terça-feira, 7 de outubro de 2025

Abuso da divina misericórdia




 Ignoras quoniam benignitas Dei ad poenitentiam te adducit?

Não sabes que a benignidade de Deus te convida à penitência? (Rm 2,4).


PONTO I 

Lê-se na parábola do joio que, tendo crescido num campo essa má erva juntamente com a boa semente, os servos quiseram arrancá-la (Mt 13,29). O Senhor, porém, lhes objetou: "Deixai-a crescer; mais tarde a arrancaremos para lançá-la ao fogo" (Mt 13,30). Infere-se desta parábola, por um lado, a paciência de Deus para com os pecadores, e por outro o seu rigor para com os obstinados. Diz Santo Agostinho que o demônio seduz os homens por duas maneiras: "Com desespero e com esperança". Depois que o pecador cometeu o delito, arrasta-o ao desespero pelo temor da justiça divina; mas, antes de pecar, excita-o a cair em tentação pela esperança na divina misericórdia; antes do pecado tema a justiça divina". E assim é, com efeito. Porque não merece a misericórdia de Deus aquele que se serve da mesma para ofendê-lo. A misericórdia é para quem teme a Deus e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-lo.

Aquele que ofende a justiça - diz o Abulense - pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia? Será difícil encontrar um pecador a tal ponto desesperado que queira expressamente condenar-se. Os pecadores querem pecar, mas sem perder a esperança da salvação. Pecam e dizem: Deus é a própria bondade; mesmo que agora peque, mais tarde confessar-me-ei. Assim pensam os pecadores, diz Santo Agostinho. Mas, meu Deus, assim pensaram muitos que já estão condenados. 

Não digas - exclama o Senhor - a misericórdia de Deus é grande: meus inumeráveis pecados me serão perdoados com um ato de contrição" (Ecl 5,6). Não faleis assim - nos diz o Senhor - e por quê? "Porque sua ira está tão pronta como sua misericórdia; e sua cólera fita os pecadores" (Ecl 5,7). A misericórdia de Deus é infinita; mas os atos dela, ou seja, os de comiseração, são finitos. Deus é clemente, mas também é justo. "Sou justo e misericordioso - disse o Senhor a Santa Brígida, - e os pecadores só pensam na misericórdia". Os pecadores - escreve São Basílio - só querem considerar a metade. "O Senhor é bom; mas também é justo. Não queiramos considerar unicamente uma das faces de Deus". Tolerar quem se serve da bondade de Deus para mais o ofender - dizia o Padre Ávila - fora antes injustiça que misericórdia. 

A clemência foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela. Et misericordia ejus timentibus eum, como exclama em seu Cântico a Virgem Santíssima. A justiça ameaça os obstinados, porque, como diz Santo Agostinho, a veracidade de Deus resplandece mesmo em suas ameaças. 

Acautelai-vos - diz São João Crisóstomo - quando o demônio (não Deus) vos promete a misericórdia divina com o fim de que pequeis. 

Ai daquele - acrescenta Santo Agostinho - que para pecar confia na esperança!... A quantos essa vã ilusão tem enganado e levado à perdição. 

Desgraçado daquele que abusa da bondade de Deus para ofendê-lo mais!... Lúcifer - como afirma São Bernardo - foi castigado por Deus com tão assombrosa presteza, porque, ao rebelar-se, esperava não ser punido. O rei Manassés pecou; converteu-se em seguida, e Deus lhe perdoou. Mas para Amon, seu filho, que, vendo quão facilmente seu pai havia conseguido o perdão, entregou-se à má vida com a esperança de também ser perdoado, não houve misericórdia. Por essa causa - diz São João Crisóstomo - Judas se condenou, porque se atreveu a pecar confiando na clemência de Jesus Cristo. Em suma: se Deus espera com paciência, não espera sempre. Pois, se o Senhor sempre nos tolerasse, ninguém se condenaria; ora, é larga a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele (Mt 7,13). Quem ofende a Deus, fiado na esperança de ser perdoado, "é um escarnecedor e não um penitente", diz Santo Agostinho. 

Por outra parte, afirma São Paulo que de "Deus não se pode zombar" (Gl 6,7). E seria zombar de Deus o querer ofendê-lo sempre que quiséssemos e desejar, a seguir, o paraíso. Quem semeia pecados, não pode esperar outra coisa que o eterno castigo no inferno (GL 6,8). O laço com que o demônio arrasta quase todos os cristãos que se condenam é, sem dúvida, esse engano com que os seduz,  dizendo-lhes: "Pecai livremente, porque, apesar de todos os pecados, haveis de salvar-vos". 

O Senhor, porém, amaldiçoa aquele que peca na esperança de perdão.

A esperança depois do pecado, quando o pecador deveras se arrepende, é agradável a Deus, mas a dos obstinados lhe é abominável. 

Tal esperança provoca o castigo de Deus, assim como seria passível de punição o servo que ofendesse a seu patrão, precisamente porque é bondoso e amável. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus! Eis aqui um dos que vos têm ofendido porque éreis bom para mim!... Ó Senhor, esperai-me ainda. Não me abandoneis, pois espero, com o auxílio de vossa graça, não tornar a dar-vos motivo para que me deixeis. Arrependo-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido, cansado vossa paciência. 

Agradeço-vos por me terdes esperando até agora. De hoje em diante não tornarei a ser, como hei sido, um miserável traidor. Já que tendes esperado para ver-me convertido em fervoroso amante de vossa bondade, crede, como espero, que esse dia ditoso já despontou. Amo-vos sobre todas coisas; estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo, e a perdê-la preferiria perder mil vezes a vida. Meu Deus, por amor de Jesus Cristo, concedei-me, juntamente com vosso santo amor, o dom da perseverança até à morte. Não permitais que de novo volte a trair-vos ou deixe de vos amar. 

E vós, Virgem Maria, minha esperança, alcançai-me a perseverança final e nada mais vos peço. 


PONTO II

Dirá, talvez, alguém: Já que Deus usou para comigo de tanta clemência no passado, espero que a terá também no futuro. Eu, porém, lhe respondo: E por ter sido Deus tão misericordioso contigo, queres de novo ofendê-lo? Desse modo - diz São Paulo - desprezas a bondade e paciência de Deus. Ignoras que se o Senhor te suportou até agora, não foi para que continuasses a ofendê-lo, senão para que te penitencies do mal que fizestes? (Rm 2,4). E se tu, fiado na divina misericórdia, não temes abusar dela, o Senhor te retirará. "Se não vos converterdes... entesará o seu arco e tem-no preparado (Sl 7,13). Minha é a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo (Dt 321,35). Deus espera; mas, chegada a hora da justiça, já não espera e castiga então. 

