quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Santíssimo Nome de Maria


 12 de setembro




1- O quanto é doce na vida e na morte o nome de Maria 

O grande nome de Maria, que foi dado à divina Mãe, não foi encontrado na terra nem inventado pela mente ou arbítrio dos homens, como acontece com todos os outros nomes que se dão; não, ele desceu dos céus e foi imposto por prescrição divina, como declara S. Jerônimo, S. Epifânio, S. Antonino e outros. "Do tesouro da divindade, ó Maria, proveio o vosso excelso e admirável nome", fala Ricardo de S. Lourenço, "pois a SS. Trindade inteira", segue dizendo o mesmo autor, "deu a vós um tal nome, superior a todo nome depois do nome do vosso Filho, e o dotou de tanta majestade e poder, que à enunciação do vosso nome quis ele que por reverência prostados todos o venerassem no céu, na terra e no inferno.¹ Mas dentre outros méritos que o Senhor deu ao nome de Maria, vejamos agora como o fez doce aos servos desta Santíssima Senhora, tanto em vida como em morte. 

E em primeiro lugar, para falar do período da vida, dizia Honório, santo anacoreta, o nome de Maria é repleto de todas as doçuras divinas. De modo que o glorioso S. Antônio de Pádua reconhecia no nome de Maria as mesmas doçuras que S. Bernardo contemplava no nome de Jesus: "O nome desta Virgem Mãe é júbilo ao coração, mel à boca, melodia aos ouvidos dos seus devotos". Narra-se do venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, como lemos na sua vida, que ele ao nomear Maria experimentava uma doçura sensível tamanha que chegava a lamber os lábios. Lê-se de modo parecido que certa mulher de Colônia disse ao bispo Marsílio que sempre que ela pronunciava o nome de Maria, sentia na boca um sabor mais doce que o mel. O que vindo a praticar também Marsílio saboreou a mesma doçura. Deduz-se do Cântico dos Cânticos que na Assunção da Virgem os anjos três vezes pediram o seu nome: Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça? (Ct 3,6) Em outro trecho: Quem é esta que surge como a aurora? (Ct 6,10). E por fim: Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? (Ct 8,5). Ora, pergunta Ricardo de S. Lourenço porque os anjos demandam tantas vezes o nome desta Rainha, e responde: "mesmo aos anjos era tão doce ouvir soar o nome de Maria que é por isso que o pedem tantas vezes".

Mas eu não falo aqui desta doçura sensível, pois esta não se concede habitualmente a todos; falo da doçura salutar de conforto, amor, alegria, confiança e fortaleza que dá habitualmente este nome de Maria aos que o proferem com devoção. Falando a este respeito o abade Francone diz que, depois do sacrossanto nome de Jesus, o nome de Maria é tão abundante em bens que nenhum outro, ao pronunciá-lo no céu e na terra, enche as almas devotas de tanta graça, esperança e doçura. Pois, segue a dizer, o nome de Maria contém em si alguma coisa de admirável, de doce e de divino, que quando se reúne com os corações amigos sopra neles uma fragrância de santa doçura. E é tão maravilhoso este grande nome, conclui, que, por mil vezes que o ouçam os amantes de Maria, sempre o escutam como pela primeira vez, experimentando sempre a mesma doçura em ouvi-lo chamar. 

Falando igualmente desta doçura, o Beato Henrique de Suso dizia que ao nomear Maria sentia-se de tal modo elevar em confiança e com tal júbilo abrasar em amor que entre o gozo e as lágrimas em meio às quais proferia o amado nome, desejava que desde o peito o coração se lhe saltasse para fora da boca, enquanto afirmava que este dulcíssimo nome, como um favo de mel, derretia no fundo da alma. Por isso então exclamava: "Ó suavíssimo nome! Ó Maria, como sereis vós em pessoa, se o vosso nome por si já é tão amável e gracioso?"

Por este motivo voltado à sua boa Mãe, o enamorado S. Bernardo com ternura lhe diz: "Ó grande, ó pia, ó digna de todo louvor, SS. Virgem Maria, o vosso nome é tão doce e amável que não pode ser nomeado sem que incendeies de amor para convosco e com Deus quem o nomeia; ou ainda, basta apenas que ele se apresente ao pensamento dos vossos amantes para incitá-los ainda mais a vos amar e para consolá-vos!".¹ "E se as riquezas consolam os pobres, pois que os aliviam da sua miséria, oh, quanto melhor consola a nós, miseráveis" - fala Ricardo de S. Lourenço - "o vosso nome, ó Maria, uma vez que, muito mais do que todas as riquezas da terra, ele nos alivia das angústias da presente vida".²

Em suma, o vosso nome, ó Mãe de Deus, é todo cheio de graças e bênçãos divinas, como diz S. Metódio.³ De tal modo que, como declara S. Boaventura, o vosso nome não pode ser proferido sem que traga alguma graça a quem devotamente o nomeia. Qualquer coração, por duro que seja, por desconfiado que seja, diz o Idiota, se este vos nomeia, ó benigníssima Virgem, é tamanha a virtude do vosso nome que ele maravilhosamente amolecerá a sua dureza, já que sois vós a que confortais os pecadores com a esperança de perdão e de graça.4 O vosso dulcíssimo nome, no dizer de S. Ambrósio, é um unguento cheiroso que exala odor de graça divina.5 Roga o santo à divina Mãe dizendo: "Desça ao íntimo das nossas almas este unguento de salvação. Quer dizer: fazei, Senhora, que nos recordemos com frequência de repetir o vosso nome com amor e confiança, pois assim nomear-vos é sinal ou de já possuir a divina graça, ou de haver de recuperá-la em breve".

