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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Nada pode nos separar do amor de Deus




Santo Afonso Mª de Ligório

 Poder que tem a Paixão de Jesus Cristo para acender o amor divino em nossos corações


O Pe. Baltasar Álvarez, um grande servo de Deus, dizia que não devemos pensar ter feito algum progresso no caminho de Deus, se ainda não chegamos a ter sempre no coração Jesus crucificado.428 São Francisco de Sales escreve que "o amor que não nasce da paixão é fraco".429 E é mesmo, porque não há coisa que mais nos obrigue a amar o nosso Deus do que a Paixão de Jesus Cristo, isto é, saber que o Pai Eterno, para nos mostrar o excesso do amor que nos consagra, quis enviar seu Filho Unigênito à Terra para morrer por nós, pecadores. Isso levou o Apóstolo a escrever que Deus, pelo grande amor com que nos amou, quis que a morte de seu Filho nos trouxesse a vida: Deus, que é rico em misericórdia, pela extrema caridade com que nos amou, estando nós mortos pelos pecados, vivificou-nos em Cristo (Ef. 2,4-5). Foi isso justamente o que queriam exprimir Moisés e Elias no Monte Tabor, ao falar da Paixão de Jesus Cristo como de excesso de amor: E falavam do seu excesso que ele devia sofrer em Jerusalém (Lc 9,31). 

Quando nosso Salvador veio ao mundo para remir os homens, os pastores ouviram os anjos cantarem: Glória a Deus nas alturas (Lc 2,14). Mas ao humilhar-se o Filho de Deus, fazendo-se homem por amor do homem, parecia que antes se obscurecia do que se manifestava a glória de Deus. E afinal não era assim, pois a glória de Deus não podia ser melhor manifestada ao mundo do que pela morte de Jesus em prol da salvação dos homens, visto a Paixão de Jesus nos ter manifestado as perfeições dos atributos divinos. Ela nos fez conhecer a grandeza da misericórdia divina, querendo um Deus morrer para salvar os pecadores e morrer de um morte tão dolorosa e ignominiosa. S. João Crisóstomo diz que o sofrimento de Jesus Cristo não foi um sofrimento comum e a sua morte não foi uma simples e semelhante à dos outros homens. 430 Ela nos fez conhecer a sabedoria divina. Se nosso Redentor fosse somente Deus não poderia satisfazer pelo homem, porque Deus não poderia satisfazer a si mesmo em lugar do homem, nem poderia satisfazer padecendo, sendo Ele impassível. Pelo contrário, se fosse somente homem, não poderia como tal satisfazer pela grande injúria feita à majestade divina. Por isso o que fez Deus? Enviou seu próprio Filho, verdadeiro Deus como Ele, a tomar a natureza humana para que assim, como homem, pagasse com a morte a justiça divina e como Deus lhe desse uma satisfação completa. Ela nos fez conhecer a grandeza da justiça divina. S. João Crisóstomo dizia que não é tanto o Inferno, com o qual Deus castiga os pecadores, que demonstra quão grande seja a sua justiça, mas com Jesus Cristo na cruz, 431 já que no Inferno são punidas as criaturas por seus próprios pecados, ao passo que na cruz se vê um Deus martirizado para satisfazer a justiça pelos pecados os homens. Que obrigação tinha Jesus de morrer por nós? Foi oferecido porque ele mesmo quis (Is 53,7). Ele poderia sem injustiça abandonar o homem na sua desgraça, mas o amor que lhe tinha não lhe permitiu vê-los infelizes, e por isso escolheu entregar-se a si mesmo a morte tão penosa, para obter-lhes a Salvação: Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós (Ef 5,2). Desde toda a eternidade havia amado o homem: Amei-te com amor eterno (Jr 31,3). Vendo-se, porém, obrigado por sua justiça a condená-lo e a tê-lo sempre longe de si no Inferno, sua misericórdia impele-o a descobrir um meio de poder salvá-lo. Mas como? Satisfazendo Ele mesmo a divina justiça com sua morte. E assim quis que na própria cruz em que morreu fosse afixado o decreto de condenação do homem à morte eterna, para que fosse destruído ou apagado com seu Sangue. 432 

Dessa maneira, pelos merecimentos de seu Sangue alcançou-nos o perdão de todos os crimes, perdoando-nos todos os nossos pecados (Cl 2,13). Consequentemente espoliou o demônio de todos os direitos adquiridos sobre nós, conduzindo consigo em triunfo tanto seus inimigos como nós, seu espólio: Despojou os principados e potestades, e fez deles um objeto de escárnio público, triunfando deles por si mesmo (ibid., v. 15). Teofilato comenta: "Como um vencedor e triunfador carregando consigo a presa e os homens em triunfo". 433

