domingo, 25 de maio de 2025

Valor do tempo




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Deus abençoe por Maria!



Santo Afonso Maria de Ligório 


Fili, conserva tempus. 
Filho, aproveita o tempo (Sr 4,23).

PONTO I

Diligencia, meu filho, - diz o Espírito Santo, - em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna. 
O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: "Oh! se tivéssemos uma hora!"... Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bem-aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava de plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até o dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria. 
E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?... Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti. 
Só dispões do tempo presente para agir... Ó infeliz! - adverte São Bernardo, - por que ousas contar com o vindouro, como se Deus tivesse posto o tempo em teu poder?". E Santo Agostinho disse: Como te podes prometer o dia de amanhã, se não dispões de uma hora de vida? "Daí conclui Santa Teresa: "Se não estiveres preparado hoje para morrer, teme morrer mal..."


AFETOS E SÚPLICAS

Dou-vos graças, meu Deus, pelo tempo que me concedes para reparar as desordens de minha vida passada. Se chegasse a morrer neste momento, a maior de minhas penas seria pensar no tempo que perdi!... Ah! Senhor meu, deste-me o tempo para vos amar e empreguei-o a ofender-vos. Merecia ser lançado no inferno desde o primeiro momento em que me apartei de vós; mas chamastes-me à penitência e me perdoastes. Prometi jamais tornar a ofender-vos, entretanto quantas vezes voltei a injuriar-vos e vós ainda me perdoastes!... Bendita seja eternamente a vossa misericórdia! Se não fosse infinita, como teria podido aturar-me tanto tempo? Quem poderia ter comigo a paciência  que vós tivestes?... Quanto me pesa ter ofendido um Deus tão bom!...

Meu querido Salvador, mesmo que fosse somente pela paciência que tínheis comigo, deveria estar inflamado de amor por vós. Não permitais que viva por mais tempo ingrato ao amor que me tendes demonstrado.

Desprendei-me de tudo e atrai-me ao vosso amor... Não, meu Deus, não quero continuar a perder o tempo que me dais para remediar as faltas cometidas, mas empregá-lo todo no vosso serviço e no vosso amor. Amo-vos, bondade infinita, e espero amar-vos eternamente. 

Mil graças vos dou, Virgem Maria, por terdes sido minha advogada na consecução deste tempo da vida. Auxiliai-me agora e fazei que o empregue sem reserva em amar o vosso Filho, meu Redentor, e a vós também, minha Rainha e minha Mãe!


PONTO II

Nada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo: "Passam rapidamente os dias da salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam". Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: "Passar o tempo". Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte... Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!... Ainda que fosse para alcançar só uma hora - disse São Lourenço Justiniano - dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua... Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti. 

Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!... Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. "Virá a noite em que ninguém poderá fazer mais nada". (Jo 9,4). Então o momento da morte será para ele o tempo da noite, em que nada mais poderá fazer. "Clamou contra mim o tempo" (Lm 1,15). A consciência recordar-lhe-á todo o tempo que teve e que empregou em prejuízo de sua alma; todas as graças que recebeu de Deus para se santificar e de que não quis aproveitar; e ver-se-á depois privado de todos os meios de fazer o bem. Por isso exclamará gemendo: Como fui insensato!... Ó tempo perdido, em que podia ter-me santificado!... Mas não o fiz e agora já não é tempo de o fazer... De que servem tais suspiros e lamentações, quando a vida está prestes a terminar e a lâmpada se vai extinguindo, vendo-se o moribundo próximo do solene instante de que depende a eternidade? 


AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Jesus! santificastes toda a vida para salvar minha alma; nem um instante deixastes de vos oferecer por mim ao Eterno Pai, a fim de me alcançar perdão e salvação... e eu, ao cabo de tantos anos de vida neste mundo, quanto tempo empreguei em vosso serviço? As recordações de meus atos fazem-me remorsos de consciência. O mal foi grande. O bem pouquíssimo e cheio de imperfeições, de tibieza, de amor próprio e de distrações. Ah, meu Redentor, tudo isto tem sido porque olvidei o que por mim fizestes! Esqueci-vos, Senhor, mas vós não vos esquecestes de mim; viestes a procurar-me e repetidas vezes me oferecestes o vosso amor enquanto eu fugia de vós. Aqui estou, ó bom Jesus; não quero resistir por mais tempo, nem pensar que me abandonareis. Pesa-me, meu soberano Bem, de ter-me afastado de vós pelo pecado. Amo-vos, bondade infinita, digna de infinito amor. Não permitais que perca o tempo que vossa misericórdia me concede. 

