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domingo, 5 de janeiro de 2025

As virtudes teologais




1. A virtude é uma disposição ou hábito da alma que nos leva a obrar o bem e a evitar o mal.

2. A virtude é natural e sobrenatural.

3. Virtude natural é aquela que nos leva a obrar o bem por motivos simplesmente naturais, como dar esmola a um pobre porque a razão nos diz que devemos socorrer o nosso semelhante. 

4. Virtude sobrenatural é aquela que nos leva a obrar o bem por motivos de fé, como dar esmola a um pobre porque a fé nos mostra nele o próprio Jesus Cristo.

5. As virtudes sobrenaturais são de duas classes: as teologais e as morais. 

6. São três as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. 

7. Chamam-se teologias porque têm a Deus por objetivo imediato. A Fé refere-se a Deus como primeira verdade; a Esperança refere-se a Deus como nosso sumo bem; a Caridade refere-se a Deus como sumo bem em si mesmo.

8. Estas três virtudes propriamente não se adquirirem; são dons gratuitos de Deus em que nós as infunde pelo santo Batismo; mas desenvolvem-se com as práticas que a religião nos ensina. 


A fé

9. A Fé é uma virtude sobrenatural pela qual cremos em Deus e tudo aquilo que Ele revelou à santa Igreja e que ela nos propõe para crer.

10. Devemos crer nas verdades reveladas, porque Deus é a própria verdade que nem pode enganar-se nem quer enganar-nos.

11. A Fé é de absoluta necessidade para a salvação.


A esperança

12. A Esperança é uma virtude sobrenatural pela qual desejamos e esperamos a vida eterna que Deus nos prometeu, e os auxílios para alcançá-la. 

13. Os motivos da nossa esperança são a onipotência e a bondade de Deus, a fidelidade de suas promessas, e os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

14. Aplicaremos à nós mesmos os merecimentos de Jesus Cristo por meio das boas obras feitas com os auxílios da sua graça. 


A caridade 

15. A caridade é uma virtude sobrenatural pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. 

16. Amar a Deus sobre todas as coisas é preferir a Deus a toda e qualquer coisa, e estar pronto a perder tudo, e até a própria vida antes que separar-mo-nos dele. 

17. Devemos amar a Deus porque é infinitamente perfeito, infinitamente bom, infinitamente amável e porque é o nosso supremo bem e o nosso último fim. 

18. Daremos a conhecer que amamos a Deus, pela fidelidade em observar os seus mandamentos. 


  Explicação da gravura

19. A Fé está simbolizada na parte superior da estampa por uma virgem sustendo a cruz com a mão direita e tendo na esquerda um archote aceso, para indicar que a fé ilumina a nossa alma. 

20. O santo patriarca Abraão praticou a fé de um modo heróico, crendo que Deus, que lhe ordenara de imolar o seu filho Isaac, cumpriria contudo a promessa que lhe fizera de dar-lhe uma posteridade numerosa.

21. A Esperança está simbolizada à esquerda por uma virgem tendo na mão direta uma coroa e na esquerda uma âncora. 

22. Vê-se na parte inferior esquerda o patriarca Jó que no excesso do seu padecer sempre esperou em Deus e não foi baldada a sua esquerda. 

23. A caridade está simbolizada à direita por uma virgem tendo na mão um cálice com a hóstia e mostrando com a esquerda o seu coração em chamas. 

24. Vê-se no ângulo inferior direito a Nosso Senhor sentado a mesa de Simão o Fariseu, e Maria Madalena que lançando-se aos pés de Jesus, os banha de lágrimas, os enxuga com os cabelos, beija-os e os perfuma com bálsamo. 


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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

A confiança com que devemos rezar

                                                             Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




16. "Peça com fé e sem hesitação alguma!"

Admoesta-nos o Apóstolo São Tiago que, se quisermos alcançar alguma graça de Deus, por meio da oração, devemos fazê-lo com plena confiança e convicção de que vamos ser atendidos. Santo Tomás ensina que, assim como a oração tem a sua força meritória da caridade, do mesmo modo tem a eficácia de impetrar-nos as graças, da fé e confiança. A oração tem seu valor meritório da caridade; porém, a eficácia de impetrar-nos as graças, da fé e confiança. O mesmo ensina São Bernardo dizendo que só a nossa confiança é que nos obtém a misericórdia de Deus. "Só a confiança, ó Senhor, nos obtém a vossa comiseração". Agrada sumamente a Deus a nossa confiança em sua misericórdia, porque assim honramos e exaltamos aquela sua infinita bondade que Ele quis manifestar ao mundo nos criando. Alegrem-se, pois, ó meu Deus, dizia o real profeta, todos os que esperam em vós, pois eles serão eternamente bem-aventurados e vós eternamente habitareis com eles: "Alegrem-se todos aqueles que esperam em Vós; exultarão eternamente e Vós habitareis neles" (Sl 5,12). Deus protege e salva a todos os que confiam nele. Salva os que esperam nele. Quantas promessas não se encontram nas Escrituras feitas aos que esperam em Deus! "Todos os que nele esperam não pecarão" (Sl 33,23). Sim, porque diz Davi que o Senhor tem os seus olhos voltados para os que confiam em sua bondade, a fim de libertá-los, com o auxílio, da morte do pecado. E, em outro lugar, o próprio Deus afirma: "Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei, protegê-lo-ei... livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei" (Sl 90,14-15). Note-se a palavra: porquanto em mim confiou, protegê-lo-ei, livrá-lo-ei dos inimigos e do perigo de cair e finalmente lhe darei a glória eterna. Falando Isaías dos que esperam no Senhor, diz: "Os que esperam no Senhor terão sempre forças novas, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão" (Is 40,31). "Deixarão de ser fracos e adquirirão em Deus uma grande força; não desfalecerão, nem sequer sentirão fadiga no caminho da salvação, mas correrão e voarão como águias" (Is 40,31). Vossa fortaleza está no silêncio e na esperança. Em suma, toda a nossa força, diz o mesmo Profeta, consiste em colocarmos toda a nossa confiança em Deus e em nos calarmos, quer dizer, em repousarmos nos braços de sua misericórdia, sem confiar em nossos esforços e nos meios humanos.


17. "Jamais se perdeu quem confiou em Deus"

Baseado nesta esperança tinha Davi por certo que nunca se perderia. "Ninguém esperou no Senhor que fosse confundido". (Eclo 2,11). "Em vós, Senhor, esperei; não serei confundido eternamente" (Sl 30,1). Porventura, pergunta Santo Agostinho, poderá Deus enganar-nos oferecendo-se para sustentar-nos nos perigos quando a Ele recorremos e, depois, retirando-se de nós, quando, de fato, recorremos a Ele? Davi chama bem-aventurado a quem confia no Senhor: "Bem-aventurado é o homem que espera em Vós" (Sl 83,13). E por quê? Porque, diz o Profeta, quem confia em Deus será sempre cercado pela misericórdia divina: "Ao que espera no Senhor, a misericórdia o cercará" (Sl 31,10). Sim, de tal modo será cercado de todos os lados e guardado por Deus que ficará seguro dos inimigos e do perigo de perder-se.


18. "Confiemos em Deus!"

Conservemos a confiança nele, diz o Apóstolo, porque assim poderemos esperar uma grande recompensa. Assim como for a nossa confiança, do mesmo modo serão as graças de Deus. "Uma grande confiança merece grandes coisas."

Escreve São Bernardo que a divina misericórdia é uma fonte imensa; e nós apanhamos as graças com os vasos da confiança; quem vier com um vaso maior poderá tirar maior número de graças. "Só nos vasos da confiança o Senhor deita o azeite de sua misericórdia." E, já antes, dissera o Profeta: "Venha, Senhor, sobre nós a vossa misericórdia, assim como temos esperado!" (Sl 32,22). Isto vemos realizado com o centurião, a quem o Redentor disse, louvando a sua confiança: "Vai e te seja feito assim como creste" (Mt 8,13). Revelou Nosso Senhor à Santa Gertrudes que "quem reza com confiança faz tanta violência a seu coração que o obriga a atender a tudo quanto pede". "A oração, diz São João Clímaco, faz violência a Deus, mas uma violência que lhe é cara e agradável".


19. "Aproximem-nos com confiança"

Aproximemo-nos, exorta São Paulo, com confiança, do trono da graça a fim de alcançarmos misericórida e de acharmos graça, para sermos socorridos oportunamente" (Hb 4,16). O trono da graça é Jesus Cristo, que está assentado à direita do Pai, não sobre um trono de justiça, mas de graça, para nos obter o perdão, se estivermos em estado de pecado, e o auxílio necessário para preservarmos, se estivermos na amizade de Deus. Para este trono devemos dirigir-nos sempre com confiança, mas com uma confiança firme e certa. 

Quem, ao contrário, reza com uma confiança vacilante, não pense que alcançará alguma coisa, como afirma São Tiago: "Aquele que duvida é semelhante à onda do mar. Que é agitada e levada de uma parte para outra pela violência dos ventos; não pense esse homem que há de receber alguma coisa de Deus" (Tg 1,6-7). Não receberá nada, porquanto a sua dúvida entre confiança e desconfiança impedirá a misericórdia divina de ouvir as suas súplicas. "Não rezaste bem, como devias, porque rezando duvidastes, diz São Basílio; não recebeste a graça porque a pediste duvidando". Disse Davi que a nossa confiança deve ser inabalável como uma montanha, que não se move a qualquer sopro do vento: "O que confia no Senhor está firme como o monte de Sião" (Sl 123,1). O Senhor nos adverte que se quisermos obter as graças que pedimos, devemos fazê-lo com fé: "Todas as coisas que pedirdes orando, crede que a recebereis, e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). Qualquer que for a graça que pedirdes, estais certos que sereis atendidos. 