Deus aguarda o pecador a fim de que se emende (Is 19,18); mas, quando vê que o tempo concedido para os pecados só serve para multiplicá-los, vale-se desse mesmo tempo para empregar a justiça (Lm 1,15). De sorte que o próprio tempo concedido, a mesma misericórdia outorgada, servirão para que o castigo seja mais rigoroso e o abandono mais imediato. "Medicamos Babilônia e não há sanado. Abandonemo-la". (Jr 51,9). E como é que Deus nos abandona? Ou envia a morte ao pecador, que assim morre sem arrepender-se, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente com que o pecador se poderia salvar, mas não se salva. Obececada a mente, endurecido o coração, dominado por maus hábitos, a salvação lhe será moralmente impossível; e assim ficará, senão em absoluto, pelo menos moralmente abandonado. "Derrubar-lhe-ei o muro, e ficará exposta..." (Is 5,5). 

Que castigo! Triste indício quando o dono rompe o cercado e deixa entrar na vida os que quiserem, homem e animais: é prova de que a abandona. É o que faz Deus, quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor, dos remorsos de consciência e a deixa nas trevas. Penetram, então, nela todos os monstros do vício (Sl 103,20). O pecador, entregue a essa obscuridade, desprezará tudo: a graça divina, a glória, avisos, conselhos e censuras; escarnecerá até de sua própria condenação (Pr 18,3).

Deus o deixará nesta vida sem castigo, e nisto consistirá seu maior castigo. "Compadeçamo-nos do ímpio... não aprenderá (jamais) justiça".(Is 26,10). Referindo-se a esse texto, diz São Bernardo: "Não quero essa misericórdia, mais terrível que a ira". (Serm. 42, in Ct). Terrível castigo, quando Deus deixa o pecador em seus pecados, e parece que nem lhe pede contas deles (Sl 10,4). Dir-se-á que já não se indigna contra ele (Ez 16,42) e que lhe permite gozar quanto neste mundo deseja (Sl 80,13). Desgraçados os pecadores que prosperam na vida mortal! É sinal de que Deus os reserva para aplicar-lhes sua justiça na vida eterna! Jeremias pergunta: "Por que o caminho dos ímpios passa em prosperidade? (Jr 12,1). E responde em seguida: "Reúne-os como o rebanho destinado ao matadouro" (Jr 12,3). Não há, pois, maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados, segundo o que diz David: "pondo maldade sobre maldade... Riscados sejam do livro dos vícios" (Sl 28,28-29). Observa Belarmino: "Não existe castigo mais terrível do que o pecado tornar-se pena do pecado". Fora melhor a um desses infelizes que o Senhor o tivesse feito morrer após o primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá a padecer tantos infernos quantos foram os pecados cometidos. 


AFETOS E SÚPLICAS

Bem reconheço, meu Deus, que, no miserável estado em que me acho, mereci ser privado da vossa luz e da vossa graça. Pela inspiração, porém, que me dais e ouvindo-vos a voz que me chama à penitência, estou persuadido, entretanto, de que não me abandonastes. Já que assim é, multiplicai, meu Senhor, vossa misericórdia sobre minha alma; aumentai-me a luz divina e o desejo de vos amar e servir. Transformai-me, ó meu Deus; de traidor e rebelde que fui, convertei-me em fervoroso amante de vossa bondade, a fim de que chegue para mim o venturoso dia em que parta para o céu e louve eternamente as vossas misericórdias. 

Vós, Senhor, quereis perdoai-me, e eu só desejo que me outorgueis vosso perdão e vosso amor. Dói-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, ó sumo Bem, porque mo ordenais, e porque sois digníssimo de ser amado. Fazei, pois, meu Redentor, que vos ame este pecador por vós tão amado, e com tal paciência por vós esperado. Tudo espero de vossa bondade inefável. Espero amar-vos sempre no futuro, até à morte e por toda a eternidade (Sl 83,2). 

Que vossa clemência, meu Jesus, seja constante objeto de meus louvores! Louvarei também, por todo o sempre, a vossa misericórdia, ó Maria, pelas graças inumeráveis que me tendes alcançado. À vossa intercessão as devo. Assisti-me, Senhora minha, auxiliar-me e alcançai-me a santa perseverança. 


PONTO III

Lê-se na Vida do Padre Luís de Lanusa que, certo dia, dois amigos passeavam juntos em Palermo. Um deles, chamado César, que era ator, vendo o seu companheiro pensativo em extremo, disse-lhe: "Apostaria que te foste confessar, e por isso estás tão preocupado... Eu não quero acolher tais escrupúlos... Escuta: Disse-me um dia o Padre Lanusa que Deus me concedia ainda doze anos de vida,  que, se nesse tempo não me emendasse, morreria de má sorte. Viajei depois por muitos países; sofri de diversas doenças, umas das quais me levou às portas da morte...

É neste mês que se completam os famosos doze anos, e sinto disposto como nunca..." Após esta fala, César convidou seu amigo a ver, no sábado seguinte, a estréia de uma comédia de sua autoria... 

Naquele sábado, dia 24 de novembro de 1668, quando César se dispunha a entrar na cena, foi acometido subitamente de uma congestão e veio a morrer repentinamente nos braços de uma atriz. Assim acabou a comédia. Pois bem, meu irmão, quando o demônio, por meio da tentação, te excita outra vez ao pecado, se quiseres condenar-te podes cometer livremente o pecado; mas então não digas que desejas tua salvação. 

Quando quiseres pecar, considera-te como condenado, e imagina que Deus dita tua sentença, dizendo: Que mais posso fazer por ti, ingrato, além do que já fiz? (Is 5,4). Já que queres condenar-te, condena-te, condena-te, pois... a culpa é tua. 

Dirás, acaso: onde está então a misericórdia de Deus?... Desgraçado! Não te parece misericórdia o ter-te Deus suportado tanto tempo, apesar de tantos pecados? Prostado diante dele e com o rosto em terra; devias estar a render-lhe graças e dizendo: "Graças à misericórdia do Senhor é que não temos sido condenados" (Lm 3,2). Comentendo um só pecado mortal, incorreste em delito maior do que se tivesses calcado aos pés o primeiro soberano do mundo. E tantos e tais tens cometido que, se essa ofensas fossem feitas a teu irmão, este não as teria aturado... Deus, entretanto, não somente te esperou, mas te vem chamando muitas vezes, e oferece-te o perdão. Que mais devia fazer? (Is 5,4). Se Deus  tivesse necessidade de ti, ou se o houvesse honrado com grandes serviços, poderia ter-se mostrado mais clemente contigo? Se depois disto tornastes a ofendê-lo, farias que sua divina misericórdia se trocasse em indignação e castigo. 

Se aquela figueira, encontrada estéril por seu dono, não desse fruto depois do ano concedido como prazo para cultivá-la, quem ousaria esperar que se lhe desse mais tempo e não fosse cortada? Escuta, pois, o que diz Santo Agostinho: "Ó árvore infrutuosa! o golpe de derrubada foi deferido. Mas não te creias mais segura, porque serás cortada!" A pena foi adiada - diz o Santo, - mas não suprimida. Se tornares a abusar da misericórdia divina, o castigo te atingirá: serás cortado. Esperas, portanto, que o próprio Deus te envie ao inferno? Mas, se te envia, já o sabes, jamais haverá remédio para ti. O Senhor se cala, mas não para sempre. Quando chega a hora da justiça, quebra o silêncio. 

