver afastado de vós, especialmente agora que me mostrartes a vossa excelsa formosura. Peço-vos, pois, o paraíso, não para poder gozar mais, mas para melhor vos amar. Nem quero tampouco entrar nessa pátria de santidade e ver-me entre aquelas almas puras, manchado como estou agora por minhas culpas. Mandai que antes me purifique, mas não me expulsei para sempre de vossa presença... Basta que algum dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para que ali cante eternamente as vossas misericórdias. Por agora, meu amado Jesus, dai-me vossa benção e garanti-me que sou vosso, que sereis sempre meu, que vos amarei e me amareis para sempre... Aparto-me agora de vós, Senhor, para ir às chamas purificadoras; mas vos contante, porque ali hei de amar-vos, Redentor meu, meu Deus e meu tudo...

Vou contente, sim, mas sabei que, enquanto estiver longe de vós, essa separação temporal será minha maior pena. Contarei, Senhor, os instantes até que me chameis... Tende compaixão de uma alma que vos ama com todas as suas forças, e que suspira por ver-vos para melhor vos amar. Assim, meu Jesus, espero então falar-vos. Até lá, vos peço a graça de viver de modo que possa dizer-vos então o que agora acabo de pensar. Concedei-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor... e ajudai-me. 

Ó Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus por mim! 


PONTO II

Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da  morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma. 

Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça. 

Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando: "Retirai-vos, meu irmão, - dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração - retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder. Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo: "Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida". É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada e inefável dita de jamais poder perder a Deus. 

Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu: "E por que é que chorais, sendo que vos descansar de meu trabalhos?".

Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer: "Consolai-vos comigo, porque deixo este vale de lágrimas e vou para a pátria da paz". Se alguém - disse São Cipriano - habitasse numa casa cujas paredes ameaçassem ruínas, cujo pavimento e teto estremecessem, quanto não desejarias sair dela?... Nesta vida tudo ameaça ruína da alma: o mundo, o inferno, as paixões, os sentidos rebeldes, tudo nos leva ao pecado e à morte eterna. Quem me livrará - exclamava o Apóstolo - deste corpo de morte? (Rm 7,24). Que alegria sentirá a alma quando ouvir: "Vem, minha esposa, sai do lugar do pranto, da cova dos leões que te quiseram devorar e fazer perder a graça divina (Ct 4,11). Por isso, São Paulo, desejando morrer, dizia que Jesus Cristo era a sua única vida, e que estimava a morte como o maior tesouro que pudesse ganhar, já que por meio dela alcançaria a vida que jamais tem fim (Fp 2,21). 

Grande obséquio faz Deus à alma em estado de graça, retirando-a deste mundo, onde poderia transviar-se e perder a amizade divina (Sb 4,11). Feliz aquele que nesta vida está unido a Deus; mas, como o navegante não pode dizer-se seguro enquanto não chega ao porto e ao abrigo da tormenta, assim uma alma só pode ser verdadeiramente feliz, quando sai da vida na graça de Deus. Louva a ventura do navegante que chegou ao porto - disse Santo Ambrósio... Se o navegante se alegra quando, após tantos perigos, está a chegar ao porto desejado, quanto mais se não deve alegrar aquele que está próximo a assegurar sua eterna salvação? Ademais, neste mundo não podemos viver sem culpas, ao menos leves; porque sete vezes cairá o justo (Pr 21,16). Mas aquele que sai desta vida, cessa de ofender a Deus. Que é a morte - disse o mesmo Santo - senão o sepulcro dos vícios? Mais um motivo para os que amam a Deus desejarem vivamente a morte. O venerável P. Vicente Caraffa consolava-se ao morrer, dizendo: Terminando minha vida, acabam minhas ofensas a Deus. E o já citado Santo Ambrósio dizia: Para que desejamos mais longa vida, se, quanto mais longa for, de maior peso de pecado nos carrega? O que falece na graça de Deus chega ao estado feliz de não saber nem poder ofendê-lo mais. O morto não sabe pecar. Eis o motivo por que o Senhor louva mais os mortos que os vivos, ainda que sejam santos (Ec 4,2). Não faltou quem ordenasse que, à hora da morte, lha anunciassem por estes termos: Alegra-te que chegou o tempo em que não mais ofenderás a Deus. 


AFETOS E SÚPLICAS

"Em tuas mãos encomendo meu espírito. Tu me remiste, Senhor, Deus da Verdade" (Sl 30,6). Ó doce Redentor meu, que seria de mim se me tivésseis entregado à morte quando me achava afastado de vós?...

Estaria no inferno, onde não vos poderia amar. Agradeço-vos o não me terdes abandonado, e me concederdes tantas graças para atrair o meu coração. Arrependo-me de vos ter ofendido. Amo-vos sobre todas as coisas. Rogo-vos que sempre me façais conhecer o mal que cometi, desprezando-vos, e o grande amor que merece vossa infinita bondade. 