20. Qual é o fundamento desta confiança?

Mas,  dirá alguém, em que posso eu, miserável, fundamentar esta minha confiança certa de obter o que peço? Em que coisa? Na promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24). Quem poderá recear de ser enganado, se é a própria verdade quem o promete? - Diz Santo Agostinho. Como podemos duvidar de sermos atendidos quando Deus, a própria Verdade, promete conceder-nos o que pedimos na oração? "Não nos admoestaria a pedir, diz o mesmo Santo Doutor, se não nos quisesse ouvir". Mas é isto o que Ele tanto nos inculca e tantas vezes repete na Sagrada Escritura: "Pedi, orai, buscai e obtereis tudo quanto desejardes". Pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á feito.

E para rezarmos com a devida confiança, ensina-nos o Salvador na oração do Pai-Nosso que, ao recorremos a Deus, a fim de recebermos as graças necessárias para a nossa salvação, as quais estão todas no Pai-Nosso, chamemos a Deus não de Senhor, mas sim de Pai: Pai, nosso. Quer um filho doente e pobre pede o alimento e o remédio a seu pai. Se um filho está para morrer de fome, o pai logo o socorrerá, e se for mordido de um serpente venenosa, basta mostrá-la ao pai para que ele aplique o remédio que já tem preparado. 


21. Esperemos contra a esperança!

Confiados, pois, nas diversas promessas, peçamos sempre com uma confiança inabalável, como diz o Apóstolo: "Conservemos firmes a promessa da nossa esperança, porque fiel é o que fez a promessa" (Hb 10,23). Portanto, como é certo que Deus é fiel em suas promessas, assim também certa deve ser a confiança de sermos atendidos por Ele, quando o invocarmos. E, ainda que, às vezes, ou por nos acharmos em estado de aridez espiritual, ou por estarmos perturbados com qualquer falta cometida, não sintamos na oração aquela confiança sensível que tanto desejávamos; contudo nos esforcemos por pedir e não por deixar de pedir, porquanto Deus não deixará de nos atender. Mas nos ouvirá mais depressa, porque então rezaremos com maior desconfiança de nós e confiaremos só na bondade e fidelidade de Deus que prometeu atender a quem o invocar. Oh! como é agradável a Nosso Senhor a nossa esperança no tempo de tribulações, temores e tentações, quando esperamos contra a esperança, quer dizer, contra aquele sentimento de desconfiança causado por nossa desolação. O Apóstolo elogia o patriarca Abraão com as seguintes palavras: "Creu na esperança, contra toda a esperança" (Rm 4,18).


22. A confiança nos torna santos

Diz São João que quem confiar incondicionalmente em Deus se torna santo. "E todo o que tem esta esperança nele santifica-se a si mesmo, assim também como Ele é santo" (1Jo 3,3). É porque Deus derrama fartamente suas graças sobre todos o que nele confiam. Com esta confiança, tanto mártires, tantas virgens, tantas crianças, apesar dos horríveis tormentos infligidos pelos tiranos, saíram vencedores.

Às vezes, pedimos e parece que Deus não quer ouvir-nos, mas não deixemos, então, de pedir e esperar. Digamos, então, como Jó: "Mesmo que Deus me tirasse a vida, eu esperaria nele" (Jó 13,15). Meu Deus, ainda que me expulsásseis de vossa presença, não deixaria de pedir-vos e de esperar em vossa misericórdia. Façamos assim e obteremos de Nosso Senhor tudo o que quisermos. Assim fez a mulher cananeia e obteve tudo de Jesus. Esta mulher tinha uma filha atormentada pelo demônio e pediu a Nosso Senhor que a livrasse: "Tem compaixão de mim, pois minha filha está atormentada pelo demônio" (Mt 15,22). Nosso Senhor respondeu-lhe que não fora enviado para os gentios, mas sim para os judeus. Não desanimou a mulher e tornou a pedir com confiança: "Senhor, vós podeis consolar-me e vós haveis de me consolar: Senhor, ajudai-me". Jesus replicou: "Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães". "Mas, Senhor meu, acrescentou ela, também os cachorrinhos comem das migalhas da mesa dos donos". Então o Salvador, vendo a grande confiança dessa mulher, louvo-o e concedeu-lhe a graça, dizendo: "Ó mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como desejas!". "E quem, diz o Eclesiástico, jamais invocou o auxílio de Deus e Deus o desprezou e não o socorreu? Quem o invocou e foi por Ele desprezado?" (2,12).


23."A oração é uma chave que nos abre as portas do céu"

Diz Santo Agostinho que a "oração é uma chave que nos abre a porta do céu". No mesmo momento em que a nossa oração sobe para Deus, desce para nós a graça pedida. Escreveu o real Profeta que as nossas súplicas andam sempre ao lado da misericórdia divina: "Bendito seja Deus, que não rejeitou a minha oração, nem apartou a sua misericórdia de mim" (Sl 65,20). Diz por isso o mesmo Santo Agostinho que, quando estamos rezando, podemos estar certos de que estamos sendo atendidos. "Quando vires que a tua oração não se apartou de ti, podes estar certo de que tampouco a misericórdia divina se afastou de ti."

E eu, quanto a mim, falo a verdade e confesso que me sinto mais consolado no espiríto, e nunca sinto maior confança em salvar-me do que quando rezo e me recomendo a Deus. O mesmo penso que sentem todos os fiéis, pois todos os outros sinais de salvação que temos são incertos e falíveis. Mas que Deus atende a quem o invoca com confiança é verdade certa e infalível, como é infalível a verdade que Deus não pode faltar às suas promessas.


24. "Tudo posso naquele que me conforta"

Quando nos sentirmos fracos e incapazes de vencer qualquer tentação ou qualquer dificuldade em observar os mandamentos do Senhor, animemo-nos, dizendo com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Não imitemos os que dizem: "não posso, não tenho ânimo". É certo que nada podemos de nós mesmos, mas com o auxílio divino podemos tudo. Se Deus dissesse a alguém: "Toma aquele monte sobre teus ombros e carrega-o. Eu te ajudarei". Não seria um insensato quem respondesse: não tenho força para carregá-lo? Do mesmo modo, quando nos sentimos fracos e enfermos, combatidos por muitas tentações, não percamos o ânimo e levantemos os olhos a Deus e digamos com Davi: "O Senhor é meu amparo, desprezarei os meus inimigos" (Sl 117,6). Com o auxílio de Deus desprezarei e vencerei todos os meus inimigos. E quando estivermos em perigos de ofender a Deus ou em outra grave necessidade, e confusos não soubermos o que fazer, recomendemo-nos a Nosso Senhor, dizendo: "O Senhor é minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl 26,1). E fiquemos certos de que Deus nos esclarecerá e nos preservará de todo o mal.


25. "Mas sou pecador", dizem alguns

E na Escritura leio: "Deus não ouve os pecadores". Responde Santo Tomás com Santo Agostinho: "Esta palavra foi dita pelo cego de nascimento, quando não estava ainda bastante esclarecido, e por isso não tem valor".

Acrescenta Santo Tomás que essas palavras encerram uma grande verdade: trata-se do pecador que reza com o desejo de continuar a pecar; por exemplo, se pedisse a Deus auxílio para se vingar de um inimigo ou para fazer qualquer outra coisa má. O mesmo se entende do pecador que pede a Deus a sua salvação, sem nenhum desejo de sair do pecado.

Há de fato alguns que armam laços com que o demônio os prende como escravos. As orações destes não são atendidas por Deus, porque são orações temerárias e abomináveis. Não é uma temeridade pedir graças a um príncipe, a quem não só já se ofendeu, como também se pensa em ofender futuramente? Neste sentido devemos compreender o que disse o Espírito Santo que a oração daquele que não quer propositadamente ouvir o que Deus manda é aborrecida e detestável: "Daquele que desvia os seus ouvidos para não ouvir a lei, a oração será execrável" (Pr 28,9). A esses, diz Nosso Senhor: Podeis rezar quando quiserdes, afastarei de vós os meus olhos e quando multiplicardes as vossas orações, não vos atenderei" (Is1,15). Tal foi a oração do ímpio rei Antíoco, que pedia a Deus e prometia grandes coisas, mas hipocritamente, tendo o seu coração preso ao pecado; rezava só para evitar o castigo que estava iminente e por isso Nosso Senhor não ouviu os seus rogos e permitiu que fosse comido por vermes e morresse de uma morte desgraçada. Este malvado rezava, mas não podia receber misericórdia. 


26. Outros pecam por fraqueza ou por um ardente assalto da paixão

Outros que pecam por fraqueza ou por um ímpeto de alguma paixão e gemem sob o jugo do inimigo, desejando romper aquelas cadeias de morte e sair daquela miserável escravidão, rezam e pedem o auxílio de Deus; a oração deles, se for constante, será atendida por Deus: "Todo o que pede recebe, e quem busca acha" (Mt 7,8); todo, isto é, (como explica o autor da "Obra imperfeita"), tanto o justo como o pecador. 

No evangelho de São Lucas, Nosso Senhor fala do homem que deu todos os pães que tinha ao amigo, não por amizade, mas para ser livre da importunação, e diz: "Se o outro perseverar em bater, digo-vos, ainda que ele não se levante para dar-lhes os pães, por ser seu amigo, pelo menos vai levantar-se por causa da amolação. E vai dar tudo o que o amigo precisa. Por isso vos digo: Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (L 11,8). A oração constante obtém misericórdia de Deus, mesmo para os que não são seus amigos. 