Lembrai-vos, amado Salvador meu, do amor que me tendes e das dores que por mim padecestes. Fazei que esqueça tudo na vida que me resta, exceto pensar só em vos agradar. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo. Prometo fazer frequentíssimos atos de Amor. Concedei-me a santa perseverança, como espero, confiado nos merecimentos de vosso sangue precioso...

E em vossa intercessão confio ó Maria, minha Mãe querida!


PONTO III

Devemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito esta feito... Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!... O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna... e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém: "Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus". Sabe - respondo - que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais com alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste... Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar. "Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo" (Ap 12,12). De sorte que o inimigo não perde nem um instante para desgraçar-nos e nós não aproveitamos, o tempo para nos salvar! Outro dia: Qual é o mal que faço?... Ó meu Deus! E já não é um mal perder o tempo em jogos e conversações inúteis, que de nada servem à nossa alma? Acaso nos dá Deus esse tempo para que assim o percamos? Não, diz o Espírito Santo: Particula boni doni non te praetereat (Ecl 14,14). Aqueles operários de que fala São Mateus não faziam nenhum mal; somente perdiam o tempo, e é por isso que o dono da vinha os repreendeu: "Que estais aqui todo o dia ociosos?" (Mt 20). No dia do juízo, Jesus Cristo nos pedirá conta de toda palavra ociosa. Todo o tempo que não é empregado para Deus, é tempo perdido. E o Senhor nos diz: "Qualquer coisa que possa fazer tua mão, fá-la com instância; porque nem obra, nem razão de sabedoria, nem ciência haverá no sepulcro, para onde caminhas célere" (Ecl 9,10). A venerável irmã Joana da Santíssima Trindade, filha de Santa Teresa, dizia que na vida dos Santos não há dia de amanhã; só o que há na vida dos pecadores, que dizem sempre "mais tarde, mais tarde" e é assim que chegam à morte. "É agora o tempo favorável" (2Cor 6,2). "Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer vossos corações" (Sl 94,8). Hoje Deus te chama a fazer o bem; faze-o hoje mesmo, porque amanhã talvez já não terás tempo, ou Deus não te chamará. 

E, se por desgraça na vida passada empregaste o tempo em ofender a Deus, procura agora expiar essa falta no resto de tua vida mortal, como resolveu fazer o rei Ezequias: "Repassarei diante de ti todos os meus anos com a amargura de minha alma" (Is 38,15). Deus te prolonga a vida para que resgates o tempo perdido: "Recobrando o tempo, pois que os dias são maus" (Ef 5,16); ou ainda, segundo comenta Santo Anselmo: "Recuperarás o tempo se fizeres o que descuidastes de fazer". 

São Jerônimo diz de São Paulo que, não obstante ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro em méritos pelos seus trabalhos depois da vocação. Consideremos ao menos que em cada instante podemos ganhar maior cópia de bens eternos. Se nos cedessem a propriedade do terreno que pudéssemos contar num dia, ou o dinheiro que pudéssemos contar num dia, que esforços não faríamos! Pois, se podemos adquirir em um instante tesouros eternos, por que havemos de malgastar o tempo? O que podes fazer hoje não diga que o farás amanhã, porque o dia de hoje se perderá e não mais voltará. Quando São Francisco de Borja ouvia falar das coisas mundanas, elevava o coração a Deus com tão santos afetos que não sabia responder quando lhe perguntavam qual era o seu sentir acerca do que haviam dito. Repreenderam-no por isso, e ele contestou que antes preferia parecer homem rude do que perder futilmente o tempo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não, meu Deus, não quero perder o tempo que me haveis concedido por vossa misericórdia... Mereci estar já no inferno, gemendo sem esperança. Dou-vos, pois, fervorosas graças por me terdes conservado a vida. Desejo, nos dias que me restam, viver somente para vós. Se estivesse no inferno, choraria desesperado e sem fruto. Agora chorarei as ofensas que cometi contra vós e, chorando-as, estou certo de que mas perdoareis, segundo assegura o Profeta (Is 30,19). No inferno me seria impossível amar-vos; agora vos amo e espero amar-vos sempre. 