Por isso Jesus Cristo, satisfazendo a divina justiça, ao morrer na cruz, não falou senão em misericórdia; pediu ao Pai que tivesse misericórdia dos mesmos judeus que haviam tramado a sua morte e dos carrascos que o trucidaram: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Estando na cruz, em vez de punir os ladrões que pouco antes o haviam injuriado - Também os que tinham  sido crucificados com ele o insultavam (Mc 15,32) - ouvindo que um deles lhe pedia misericórdia: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino (Lc 23,42), Ele cheio de compaixão, promete-lhe o Paraíso para aquele mesmo dia: Hoje estarás comigo no paraíso (ibid., v. 43). Antes de morrer, deu-nos por mãe sua própria Mãe. Então disse ao discípulo: "Eis a tua mãe" (Jo 19,27). Na cruz, declara que está satisfeito por ter feito tudo para obter-nos a Salvação e coroa com a sua morte: Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, (...) disse: "Tudo está consumado". Depois, inclinando a cabeça, rendeu o espírito (ibid., vv. 28.30). 

Eis o homem livre do pecado e do poder de Lúcifer pela morte de Jesus Cristo, e além disse elevado ao estado de graça, e de graça maior que a perdida por Adão. Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20). Resta-nos agora, diz o Apóstolo, recorrer sempre com confiança a esse trono de graça, que é justamente Jesus crucificado, para que recebamos de sua misericórdia a graça da Salvação e os auxílios oportunos para vencermos as tentações do mundo e do Inferno.434

Ah, meu Jesus, eu vos amo sobre todas as coisas e que quero eu amar senão a Vós, que sois uma bondade infinita e por mim morrestes? Desejaria morrer de dor cada vez que penso que vos expulsei de minha alma com os meus pecados e que me separei de Vós, que sois meu único bem e tanto me tendes amado. Quem me separará, pois, do amor de Cristo? (Rm 8,35). Só o pecado me pode separar de Vós. Mas espero, pelo sangue que derramastes por mim, que não haveis mais de permitir que eu me separe jamais de todos os bens. Dou-me todo a Vós, aceitai-me e prendei todos os meus afetos para que não ame a ninguém mais senão a Vós. 

Por acaso Jesus Cristo pretende muito, querendo que nos demos inteiramente a Ele, que nos deu todo o seu sangue e a sua vida, morrendo por nós na cruz? Ouçamos o que diz S. Francisco de Sales sobre estas palavras, o amor de Cristo nos constrange (II Cor 5,14): "Saber que Jesus nos amou até a morte, e morte de cruz, não é sentir nossos corações oprimidos por uma violência que é tanto mais forte quanto Ele é mais amável? O meu Jesus deu-se todo a mim e eu me dou todo a Ele, e viverei e morrerei sobre o seu peito, e nem a morte nem a vida me separarão jamais dele".435 

Jesus Cristo morreu, diz S. Paulo, para que cada um de nós não viva mais para o mundo nem para si mesmo, mas só para Ele, que se deu inteiramente a nós: Cristo morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu (ibid., v. 15). Quem vive para o mundo, busca os prazeres do mundo; quem vive para si mesmo, busca a sua satisfação; quem vive para Jesus Cristo, não procura agradar senão a Jesus e nada teme senão desgostá-lo; não se compraz senão vem vê-lo amado e não se aflige senão de vê-lo desprezado. Isso é viver para Jesus Cristo e isso é o que Ele exige de cada um de nós. Pergunto novamente: por acaso exige muito de nós Aquele que deu seu sangue e sua vida por cada um de nós? 

Ó Deus, e por que havemos de empregar os nossos afetos em amar as criaturas, os parentes, os amigos e os grande do mundo - que não suportaram por nós nem flagelos, nem espinhos, nem cravos, não derramaram por nós nem uma gota de sangue - e não amar um Deus que por nosso amor desceu do Céu à Terra, fez-se homem, derramou todo o seu sangue à força de tormentos, e finalmente morreu de dores num madeiro para cativar os nossos corações?! Mais ainda: para unir-se mais estreitamente a nós, deixou-se ficar depois de sua morte sobre nossos altares, onde se torna uma só coisa conosco para nos fazer compreender o amor ardente que nos tem: "Mistura-se conosco para que sejamos um com Ele: isso é próprio dos que amam ardentemente", diz S. Crisóstomo.436 E S. Francisco de Sales acrescenta, falando da santa comunhão: "Em nenhuma outra ação pode-se considerar o Salvador nem mais terno, nem mais amoroso que nesta na qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para unir-se aos corações de seus fiéis.437