"Isto fizeste, e eu calei-me. Pensastes iniquamente que eu seria como tu; argüir-te-ei e porei (tudo) diante de teu rosto" (Sl 49,21). Porá diante dos teus olhos os atos da divina misericórdia e fará com que eles mesmos te julguem e condenem. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, que desgraça para mim, se, depois de ter recebido a luz que agora me dais, voltasse a ser infiel, cometendo traição. Essas luzes são sinais de que quereis perdoar-me. Arrependo-me, ó Sumo Bem, de todas as ofensas que fiz à vossa infinita bondade. Por vosso preciosíssimo sangue, espero, com certeza, o perdão. Mas, se tornasse a afastar-se de vós, reconheço que mereceria o inferno, criado de propósito para mim. Tremo, Deus de minha alma, à vista da possibilidade de tornar a perder vossa graça. Muitas vezes já vos prometi ser fiel, e depois, infelizmente, tornei a rebelar-me contra vós... Não o permitais, Senhor; não me deixeis cair na imensa desgraça de ver-me convertido outra vez em inimigo vosso. Dai-me outro castigo, mas este, não. "Não permitais que me aparte de vós". Se prevedes que vos hei de tornar a ofender, fazei antes que perca a vida. Aceito a morte mais dolorosa que ter de chorar a desdita de ver-me privado de vossa graça. Ne permittas me separari a te. Repito-o, meu Deus, e fazei que o repita sempre: "Não permitais que me separe de vós. Amo-vos, meu caríssimo Redentor, e não quero mais separar-me de vós". Pelos merecimentos de vossa morte, concedei-me amor tão fervoroso que convosco me una estreitamente e jamais possa desprender-me de vós.

Ajudai-me, ó Virgem Maria, por vossa intercessão; alcançai-me a santa perseverança e o amor para com Cristo Jesus. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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sábado, 4 de outubro de 2025

Da misericórdia de Deus




 Superexaltat autem misericordia judicium.

A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2,13).


PONTO I 

A bondade é comunicativa por natureza, isto é, tende a transmitir aos outros os seus bens. Deus, que por sua natureza é a bondade infinita, sente vivo desejo de comunicar-nos sua felicidade e, por isso, propende mais à misericórdia do que ao castigo. Castigar - diz Isaías - é obra alheia às inclinações da vontade divina. "Levantar-se-á para fazer a sua obra (ou vingança), obra que lhe é alheia, obra que lhe é estranha. (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, é para fazer misericórdia na outra (Sl 59,3). Mostra-se irritado a fim de que nos emendemos e detestemos o pecado (Sl 5). Se nos manda algum castigo, é porque nos ama e nos quer livrar das penas eternas (Sl 6). Quem poderá admirar e louvar suficientemente a misericórdia com que Deus trata os pecadores, esperando-os, chamando-os, acolhendo-os quando voltam para Ele?...  E antes de tudo, que graça valiosíssima nos concede Deus em esperar pela nossa penitência!... Quando o ofendestes, meu irmão, o Senhor te podia ter feito morrer, mas, ao contrário, te esperou; e, em vez de castigar-te, te cumulou de bens e te conservou a vida em sua paterna providência. Fingia não ver teus pecados, a fim de que te convertesses (Sb 2,24).

E como é isto, Senhor!Vós que não podeis ver um só pecador, vedes tantos e vos calais? (Hb 1,15). Vedes aquele impudico, aquele vingativo, esse blasfemo, cujos pecados crescem dia-a-dia e não os castigais? Por que tanta paciência?... Deus espera o pecador, a fim de que se arrependa e desse modo lhe perdoa e o salve (Is 30,18). 

Disse Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a água, a terra, o ar, por natural instinto se prestam a castigar o pecador pelas ofensas feitas ao Criador: mas Deus, pela sua misericórdia, os impede... Vós, Senhor, aguardais o ímpio para que se serve de vossa clemência para vos ofender? (Is 26,15) Por que tamanha paciência?... Porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e se salve (Ez 22,11).

Ó paciência divina! Disse Santo Agostinho que, se Deus não fosse Deus, pareceria injusto pela sua paciência para com o pecador, pois esperar, assim, pelo homem que se vale daquela paciência para continuar a pecar, parece em certo modo uma injustiça contra a honra divina. 

"Nós pecamos - continua dizendo o mesmo Santo, - entregamo-nos ao pecado (alguns há que vivem em paz com o pecado, dormem no pecado meses e anos inteiros), regozijamo-nos no pecado (pois não poucos até se gloriam de seus delitos), e vós usais de misericórdia".

Parece que teimosamente combatemos contra Deus; nós, provocando a sua vingança, Ele, convidando-nos ao perdão.


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e Senhor! Reconheço que sou digno de estar no inferno (Jo 17,13). Graças, porém, à vossa misericórdia não me acho nele, mas sim prostado a vossos pés e conhecedor do vosso preceito em que me ordenais que vos ame. "Ama o Senhor teu Deus" (Mt 22,37). Dizeis-me que quereis perdoar-me se me arrepender das injúrias que vos fiz...

Sim, meu Deus; já que desejais que vos ame, mesmo que seja um miserável rebelde contra vossa soberana majestade, amo-vos de todo o coração, e me dói ter-vos ofendido; isto me aflige mais que qualquer outra desgraça que me pudesse suceder. Iluminai-me, pois, ó Bondade infinita, e fazei-me conhecer a horrenda malícia de minhas culpas. Não; não resistirei mais à vossa voz, nem tornarei a injuriar a um Deus que tanto me ama, e que tantas vezes e com tanto amor me perdoou... Ah, se nunca vos tivesse ofendido, Jesus de minha alma! Perdoai-me e fazei que de hoje em diante a nada mais ame mais do que a vós; que somente viva para vós, que morrestes por mim; e que somente  por vosso amor sofra, já que por mim tanto padecestes. Eternamente me tendes amado; concedei-me que durante toda a eternidade arda eu no vosso amor. 

Tudo espero, ó meu Salvador, de vossos infinitos merecimentos. 

Em vós confio, Virgem Santíssima, pois com vossa intercessão me haveis de salvar. 


PONTO II

Consideremos, além disso, a misericórdia de Deus, quando chama o pecador à penitência... Adão, depois de ter-se rebelado contra Deus, escondeu-se. Mas o Senhor, que tinha perdido Adão, vai à procura dele e, quase a soluçar, o chama: "Onde estás, Adão?... (Gn 3,9) "Palavras de um pai - diz o Padre Pereira - que procura um filho que perdeu". O mesmo tem feito Deus contigo muitas vezes, meu irmão. 

Fugias de Deus, e Deus te chamava, ora com inspirações, ora com remorsos de consciência, já por meio de prédicas, já com atribulações ou com a morte de teus amigos. Parece que, falando de ti, Jesus Cristo exclamava: "Meu filho, quase perdi a voz a chamar-te" (Se 63,4).