No inferno jamais poderia pedir a vossa graça; agora ouço que dizeis: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24). Posto que ainda é tempo para vos pedir graças, duas são as que vos peço: Concedei-me, ó Deus, a perseverança no vosso santo serviço e dai-me o vosso amor; depois fazei de mim o que quiserdes. Fazei que, em todos os instantes que me restam da vida, eu me recomende a vós, dizendo: "Ajudai-me, Senhor... Senhor, tende piedade de mim; fazei que não vos ofenda; fazei que vos ame". 

Virgem Santíssima, minha mãe, alcançai-me a graça de me recomendar sempre a Deus e pedir-lhe seu santo amor e a perseverança.

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Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte













sábado, 24 de maio de 2025

Comentário à Saudação Angélica (Ave-Maria)




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Deus abençoe por Maria!


 São Tomás de Aquino 

A 77 saudação contém três partes. O anjo falou uma parte: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres (Lc 1,28). Isabel, mãe de João Batista, falou outra parte: Bendito é o fruto do teu ventre (ibid., v. 42). A terceira parte foi adicionada pela Igreja: Maria, pois o anjo não disse Ave, Maria, mas Ave, cheia de graça. E este nome, Maria, segundo sua interpretação, está de acordo com as palavras do anjo, como ficará claro.


ARTIGO I

Ave-Maria, cheia de graça, 

o Senhor é contigo.

Quanto à primeira parte, consideremos que, antigamente, era algo muito grandioso quando os anjos apareciam aos homens, ou quando os homens lhes prestavam reverência. Isso era considerado um grande louvor. Por isso se escreveu em louvor de Abraão, que hospedera os anjos e lhes prestara reverência. No entanto, nunca se ouvira falar de um anjo prestando reverência a um homem, exceto depois que um anjo saudou a Virgem Maria, dizendo reverentemente: Ave. O motivo pelo qual no passado o anjo não reverenciava o homem, mas o homem reverenciava o anjo, é porque o anjo era superior ao homem sob três aspectos. 

PRIMEIRO, em relação à dignidade: o anjo possui natureza espiritual. Tu que fazes dos anjos teus espíritos (Sl 103,4); já o homem possui natureza corruptível. Por isso Abraão disse: Falarei ao meu Senhor, ainda que eu seja pó e cinza (Gn 18,27). Portanto, não era apropriado que uma criatura espiritual e incorruptível prestasse reverência a uma criatura corruptível, ou seja, ao homem. 

EM SEGUNDO LUGAR, em relação à familiaridade com Deus, pois o anjo é íntimo de Deus, como um assistente. Eram milhares de milhares os que o serviam, e dez mil vezes uma centena de milhar os que assistiam diante dele (Dn 7,10). Já o homem é como um estranho, afastado de Deus pelo pecado. Eis que me afastei fugindo, e permaneci no deserto (Sl 54,8). Por isso, convinha que o homem reverenciasse o anjo como a alguém próximo e íntimo do Rei. 

EM TERCEIRO LUGAR, os anjos se destacam pela plenitude do esplendor da graça divina, pois participam da luz divina em sua máxima plenitude. Porventura têm número as suas milícias? E sobre quem é que não se levanta a sua luz? (Jó 25,3) Portanto, sempre aparecem rodeados de luz. Mas os homens, embora participem da luz da graça, participam menos, e ainda permanecem em certa obscuridade. 

Portanto, não convinha que os anjos prestassem reverência ao homem, até que aparecesse alguém na natureza humana que superasse os anjos nesses três aspectos. E essa foi a Virgem Maria. Portanto, para mostrar que ela excedia os anjos nesses três aspectos, o anjo quis prestar-lhe reverência, dizendo: Ave. Assim, a Virgem Maria superou os anjos nesses três itens.

EM PRIMEIRO LUGAR, na plenitude da graça, que é maior na Virgem Maria do que em qualquer anjo. Para indicar isso, o anjo lhes prestou reverência, dizendo: cheia de graça. É como se dissesse: "Eu presto reverência a ti, porque me superas na plenitude da graça". Diz-se que a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça em relação a três coisas.