"O que não se alcança pela amizade, diz São João Crisóstomo, alcança-se pela oração". O mesmo santo chega a dizer: "A oração vale mais diante de Deus do que a amizade". São Basílio não duvida de que os pecadores obtenham o que pedem, contanto que peçam com perseverança. O mesmo diz São Gregório: "Clame o pecador a Deus e a Ele chegará a sua oração". São Jerônimo escreve que também o pecador pode chamar a Deus de seu pai, se lho pede para que o aceite de novo por filho, a exemplo de filho pródigo, que, antes de pedir perdão, chamou-o com o nome de pai: "Pai, pequei". Se Deus não atendesse os pecadores, diz Santo Agostinho, em vão teria o publicano pedido perdão, dizendo: "Tende, Senhor, piedade de mim, pecado" (Lc 18,14).


27. Deus ouve a oração dos pecadores

Quem tratou esta questão mais detalhadamente foi Santo Tomás e ele não hesita em dizer que também o pecador é atendido quando reza. O santo afirma que a oração do pecador, embora não seja meritória, tem não obstante a virtude de impetrar graças, porque a concessão de graças não vem da justiça, o impetrar depende da bondade de Deus: "O merecer depende da justiça, o impetrar depende da bondade de Deus". Justamente neste sentido pedia Daniel: "Inclinai, meu Deus, vosso ouvido e escutai, porque, prostando-nos em terra diante de vossa face, não fazemos estas deprecações fundados em algum merecimento de nossa justiça, mas na multidão de vossas misericórdias" (9,18).

Quando oramos, diz Santo Tomás, para obtermos as graças que pedimos, não é necessário sermos amigos de Deus: "A própria oração nos torna seus amigos". Uma bela razão traz São Bernardo, dizendo que esta súplica do pecador, de poder sair do pecado, provém do desejo de voltar à graça de Deus. Se Deus, diz o Santo, inspira ao pecador tal desejo, é um sinal de que quer atendê-lo: "Para que daria a Deus um tal desejo, se não o quisesse atender?". Na Escritura há muitos exemplos de pecadores que se converteram pela oração. Assim, livrou-se do pecado o rei Acab, assim Manasses, assim Nabucodonosor, assim também o bom ladrão. Ah! Como é grande e poderosa a oração! Dois pecadores no alto do Calvário morrem ao lado de Jesus. Um se salva porque reza, outro se perde porque não reza!


28. Nenhum pecador arrependido pediu ao Senhor benefícios, sem receber o que desejava

"Nenhum pecador arrependido pediu ao Senhor benefícios, sem receber o que desejava", diz São Crisóstomo. Mas para que alegar mais razões e autoridades, desde que o próprio Jesus Cristo disse: "Vinde a mim a todos o que trabalhais e vos achais carregados e eu vos aliviarei" (Mt 11,28). Segundo São Jerônimo, Santo Agostinho e outros, "carregados" são geralmente os pecadores que gemem sob o peso de suas culpas. Se recorre a Deus, Ele, conforme sua promessa, os salvará, com o auxílio de sua graça.

"Tu não desejas tanto o perdão de teus pecados, quanto Deus deseja perdoar-te", São João Crisóstomo. Não há graça, acrescenta o mesmo Santo, que não se obtenha pela oração ainda feita pelo pecador mais miserável, contanto que seja confiante e assídua. Notemos bem o que diz São Tiago: "Se alguém necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem impropérios" (Tg 1,5). Todos quantos recorrem a Deus pela oração são atendidos por Ele e cumulados de graças. A todos dá liberalmente. Mas consideremos bem as palavras "sem impropérios". Isto quer dizer que Deus não faz como os homens: Quando alguém nos pede um favor, se fomos ofendidos antes, censuramos a injúria recebida. Deus não procede dessa forma com quem o invoca, ainda que fosse o maior pecador do mundo. Quando ele lhe pede qualquer graça necessária à salvação, não o acusa das ofensas feitas, mas o recebe como se nunca tivesse sido ofendido por ele, consola-o, atende-o e prodigamente o enriquece de dons. 


29. Rezemos, rezemos muito!

Foi principalmente para nos indicar a rezar que o Redentor disse: "Em verdade, em verdade, vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). É como se dissesse: Ó pecadores, não desanimeis; que os vossos pecados não vos detenham de recorrer a meu Pai e esperar dele a vossa salvação! Não tendes merecimentos, mas deméritos. Aproximai-vos do Pai em meu nome e impetrai as graças desejadas pelos merecimentos. Eu vos prometo e juro ("em verdade, em verdade", palavras que, segundo Santo Agostinho, são uma espécie de juramento), que meu Pai vos concederá tudo quanto pedirdes. Ó Deus! que maior consolação pode ter um pecador, depois de sua queda, do que a de saber, com certeza, que receberá tudo quando pedir a Deus em nome de Jesus Cristo?


30. Receberá tudo

"Receberá tudo" quer dizer: aquilo que se refere à salvação eterna; porque, quanto aos bens temporais (já dissemos anteriormente), ainda que os peçamos, o Senhor às vezes não no-lo concede, porque sabe que esses bens causariam dano à nossa alma. 

Mas quanto aos bens sobrenaturais, a sua promessa de atender-nos não é condicional, mas absoluta. Por isso nos adverte Santo Agostinho: "O que Deus prometeu, pedi confiadamente". E como, escreve o Santo, jamais poderá o Senhor negar-nos coisa alguma, quando lhe pedimos com confiança, sendo que Ele deseja mais dar-nos as suas graças do que nós recebê-las. 


31. Deus se irrita contra nós

"Deus só se irrita contra nós quando deixamos de rezar", diz São João Crisóstomo. Como pode ser que Deus não queira atender a uma alma que lhe pede coisa que lhe são muitíssimo agradáveis? A alma lhe diz: Senhor, não quero bens terrenos, riquezas, prazeres, honras, mas peço-vos unicamente o vosso amor; livrai-me do pecado, dai-me a vossa santa amizade (graça que, segundo São Francisco de Sales, deve-se pedir antes de todas as outras), dai-me resignação à vossa vontade... Como é possível que Deus não atenda? E que súplicas atendereis, Senhor, diz Santo Agostinho, se não atendereis as que são tanto do vosso gosto?

Mas, sobretudo, deve-se avivar a nossa confiança, quando pedimos a Deus bens espirituais, como disse Nosso Senhor: "Se vós, que sois maus, sabeis dar o que é bom aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem" (Lc 11,13). Se vós, diz o Redentor, tão apegados aos vossos interesses e tão cheios de amor próprio, não negais aos vossos filhos o que pedem, quanto mais o Pai do céu, que vos ama acima de qualquer pai terrestre, vos dará bens espirituais quando lhe pedirdes!


A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Necessidade da oração

Livro: A Oração - Cap. I

Santo Afonso Maria de Ligório

(1696-1787)

Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.





 1. O erro dos pelagianos

Erram os pelagianos dizendo que a oração não é necessária para se conseguir a salvação. O ímpio Pelágio, seu mestre, afirmava que só se perde quem não procura conhecer as verdades necessárias. Mas, como o disse bem Santo Agostinho, Pelágio falava de tudo, menos da oração, que, conforme sustentava e ensinava o mesmo santo, é o único meio de adquirir a ciência dos santos, como escreve São Tiago: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a concede fartamente a todos" (Tg 1,5).


2. Nas Sagradas Escrituras são muito claro os textos que nos mostram a necessidade de rezar, se quisermos alcançar a salvação. "É preciso rezar sempre e nunca descuidar" (Lc 18,1). "Vigiai e orai para não cairdes em tentação" (Mt 25,41). "Pedi e dar-se-vos-á" (Mt 7,7). Segundo a doutrina comum dos teólogos, as referidas palavras: "É preciso rezar, orar, pedir", significam e impõem um preceito e uma obrigação, um mandamento formal. Vicleff afirmava que todos esses textos não se referiam à oração, mas tão somente às boas obras, assim, rezar, no seu modo de ver, nada mais é do que agir corretamente e praticar o bem. A Igreja, entretanto, condenou expressamente esse erro. Por isso, ensinava o douto Léssio que, sem pecar contra a fé, não se pode negar a necessidade da oração aos adultos, mormente quando se trata de conseguir salvação. Pois, como consta nos Livros santos, a oração é o único meio para conseguirmos os auxílios necessários à salvação.


3. A razão desta necessidade é bastante clara

Sem o socorro da graça, nada de bom podemos fazer: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). Nota Santo Agostinho sobre essas palavras que Jesus Cristo não disse: "nada podeis cumprir", mas "nada podeis fazer". Com isso, quis Nosso Senhor dar-nos a entender que sem a graça nem mesmo podemos começar a fazer o bem: "Não somos capazes de por nós mesmos ter algum pensamento, mas toda a nossa força vem de Deus" (2 Cor 3,5). Se nem sequer podemos pensar no bem, como podemos, então, desejá-lo? O mesmo nos demonstram muitos outros textos das S. Escrituras: "Deus é quem opera tudo em todos" (1 Cor 12,6). "Farei que vós andeis nos meus preceitos e que guardeis as minhas ordens e as pratiqueis" (Ez 36,27). Por isso, como diz S. Leão Papa: "Nenhum bem faz o homem sem que Deus não lhe dê a sua graça para isso". E o Concílio de Trento diz: "Se alguém disser que, sem a prévia inspiração do Espírito Santo e sem o seu socorro, o homem pode crer, esperar, amar ou fazer penitência como deve, com o fim de obter a graça da justificação, seja anátema".