Mas como é possível, Senhor, que eu, depois de ter sido amado por Vós com finezas tais, tenha tido a ousadia de vos desprezar, como muito justamente me lançais em rosto? Criei filhos e engrandeci-os, porém eles desprezaram-me (Is 1,2). Como tive coragem de voltar-vos as costas para satisfazer os meus apetites? Lançaste-me para trás das costas (Ez 23,35). Como tive ânimo para expulsar-vos de minha alma? Estes são os [ímpios] que disseram a Deus: "Retira-te de nós" (Jó 21,14). Como tive a ousadia de afligir o vosso Coração, que tanto me amou? Mas o que, então? Devo desesperar de vossa misericórdia? Amaldiçoo os dias em que vos ofendi. Oh, tivesse eu morrido mil vezes antes, ó meu Salvador, e não vos tivesse ofendido! Ó pecadores, quanto não daríeis por uma gota de sangue deste Cordeiro no dia do Juízo? Ó meu Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me; conheceis, porém, a minha fraqueza, prendei por completo a minha vontade, para que ela não se rebele mais contra Vós. Expeli de mim todo o amor que não for por Vós. Eu vos acolho por meu único tesouro, por meu único bem: Vós me bastais e não desejo outro bem fora de Vós, Deus do meu coração e minha herança para sempre (Sl 72,26). 

Ó ovelhinha amada de Deus, vós que sois a Mãe do divino Cordeiro (assim chamava S. Teresa a Maria Santíssima, "a ovelhinha"), recomendai-me a vosso Filho; vós, depois de Jesus, sois a minha esperança, pois que sois a esperança dos pecadores; nas vossas mãos coloco a minha salvação eterna: "Esperança nossa, salve".

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428. Cf. Venerável Lodovico da Ponte, Vita, c. 3, §2. 

429. Tratado do Amor de Deus, 1. 12, c. 13. 

430. Cf. Serm. De pass. 

431. Cf. In Epist. II ad Cor., hom. 11, n. 3.

432. Cf. Cl 2,14.

433. Exposito in epist., ad Coloss., c. II, 15.

434. Cf. Hb 4,16.

435. Tratado do Amor de Deus, 1. 7, c. 8.

436. Ad pop. Ant., hom. 61.

437. Filotéia, p. II, c. 21.

Santo Afonso Mª de Ligório - A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo






sábado, 20 de agosto de 2016

Motivos que os Cristãos têm a mais que os infiéis para amar a Deus.

Os fiéis, ao contrário, sabem o quanto precisam de Jesus crucificado, mas mesmo admirando e recebendo o amor que Ele tem por nós, que está acima de todo entendimento, não demonstram nenhuma confusão em dar nada além do que eles mesmos, por menor que sejam, em retorno a uma caridade e a uma condescendência tão grandes; mas é tão fácil para eles amar mais do que se sentirem eles mesmos mais amados; porque àquele a quem se dá menos amor, esse o sentirá também bem menos. Os judeus não mais que os pagãos, não sentem a excitação pelos mesmos aguilhões do amor que oprimem a Igreja e fazem com que ela diga: "E fui ferido por amor"; ou ainda: "Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor" (Cânticos 2,5) [...] ela vê o Filho Unigênito do Pai carregando a sua cruz, o Deus de toda majestade atingido por golpes e cuspidas, o Autor da vida e da glória pregado, transpassado, cheio de opróbios, dando por Seus amigos Sua alma abençoada. Vendo tudo isso, ela sente a espada de dois gumes do amor penetrar mais fundo em seu coração e ela clama: "Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor". As maçãs que a Esposa introduziu no jardim de Seu amado tem prazer em colher da árvore da vida, têm gosto do maná do Céu e a cor do sangue de Cristo. E então ela vê a morte golpeada até a morte e aquilo que a fez magnificar o cortejo de seu Vencedor, ela ainda vê este subir triunfante, de debaixo da terra para sobre a tera e da terra para os céus, seguido de uma grande multidão de cativos, de modo que somente ao nome de Jesus, todo joelho se dobra nos céus, na terra e debaixo da terra (Filipenses 2,10). A terra, debaixo da antiga maldição, produzia somente espinheiros e abrolhos; revigorada, então, por uma nova benção, é coberta de flores. Então a esposa lembra-se deste versículo: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido; assim o meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei" (Salmos 28,7), recobra o ânimo com os furtos da paixão que ela colheu da árvore da cruz, e com as flores da ressureição cujo perfume delicioso convida o Amado a renovar as Suas visitas. 

