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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Nada pode nos separar do amor de Deus




Santo Afonso Mª de Ligório

 Poder que tem a Paixão de Jesus Cristo para acender o amor divino em nossos corações


O Pe. Baltasar Álvarez, um grande servo de Deus, dizia que não devemos pensar ter feito algum progresso no caminho de Deus, se ainda não chegamos a ter sempre no coração Jesus crucificado.428 São Francisco de Sales escreve que "o amor que não nasce da paixão é fraco".429 E é mesmo, porque não há coisa que mais nos obrigue a amar o nosso Deus do que a Paixão de Jesus Cristo, isto é, saber que o Pai Eterno, para nos mostrar o excesso do amor que nos consagra, quis enviar seu Filho Unigênito à Terra para morrer por nós, pecadores. Isso levou o Apóstolo a escrever que Deus, pelo grande amor com que nos amou, quis que a morte de seu Filho nos trouxesse a vida: Deus, que é rico em misericórdia, pela extrema caridade com que nos amou, estando nós mortos pelos pecados, vivificou-nos em Cristo (Ef. 2,4-5). Foi isso justamente o que queriam exprimir Moisés e Elias no Monte Tabor, ao falar da Paixão de Jesus Cristo como de excesso de amor: E falavam do seu excesso que ele devia sofrer em Jerusalém (Lc 9,31). 

Quando nosso Salvador veio ao mundo para remir os homens, os pastores ouviram os anjos cantarem: Glória a Deus nas alturas (Lc 2,14). Mas ao humilhar-se o Filho de Deus, fazendo-se homem por amor do homem, parecia que antes se obscurecia do que se manifestava a glória de Deus. E afinal não era assim, pois a glória de Deus não podia ser melhor manifestada ao mundo do que pela morte de Jesus em prol da salvação dos homens, visto a Paixão de Jesus nos ter manifestado as perfeições dos atributos divinos. Ela nos fez conhecer a grandeza da misericórdia divina, querendo um Deus morrer para salvar os pecadores e morrer de um morte tão dolorosa e ignominiosa. S. João Crisóstomo diz que o sofrimento de Jesus Cristo não foi um sofrimento comum e a sua morte não foi uma simples e semelhante à dos outros homens. 430 Ela nos fez conhecer a sabedoria divina. Se nosso Redentor fosse somente Deus não poderia satisfazer pelo homem, porque Deus não poderia satisfazer a si mesmo em lugar do homem, nem poderia satisfazer padecendo, sendo Ele impassível. Pelo contrário, se fosse somente homem, não poderia como tal satisfazer pela grande injúria feita à majestade divina. Por isso o que fez Deus? Enviou seu próprio Filho, verdadeiro Deus como Ele, a tomar a natureza humana para que assim, como homem, pagasse com a morte a justiça divina e como Deus lhe desse uma satisfação completa. Ela nos fez conhecer a grandeza da justiça divina. S. João Crisóstomo dizia que não é tanto o Inferno, com o qual Deus castiga os pecadores, que demonstra quão grande seja a sua justiça, mas com Jesus Cristo na cruz, 431 já que no Inferno são punidas as criaturas por seus próprios pecados, ao passo que na cruz se vê um Deus martirizado para satisfazer a justiça pelos pecados os homens. Que obrigação tinha Jesus de morrer por nós? Foi oferecido porque ele mesmo quis (Is 53,7). Ele poderia sem injustiça abandonar o homem na sua desgraça, mas o amor que lhe tinha não lhe permitiu vê-los infelizes, e por isso escolheu entregar-se a si mesmo a morte tão penosa, para obter-lhes a Salvação: Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós (Ef 5,2). Desde toda a eternidade havia amado o homem: Amei-te com amor eterno (Jr 31,3). Vendo-se, porém, obrigado por sua justiça a condená-lo e a tê-lo sempre longe de si no Inferno, sua misericórdia impele-o a descobrir um meio de poder salvá-lo. Mas como? Satisfazendo Ele mesmo a divina justiça com sua morte. E assim quis que na própria cruz em que morreu fosse afixado o decreto de condenação do homem à morte eterna, para que fosse destruído ou apagado com seu Sangue. 432 

Dessa maneira, pelos merecimentos de seu Sangue alcançou-nos o perdão de todos os crimes, perdoando-nos todos os nossos pecados (Cl 2,13). Consequentemente espoliou o demônio de todos os direitos adquiridos sobre nós, conduzindo consigo em triunfo tanto seus inimigos como nós, seu espólio: Despojou os principados e potestades, e fez deles um objeto de escárnio público, triunfando deles por si mesmo (ibid., v. 15). Teofilato comenta: "Como um vencedor e triunfador carregando consigo a presa e os homens em triunfo". 433

Por isso Jesus Cristo, satisfazendo a divina justiça, ao morrer na cruz, não falou senão em misericórdia; pediu ao Pai que tivesse misericórdia dos mesmos judeus que haviam tramado a sua morte e dos carrascos que o trucidaram: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Estando na cruz, em vez de punir os ladrões que pouco antes o haviam injuriado - Também os que tinham  sido crucificados com ele o insultavam (Mc 15,32) - ouvindo que um deles lhe pedia misericórdia: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino (Lc 23,42), Ele cheio de compaixão, promete-lhe o Paraíso para aquele mesmo dia: Hoje estarás comigo no paraíso (ibid., v. 43). Antes de morrer, deu-nos por mãe sua própria Mãe. Então disse ao discípulo: "Eis a tua mãe" (Jo 19,27). Na cruz, declara que está satisfeito por ter feito tudo para obter-nos a Salvação e coroa com a sua morte: Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, (...) disse: "Tudo está consumado". Depois, inclinando a cabeça, rendeu o espírito (ibid., vv. 28.30). 

Eis o homem livre do pecado e do poder de Lúcifer pela morte de Jesus Cristo, e além disse elevado ao estado de graça, e de graça maior que a perdida por Adão. Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20). Resta-nos agora, diz o Apóstolo, recorrer sempre com confiança a esse trono de graça, que é justamente Jesus crucificado, para que recebamos de sua misericórdia a graça da Salvação e os auxílios oportunos para vencermos as tentações do mundo e do Inferno.434

Ah, meu Jesus, eu vos amo sobre todas as coisas e que quero eu amar senão a Vós, que sois uma bondade infinita e por mim morrestes? Desejaria morrer de dor cada vez que penso que vos expulsei de minha alma com os meus pecados e que me separei de Vós, que sois meu único bem e tanto me tendes amado. Quem me separará, pois, do amor de Cristo? (Rm 8,35). Só o pecado me pode separar de Vós. Mas espero, pelo sangue que derramastes por mim, que não haveis mais de permitir que eu me separe jamais de todos os bens. Dou-me todo a Vós, aceitai-me e prendei todos os meus afetos para que não ame a ninguém mais senão a Vós. 

Por acaso Jesus Cristo pretende muito, querendo que nos demos inteiramente a Ele, que nos deu todo o seu sangue e a sua vida, morrendo por nós na cruz? Ouçamos o que diz S. Francisco de Sales sobre estas palavras, o amor de Cristo nos constrange (II Cor 5,14): "Saber que Jesus nos amou até a morte, e morte de cruz, não é sentir nossos corações oprimidos por uma violência que é tanto mais forte quanto Ele é mais amável? O meu Jesus deu-se todo a mim e eu me dou todo a Ele, e viverei e morrerei sobre o seu peito, e nem a morte nem a vida me separarão jamais dele".435 

Jesus Cristo morreu, diz S. Paulo, para que cada um de nós não viva mais para o mundo nem para si mesmo, mas só para Ele, que se deu inteiramente a nós: Cristo morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu (ibid., v. 15). Quem vive para o mundo, busca os prazeres do mundo; quem vive para si mesmo, busca a sua satisfação; quem vive para Jesus Cristo, não procura agradar senão a Jesus e nada teme senão desgostá-lo; não se compraz senão vem vê-lo amado e não se aflige senão de vê-lo desprezado. Isso é viver para Jesus Cristo e isso é o que Ele exige de cada um de nós. Pergunto novamente: por acaso exige muito de nós Aquele que deu seu sangue e sua vida por cada um de nós? 

Ó Deus, e por que havemos de empregar os nossos afetos em amar as criaturas, os parentes, os amigos e os grande do mundo - que não suportaram por nós nem flagelos, nem espinhos, nem cravos, não derramaram por nós nem uma gota de sangue - e não amar um Deus que por nosso amor desceu do Céu à Terra, fez-se homem, derramou todo o seu sangue à força de tormentos, e finalmente morreu de dores num madeiro para cativar os nossos corações?! Mais ainda: para unir-se mais estreitamente a nós, deixou-se ficar depois de sua morte sobre nossos altares, onde se torna uma só coisa conosco para nos fazer compreender o amor ardente que nos tem: "Mistura-se conosco para que sejamos um com Ele: isso é próprio dos que amam ardentemente", diz S. Crisóstomo.436 E S. Francisco de Sales acrescenta, falando da santa comunhão: "Em nenhuma outra ação pode-se considerar o Salvador nem mais terno, nem mais amoroso que nesta na qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para unir-se aos corações de seus fiéis.437

Mas como é possível, Senhor, que eu, depois de ter sido amado por Vós com finezas tais, tenha tido a ousadia de vos desprezar, como muito justamente me lançais em rosto? Criei filhos e engrandeci-os, porém eles desprezaram-me (Is 1,2). Como tive coragem de voltar-vos as costas para satisfazer os meus apetites? Lançaste-me para trás das costas (Ez 23,35). Como tive ânimo para expulsar-vos de minha alma? Estes são os [ímpios] que disseram a Deus: "Retira-te de nós" (Jó 21,14). Como tive a ousadia de afligir o vosso Coração, que tanto me amou? Mas o que, então? Devo desesperar de vossa misericórdia? Amaldiçoo os dias em que vos ofendi. Oh, tivesse eu morrido mil vezes antes, ó meu Salvador, e não vos tivesse ofendido! Ó pecadores, quanto não daríeis por uma gota de sangue deste Cordeiro no dia do Juízo? Ó meu Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me; conheceis, porém, a minha fraqueza, prendei por completo a minha vontade, para que ela não se rebele mais contra Vós. Expeli de mim todo o amor que não for por Vós. Eu vos acolho por meu único tesouro, por meu único bem: Vós me bastais e não desejo outro bem fora de Vós, Deus do meu coração e minha herança para sempre (Sl 72,26). 