4. Modo de agir de Deus com os animais

O Autor da "Obra Imperfeita" diz, referindo-se aos brutos, que o Senhor a um concedeu a rapidez, a outros deu unhas, a outros cobriu de penas, para que, desse modo, pudesse conservar sua vida. O homem, porém, foi formado em tal estado que só Deus é toda a sua força. Deste modo o homem é inteiramente incapaz de, por si, efetuar a sua salvação, visto que Deus quis que tudo o que tem ou pode ter receba por meio de sua graça. 


5. As primeiras graças

Mas este auxílio da graça normalmente o Senhor concede só a quem ora, conforme a celébre sentença de Genadio: "Cremos não chegar ninguém à salvação sem que Deus o conceda. Ninguém, depois de convidado, obtém a salvação, sem que Deus o ajude. Só quem reza merece o auxílio de Deus".

Se é certo que, sem o socorro da graça, nada podemos, e se esse socorro é concedido por Deus unicamente aos que rezam, segue-se que a oração nos é absolutamente necessária para a salvação. Verdade é que há certas graças e que são concedidas sem a nossa cooperação, como, por exemplo, a vocação à fé, à penitência. No dizer de Santo Agostinho, Deus as concede mesmo a quem não as pede. Entretanto, quanto às outras graças, especialmente em relação à graça da perseverança, tem por certo o Santo Doutor que não são concedidas senão aos que pedem: "Deus dá algumas graças, como o começo da fé, mesmo aos que não pedem; outras, como a perseverança, reservou para os que pedem".

6. É por isso que os teólogos, como São Basílio, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e outros, como o próprio Santo Agostinho, ensinam que a oração para os adultos é necessária, não somente por ser um mandamento de Deus, mas também por ser um meio necessário para a salvação. Isto quer dizer que, segundo a ordem comum da Providência, é impossível que um cristão se salve sem pedir as graças necessárias para a sua salvação. O mesmo ensina Santo Tomás: "Depois do batismo, a oração contínua é necessária ao homem para poder entrar no céu. Embora sejam perdoados os pecados pelo batismo, sempre ainda ficam os estímulos ao pecado, que nos combate interiormente, o mundo e os demônios que nos combatem externamente". A razão alegada pelo Doutor Angélico, e que nos deve convencer na necessidade da oração, é a seguinte: "Para nos salvar, devemos combater e vencer". "Aquele que combate nos jogos públicos não será coroado se não combater legitimamente" (2Tm 2,5). Sem o auxílio de Deus, não poderemos resistir a tantos e tais inimigos. Ora, este auxílio divino só se consegue pela oração. Logo, sem oração, não há salvação.


7. A oração é o caminho ordinário para se receber os dons de Deus.

Que a oração é o único meio para se receber as graças divinas, de um modo mais claro o confirma o mesmo santo Doutor, quando diz que todas as graças que o Senhor, desde toda a eternidade, determinou conceder-nos, não quer concedê-las a não ser por meio da oração. A mesma coisa ensina São Gregório: "Pela oração, merecem os homens receber o que Deus, desde a eternidade, determinou conceder-nos, não que concedê-las a não ser por meio da oração. A mesma coisa ensina São Gregório: "Pela oração, merecem os homens receber o que Deus, desde a eternidade, determinou conceder-lhes". "A oração é necessária, diz Santo Tomás, não para que Deus conheça as nossas necessidades, mas para que nós fiquemos conhecendo a necessidade que temos de recorrer a Deus, para receber oportunamente os socorros da salvação. Assim reconhecemos Deus como único Autor de todos os bens, a fim de que (são palavras do Santo) nós conheçamos que necessitamos recorrer ao auxílio divino e reconheçamos que Ele é Autor dos nossos bens". Assim como o Senhor quis que, para sermos providos do pão e do vinho, semeássemos a vinha, assim quis que recebêssemos as graças necessárias para nos salvar por meio da oração: "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis" (Mt 7,7).


8. Somos pobres. A oração é o alimento de nossa alma. 

Em resumo, outra coisa não somos senão pobres mendigos, que tanto temos quanto recebemos de Deus como esmola: "Eu, porém, sou pobre e mendigo" (Sl 40,18). O Senhor, diz Santo Agostinho, bem deseja e quer dispensar-nos as suas graças. Contudo não quer dispensá-las, senão a quem lhe pedir. Nosso Senhor no-lo assegura com as palavras: "Pedi e dar-se-vos-á". Logo, diz Santa Tereza, quem não pede não recebe. Assim como a umidade é necessária às plantas para não secarem, assim, diz São João Crisóstomo, é nos necessária a oração para nos salvarmos. Em outro lugar, diz o mesmo Santo, que assim como a alma dá a vida ao corpo, assim também a oração mantém a vida da alma. "Assim como o corpo não pode viver sem a alma, assim a alma sem a oração está morta e exala mau cheiro". Disse "exala mau cheiro", porque quem deixa de recomendar-se a Deus, logo começa a corromper-se. A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento, assim, sem a oração, diz Santo Agostinho, não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração.

Todas essas comparações aduzidas pelos santos denotam a necessidade absoluta que todos temos de rezar para nos salvarmos. 


9. A oração é uma arma

A oração, além disso, é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos. Quem não se serve dela está perdido. Nem duvida o Santo em afirmar que Adão caiu, porque não se recomenda a Deus na hora da tentação. "Adão pecou porque não rezou". O mesmo escreveu São Gelásio, falando dos anjos rebeldes: "Receberam em vão a graça divina... e porque não rezaram... caíram".

São Carlos Borromeu, em uma carta pastoral, adverte que, entre os meios que Jesus Cristo nos recomendou no Evangelho, deu o primeiro lugar à oração. Ele quis que nisso se distinguissem as igrejas católicas e sua Religião das outras seitas, querendo que de um modo especial elas se chamassem casas de oração. "Minha casa será chamada de casa de oração" (Mt 21,13). Conclui São Carlos Borromeu, na mesma carta, que a oração é o princípio, o progresso e o complemento de todas as virtudes. Por isso nas trevas, nas misérias e nos perigos em que nos achamos, não temos nenhum outro em quem fundar nossas esperanças, senão levantar nossos olhos a Deus e pela oração impetrar de sua misericórdia a nossa salvação. "Como não sabemos o que devemos fazer, dizia o rei Josafá, não nos resta outro meio do que levanrar os nossos olhos para vós" (2 Cr 20,12). E assim também fazia Davi, não encontrando outro meio para se livrar dos seus inimigos do que rogar continuamente ao Senhor para que o libertasse de suas ciladas: "Os meus olhos se elevam sempre ao Senhor; porquanto Ele tirará o laço de meus pés" (Sl 25,15). E assim não cessava de rezar o real profeta, dizendo: "Olhai para mim e tem piedade de mim, porque sou pobre e só". "Chamei a ti, Senhor, salva-me, para que guarde os teus mandamentos" (Sl 118,146). "Senhor, volvei para mim os vossos olhos, tende piedade de mim e salvai-me, porque sem Vós nada posso e fora de Vós não encontro quem possa ajudar-me". 


10. Os erros de Lutero e Jansênio

E, de fato, como poderíamos resistir à força dos nossos inimigos e observar os mandamentos de Deus, mormente depois do pecado dos nossos primeiros pais; pecado que nos enfraqueceu tanto, se não tivéssemos a oração, pela qual podemos impetrar do Senhor a luz e a força necessárias para os observar? Foi uma blasfêmia o que disse Lutero afirmando que, depois do pecado de Adão, é impossível ao homem a observância dos mandamentos de Deus.

E Jansênio disse, mais ainda, que alguns preceitos são impossíveis, até para os justos, em vista das forças que atualmente possuem.

Até aqui sua proposição podia ser interpretada em bom sentido. Mas, como justiça, foi ela condenada pela Igreja por causa do que se acrescentou depois, dizendo que lhes faltava a graça pela qual se tornava possível a observância dos mandamentos. É verdade, diz Santo Agostinho, que o homem, fraco como é, não pode observar certos mandamentos, com a sua força atual ou com a graça comum a todos; mas, por meio da oração, pode muito bem obter auxílio maior, do qual necessita para observá-los. Deus não manda coisas impossíveis. Entretanto, se mandar, exorta a fazer o que se pode e a pedir o que não se pode. É célebre este texto do Santo, que mais tarde foi adotado pelo Concílio de Trento e declarado dogma de fé. E imediatamente acrescenta o Santo Doutor: "Vejamos como o homem, em virtude do remédio, pode fazer o que não podia por causa da fraqueza". Quer dizer que, com a oração, obtemos o remédio para nossa fraqueza, porquanto, se pedirmos a Deus, conseguiremos força para fazer o que não podemos.


11. Deus não manda coisas impossíveis

Não podemos e não devemos acreditar, continua Santo Agostinho, que Deus, obrigando-nos a observar a lei, queira ordenar o impossível. Fazendo-nos Deus compreender que somos incapazes de observar todos os seus mandamentos, Ele nos admoesta a fazer as coisas fáceis com as graças que nos dá e a fazer as coisas difíceis com o auxílio maior, que podemos impetrar pela oração. "Por isso mesmo cremos, com firmeza, que Deus não pode mandar coisas impossíveis e somos advertidos do que devemos fazer nas coisas fáceis e do que devemos pedir nas difíceis". Por que, perguntará alguém, impõe-nos Deus coisas impossíveis às nossas forças? Justamente a fim de que procuremos, pela oração, o que não podemos com a graça comum. "Deus manda-nos algumas coisas superiores às nossas forças para que saibamos o que lhe devemos pedir". E em outro lugar: "A lei foi dada para que se procure a graça. A graça é dada para que se cumpra a lei". A lei não pode ser observada sem a graça, e Deus, para este fim, deu a lei, para que sempre suplicássemos a graça necessária, para observá-la. E, de novo, em outro lugar, diz ele: "A lei é boa se dela fizermos bom uso. Em que consiste, pois, o bom uso da lei?" Ele responde: "Consiste em conhecer pela lei a própria fraqueza e em procurar o auxílio divino para obter a saúde". Santo Agostinho diz que nós nos devemos servir da lei. - Mas para que fim? Para conhecermos por ela (o que sem ela seria impossível) a nossa incapacidade para observá-la, a fim de que com a oração alcancemos o auxílio divino que cura a nossa fraqueza.