PRIMEIRO, em relação à alma, na qual possuía toda a plenitude da graça. A graça de Deus nos é dada para duas coisas: para fazermos o bem e para evitarmos o mal; e quanto a esses dois aspectos, a Bem-aventurada Virgem teve a graça mais perfeita. Ela evitou todo pecado, mais do que qualquer santo depois de Cristo. O pecado pode ser original: e ela foi purificada do pecado original no útero; ou mortal ou venial; e sempre esteve livre deles 78. Toda és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula (Ct 4,7). Agostinho, no livro De natura et gratia, escreve: "Com exceção da Santa Virgem Maria, se todos os santos e santas estivessem vivos aqui, e lhes fosse perguntado se estiveram sem pecado, todos clamariam a uma só voz: 'Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós' (I Jo 1,8). [Todos os têm] exceto, repito, esta Santa Virgem, sobre a qual, em honra ao Senhor, em se tratando de pecado, não ouso nem sequer mencioná-lo. Sabemos que a ela foi concedida maior graça para vencer completamente o pecado, pois mereceu conceber e dar à luz Aquele que sabemos não ter pecado". 79 Mas Cristo supera a Bem-aventurada Virgem num aspecto, pois foi concebido e nasceu sem pecado original. Já a Bem-aventurada Virgem foi concebida no pecado original, mas não nasceu nele. 80 Ademais, ela praticou as obras de todas as virtudes, enquanto outros santos praticaram virtudes específicas: porque um foi mais humilde, outro mais casto, outro mais misericordioso; e por isso são postos como exemplo de virtudes especiais, como São Nicolau, que é tido como exemplo de misericórdia etc. Mas a Bem-aventurada Virgem é exemplo de todas as virtudes. Nela tempos o modelo da humildade: Eis aqui a serva do Senhor (Lc 1,38); Ele olhou para a humildade de sua serva (ibid., 48); da castidade: porque não conheço homem (ibid., v. 34); e de todas as virtudes, como é bastante claro. Assim, a Bem-aventura Virgem está cheia de graça tanto em relação a praticar o bem, como em relação a evitar o mal. 

SEGUNDO, estava tão cheia de graça que a graça lhe transbordava da alma à carne, ou ao corpo. É grande coisa que os santos tenham abundância de graça, de forma que se santifique a sua alma; mas a alma da Bem-aventurada Virgem estava tão cheia de graça, que esta transbordava em sua carne, de tal modo que pôde conceber o Filho de Deus. Por isso Hugo de São Vitor diz: "Como em seu coração o amor do Espírito Santo ardia de maneira única, em sua carne realizava maravilhas, ao ponto de nascer dela alguém que era Deus e homem". 81 E, por isso mesmo, o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus (Lc 1,35).

TERCEIRO, em relação à difusão da graça para todos os homens. É algo grande que um santo possua tanta graça, que seja suficiente para a salvação de muitos; mas possuir tanta graça, que fosse suficiente para a salvação de todos os homens do mundo, isso seria o máximo: e possuem-na assim Cristo e a Bem-aventurada Virgem. Em todo perigo, podes obter salvação da Virgem gloriosa. Mil escudos, isto é, remédios contra os perigos, pedem dela (Ct 4,4). Da mesma forma, em toda obra de virtude, podes tê-la por auxiliadora; por isso ela mesma diz: Em mim está toda a esperança da vida e da virtude (Eclo 24,25).

Portanto, ela é cheia de graça e supera os anjos na plenitude da graça. Por isso é chamada de Maria, que significa "iluminada em si mesma": [O Senhor] encherá a tua alma de resplendores (Is 58,11); e "iluminadora dos outros", em relação ao mundo inteiro; e por isso é comparada ao Sol e à Lua. 

