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domingo, 25 de maio de 2025

Valor do tempo




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Deus abençoe por Maria!



Santo Afonso Maria de Ligório 


Fili, conserva tempus. 
Filho, aproveita o tempo (Sr 4,23).

PONTO I

Diligencia, meu filho, - diz o Espírito Santo, - em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna. 
O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: "Oh! se tivéssemos uma hora!"... Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bem-aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava de plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até o dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria. 
E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?... Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti. 
Só dispões do tempo presente para agir... Ó infeliz! - adverte São Bernardo, - por que ousas contar com o vindouro, como se Deus tivesse posto o tempo em teu poder?". E Santo Agostinho disse: Como te podes prometer o dia de amanhã, se não dispões de uma hora de vida? "Daí conclui Santa Teresa: "Se não estiveres preparado hoje para morrer, teme morrer mal..."


AFETOS E SÚPLICAS

Dou-vos graças, meu Deus, pelo tempo que me concedes para reparar as desordens de minha vida passada. Se chegasse a morrer neste momento, a maior de minhas penas seria pensar no tempo que perdi!... Ah! Senhor meu, deste-me o tempo para vos amar e empreguei-o a ofender-vos. Merecia ser lançado no inferno desde o primeiro momento em que me apartei de vós; mas chamastes-me à penitência e me perdoastes. Prometi jamais tornar a ofender-vos, entretanto quantas vezes voltei a injuriar-vos e vós ainda me perdoastes!... Bendita seja eternamente a vossa misericórdia! Se não fosse infinita, como teria podido aturar-me tanto tempo? Quem poderia ter comigo a paciência  que vós tivestes?... Quanto me pesa ter ofendido um Deus tão bom!...

Meu querido Salvador, mesmo que fosse somente pela paciência que tínheis comigo, deveria estar inflamado de amor por vós. Não permitais que viva por mais tempo ingrato ao amor que me tendes demonstrado.

Desprendei-me de tudo e atrai-me ao vosso amor... Não, meu Deus, não quero continuar a perder o tempo que me dais para remediar as faltas cometidas, mas empregá-lo todo no vosso serviço e no vosso amor. Amo-vos, bondade infinita, e espero amar-vos eternamente. 

Mil graças vos dou, Virgem Maria, por terdes sido minha advogada na consecução deste tempo da vida. Auxiliai-me agora e fazei que o empregue sem reserva em amar o vosso Filho, meu Redentor, e a vós também, minha Rainha e minha Mãe!


PONTO II

Nada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo: "Passam rapidamente os dias da salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam". Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: "Passar o tempo". Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte... Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!... Ainda que fosse para alcançar só uma hora - disse São Lourenço Justiniano - dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua... Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti. 

Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!... Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. "Virá a noite em que ninguém poderá fazer mais nada". (Jo 9,4). Então o momento da morte será para ele o tempo da noite, em que nada mais poderá fazer. "Clamou contra mim o tempo" (Lm 1,15). A consciência recordar-lhe-á todo o tempo que teve e que empregou em prejuízo de sua alma; todas as graças que recebeu de Deus para se santificar e de que não quis aproveitar; e ver-se-á depois privado de todos os meios de fazer o bem. Por isso exclamará gemendo: Como fui insensato!... Ó tempo perdido, em que podia ter-me santificado!... Mas não o fiz e agora já não é tempo de o fazer... De que servem tais suspiros e lamentações, quando a vida está prestes a terminar e a lâmpada se vai extinguindo, vendo-se o moribundo próximo do solene instante de que depende a eternidade? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Jesus! santificastes toda a vida para salvar minha alma; nem um instante deixastes de vos oferecer por mim ao Eterno Pai, a fim de me alcançar perdão e salvação... e eu, ao cabo de tantos anos de vida neste mundo, quanto tempo empreguei em vosso serviço? As recordações de meus atos fazem-me remorsos de consciência. O mal foi grande. O bem pouquíssimo e cheio de imperfeições, de tibieza, de amor próprio e de distrações. Ah, meu Redentor, tudo isto tem sido porque olvidei o que por mim fizestes! Esqueci-vos, Senhor, mas vós não vos esquecestes de mim; viestes a procurar-me e repetidas vezes me oferecestes o vosso amor enquanto eu fugia de vós. Aqui estou, ó bom Jesus; não quero resistir por mais tempo, nem pensar que me abandonareis. Pesa-me, meu soberano Bem, de ter-me afastado de vós pelo pecado. Amo-vos, bondade infinita, digna de infinito amor. Não permitais que perca o tempo que vossa misericórdia me concede. 