12. Grande é a fraqueza do homem

São Bernardo escreve o mesmo dizendo: "Quem somos nós ou qual é a nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente era isso o que Deus queria: que nós, vendo a nossa insuficiência e a falta de auxílio, recorrêssemos com toda a humildade à sua misericórdia". Deus sabe como a oração é útil para conservar a humildade e para exercer a confiança. Por isso, permite que nos assaltem os inimigos que, para nós e nossas forças, são invencíveis, para obtermos com a oração o auxílio para resistir-lhes. Note-se, especialmente, que ninguém pode resistir às tentações impuras da carne se não se recomenda a Deus no momento da tentação. Este inimigo é tão terrível que, privando-nos nos combates de quase toda a luz, nos faz esquecer de meditações e bons propósitos, desprezar a verdade da fé e perder o temor dos castigos divinos. Esta tentação une-se à nossa natureza decaída e nos arrasta com toda a força dos prazeres sensuais. Quem não recorre a Deus está perdido. A única defesa contra a tentação, diz São Gregório de Nissa, é a oração: "A oração é a guarda da pureza". O mesmo dizia, antes dele, Salomão: "Sabendo eu que de outra maneira não podia ser inocente, sem que Deus me concedesse... dirigi-me ao Senhor e pedi-lhe" (Sb 8,21). A castidade é uma virtude que não podemos praticar se Deus no-lo não concede aos que pedem. Quem pedir, certamente, será atendido.


13. São Tomás, contra Jansênio

Diz o seguinte: "Não devemos dizer ser-nos impossível a castidade ou outro mandamento qualquer. Muito embora não possamos observá-lo por nós mesmos, contudo, nós o podemos mediante o auxílio divino. O que nos é possível com auxílio divino não se pode dizer simplesmente que é impossível". Não se diga ser uma injustiça mandar a um coxo que ande direito. Não, diz Santo Agostinho, não é injustiça, dando-lhe os meios para se curar. Se depois continuar a coxear, a culpa é dele. Muito a propósito se manda que o homem ande direito para que, percebendo que não pode, procure o remédio que cure a claudicação do pecado. 


14. Saber viver é saber rezar

Diz o mesmo Santo Doutor que não saberá viver bem quem não souber rezar: "Bem sabe viver o que sabe rezar bem". São Francisco de Assis dizia que, sem a oração, nunca pode uma alma produzir bons frutos. Não têm, pois, desculpa os pecadores que alegam não ter forças para resistir às tentações. "Se vos faltam as forças, adverte São Tiago, por que então não as pedis?" "Não tendes porque não pedis" (Tg 4,2). Não há dúvida, somos muito fracos para resistir aos assaltos de nossos inimigos. Mas também é certo que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados acima de nossas forças, como diz o Apóstolo: "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças. Fará, pelo contrário, que tireis proveito da tentação para poderdes suportá-la" (1Cor 10,13). Explicando estas palavras, diz Primásio: "Com o auxílio da graça, Ele vos dará forças para vencerdes a tentação". Somos fracos, mas Deus é forte. Se implorarmos o seu auxílio, Ele nos comunicará a sua força e assim poderemos tudo e poderemos dizer com o mesmo Apóstolo São Paulo: "Posso tudo naquele que me conforta" (Fl 4,13), "Não há, pois, desculpa, como diz São João Crisóstomo, para aquele que sucumbe por deixar de orar. Porque, se tivesse orado, não teria sido surpreendido por seus inimigos. Não poderá ser desculpado aquele que não quis vencer o inimigo, abandonando a oração". 


15. É necessária a intercessão dos santos para se obter a graça divina?

Levanta-se aqui a questão se a intercessão dos santos é necessária para se obter a graça divina. Que seja lícito e útil invocar os santos como intercessores, para eles suplicarem, pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que nós, por nossos deméritos, não somos dignos de receber, é doutrina da Igreja, como declarou o Concílio de Trento: "É bom e útil invocar humildemente os santos e recorrer à sua proteção e intercessão, para impetrar benefícios de Deus por seu divino Filho, Jesus Cristo".

O ímpio Calvino reprova essa invocação dos santos, mas sem razão, pois é lícito e proveitoso invocar em nosso auxílio os santos vivos e pedir-lhes que nos ajudem com suas orações. Assim fazia o profeta Baruc, dizendo: "E rogai por nós ao Senhor, nosso Deus" (Br 1,13). E São Paulo: "Irmãos, rogai por nós" (1Ts 5,25). Deus mesmo quis que os amigos de Jó se recomendassem às orações de seu fiel servo, para lhes ser misericordioso em vista dos merecimentos dele... "Ide ao meu servo Jó... e Jó, o meu servo, orará por vós, e eu volverei misericordioso o meu olhar para ele" (Jó 42,8). Se é lícito recomendar-se aos vivos, como então não será lícito invocar os santos, que, no céu, mais de perto gozam de Deus? Isto não é derrogar a honra que se deve a Deus, mas duplicá-la, assim como na terra podemos honrar e venerar o rei em sua pessoa e também na pessoa dos seus servos. É por isso que Santo Tomás diz ser útil invocar e recorrer a muitos santos, "porquanto pela oração de muitos, às vezes se alcança o que pela oração de um só não se obteria". Poderá alguém objetar e dizer: de que serve recorrer aos santos para que rezem por nós, quando eles já pedem por todos quantos são dignos disso? Responde o mesmo Santo Doutor que alguns são seriam dignos de que os santos rezassem por eles, mas tornam-se dignos recorrendo com devoção aos santos.


16. A oração e as almas do purgatório

Pergunta-se: é útil recomendar-se às orações das almas do purgatório? Alguns dizem que as almas do purgatório não podem rezar por nós. São levados pela autoridade de Santo Tomás que afirma estarem aquelas almas em estado de expiação e, por isso, inferiores a nós. Não se acham em condição de rezar por nós, mas, pelo contrário, necessitam de nossas orações.

Mas muitos doutores, como Belarmino, Sílvio, Cardeal Gotti e outros, afirmam, com muita probabilidade, que se deve crer piamente que Deus manifesta-lhes nossas orações, a fim de que aquelas santas almas rezem por nós, como nós rezamos por elas. Assim  se estabelecerá entre nós e elas este belíssimo intercâmbio de caridade. Não obsta, como dizem Sílvio e Gotti, o que diz o Angélico, isto é, que as almas padecentes não se acham em estado de rezar. Uma coisa é não estar em estado de rezar e outra é não poder rezar. É verdade que aquelas almas santas não se acham em estado de orar. Como diz Santo Tomás, estando no lugar de expiação, elas são inferiores a nós e por isso necessitam das nossas orações. Contudo, em tal estado, bem podem rezar, porque estão na amizade de Deus. Se um pai, apesar de seu grande amor a seu filho, conserva-o encarcerado por alguma falta cometida, o filho, em todo o caso, não está em condições de pedir alguma coisa para si mesmo. Entretanto, por que não poderá pedir pelos outros? Por que não poderá esperar ser atendido no que pede, conhecendo o afeto que lhe tem o pai? Sendo assim, as almas do purgatório, muito mais amadas de Deus e confirmadas em graça, podem rezar por nós. Mas não é costume da Igreja invocá-las e implorar sua intercessão, porque, segundo a providência ordinária, elas não têm conhecimento de nossas súplicas. Todavia, acredita-se piamente, como dissemos, que o Senhor lhes faz conhecer as nossas preces e, então, cheias de caridade não deixam de pedir por nós. Santa Catarina de Bolonha, quando desejava alcançar alguma graça, recorria às almas do purgatório e era imediatamente atendida. Até dizia que muitas graças, que não havia obtido pela intercessão dos santos, conseguia invocando as almas do purgatório.


17. A obrigação que temos de rezar pelas almas do purgatório

Seja-me permitido fazer aqui uma digestão em favor das almas do purgatório. Se quisermos o socorro de suas orações, é justo que cuidemos também de socorrê-las com nossas orações e boas obras. Disse que é justo, mas deve-se dizer ainda que é um dever cristão. Pois manda a caridade que socorramos o próximo em suas necessidades, mormente quando podemos fazê-lo sem incômodo de nossa parte. Ora, é certo que, entre aqueles que caem debaixo da palavra "próximo", devem-se compreender as benditas almas do purgatório. Elas, apesar de não estarem mais nesta vida, nem por isso deixam de pertencer à comunhão dos santos. "As almas dos fiéis defuntos, diz Santo Agostinho, não estão separadas da Igreja."

E mais claramente declara Santo Tomás a esse respeito, dizendo que "a caridade é o vínculo que une os membros da Igreja entre si e não se limita tão somente aos vivos, mas também aos mortos, que partiram deste mundo na graça de Deus". Portanto, devemos socorrer, quanto possível, aquelas santas almas como a nosso próximo e, sendo a sua necessidade maior, maior também consequentemente deve ser a nossa obrigação de socorrê-las.