"Sim, pois recordar-se do vosso nome, ó Maria, consola os aflitos, devolve ao caminho de salvação os que estão fora dele, e conforta os pecadores a fim de que não se entreguem ao desespero", assim discorre Ludolfo da Saxônia.¹ E diz o Pe. Pelbarto que, tal como Jesus Cristo por suas cinco chagas preparou ao mundo o remédio dos seus males, assim igualmente Maria por seu santíssimo nome, que é composto de cinco letras, confere todos os dias o perdão aos pecadores. 




Por isso o santo nome de Maria no Cântico dos Cânticos é equiparado ao azeite: "Tal como o azeite sara os enfermos", comenta o Beato Alano, "verte odor e acende chamas, assim o nome de Maria, sara os pecadores reanima os corações e os incendeia de amor divino". Por isso Ricardo de S. Lourenço encoraja os pecadores a recorrerem a este grande nome, porque ele sozinho bastará para curá-los de todos os seus males, dizendo que não há enfermidade tão maligna que não ceda imediatamente à força deste nome.²

Por outro lado, os demônios, afirma Tomás de Kempis, temem de tal maneira a Rainha do céu que ao ouvir pronunciar o seu grande nome fogem de quem o pronuncia como de um fogo a queimá-los.

A mesma Santíssima Virgem revelou à S. Brígida que não há nesta vida pecador tão frio no amor divino que, invocando ele o seu santo nome com o propósito de converter-se, o demônio dele não se afaste imediatamente. E o confirmou ainda outra vez dizendo-lhe que todos os demônios de tal maneira têm respeito e medo por seu nome que ao ouvi-lo soar imediatamente soltam as almas das garras com que as mantinham presas.

E tal como se afastam os anjos rebeldes dos pecadores que invocam o nome de Maria, assim por sua vez, disse a mesma Senhora nossa à S. Brígida, os anjos bons se aproximam ainda mais das almas justas que devotamente o pronunciam.

E declara S. Germano que, tal como respirar é sinal de vida, assim pronunciar frequentemente o nome de Maria é sinal ou de já viver na divina graça ou de que em breve nela viverá; pois este poderoso nome tem a virtude de obter o auxílio e a vida a quem devotamente o invoca.¹ Em suma, este admirável nome, acrescenta Ricardo de S. Lourenço, é como uma torre fortíssima, na qual o pecador, buscando abrigo, será livrado da morte, já que por esta torre celestial são com toda segurança defendidos e salvos os mais perdidos pecadores.²

É porém uma torre de fortaleza que não só liberta os pecadores do castigo, mas também defende os justos das investidas do inferno. Assim diz o mesmo Ricardo, afirmando que depois do nome de Jesus não há nome em que se encontre tamanho auxílio, que confira aos homens tanta salvação, como o nome de Maria. Em tudo o que é lugar sabe-se especialmente bem, que o seu grande nome dá força para vencer as tentações da castidade. Reflete o mesmo autor sobre as palavras de S. Lucas, E o nome da Virgem era Maria (Lc 1,27), que estes dois nomes, Maria e Virgem, são pronunciados juntos pelo evangelista para que entendamos que o nome dessa puríssima Virgenzinha não deve estar jamais separado da castidade. Por isso diz S. Pedro Crisólogo que o nome de Maria é indício de castidade, querendo com isso dizer que quem nas dúvidas quanto o haver pecado nas tentações à pureza se lembra de haver invocado o nome de Maria tem nisto um indício seguro de que não ofendeu a castidade. 

De modo que nos valhamos sempre do belo conselho de S. Bernardo, que diz: "Diante do perigo de perder a divina graça, pensemos em Maria, invoquemos Maria juntamente com o nome de Jesus, pois estes nomes vão sempre juntos. Não partam jamais este dois dulcíssimos e poderosíssimos nome nem do nosso coração nem da nossa boca, pois estes dois grandiosos nomes nos darão força para não cair e para vencer sempre todas as tentações." São muito belas as graças prometidas por Jesus Cristo aos devotos dos nomes de Maria, como ele mesmo, falando com sua Santa Mãe, deu a entender à S. Brígida, revelando-lhe que quem invocar o nome de Maria com confiança e propósito de corrigir-se receberá três graças singulares: uma perfeita dor dos pecados, o desagravo deles e a fortaleza para chegar à perfeição, e mais, enfim, a glória do paraíso. "Pois", acrescenta o divino Salvador, "são para mim tão doce e caras, ó minha Mãe, as tuas palavras, que não posso negar-te nada do que me peças".

Chega por fim, a dizer S. Efrém que o nome de Maria é a chave da porta do céu para quem o invoca com devoção.¹ E por isso tem razão S. Boaventura em chamar Maria de salvação de todos os que a invocam, como se fosse o mesmo invocar o nome de Maria e obter a salvação eterna; ao passo que o Idiota afirma que a invocação deste santo e doce nome leva à conquista de uma graça superabundante nesta vida e uma glória sublime na outra.² "Se buscais, portanto, ó irmãos", conclui Tomás de Kempis, "ser consolados em todo sofrimento, recorrei a Maria, invocai Maria, obsequiai a Maria, encomendai-vos a Maria. Com Maria alegrai-vos, com Maria chorai, com Maria caminhai, com Maria buscai Jesus; com Jesus e Maria, enfim, ansiai por viver e morrer". "Assim fazendo", diz ele, "sempre avançareis na via do Senhor, pois Maria de bom grado rogará por vós, e o Filho com segurança atenderá a Mãe". 