Considerai, pecadores - diz Santa Teresa, - que vos chama aquele Senhor que um dia vos há de julgar.

Quantas vezes, cristão, te mostrastes surdo à voz de Deus? Há muito merecias que não te chamasse mais. Deus, entretanto, não cessa de chamar-te, porque deseja que estejas em paz com ele e assim te possa salvar... Quem é aquele que te chama assim? Um Deus de infinita majestade. E quem eras tu senão um verme miserável e vil?... E para que te chama? Não pode ser senão para te restituir a vida da graça que tinhas perdido. "Convertei-vos e vivei". (Ez 18,32). Para recuperar a graça divina, seria pouco passar a vida inteira no deserto. Deus, porém, se ofereceu dar-te de novo sua graça em um momento, e tu a recusaste. E, contudo, Deus não te abandona, mas acerca-se de ti e, solícito, te procura, e, lamentando-se, te diz: "Meu filho, por que queres te condenar?" (Ez 18,31).

Quando o homem comete um pecado mortal, expele o Deus de sua alma (Jo 19,14). Que faz Deus, porém?... Conserva-se à porta dessa alma ingrata e clama (Ap 3,20); pede à alma que o deixe entrar (Ct 5,5), e roga até cansar-se (Jr 15,6). Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus corre, como amante desesperado, atrás do pecador, exortando-o a que não se perca. É exatamente o que São Paulo exprimia quando escrevia a seus discípulos: "Rogamo-vos por Cristo, que vos reconcilieis com Deus" (2Cor 5,20). Belíssima é a reflexão que sobre este texto faz São João Crisóstomo. Diz: "O próprio Cristo vos roga. E que vos roga? Que vos reconcilieis com Deus. De sorte que ele não é inimigo vosso, senão vós dele". O Santo faz ver que não é o pecador que se deve esforçar para conseguir que Deus se mova à reconciliação com ele, mas que só lhe é preciso resolver-se a aceitar a amizade divina, porque é ele e não Deus que se nega a fazer a paz. 

Ah! como este bondosíssimo Senhor corre sem cessar atrás de tantos pecadores e lhes vai dizendo: "Ingratos! não fujais de mim... Por que fugis? Dizei-mo. Quero fazer-vos bem, e somente procuro tornar-vos felizes... Por que vos quereis perder?" - Mas, Senhor, que é que fazeis? Para que empregar tanta paciência e tanto amor para com estes rebeldes? Que compensação esperais deles? Que honra procurais em vos mostrardes tão apaixonado por estes miseráveis vermes da terra que fogem  de vós? "Que ser é o homem para que o engrandeças?... ou por que pões sobre o teu coração?" (Jo 7,17).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés um ingrato que vos pede misericórdia; Meu Pai, perdoai-me. Ouso chamar-vos Pai, porque assim quereis que vos chame. Não mereço compaixão, porque, quanto mais bondoso fostes para comigo, tanto mais ingrato mostrei-me para convosco. Por esta mesma bondade que vos moveu, meu Deus, a não me desamparar quando fugia de vós, recebei-me agora quando volto para vós. Inspirai-me, meu Jesus, grande dor das ofensas que vos fiz, e dai-me vosso beijo de paz. Arrependo-me, sobretudo, das ofensas que vos fiz, e as detesto e abomino, unindo este aborrecimento ao que sentistes vós, ó Redentor meu, no horto de Getsêmani. Perdoai-me, pelos merecimentos do preciosos sangue que por mim derramastes naquele horto. Prometo resolutamente nunca mais afastar-me de vós e banir de meu coração todo afeto que não seja para vós. Jesus, meu amor, amo-vos sobre todas as coisas, quero amar-vos sempre e somente amar a vós. Mas dai-me, Senhor, força, para consegui-lo. Fazei-me inteiramente vosso. 

Ó Maria, minha esperança, Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim e rogai por mim a Deus.


PONTO III

Os príncipes da terra, às vezes, julgam ser baixeza fitar os vassalos que lhes vêm pedir perdão. Não é assim, porém, que Deus procede conosco. "Não voltará de vós o rosto, se contritos a ele vos chegardes" (2 Par 30,9). Não, Deus não oculta sua face aos que se convertem. Ao contrário, ele mesmo os convida e promete recebê-los logo que se apresentem... (Jr 3,1; Zc 1,3) Oh, com quanto amor e ternura Deus abraça o pecador que volta para ele! Jesus Cristo claramente no-lo ensina por meio da parábola do Bom Pastor, que, falando da ovelha perdida, a põe amorosamente aos ombros (Lc 15,5) e convida seus amigos para que com ele se regozigem (Lc 15,6). E São Lucas acrescenta: "Haverá gozo no céu por um pecador que faz penitência" (Lc 15,7). O mesmo manifestou o Redentor na parábola do Filho pródigo, quando declarou que ele próprio é aquele pai que, ao ver voltar o filho perdido, corre-lhe ao encontro, e, antes que lhe fale, o abraça e cobre de beijos, e nem mesmo com essas ternas carícias pode expressar o consolo que sente (Ez 18,21-22). 

O Senhor chega até a assegurar que, quando o pecador se arrepende, ele risca da memória as ofensas, como se nunca houvessem existido. Veja-se o que diz: "Vinde e argüi-me; se vossos pecados forem cor de escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18; Ez 18,21-22), ou ainda: "Vinde, pecadores, se não vos perdoar, repreendei-me e acusai-me de infidelidade..." Mas, não, Deus não sabe desprezar um coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19). 

Gloria-se o Senhor de usar de misericórdia, perdoando aos pecadores (Is 30,18). E quando perdoa?... Num instante (Is 30,19). Pecador, diz o Profeta, não terás que chorar muito. Enquanto derramas a primeira lágrima, o Senhor terá piedade de ti (Is 30,19). Não procede Deus conosco como nós para com ele. Deus nos chama e nós não queremos atendê-lo. Deus, não. Logo que nos arrependemos, nos responde prontamente e logo nos perdoa. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus!... Contra quem me atrevi a resistir?... Contra vós, Senhor, que sois a própria bondade, que me criastes e morrestes por mim, que me tendes conservado, apesar de minhas reiteradas infidelidades...

A consideração da paciência com quem me tendes tratado deveria bastar para que meu coração vivesse ardendo perpetuamente em vosso amor.

Quem poderia ter aturado as ofensas que vos fiz, como vós a sofrestes? Desgraçado seria eu se tornasse a vos ofender e me condenasse! A misericórdia com que me distinguistes seria para mim, ó Deus, um inferno mais intolerável que o próprio inferno. Não, meu Redentor, não permitais que torne a separar-me de vós. Pefiro morrer... Reconheço que vossa misericórdia já não pode suportar minha maldade. Arrependo-me, porém, ó sumo Bem, de vos ter ofendido; amo-vos de todo o coração e proponho consagrar-vos por completo o resto da vida... Ouvi-me, Pai eterno, e pelos merecimentos de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e vosso santo amor. Ouvi-me, meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim: Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. 