EM SEGUNDO LUGAR, supera os anjos na familiaridade divina. Por isso os anjos, para designar isso, disse: o Senhor está contigo; como se dissesse: "Presto-te reverência porque tu és mais familiar a Deus do que eu, pois o Senhor está contigo". O Senhor, quer dizer ele, [é] o Pai com o próprio Filho, o que nenhum anjo, nem qualquer criatura jamais teve consigo. E, por isso mesmo, o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus (Lc 1,35). O Filho no ventre era o Senhor. Exulta e louva, casa de Sião, porque se mostra grande no meio de ti o Santo de Israel (Is 12,6). O Senhor está com a Bem-aventurada Virgem de uma maneira distinta daquela que está com o anjo; pois com ela está presente como filho, e com o anjo como Senhor. O Espírito Santo é Senhor, e estava nela como num templo. Por isso a chamamos de "Templo do Senhor", "Sacrário do Espírito Santo", porque concebeu do Espírito Santo: O Espírito Santo descerá sobre ti (Lc 1,35). Assim, a Bem-aventurada Virgem é mais familiar a Deus do que os anjos: pois com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, ou seja, toda a Trindade. Por isso cantamos dela: "Nobre triclínio 82 de toda a Trindade". Estas palavras, o Senhor é contigo, são as mais sublimes que se poderiam dizer a alguém. Portanto, com razão o anjo reverencia a Bem-aventurada Virgem, pois é Mãe do Senhor e, portanto, Senhora. Por isso, convém a ela o nome Maria, que, na língua síria, significa "senhora".

EM TERCEIRO LUGAR, supera os anjos quanto à pureza, pois a Bem-aventurada Virgem não só era pura em si mesma, mas também procurava a pureza para os outros. Foi a mais pura, tanto em relação à culpa, pois não incorreu em pecado mortal nem venial, quanto em relação à pena. Três maldições foram decretadas contra os homens por causa do pecado. A primeira foi decretada contra a mulher: conceberia com corrupção, carregaria com sofrimento e daria à luz com dor. Mas a Bem-aventurada Virgem foi poupada de tudo isso, porque concebeu sem corrupção, carregou com consolo e deu à luz com alegria o Salvador. Lançando gérmenes, ela brotará copiosamente, e exultará de alegria e de louvores (Is 35,2). A segunda pena foi contra o varão: comeria o pão com o suor do rosto. A Bem-aventurada Virgem foi poupada disso também, pois, como diz o Apóstolo, as virgens estão livres dos cuidados deste mundo e se dedicam apenas a Deus (cf. I Cor 7,34). A terceira era comum aos homens e mulheres: retornariam ao pó. E a Bem-aventurada Virgem também foi poupada dessa pena, pois foi assunta ao Céu com seu corpo. Acreditamos, com efeito, que ressuscitou logo após a morte, e foi levada aos céus 83. Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso, tu e a arca da tua santidade (Sl 131,8).


ARTIGO II

Bendita és tu entre as mulheres

Estava imune a toda maldição e, portanto, era bendita entre as mulheres, pois somente ela suprimiu a maldição, trouxe a bênção e abriu a porta do Paraíso. Por isso lhe convém o nome Maria, que significa Estrela do Mar, porque, assim como os navegantes são guiados ao porto pela estrela do mar, assim os cristãos são guiados à glória por Maria. 


ARTIGO III

Bendito é o fruto do teu ventre.

O pecador às vezes busca algo que não pode alcançar, mas o justo o alcança. Os bens do pecador estão reservados para o justo (Pr 13,22). Assim, Eva procurou o fruto, mas nele não encontrou o que desejava; a Bem-aventurada Virgem, no entanto, encontrou em seu fruto tudo o que Eva desejara. Eva desejou três coisas no fruto.

PRIMEIRO, o que o Diabo falsamente lhe prometera: que seriam como deuses, conhecendo o bem e o mal. Sereis, disse o mentiroso, como deuses (Gn 3,5). E mentiu, uma vez que é mentiroso e pai da mentira, pois Eva, por comer do fruto, não se tornou semelhante a Deus, mas dessemelhante: quando pecou, afastou-se de Deus, seu Salvador, razão por que foi expulsa do Paraíso. Mas isso a Bem-aventurada Virgem e todos os cristãos encontram, no fruto do seu ventre, aquilo que Eva buscou, porque por Cristo nos unimos e nos assemelhamos a Deus. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é (I Jo 3,2).

SEGUNDO, Eva desejava deleitar-se no fruto, porque era bom para comer; mas nele não encontrou deleite, pois imediatamente percebeu que estava nua e sentiu dor. Mas no fruto da Virgem encontramos doçura e salvação. O que come a minha carne (...) tem a vida eterna (Jo 6,55).

TERCEIRO, o fruto de Eva era belo à vista; mas mais belo é o fruto da Virgem, que os anjos desejam contemplar. Ultrapassa em formosura os filhos dos homens (Sl 44,3), pois é o esplendor da glória do Pai. 