Assaz doce, portanto, é em vida para os devotos de Maria o seu santíssimo nome por causa das sumas graças que ele lhes obtém, como já vimos. Porém mais doce ainda se lhes mostrará na hora da morte por causa da santa e doce morte que lhes há de impretar. O Pe. Sartório Caputo da Companhia de Jesus exortava a todos que estivessem a assistir algum morimbundo que lhes pronunciassem frequentemente o nome de Maria, dizendo que este nome de vida e de esperança, apenas proferindo na hora da morte, basta para debandar os inimigos e confortar os moribundos em todas as suas angústias. Do mesmo modo S. Camilo de Lelis deixou fortemente recomendado aos seus religiosos que aos moribundos de lembrassem com frequência de invocar o nome de Maria e Jesus, como já ele aplicara sempre aos outros; mas com aidna mais doçura o aplicou mais tarde a si mesmo à beira da sua morte, na qual, como se narra na sua Vida, pronunciava com tanta ternura os seus amados nomes de Jesus e de Maria que incendiava de amor até mesmo quem o escutava. E finalmente, com os olhos fixos às suas adoradas imagens, com os braços em cruz, viu-se o santo expirar com o semblante e a paz do paraíso, proferindo as suas últimas palavras com a invocação dos dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria. Esta breve oração de invocar os sacrossantos nomes de Jesus e de Maria, diz Tomás de Kempis que é tão fácil de guardar na memória quanto amável de contemplar, e poderosa para proteger quem a emprega de todos os inimigos da nossa salvação.

"Beato aquele", dizia S. Boaventura "que ama o teu doce nome, ó Mãe de Deus! É tão glorioso e admirável o vosso nome que quem se lembre de invocá-lo à beira da morte não teme investida nenhuma dos inimigos."¹

Oh, feliz de quem tivesse a sorte de morrer como morreu o Pe. F. Fulgêncio de Ascoli, capuchinho, que expirou cantando: "Ó Maria, a mais bela das que há, quero andar em tua companhia". Ou ainda como morreu o Beato Henrique cisterciense, de quem se conta nos Anais da Ordem (An. 1109) que terminou a vida articulando o nome de Maria. 

Roguemos, pois, meu devoto leitor, roguemos a Deus para que nos conceda esta graça, que a última palavra da nossa língua na hora da morte seja o nome de Maria, como desejava e rogava a S. Germano.² Oh doce morte, morte segura, que é acompanhada e protegida por tal nome de salvação, que Deus não concede invocar na hora da morte senão àqueles que quer salvos!

Ó minha doce Senhora e Mãe, eu vos amo muito, e porque vos amo tanto, também amo o vosso santo nome. Proponho-me e espero com vossa ajuda sempre invocá-lo na vida e na morte. Pela glória, portanto, do vosso nome - concluamos com a terna prece de S. Boaventura - quando a minha alma partir deste mundo, vinde-lhe vós ao encontro, Senhora bendita, e tomai-a nos vossos braços. Não nos negueis, ó Maria - seguimos rogando com o santo - a vir consolá-la então com a vossa presença. Sede vós a sua escada e o seu caminho ao paraíso. Impetrai-lhe vós a graça do perdão e o repouso eterno. E o santo enfim termina dizendo: "Ó Maria, advogada nossa, a vós toca defender os vossos devotos e assumir as suas causas perante o tribunal de Jesus Cristo".


EXEMPLO

Conta o Pe. Rho nos seus Sábados e o Pe. Lireo no seu Triságio Mariano que na Guéldria, por volta de 1465, uma donzela de nome Maria foi mandada um dia pelo seu tio ao mercado da cidade de Nimega para comprar algumas coisas, com a ordem de que passasse a noite em casa de uma outra tia que ali morava. Obedeceu a senhorita, porém ao entardecer, indo encontrar a tia, foi por ela enxotada muito grosseiramente, de modo que se pôs de volta a caminho de casa; chegada, porém, a noite no meio do caminho, encolerizou-se a moça e chamou o demônio em voz alta. Eis que este imediatamente lhe apareceu sob a forma de um homem e prometeu ajudá-la contanto que fizesse uma coisa. "Farei tudo", respondeu a desgraçada. "Não quero outra coisa", disse o inimigo, "senão que de hoje em diante não faças mais o sinal da cruz e mudes de nome". Respondeu ela: "Quanto ao sinal da cruz não o farei mais; mas o meu nome, Maria, é muito caro a mim, não quero mudá-lo". "Então não te ajudo", disse o demônio. Finalmente, depois de muita discussão, assentaram em que ela se chamasse com a primeira letra do nome de Maria, isto é Eme. E com isso mandaram-se para Antuérpia; e ali ficou a infeliz seis anos com tão mau companheiro, vivendo uma vida perversa para escândalo de todos.

Um dia ela disse ao demônio que desejava rever a pátria; o inimigo recusava, mas enfim foi forçado a consentir. Chegando os dois na cidade de Nimega, viram que ali se encenava uma ópera sobre a vida de Maria SS. Diante de tal visão a pobre Eme, pela pouca devoção que lhe restava à Mãe de Deus, começou a chorar. "O que estamos fazendo aqui?", disse-lhe então o companheiro. "Por acaso vamos encenar aqui outra comédia?". Pegou nela para afastá-la daquele local, mas ela resistia; por isso ele, enfurecido, vendo que a estava perdendo, suspende-a no ar e a faz cair no meio do teatro. Então a pobre coitada contou o ocorrido. Foi confessar-se com o pároco, mas o pároco a remeteu ao bispo de Colônia, e o bispo ao Papa; o qual, ouvida a confissão, impôs-lhe como penitência levar ao corpo o tempo todo três aros de ferro, um ao pescoço, e dois aos braços. Obedeceu a penitente, e chegada a Mastrique, ali se encerrou num mosteiro de arrependidas, onde viveu quatorze anos em árdua penitência; e, certa manhã, levantando-se da cama, viu rompido e soltos os três aros, e dois anos depois morreu com fama de santidade, com o desejo de ser sepultada com aqueles três aros que de escrava do inferno a transformaram em feliz escrava da sua libertadora. 