Ó Maria, minha Mãe, volvei a mim vossos olhos misericordiosos: Illos tuos misericordes oculos ad me converte; e uni-me inteiramente a Deus. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da malícia do pecado mortal

 



Filios enutri et exaltavi; ipsi autem spreverunt me.

Filhos criei e engrandeci-os; mas eles me desprezavam (Is 1,2).


PONTO I

Que faz aquele que comete pecado mortal?... Injuria a Deus, desonra-o e, no que depende dele, cobre-o de amargura. 

Primeiramente, o pecado mortal é uma ofensa grave que se faz a Deus. A malícia de um ofensa, diz São Tomás, se mede pela pessoa que a recebe e pela pessoa que a comete. A ofensa feita a um simples particular é sem dúvida um mal; mas constitui delito maior se é feita a uma pessoa de alta dignidade, e muito mais grave quando visa o rei... E Quem é, Deus? É o Rei dos reis (Ap 17,14). Deus é a Majestade infinita, perante quem todos os príncipes da terra e todos os santos e anjos do céu são menos que um grão de areia (Is 40,15). Diante da grandeza de Deus, todas as criaturas são como se não existissem (Is 40,17). Eis o que é Deus... E o homem, o que é? Responde São Bernardo: saco de vermes, pasto de vermes, que cedo o hão de devorar. O homem é um miserável que nada pode, um cego que nada vê; pobre e nu, que nada possui (Ap 3,17). E este verme miserável se atreve a injuriar a Deus? exclama o mesmo São Bernardo. Com razão, pois, afirma o Doutor Angélico, que o pecado do homem contém uma malícia quase infinita. 

Por isso, Santo Agostinho chama, absolutamente, o pecado mal infinito.

Daí se segue que todos os homens e todos os anjos não poderiam satisfazer por um só pecado, mesmo que se oferecessem à morte e ao aniquilamento. Deus castiga o pecado mortal com as penas terríveis do inferno; contudo, esse castigo é, segundo dizem todos os teólogos, citra condignum, isto é, menor que a pena com que tal pecado deveria ser castigado.

E, na verdade, que pena bastará para castigar como merece um verme que se rebela contra seu Senhor? Somente Deus é Senhor de tudo, porque é o Criador de todas as coisas (Et 13,9). Por isso, todas as criaturas lhe devem obediência. "Obedecem-lhe os ventos e os mares" (Mt 9,27). "O fogo, o granizo, a neve e o gelo"... executam suas ordens (Sl 148,8). Mas o homem, quando peca, que faz senão dizer a Deus: Senhor, não quero servir-te (Sm 2,20).

O Senhor lhe diz: "Não te vingues", e o homem responde: quero vingar-me. "Não te aposses dos bens alheios", e deseja apoderar-se deles. "Abstém-te do prazer impuro", e não se resolve a privar-se dele. 

O pecador fala a Deus do mesmo modo que o ímpio Faraó, quando Moisés lhe comunicou a ordem divina de que desse liberdade ao povo de Israel. Aquele temerário respondeu: "Quem é o Senhor, para que eu obedeça à sua voz?... Não conheço o Senhor" (Êx 5,2). O pecador diz a mesma coisa: Senhor, não te conheço; quero fazer o que me agrada. 

Em suma: na presença de Deus mesmo lhe falta o respeito e se afasta dele e nisto consiste propriamente o pecado mortal: o ato com que o homem se alheia de Deus. Disto se lamentava o Senhor, dizendo: Ingrato foste, "tu me abandonastes"; eu jamais quisera apartar-me de ti; "tu me voltastes as costas" (Sm 15,6). 

Deus declarou que aborrece o pecado, de modo que não pode deixar de aborrecer a quem o comete (Sb 14,9). Quando o homem peca, ousa declarar-se inimigo de Deus e combate frente a frente contra Ele (Jo 12,25). Que dirias se visses uma formiga a lutar como um soldado?...

Deus é esse onipotente Senhor, que, com um ato de sua vontade, arrancou do nada o céu e a terra (2Mc 7,28). E, se quisesse, por um sinal seu, poderia aniquilá-los (2Mc 8,18). O pecador, quando consente no pecado, levanta a mão contra Deus, e "com colo erguido", isto é, com orgulho, corre a insultar a Deus; arma-se de grossa cerviz (Jo 15,25) (símbolo de ignorância), e exclama: "Que grande mal é o pecado que fiz?... Deus é bom e perdoa aos pecadores..." Que injúria! que temeridade! que cegueira tão grande!


AFETOS E SÚPLICAS

Eis-me aqui, meu Deus! A vossos pés está o rebelde temerário, que tantas vezes em vossa presença se atreveu a vos injuriar e a vos voltar as costas, mas agora implora a vossa piedade. Vós, Senhor, dissestes: Clama a mim e te ouvirei (Jr 33,3). Reconheço que o inferno é pouco castigo para mim; mas sabeis que tenho maior dor de vos ter ofendido, ó Bondade infinita, que se tivesse perdido tudo o que me pertence, sem excetuar a vida. Perdoai-me, Senhor, e não permitais que vos torne a ofender. Haveis esperado por mim, a fim de que vos amasse e bendissesse para sempre vossa misericórdia. Oh!sim, eu vos amo e bendigo, e espero que, pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, nunca mais me separarei do vosso amor. Ele me livrará do pecado no futuro. Dou-vos mil graças pelas luzes e pelo desejo que me dais de amar-vos sempre. Tomai posse de todo o meu ser, alma, corpo, faculdades, sentidos, vontade e liberdade. Sou vosso, salvai-me (Sl 118,94).

Sois o único Bem, o único Amável, sede meu amor. Dai-me fervor vivíssimo no nosso amor, pois, já que tanto vos ofendi, não me pode bastar o amor simples, mas um desejo de amar-vos muito a fim de compensar as ofensas que vos fiz. De vós, que sois onipotente, espero alcançá-lo... Também, ó Maria, o espero das vossas orações, que são onipotentes junto de Deus. 


PONTO II

O pecador não só ofende a Deus, mas também o desonra (Rm 2,23). Com efeito, renunciando à graça divina por um miserável prazer, menospreza e rejeita a amizade de Deus. Se o homem perdesse esta soberana amizade para ganhar um reino ou ainda o mundo inteiro, não há dúvida que faria um mal imenso, pois a amizade de Deus vale mais que o mundo e que mil mundos. E por que será que se ofende a Deus? (Sl 10,13). Por um punhado de terra, por um ímpeto de ira, por um prazer brutal, por uma quimera, por um capricho (Ez 13,19). Quando o pecador começa a deliberar consigo mesmo se deve ou não dar consentimento ao pecado, toma, por assim dizer, em suas mãos, a balança e se põe a considerar o que pesa mais, se a graça de Deus ou a ira, a quimera, o prazer... E quando, por fim, dá o consentimento, declara que para ele vale mais aquela quimera ou aquele prazer que a amizade divina. Vede, pois, como Deus é menosprezado pelo pecador. Davi, ao considerar a grandeza e majestade de Deus, exclamava: "Senhor, quem há que vos seja semelhante? (Sl 34,10). Mas Deus, ao contrário, vendo-se comparado pelos pecadores a uma satisfação vilíssima e proposto a ela, lhes diz: "A quem me comparastes e igualastes"? (Is 40,25).