Ó ovelhinha amada de Deus, vós que sois a Mãe do divino Cordeiro (assim chamava S. Teresa a Maria Santíssima, "a ovelhinha"), recomendai-me a vosso Filho; vós, depois de Jesus, sois a minha esperança, pois que sois a esperança dos pecadores; nas vossas mãos coloco a minha salvação eterna: "Esperança nossa, salve".

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428. Cf. Venerável Lodovico da Ponte, Vita, c. 3, §2. 

429. Tratado do Amor de Deus, 1. 12, c. 13. 

430. Cf. Serm. De pass. 

431. Cf. In Epist. II ad Cor., hom. 11, n. 3.

432. Cf. Cl 2,14.

433. Exposito in epist., ad Coloss., c. II, 15.

434. Cf. Hb 4,16.

435. Tratado do Amor de Deus, 1. 7, c. 8.

436. Ad pop. Ant., hom. 61.

437. Filotéia, p. II, c. 21.

Santo Afonso Mª de Ligório - A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo






terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O valor da oração


 Livro: A Oração - Cap. II

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




1. Como são preciosas a Deus as nossas orações!

São tão preciosas a Deus as nossas orações que Ele destinou os Anjos para lhe apresentarem imediatamente as que estamos fazendo. "Os anjos, diz Santo Hilário, presidem as orações dos fiéis e diariamente as oferecem a Deus". É este exatamente aquele sagrado incenso, isto é, as orações dos santos, que São João viu subir ao Senhor, oferecido pelas mãos dos anjos. Escreveu o mesmo Santo Apóstolo que as orações dos Apóstolos são como redomas de ouro, cheias de suave perfume e muito agradáveis a Deus.

Mas, para melhor compreendermos quanto valem junto de Deus as nossas orações, basta ler nas Sagradas Escrituras as inumeráveis promessas que Deus faz a quem reza, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. "Chama por mim, e eu te ouvirei" (Jr 33,3). "Invoca-me e eu te livrarei" (Sl 49,15). "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7). "Vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem" (Mt 7,11). "Todo aquele que pede, recebe; todo o que busca, acha" (Lc 11,10). "Qualquer coisa que pedirem ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19). "Tudo o que pedirdes orando, crede que haveis de receber e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu vos farei" (Jo 14,14). "Pedi tudo o que quiserdes e vos será concedido" (Jo 15,7). "Em verdade eu vos digo: se pedirdes ao meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Existem muitos outros textos semelhantes que deixamos de citar por brevidade.


2. Sem oração não há vitória

Deus quer salvar-nos. Entretanto, quer salvar-nos como vencedores. Estando, pois, nesta vida, achamo-nos em uma guerra contínua e para nos salvar temos de combater e vencer. "Sem ter vencido, ninguém poderá ser coroado", diz São João Crisóstomo. Somos muito fracos e os inimigos, numerosos e fortes. Como enfrentá-los e vencê-los? Tenhamos coragem e digamos com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Tudo poderemos com a oração, por meio da qual Deus nos dará o que não temos. Escreveu Teodoreto que a oração é todo-poderosa. Ela é uma, entretanto, pode obter todas as coisas: "A oração, sendo uma em si, pode tudo". E São Boaventura afirma que, pela oração, se obtém todos os bens e a libertação de todos os males. Dizia São Lourenço Justiniano que, pela oração, construímos uma torre fortíssima, onde estaremos livres e seguros de todas as insídias e violência dos inimigos. São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios, diz São Bernardo, e com razão, pois com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas. Assim animava-se Davi em seus desfalecimentos: "Invocarei o Senhor louvando-o e livre serei de meus inimigos" (Sl 17,4). Em resumo, diz São João Crisóstomo, a oração é uma grande armadura, uma defesa, um porto, um tesouro. A oração é uma valiosa arma para vencer os assaltos dos demônios; é uma defesa, que nos conserva em todos os perigos; é um porto seguro contra toda tempestade; é um tesouro, que nos provê de todos os bens.


3. Rezemos para alcançar forças contra os nossos inimigos! 

Deus sabe quão salutar é para nós a necessidade de orar. Por isso permite, como foi dito no capítulo primeiro, que sejamos assaltados pelos inimigos, para pedirmos o auxílio que nos oferece e promete. Mas quanto lhe é agradável quando o invocamos nos perigos, tanto lhe desagrada o ver-nos descuidados da oração.

Assim como o rei, diz São Boaventura, julgaria traidor o capitão, que sitiado em uma praça não lhe pedisse socorro, assim Deus considera traidor aquele que, vendo-se assaltado pelas tentações, a Ele não recorre pedindo auxílio. Pois deseja e espera que lhe peçamos para nos socorrer fartamente. Uma prova disso encontramos nas Sagradas Escrituras, nas censuras, que o profeta Isaías fez ao rei Acaz. O profeta convidou-o em nome de Deus a pedir um sinal, a fim de certificar-se do socorro que o Senhor desejava dar-lhe: "Pede algum sinal do Senhor para ti" (Is 7,11). O ímpio rei respondeu: "Não o pedirei nem tentarei a Deus".

Assim disse, porque confiava em suas forças para vencer o inimigo, sem auxílio divino. Mas o profeta repreendeu: "Ouvi, pois casa de Davi! Porventura não vos basta ser molestos aos homens, quereis também molestar Deus?" Dizendo com isto que se torna molesto e injurioso a Deus, quem deixa de lhe pedir graças que o Senhor oferece.


4. Convites à oração

"Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais carregados e vos aliviarei" (Mt 11,28). Pobres filhos meus, diz o Salvador, que vos achais perseguidos por vossos inimigos e acabrunhados com o peso de vossos pecados, não vos abandone a coragem, recorrei a mim pela oração e eu vos darei forças para resistir e refazer-vos de todas as desgraças. Em outro lugar, diz, por boca de Isaías: "Vinde e argúi-me, diz o Senhor; se os vossos pecados forem como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18). Homens, diz ele, recorrei a mim e, ainda quando tiverdes a consciência assaz manchada, não deixeis de vir. Permito até que me acuseis, por assim dizer, se recorrendo a mim, não vos fizer, por minha graça, brancos como a neve.

Que é oração? Ouçamos São João Crisóstomo: "A oração é âncora para os flutuantes, tesouro para os pobres, remédio para os doentes e preservativo para os sãos". A oração é uma âncora segura para quem está em perigo de naufragar, é um tesouro imenso de riquezas para quem é pobre, é um remédio eficacíssimo para os enfermos e um fortificante certo para nossa saúde.

Que faz a oração? Ouçamos São Lourenço Justiniano: "A oração aplaca a ira de Deus, porquanto Deus perdoa logo a quem com humildade lhe pede, concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; em resumo, tranforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos".

Quem necessita de luz, peça a Deus e lhe será dada. Logo que socorri a Deus, diz Salomão, Ele deu-me a sabedoria: "Invoquei e veio sobre mim o espírito da sabedoria" (Sb 7,7). Quem precisar de fortaleza, invoque a Deus e ser-lhe-á dada: logo que abri a boca para pedir, disse Davi, recebi o auxílio do Senhor: "Abri a boca e atraí alento" (Sl 118,134). E se os santos mártires resistiram tão corajosa e constantemente aos tiranos, não foi a oração que lhes deu força e vigor para suportar os tormentos e a morte?


5. Confiai e rezai! Deus virá em vosso auxílio

Quem se vale da oração, desta grande arma, diz São Pedro Crisólogo, ignora a morte, deixa a terra, entra no céu e vive com Deus. Não cai em pecado, perde o apego das coisas da terra, entra no céu e já nesta vida começa a gozar da presença de Deus. 

De que serve, pois, alguém angustiar-se e dizer: Estarei inscrito no livro da vida? Quem sabe se Deus me dará a graça eficaz e a perseverança? "Não vos preocupeis, mas com muitas orações e rogos, com ação de graças, sejam conhecidas as vossas súplicas diante de Deus!" (Fl 4,6). De que serve, diz o Apóstolo, pertubar-vos com estes pensamentos angustiantes e com estes temores? Afugentai, portanto, todas essas ansiedades que só servem para diminuir a vossa confiança e tornar-vos mais tíbios e preguiçosos no caminho da salvação.