ORAÇÃO

Ó grande Mãe de Deus e minha mãe, Maria, é verdade que não sou digno de nomear-vos; mas vós, que me amais e desejais a minha salvação, vós me haveis de conceder, embora a minha língua seja imunda, que eu possa sempre invocar em meu socorro o vosso santíssimo e poderosíssimo nome, já que o vosso nome é o auxílio de quem vive e a salvação de quem morre.

Ah, Maria puríssima, Maria dulcíssima, ai, fazei que o vosso nome seja de hoje em diante o alento de minha vida. Senhora, não tardeis a socorrer-me sempre que eu vos chamar, já que em todas as tentações que me travarem combater, em todas as necessidades que me sobrevierem, eu não quero deixar jamais de vos chamar, repetindo sempre Maria, Maria. Assim espero fazer na vida, assim espero particularmente na hora da morte, para depois dela vir a louvar eternamente no céu o vosso amado nome: O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria [Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria]. Ah, Maria, amabilíssima Maria, qual conforto, qual doçura, qual confiança, qual ternura sente a minha alma apenas em nomear-vos, apenas em pensar em vós! Agradeço o meu Deus e Senhor, que vos deu para o meu bem este nome tão doce, tão amável e tão poderoso. 

Mas, Senhora, não me contento somente em nomear-vos; quero nomear-vos, ademais, por amor; quero que o amor me lembre de chamar-vos a toda hora, de modo que eu possa ainda exclamar, com S. Anselmo: "Ó nome da Mãe de Deus, vós sois o meu amor". 

Ó minha cara Maria, ó meu amado Jesus, vivam sempre, pois, no meu e em todos os corações os vossos dulcíssimos nomes. Esqueça a minha mente todos os outros nomes para lembrar apenas e para sempre invocar os vossos adorados nomes.

Ah, Jesus, meu Redentor, e minha mãe Maria, quando chegar a hora da minha morte, em que a minha alma, expirando, haverá de partir desta vida, ah, pelos vossos méritos concedei então a graça de proferir minhas últimas palavras dizendo e repetindo: "Amo-vos, Jesus e Maria; Jesus e Maria, dou-vos o coração e a minha alma".


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**Abade de Celles, denominado o Idiota.

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, Ed. Minha Biblioteca Católica, pág.191-200.

 



sábado, 17 de agosto de 2024

Esta devoção é um meio admirável de perseverança




 Artigo VIII


173. Oitavo motivo. Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos induz a esta devoção à Santíssima Virgem, é constituir um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Como se explica que a maior parte das conversões dos pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham? Esta infelicidade provém, como já o demonstrei (cf. n. 87-89), de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e crê-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e méritos. 

Por esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos; tornamo-la por depositária universal de todos os bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, no seu poder que nos apoiamos, em sua misericórdia e caridade que nos baseamos, para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-lhe como um bom filho a sua mãe: "Depositum custodi" (1Tm 6,20), isto é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa intercessão do que mereço, e minha funesta experiência me ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em mim: "adolescentulus sum ergo et contemptus" (Sl 118,141); recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-mo por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada penderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos. 

174. É o que diz São Bernardo para inspirar-nos esta prática: "Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais; e, sendo-vos propícia. chegareis ao porto de salvação: Ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis"¹. O mesmo parece dizer São Boaventura em termos ainda mais claros: A Santíssima Virgem, diz ele, está não só detida na plenitude dos santos, mas também guarda e detém os santos na plenitude para que esta não diminua; impede que suas virtudes se dissipem, que seus méritos pereçam, que se percam suas graças, que os prejudiquem os demônios, impede, por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores: "Virgo non solum in plenitudine sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne plenitudo minuatur; detinet virtutes ne fugiant;detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant; detinet daemones ne noceant; detinet Filium ne peccatores percutiat"². 

175. A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, por sua fidelidade a Deus, repara as perdas que Eva infiel causou por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso um santo a compara à âncora firme, porque os retém e impede de soçobrar no mar agitado deste mundo, onde tantas pessoas naufragam por não se firmarem nesta âncora inabalável. "Prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança, como a uma âncora firme: Animas ad spem tuam sicut ad firmam anchoram alligamus"³. Foi a ela que os santos mais se agarraram, e prenderam os outros, com o fito de perseverar na virtude. Felizes, mil vezes felizes os cristãos que agora se apegam fiel e inteiramente a ela, como a uma âncora firme. Os arrancos da tempestade deste mundo não os farão submergir, nem perder os tesouros celestes. Bem-aventurados os que nela buscam abrigo como na arca de Noé. As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não lhes farão mal, pois: "Qui operantur in me non peccabunt" - os que se guiam por mim não pecarão (Eclo 24,30), diz ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos infiéis da desgraçada Eva que se apegam à Mãe e Virgem fiel, que permanecem sempre fiéis e que não faltam jamais à sua palavra: "Fidelis permanet, se ipsam negare non potest"4, e que ama aqueles que a amam: "Ego diligentes me diligo" (Pr 8,17), não só de um amor afetivo, mas de um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de recuar na virtude, ou de cair no caminho, perdendo a graça de seu Filho.

176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo que lhe entregamos em depósito; e, desde que ela o recebeu como depositária, é obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a guadá-lo para nós; do mesmo modo que uma pessoa, a quem eu confiasse mil escudos, seria obrigada a guardá-los para mim, de tal modo que se, por sua negligência, meus mil escudos se perdessem, seria ela, com justiça, a responsável. Mas isto não acontece, pois Maria, a Virgem fiel, jamais deixaria se perder, por sua negligência, o que lhe tivéssemos confiado. Antes passarão o céu e a terra do que ela ser negligente e infiel para com aqueles que dela se fiam.


***

177. Pobres filhos de Maria! extrema é vossa fraqueza, grande, vossa inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais devotos. 