De modo que, exclama o Senhor: vale aquele prazer mais que minha graça? (Eclo 23,25). Não terias pecado, se soubesses que ao cometê-lo perderias uma das mãos, ou dez escudos, ou menos talvez. Assim, diz Salviano, só Deus parece tão vil a teus olhos que merece ser propsoto a um ímpeto de cólera, a um gozo indigno. 

Além disso, quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus converte em sua divindade essa paixão, porque nela põe o seu últio fim. Assim diz São Jerônimo: "Aquilo que alguém deseja, se o venera, é para ele um Deus. Vício no coração é ídolo no altar." Do mesmo modo diz São Tomás: "Se amas os prazeres, estes são teu Deus". E São Cipriano: "Tudo quanto o homem antepõe a Deus, converte-o em seu Deus". Quando Jeroboão se revoltou contra o Senhor, procurou levar consigo o povo à idolatria, e, apresentando os ídolos, disse-lhes: "Aqui estão, Israel, os teus deuses" (3Rs 12). De modo semelhante procede o demônio; apresenta ao pecador os prazeres e lhe diz: "Que tens que ver com Deus ... Eis aqui o teu deus: é esta paixão, este prazer. Toma-os e abandona a Deus" É isto o que faz o pecador, dando o seu consentimento: adora no seu coração o prazer em lugar de Deus.

"Vício no coração é ídolo no altar".

Se ao menos os pecadores não desonrassem a Deus em sua presença!...

Mas injuriam-no e o desonram face a face, porque Deus está presente em todos os lugares (Sm 23,24). O pecador o sabe. E, apesar de tudo, atreve-se a provocar o Senhor na mesma presença divina (Is 65,3).


AFETOS E SÚPLICAS

Vós, Senhor, sois o bem infinito, e muitas vezes vos hei preterido por vil prazer que, apenas gozado, logo desaparece. Mas vós, apesar de vos ter desprezado, ofereceis-me agora o perdão, se o quiser aceitar, e prometeis receber-me na vossa graça, se me arrepender de vos ter ofendido. Sim, meu Senhor, dói-me de todo o coração tanta ofensa e detesto meus pecados mais que todos os males. Retorno a vós e espero que me recebereis e me abraçareis como a um filho. Agradeço-vos, ó infinita Bondade! Ajudai-e, Senhor, e não permitais que novamente vos afaste de mim. Não deixará o inferno de tentar-me; mas vós sois mais poderoso que ele. Bem sei que não me apartarei jamais de vós se a vós sempre me recomendar. Esta é a graça que vos suplico: que sempre me recomende a vós e vos implore como o faço agora, dizendo: Senhor, ajudai-me; dai-me luz, força, perseverança... Dai-me o paraíso e, sobretudo, concedei-me vosso amor, que é a verdadeira glória da alma. Amo-vos, Bondade infinita, e quero sempre amar-vos. Ouvi-me, pelo amor de Cristo Jesus...

Ó Maria, refúgio dos pecadores, socorrei a um pecador que quer amar a Deus!

PONTO III

O pecador injuria, desonra a Deus, e, no que toca sua parte, o cobre de amargura, pois não há amargura mais sensível do que ver-se pago com ingratidão pela pessoa amada em extremo favorecida. E a que se atreve o pecador?... Ofende ao Deus que o criou e tanto o amou, que deu por seu amor o sangue e a vida. E o homem o expulsa de seu coração ao cometer um pecado mortal. Deus habita na alma que o ama. 

"Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo 14,23). Notai a expressão faremos morada; Deus vem a essa alma e nela fixa sua mansão; de sorte que não a deixa, a não ser que a alma o expulse. "Não abandona se não é abandonado", como diz o Concílio de Trento. E já que sabeis, Senhor, que aquele ingrato há de expulsar-vos, por que não o deixais desde já? Abandonai-o, parti antes que vos faça tão grande ofensa... Não, diz o Senhor; não quero deixá-lo, senão esperar que ele formalmente me despeça. 

Assim, quando a alma consente no pecado, diz a seu Deus: Senhor, apartai-vos de mim (Jo 31,14). Não o diz por palavras, mas de fato, como adverte São Gregório. Bem sabe o pecador que Deus não pode harmonizar com o pecado. Bem vê que, pecando, obriga Deus a afastar-se dele. Rigorosamente, é como se lhe dissesse: Já que não, podeis ficar com pecado e tendes de afastar-vos de mim, - ide quando vos aprouver. E expulsando a Deus da alma, deixa entrar o inimigo que dela toma posse. Pela mesma porta por onde sai Deus, entra o demônio. "Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e moram ali" (Mt 12,45). Ao batizar-se um menino, o sacerdote exorciza o inimigo, dizendo-lhe: "Sai daqui, espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo"; porque a alma do batizado, ao receber a graça, converte-se em templo de Deus (1Cor 3,16). Quando, porém, o homem consente no pecado, efetua precisamente o contrário, dizendo a Deus, que reside na sua alma: "Sai daqui, Senhor, e cede lugar ao demônio". É disto de que se queixa o Senhor a Santa Brigída quando lhe diz que, ao despedi-lo, o pecador procedia como aqueles que expulsassem o seu rei do próprio trono: "Sou como um rei bandido de seu próprio reino, elegendo-se em meu lugar um péssimo ladrão..." Que mágoa não sentiríeis se recebêsseis grande ofensa duma pessoa, a quem tivésseis feito grande benefício? Esta mesma mágoa causais a Deus, que chegou a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor à terra e ao céu para que se compadeçam dele à vista da ingratidão com que o tratam os pecadores: "Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta... Filhos criei e engrandeci... mas eles me desprezaram" (Is 1,2). Em suma, os pecadores afligem com seus pecados o coração do Senhor... (Is 63,10) Deus não está sujeito à dor, mas - como disse o Padre Medina - se fosse suscetível de sofrer, um só pecado mortal bastaria para o fazer morrer, pelo infinito pesar que lhe causaria. Assim, pois, afirma São Bernardo, "o pecado, quanto em si é, dá morte a Deus". De modo que o pecador, ao cometer um pecado mortal, fere, por assim dizer, a seu Senhor, e nada omite para tirar-lhe a vida, se pudesse (Sl 30,4). Segundo a expressão de São Paulo, calca aos pés o Filho de Deus (Hb 10,29), e despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo. 

  

AFETOS E SÚPLICAS

Assim, meu Redentor, todas as vezes em que pequei vos expulsei de minha alma, e fiz tudo para vos tirar a vida, se pudésseis morrer.

Ouço-vos dizer: "Que mal te fiz ou em que te contristei para me causares tanto desgostos... Perguntais-me, Senhor, que mal me fizestes?...

Destes-me o ser, morrestes por mim: é este o mal que me haveis feito!...