Rezai sempre; fazei que vossas orações sejam ouvidas por Deus e agradecei-lhe sempre as promessas que vos fez de conceder-vos sempre os dons que pedis, a graça eficaz, a perseverança, a salvação, e tudo o que quiserdes. O Senhor pôr-nos em batalha contra poderosos inimigos, mas é fiel às suas promessas. Não consente que sejamos atacados além das nossas forças. "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças" (1Cor 10,13). É fiel, porque socorre imediatamente a quem o invoca.

Escreve o douto e eminentíssimo Cardeal Gotti que o Senhor não é obrigado a dar-nos sempre uma graça igual à tentação, mas é obrigado, quando somos tentados e recorremos a Ele, a dar-nos por meio da graça (que para todos tem preparada e oferece) a força suficiente, com que oportunamente possamos resistir às tentações: "Em virtude de graça que põe à nossa disposição e nos oferece, Deus é obrigado a conceder-nos, quando somos tentados e a ele recorremos, as forças necessárias para podermos resistir e para que resistamos de fato; pois tudo podemos naquele que nos conforta pela graça, se humildemente pedirmos". Tudo podemos com o auxílio divino, que será concedido sempre a quem pede; por isso não temos desculpas, quando somos vencidos pela tentação. Fomos vencidos, porque não rezamos. Pela oração, podemos desarmar todas as ciladas do demônio. Pela oração, diz Santo Agostinho, afugentamos todos os males.


6. A oração é uma embaixadora

Diz São Bernardino de Sena que a oração é uma fiel embaixadora, bem conhecida do Rei dos céus e acostumada a entrar em seu gabinete e a mover, com sua importunação, o piedoso ânimo do Rei, a fim de que conceda todo o socorro a nós miseráveis, que gememos no meio de tantos combates e misérias, neste vale de lágrimas. "A oração é a mais fiel embaixadora, conhecida do Rei, que está acostumada a entrar em seu gabinete e a comovê-lo com sua importunação, a fim de impetrar auxílio para nós miseráveis".

Assegura-nos também Isaías que, assim que o Senhor percebe nossas orações, move-se logo à compaixão e não deixa que choremos e suspiremos muito tempo: no mesmo momento nos atende e concede o que lhe pedimos. "Tu, de nenhuma forma, chorarás mais; ele te concederá a graça por causa dos seus gemidos e logo que ouvir a tua voz, te atenderá" (Is 30,19). Em outro lugar, fala o Senhor por boca de Jeremias e, queixando-se de nós, diz: "Porventura tenho sido eu para Israel um deserto ou terra tardia? Por que diz: Nós nos retiramos, não voltaremos mais para ti? (Is 2,31) Por que, pergunta o Senhor, dizeis que não quereis mais recorrer a mim? Porventura será a minha misericórdia uma terra estéril para vós, que não vos possa dar fruto de graça? Ou terra tardia, que produza fruto muito tarde? Com isso, nosso amoroso Senhor queria dar-nos a entender que jamais deixa de atender-nos; e, ao mesmo tempo, quis repreender os que deixam de rezar, por julgar não serem atendidos.


7. Deus nos atende a qualquer hora

Se Deus nos admitisse a apresentar-lhes as nossas súplicas só uma vez por mês, seria já um grande favor. Os reis da terra dão audiência poucas vezes ao ano, mas Deus dá audiência continuamente. 

Escreve São João Crisóstomo que Deus está continuamente pronto para ouvir as nossas orações, e nunca acontece que não atenda a quem lhe pede como convém: "Deus está sempre pronto a ouvir a voz de seus servos e nunca acontecerá  que não atenda, sendo invocado como convém". Diz, além disso, que quando rezamos, antes de terminarmos a exposição de nossas súplicas, Deus já nos atende. Sempre atende o que se pede, ainda enquanto estamos pedindo. Disso temos promessa divina: "Estando eles falando ainda, eu os ouvirei" (Is 65,24). O Senhor, diz Davi, está perto de quem o invoca, para escutá-lo, atendê-lo e salvá-lo: "Perto está o Senhor de todos os que o invocam; sim, de todos os que com razão o invocam; satisfaz a vontade dos que o temem; ouve os gemidos e salva-os" (Sl 144,19).Era disso que se gloriava Moisés, dizendo: "Não há nenhuma outra nação tão grande que tenha deuses tão próximos de si, como nosso Deus está presente em todas as nossas orações" (Dt 4,7). Os deuses dos gentios eram surdos às vozes dos que os invocavam, porque eram míseras criaturas, que nada podiam; mas nosso Deus, que tudo pode, não é surdo às nossas súplicas; pelo contrário, está sempre perto de quem o invoca e concede todas as graças pedidas: "Em qualquer dia em que eu te invocar, logo conhecerei que és o meu Deus" (Sl 55,11). Senhor, dizia o salmista, nisto reconheci que sois vós meu Deus, todo bondade e misericórdia, porquanto sempre que a vós recorro, me socorreis imediatamente. 


8. Somos pobres, mas Deus é rico

Somos pobres, mas, se pedirmos, já não somos mais pobres. Se nós somos pobres, Deus é rico. E Deus é imensamente liberal, diz o Apóstolo, para com aquele que o chama em auxílio: "Deus é rico para todos os que o invocam" (Rm 10,12). E uma vez que, exorta Santo Agostinho, temos de nos entender com um Senhor de infinita riqueza e poder: "Peçamos-lhe não coisas pequenas e vis, mas sim coisas grandes". Se alguém pedisse ao rei uma pequena quantia, com isso não lisonjearia de forma alguma a sua bondade. Pelo contrário, honramos a Deus, honramos a sua misericórdia e a sua liberalidade, quando, à vista de nossa miséria e indignidade, lhe pedimos grandes graças, confiados em sua bondade e fidelidade, pois Ele prometeu: "Tudo o que quiserdes, pedi e vos será dado" (Jo 15,7). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que o Senhor sente-se honrado com isso e fica tão consolado com as nossas orações que até, de certo modo, nos agradece. Porque assim lhe abrimos o caminho de seus benefícios, pois o seu desejo é fazer bem a todos. E podemos estar certos de que, quando pedimos alguma graça, recebemos sempre mais do que pedimos: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a todos dará fartamente sem palavras duras" (Tg 1,5). Assim diz São Tiago para denotar que Deus não é, como os homens, avaro de seus bens. Os homens, apesar de ricos, piedosos e liberais, quando dão suas esmolas, são sempre estreitos e de mãos curtas. E a maior parte das vezes dão menos do que se lhes pede, porquanto, por maior que seja, sua riqueza é limitada; por isso, quanto mais dão, tanto mais lhes faltará. Deus, porém, quando é invocado, dá os seus bens com toda abundância, largamente, sempre mais do que se lhes pede, porquanto a sua riqueza é infinita; quanto mais dá, mais tem para dar: "Porquanto, Senhor, sois bom e manso e de muita misericórdia para com todos os que Vos invocam" (Sl 85,5). Vós, meu Deus, dizia Davi, sois liberal e sumamente misericordioso com quem Vos invoca. São tão ricas as graças que dispensais, que excedem as pedidas. 


9. O grande papel das súplicas durante a oração

Todo o nosso cuidado deve consistir em rezar com confiança, certos de que, orando, estarão para nós abertos todos os tesouros do céu. "Que este seja nosso cuidado, diz São João Crisóstomo, e, então, abrir-se-á para nós o céu". E São Boaventura diz que todas as vezes que o homem recorre devotamente ao Senhor pela oração, ganha bens que valem mais do que todo o mundo. "Em um dia ganha o homem, pela oração, mais do que vale o mundo".

Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas pouco se ocupam com as súplicas. Não resta dúvidas de que a leitura espiritual e a meditação das verdades eternas sejam coisas de muita utilidade, mas muito mais úteis, diz Santo Agostinho, são as súplicas. Nas leituras e meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações. mas na oração obtemos as graças de cumpri-las. "Melhor é rezar do que ler: na leitura ficamos conhecendo o que devemos fazer, mas na oração recebemos o que pedimos". De que serve saber o que devemos fazer e depois não o fazer? De que serve senão para nos tornarmos mais culpados perante Deus? Leiamos e meditemos quanto quisermos, nunca, entretanto, cumpriremos o nosso dever, se não pedirmos a Deus os auxílios necessários.


10. A necessidade da súplica na oração

Por isso, como diz Santo Isidoro, em tempo algum o demônio sugere tantos pensamentos vãos e terrenos à alma do que quando esta procura rezar e pedir graça a Deus: "Quando o demônio nos vê rezar, procura com todas as forças distrair-nos com pensamento fúteis". E por quê? Porque é justamente quando rezarmos que mais recebemos os tesouros dos bens celestes.

O maior fruto da oração mental é fazer-nos pedir a Deus as graças necessárias à perseverança e à salvação eterna. Este é o principal motivo por que a oração mental é moralmente necessária para se conservar a graça de Deus; pois, se a alma não se recolhe no tempo da meditação para pedir os auxílios necessários à salvação e à perseverança, não o fará em outro tempo, porquanto fora da meditação não pensa em pedi-los, nem mesmo se pensará na necessidade de há de pedi-los. Pelo contrário, quem faz dia por dia a sua meditação, conhecerá logo as necessidades de sua alma, os perigos em que se acha e a necessidade que tem de pedir. Assim rezará e obterá as graças necessárias para perseverar e alcançar a salvação. Falando de si mesmo, dizia o Padre Segneri, S. J., que, a princípio, se ocupava mais na oração de excitar afetos do que de pedir; mas, conhecendo depois a grande necessidade e a imensa utilidade dos pedidos, daí por diante nas muitas meditações que fazia se aplicava a fazer súplicas.