Não deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis a água pura e cristalina da fonte em vossos vasos manchados e infeccionados pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja, mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis. 

178. Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

Depositai, derramais no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: "Vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis". Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa, com todas as suas perfeições, este vaso tornou-se todo espiritual, e a morada espiritual das almas mais espirituais. Tornou-se honorável, e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em doçura, em graças e virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como a torre de Davi, puro como uma torre de marfim. 

179. Oh! quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que nela confia em tudo e por tudo. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele. Pode dizer afoitamente com David: "Haec facta est mihi: Maria foi feita para mim" (Sl 118,56); ou com o discípulo amado: "Accepi eam in mea" (Jo 19,27) - Eu a tomei como toda a minha riqueza; ou com o próprio Jesus Cristo: "Omnia mea tua sunt, et omnia tua mea sunt: Todas as minhas coisas são suas, e as tuas são minhas" (Jo 17,10). 


***

180. Se algum crítico, ao ler isto, achar que falo exageradamente e por excesso de devoção, infeliz dele, pois não me compreende, ou por ser um homem carnal que não aprecia as coisas do espírito, ou por ser do mundo que não pode receber o Espírito Santo, ou, ainda, por ser orgulhoso e crítico, que condena e despreza o que não entende. As almas, porém, que não nasceram do sangue nem da vontade da carne (Jo 1,13) mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo. 

181. Digo, entretanto, para uns e outros, voltando ao assunto interrompido, que Maria Santíssima, porque é a mais honesta e a mais generosa de todas as puras criaturas, não se deixa vencer jamais em amor e liberalidade. E por um ovo, diz um santo homem ela dá um boi, isto é, por pouco que lhe demos ela dá mais do que recebeu de Deus; e, por conseguinte, se uma alma se lhe entrega sem reserva, ela se dá a esta alma também sem reserva, se nela depositamos toda a nossa confiança, trabalhando de nosso lado em adquirir as virtudes e domar as paixões. 

182. Que os fiéis servidores de Maria digam, pois, ousadamente com São João Damasceno: "Tendo confiança em vós, ó Mãe de Deus, serei salvo; tendo vossa proteção, não temerei; com vosso auxílio, combaterei os meus inimigos e os porei em fuga; pois vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá a quem quer salvar: Spem tuam habens, o Deipara, servavbor; defensionem tuam possidens, non timebo; persequar inimicos meos et in fugam vertam, habens protectionem tuam et auxilium tuum; nam tibi devotum esse est arma quaedam salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri" (Sermo de Annunc). 

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1. Homilia 2 super "Missus est" n. 17.

2. Speculum B.V., lect. VII, §6.

3. SÃO JOÃO DAMASCENO. "Sermo 1 in Dormitione B.M.V.".

4. Aplicação à Santíssima Virgem das palavras de São Paulo: 2 Tm 2,13.

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

domingo, 28 de julho de 2024

Regras de vida cristã¹

                                                                         Livro: A Oração 

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)
 
 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


I. De manhã, ao se levantar, fazer os atos indicados posteriormente. Todos os dias fazer meia hora de oração mental e pelo menos um quarto de hora de leitura de algum livro espiritual. Participar da Missa. Fazer a visita do Santíssimo Sacramento e à Mãe de Deus. Rezar o Rosário. À noite, fazer o exame de consciência, ato de arrependimento, os atos cristãos e rezar a Ladainha de Nossa Senhora.

II.  Confessar-se e comungar pelo menos semanalmente e até mais vezes, se o Diretor espiritual o permitir.

III. Escolher um bom confessor, instruído e piedoso; seguir suas orientações tanto no tocante aos atos de devoção, como nas questões importantes; não abandoná-lo sem motivo grave. 

IV. Evitar a ociosidade, as más companhias, as conversas inconvenientes e, principalmente, as ocasiões de pecado, especialmente quando há perigo para a castidade.

V. Nas tentações, principalmente nas impuras, fazer logo o Sinal da Cruz e invocar os nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação.

VI. Se cometer algum pecado, arrepender-se logo e resolver emendar-se. Se o pecado for grave, confessar-se o quanto antes.

VII. Sempre que possível ouvir as pregações; pertencer a alguma irmandade ou grupo, ali procurando apenas a salvação eterna.

VIII. Para honrar a Maria Santíssima, jejuar nos sábados e na vigília de suas festas, fazendo ao mesmo tempo alguma outra mortificação corporal conforme o conselho do diretor espiritual. Fazer a novena para as festas de Maria, do Natal, de Pentecostes e do próprio padroeiro. 

Nas situações desagradáveis, doenças, perdas, perseguições, conformar-se com a vontade de Deus e ficar em paz, dizendo: "Assim Deus quer, assim seja!". 

Todos os anos fazer os Exercícios Espirituais em alguma casa religiosa ou algum lugar retirado. Ou, pelo menos, fazê-lo em casa mesmo, dedicando-se o mais possível à oração, às leituras espirituais e ao silêncio. Do mesmo modo fazer um dia de Retiro cada mês, evitando as conversas e recebendo a Eucaristia.  



Atos cristãos para cada dia


De manhã ao levantar-se, tendo feito o Sinal da Cruz, faça os seguintes atos de adoração, de amor, de agradecimento, de propósito e de súplica:

I. Meu Deus, eu vos adoro e vos amo com todo o meu ser.

II. Agradeço todos os vossos benefícios, especialmente o de me terdes conservado nesta noite.

III. Eu vos ofereço as minhas ações, os meus sofrimentos deste dia, em união com as ações e os sofrimentos de Jesus e de Maria, com a intenção de ganhar todas as indulgências que puder.