Que hei de responder?... Confesso, Senhor, que mereci mil vezes o inferno, e que mui justamente já me poderíeis ter condenado a ele.

Lembrai-vos, porém, do amor que vos fez morrer por mim na cruz; lembrai-vos do sangue que por meu amor derramastes, tende compaixão de mim... Mas já sei, Senhor: não quereis que desespere, e me dizeis que estais à porta de meu coração (deste coração que vos expulsou), e que bateis nele com vossas inspirações para entrar, pedindo-me que vos abra... (Ap 3,20; Ct 5,2). Sim, meu Jesus, estou resolvido a apartar-me do pecado; dói-me de todo o coração de vos ter ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Entrai, meu amor; a porta está aberta; entrai, e não vos afasteis mais de mim. Abrasai-me com vosso amor, e não permitais que torne a separar-me de vós... Não, meu Deus, não queremos mais separar-nos. Abraço-vos e aperto-vos a meu coração...

Dai-me a santa perseverança...

Maria, minha Mãe, socorrei-me sempre; rogai por mim a Jesus, e alcançai-me a dita de jamais perder a sua graça.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A vida presente é uma viagem para a eternidade




 Ibit homo in domum aeternitatis suae.

Irá o homem à casa de sua eternidade (Ecl 12,5).


PONTO I 

Ao considerar que neste mundo tantos malvados vivem na prosperidade, e tantos justos, ao contrário, vivem cheios de tribulações, os próprios pagãos, unicamente com o auxílio da luz natural, reconheceram a verdade de que, existindo Deus, e sendo Ele justíssimo, deve haver outra vida onde os ímpios serão castigados e os bons recompensados. 

Ora, o que os pagãos conheceram, seguindo as luzes da razão, confessamo-lo nós, cristãos, também pela luz da fé. "Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da que está por vir" (Hb 13,14). 

A terra não é nossa pátria, mas apenas lugar de trânsito, por onde passamos para chegar em breve à casa da eternidade (Ecl 12,5). Assim, meu leitor, a casa em que moras não é tua própria casa, é uma hospedaria que bem cedo, e quando menos o pensas, terás que deixar; e os primeiros a expulsar-te dela, quando vier a morte, serão teus parentes e amigos... Qual será, pois, tua verdadeira casa? Uma cova será a morada do teu corpo até ao dia do juízo, e tua alma irá à casa da eternidade, ao céu, ou ao inferno. Por isso, nos diz Santo Agostinho: "És hóspede que passa e vê". Néscio seria o viajante que, tendo de visitar de passagem um país, quisesse empregar ali todo o seu patrimônio na compra de imóveis, que ao cabo de poucos dias teria de abandonar. 

Considera, por conseguinte, diz o Santo, que estás de passagem neste mundo, e não ponhas teu afeto naquilo que vês. Vê e passa, e procura uma boa morada, onde para sempre poderás viver. 

Feliz de ti se te salvas! Quão formosa a glória!... Os palácios mais suntuosos dos reis são como choças em comparação à cidade celeste, única que se pode chamar Cidade de perfeita formosura (Lm 2,15). Ali não haverá nada que desejar. Vivereis na gozosa companhia dos Santos, da divina Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem recear nenhum mal. Vivereis, em suma, abismados num mar de alegrias, de contínua beatitude, que, durará sempre (Is 35,10). E esta alegria será tão grande perfeita, que por toda a eternidade e em cada instante parecerá sempre nova... Se, ao contrário, te condenares, desgraçado de ti! Sentir-te-ás submerso num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e privado de teu Deus... E por quanto tempo?...

Acaso ao terem decorrido cem anos ou mil, tua pena estará cumprida? Oh, nunca acabará!... Passarão mil milhões de anos e de séculos e o inferno que sofreres estará começando!... Que é um milhar de anos em comparação da eternidade? Menos que um dia já passado... (Sl 89,4) Queres saber agora qual será tua habitação na eternidade?... Será a que mereceres; a que fabricas tu mesmo com tuas obras. 


AFETOS E SÚPLICAS

Eis aí Senhor, a morada que mereci pelo meu procedimento: o cárcere do inferno, onde devia estar depois que cometi o primeiro pecado mortal, gemendo abandonado por vós e sem esperança de poder tornar a vos amar!... Bendita seja para sempre vossa misericórdia, porque esperou por mim e me deu tempo de remediar as faltas! Bendito seja para sempre o sangue de Jesus Cristo, que me mereceu essa misericórdia!... Não quero, meu Deus, abusar mais de vossa paciência. 

Arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido, não tanto por ter merecido o inferno, como por ter ultrajado vossa infinita bondade. 

Nunca mais, meu Deus, nunca mais. Antes morrer que tornar a vos ofender. Se estivesse já no inferno, ó meu Sumo Bem, não poderia já amar-vos, nem vós poderíeis amar-me. Amo-vos, Senhor, e quero ser por vós amado. Bem sei que não o mereço; mas o merece Jesus Cristo, que se sacrificou na cruz para que pudésseis perdoar e amar.

Por amor de vosso divino Filho, dai-me, pois, ó Pai Eterno, a graça de sempre vos amar de todo o coração... Amo-vos, meu Pai, que me destes o vosso Filho Jesus. Amo-vos, Filho de Deus, que morrestes por mim. Amo-vos, ó Mãe de Jesus Cristo, que pela vossa intercessão me alcançastes tempo de penitência. Alcançai-me agora, ó Senhora minha, a dor de meus pecados, o amor para com Deus e a santa perseverança. 


PONTO II

Se a árvore cair para a parte do meio-dia ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, ali ficará (Ecl 11,3). Para o lado em que cair, na hora da morte, a árvore de tua alma, ali ficará para sempre. Não há, pois, termo médio: ou reinar eternamente na glória, ou gemer como escravo no inferno. Ou sempre ser bem-aventurado, num mar de dita inefável, ou ficar para sempre desesperado num abismo de tormentos. 

São João Crisóstomo, considerando que aquele rico, qualificado de feliz no mundo, foi logo condenado ao inferno, enquanto que Lázaro, tido como infeliz porque era pobre, foi depois felicíssimo no céu, exclama: "Ó infeliz felicidade, que trouxe ao rico eterna desventura!... Ó feliz desdita, que levou o pobre à felicidade eterna!" De que serve inquietar-se, como fazem alguns, dizendo: "Sou réprobo ou predestinado?..." Quando se derruba uma árvore, para que lado cai?... Cai para onde está inclinada... Para que lado te inclinas, irmão?... Que vida levas?... Procura inclinar-te sempre para Deus; conserva-te na sua graça, evite o pecado, e assim te salvarás e serás predestinado ao céu. Para evitar o pecado, tenhamos presente sempre o grande pensamento da eternidade, como com razão lhe chama Santo Agostinho. Este pensamento moveu muitos jovens a abandonar o mundo e a viver na solidão para se ocuparem unicamente, pois agora no céu se regozijam de sua resolução, e poderão regozijar-se por toda a eternidade. 