Enfim ela exclama: "Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde" (coberto de flores) (Cânticos 1,16). Falando deste leito, ela deixa claro o que deseja, e, acrescentando que ele está coberto de flores, ela mostra no que estão baseadas suas esperanças; não é sobre a atração que as flores, colhidas em um campo abençoado por Deus, têm para o seu Amado, porque é o que sentem por Cristo que quis ser concebido e alimentado em Nazaré. Este Esposo celeste, atraído pelo perfume que emana delas, tem prazer em entrar no quarto do coração, quando o encontra cheio de frutas e perfumado pelo aroma das flores. E Ele vem apressadamente e tem prazer em habitar na alma que a Ele contempla em meditação, cuidadosamente dedicada e colhe os frutos de Sua paixão e cultiva as flores de Sua ressureição.

Ora estes frutos da última colheita, isto é, de todos os séculos que se foram sob o império da morte e do pecado, que amadureceram na plenitude dos tempos, são as lembranças de Sua paixão. Mas é no esplendor de Sua ressureição que devemos ver as novas flores dos novos tempos que a graça faz reflorescer para um segundo verão; no final dos tempos, na ressureição real, elas darão inumeráveis frutos:"Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra" (Cânticos 2,11-12). Ela quer dizer, falando assim, que o verão apareceu com Aquele que fez derreter o gelo da morte para renascer em temperatura primaveril de uma nova vida, dizendo: "Eis que faço novas todas as coisas" (Apocalipse 21,5). Seu corpo, semeado na morte, refloresceu na ressureição, e, ao perfume que dEle emana, vimos logo nos nossos vales e planícies, o que estava árido, morto ou congelado, cobrir-se de verde, renasce em vida e volta a obter calor. 

O frescor destas flores. O renovar destes frutos e a beleza deste campo, de onde exalam os mais doces perfumes encantam também o Pai cujo Filho fez novas todas as coisas, e lhe inspiram esta exclamação: "Eis que o cheiro do meu Filho é como o cheiro do campo que o Senhor abençoou" (Gênesis 27,27). Sim, um campo cheio de flores, pois é de Sua plenitude que recebemos tudo o que temos. Mas a Esposa, ao se agradar dEle, vem colher em sua simplicidade flores e frutos para adornar a morada íntima de sua consciência, para que ao chegar o seu Amado, seu pequeno leito do coração exale os perfumes mais suaves. Portanto, se nós queremos que Cristo faça repetidamente em nós Sua morada, é preciso que nossos corações estejam cheios da fiel lembrança da misericórdia e do poder cujas provas recebemos em Sua morte e em Sua ressureição. É o pensamento de Davi, quando disse: "Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus. A ti também, Senhor, pertence a misericórdia". (Salmos 62,11-12) Jesus Cristo provou superabundantemente, pois após morrer por nós por nossos pecados, Ele ressuscitou para nos justificar, subiu aos céus para nos proteger, e nos envia o Espírito Santo para nos consolar; e, mais tarde Ele voltará para a consumação da salvação. Ora eu vejo em Sua morte a prova da Sua misericórdia, na ressureição a prova do Seu poder, e em todo o restante eu as encontro, as duas, reunidas. 

Se a Esposa pede que a suportemos com flores aromáticas e que a fortaleçamos com frutos cheirosos, eu acho que é porque ela sente que o amor pode perder calor e força; mas ela só terá estímulos até ser introduzida no quarto de Seu amado, sentindo-se coberta de beijos há muito desejados e possa exclamar: "A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace" (Cânticos 2,6). Mas então ela sentirá e verá por si mesma o quanto estas provas de amor que Seu amado lhe dava da mão esquerda, para assim dizer, pois Ele as dava sem contar nos dias em que estava entre nós, cedem em doçura aos abraços da sua mão direita e os são inferiores, e ela entenderá as Suas palavras. "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveitará" (João 6,63), e ela penetrará no sentido destas palavras: "Meu espírito é mais doce que o mel e minha herança mais agradável que o mel nas prateleiras". Se em seguida dissermos: "A memória de meu nome passará de séculos em séculos" é para mostrar que os eleitos que ainda têm sede da presença do Esposo, têm ao menos a lembrança dEle para se consolarem, enquanto durar este século, durante o qual as gerações passam e se sucedem. Se está escrito: "Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade" (Salmos 145,7), certamente ouve-se daqueles cujo o salmista disse anteriormente: "Uma geração louvará as tuas obras à outra geração" (Salmos 145,4). Portanto os que vivem na terra possuem para si somente a lembrança do Esposo, e os que nos céus reinam, se alegram de Sua presença; esta última é a glória dos eleitos que já chegaram à salvação, a outra é a consolação dos que ainda estão a caminho.

Um Tratado sobre o Amor de Deus, São Bernardo de Claraval