11. Peçamos, peçamos muito!

"Clamarei como o filhote da andorinha" (Is 38,14), dizia o piedoso rei Ezequias. Os filhotes da andorinha não fazem outra coisa do que chilrear procurando com isso o auxílio e alimento de sua mãe. Do mesmo modo devemos nós proceder. Se quisermos conservar a vida da graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, para evitarmos a morte do pecado e para avançarmos em seu santo amor. 

Refere o Padre Rodrigues, S. J., que os antigos padres do deserto, nossos primeiros mestres espirituais, fizeram entre si uma consulta para ver qual era o exercício mais necessário e útil à salvação eterna. Resolveram que era repetir a miúdo a breve oração de Davi: "Senhor, vinde em meu socorro!". O mesmo, escreve Cassiano, deve fazer quem quiser salvar-se, dizendo sempre: Deus meu, ajudai-me, meu Deus, ajudai-me! Isto devemos fazer, desde a manhã, quando despertamos, e depois continuar a fazê-lo em todas as nossas necessidades e durante as nossas ocupações, quer espirituais quer materiais, mormente, quando formos assaltados por qualquer tentação ou paixão.

Diz São Boaventura que, muitas vezes, a graça nos vem mais depressa por uma breve oração do que por muitas obras: "Às vezes, obtém-se mais depressa com uma breve oração o que dificilmente se alcançaria com boas obras". Acrescenta Santo Ambrósio: "Quem ora, enquanto ora, recebe porquanto rezar e receber é a mesma coisa: Quem reza, enquanto reza já recebe o que pede; pois pedir é receber".

São João Crisóstomo escreve que o homem mais poderoso é o que reza: Nada há mais poderoso do que um homem que reza", porque se faz participante do poder de Deus. Para chegarmos à perfeição, dizia São Bernardo, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação, vemos o que nos falta; pela súplica, recebemos o que nos é necessário: "Subamos pela meditação e pela petição! Aquela mostra o que nos falta, esta consegue que nada nos falte". 


12. Rezemos orações curtas, mas fervorosas! Se não nos salvarmos, a culpa é nossa

Em resumo, salvar-se sem a oração é dificílimo e até mesmo impossível, como vimos, segundo a ordem comum da providência. Entretanto, com a oração, a salvação é certa e fácil. Para a salvação não é necessário que alguém vá para a região dos infiéis, a fim de oferecer a sua vida; não é necessário retirar-se para um deserto e alimentar-se unicamente de ervas, mas é necessário rezar e dizer: Meu Deus, ajudai-me! Senhor, assisti-me, tende piedade de mim! Poderá haver coisa mais fácil do que isto? E este pouco será suficiente para nos salvar, se formos sempre cuidadosos em fazê-lo. 

De modo especial exorta-nos São Louremço Justiniano: que nos esforcemos por rezar no começo de todas as ações. Afirma Cassiano que os antigos padres do deserto exortavam insistemente a recorrer a Deus com breves, mas frequentes orações: "Ninguém tenha em pouca conta a oração - dizia São Bernardo -, porquanto Deus não a tem em pouca conta, pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil". Persuadamo-nos de que se não rezarmos, não temos desculpas, porquanto a graça de rezar é dada a todos e depende de nós rezarmos sempre que quisermos, como dizia Davi, falando de si mesmo: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida, dizendo-lhe: vós sois o meu amparo" (Sl 41, 9-10). Tratarei desse assunto mais detalhadamente na parte seguinte, demonstrando claramente que Deus dá a todos a graça de rezar, para que, rezando, possam obter todos os auxílios e até bem abundantes, para observar os seus mandamentos e perseverar até a morte. Agora só direi que, se não nos salvarmos, a culpa é nossa, porquanto não rezarmos.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.








sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Necessidade da oração

Livro: A Oração - Cap. I

Santo Afonso Maria de Ligório

(1696-1787)

Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.





 1. O erro dos pelagianos

Erram os pelagianos dizendo que a oração não é necessária para se conseguir a salvação. O ímpio Pelágio, seu mestre, afirmava que só se perde quem não procura conhecer as verdades necessárias. Mas, como o disse bem Santo Agostinho, Pelágio falava de tudo, menos da oração, que, conforme sustentava e ensinava o mesmo santo, é o único meio de adquirir a ciência dos santos, como escreve São Tiago: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a concede fartamente a todos" (Tg 1,5).


2. Nas Sagradas Escrituras são muito claro os textos que nos mostram a necessidade de rezar, se quisermos alcançar a salvação. "É preciso rezar sempre e nunca descuidar" (Lc 18,1). "Vigiai e orai para não cairdes em tentação" (Mt 25,41). "Pedi e dar-se-vos-á" (Mt 7,7). Segundo a doutrina comum dos teólogos, as referidas palavras: "É preciso rezar, orar, pedir", significam e impõem um preceito e uma obrigação, um mandamento formal. Vicleff afirmava que todos esses textos não se referiam à oração, mas tão somente às boas obras, assim, rezar, no seu modo de ver, nada mais é do que agir corretamente e praticar o bem. A Igreja, entretanto, condenou expressamente esse erro. Por isso, ensinava o douto Léssio que, sem pecar contra a fé, não se pode negar a necessidade da oração aos adultos, mormente quando se trata de conseguir salvação. Pois, como consta nos Livros santos, a oração é o único meio para conseguirmos os auxílios necessários à salvação.


3. A razão desta necessidade é bastante clara

Sem o socorro da graça, nada de bom podemos fazer: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). Nota Santo Agostinho sobre essas palavras que Jesus Cristo não disse: "nada podeis cumprir", mas "nada podeis fazer". Com isso, quis Nosso Senhor dar-nos a entender que sem a graça nem mesmo podemos começar a fazer o bem: "Não somos capazes de por nós mesmos ter algum pensamento, mas toda a nossa força vem de Deus" (2 Cor 3,5). Se nem sequer podemos pensar no bem, como podemos, então, desejá-lo? O mesmo nos demonstram muitos outros textos das S. Escrituras: "Deus é quem opera tudo em todos" (1 Cor 12,6). "Farei que vós andeis nos meus preceitos e que guardeis as minhas ordens e as pratiqueis" (Ez 36,27). Por isso, como diz S. Leão Papa: "Nenhum bem faz o homem sem que Deus não lhe dê a sua graça para isso". E o Concílio de Trento diz: "Se alguém disser que, sem a prévia inspiração do Espírito Santo e sem o seu socorro, o homem pode crer, esperar, amar ou fazer penitência como deve, com o fim de obter a graça da justificação, seja anátema".


4. Modo de agir de Deus com os animais

O Autor da "Obra Imperfeita" diz, referindo-se aos brutos, que o Senhor a um concedeu a rapidez, a outros deu unhas, a outros cobriu de penas, para que, desse modo, pudesse conservar sua vida. O homem, porém, foi formado em tal estado que só Deus é toda a sua força. Deste modo o homem é inteiramente incapaz de, por si, efetuar a sua salvação, visto que Deus quis que tudo o que tem ou pode ter receba por meio de sua graça. 


5. As primeiras graças

Mas este auxílio da graça normalmente o Senhor concede só a quem ora, conforme a celébre sentença de Genadio: "Cremos não chegar ninguém à salvação sem que Deus o conceda. Ninguém, depois de convidado, obtém a salvação, sem que Deus o ajude. Só quem reza merece o auxílio de Deus".

Se é certo que, sem o socorro da graça, nada podemos, e se esse socorro é concedido por Deus unicamente aos que rezam, segue-se que a oração nos é absolutamente necessária para a salvação. Verdade é que há certas graças e que são concedidas sem a nossa cooperação, como, por exemplo, a vocação à fé, à penitência. No dizer de Santo Agostinho, Deus as concede mesmo a quem não as pede. Entretanto, quanto às outras graças, especialmente em relação à graça da perseverança, tem por certo o Santo Doutor que não são concedidas senão aos que pedem: "Deus dá algumas graças, como o começo da fé, mesmo aos que não pedem; outras, como a perseverança, reservou para os que pedem".

6. É por isso que os teólogos, como São Basílio, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e outros, como o próprio Santo Agostinho, ensinam que a oração para os adultos é necessária, não somente por ser um mandamento de Deus, mas também por ser um meio necessário para a salvação. Isto quer dizer que, segundo a ordem comum da Providência, é impossível que um cristão se salve sem pedir as graças necessárias para a sua salvação. O mesmo ensina Santo Tomás: "Depois do batismo, a oração contínua é necessária ao homem para poder entrar no céu. Embora sejam perdoados os pecados pelo batismo, sempre ainda ficam os estímulos ao pecado, que nos combate interiormente, o mundo e os demônios que nos combatem externamente". A razão alegada pelo Doutor Angélico, e que nos deve convencer na necessidade da oração, é a seguinte: "Para nos salvar, devemos combater e vencer". "Aquele que combate nos jogos públicos não será coroado se não combater legitimamente" (2Tm 2,5). Sem o auxílio de Deus, não poderemos resistir a tantos e tais inimigos. Ora, este auxílio divino só se consegue pela oração. Logo, sem oração, não há salvação.