IV. Proponho-me fugir de todos os pecados, especialmente... (é bom fazer um propósito particular quanto ao defeito em que mais se cai). Nos contratempos quero conformar-me sempre à vossa vontade. Meu Jesus, guardai-me; Maria protegei-me sob vosso manto. Pai eterno, ajudai-me por amor de Jesus e de Maria. Meu Anjo da Guarda, meus Santos Padroeiros, acompanhai-me. Reze depois o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e três Ave-Marias em honra e pureza de Nossa Senhora. 

Ao começar um trabalho, estudo ou qualquer outra ocupação, diga: "Senhor, eu vos ofereço este meu esforço". Às refeições: "Meu Deus, seja tudo para a vossa glória. Abençoai-me para que não caia em nenhuma falta". Depois das refeições: "Agradeço, Senhor, o benefício que fizestes a quem vos ofendeu". Ao soar das horas: "Jesus, eu vos amo. Não permitais que me separe de vós". Nos contratempos: "Senhor, assim quisestes, assim também eu quero". Nas tentações repita frequentemente os nomes de Jesus e Maria. Tendo cometido alguma falta: "Senhor, eu me arrependo porque ofendi a vós, bondade infinita. Não quero fazê-lo novamente". Se houve pecado grave, confessar-se logo.

À noite, antes de se deitar, agradeça a Deus as graças recebidas; faça o exame de consciência, o ato de arrependimento e os atos do cristão. 


Modo prático de fazer oração mental

Como preparação, diga:

I. Meu Deus, creio que estais aqui presente. Eu vos adoro com todo o meu ser.

II. Senhor, mereceria estar agora no inferno; arrependo-me de vos haver ofendido; perdoai-me.

III. Pai Eterno, por amor de Jesus e de Maria, iluminai-me.

Depois, recomende-se a Maria Santíssima com uma Ave-Maria, recomende-se a São José, ao Anjo da Guarda, ao Santo Padroeiro.

Agora leia a Meditação; vá interrompendo a leitura sempre que encontrar uma passagem que tenha um significado maior para você. Faça atos de humildade, de agradecimento e, principalmente, de arrependimento e amor. Diga: "Senhor, fazei de mim o que quiserdes, ajudai-me a conhecer o que quereis de mim; quero fazer o que vos agrada". Ore muito, pedindo a Deus a perseverança, o amor, a luz, a força para fazer sempre a vontade divina, a graça de orar sempre.

Antes de terminar a oração, faça um propósito particular, de evitar alguma falha mais frequente. Termine com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Nunca deixe de recomendar a Deus as almas do Purgatório e os pecadores. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

 












sexta-feira, 19 de julho de 2024

A graça da oração é concedida a todos


 Livro: A Oração - Conclusão

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)
 
 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


 

 

Tirada do quarto capítulo da segunda parte da obra original

A graça da oração é concedida a todos

1. A ninguém falta o auxílio divino para a oração

Já que a oração é tão necessária à salvação, devemos ter por certo que nunca nos faltará o auxílio divino para o ato da oração, sem que para isso seja necessária nova graça especial. Na oração encontraremos todos os outros auxílios para a observância dos mandamentos e para a consecução da vida eterna. Nenhum condenado poderá desculpar-se com a falta dos auxílios indispensáveis. 


2. Deus quer a salvação de todos 

Por isso morreu por nós Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor. Deus concede a todos a sua graça e salvam-se todos os que lhe forem fiéis. Estamos todos obrigados a esperar firmemente que Deus nos dará a eterna salvação. Mas se não tivéssemos a certeza de que Deus dá a todos a graça de rezar sempre sem haver mister de uma graça particular, então, sem revelação especial, ninguém poderia ter a devida esperança de salvar-se. 


3. Deus ama os que nele confiam

A virtude da esperança é tão cara a Deus que Ele declara achar a sua complacência nos que confiam nele. "O Senhor se agradou sempre nos que esperam em sua misericórdia" (Sl 146,11). Promete a vitória sobre os inimigos, a perseverança na sua graça e a glória eterna a quem espera e porque espera. "Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei, protegê-lo-ei... livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei" (Sl 90,14-15). "O Senhor os salvará, porque esperam nele" (Sl 36,40). "Guardai-me, Senhor, porque esperei em vós" (Sl 15,1). "Ninguém que esperou no Senhor foi confundido" (Eclo 2,10).

Persuadamo-nos de que as palavras de Deus e as suas promessas têm a mais absoluta firmeza, pois é certo que "os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão" (Mt 24,35). Por isso São Bernardo diz que todo nosso mérito consiste em confiar plenamente em Deus. O motivo é porque muito honra a Deus a confiança que nele depositamos: "Invocai-me no dia da tribulação, livrar-vos-ei e honrar-me-eis" (Sl 49,15). Assim, o homem honra o poder, a misericórdia e fidelidade de Deus, porquanto crê que Deus pode e quer salvá-lo, e não pode faltar a sua promessa de salvar a quem nele confia. O profeta assegura-nos que, quanto maior for a nossa confiança, tanto maior será a misericórdia divina? "Fazei, Senhor, cair sobre nós a vossa misericórdia tanto quanto confiamos em vós" (Sl 32,22).


4. Deus nos ordenou a esperança

Por ser tão agradável a Deus esta virtude da esperança, Ele no-la quis impor por um grave preceito, como dizem comumente os teólogos e como consta de muitos textos da Sagrada Escritura: "Esperai nele todo o povo" (Sl 61,9). "Vós, os que temeis o Senhor, esperai nele" (Eclo 2,9). "Esperei sempre no vosso Deus" (Sl 25,5). "Esperai sempre na graça que vos é oferecida" (1 Pd 1,13).