Amo-vos, e, se assim vos apraz, desejo morrer cedo para evitar o perigo de tornar a perder vossa santa graça, e para estar seguro de vos amar eternamente. Dai-me, pois, ó amado Jesus, durante o tempo que me resta de vida, força e ânimo para vos servir antes que chegue a morte. Dai-me força para vencer a tentações e as paixões, sobretudo aquelas que na vida passada mais me levaram a ofender-vos. Dai-me paciência para sofrer as enfermidades e as ofensas que do próximo receber. Eu, por vosso amor, perdoo a todos os que me ofenderam, e vos suplico que lhe outorgueis as graças que desejarem. Dai-me força para que seja mais diligente em evitar as faltas veniais que a miúdo cometo. Ajudai-me, meu Salvador, tudo espero de vossos méritos...

Deposito toda a minha confiança em vossa intercessão, ó Maria, minha mãe e minha esperança!


PONTO III

A morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo. Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2). 

São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus. 

Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!... Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que Davi dizia: "Livrai minha alma da prisão" (Sl 141,8). E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida: "Agora, Senhor, despede o teu servo... (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, - pede ser despedido, como se estivesse preso à força". Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia: "Tenho desejo de me ver livre desta carne, e estar com Cristo" (Fl 3,32). 

Quanta alegria sentiu o copeiro do Faraó ao saber de José que dentro em pouco sairia da prisão e voltaria ao exercício de seu posto. E uma alma que ama a Deus não se regozijará ao pensar que em breve sairá da prisão deste mundo para ir gozar a Deus? Enquanto vivemos unidos ao corpo, estamos impedidos de ver a Deus, e como em terra estranha, fora da pátria. Com razão disse São Bruno que a nossa morte não se deve chamar morte, senão vida. 

Daí vem o chamar-se nascimento a morte dos Santos, porque nesse instante nascem para a bem-aventurança eterna, que não terá fim. "Para o justo - disse Santo Atanásio - não há morte, apenas trânsito, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz. "Ó morte amável! - exclama Santo Agostinho - quem não tem te desejará, pois és fim dos trabalhos, termo das angústias, princípio do descanso!" E com instância pedia: Oxalá morresse, Senhor, para vos poder ver! O pecador teme a morte - diz São Cipriano, - porque da vida temporal passará à morte eterna, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida. Na vida de São João, o Esmoler, se refere que um homem rico dera ao Santo esmolas avultadas, a fim de pedir este a Deus vida longa para o único filho que ele tinha. Mas o moço morreu pouco tempo depois. Como o pai se lamentasse dessa morte inesperada, Deus lhe enviou um anjo que lhe disse: "Pediste longa vida para teu filho, pois saibas que já está no céu gozando da eterna felicidade." Tal é a graça que vos alcança Jesus Cristo, segundo a promessa que foi feita pelo profeta Oséias: Ó morte, eu hei de ser a tua morte (Os 13,14). Cristo, morrendo por nós, fez com que a morte se transformasse em vida. Aqueles que conduziram ao suplício o mártir São Piôncio, perguntaram-lhe maravilhados como podia ir tão alegremente para a morte. "Ah! - respondeu o Santo, - estais enganados! Não vou para a morte e sim para a vida". Do mesmo modo também a mãe do jovem Sinforiano exortava seu filho quando estava para sofrer o martírio: "Ó meu filho, não vão tirar-te a vida, senão para convertê-la em outra melhor!"


AFETOS E SÚPLICAS

Ó Deus de minha alma! Ofendi-vos em minha vida passada, afastando-me de vós; mas vosso Divino Filho vos honrou na cruz com o sacrifício de sua vida. Em consideração dessa honra que vos tributou vosso amantíssimo, perdoai-me as injúrias que vos fiz. Arrependo-me, Senhor, de vos ter ofendido, e prometo amar somente a vós doravante. De vós espero minha eterna salvação, assim como reconheço que todos os bens que possuo, houve-os de vossa graça, pois todos são dons de vossa bondade. "Pela graça de Deus sou o que sou" (1Cor 15,10). Se, pelo passsado, vos ofendi, espero honrar-vos eternamente, louvando vossa misericórdia... Sinto vivíssimo desejo de vos amar... Sois vós, Senhor, que mo inspirais, e vos dou, meu amor, fervorosas graças. 

Continuai, continuai a ajudar-me como agora, que espero ser vosso, inteiramente vosso. Renuncio aos prazeres deste mundo. Que maior gozo, Senhor, posso ter que comprazer-me em vós, meu Senhor, que sois tão amável e que tanto me tendes amado? Só vos peço, ó Deus de minha alma! Amor e sempre amor espero pedir-vos, até que, morrendo em vosso amor, alcance o reino do verdadeiro amor, onde, sem o pedir, de amor me abrase, não cessando de vos amar nem um momento por toda a eternidade, e com todas as minhas forças. 

Maria, minha Mãe, que tanto amais a Deus e tanto desejais que seja amado, fazei que muito o ame nesta vida, a fim de que possa amá-lo para sempre na eternidade! 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte