Mostrando postagens com marcador Adão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adão. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Dos maus hábitos

 



Impius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnit.

O ímpio, depois de ter caído no abismo dos pecados, tudo despreza (Pr 18,3).


PONTO I 

Uma das maiores desventuras que nos legou a culpa de Adão é a nossa propensão ao pecado. Dela se lamenta o Apóstolo, sentindo-se levado pela concupiscência ao próprio mal que aborrecia: "Veio outra lei a meus membros que... me leva preso à lei do pecado" (Rm 8,25). Resulta daí que nós, infeccionados de tal concupiscência e cercados de tantos inimigos que nos incitam ao mal, dificilmente chegaremos sem culpa à glória. Reconhecida, pois, esta fragilidade a que estamos sujeitos, pergunto eu: "Que dirias de um viajante que, devendo atravessar o mar durante forte tempestade e num barco meio avariado, quisesse carregá-lo com tal peso que, mesmo que não houvesse tempestade e ainda que o navio fosse de construção resistente, bastaria para fazê-lo soçobrar?... Que prognóstico formarias sobre a vida deste viajante? Pois pensa o mesmo do indivíduo de maus hábitos e costumes, que deve cruzar o mar tempestuoso da vida, em que tantos naufragam, num barco frágil e avariado, como é nosso corpo no qual viaja a alma. Que sucederá se o carregarmos ainda com o peso irresistível dos pecados habituais?  É difícil que tais pecadores se salvem, porque os maus hábitos cegam o espírito, endurecem o coração e ocasionam provavelmente a obstinação completa na hora da morte. 

Primeiramente, o mau hábito nos cega. Qual o motivo que fazia os Santos implorar incessantemente a luz divina, temendo converter-se nos pecadores mais abomináveis do mundo? É porque sabiam que, se chegassem a perder a luz divina, poderiam cometer culpas horrendas. 

E como se explica que tantos cristãos vivem obstinadamente em pecados, até que irremediavelmente se condenam? Porque o pecado os cega, e por isso se perdem (Sb 2,21). Toda culpa traz consigo cegueira e, acumulando-se os pecados, agrava-se a cegueira do pecador. 

Deus é nossa luz; quanto mais se afasta a alma de Deus, tanto mais se mergulha nas trevas. "Seus ossos se encherão de vícios" (Jo 20,11). 

Assim como o sol não pode penetrar através de um vaso cheio de terra, assim não pode entrar a luz divina num coração cheio de vícios. Vemos, por isso, com frequência, muitos pecadores, sem luz que os guie, a cair de pecado em pecado e sem que procurem emendar-se (Sl 11,9). Caídos esses infelizes no abismo de trevas, só sabem pecar e falar em pecados; não pensam mais que em pecar e já não consideram sequer o grave mal que é o pecado. "O costume de pecar - diz Santo Agostinho - não deixa o pecador reconhecer o mal que pratica". Vivem desta maneira como se não acreditassem na existência de Deus, do céu, o inferno e da eternidade. 

Acontece que o pecado, que ao princípio causava horror, por efeito do mau hábito, já não repugna. "Agita-os como uma roda, e como uma palhinha diante do soprar do vento" (Sl 82,14). Vede - diz São Gregório - a facilidade com que é levantada uma palha pela brisa mais suave; assim também veremos muitos que antes da queda resistiam, ao menos por algum tempo, e combatiam até contra as tentações, mas agora, contraído o mau hábito, sucumbem a qualquer tentação, em toda ocasião de pecar que se apresente. E por quê? Porque o mau hábito os privou da luz. Diz Santo Anselmo que o demônio procede com certos pecadores como aquele que tem um passarinho preso por um cordel. 

Ele o deixa voar, mas, quando quer, o faz cair por terra. Tal semelhança - afirma o Santo - é aplicável àqueles que são dominados pelo mau hábito. Alguns há, acrescenta São Bernardino de Sena, que pecam sem que a ocasião se apresente. Compara-os este grande Santo aos moinhos de vento que qualquer aragem faz girar e que continuam em movimento mesmo que não haja grão para moer, e, às vezes, até rodam contra a vontade do dono. Estes pecadores, observa São João Crisóstomo, vão forjando maus pensamento, sem ocasião, sem prazer, quase contra sua vontade, tiranizados pela força do mau hábito. 

Porque, segundo disse Santo Agostinho, o mau hábito se converte logo em necessidade. O costume, segundo nota São Bernardo, se muda em natureza. Daqui se segue que, assim como ao homem é necessário respirar, assim parece que o pecado se torna necessário para aqueles que habitualmente  pecam e se fazem escravos do demônio. 

Disse escravos, porque os criados trabalham por seu salário; mas os escravos servem à força, sem paga de espécie alguma. Nisto caem alguns desgraçados: chegam a pecar sem prazer nem desejo.

"O ímpio, depois de ter caído no abismo dos pecados, tudo despreza" (Pr 18,3). São João Crisóstomo aplica estas palavras ao pecador obstinado nos maus hábitos, que, mergulhado naquele abismo tenebroso, despreza a correção, os sermões, as censuras, o inferno e até Deus. Menospreza tudo e se torna semelhante ao abutre voraz que, longe de fugir do cadáver em que se repasta, prefere que os caçadores o matem. Refere o padre Recúpito, que um condenado à morte,  indo para o cadafalso, levantou os olhos e, vendo uma donzela formosa, consentiu logo num mau pensamento. O padre Gisolfo conta que um blasfêmio, também condenado à morte, proferiu uma blasfêmia no mesmo momento em que o verdugo o lançava na escada para enforcá-lo. 

Com razão, pois, nos diz São Bernardo que é inútil, em geral, rezar pelos pecadores por hábito e que é melhor pranteá-los como condenados.

Como é que eles houveram de sair do precipício em que se lançaram, se perderam a vista? Seria necessário um milagre da graça. Abrirão os olhos no inferno, quando o reconhecimento de sua desgraça só lhes dá de servir para chorar mais amargamente a sua loucura.


AFETOS E SÚPLICAS

Haveis prodigalizado, meu Senhor e Deus, os vossos benefícios, favorecendo-me mais que a outros, e eu, em compensação, vos cumulei de ofensas, injuriando-vos mais que todos... Ó querido Coração do meu Redentor, que tão afligido e atormentado fostes na cruz pela perversidade de minhas culpas: concedei-me, por vossos merecimentos, profundos conhecimento e viva dor dos meus pecados... Ah, meu Jesus! estou cheio de vícios, mas vós sois onipotente e podeis encher minha alma do vosso santo amor. Em vós, portanto, confio, porque sois a bondade e misericórdia infinitas. Arrependo-me, soberano Bem, de vos ter ofendido e quisera ter morrido antes de pecar. Esqueci-me de vós, mas vós não me esquecestes; reconheço-o pela luz com que agora iluminais minha alma. Já que me dais essa luz divina, concedei-me também força para servir-vos fielmente. Prefiro a morte a separar-me de vós, e ponho em vosso auxílio todas as minhas esperanças. In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum. Em vós espero, Jesus meu, que não hei de ver-me outra vez na confusão da culpa e privado da vossa graça. A vós também me recomendo, ó Maria, nossa Mãe. In te, Domina, speravi, non confundar in aeternum. Por vossa intercessão confio, ó esperança nossa, nunca mais me ver na inimizade do vosso divino Filho. Rogai-lhe que antes me envie a morte que permitir tamanha desgraça. 


PONTO II

Os maus hábitos, além disso, endurecem o coração, permitindo-o Deus justamente em castigo da resistência que se opõe a seus convites. 

Diz o Apóstolo que o Senhor "tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9,18). Santo Agostinho explica este texto, dizendo que Deus não endurece de um modo imediato o coração daquele que peca habitualmente, mas que o priva da graça em castigo da ingratidão e obstinação com que repeliu a que antes lhe havia concedido; e em tal estado o coração do pecador se endurece como se fosse de pedra.

Seu coração se endurecerá como pedra, e se apertará como a bigorna do ferreiro (Jo 41,15). Sucede assim que, enquanto alguns se enternecem e choram ao ouvir falar do rigor do juízo divino, das penas dos condenados e da Paixão de Cristo, os pecadores por hábitos por hábito nem sequer se comovem. Falam e ouvem falar destas coisas com indiferença, como se disso não se importassem: e por causa destes golpes do mau costumes, a consciência se endurece cada vez mais (Jo 41,15). 

Por conseguinte, nem as mortes repentinas, nem os tormentos, trovões e raios, são capazes de atemorizá-los cada vez mais profundamente no sono da morte em que, perdidos, repousam (Sl 85,7). O mau hábito sufoca, pouco a pouco, o remorso da consciência de tal modo, que ao pecador habitual os pecados mais enormes não passem de coisas sem importância (Santo Agostinho). Perdem pecando, diz São Jerônimo, até essa vergonha que a ação culposa traz consigo naturalmente. São Pedro compara-os os suíno que se revolve no lamaçal (2Pd 2,22), pois assim como este animal imundo não percebe o fétido da estrumeira em que se revolve, assim aqueles pecadores são os únicos insensíveis à hediondez de suas culpas, que todas as outras pessoas percebem e detestam. E se este lodaçal lhes tira até a faculdade da visão, é, porventura, para admirar - diz São Bernardino - que não voltem a si, nem quando os açoita a mão de Deus. Daí resulta que, em vez de se afligir com os seus pecados, ainda se regozijam, se riem e se vangloriam deles (Pr 2,14).

Que indicam estes sinais de diabólica dureza? - pergunta São Tomás de Vila Nova. São todos sinais de eterna condenação. Teme, pois, meu irmão, que não te suceda esta desgraça. Se tens algum mau hábito, procura libertar-te agora que Deus te chama. Enquanto sentes mossa na consciência, regozija-te, porque é indício de que Deus ainda não te abandonou. Urge, porém, corrigir-te e sair o mais breve possível desse estado, doutra maneira gangrenar-se- á a ferida e te verás perdido.


AFETOS E SÚPLICAS

Como poderei, Senhor, agradecer-vos devidamente todas as graças que me haveis concedido? Quantas vezes me tendes chamado, e eu resistido! Em lugar de servir-vos e amar-vos, por me terdes livrado do inferno e chamado com tanto amor, continuei a provocar vossa indignação e corresponder com ofensas. Não, meu Deus, não; muitas vezes vos tendo ofendido, não quero ultrajar mais a vossa paciência. Só vós, que sois a Bondade infinita, pudestes suportar-me até agora. Mas reconheço que, com justa razão, não podereis continuar a suportar-me.

Perdoai-me, pois, meu Senhor e Sumo Bem, todas as ofensas que vos fiz. De todo o coração me arrependo e proponho não tornar a injuriar-vos...

Porventura, hei de continuar a ofender-vos?... Aplacai-vos, portanto, Deus de minha alma, não pelos meus merecimentos, que somente valem para o castigo eterno, mas pelos merecimentos do vosso Filho, meu Redentor, nos quais deposito minha esperança. Por amor de Jesus Cristo, recebei-me na vossa graça e dai-me a perseverança no vosso amor. Desprendei-me dos afetos impuros e atraí-me inteiramente a vós. Amo-vos, soberano Senhor, excelso, amante das almas, digno de infinito amor... Oh, se vos tivesse amado sempre!...

Maria, nossa Mãe, fazei que não empregue o restante da minha vida em ofender vosso divino Filho, mas somente em amá-lo e chorar os pecados que hei cometido.


PONTO III

Privado da luz que nos guia e endurecido o coração, que admira que o pecador tenha mau fim e morra obstinado em suas culpas? (Ecl 3,27). Os justos andam sempre pelo caminho reto (Is 26,7). Ao contrário, aqueles que pecam habitualmente caminham sempre em linhas tortuosas (Sl 11,9). Se deixam o pecado por algum tempo, voltam de novo a ele; pelo que São Bernardo os ameaça com a condenação. Talvez algum deles queira emendar-se antes que lhe chegue a morte. Mas é precisamente nisto que está a dificuldade: o pecador por hábito, ainda que chegue à velhice, não se emenda. "O homem, segundo o caminho que tomou sendo jovem, - diz o Espírito Santo - não se afastará dele, mesmo quando for velho (Pr 22,6). A razão é que - diz São Tomás de Vilanova - nossas forças são muito débeis, e, portanto, a alma privada da graça não pode abster-se de novos pecados. Além disso, não seria grande loucura se nos propuséssemos jogar e perder voluntariamente todos os nossos haveres, esperando reavê-los na última partida? Não é menor a necessidade de quem vive em pecado e espera reparar tudo no derradeiro instante da vida. Pode, porventura, o etíope mudar a cor de sua pele, ou o leopardo as suas malhas? Tampouco poderá levar vida religiosa aquele que tem costumes pervesos e inveterados (Jr 13,23), senão que, por fim, se entregará ao desespero e acabará desastrosamente os seus dias (Pr 28,14). 

Comentando São Gregório o seguinte texto do livro de Jó: "Abriu-me chaga sobre chaga; caiu sobre mim como um gigante" (Jo 16,15), disse: Se alguém se vê assaltado por inimigos, mesmo que receba  uma ferida, ainda poderá continuar a defender-se; mas se outra e mais vezes o ferirem, irá perdendo as forças, até que, afinal, cai desfalecido. 

Assim acontece com o pecado. Depois da primeira ou de segunda queda, resta ainda alguma força ao pecador (assistido sempre por meio da graça); mas, se continuar pecando, o pecado se converte em gigante; enquanto o pecador, ao contrário, cada vez mais fraco e coberto de feridas, não pode evitar a morte. Jeremias compara o pecado a uma grande pedra que oprime a alma (Lm 3,53); e tão difícil é - acrescenta São Bernardo - converte-se quem habitualmente peca, como ao homem sepultado debaixo de enormes pedras e destituído de forças para movê-las, é o livrar-se do peso que o esmaga. 

Estou, portanto, condenado e sem esperança? - perguntará, talvez, algum destes infelizes pecadores... Não, se deveras quiseres emendar-te. Mas os males gravíssimos requerem remédios heróicos. Fala-se a um doente em perigo de vida, e se não quer tomar medicamentos, porque ignora a gravidade da moléstia, o médico lhe diz que, se não usar o remédio receitado, morrerá lhe diz que, se não usar o remédio receitado, morrerá indubitavelmente. Que responderá o enfermo? "Estou pronto a obedecer em tudo... Disso depende a minha vida". Meu irmão, a mesma coisa hás de fazer. Se incorres habitualmente em qualquer pecado, estás enfermo e atacado daquele mal que, segundo diz São Tomás de Vilanova, raras vezes se cura. Achas-te em grande risco de condenação. Se quiseres, entretanto, curar-te, eis aqui o remédio. Não deves esperar um milagre da graça. Impede evitar resolutamente as ocasiões perigosas, fugir das más companhias e resistir às tentações, recomendando-te a Deus. É preciso que te confesses a miúdo, que faças cada dia leitura espiritual e te entregues à devoção da Virgem Santíssima, pedindo-lhe continuamente que te alcance forças para não recair. É necessário que te domines e empregues violência.

Do contrário incorrerás na ameaça do Senhor: Morrereis em vosso pecado (Jo 8,21). Se não aplicares agora o remédio, quando Deus te ilumina, mais tarde dificilmente poderás remediá-lo. Ouve a voz do Senhor que te diz como a Lázaro: "Vem para fora". Pobre pecador já morto! Sai do sepulcro de tua má vida. Responde depressa e entrega-te a Deus. Teme que não seja este o último apelo que te faz.


AFETOS E SÚPLICAS

Hei de esperar, ó meu Deus, que me abandoneis e condeneis ao inferno? Ó Senhor, esperai por mim; quero mudar de vida e entregar-me a vós. Dizei-me o que devo fazer, pois quero pô-lo em prática... Sangue de Jesus Cristo, ajudai-me! Virgem Maria, advogada dos pecadores, socorrei-me! E vós, Pai Eterno, pelos merecimentos de Jesus e Maria, tende misericórdia de mim! Arrependo-me, ó Deus de infinita bondade, de vos ter ofendido e amo-vos sobre todas as coisas. Perdoai-me, por amor de Cristo, e concedei-me o dom de vosso amor de Cristo, e concedei-me o dom do vosso amor. Inspirai-me também grande temor de minha condenação eterna, se viesse a ofender-vos de novo. Dai-me, meu Deus, luz e força, que tudo espero da vossa misericórdia. Já que tantas graças me outorgastes quando vivia afastado de vós, muitas mais espero agora, quando volto ao vosso seio, resolvido a que sejais meu único amor. Amo-vos, meu Deus, minha vida e meu tudo! Amo-vos também, Maria, nossa Mãe. Em vossas mãos encomendo minha alma para que, por vossa intercessão, a preserveis de cair na desgraça do desafeto de Deus. 

__________________________________

Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/312296555434550843












quinta-feira, 1 de maio de 2025

Nada pode nos separar do amor de Deus




Santo Afonso Mª de Ligório

 Poder que tem a Paixão de Jesus Cristo para acender o amor divino em nossos corações


O Pe. Baltasar Álvarez, um grande servo de Deus, dizia que não devemos pensar ter feito algum progresso no caminho de Deus, se ainda não chegamos a ter sempre no coração Jesus crucificado.428 São Francisco de Sales escreve que "o amor que não nasce da paixão é fraco".429 E é mesmo, porque não há coisa que mais nos obrigue a amar o nosso Deus do que a Paixão de Jesus Cristo, isto é, saber que o Pai Eterno, para nos mostrar o excesso do amor que nos consagra, quis enviar seu Filho Unigênito à Terra para morrer por nós, pecadores. Isso levou o Apóstolo a escrever que Deus, pelo grande amor com que nos amou, quis que a morte de seu Filho nos trouxesse a vida: Deus, que é rico em misericórdia, pela extrema caridade com que nos amou, estando nós mortos pelos pecados, vivificou-nos em Cristo (Ef. 2,4-5). Foi isso justamente o que queriam exprimir Moisés e Elias no Monte Tabor, ao falar da Paixão de Jesus Cristo como de excesso de amor: E falavam do seu excesso que ele devia sofrer em Jerusalém (Lc 9,31). 

Quando nosso Salvador veio ao mundo para remir os homens, os pastores ouviram os anjos cantarem: Glória a Deus nas alturas (Lc 2,14). Mas ao humilhar-se o Filho de Deus, fazendo-se homem por amor do homem, parecia que antes se obscurecia do que se manifestava a glória de Deus. E afinal não era assim, pois a glória de Deus não podia ser melhor manifestada ao mundo do que pela morte de Jesus em prol da salvação dos homens, visto a Paixão de Jesus nos ter manifestado as perfeições dos atributos divinos. Ela nos fez conhecer a grandeza da misericórdia divina, querendo um Deus morrer para salvar os pecadores e morrer de um morte tão dolorosa e ignominiosa. S. João Crisóstomo diz que o sofrimento de Jesus Cristo não foi um sofrimento comum e a sua morte não foi uma simples e semelhante à dos outros homens. 430 Ela nos fez conhecer a sabedoria divina. Se nosso Redentor fosse somente Deus não poderia satisfazer pelo homem, porque Deus não poderia satisfazer a si mesmo em lugar do homem, nem poderia satisfazer padecendo, sendo Ele impassível. Pelo contrário, se fosse somente homem, não poderia como tal satisfazer pela grande injúria feita à majestade divina. Por isso o que fez Deus? Enviou seu próprio Filho, verdadeiro Deus como Ele, a tomar a natureza humana para que assim, como homem, pagasse com a morte a justiça divina e como Deus lhe desse uma satisfação completa. Ela nos fez conhecer a grandeza da justiça divina. S. João Crisóstomo dizia que não é tanto o Inferno, com o qual Deus castiga os pecadores, que demonstra quão grande seja a sua justiça, mas com Jesus Cristo na cruz, 431 já que no Inferno são punidas as criaturas por seus próprios pecados, ao passo que na cruz se vê um Deus martirizado para satisfazer a justiça pelos pecados os homens. Que obrigação tinha Jesus de morrer por nós? Foi oferecido porque ele mesmo quis (Is 53,7). Ele poderia sem injustiça abandonar o homem na sua desgraça, mas o amor que lhe tinha não lhe permitiu vê-los infelizes, e por isso escolheu entregar-se a si mesmo a morte tão penosa, para obter-lhes a Salvação: Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós (Ef 5,2). Desde toda a eternidade havia amado o homem: Amei-te com amor eterno (Jr 31,3). Vendo-se, porém, obrigado por sua justiça a condená-lo e a tê-lo sempre longe de si no Inferno, sua misericórdia impele-o a descobrir um meio de poder salvá-lo. Mas como? Satisfazendo Ele mesmo a divina justiça com sua morte. E assim quis que na própria cruz em que morreu fosse afixado o decreto de condenação do homem à morte eterna, para que fosse destruído ou apagado com seu Sangue. 432 

Dessa maneira, pelos merecimentos de seu Sangue alcançou-nos o perdão de todos os crimes, perdoando-nos todos os nossos pecados (Cl 2,13). Consequentemente espoliou o demônio de todos os direitos adquiridos sobre nós, conduzindo consigo em triunfo tanto seus inimigos como nós, seu espólio: Despojou os principados e potestades, e fez deles um objeto de escárnio público, triunfando deles por si mesmo (ibid., v. 15). Teofilato comenta: "Como um vencedor e triunfador carregando consigo a presa e os homens em triunfo". 433

Por isso Jesus Cristo, satisfazendo a divina justiça, ao morrer na cruz, não falou senão em misericórdia; pediu ao Pai que tivesse misericórdia dos mesmos judeus que haviam tramado a sua morte e dos carrascos que o trucidaram: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Estando na cruz, em vez de punir os ladrões que pouco antes o haviam injuriado - Também os que tinham  sido crucificados com ele o insultavam (Mc 15,32) - ouvindo que um deles lhe pedia misericórdia: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino (Lc 23,42), Ele cheio de compaixão, promete-lhe o Paraíso para aquele mesmo dia: Hoje estarás comigo no paraíso (ibid., v. 43). Antes de morrer, deu-nos por mãe sua própria Mãe. Então disse ao discípulo: "Eis a tua mãe" (Jo 19,27). Na cruz, declara que está satisfeito por ter feito tudo para obter-nos a Salvação e coroa com a sua morte: Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, (...) disse: "Tudo está consumado". Depois, inclinando a cabeça, rendeu o espírito (ibid., vv. 28.30). 

Eis o homem livre do pecado e do poder de Lúcifer pela morte de Jesus Cristo, e além disse elevado ao estado de graça, e de graça maior que a perdida por Adão. Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20). Resta-nos agora, diz o Apóstolo, recorrer sempre com confiança a esse trono de graça, que é justamente Jesus crucificado, para que recebamos de sua misericórdia a graça da Salvação e os auxílios oportunos para vencermos as tentações do mundo e do Inferno.434

Ah, meu Jesus, eu vos amo sobre todas as coisas e que quero eu amar senão a Vós, que sois uma bondade infinita e por mim morrestes? Desejaria morrer de dor cada vez que penso que vos expulsei de minha alma com os meus pecados e que me separei de Vós, que sois meu único bem e tanto me tendes amado. Quem me separará, pois, do amor de Cristo? (Rm 8,35). Só o pecado me pode separar de Vós. Mas espero, pelo sangue que derramastes por mim, que não haveis mais de permitir que eu me separe jamais de todos os bens. Dou-me todo a Vós, aceitai-me e prendei todos os meus afetos para que não ame a ninguém mais senão a Vós. 

Por acaso Jesus Cristo pretende muito, querendo que nos demos inteiramente a Ele, que nos deu todo o seu sangue e a sua vida, morrendo por nós na cruz? Ouçamos o que diz S. Francisco de Sales sobre estas palavras, o amor de Cristo nos constrange (II Cor 5,14): "Saber que Jesus nos amou até a morte, e morte de cruz, não é sentir nossos corações oprimidos por uma violência que é tanto mais forte quanto Ele é mais amável? O meu Jesus deu-se todo a mim e eu me dou todo a Ele, e viverei e morrerei sobre o seu peito, e nem a morte nem a vida me separarão jamais dele".435 

Jesus Cristo morreu, diz S. Paulo, para que cada um de nós não viva mais para o mundo nem para si mesmo, mas só para Ele, que se deu inteiramente a nós: Cristo morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu (ibid., v. 15). Quem vive para o mundo, busca os prazeres do mundo; quem vive para si mesmo, busca a sua satisfação; quem vive para Jesus Cristo, não procura agradar senão a Jesus e nada teme senão desgostá-lo; não se compraz senão vem vê-lo amado e não se aflige senão de vê-lo desprezado. Isso é viver para Jesus Cristo e isso é o que Ele exige de cada um de nós. Pergunto novamente: por acaso exige muito de nós Aquele que deu seu sangue e sua vida por cada um de nós? 