18. Os sofrimentos das almas do purgatório

Em que necessidade se acham estas santas prisioneiras! Certo é que seu sofrimento é imenso. "O fogo que as tortura, diz Santo Agostinho, é mais grave do que qualquer sofrimento que possa atormentar o homem nesta vida". O mesmo diz Santo Tomás, acrescentando ser aquele fogo semelhante ao do inferno: "pelo mesmo fogo é atormentado o condenado, e purificado o escolhido". Isto quanto ao sofrimento dos sentidos. Mas muito maior é o sofrimento que causa a estas santas esposas a privação da visão de Deus. 

Aquelas almas, não só por natureza, mas ainda pelo amor sobrenatural, em que ardem para com Deus, com tal ímpeto são impelidas para se unirem ao sumo Bem que, vendo-se impedidas por motivo de suas culpas, sofrem dor tão acerba que, se lhes fosse possível a morte, morreriam a cada momento. Pois, segundo diz São João Crisóstomo, esta privação da visão de Deus as atormenta muito mais do que o sofrimento dos sentidos: "Mil fogos do inferno juntos não causariam tanta dor como esta do dano!" Por isso aquelas santas almas prefeririam sofrer qualquer outro castigo a serem destituídas, um só momento, da suspirada união com Deus. Diz, por isso, o Doutor Angélico que "o sofrimento do purgatório excede todas as dores que podemos sofrer nesta vida". Refere Dionísio Cartusiano que certo defunto, ressuscitado por intercessão de São Jerônimo, disse a São Cirilo de Jerusalém que todos os tormentos desta terra são gozos e delícias em comparação com o menor sofrimento do purgatório: "Todos os tormentos desta vida, se comparados à menor pena do purgatório, seriam verdadeiros gozos". E acrescenta que, se alguém tivesse experimentado aqueles sofrimentos, mais prontamente quereria sofrer todas as dores que sofreram ou sofrerão os homens neste mundo até o dia do juízo do que sofrer por um só dia o menor sofrimento do purgatório. Por isso escreveu São Cirilo que aqueles sofrimentos, quanto à aspereza, são os mesmos do inferno, apenas diferem porque são eternos. 


19. As almas do purgatório sofrem horrivelmente e não podem socorrer-se a si mesmas

São, pois, muito grandes as penas daquelas almas e, por outro lado elas não podem ajudar-se, segundo Jó, "estão presas e ligadas pelos laços da pobreza" (Jó 36,8). Já estão destinadas ao Reino aquelas santas rainhas, mas dele não podem tomar posse, enquanto não chegar o fim de sua expiação. Portanto, não podem ajudar a si próprias (ao menos suficientemente, se quisermos crer nos teólogos que admitem que aquelas almas, com suas orações, também possam impetrar para si algum alívio) para livrar-se daquelas prisões, em que estão detidas, enquanto não tiverem satisfeito à justiça divina em todo o seu rigor. Foi o que disse, falando do purgatório, um monge cisterciense, aparecendo ao sacristão de seu convento: "Ajudai-me, pediu ele, com vossas orações, porque por mim nada posso obter!" Isto concorda com o que diz S. Boaventura: "A pobreza impede o pagamento das dívidas". Quer dizer que as almas do purgatório são tão pobres que não podem satisfazer por si próprias à justiça divina.


20. A obrigação que temos de rezar pelas almas do purgatório

É de certo, entretanto, e até de fé que nós, com os nossos sufrágios e, principalmente, com as orações recomendadas pelas Igreja, bem podemos auxiliar aquelas santas almas. Não sei como poderá isentar-se de culpa quem deixa de oferecer-lhes qualquer auxílio, ao menos algumas orações. 


21. Motivos que temos para rezar pelas almas do purgatório

Se não nos mover a obrigação que temos, mova-nos, ao menos, a alegria que causamos a Nosso Senhor Jesus Cristo quando nos aplicamos em libertar aquelas suas esposas diletas, para se unirem com Ele no paraíso. Movam-nos, enfim, os grandes merecimentos que podemos obter praticando este grande ato de caridade para com aquelas santas almas. Elas são gratíssimas e bem conhecem o grande benefício que lhe fazemos, aliviando-as daquelas penas e obtendo, por meio das nossas orações, que mais depressa possam entrar na glória. Lá chegando, não deixarão de rezar por nós. 

Se o Senhor promete ser misericordioso para com os que praticam a misericórdia: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5,7), com muita razão pode esperar a salvação quem procura socorrer as almas do purgatório, tão aflitas e tão caras a Deus, Jônatas, depois de ter salvado os hebreus pela vitória sobre os seus inimigos, foi condenado à morte por seu pai, Saul, por haver provado o mel contra a sua ordem. Mas o povo apresentou-se ao rei e disse: "Como há de morrer Jônatas, o salvador de Israel?" (1Sm 14,45). Ora, assim devemos também esperar que, se algum de nós obtiver, com suas orações, a salvação de uma alma do purgatório e a sua entrada no céu, essa alma dirá a Deus: "Senhor, não permitais que se perca quem me livrou das chamas do purgatório". E, se Saul concedeu a Jônatas a vida, a pedido do povo, Deus não negará a salvação àquele por quem intercede uma alma do purgatório. 

Além disso, diz Santo Agostinho, quem nesta vida mais socorrer as almas do purgatório, Deus fará com que seja também socorrido por outro, quando estiver lá no meio daquelas chamas.


22. A Santa Missa pelas almas do purgatório

Um grande sufrágio pelas almas do purgatório é participar da Santa Missa e nela recomendá-las a Deus, pelos merecimentos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo: Eterno Pai, eu vos ofereço este sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo com todas as dores que sofreu em sua vida e morte e, pelos merecimentos de sua Paixão, recomendo-vos as almas do purgatório e especialmente as de... É ato também de muita caridade recomendar, ao mesmo tempo, as almas de todos os agonizantes.


23. A invocação dos santos

Tudo o que dissemos sobre as almas do purgatório, se podem ou não rezar por nós, se é conveniente ou não nos recomendar as suas orações, vale também a respeito dos santos. Quantos a eles, é certo que é utilíssimo recorrer à sua intercessão, falando dos santos já canonizados, que gozam da visão de Deus. Supor que neste ponto a Igreja é falível seria incidir em culpa ou em heresia, como dizem São Boaventura, Belarmino e outros, ou ao menos está próximo de heresia, segundo Suarez, Azor, Gotti e outros. Porque o Sumo Pontífice, como diz Santo Tomás, ao canonizar os santos, é de modo particular guiado pela inspiração infalível do Espírito Santo.


24. Somos obrigados a invocar os santos?

Volto à questão, apresentada no item anterior, sobre se há uma obrigação de recorrer à intercessão dos santos. Não é minha intenção resolver esta questão: contudo, não posso deixar de apresentar  uma doutrina do Angélico. Ele, antes de tudo, em vários lugares supracitados e, especialmente no livro das Sentenças, tem por certo que cada um é obrigado a orar, porque de outro modo não se pode (como diz ele) receber de Deus as graças necessárias à salvação, a não ser pela oração: "Cada um é obrigado a rezar, porquanto deve procurar os bens espirituais que só por Deus são concedidos e que só podemos alcançá-los por meio da oração".

Em outro lugar do mesmo livro, o mesmo Santo propõe a dúvida: se devemos invocar os santos, a fim de que peçam por nós. É esta a resposta do Santo, que vamos dar em sua íntegra, para melhor compreensão: "A ordem estabelecida por Deus, segundo Dionísio, é que todas as coisas sejam referidas a Deus, por meio das últimas mediações. Ora, como os santos do céu estão próximos de Deus, a ordem da lei divina requer que nós, enquanto vivermos neste mundo e estivermos longe do Senhor, sejamos conduzidos a Ele pelos santos que são os medianeiros. E isso acontece quando Deus derrama, por eles, sobre nós, os efeitos de sua Bondade. Nossa volta para Deus deve corresponder ao curso da distribuição de suas graças. Assim como os benefícios de Deus chegam até nós pela intercessão dos santos, do mesmo modo devemos nós chegar até Deus, a fim de recebermos novamente os seus auxílios, por intermédio dos santos. Esta é a razão por que temos os santos como nossos intercessores e ao mesmo tempo como nossos medianeiros diante de Deus, pedindo-lhes que roguem por nós".

Notem as palavras: "Isto requer a ordem da Lei divina, e notem igualmente estas: assim como mediante os sufrágios dos santos nos vem a graça de Deus, pelo mesmo caminho devemos nós outros voltar para Deus, a fim de recebermos novamente sua graça por mediação deles. Assim, segundo Santo Tomás, a ordem da lei divina requer que nós, mortais, nos salvemos por meio dos santos, recebendo, por sua intercessão, os auxílios necessários à nossa salvação. Objeta, então o Angélico, dizendo ser supérfluo recorrer aos santos, quando Deus é infinitamente mais misericordioso e inclinado a atender-nos. Responde ele mesmo que o Senhor dispôs assim, não por defeito de seu poder, mas para conservar a ordem reta e universalmente estabelecida de operar por meio de causas segundas: "Não é, diz o santo, por defeito de sua misericórdia, senão para que seja mantida a ordem supraexplicada".


25. A ordem estabelecida por Deus na distribuição das graças

Segundo a afirmação de Santo Tomás (escreve o continuador de Tournely com Sílvio), é verdade que devemos invocar só a Deus como o Autor das graças. Entretanto, somos obrigados também à intercessão dos santos, para observar a ordem que Deus estabeleceu sobre a nossa salvação, isto é, que os inferiores se salvem, implorando o auxílio dos superiores. "Segundo a lei natural, todos são obrigados a observar a ordem que Deus estabeleceu; ora, Deus estabeleceu que os inferiores alcancem a salvação implorando o auxílio dos superiores".