Esta esperança da vida eterna deve ser firme e certa em nós, como já disse Santo Tomás: "A esperança é a expectação certa da bem-aventurança". Isto também declarou expressamente o santo Concílio de Trento, dizendo: "No auxílio de Deus todos devem pôr firmíssima confiança, porque, assim como Deus começou em nós a boa obra, Ele que dá a vontade e a execução, também levará ao fim, contanto que cooperemos com sua graça". E, já antes, o declarou São Paulo dizendo de si próprio: "Porque sei em quem confiei e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito" (2Tm 1,12).

Esta é a diferença que há entre a confiança do mundo e a confiança cristã. Para a esperança terrena, basta uma expectativa incerta e nem pode ser de outra maneira, porque sempre se pode duvidar se quem prometeu alguma coisa, mudou ou não a sua vontade de dar. Mas a esperança cristã, da parte de Deus, é certa, visto que Ele pode e quer salvar-nos e prometeu a salvação a quem observar a sua lei; prometeu, igualmente, aos que pedirem as graças necessárias para esse fim. 


5. Esperança e temor 

É verdade que a esperança vem sempre acompanhada do temor, como diz o Angélico. Porém, esse temor não tem sua fonte em Deus, mas em nós mesmos, porquanto podemos faltar sempre (não correspondendo como devemos) e pôr-lhe obstáculos com as nossas culpas. Por isso, com razão o Concílio Tridentino condenou o erro dos que negam o livre-arbítrio, querendo que cada homem tenha certeza infalível de sua perseverança e de sua salvação. Este erro foi condenado pelo Concílio Tridentino porque, como havíamos dito, para conseguirmos a vida eterna é necessária ainda a nossa cooperação, e esta cooperação é incerta, falível. Por isso, o Senhor quer que, de um lado, tenhamos sempre um santo temor de nós mesmos, para não cairmos na presunção de confiarmos em nós mesmos, e, doutro lado, exige que estejamos certos de sua boa vontade e de seu auxílio, sempre que pedirmos. 

Confiados no poder e na misericórdia de Deus, diz Santo Tomás, certo de que Deus pode e quer nossa salvação, devemos esperar dele certamente a vida eterna. "Do poder e da misericórdia de Deus, está convencido quem tiver fé."


6. Firme deve ser a razão por que esperamos 

Se, pois, deve ser firme a nossa confiança em Deus, consequentemente firme também deve ser o motivo de nossa esperança. Não sendo firme, mas duvidoso o fundamento da esperança, não poderíamos esperar e aguardar de Deus a salvação e os meios necessários para alcançá-la. São Paulo quer que esperemos com toda a certeza a nossa salvação: "Se perseverardes, fundados na fé, firmes e imovéis na esperança do Evangelho, que ouvistes" (Cl 1,23). E, em outro lugar, confirma dizendo que a nossa esperança deve ser imovél como uma âncora segura e firme, pois está fundada nas promessas divinas, que não podem enganar: "Desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até o fim, para tornar completa a vossa esperança... para que, por estas duas coisas infalíveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos uma grande consolação, nós que pomos o nosso refúgio em alcançar a esperança proposta, a qual temos como uma âncora firme e segura da alma" (Hb 6,11-19).

São Bernardo diz que a nossa esperança não pode ser incerta, pois que ela se apoia nas promessas divinas: "Não nos parece vã e duvidosa esta esperança, pois nos apoiamos nas promessas divinas". Em outro lugar, falando de si mesmo, diz: "Sobre três bases coloco a minha esperança: o amor com que Deus nos adotou como filhos, a verdade de sua promessa e o poder que tem de cumprir sua promessa". 


7. Oração sem hesitação 

Por isso diz o Apóstolo São Tiago que, quem deseja as graças divinas, deve pedi-las não duvidando, mas com a firme certeza de obtê-las: "Peça com fé, sem hesitação alguma!" (Tg 1,6). Nada receberás, se duvidar: "Quem duvida é semelhante à onda do mar, que é levada de uma para outra parte pela violência do vento; não pense, pois, que alcançará alguma coisa do Senhor". 

E São Paulo louva a Abraão por ele não ter duvidado das promessas divinas, sabendo que, quando Deus promete, não falta: "Não duvidou nem de leve das promessas de Deus, mas, fortificado pela fé, deu glória a Deus, sabendo que é poderoso para cumprir suas promessas" (Rm 4,20). Por isso, Jesus nos admoestou que receberemos todas as graças que desejamos, se pedirmos com a firme confiança de recebê-las. "Porquanto vos digo: Tudo o que pedirdes na oração crede que o recebereis e assim sucederá" (Mc 11,24). Em resumo, Deus não quer atender-nos, se não tivermos certos de sermos atendidos. 


8. A oração é um meio necessário à salvação

Agora, pois, voltemos ao nosso propósito. Nossa esperança de obter a salvação e os meios necessários para a mesma deve ser firme da parte de Deus. Os motivos desta certeza são o poder, a misericórdia e a fidelidade divina. 

Entretanto, o motivo mais firme é a fidelidade de Deus em prometer-nos a salvação pelos merecimentos de Jesus Cristo e dar-nos as graças necessárias para isso; pois, por mais firmemente que creiamos no infinito poder e na misericórdia de Deus, contudo, como nota Juvênio, não poderíamos esperar com uma confiança absoluta a salvação, se o Senhor não no-la tivesse prometido. Mas a promessa foi feita com a condição de rezarmos, como consta das Escrituras: "Pedi e recebereis. Se pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vos dará. Dará bens a quem lhe pedir. Importa rezar sempre. Não tendes porque não pedis. Se alguém necessitar de sabedoria, peça-a a Deus". E, assim, em muitos outros textos, que já nos referimos. Por isso os santos Padres e teólogos geralmente dizem que a oração é um meio necessários à salvação. 