7. A oração é o caminho ordinário para se receber os dons de Deus.

Que a oração é o único meio para se receber as graças divinas, de um modo mais claro o confirma o mesmo santo Doutor, quando diz que todas as graças que o Senhor, desde toda a eternidade, determinou conceder-nos, não quer concedê-las a não ser por meio da oração. A mesma coisa ensina São Gregório: "Pela oração, merecem os homens receber o que Deus, desde a eternidade, determinou conceder-nos, não que concedê-las a não ser por meio da oração. A mesma coisa ensina São Gregório: "Pela oração, merecem os homens receber o que Deus, desde a eternidade, determinou conceder-lhes". "A oração é necessária, diz Santo Tomás, não para que Deus conheça as nossas necessidades, mas para que nós fiquemos conhecendo a necessidade que temos de recorrer a Deus, para receber oportunamente os socorros da salvação. Assim reconhecemos Deus como único Autor de todos os bens, a fim de que (são palavras do Santo) nós conheçamos que necessitamos recorrer ao auxílio divino e reconheçamos que Ele é Autor dos nossos bens". Assim como o Senhor quis que, para sermos providos do pão e do vinho, semeássemos a vinha, assim quis que recebêssemos as graças necessárias para nos salvar por meio da oração: "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis" (Mt 7,7).


8. Somos pobres. A oração é o alimento de nossa alma. 

Em resumo, outra coisa não somos senão pobres mendigos, que tanto temos quanto recebemos de Deus como esmola: "Eu, porém, sou pobre e mendigo" (Sl 40,18). O Senhor, diz Santo Agostinho, bem deseja e quer dispensar-nos as suas graças. Contudo não quer dispensá-las, senão a quem lhe pedir. Nosso Senhor no-lo assegura com as palavras: "Pedi e dar-se-vos-á". Logo, diz Santa Tereza, quem não pede não recebe. Assim como a umidade é necessária às plantas para não secarem, assim, diz São João Crisóstomo, é nos necessária a oração para nos salvarmos. Em outro lugar, diz o mesmo Santo, que assim como a alma dá a vida ao corpo, assim também a oração mantém a vida da alma. "Assim como o corpo não pode viver sem a alma, assim a alma sem a oração está morta e exala mau cheiro". Disse "exala mau cheiro", porque quem deixa de recomendar-se a Deus, logo começa a corromper-se. A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento, assim, sem a oração, diz Santo Agostinho, não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração.

Todas essas comparações aduzidas pelos santos denotam a necessidade absoluta que todos temos de rezar para nos salvarmos. 


9. A oração é uma arma

A oração, além disso, é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos. Quem não se serve dela está perdido. Nem duvida o Santo em afirmar que Adão caiu, porque não se recomenda a Deus na hora da tentação. "Adão pecou porque não rezou". O mesmo escreveu São Gelásio, falando dos anjos rebeldes: "Receberam em vão a graça divina... e porque não rezaram... caíram".

São Carlos Borromeu, em uma carta pastoral, adverte que, entre os meios que Jesus Cristo nos recomendou no Evangelho, deu o primeiro lugar à oração. Ele quis que nisso se distinguissem as igrejas católicas e sua Religião das outras seitas, querendo que de um modo especial elas se chamassem casas de oração. "Minha casa será chamada de casa de oração" (Mt 21,13). Conclui São Carlos Borromeu, na mesma carta, que a oração é o princípio, o progresso e o complemento de todas as virtudes. Por isso nas trevas, nas misérias e nos perigos em que nos achamos, não temos nenhum outro em quem fundar nossas esperanças, senão levantar nossos olhos a Deus e pela oração impetrar de sua misericórdia a nossa salvação. "Como não sabemos o que devemos fazer, dizia o rei Josafá, não nos resta outro meio do que levanrar os nossos olhos para vós" (2 Cr 20,12). E assim também fazia Davi, não encontrando outro meio para se livrar dos seus inimigos do que rogar continuamente ao Senhor para que o libertasse de suas ciladas: "Os meus olhos se elevam sempre ao Senhor; porquanto Ele tirará o laço de meus pés" (Sl 25,15). E assim não cessava de rezar o real profeta, dizendo: "Olhai para mim e tem piedade de mim, porque sou pobre e só". "Chamei a ti, Senhor, salva-me, para que guarde os teus mandamentos" (Sl 118,146). "Senhor, volvei para mim os vossos olhos, tende piedade de mim e salvai-me, porque sem Vós nada posso e fora de Vós não encontro quem possa ajudar-me". 


10. Os erros de Lutero e Jansênio

E, de fato, como poderíamos resistir à força dos nossos inimigos e observar os mandamentos de Deus, mormente depois do pecado dos nossos primeiros pais; pecado que nos enfraqueceu tanto, se não tivéssemos a oração, pela qual podemos impetrar do Senhor a luz e a força necessárias para os observar? Foi uma blasfêmia o que disse Lutero afirmando que, depois do pecado de Adão, é impossível ao homem a observância dos mandamentos de Deus.

E Jansênio disse, mais ainda, que alguns preceitos são impossíveis, até para os justos, em vista das forças que atualmente possuem.

Até aqui sua proposição podia ser interpretada em bom sentido. Mas, como justiça, foi ela condenada pela Igreja por causa do que se acrescentou depois, dizendo que lhes faltava a graça pela qual se tornava possível a observância dos mandamentos. É verdade, diz Santo Agostinho, que o homem, fraco como é, não pode observar certos mandamentos, com a sua força atual ou com a graça comum a todos; mas, por meio da oração, pode muito bem obter auxílio maior, do qual necessita para observá-los. Deus não manda coisas impossíveis. Entretanto, se mandar, exorta a fazer o que se pode e a pedir o que não se pode. É célebre este texto do Santo, que mais tarde foi adotado pelo Concílio de Trento e declarado dogma de fé. E imediatamente acrescenta o Santo Doutor: "Vejamos como o homem, em virtude do remédio, pode fazer o que não podia por causa da fraqueza". Quer dizer que, com a oração, obtemos o remédio para nossa fraqueza, porquanto, se pedirmos a Deus, conseguiremos força para fazer o que não podemos.


11. Deus não manda coisas impossíveis

Não podemos e não devemos acreditar, continua Santo Agostinho, que Deus, obrigando-nos a observar a lei, queira ordenar o impossível. Fazendo-nos Deus compreender que somos incapazes de observar todos os seus mandamentos, Ele nos admoesta a fazer as coisas fáceis com as graças que nos dá e a fazer as coisas difíceis com o auxílio maior, que podemos impetrar pela oração. "Por isso mesmo cremos, com firmeza, que Deus não pode mandar coisas impossíveis e somos advertidos do que devemos fazer nas coisas fáceis e do que devemos pedir nas difíceis". Por que, perguntará alguém, impõe-nos Deus coisas impossíveis às nossas forças? Justamente a fim de que procuremos, pela oração, o que não podemos com a graça comum. "Deus manda-nos algumas coisas superiores às nossas forças para que saibamos o que lhe devemos pedir". E em outro lugar: "A lei foi dada para que se procure a graça. A graça é dada para que se cumpra a lei". A lei não pode ser observada sem a graça, e Deus, para este fim, deu a lei, para que sempre suplicássemos a graça necessária, para observá-la. E, de novo, em outro lugar, diz ele: "A lei é boa se dela fizermos bom uso. Em que consiste, pois, o bom uso da lei?" Ele responde: "Consiste em conhecer pela lei a própria fraqueza e em procurar o auxílio divino para obter a saúde". Santo Agostinho diz que nós nos devemos servir da lei. - Mas para que fim? Para conhecermos por ela (o que sem ela seria impossível) a nossa incapacidade para observá-la, a fim de que com a oração alcancemos o auxílio divino que cura a nossa fraqueza.


12. Grande é a fraqueza do homem

São Bernardo escreve o mesmo dizendo: "Quem somos nós ou qual é a nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente era isso o que Deus queria: que nós, vendo a nossa insuficiência e a falta de auxílio, recorrêssemos com toda a humildade à sua misericórdia". Deus sabe como a oração é útil para conservar a humildade e para exercer a confiança. Por isso, permite que nos assaltem os inimigos que, para nós e nossas forças, são invencíveis, para obtermos com a oração o auxílio para resistir-lhes. Note-se, especialmente, que ninguém pode resistir às tentações impuras da carne se não se recomenda a Deus no momento da tentação. Este inimigo é tão terrível que, privando-nos nos combates de quase toda a luz, nos faz esquecer de meditações e bons propósitos, desprezar a verdade da fé e perder o temor dos castigos divinos. Esta tentação une-se à nossa natureza decaída e nos arrasta com toda a força dos prazeres sensuais. Quem não recorre a Deus está perdido. A única defesa contra a tentação, diz São Gregório de Nissa, é a oração: "A oração é a guarda da pureza". O mesmo dizia, antes dele, Salomão: "Sabendo eu que de outra maneira não podia ser inocente, sem que Deus me concedesse... dirigi-me ao Senhor e pedi-lhe" (Sb 8,21). A castidade é uma virtude que não podemos praticar se Deus no-lo não concede aos que pedem. Quem pedir, certamente, será atendido.