26. A intercessão de Nossa Senhora

E, assim é, falando dos santos, quanto mais não devemos recorrer à intercessão da divina mãe, cujas súplicas, junto de Deus, valem mais do que as de todos os santos do paraíso? Diz, Santo Tomás que os santos, na proporção dos merecimentos pelos quais adquiriram as graças, podem salvar muitos outros, mas Nosso Senhor Jesus Cristo e também sua Mãe mereceram tantas graças, que podem salvar todos os homens: "Grande coisa é, para cada santo, ter graça suficiente para salvação de muitos; e, se um tivesse tanto quanto fosse necessário para salvar o mundo inteiro, seria o máximo; e isto se encontra em Nosso Senhor Jesus Cristo e em Nossa Senhora". 

E São Bernardo, falando de Maria, escreve: "Por vós temos acesso ao Filho, por vós, que achaste a graça, Mãe da salvação, para que vós nos receba Aquele que por vós nos foi dado". Queria dizer com isso que, assim como não podemos chegar ao Pai senão pelo Filho, que é o Medianeiro da justiça, assim não podemos chegar ao Filho senão por Maria, que é a Medianeira da graça e nos obtém por sua intercessão os bens que Jesus Cristo para nós mereceu. No mesmo sentido, fala o Santo em outro lugar: "Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus". Por isso acrescenta: "Deus depositou em Maria a plenitude de todo o bem. Portanto, se temos alguma esperança, alguma graça, alguma salvação, saibamos que nos vem por Aquela que subiu inundada de delícias. Ela é um jardim de delícias para, por todos os lados, trescalar perfumes, isto é, os dons de suas divinas graças". Por isso, tudo o que temos de benefícios de Deus, nós o recebemos pela intercessão de Maria. E por que é assim? Responde o mesmo São Bernardo: "Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d'Aquele que dipôs que tudo tivéssemos por Maria".

Mas a razão principal se deduz do que diz Santo Agostinho: "Maria é chamada nossa Mãe porque cooperou com sua caridade para que, nós, fiéis, nascêssemos para a vida da graça, como membros da nossa cabeça, Jesus Cristo. Ela é, em verdade, a mãe dos membros de Jesus, que somos nós, porque pelo amor concorreu para que os fiéis, que são membros da Cabeça de Cristo, renascessem na Igreja". Por isso, assim como Maria cooperou com sua caridade para o nascimento espiritual dos fiéis, assim quer Deus que ela coopere, por meio da sua intercessão, para que possam conseguir a vida da graça, neste mundo, e a vida da glória, no outro. E por isso a Igreja invoca e manda saudá-la com palavras tão claras e preciosas: Vida, doçura e esperança nossa, salve!


27. Maria medianeira de todas as graças 

Neste mesmo sentido, exorta-nos São Bernardo a recorrer sempre a esta divina Mãe, porquanto todas as suas súplicas são atendidas por seu divino Filho: "Recorrer a Maria! Sem a menor dúvida, eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe". E ajunta: "Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão da minha esperança". O santo dá a Maria o nome de escada, porque assim como na escada não se sobe ao degrau sem antes passar pelo segundo, não se atinge o segundo sem se passar pelo primeiro, assim também não se chega a Deus senão por meio de Maria. O mesmo São Bernardo chama Maria de sua máxima confiança e toda a razão de sua esperança, porque Deus, como ele supõe, quer que passem pelas mãos de Maria todas as graças, que nos dispensa. E conclui, finalmente, dizendo que todas as graças que desejamos temos de pedi-la por meio de Maria, porquanto ela obtém tudo o que deseja e os seus rogos não podem ser repelidos: "Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido". 

Com os mesmos sentimentos fala Santo Efrém: "Fora de vós, não temos outra confiança, ó Virgem puríssima". Santo Ildefonso: "Todos os benefícios que a sua majestade decretou fazer aos homens, decretou confiá-los às vossas mãos. A vós, pois, estão confiados os tesouros e as riquezas da graça". São Germano: "Se vós nos abandonardes, que será de nós, ó vida dos cristãos?" São Pedro Damião: "Em vossas mãos estão todos os tesouros da misericórdia de Deus". Santo Antonino: "Quem pede, sem Maria, tenta voar sem asas". São Bernardino de Sena diz: "Vós sois a dispensadora de todas as graças. Nossa salvação está em vossas mãos". Em outro lugar não só se diz que por Maria se transmitem a nós todas as graças, mas também afirma que a Santíssima Virgem, desde que foi feita Mãe de Deus, adquiriu certa jurisdição, sobre todas as graças que nos são dispensadas: "Pela Santíssima Virgem as graças vivificantes se transmitem de Cristo, como da cabeça, a seu Corpo místico. Desde o momento em que a Virgem Mãe concebeu o Verbo Divino, ela obteve, por assim dizer, certa jurisdição sobre toda a processão temporal do Espírito Santo, de sorte que nenhuma criatura recebeu graça alguma senão pela distribuição desta piedosa mãe". E conclui: "Por isso, pelas suas mãos, dá a quem quer todos os dons, graças e virtudes". O mesmo escreveu São Boaventura: "Já que toda a natureza divina esteve nas entranhas da Santíssima Virgem, não duvido dizer que em toda a distribuição de graças tem certa jurisdição esta Virgem, de cujas entranhas, como de um oceano da divindade, emanam os rios de todas as graças".

Por isso, pois, muitos teólogos, fundados na autoridade desses santos, com piedoso zelo e muita razão, defenderam a tese de que nenhuma graça nos é dispensada, senão pela intercessão de Maria. Assim Vega, Mendonzza, Paciucchelli, Segneri, Poiré, Crasset e muitos outros autores, como o douto Padre Natal Alexandre, que escreveu: "Deus quer que esperemos todos os bens Dele pela intercessão poderosíssima de Maria, quando a invocamos como se deve". Em confirmação alega o texto de São Bernardo anteriormente referido: "Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria". E sobre as palavras: "Eis a tua Mãe", que Jesus disse na Cruz a São João, o Padre Contenson diz a mesma coisa expressando-se assim: "É como se dissesse: Ninguém terá parte no meu sangue, senão pela intercessão de minha Mãe, Minhas chagas são fontes de graças, mas estas correntes de graças são levadas unicamente pelo canal que é Maria. Oh, João, meu discípulo, serás tanto amado por mim, quanto amares a ela".

Além disso, é certo que se nos tornamos agradáveis a Deus, invocando os santos, tanto mais lhe seremos agradáveis se invocarmos a intercessão de Maria, para que ela supra com seus merecimentos a nossa indignidade, segundo o que diz Santo Anselmo: "Que a dignidade do intercessor supra a nossa indignidade". Por isso, invocar a Santíssima Virgem não é desconfiar da misericórdia divina, mas temer a própria indignidade. Falando da dignidade de Maria, Santo Tomás a qualifica de quase infinita: "Por ser Mãe de Deus, tem uma dignidade quase infinita". Portanto, com toda a razão se diz que as orações de Maria são mais poderosas diante de Deus do que as de todo paraíso.


28. Quem reza se salva. Quem não reza certamente se condena

Terminemos este primeiro ponto, concluindo de tudo o que dissemos que quem reza certamente se salva, e quem não reza certamente será condenado. Todos os bem-aventurados, exceto as crianças, salvaram-se pela oração. Todos os condenados se perderam, porque não rezaram. Se tivessem rezado, não se teriam perdido. E este é e será o maior desespero no inferno: o poder ter alcançado a salvação com facilidade, pedindo a Deus as graças necessárias. E, agora, esses miseráveis não têm mais tempo de rezar.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.








 

terça-feira, 10 de maio de 2022

O que é mérito?

 




Certa vez, li na secção de pequenas notícias de um jornal que um homem construiu uma casa para a sua família. Ele mesmo executou quase todas as obras, investindo todas as suas economias nos materiais. Quando terminou, verificou com horror que se tinha enganado de propriedade e que a tinha construído no terreno de um vizinho. Este, tranquilamente apossou-se da casa, enquanto o construtor não pode fazer outra coisa senão chorar o dinheiro e o tempo perdidos.

Por lamentável que nos pareça a história deste homem, não chega a ter importância se a compararmos com a da pessoa que vive sem a graça santificante. Por nobres e heroícas que sejam as suas ações, não têm valor aos olhos de Deus. Se não recebeu o Batismo ou está em pecado mortal, essa alma separada de Deus vive os seus dias em vão. As suas dores e tristezas, os seus sacrifícios e bondades, tudo está desprovido de valor eterno, desperdiça-se diante de Deus. Não existe mérito no que faz. Então, o que é esse mérito?

O mérito foi definido como aquela propriedade de uma obra boa que habilita quem a realiza a receber uma recompensa. Estou certo de que todos concordamos em afirmar que, em geral, agir bem exige certo esforço. É fácil ver que alimentar um faminto, cuidar de um doente ou fazer um favor ao próximo requer certo sacrifício pessoal. Vê-se facilmente que estas ações têm um valor, e que por isso merecem, ao menos potencialmente, um reconhecimento, uma recompennsa. Mas esta recompensa não pode ser pedida a Deus, se Ele não teve parte nessas ações, se não existe comunicação entre Deus e aquele que as faz. Se um operário não quer que o incluam na folha de pagamento, não poderá exigir o seu salário por mais que trabalhe. 