Lembrai-vos, amado Salvador meu, do amor que me tendes e das dores que por mim padecestes. Fazei que esqueça tudo na vida que me resta, exceto pensar só em vos agradar. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo. Prometo fazer frequentíssimos atos de Amor. Concedei-me a santa perseverança, como espero, confiado nos merecimentos de vosso sangue precioso...

E em vossa intercessão confio ó Maria, minha Mãe querida!


PONTO III

Devemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito esta feito... Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!... O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna... e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém: "Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus". Sabe - respondo - que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais com alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste... Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar. "Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo" (Ap 12,12). De sorte que o inimigo não perde nem um instante para desgraçar-nos e nós não aproveitamos, o tempo para nos salvar! Outro dia: Qual é o mal que faço?... Ó meu Deus! E já não é um mal perder o tempo em jogos e conversações inúteis, que de nada servem à nossa alma? Acaso nos dá Deus esse tempo para que assim o percamos? Não, diz o Espírito Santo: Particula boni doni non te praetereat (Ecl 14,14). Aqueles operários de que fala São Mateus não faziam nenhum mal; somente perdiam o tempo, e é por isso que o dono da vinha os repreendeu: "Que estais aqui todo o dia ociosos?" (Mt 20). No dia do juízo, Jesus Cristo nos pedirá conta de toda palavra ociosa. Todo o tempo que não é empregado para Deus, é tempo perdido. E o Senhor nos diz: "Qualquer coisa que possa fazer tua mão, fá-la com instância; porque nem obra, nem razão de sabedoria, nem ciência haverá no sepulcro, para onde caminhas célere" (Ecl 9,10). A venerável irmã Joana da Santíssima Trindade, filha de Santa Teresa, dizia que na vida dos Santos não há dia de amanhã; só o que há na vida dos pecadores, que dizem sempre "mais tarde, mais tarde" e é assim que chegam à morte. "É agora o tempo favorável" (2Cor 6,2). "Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer vossos corações" (Sl 94,8). Hoje Deus te chama a fazer o bem; faze-o hoje mesmo, porque amanhã talvez já não terás tempo, ou Deus não te chamará. 

E, se por desgraça na vida passada empregaste o tempo em ofender a Deus, procura agora expiar essa falta no resto de tua vida mortal, como resolveu fazer o rei Ezequias: "Repassarei diante de ti todos os meus anos com a amargura de minha alma" (Is 38,15). Deus te prolonga a vida para que resgates o tempo perdido: "Recobrando o tempo, pois que os dias são maus" (Ef 5,16); ou ainda, segundo comenta Santo Anselmo: "Recuperarás o tempo se fizeres o que descuidastes de fazer". 

São Jerônimo diz de São Paulo que, não obstante ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro em méritos pelos seus trabalhos depois da vocação. Consideremos ao menos que em cada instante podemos ganhar maior cópia de bens eternos. Se nos cedessem a propriedade do terreno que pudéssemos contar num dia, ou o dinheiro que pudéssemos contar num dia, que esforços não faríamos! Pois, se podemos adquirir em um instante tesouros eternos, por que havemos de malgastar o tempo? O que podes fazer hoje não diga que o farás amanhã, porque o dia de hoje se perderá e não mais voltará. Quando São Francisco de Borja ouvia falar das coisas mundanas, elevava o coração a Deus com tão santos afetos que não sabia responder quando lhe perguntavam qual era o seu sentir acerca do que haviam dito. Repreenderam-no por isso, e ele contestou que antes preferia parecer homem rude do que perder futilmente o tempo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não, meu Deus, não quero perder o tempo que me haveis concedido por vossa misericórdia... Mereci estar já no inferno, gemendo sem esperança. Dou-vos, pois, fervorosas graças por me terdes conservado a vida. Desejo, nos dias que me restam, viver somente para vós. Se estivesse no inferno, choraria desesperado e sem fruto. Agora chorarei as ofensas que cometi contra vós e, chorando-as, estou certo de que mas perdoareis, segundo assegura o Profeta (Is 30,19). No inferno me seria impossível amar-vos; agora vos amo e espero amar-vos sempre. 