13. São Tomás, contra Jansênio

Diz o seguinte: "Não devemos dizer ser-nos impossível a castidade ou outro mandamento qualquer. Muito embora não possamos observá-lo por nós mesmos, contudo, nós o podemos mediante o auxílio divino. O que nos é possível com auxílio divino não se pode dizer simplesmente que é impossível". Não se diga ser uma injustiça mandar a um coxo que ande direito. Não, diz Santo Agostinho, não é injustiça, dando-lhe os meios para se curar. Se depois continuar a coxear, a culpa é dele. Muito a propósito se manda que o homem ande direito para que, percebendo que não pode, procure o remédio que cure a claudicação do pecado. 


14. Saber viver é saber rezar

Diz o mesmo Santo Doutor que não saberá viver bem quem não souber rezar: "Bem sabe viver o que sabe rezar bem". São Francisco de Assis dizia que, sem a oração, nunca pode uma alma produzir bons frutos. Não têm, pois, desculpa os pecadores que alegam não ter forças para resistir às tentações. "Se vos faltam as forças, adverte São Tiago, por que então não as pedis?" "Não tendes porque não pedis" (Tg 4,2). Não há dúvida, somos muito fracos para resistir aos assaltos de nossos inimigos. Mas também é certo que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados acima de nossas forças, como diz o Apóstolo: "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças. Fará, pelo contrário, que tireis proveito da tentação para poderdes suportá-la" (1Cor 10,13). Explicando estas palavras, diz Primásio: "Com o auxílio da graça, Ele vos dará forças para vencerdes a tentação". Somos fracos, mas Deus é forte. Se implorarmos o seu auxílio, Ele nos comunicará a sua força e assim poderemos tudo e poderemos dizer com o mesmo Apóstolo São Paulo: "Posso tudo naquele que me conforta" (Fl 4,13), "Não há, pois, desculpa, como diz São João Crisóstomo, para aquele que sucumbe por deixar de orar. Porque, se tivesse orado, não teria sido surpreendido por seus inimigos. Não poderá ser desculpado aquele que não quis vencer o inimigo, abandonando a oração". 


15. É necessária a intercessão dos santos para se obter a graça divina?

Levanta-se aqui a questão se a intercessão dos santos é necessária para se obter a graça divina. Que seja lícito e útil invocar os santos como intercessores, para eles suplicarem, pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que nós, por nossos deméritos, não somos dignos de receber, é doutrina da Igreja, como declarou o Concílio de Trento: "É bom e útil invocar humildemente os santos e recorrer à sua proteção e intercessão, para impetrar benefícios de Deus por seu divino Filho, Jesus Cristo".

O ímpio Calvino reprova essa invocação dos santos, mas sem razão, pois é lícito e proveitoso invocar em nosso auxílio os santos vivos e pedir-lhes que nos ajudem com suas orações. Assim fazia o profeta Baruc, dizendo: "E rogai por nós ao Senhor, nosso Deus" (Br 1,13). E São Paulo: "Irmãos, rogai por nós" (1Ts 5,25). Deus mesmo quis que os amigos de Jó se recomendassem às orações de seu fiel servo, para lhes ser misericordioso em vista dos merecimentos dele... "Ide ao meu servo Jó... e Jó, o meu servo, orará por vós, e eu volverei misericordioso o meu olhar para ele" (Jó 42,8). Se é lícito recomendar-se aos vivos, como então não será lícito invocar os santos, que, no céu, mais de perto gozam de Deus? Isto não é derrogar a honra que se deve a Deus, mas duplicá-la, assim como na terra podemos honrar e venerar o rei em sua pessoa e também na pessoa dos seus servos. É por isso que Santo Tomás diz ser útil invocar e recorrer a muitos santos, "porquanto pela oração de muitos, às vezes se alcança o que pela oração de um só não se obteria". Poderá alguém objetar e dizer: de que serve recorrer aos santos para que rezem por nós, quando eles já pedem por todos quantos são dignos disso? Responde o mesmo Santo Doutor que alguns são seriam dignos de que os santos rezassem por eles, mas tornam-se dignos recorrendo com devoção aos santos.


16. A oração e as almas do purgatório

Pergunta-se: é útil recomendar-se às orações das almas do purgatório? Alguns dizem que as almas do purgatório não podem rezar por nós. São levados pela autoridade de Santo Tomás que afirma estarem aquelas almas em estado de expiação e, por isso, inferiores a nós. Não se acham em condição de rezar por nós, mas, pelo contrário, necessitam de nossas orações.

Mas muitos doutores, como Belarmino, Sílvio, Cardeal Gotti e outros, afirmam, com muita probabilidade, que se deve crer piamente que Deus manifesta-lhes nossas orações, a fim de que aquelas santas almas rezem por nós, como nós rezamos por elas. Assim  se estabelecerá entre nós e elas este belíssimo intercâmbio de caridade. Não obsta, como dizem Sílvio e Gotti, o que diz o Angélico, isto é, que as almas padecentes não se acham em estado de rezar. Uma coisa é não estar em estado de rezar e outra é não poder rezar. É verdade que aquelas almas santas não se acham em estado de orar. Como diz Santo Tomás, estando no lugar de expiação, elas são inferiores a nós e por isso necessitam das nossas orações. Contudo, em tal estado, bem podem rezar, porque estão na amizade de Deus. Se um pai, apesar de seu grande amor a seu filho, conserva-o encarcerado por alguma falta cometida, o filho, em todo o caso, não está em condições de pedir alguma coisa para si mesmo. Entretanto, por que não poderá pedir pelos outros? Por que não poderá esperar ser atendido no que pede, conhecendo o afeto que lhe tem o pai? Sendo assim, as almas do purgatório, muito mais amadas de Deus e confirmadas em graça, podem rezar por nós. Mas não é costume da Igreja invocá-las e implorar sua intercessão, porque, segundo a providência ordinária, elas não têm conhecimento de nossas súplicas. Todavia, acredita-se piamente, como dissemos, que o Senhor lhes faz conhecer as nossas preces e, então, cheias de caridade não deixam de pedir por nós. Santa Catarina de Bolonha, quando desejava alcançar alguma graça, recorria às almas do purgatório e era imediatamente atendida. Até dizia que muitas graças, que não havia obtido pela intercessão dos santos, conseguia invocando as almas do purgatório.


17. A obrigação que temos de rezar pelas almas do purgatório

Seja-me permitido fazer aqui uma digestão em favor das almas do purgatório. Se quisermos o socorro de suas orações, é justo que cuidemos também de socorrê-las com nossas orações e boas obras. Disse que é justo, mas deve-se dizer ainda que é um dever cristão. Pois manda a caridade que socorramos o próximo em suas necessidades, mormente quando podemos fazê-lo sem incômodo de nossa parte. Ora, é certo que, entre aqueles que caem debaixo da palavra "próximo", devem-se compreender as benditas almas do purgatório. Elas, apesar de não estarem mais nesta vida, nem por isso deixam de pertencer à comunhão dos santos. "As almas dos fiéis defuntos, diz Santo Agostinho, não estão separadas da Igreja."

E mais claramente declara Santo Tomás a esse respeito, dizendo que "a caridade é o vínculo que une os membros da Igreja entre si e não se limita tão somente aos vivos, mas também aos mortos, que partiram deste mundo na graça de Deus". Portanto, devemos socorrer, quanto possível, aquelas santas almas como a nosso próximo e, sendo a sua necessidade maior, maior também consequentemente deve ser a nossa obrigação de socorrê-las.


18. Os sofrimentos das almas do purgatório

Em que necessidade se acham estas santas prisioneiras! Certo é que seu sofrimento é imenso. "O fogo que as tortura, diz Santo Agostinho, é mais grave do que qualquer sofrimento que possa atormentar o homem nesta vida". O mesmo diz Santo Tomás, acrescentando ser aquele fogo semelhante ao do inferno: "pelo mesmo fogo é atormentado o condenado, e purificado o escolhido". Isto quanto ao sofrimento dos sentidos. Mas muito maior é o sofrimento que causa a estas santas esposas a privação da visão de Deus. 

Aquelas almas, não só por natureza, mas ainda pelo amor sobrenatural, em que ardem para com Deus, com tal ímpeto são impelidas para se unirem ao sumo Bem que, vendo-se impedidas por motivo de suas culpas, sofrem dor tão acerba que, se lhes fosse possível a morte, morreriam a cada momento. Pois, segundo diz São João Crisóstomo, esta privação da visão de Deus as atormenta muito mais do que o sofrimento dos sentidos: "Mil fogos do inferno juntos não causariam tanta dor como esta do dano!" Por isso aquelas santas almas prefeririam sofrer qualquer outro castigo a serem destituídas, um só momento, da suspirada união com Deus. Diz, por isso, o Doutor Angélico que "o sofrimento do purgatório excede todas as dores que podemos sofrer nesta vida". Refere Dionísio Cartusiano que certo defunto, ressuscitado por intercessão de São Jerônimo, disse a São Cirilo de Jerusalém que todos os tormentos desta terra são gozos e delícias em comparação com o menor sofrimento do purgatório: "Todos os tormentos desta vida, se comparados à menor pena do purgatório, seriam verdadeiros gozos". E acrescenta que, se alguém tivesse experimentado aqueles sofrimentos, mais prontamente quereria sofrer todas as dores que sofreram ou sofrerão os homens neste mundo até o dia do juízo do que sofrer por um só dia o menor sofrimento do purgatório. Por isso escreveu São Cirilo que aqueles sofrimentos, quanto à aspereza, são os mesmos do inferno, apenas diferem porque são eternos. 