Por isso, só a alma que está em graça santificante pode adquirir méritos pelas suas ações. É esse estado que dá valor de eternidade a uma ação. As ações humanas, se são puramente humanas, não tem nenhuma significação sobrenatural. Só adquirem valor divino quando se tornam obras do próprio Deus. E as nossas ações são em certo sentido obra de Deus quando Ele está presente numa alma pela graça santificante. 

"Diante de Deus, em sentido estritamente jurídico, não há mérito da parte do homem. Entre Ele e nós, a desigualdade é infinita, pois dEle, que é nosso Criador, recebemos tudo. [...] Aliás, o próprio mérito do homem depende de Deus, pois as suas boas ações procedem, em Cristo, das inspirações e do auxílio do Espírito Santo. [...]

 "A caridade de Cristo em nós constitui a fonte de todos os nossos méritos diante de Deus. A graça, unindo-nos a Cristo com um amor ativo, assegura a qualidade sobrenatural dos nossos atos e, por conseguinte, o seu mérito tanto diante de Deus como diante dos homens. Os santos sempre tiveram viva consciência de que os seus méritos eram pura graça" (ns. 2007 e 2011; cf. também os ns. 2571-85 e 2588-9).

E isto é tão verdadeiro que a menor das nossas ações adquire valor sobrenatural quando a fazemos em união com Deus. Tudo o que Deus faz, ainda que o faça através de instrumentos livres, tem valor divino. Isto permite que a menor das nossas obras, desde que moralmente boa, seja meritória enquanto tivermos a intenção, ao menos habitual, de fazer tudo por Deus.

Se o mérito é "a propriedade de uma obra boa que habilita quem a realiza a receber uma recompensa", e pergunta imediata e lógica será: Que recompensa? As nossas ações sobrenaturalmente boas merecem, mas merecem o quê? A recompensa é tripla: primeiro, um aumento de graça santificante; segundo, a vida eterna; e, terceiro, maior glória no céu. Sobre a segunda parte deste recompensa - a vida eterna -, é interessante ressaltar um aspecto: para a criança batizada, o céu é uma herança que lhe cabe pela sua adoção como filha de Deus, incorporada em Cristo; mas para o cristão no uso da razão, o céu é tanto herança como recompensa que Deus promete aos que o servem.

Quanto ao terceiro elemento do prêmio - uma maior glória no céu -, vemos que é conseqüência do primeiro. O nosso grau de glória dependerá do grau de união com Deus, da medida em que a graça santificante tiver empapado a nossa alma. A nossa capacidade de glória no céu crescerá tanto quanto crescer a graça em nós.

No entanto, para alcançarmos a vida eterna e o grau de glória que tenhamos merecido, devemos, é claro, morrer em estado de graça. O pecado mortal arrebata todos os nossos méritos, como a falência de um banco arruína as economias de toda uma vida. E não há maneira de adquirir méritos depois da morte, nem no purgatório, nem no inferno, nem sequer no céu. Esta vida - e só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer. 

Mas é consolador saber que os méritos que podemos perder pelo pecado mortal se restauram tão logo a alma se reconcilia com Deus por um ato de contrição perfeita ou por uma confissão bem feita. Os méritos revivem no momento em que a graça santificante volta à alma. Em outras palavras, o pecador contrito não tem que começar de novo: o seu tesouro anterior de méritos não está perdido para sempre.

Para você e para mim, que significa, na prática, viver em estado de graça santificante? Para responder à questão, observemos dois homens que trabalham juntos no mesmo escritório (na mesma fábrica, loja ou fazenda). Para quem os observe casualmente, os dois são muito parecidos. Têm a mesma categoria de trabalho, ambos são casados e têm família, ambos levam essa vida que poderíamos qualificar como "respeitável". Um deles, porém, é o que poderíamos chamar "indiferente". Não pratica nenhuma religião, e poucas vezes, para não dizer nenhuma, pensa em Deus. A sua filosofia é que a felicidade de cada qual depende dele mesmo, e por isso deve procurar tirar da vida tudo o que esta pode oferecer. "Se eu não o consigo - diz ele -, ninguém o fará por mim".

Não é um mau homem. Pelo contrário, em muitas coisas desperta admiração. Trabalha como um escravo porque quer triunfar na vida e dar à família tudo o que haja de melhor. Dedica-se sinceramente aos seus: orgulhoso da mulher, a quem considera uma companheira encantadora e generosa, devotado aos filhos, nos quais vê uma prolongação de si mesmo. "Eles são a única imortalidade que me interessa", diz ele aos seus amigos. É um bom amigo, apreciado por todos os que o conhecem, moderadamente generoso e consciente dos seus deveres cívicos. A sua laborosidade, sinceridade, honradez e delicadeza não se baseiam em princípios religiosos: "Isso é decente ou honesto - explica -; tenho que fazê-lo por respeito a mim mesmo e aos outros".

Temos aqui em breves traços o retrato do homem "naturalmente" bom. Todos nós tropeçamos com ele alguma vez e, ao menos externamente, enchemo-nos de vergonha pensando em mais de uma pessoa que se chama cristã, mas parece encontrar-se muito abaixo na escala moral. E, apesar disso, sabemos que esse homem falha no mais importante. Não faz o que é decente, porque ignora a única coisa realmente necessária, o fim para que foi criado: amar a Deus e provar esse amor cumprindo a Vontade divina. Precisamente por ser tão bom em coisas menos transcendentais, a nossa compaixão por ele é maior, a nossa oração por ele mais compassiva. 

Dirijamos agora a nossa atenção ao outro homem, esse que trabalha sentado à mesa, diante de um computador ou no balcão contíguo. À primeira vista, parece uma cópia do primeiro; não há diferença: em posição, família, trabalho e personalidade. Mas existe uma diferença incalculável que os olhos não podem apreciar facilmente, porque reside na intenção. A vida do segundo não se baseia no "decente" ou no "respeito por si mesmo", ou pelo menos, não principalmente. Os afetos e aspirações naturais, que partilha com todo o gênero humano, nele se transformam em afetos e aspirações mais altos: o amor a Deus e o desejo de cumprir a sua Vontade. 

A sua esposa não é apenas a companheira no lar; é também companheira no altar. Ele e ela estão associados a Deus e ajudam-se mutuamente a caminhar para a santidade, cooperam com Deus na criação de novos seres humanos destinados à glória eterna. O amor que dedica aos filhos não é mera extensão do amor por si mesmo; vê-los como uma solene prova de confiança que Deus lhe dá, considera-se como simples administrador que um dia terá que prestar contas dessas almas. O seu amor por eles, como o amor à mulher; é parte do seu amor a Deus.

O seu trabalho é mais do que uma oportunidade de ganhar a vida e progredir. É parte da sua paternidade sacerdotal, é meio para atender às necessidades materiais da sua família e parte do plano querido por Deus para ele. Realiza assim o melhor que pode o seu trabalho, porque compreende que ele próprio é um instrumento nas mãos de Deus para completar a obra da Criação do mundo.

"O trabalho humano procede imediatamente das pessoas criadas à imagem de Deus e chamadas a prolongar, umas com e para as outras, a obra da criação dominando a terra. O trabalho é, pois, um dever: Se algum de vós não quer trabalhar, também não coma ( 2 Tes 3,10). O trabalho honra os dons do Criador e os talentos recebidos. Também pode ser redentor. Suportando em união com Jesus, o artesão de Nazaré e o crucificado do Calvário, o que o trabalho tem de penoso, o homem colabora de certa maneira com o Filho de Deus na sua obra redentora e mostra-se discípulo de Cristo, carregando a cruz de cada dia na atividade que é chamado a realizar. O trabalho pode ser um meio de santificação e uma animação das realidades terrenas no Espírito de Cristo" (n. 2427).

A Deus só pode oferecer o melhor, e este pensamento acompanha-o ao longo do dia. A sua cordialidade natural está impregnada de espírito de caridade; a sua generosidade, aperfeiçoada pelo desprendimento; a sua delicadeza, imbuída da compaixão de Cristo. Talvez não pense frequentemente nestas coisas mas também não passa o dia pendente de si mesmo e das suas virtudes. Começou a jornada com o ponto de mira bem centrado: em Deus e longe de si. "Meu Deus - disse ele -, ofereço-te todos os meus pensamentos, palavras e ações, e as contrariedades de hoje..." Talvez tenha dado ao seu dia o melhor dos começos assitindo à missa. 

Mas existe outra coisa que é imprescindível para fazer deste homem um homem autenticamente sobrenatural. A reta intenção é necessária, mas não basta. O seu dia deve não só dirigir-se a Deus, como deve ser vivido em união com Ele, para que tenha valor eterno. Em outras palavras, esse homem deve viver em estado de graça santificante. 

Em Cristo, a mais insignificante das ações tinha valor infinito, porque sua natureza humana estava unida à sua natureza divina. Tudo o que Jesus fazia, Deus o fazia. De modo semelhante - mas só semelhante -, o mesmo se passa conosco. Quando estamos em graça, não possuímos a natureza divina, mas participamos da natureza de Deus, compartilhamos a vida divina de uma maneira especial. Em consequência, qualquer coisa que façamos - exceto o pecado -, Deus o faz por nós. Deus, presente na nossa alma, vai dando valor eterno a tudo o que fazemos. Até a mais caseira das ações - limpar o nariz da criança ou trocar uma lâmpada - merece um aumento de graça santificante e um grau mais alto de glória no céu, se a nossa vida está centralizada em Deus. Eis o que significa viver em estado de graça santificante, eis o que significa ser um homem sobrenatural. 

 


Leo J. Trese -  A Fé Explicada ed. Quadrante, p. 104-9.