No inferno jamais poderia pedir a vossa graça; agora ouço que dizeis: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24). Posto que ainda é tempo para vos pedir graças, duas são as que vos peço: Concedei-me, ó Deus, a perseverança no vosso santo serviço e dai-me o vosso amor; depois fazei de mim o que quiserdes. Fazei que, em todos os instantes que me restam da vida, eu me recomende a vós, dizendo: "Ajudai-me, Senhor... Senhor, tende piedade de mim; fazei que não vos ofenda; fazei que vos ame". 

Virgem Santíssima, minha mãe, alcançai-me a graça de me recomendar sempre a Deus e pedir-lhe seu santo amor e a perseverança.

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Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte













terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O valor da oração


 Livro: A Oração - Cap. II

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




1. Como são preciosas a Deus as nossas orações!

São tão preciosas a Deus as nossas orações que Ele destinou os Anjos para lhe apresentarem imediatamente as que estamos fazendo. "Os anjos, diz Santo Hilário, presidem as orações dos fiéis e diariamente as oferecem a Deus". É este exatamente aquele sagrado incenso, isto é, as orações dos santos, que São João viu subir ao Senhor, oferecido pelas mãos dos anjos. Escreveu o mesmo Santo Apóstolo que as orações dos Apóstolos são como redomas de ouro, cheias de suave perfume e muito agradáveis a Deus.

Mas, para melhor compreendermos quanto valem junto de Deus as nossas orações, basta ler nas Sagradas Escrituras as inumeráveis promessas que Deus faz a quem reza, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. "Chama por mim, e eu te ouvirei" (Jr 33,3). "Invoca-me e eu te livrarei" (Sl 49,15). "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7). "Vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem" (Mt 7,11). "Todo aquele que pede, recebe; todo o que busca, acha" (Lc 11,10). "Qualquer coisa que pedirem ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19). "Tudo o que pedirdes orando, crede que haveis de receber e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu vos farei" (Jo 14,14). "Pedi tudo o que quiserdes e vos será concedido" (Jo 15,7). "Em verdade eu vos digo: se pedirdes ao meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Existem muitos outros textos semelhantes que deixamos de citar por brevidade.


2. Sem oração não há vitória

Deus quer salvar-nos. Entretanto, quer salvar-nos como vencedores. Estando, pois, nesta vida, achamo-nos em uma guerra contínua e para nos salvar temos de combater e vencer. "Sem ter vencido, ninguém poderá ser coroado", diz São João Crisóstomo. Somos muito fracos e os inimigos, numerosos e fortes. Como enfrentá-los e vencê-los? Tenhamos coragem e digamos com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Tudo poderemos com a oração, por meio da qual Deus nos dará o que não temos. Escreveu Teodoreto que a oração é todo-poderosa. Ela é uma, entretanto, pode obter todas as coisas: "A oração, sendo uma em si, pode tudo". E São Boaventura afirma que, pela oração, se obtém todos os bens e a libertação de todos os males. Dizia São Lourenço Justiniano que, pela oração, construímos uma torre fortíssima, onde estaremos livres e seguros de todas as insídias e violência dos inimigos. São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios, diz São Bernardo, e com razão, pois com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas. Assim animava-se Davi em seus desfalecimentos: "Invocarei o Senhor louvando-o e livre serei de meus inimigos" (Sl 17,4). Em resumo, diz São João Crisóstomo, a oração é uma grande armadura, uma defesa, um porto, um tesouro. A oração é uma valiosa arma para vencer os assaltos dos demônios; é uma defesa, que nos conserva em todos os perigos; é um porto seguro contra toda tempestade; é um tesouro, que nos provê de todos os bens.


3. Rezemos para alcançar forças contra os nossos inimigos! 

Deus sabe quão salutar é para nós a necessidade de orar. Por isso permite, como foi dito no capítulo primeiro, que sejamos assaltados pelos inimigos, para pedirmos o auxílio que nos oferece e promete. Mas quanto lhe é agradável quando o invocamos nos perigos, tanto lhe desagrada o ver-nos descuidados da oração.