Eva não pôde encontrar no fruto aquilo que também nenhum pecador encontra em seus pecados. Portanto, aquilo que desejamos, busquemo-lo no fruto da Virgem. Este fruto é bendito de Deus, porque Ele de tal modo o encheu com toda a graça que vem até nós fazendo-Lhe reverência: Bendito Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençou com toda a bênção espiritual do céu em Cristo (Ef 1,3); é bendito dos anjos: Bênção, claridade, sabedoria, ação de graças, honra, virtude e fortaleza ao nosso Deus (Ap 7,12); e dos homens: Toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai (Fl 2,11). Bendito o que vem em nome do Senhor (Sl 117,26). Assim, pois, é bendita a Virgem; mas ainda mais bendito é o seu fruto. 84


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78. Conforme o dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX em 1854 na Bula Ineffabilis Deus (DS 2803): "Por uma graça e favor singular de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição".

79. Cf. cap. 36,42.

80. Cf. Ibid., cap. 19, 21.

81. De B.M. virginitate, Libellus epistolaris, cap. 2. 

82. O triclínio era, entre os antigos romanos, uma sala de refeições guarnecida de três leitos ou canapés (em grego: kliné), dispostos em torno de uma mesa. (N.E.).

83. Conforme o dogma da Assunção de Nossa Senhora, proclamado pelo Papa Pio XII em 1950 na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus (DS 3903): "A imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".


Catequeses de Santo Tomás de Aquino, Editora Minha Biblioteca Católica, 2023. pág 139-148. 


sábado, 17 de maio de 2025

Nossa Senhora da Escada





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Deus abençoe por Maria!


 Nossa Senhora da (Conceição) da Escada 

Lisboa - Portugal

A remota tradição da existência deste título é anterior à conquista de Lisboa. Chamaram-lhe primeiro da Corredoura, nome da antiquíssima ermida gótica ao norte do Rocio, e depois, no reinado de D. Afonso II, Nossa Senhora da Conceição da Escada, ou, abreviando, Nossa Senhora da Escada

Edificado o convento de S. Domingos, no reinado de D. Sancho II, a ermida ficou junto da nova igreja. Foi o povo quem deu a essa imagem de Nossa Senhora o título de - da Escada, aludindo aos 31 degraus que dava acesso ao seu Santuário. 

Junto da sua ermida buscavam remanso os pescadores, amarrando os seus barcos aos argolões de ferro chumbados em pilares de cantaria lavrada, e, ao descerem o esteiro do tejo, de gorros sobraçados e de mãos erguidas, pediam-lhe que lhes protegesse as redes. Tão querida e popular foi, que, pelo testemunho de Frei Luís de Souza, todas as procissões que a cidade ordenava, ou para pedir a Deus remédio, ou para necessidades públicas, ou para agradecer mercês recebidas, a essa ermida se dirigiam. 

No reinado de D. Afonso III mais se avigorou esse culto. Gente do mar e da terra procurava-a em romarias, e muitos vinham de longe em batéis enramados, levando-lhe o cumprimento de votos e promessas.

D. Diniz rendeu-lhe preito, dizendo-nos o mesmo historiador que, desde aquela época, uma procissão de brandões acesos se organizavam todos os anos.

No reinado de D. Fernando foi restaurado o seu pequeno Santuário. 

Chegara a época solene e decisiva da sucessão, hora dolorosíssima para o povo português. Campos e várzeas portuguesas eram taladas pela avidez castelhana, avançando para o festim de uma conquista que parecia fácil; porém mais uma vez desceu sobre Portugal o olhar misericordioso de Deus, e o Condestável e D. João lançaram-se no choque tremendo e rápido da batalha de Aljubarrota. 

Quando, no outro dia, um cativo dos castelhanos confirmou a notícia da vitória alcançada, o povo em massa, gente de todas as classes, caminhou descalço para o seu altar. 

Cumprindo o povo os votos que fizera - de três procissões anuais, uma delas no dia 1º de maio, dirigia-se à sua ermida, e as casas punham-se em festa. D. João I restaurou-lhe a ermida. Enfim, todos os monarcas foram devotos de Nossa Senhora da Escada

Em 1531 um terremoto abateu-lhe a ermida, porém a imagem ficou ilesa no seu altar. 