Ó Deus, e por que havemos de empregar os nossos afetos em amar as criaturas, os parentes, os amigos e os grande do mundo - que não suportaram por nós nem flagelos, nem espinhos, nem cravos, não derramaram por nós nem uma gota de sangue - e não amar um Deus que por nosso amor desceu do Céu à Terra, fez-se homem, derramou todo o seu sangue à força de tormentos, e finalmente morreu de dores num madeiro para cativar os nossos corações?! Mais ainda: para unir-se mais estreitamente a nós, deixou-se ficar depois de sua morte sobre nossos altares, onde se torna uma só coisa conosco para nos fazer compreender o amor ardente que nos tem: "Mistura-se conosco para que sejamos um com Ele: isso é próprio dos que amam ardentemente", diz S. Crisóstomo.436 E S. Francisco de Sales acrescenta, falando da santa comunhão: "Em nenhuma outra ação pode-se considerar o Salvador nem mais terno, nem mais amoroso que nesta na qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para unir-se aos corações de seus fiéis.437

Mas como é possível, Senhor, que eu, depois de ter sido amado por Vós com finezas tais, tenha tido a ousadia de vos desprezar, como muito justamente me lançais em rosto? Criei filhos e engrandeci-os, porém eles desprezaram-me (Is 1,2). Como tive coragem de voltar-vos as costas para satisfazer os meus apetites? Lançaste-me para trás das costas (Ez 23,35). Como tive ânimo para expulsar-vos de minha alma? Estes são os [ímpios] que disseram a Deus: "Retira-te de nós" (Jó 21,14). Como tive a ousadia de afligir o vosso Coração, que tanto me amou? Mas o que, então? Devo desesperar de vossa misericórdia? Amaldiçoo os dias em que vos ofendi. Oh, tivesse eu morrido mil vezes antes, ó meu Salvador, e não vos tivesse ofendido! Ó pecadores, quanto não daríeis por uma gota de sangue deste Cordeiro no dia do Juízo? Ó meu Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me; conheceis, porém, a minha fraqueza, prendei por completo a minha vontade, para que ela não se rebele mais contra Vós. Expeli de mim todo o amor que não for por Vós. Eu vos acolho por meu único tesouro, por meu único bem: Vós me bastais e não desejo outro bem fora de Vós, Deus do meu coração e minha herança para sempre (Sl 72,26). 

Ó ovelhinha amada de Deus, vós que sois a Mãe do divino Cordeiro (assim chamava S. Teresa a Maria Santíssima, "a ovelhinha"), recomendai-me a vosso Filho; vós, depois de Jesus, sois a minha esperança, pois que sois a esperança dos pecadores; nas vossas mãos coloco a minha salvação eterna: "Esperança nossa, salve".

_________________________________________________

428. Cf. Venerável Lodovico da Ponte, Vita, c. 3, §2. 

429. Tratado do Amor de Deus, 1. 12, c. 13. 

430. Cf. Serm. De pass. 

431. Cf. In Epist. II ad Cor., hom. 11, n. 3.

432. Cf. Cl 2,14.

433. Exposito in epist., ad Coloss., c. II, 15.

434. Cf. Hb 4,16.

435. Tratado do Amor de Deus, 1. 7, c. 8.

436. Ad pop. Ant., hom. 61.

437. Filotéia, p. II, c. 21.

Santo Afonso Mª de Ligório - A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo






terça-feira, 4 de março de 2025

Tudo se acaba com a morte - ponto III

 