Assim como o rei, diz São Boaventura, julgaria traidor o capitão, que sitiado em uma praça não lhe pedisse socorro, assim Deus considera traidor aquele que, vendo-se assaltado pelas tentações, a Ele não recorre pedindo auxílio. Pois deseja e espera que lhe peçamos para nos socorrer fartamente. Uma prova disso encontramos nas Sagradas Escrituras, nas censuras, que o profeta Isaías fez ao rei Acaz. O profeta convidou-o em nome de Deus a pedir um sinal, a fim de certificar-se do socorro que o Senhor desejava dar-lhe: "Pede algum sinal do Senhor para ti" (Is 7,11). O ímpio rei respondeu: "Não o pedirei nem tentarei a Deus".

Assim disse, porque confiava em suas forças para vencer o inimigo, sem auxílio divino. Mas o profeta repreendeu: "Ouvi, pois casa de Davi! Porventura não vos basta ser molestos aos homens, quereis também molestar Deus?" Dizendo com isto que se torna molesto e injurioso a Deus, quem deixa de lhe pedir graças que o Senhor oferece.


4. Convites à oração

"Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais carregados e vos aliviarei" (Mt 11,28). Pobres filhos meus, diz o Salvador, que vos achais perseguidos por vossos inimigos e acabrunhados com o peso de vossos pecados, não vos abandone a coragem, recorrei a mim pela oração e eu vos darei forças para resistir e refazer-vos de todas as desgraças. Em outro lugar, diz, por boca de Isaías: "Vinde e argúi-me, diz o Senhor; se os vossos pecados forem como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18). Homens, diz ele, recorrei a mim e, ainda quando tiverdes a consciência assaz manchada, não deixeis de vir. Permito até que me acuseis, por assim dizer, se recorrendo a mim, não vos fizer, por minha graça, brancos como a neve.

Que é oração? Ouçamos São João Crisóstomo: "A oração é âncora para os flutuantes, tesouro para os pobres, remédio para os doentes e preservativo para os sãos". A oração é uma âncora segura para quem está em perigo de naufragar, é um tesouro imenso de riquezas para quem é pobre, é um remédio eficacíssimo para os enfermos e um fortificante certo para nossa saúde.

Que faz a oração? Ouçamos São Lourenço Justiniano: "A oração aplaca a ira de Deus, porquanto Deus perdoa logo a quem com humildade lhe pede, concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; em resumo, tranforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos".

Quem necessita de luz, peça a Deus e lhe será dada. Logo que socorri a Deus, diz Salomão, Ele deu-me a sabedoria: "Invoquei e veio sobre mim o espírito da sabedoria" (Sb 7,7). Quem precisar de fortaleza, invoque a Deus e ser-lhe-á dada: logo que abri a boca para pedir, disse Davi, recebi o auxílio do Senhor: "Abri a boca e atraí alento" (Sl 118,134). E se os santos mártires resistiram tão corajosa e constantemente aos tiranos, não foi a oração que lhes deu força e vigor para suportar os tormentos e a morte?


5. Confiai e rezai! Deus virá em vosso auxílio

Quem se vale da oração, desta grande arma, diz São Pedro Crisólogo, ignora a morte, deixa a terra, entra no céu e vive com Deus. Não cai em pecado, perde o apego das coisas da terra, entra no céu e já nesta vida começa a gozar da presença de Deus. 

De que serve, pois, alguém angustiar-se e dizer: Estarei inscrito no livro da vida? Quem sabe se Deus me dará a graça eficaz e a perseverança? "Não vos preocupeis, mas com muitas orações e rogos, com ação de graças, sejam conhecidas as vossas súplicas diante de Deus!" (Fl 4,6). De que serve, diz o Apóstolo, pertubar-vos com estes pensamentos angustiantes e com estes temores? Afugentai, portanto, todas essas ansiedades que só servem para diminuir a vossa confiança e tornar-vos mais tíbios e preguiçosos no caminho da salvação.

Rezai sempre; fazei que vossas orações sejam ouvidas por Deus e agradecei-lhe sempre as promessas que vos fez de conceder-vos sempre os dons que pedis, a graça eficaz, a perseverança, a salvação, e tudo o que quiserdes. O Senhor pôr-nos em batalha contra poderosos inimigos, mas é fiel às suas promessas. Não consente que sejamos atacados além das nossas forças. "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças" (1Cor 10,13). É fiel, porque socorre imediatamente a quem o invoca.