19. As almas do purgatório sofrem horrivelmente e não podem socorrer-se a si mesmas

São, pois, muito grandes as penas daquelas almas e, por outro lado elas não podem ajudar-se, segundo Jó, "estão presas e ligadas pelos laços da pobreza" (Jó 36,8). Já estão destinadas ao Reino aquelas santas rainhas, mas dele não podem tomar posse, enquanto não chegar o fim de sua expiação. Portanto, não podem ajudar a si próprias (ao menos suficientemente, se quisermos crer nos teólogos que admitem que aquelas almas, com suas orações, também possam impetrar para si algum alívio) para livrar-se daquelas prisões, em que estão detidas, enquanto não tiverem satisfeito à justiça divina em todo o seu rigor. Foi o que disse, falando do purgatório, um monge cisterciense, aparecendo ao sacristão de seu convento: "Ajudai-me, pediu ele, com vossas orações, porque por mim nada posso obter!" Isto concorda com o que diz S. Boaventura: "A pobreza impede o pagamento das dívidas". Quer dizer que as almas do purgatório são tão pobres que não podem satisfazer por si próprias à justiça divina.


20. A obrigação que temos de rezar pelas almas do purgatório

É de certo, entretanto, e até de fé que nós, com os nossos sufrágios e, principalmente, com as orações recomendadas pelas Igreja, bem podemos auxiliar aquelas santas almas. Não sei como poderá isentar-se de culpa quem deixa de oferecer-lhes qualquer auxílio, ao menos algumas orações. 


21. Motivos que temos para rezar pelas almas do purgatório

Se não nos mover a obrigação que temos, mova-nos, ao menos, a alegria que causamos a Nosso Senhor Jesus Cristo quando nos aplicamos em libertar aquelas suas esposas diletas, para se unirem com Ele no paraíso. Movam-nos, enfim, os grandes merecimentos que podemos obter praticando este grande ato de caridade para com aquelas santas almas. Elas são gratíssimas e bem conhecem o grande benefício que lhe fazemos, aliviando-as daquelas penas e obtendo, por meio das nossas orações, que mais depressa possam entrar na glória. Lá chegando, não deixarão de rezar por nós. 

Se o Senhor promete ser misericordioso para com os que praticam a misericórdia: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5,7), com muita razão pode esperar a salvação quem procura socorrer as almas do purgatório, tão aflitas e tão caras a Deus, Jônatas, depois de ter salvado os hebreus pela vitória sobre os seus inimigos, foi condenado à morte por seu pai, Saul, por haver provado o mel contra a sua ordem. Mas o povo apresentou-se ao rei e disse: "Como há de morrer Jônatas, o salvador de Israel?" (1Sm 14,45). Ora, assim devemos também esperar que, se algum de nós obtiver, com suas orações, a salvação de uma alma do purgatório e a sua entrada no céu, essa alma dirá a Deus: "Senhor, não permitais que se perca quem me livrou das chamas do purgatório". E, se Saul concedeu a Jônatas a vida, a pedido do povo, Deus não negará a salvação àquele por quem intercede uma alma do purgatório. 

Além disso, diz Santo Agostinho, quem nesta vida mais socorrer as almas do purgatório, Deus fará com que seja também socorrido por outro, quando estiver lá no meio daquelas chamas.


22. A Santa Missa pelas almas do purgatório

Um grande sufrágio pelas almas do purgatório é participar da Santa Missa e nela recomendá-las a Deus, pelos merecimentos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo: Eterno Pai, eu vos ofereço este sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo com todas as dores que sofreu em sua vida e morte e, pelos merecimentos de sua Paixão, recomendo-vos as almas do purgatório e especialmente as de... É ato também de muita caridade recomendar, ao mesmo tempo, as almas de todos os agonizantes.


23. A invocação dos santos

Tudo o que dissemos sobre as almas do purgatório, se podem ou não rezar por nós, se é conveniente ou não nos recomendar as suas orações, vale também a respeito dos santos. Quantos a eles, é certo que é utilíssimo recorrer à sua intercessão, falando dos santos já canonizados, que gozam da visão de Deus. Supor que neste ponto a Igreja é falível seria incidir em culpa ou em heresia, como dizem São Boaventura, Belarmino e outros, ou ao menos está próximo de heresia, segundo Suarez, Azor, Gotti e outros. Porque o Sumo Pontífice, como diz Santo Tomás, ao canonizar os santos, é de modo particular guiado pela inspiração infalível do Espírito Santo.


24. Somos obrigados a invocar os santos?

Volto à questão, apresentada no item anterior, sobre se há uma obrigação de recorrer à intercessão dos santos. Não é minha intenção resolver esta questão: contudo, não posso deixar de apresentar  uma doutrina do Angélico. Ele, antes de tudo, em vários lugares supracitados e, especialmente no livro das Sentenças, tem por certo que cada um é obrigado a orar, porque de outro modo não se pode (como diz ele) receber de Deus as graças necessárias à salvação, a não ser pela oração: "Cada um é obrigado a rezar, porquanto deve procurar os bens espirituais que só por Deus são concedidos e que só podemos alcançá-los por meio da oração".

Em outro lugar do mesmo livro, o mesmo Santo propõe a dúvida: se devemos invocar os santos, a fim de que peçam por nós. É esta a resposta do Santo, que vamos dar em sua íntegra, para melhor compreensão: "A ordem estabelecida por Deus, segundo Dionísio, é que todas as coisas sejam referidas a Deus, por meio das últimas mediações. Ora, como os santos do céu estão próximos de Deus, a ordem da lei divina requer que nós, enquanto vivermos neste mundo e estivermos longe do Senhor, sejamos conduzidos a Ele pelos santos que são os medianeiros. E isso acontece quando Deus derrama, por eles, sobre nós, os efeitos de sua Bondade. Nossa volta para Deus deve corresponder ao curso da distribuição de suas graças. Assim como os benefícios de Deus chegam até nós pela intercessão dos santos, do mesmo modo devemos nós chegar até Deus, a fim de recebermos novamente os seus auxílios, por intermédio dos santos. Esta é a razão por que temos os santos como nossos intercessores e ao mesmo tempo como nossos medianeiros diante de Deus, pedindo-lhes que roguem por nós".

Notem as palavras: "Isto requer a ordem da Lei divina, e notem igualmente estas: assim como mediante os sufrágios dos santos nos vem a graça de Deus, pelo mesmo caminho devemos nós outros voltar para Deus, a fim de recebermos novamente sua graça por mediação deles. Assim, segundo Santo Tomás, a ordem da lei divina requer que nós, mortais, nos salvemos por meio dos santos, recebendo, por sua intercessão, os auxílios necessários à nossa salvação. Objeta, então o Angélico, dizendo ser supérfluo recorrer aos santos, quando Deus é infinitamente mais misericordioso e inclinado a atender-nos. Responde ele mesmo que o Senhor dispôs assim, não por defeito de seu poder, mas para conservar a ordem reta e universalmente estabelecida de operar por meio de causas segundas: "Não é, diz o santo, por defeito de sua misericórdia, senão para que seja mantida a ordem supraexplicada".


25. A ordem estabelecida por Deus na distribuição das graças

Segundo a afirmação de Santo Tomás (escreve o continuador de Tournely com Sílvio), é verdade que devemos invocar só a Deus como o Autor das graças. Entretanto, somos obrigados também à intercessão dos santos, para observar a ordem que Deus estabeleceu sobre a nossa salvação, isto é, que os inferiores se salvem, implorando o auxílio dos superiores. "Segundo a lei natural, todos são obrigados a observar a ordem que Deus estabeleceu; ora, Deus estabeleceu que os inferiores alcancem a salvação implorando o auxílio dos superiores".


26. A intercessão de Nossa Senhora

E, assim é, falando dos santos, quanto mais não devemos recorrer à intercessão da divina mãe, cujas súplicas, junto de Deus, valem mais do que as de todos os santos do paraíso? Diz, Santo Tomás que os santos, na proporção dos merecimentos pelos quais adquiriram as graças, podem salvar muitos outros, mas Nosso Senhor Jesus Cristo e também sua Mãe mereceram tantas graças, que podem salvar todos os homens: "Grande coisa é, para cada santo, ter graça suficiente para salvação de muitos; e, se um tivesse tanto quanto fosse necessário para salvar o mundo inteiro, seria o máximo; e isto se encontra em Nosso Senhor Jesus Cristo e em Nossa Senhora". 

E São Bernardo, falando de Maria, escreve: "Por vós temos acesso ao Filho, por vós, que achaste a graça, Mãe da salvação, para que vós nos receba Aquele que por vós nos foi dado". Queria dizer com isso que, assim como não podemos chegar ao Pai senão pelo Filho, que é o Medianeiro da justiça, assim não podemos chegar ao Filho senão por Maria, que é a Medianeira da graça e nos obtém por sua intercessão os bens que Jesus Cristo para nós mereceu. No mesmo sentido, fala o Santo em outro lugar: "Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus". Por isso acrescenta: "Deus depositou em Maria a plenitude de todo o bem. Portanto, se temos alguma esperança, alguma graça, alguma salvação, saibamos que nos vem por Aquela que subiu inundada de delícias. Ela é um jardim de delícias para, por todos os lados, trescalar perfumes, isto é, os dons de suas divinas graças". Por isso, tudo o que temos de benefícios de Deus, nós o recebemos pela intercessão de Maria. E por que é assim? Responde o mesmo São Bernardo: "Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d'Aquele que dipôs que tudo tivéssemos por Maria".