D. João III, reconstruindo Lisboa, logo determinou fosse a ermida a primeira obra a reconstruir; porém, novamente destruída pelos dominadores, a imagem foi salva, tendo ido para a casa dos Franciscanos da Terceira Ordem, onde ficou numa ermidinha; mas em 1505 levantou-se o convento, e, como a imagem tinha o título de - da Escada, e também para ocultá-la à impiedade, colocaram-na no Oratório de uma escadaria que dos claustros dava passagem para as tribunas da capela-mor. 

Na manhã de 1º de novembro de 1755 o seu pequeno refúgio foi novamente abalado pelo grande terremoto que destruiu parte da cidade. O convento e a igreja tornaram-se ruínas; só uma escadaria ficou intacta, mostrando a imagem no pequeno Oratório. 

Acolheram-na almas piedosas, sendo depois levada para a igreja paroquial de Nossa Senhora das Mêrces, onde é venerada, pois o seu culto afervorou-se novamente, fundando-se em 1761 a sua Irmandade. 

(Esta notícia histórica foi-me também enviada de Portugal.)

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Edésia Aducci - Maria e seus gloriosos títulos.

Fonte da imagem: https://www.a12.com/academia/titulos-de-nossa-senhora?s=nossa-senhora-da-conceicao-da-escada

Nossa Senhora da Guarda







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Deus abençoe por Maria!


Nossa Senhora da Guarda 

Marselha - França

Um jovem sacerdote de Marselha construiu em 1214 no morro da Guarda, com o consentimento do Abade de S. Vitor, a cuja Abadia pertencia o morro, a primeira capela (dedicada a Nossa Senhora), que ficou sempre incorporada à Abadia. 

O culto desenvolveu-se rapidamente nesta capela, o que se prova pelas muitas instituições e irmandades de Nossa Senhora da Guarda, obtendo assim Nossa Senhora em novo título, tirado do nome do morro em que foi construída a capela. 

Estando a primitiva capela em ruína, começaram em 1477 a construção da segunda, em existiu até o século XIX. A imagem mais antiga, que havia na primeira capela, tinha o título de Nossa Senhora Morena (Notre Dame la Brune), por ser de cor escura. 

Na revolução de 1794 desapareceu, assim como outra que era venerada ao mesmo tempo, e também milagrosa, denominada "A Virgem do Ostensório", porque Nossa Senhora, em vez do Menino Jesus, tinha na mão um ostensório. 

Depois da revolução, foi a antiga capela reaberta ao culto em 1807, tendo sido a nova imagem levada em solene procissão, do convento de Picpus para a montanha santa, indo descalços todos os fiéis que acompanharam a procissão. 

Êste lugar de peregrinações foi em 1837 entregue aos Padres Oblatos, que construíram a grande Basílica em estilo romano-bizantino, a qual foi consagrada em 1864. 

A colossal estátua de Nossa Senhora colocada na torre da Basílica saúda, como se fora o símbolo da paz e da verdade, os cristãos que combatem o bom combate por terras e mares afora. 




Nossa Senhora da Guarda conserva até os dias de hoje a sua primitiva glória e celebridade, pois de seiscentos a setecentos mil peregrinos de todos os países da Europa a visitam anualmente, porém é visitada muito especialmente pelos marselheses, que consideram a Guarda o seu Santuário, e mais ainda o veneram os navegantes, que hoje, como outrora, lhe oferecem miniaturas de navios, desde o mais antigo barco a vela até o mais moderno transatlântico, para que sejam protegidos em sua perigosa profissão. 

Até o século XVIII costumavam os navios que regressavam à pátria, assim como todos os que estavam no pôrto, saudar Nossa Senhora com um tiro de canhão, enquanto os marinheiros se ajoelhavam no convés e cantavam a "Salve Rainha". 

Ainda hoje, muitos marinheiros, quando vão empreender uma longa viagem dirigem-se antes ao Santuário de Nossa Senhora da Guarda, para se despedirem e pedirem a sua proteção.

Inúmeros ex-votos, placas de mármore com inscrições, corações de pratas e velas sem número, além dos naviozinhos acima citados, atestam a confiança que depositavam e depositam ainda hoje na imagem milagrosa de Nossa Senhora da Guarda. 

O Santuário eleva-se no cimo de uma rocha, no morro da Guarda, de onde se descortina o belo e rico panorama da baía de Marselha.

(Versão resumida do livro "Wallfartsorte Europas".)

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