Escreve o douto e eminentíssimo Cardeal Gotti que o Senhor não é obrigado a dar-nos sempre uma graça igual à tentação, mas é obrigado, quando somos tentados e recorremos a Ele, a dar-nos por meio da graça (que para todos tem preparada e oferece) a força suficiente, com que oportunamente possamos resistir às tentações: "Em virtude de graça que põe à nossa disposição e nos oferece, Deus é obrigado a conceder-nos, quando somos tentados e a ele recorremos, as forças necessárias para podermos resistir e para que resistamos de fato; pois tudo podemos naquele que nos conforta pela graça, se humildemente pedirmos". Tudo podemos com o auxílio divino, que será concedido sempre a quem pede; por isso não temos desculpas, quando somos vencidos pela tentação. Fomos vencidos, porque não rezamos. Pela oração, podemos desarmar todas as ciladas do demônio. Pela oração, diz Santo Agostinho, afugentamos todos os males.


6. A oração é uma embaixadora

Diz São Bernardino de Sena que a oração é uma fiel embaixadora, bem conhecida do Rei dos céus e acostumada a entrar em seu gabinete e a mover, com sua importunação, o piedoso ânimo do Rei, a fim de que conceda todo o socorro a nós miseráveis, que gememos no meio de tantos combates e misérias, neste vale de lágrimas. "A oração é a mais fiel embaixadora, conhecida do Rei, que está acostumada a entrar em seu gabinete e a comovê-lo com sua importunação, a fim de impetrar auxílio para nós miseráveis".

Assegura-nos também Isaías que, assim que o Senhor percebe nossas orações, move-se logo à compaixão e não deixa que choremos e suspiremos muito tempo: no mesmo momento nos atende e concede o que lhe pedimos. "Tu, de nenhuma forma, chorarás mais; ele te concederá a graça por causa dos seus gemidos e logo que ouvir a tua voz, te atenderá" (Is 30,19). Em outro lugar, fala o Senhor por boca de Jeremias e, queixando-se de nós, diz: "Porventura tenho sido eu para Israel um deserto ou terra tardia? Por que diz: Nós nos retiramos, não voltaremos mais para ti? (Is 2,31) Por que, pergunta o Senhor, dizeis que não quereis mais recorrer a mim? Porventura será a minha misericórdia uma terra estéril para vós, que não vos possa dar fruto de graça? Ou terra tardia, que produza fruto muito tarde? Com isso, nosso amoroso Senhor queria dar-nos a entender que jamais deixa de atender-nos; e, ao mesmo tempo, quis repreender os que deixam de rezar, por julgar não serem atendidos.


7. Deus nos atende a qualquer hora

Se Deus nos admitisse a apresentar-lhes as nossas súplicas só uma vez por mês, seria já um grande favor. Os reis da terra dão audiência poucas vezes ao ano, mas Deus dá audiência continuamente. 

Escreve São João Crisóstomo que Deus está continuamente pronto para ouvir as nossas orações, e nunca acontece que não atenda a quem lhe pede como convém: "Deus está sempre pronto a ouvir a voz de seus servos e nunca acontecerá  que não atenda, sendo invocado como convém". Diz, além disso, que quando rezamos, antes de terminarmos a exposição de nossas súplicas, Deus já nos atende. Sempre atende o que se pede, ainda enquanto estamos pedindo. Disso temos promessa divina: "Estando eles falando ainda, eu os ouvirei" (Is 65,24). O Senhor, diz Davi, está perto de quem o invoca, para escutá-lo, atendê-lo e salvá-lo: "Perto está o Senhor de todos os que o invocam; sim, de todos os que com razão o invocam; satisfaz a vontade dos que o temem; ouve os gemidos e salva-os" (Sl 144,19).Era disso que se gloriava Moisés, dizendo: "Não há nenhuma outra nação tão grande que tenha deuses tão próximos de si, como nosso Deus está presente em todas as nossas orações" (Dt 4,7). Os deuses dos gentios eram surdos às vozes dos que os invocavam, porque eram míseras criaturas, que nada podiam; mas nosso Deus, que tudo pode, não é surdo às nossas súplicas; pelo contrário, está sempre perto de quem o invoca e concede todas as graças pedidas: "Em qualquer dia em que eu te invocar, logo conhecerei que és o meu Deus" (Sl 55,11). Senhor, dizia o salmista, nisto reconheci que sois vós meu Deus, todo bondade e misericórdia, porquanto sempre que a vós recorro, me socorreis imediatamente. 