Uma senhora, divorciada de Deus, converteu-se e foi ter com o beato M. Ávila, que se limitou a dizer-lhe: Pensai, senhora, nestas duas palavras: sempre, nunca. O padre Paulo Ségneri, por um pensamento que teve certa vez da eternidade, não pôde conciliar o sono, e desde então se entregou à vida mais austera. 

Refere Dressélio que um bispo, dominado pelo pensamento da eternidade, levava vida santíssima, repetindo sem cessar de si para si estas palavras: "a cada instante estou às portas da eternidade". Certo monge encerrou-se num túmulo e não cessava de exclamar: "Ó eternidade, eternidade!..." "Quem crê na eternidade - dizia o citado Padre Ávila - e não vive como santo, devia estar encerrado numa casa de doidos!"


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, tende piedade de mim!... Sabia que, pecando, me condenava eu mesmo às penas eternas, e apesar disso quis me opor à vossa vontade santíssima... Por quê?... Por um prazer miserável...

Perdoai-me, Senhor, que me arrependo de todo coração. Não me rebelarei nunca contra vossa santa vontade. Desgraçado de mim se me tivésseis feito morrer no tempo da minha má vida! Estaria já no inferno, aborrecendo vossa vontade. Mas agora estimo-a e quero estimá-la sempre.

Ensinai-me e ajudai-me a cumprir no futuro vosso divino beneplácito (Sl 142,10). Nunca mais vos quero contradizer, ó Bondade infinita; mas vos dirigirei unicamente esta súplica: "Faça-se vossa vontade, assim na terra como no céu". Fazei que cumpra plenamente vossa vontade e nada mais desejo. Pois que outra coisa quereis, meu Deus, senão meu bem e minha salvação? Ah, Pai Eterno, ouvi-me por amor de Jesus Cristo, que me ensinou a pedir-vos tudo em seu nome: Fiat voluntas tua! Fiat voluntas tua! "Faça-se a vossa vontade!..." Oh! ditoso de mim, se passar o resto da vida e morrer fazendo vossa vontade!...

Ó Maria, bem-aventurada Virgem, que executastes sempre com toda a perfeição a vontade de Deus, alcançai-me por vossos méritos que a cumpra até ao fim de minha vida. 


PONTO III

"Irá o homem à casa de sua eternidade" (Ecl 12,5) disse o profeta...

"Irá", para significar que cada qual há de ir à morada que quiser. 

Não será levado, mas irá por sua própria e livre vontade. Deus quer certamente que nos salvemos todos; mas não quer salvar-nos à força. 

Põe diante de nós a vida e a morte (Ecl 15,18) e ser-nos-á dado o que escolhermos (Ecl 15,18). Jeremias disse também que o Senhor nos deu dois caminhos, o da glória e o do inferno (Jr 21,8). A nós cabe escolher. Mas quem se empenha em andar pela senda do inferno, como poderá chegar à glória? É de admirar que, ainda que todos os pecadores queiram salvar-se, eles mesmos se condenam ao inferno, dizendo: espero salvar-me. Mas quem será tão louco - disse Santo Agostinho - que tome veneno moral com esperança de curar-se?... No entanto, quantos insensatos se dão a morte a si próprios, pecando, e dizem: "mais tarde pensarei no remédio..." Ó deplorável ilusão, que a tantos tem arrastado ao inferno! Não sejamos tão imprevidentes; consideremos que se trata da eternidade. 

Se tanto trabalho se dá o homem para adquirir uma casa cômoda, espaçosa, saudável e bem situada, como se tivesse certeza de que a poderia habitar durante toda a vida, por que se mostra tão descuidado quando se trata da casa que deve ocupar eternamente? - disse Santo Euquério. - Não se trata de uma morada mais ou menos cômoda ou espaçosa, mas de viver em um lugar cheio de delícias, entre os amigos de Deus, ou num abismo de todos os tormentos, entre a turba infame dos celerados, hereges e idólatras... E isto por quanto tempo?... Não por vinte nem por quarenta anos, senão por toda a eternidade. Grande negócio, sem dúvida! Não é coisa de momento, mas de suma importância. 

Quando São Tomás More foi condenado à morte por Henrique VIII, Luísa, sua esposa, procurou persuadi-lo a consentir no que o rei queria. 

Tomás lhe replicou: Dize-me, Luísa, vês que já sou velho. Quanto tempo ainda poderei viver? - Poderás viver ainda vinte anos - disse a esposa. - Oh! triste negócio! - exclamou então Tomás. - Por vinte anos de vida na terra, querias que perdesse uma eternidade de ventura e que me condenasse à eterna desdita?" Iluminai-nos, ó Deus! Se a doutrina da eternidade fosse duvidosa, se não passasse de opinião provável, ainda assim deveríamos procurar com empenho viver bem para não nos expormos, caso essa opinião fosse verdadeira, a ser eternamente infelizes. Mas essa doutrina não é duvidosa, senão certa; não é mera opinião, senão verdade de fé: "Irá o homem à casa da eternidade..." (Ecl 12,5). "É a falta de fé - diz Santa Teresa - a causa de tantos pecados e da condenação de tantos cristãos!..."

Reavivemos, pois, nossa fé, dizendo: "Creio na vida eterna!" Creio que depois desta vida há outra que não acaba nunca. Tendo sempre presente este pensamento, lancemos mãos dos meios convenientes para assegurar a salvação. Frequentemos os sacramentos, façamos meditação diárias, pensemos em nossa salvação e fujamos das ocasiões perigosas. E se for preciso, fujamos do mundo, porque nenhuma precaução é demais para nos assegurar a eterna salvação. "Não há cautela que seja excessiva quando periga a eternidade" - diz São Bernardo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não há, pois, meu Deus, termo médio: ou ser sempre feliz, ou para sempre desgraçado; ou hei de lançar-me num mar de venturas, ou num pélago de tormentos; ou convosco na glória, ou eternamente no inferno separado de vós. Sei com certeza que muitas vezes mereci o inferno, mas também sei com certeza que perdoais ao que se arrepende e livrais de eterna condenação ao que espera em vós. Dissestes: "Clamará a mim... e eu o livrarei e glorificarei" (Sl 90,15). Perdoai-me, pois, meu Senhor, e livrai-me do inferno. Pesa-me, ó Sumo Bem, sobre todas as coisas de vos ter ofendido. Restabelecei-me na vossa graça e dai-me vosso santo amor. Se já estivesse no inferno, não poderia amar-vos, mas vos odiaria eternamente... E, no entanto, que mal fizestes para que vos odiasse?... Amastes-me até ao extremo de morrer por mim; sois digno de infinito amor. Não permitais, Senhor, que me aparte de vós; amo-vos e quero amar-vos sempre. "Quem me separará do amor de Cristo?" (Rm 13,35). Ah, meu Jesus, só o pecado me pode separar de vós. Não o permitais, eu vo-lo exoro, pelo sangue derramastes por mim. Dai-me antes da morte...

Ó Rainha e minha Mãe! Assisti-me com vossas orações; fazei que morra mil vezes, antes que me separe do amor do vosso divino Filho!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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