Davi compara a felicidade na vida presente ao sonho de um homem que desperta (Sl 72,20), e, comentando estas palavras, escreve um autor: "Parecem grandes os bens deste mundo; mas, na realidade, nada são, e duram pouco, semelhante ao sonho, que se esvai. O pensamento de que com a morte tudo se acaba, inspirou a São Francisco de Borja a resolução de dar-se inteiramente a Deus. Incubiram-no de acompanhar o cadáver da imperatriz Isabel de Granada. Quando abriram o ataúde, foi tal o aspecto horrível que ofereceu e o cheiro que exalou, que afugentou toda a gente. Só São Francisco, guiado pela luz divina, ficou a contemplar nesse cadáver a vaidade do mundo, e olhando-o disse: "Sois, então, a minha imperatriz? Sois aquela, que diante da qual tantos grandes reverentes te ajoelharam? Isabel, para onde foi a vossa majestade, vossa beleza? É assim - concluiu ele de si para consigo - que acabam as grandezas e as coroas do mundo! Não sirvo mais a um senhor que me possa ser roubado pela morte! E desde então se consagrou inteiramente ao amor do Crucificado, fazendo voto de abraçar o estado religioso quando sua esposa morresse, o que depois efetivamente cumpriu, entrando na Companhia de Jesus. 

Tinha razão, portanto, esse homem desiludido, quando escreveu sobre um crânio humano: "Quem pensa na morte, tudo lhe parece vil." 

Quem medita na morte, não pode amar a terra. Por que, entretanto, há tantos desgraçados que amam este mundo? Porque não pensam na morte. Míseros filhos de Adão - diz-nos o Espírito Santo, - por que não arrancais do coração os afetos terrenos, que fazem amar a vaidade e a mentira? (Sl 4,3). O que aconteceu a teus antepassados, sucederá também a ti; eles moraram nesta mesma casa, dormiram nesse mesmo leito, mas já não existiu: o mesmo acontecerá a ti. 

Entrega-te, pois, a Deus, meu caro irmão, antes que chegue a morte. 

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje (Ecl 9, 10); porque o dia presente passa e não volta; e amanhã a morte poderia apresentar-se e nada te permitiria fazer. Procura, sem demora, libertar-te do que te afasta de Deus. Rompe, sem tardança, com todo laço que te prende aos bens da terra, antes que a morte os venha arrebatar. Bem-aventurados os que, ao morrer, já se acham mortos para as afeições terrenas (Ap 14,13). Estes não temem a morte, antes a desejam e abraçam alegremente. 

Em vez de separá-los dos bens que amam, une-os ao Sumo Bem, que é o único objeto digno de amor e que os tornará eternamente felizes. 


AFETOS E SÚPLICAS

Agradeço-vos, meu amado Redentor, o terdes esperado por mim. 

Que teria sido de mim, se me tivésseis dado a morte quando tão afastado de vós me encontrava? Benditas sejam para sempre a misericórdia e paciência com que me trataste! Rendo-vos sinceras graças pelos dons e luzes com que me enriquecestes. Não vos amava, nem me importava então ser amado por vós. Agora, vos amo de todo o coração e a pena que mais me acabrunha é ter desagradado à vossa infinita bondade.

Atormenta-me esta dor: tormento, entretanto, que é doce, pois me traz esperança de que já me perdoastes! Oxalá, dulcíssimo Jesus, tivesse morrido mil vezes, antes de vos ter ofendido! Tremo só em pensar que no futuro possa tornar a vos ofender. Ah, Senhor: Fazei-me antes morrer da morte mais dolorosa do que permitir que de novo perca a vossa graça. Já fui escravo do inferno; agora sou vosso servo, ó Deus de minha alma! Disseste que amais a quem vos ama (Pe 8,17). Amo-vos, pois, sou vosso e vós sois meu. 

Como ainda posso perder-vos futuramente, peço-vos a graça de antes morrer que de novo vos perder. Se tantos benefícios me dispensastes sem que eu os pedisse, já não receio que me negueis este que vos peço agora. Não permitais que vos perca. Concedei-me vosso amor e nada mais desejo.  

Maria, minha esperança, intercedei por mim. 


____________________________________________

Preparação para a morte, Santo Afonso de Ligório