8. Somos pobres, mas Deus é rico

Somos pobres, mas, se pedirmos, já não somos mais pobres. Se nós somos pobres, Deus é rico. E Deus é imensamente liberal, diz o Apóstolo, para com aquele que o chama em auxílio: "Deus é rico para todos os que o invocam" (Rm 10,12). E uma vez que, exorta Santo Agostinho, temos de nos entender com um Senhor de infinita riqueza e poder: "Peçamos-lhe não coisas pequenas e vis, mas sim coisas grandes". Se alguém pedisse ao rei uma pequena quantia, com isso não lisonjearia de forma alguma a sua bondade. Pelo contrário, honramos a Deus, honramos a sua misericórdia e a sua liberalidade, quando, à vista de nossa miséria e indignidade, lhe pedimos grandes graças, confiados em sua bondade e fidelidade, pois Ele prometeu: "Tudo o que quiserdes, pedi e vos será dado" (Jo 15,7). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que o Senhor sente-se honrado com isso e fica tão consolado com as nossas orações que até, de certo modo, nos agradece. Porque assim lhe abrimos o caminho de seus benefícios, pois o seu desejo é fazer bem a todos. E podemos estar certos de que, quando pedimos alguma graça, recebemos sempre mais do que pedimos: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a todos dará fartamente sem palavras duras" (Tg 1,5). Assim diz São Tiago para denotar que Deus não é, como os homens, avaro de seus bens. Os homens, apesar de ricos, piedosos e liberais, quando dão suas esmolas, são sempre estreitos e de mãos curtas. E a maior parte das vezes dão menos do que se lhes pede, porquanto, por maior que seja, sua riqueza é limitada; por isso, quanto mais dão, tanto mais lhes faltará. Deus, porém, quando é invocado, dá os seus bens com toda abundância, largamente, sempre mais do que se lhes pede, porquanto a sua riqueza é infinita; quanto mais dá, mais tem para dar: "Porquanto, Senhor, sois bom e manso e de muita misericórdia para com todos os que Vos invocam" (Sl 85,5). Vós, meu Deus, dizia Davi, sois liberal e sumamente misericordioso com quem Vos invoca. São tão ricas as graças que dispensais, que excedem as pedidas. 


9. O grande papel das súplicas durante a oração

Todo o nosso cuidado deve consistir em rezar com confiança, certos de que, orando, estarão para nós abertos todos os tesouros do céu. "Que este seja nosso cuidado, diz São João Crisóstomo, e, então, abrir-se-á para nós o céu". E São Boaventura diz que todas as vezes que o homem recorre devotamente ao Senhor pela oração, ganha bens que valem mais do que todo o mundo. "Em um dia ganha o homem, pela oração, mais do que vale o mundo".

Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas pouco se ocupam com as súplicas. Não resta dúvidas de que a leitura espiritual e a meditação das verdades eternas sejam coisas de muita utilidade, mas muito mais úteis, diz Santo Agostinho, são as súplicas. Nas leituras e meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações. mas na oração obtemos as graças de cumpri-las. "Melhor é rezar do que ler: na leitura ficamos conhecendo o que devemos fazer, mas na oração recebemos o que pedimos". De que serve saber o que devemos fazer e depois não o fazer? De que serve senão para nos tornarmos mais culpados perante Deus? Leiamos e meditemos quanto quisermos, nunca, entretanto, cumpriremos o nosso dever, se não pedirmos a Deus os auxílios necessários.


10. A necessidade da súplica na oração

Por isso, como diz Santo Isidoro, em tempo algum o demônio sugere tantos pensamentos vãos e terrenos à alma do que quando esta procura rezar e pedir graça a Deus: "Quando o demônio nos vê rezar, procura com todas as forças distrair-nos com pensamento fúteis". E por quê? Porque é justamente quando rezarmos que mais recebemos os tesouros dos bens celestes.