Mas a razão principal se deduz do que diz Santo Agostinho: "Maria é chamada nossa Mãe porque cooperou com sua caridade para que, nós, fiéis, nascêssemos para a vida da graça, como membros da nossa cabeça, Jesus Cristo. Ela é, em verdade, a mãe dos membros de Jesus, que somos nós, porque pelo amor concorreu para que os fiéis, que são membros da Cabeça de Cristo, renascessem na Igreja". Por isso, assim como Maria cooperou com sua caridade para o nascimento espiritual dos fiéis, assim quer Deus que ela coopere, por meio da sua intercessão, para que possam conseguir a vida da graça, neste mundo, e a vida da glória, no outro. E por isso a Igreja invoca e manda saudá-la com palavras tão claras e preciosas: Vida, doçura e esperança nossa, salve!


27. Maria medianeira de todas as graças 

Neste mesmo sentido, exorta-nos São Bernardo a recorrer sempre a esta divina Mãe, porquanto todas as suas súplicas são atendidas por seu divino Filho: "Recorrer a Maria! Sem a menor dúvida, eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe". E ajunta: "Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão da minha esperança". O santo dá a Maria o nome de escada, porque assim como na escada não se sobe ao degrau sem antes passar pelo segundo, não se atinge o segundo sem se passar pelo primeiro, assim também não se chega a Deus senão por meio de Maria. O mesmo São Bernardo chama Maria de sua máxima confiança e toda a razão de sua esperança, porque Deus, como ele supõe, quer que passem pelas mãos de Maria todas as graças, que nos dispensa. E conclui, finalmente, dizendo que todas as graças que desejamos temos de pedi-la por meio de Maria, porquanto ela obtém tudo o que deseja e os seus rogos não podem ser repelidos: "Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido". 

Com os mesmos sentimentos fala Santo Efrém: "Fora de vós, não temos outra confiança, ó Virgem puríssima". Santo Ildefonso: "Todos os benefícios que a sua majestade decretou fazer aos homens, decretou confiá-los às vossas mãos. A vós, pois, estão confiados os tesouros e as riquezas da graça". São Germano: "Se vós nos abandonardes, que será de nós, ó vida dos cristãos?" São Pedro Damião: "Em vossas mãos estão todos os tesouros da misericórdia de Deus". Santo Antonino: "Quem pede, sem Maria, tenta voar sem asas". São Bernardino de Sena diz: "Vós sois a dispensadora de todas as graças. Nossa salvação está em vossas mãos". Em outro lugar não só se diz que por Maria se transmitem a nós todas as graças, mas também afirma que a Santíssima Virgem, desde que foi feita Mãe de Deus, adquiriu certa jurisdição, sobre todas as graças que nos são dispensadas: "Pela Santíssima Virgem as graças vivificantes se transmitem de Cristo, como da cabeça, a seu Corpo místico. Desde o momento em que a Virgem Mãe concebeu o Verbo Divino, ela obteve, por assim dizer, certa jurisdição sobre toda a processão temporal do Espírito Santo, de sorte que nenhuma criatura recebeu graça alguma senão pela distribuição desta piedosa mãe". E conclui: "Por isso, pelas suas mãos, dá a quem quer todos os dons, graças e virtudes". O mesmo escreveu São Boaventura: "Já que toda a natureza divina esteve nas entranhas da Santíssima Virgem, não duvido dizer que em toda a distribuição de graças tem certa jurisdição esta Virgem, de cujas entranhas, como de um oceano da divindade, emanam os rios de todas as graças".

Por isso, pois, muitos teólogos, fundados na autoridade desses santos, com piedoso zelo e muita razão, defenderam a tese de que nenhuma graça nos é dispensada, senão pela intercessão de Maria. Assim Vega, Mendonzza, Paciucchelli, Segneri, Poiré, Crasset e muitos outros autores, como o douto Padre Natal Alexandre, que escreveu: "Deus quer que esperemos todos os bens Dele pela intercessão poderosíssima de Maria, quando a invocamos como se deve". Em confirmação alega o texto de São Bernardo anteriormente referido: "Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria". E sobre as palavras: "Eis a tua Mãe", que Jesus disse na Cruz a São João, o Padre Contenson diz a mesma coisa expressando-se assim: "É como se dissesse: Ninguém terá parte no meu sangue, senão pela intercessão de minha Mãe, Minhas chagas são fontes de graças, mas estas correntes de graças são levadas unicamente pelo canal que é Maria. Oh, João, meu discípulo, serás tanto amado por mim, quanto amares a ela".

Além disso, é certo que se nos tornamos agradáveis a Deus, invocando os santos, tanto mais lhe seremos agradáveis se invocarmos a intercessão de Maria, para que ela supra com seus merecimentos a nossa indignidade, segundo o que diz Santo Anselmo: "Que a dignidade do intercessor supra a nossa indignidade". Por isso, invocar a Santíssima Virgem não é desconfiar da misericórdia divina, mas temer a própria indignidade. Falando da dignidade de Maria, Santo Tomás a qualifica de quase infinita: "Por ser Mãe de Deus, tem uma dignidade quase infinita". Portanto, com toda a razão se diz que as orações de Maria são mais poderosas diante de Deus do que as de todo paraíso.


28. Quem reza se salva. Quem não reza certamente se condena

Terminemos este primeiro ponto, concluindo de tudo o que dissemos que quem reza certamente se salva, e quem não reza certamente será condenado. Todos os bem-aventurados, exceto as crianças, salvaram-se pela oração. Todos os condenados se perderam, porque não rezaram. Se tivessem rezado, não se teriam perdido. E este é e será o maior desespero no inferno: o poder ter alcançado a salvação com facilidade, pedindo a Deus as graças necessárias. E, agora, esses miseráveis não têm mais tempo de rezar.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.








 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

O pão dos hereges


 


Ano 400 - Constantinopla


São João Crisóstomo*, esclarecido luminar de seu século, foi chamado "Crisóstomo" devido às torrentes de sagrada eloqüência que fluíam de seus lábios; e foi também chamado "martelo da heresia". devido à eficácia e vigor de sua argumentação em defesa da Fé católica. 

Conseguiu, com sua pregação, converter inúmeros hereges macedônicos. O Senhor permitiu que acontecesse um fato maravilhoso com uma mulher que se obstinava em permanecer filiada aos sectários, e tal fato determinou por fim sua perfeita conversão. 

As verdades católicas expostas por Crisóstomo mostravam-se tão evidentes ao marido dessa mulher, que lhe pareceu que não deveria tolerar por mais tempo que sua esposa professasse os perniciosos erros da heresia. 

Procurava persuadi-la a renunciar a eles e abraçar a verdadeira Fé católica, mas nenhum fruto tirava de seus conselhos nem de suas longas discussões, porque era grande a tenacidade com que ela aceitava as opiniões heréticas. 

Afinal, esgotados todos os meios de conduzi-la ao bom caminho, ameaçou de separar-se dela se não acedesse aos seus desejos, seguindo o bom exemplo que lhe tinha dado.

A mulher, para obedecer ao marido na aparência, mas perseverando na sua obstinação, lhe disse que faria o que mandava; mas, combinando antes com uma criada sua, foi a um templo de hereges e, tomando o pão falsamente consagrado que davam a seus adeptos, deu-o à criada para que o guardasse; em seguida foi à igreja dos católicos com seu marido, para comunhar e assegurar-lhe que já era católica, e recebendo a Sagrada Hóstia, fingindo que se inclinava para orar, deu-a à criada que estava ao seu lado, e tomou dela o pão recebido dos hereges, o qual imediatamente se transformou em pedra. 

A desventurada mulher, atônita e fora de si, procurar São João Crisóstomo para narrar-lhe o que lhe tinha acontecido, e ele a converteu à Fé católica e publicou o milagre, conservando-se em Constantinopla, para perpétua memória, aquela pedra em que o pão dos hereges se tinha convertido.


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*São João Crisóstomo, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja, passou alguns anos como eremita solitário no deserto e depois foi sacerdote em Antioquia. Nomeado bispo e patriarca de Constantinopla, esforçou-se para moralizar o Clero, no qual havia desvios e escândalos, e chegou a depor bispos indignos. Denunciou também, corajosamente, abusos de autoridades civis. Despertou, por tudo isso, antipatias em pessoas poderosas, tanto na ordem espiritual quanto na temporal. Foi, em consequência, duas vezes desterrado e morreu no exílio, no ano de 407. Era amigo íntimo e tinha sido colega de estudos de São Basílio Magno. Sua eloqüência extraordinária lhe valeu o título de Crisóstomo, que em grego significa "Boca de Ouro" e a designação, pelo Papa São Pio X, como o patrono da eloqüência sagrada. É considerado um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental e deixou uma produção intelectual abundante e variada, composta de aproximadamente 600 sermões e discursos. 


(Sozomeno, Vida de San Juan Crisóstomo, liv. 8, cap.5 - Baronius, Annales Ecclesiastici, t. 5, p. 126).

Pe. Manuel Traval y Roset S.J. - Milagres Eucarísticos