9. Deus é o único fundamento de nossa esperança

Ora, se não tivéssemos certeza de que Deus a todos dá a graça de rezar sempre, sem ser necessária outra graça especial, então, Deus não seria um fundamento certo e firme de nossa esperança e esse fundamento seria incerto e condicional. Quando estou certo de que, com a oração, obterei a vida eterna e todas as graças necessárias para consegui-la, e sei que Deus não me negará a graça de rezar sempre (porque a concede a todos), se eu quiser, então, tenho fundamento certo de esperar de Deus a salvação eterna, contanto que, de minha parte, não falte nada. Mas quando duvido se Deus me dará ou não a graça particular que não concede a todos, e que é necessária para rezar atualmente, então, não tenho em Deus um fundamento certo de esperança, mas um fundamento duvidoso e incerto, ficando na dúvida se Deus me dará ou não aquela graça especial necessária para poder rezar. 

Essa incerteza não seria unicamente de minha parte, como também da parte de Deus, e, assim, cairia a esperança cristã, a qual deve ser firme e inabalável. Digo a verdade, não sei como o cristão possa cumprir o preceito da esperança, esperando de Deus, como deve, como uma confiança certa, a salvação e as graças necessárias para ela, sem ter por certo que Deus dá comumente a cada um, ao menos, a graça de rezar atualmente, se quiser, sem ser preciso outro auxílio especial.


10. A graça que é comum a todos

A graça, verdadeiramente suficiente, que é comum a todos, ajuda-nos contanto que correspondamos, para alcançarmos a graça eficaz. Mas se não correspondermos e, pelo contrário, se resistirmos a ela, com justiça nos será negada a graça eficaz. Desta sorte, não há desculpas para os pecadores que dizem não terem forças suficientes para vencer as tentações, porque, se rezassem, com o auxílio da graça comum, que é concedida a todos, alcançariam a salvação. Mas não se admitindo essa graça comum com a qual cada um possa ao menos rezar (sem o auxílio de outra graça especial não comum a todos) e, rezando, possa obter auxílio maior para observar a lei, não sei como possam ser compreendidos tantos textos da Escritura, nos quais se exortam as almas a voltarem para Deus, a vencerem as tentações e a corresponderem aos convites divinos: "Voltai, prevaricadores, para dentro dos vossos corações" (Is 46,8). "Convertei-vos e vivei" (Ex 18,32). "Convertei-vos e fazei penitência" (Ex 12,30). "Desatai as correntes do vosso pescoço" (Is 52,2). "Vinde a mim todos vós, que andais em trabalhos e vos achais carregados" (Mt 11,28). "Resisti fortes na fé" (1 Pd 5,9). "Caminhai enquanto tendes luz" (Jo 12,35). 

Se não fosse verdade que a todos é concedida a graça de rezar e de obter pela oração maiores auxílios, para conseguir a salvação, então não compreendo como poderiam entender-se os referidos textos e como os pregadores com tanta força possam exortar a todos em geral a se converter, a resistir aos inimigos, a caminhar na virtude e, para conseguirem tudo isso, a rezar com confiança e perseverança, quando a graça de rezar não fosse concedida a cada um, mas somente àqueles que recebem a graça eficaz de rezar. E não sei também como possa ser justa a censura, que geralmente se faz a todos os pecadores, que resistem à graça e desprezam a voz divina: "Vós resistis ao Espírito Santo" (At 7,51). "Eu vos chamei e vós não quisestes ouvi-me, estendi a minha mão e não houve quem olhassem para mim; desprezastes todos os meus conselhos e não fizestes caso das minhas repreensões" (Pr 1,24). Se não faltasse até a graça remota, mais eficaz de rezar, a qual os adversários supõem ser necessária para rezar de fato, como disse, não compreendo como se lhes possa fazer tais censuras.


11. A intenção da obra

A intenção que tive em escrever esta obra não foi outra senão a de bendizer a Providência e Bondade de Deus e de socorrer os pecadores, a fim de não se entregarem ao desespero, julgando-se privados da graça, e também para afastar toda a desculpa, quando vierem dizer que não têm força para resistir aos assaltos da paixão e do inferno.

Mostrei que dentre o que se perdem, nenhum se perde por causa do pecado original de Adão, mas por própria culpa, pois que Deus a ninguém nega a graça da oração. Com ela, obtém-se de Deus o auxílio para vencer toda concupiscência e toda tentação. 

De resto, o meu principal intento foi insinuar a todos o uso deste poderosíssimo e necessário meio da oração, para que se aplique cada um à oração com grande diligência e fervor, desejando seriamente alcançar a vida eterna. 

São tantas as almas que perdem a graça divina e continuam a viver no pecado e, por fim, se condenam, porque não rezaram e não recorreram a Deus para obter auxílio! E o pior ainda é (não posso deixar de o repetir) que poucos pregadores e poucos confessores se esforçam por aconselhar a seus ouvintes ou penitentes o uso da oração, sem a qual é impossível observar os divinos preceitos e obter a perseverança na graça divina.

Considerando a absoluta necessidade de rezar, que em tantos textos nos impõe a Escritura Sagrada, tanto no Antigo como no Novo Testamento, fiz introduzir nas nossas Missões o uso, que já há muitos anos existe, de se fazer o sermão sobre a oração. Digo e repito e repetirei sempre, enquanto tiver a vida, que toda a nossa salvação está na oração! Por isso, todos os escritores em seus livros, todos os oradores sagrados em suas prédicas, todos os confessores na administração do sacramento da penitência, nada deveriam inculcar com maior energia do que a obrigação de rezar sempre. Deveriam admoestar e exclamar continuamente e dizer: "Rezai, rezai, e não deixeis de rezar! Porque, se não rezardes, será certa a vossa condenação. Assim deveriam fazer todos os pregadores e diretores, pois que na teologia católica nenhuma dúvida há desta verdade: Quem ora obtém as graças e se salva. Mas são pouquíssimos os que assim praticam e, por isso, tão poucos se salvam!

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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.