O maior fruto da oração mental é fazer-nos pedir a Deus as graças necessárias à perseverança e à salvação eterna. Este é o principal motivo por que a oração mental é moralmente necessária para se conservar a graça de Deus; pois, se a alma não se recolhe no tempo da meditação para pedir os auxílios necessários à salvação e à perseverança, não o fará em outro tempo, porquanto fora da meditação não pensa em pedi-los, nem mesmo se pensará na necessidade de há de pedi-los. Pelo contrário, quem faz dia por dia a sua meditação, conhecerá logo as necessidades de sua alma, os perigos em que se acha e a necessidade que tem de pedir. Assim rezará e obterá as graças necessárias para perseverar e alcançar a salvação. Falando de si mesmo, dizia o Padre Segneri, S. J., que, a princípio, se ocupava mais na oração de excitar afetos do que de pedir; mas, conhecendo depois a grande necessidade e a imensa utilidade dos pedidos, daí por diante nas muitas meditações que fazia se aplicava a fazer súplicas.


11. Peçamos, peçamos muito!

"Clamarei como o filhote da andorinha" (Is 38,14), dizia o piedoso rei Ezequias. Os filhotes da andorinha não fazem outra coisa do que chilrear procurando com isso o auxílio e alimento de sua mãe. Do mesmo modo devemos nós proceder. Se quisermos conservar a vida da graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, para evitarmos a morte do pecado e para avançarmos em seu santo amor. 

Refere o Padre Rodrigues, S. J., que os antigos padres do deserto, nossos primeiros mestres espirituais, fizeram entre si uma consulta para ver qual era o exercício mais necessário e útil à salvação eterna. Resolveram que era repetir a miúdo a breve oração de Davi: "Senhor, vinde em meu socorro!". O mesmo, escreve Cassiano, deve fazer quem quiser salvar-se, dizendo sempre: Deus meu, ajudai-me, meu Deus, ajudai-me! Isto devemos fazer, desde a manhã, quando despertamos, e depois continuar a fazê-lo em todas as nossas necessidades e durante as nossas ocupações, quer espirituais quer materiais, mormente, quando formos assaltados por qualquer tentação ou paixão.

Diz São Boaventura que, muitas vezes, a graça nos vem mais depressa por uma breve oração do que por muitas obras: "Às vezes, obtém-se mais depressa com uma breve oração o que dificilmente se alcançaria com boas obras". Acrescenta Santo Ambrósio: "Quem ora, enquanto ora, recebe porquanto rezar e receber é a mesma coisa: Quem reza, enquanto reza já recebe o que pede; pois pedir é receber".

São João Crisóstomo escreve que o homem mais poderoso é o que reza: Nada há mais poderoso do que um homem que reza", porque se faz participante do poder de Deus. Para chegarmos à perfeição, dizia São Bernardo, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação, vemos o que nos falta; pela súplica, recebemos o que nos é necessário: "Subamos pela meditação e pela petição! Aquela mostra o que nos falta, esta consegue que nada nos falte". 


12. Rezemos orações curtas, mas fervorosas! Se não nos salvarmos, a culpa é nossa

Em resumo, salvar-se sem a oração é dificílimo e até mesmo impossível, como vimos, segundo a ordem comum da providência. Entretanto, com a oração, a salvação é certa e fácil. Para a salvação não é necessário que alguém vá para a região dos infiéis, a fim de oferecer a sua vida; não é necessário retirar-se para um deserto e alimentar-se unicamente de ervas, mas é necessário rezar e dizer: Meu Deus, ajudai-me! Senhor, assisti-me, tende piedade de mim! Poderá haver coisa mais fácil do que isto? E este pouco será suficiente para nos salvar, se formos sempre cuidadosos em fazê-lo. 

De modo especial exorta-nos São Louremço Justiniano: que nos esforcemos por rezar no começo de todas as ações. Afirma Cassiano que os antigos padres do deserto exortavam insistemente a recorrer a Deus com breves, mas frequentes orações: "Ninguém tenha em pouca conta a oração - dizia São Bernardo -, porquanto Deus não a tem em pouca conta, pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil". Persuadamo-nos de que se não rezarmos, não temos desculpas, porquanto a graça de rezar é dada a todos e depende de nós rezarmos sempre que quisermos, como dizia Davi, falando de si mesmo: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida, dizendo-lhe: vós sois o meu amparo" (Sl 41, 9-10). Tratarei desse assunto mais detalhadamente na parte seguinte, demonstrando claramente que Deus dá a todos a graça de rezar, para que, rezando, possam obter todos os auxílios e até bem abundantes, para observar os seus mandamentos e perseverar até a morte. Agora só direi que, se não nos salvarmos, a culpa é nossa, porquanto não rezarmos.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.