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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A vida presente é uma viagem para a eternidade




 Ibit homo in domum aeternitatis suae.

Irá o homem à casa de sua eternidade (Ecl 12,5).


PONTO I 

Ao considerar que neste mundo tantos malvados vivem na prosperidade, e tantos justos, ao contrário, vivem cheios de tribulações, os próprios pagãos, unicamente com o auxílio da luz natural, reconheceram a verdade de que, existindo Deus, e sendo Ele justíssimo, deve haver outra vida onde os ímpios serão castigados e os bons recompensados. 

Ora, o que os pagãos conheceram, seguindo as luzes da razão, confessamo-lo nós, cristãos, também pela luz da fé. "Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da que está por vir" (Hb 13,14). 

A terra não é nossa pátria, mas apenas lugar de trânsito, por onde passamos para chegar em breve à casa da eternidade (Ecl 12,5). Assim, meu leitor, a casa em que moras não é tua própria casa, é uma hospedaria que bem cedo, e quando menos o pensas, terás que deixar; e os primeiros a expulsar-te dela, quando vier a morte, serão teus parentes e amigos... Qual será, pois, tua verdadeira casa? Uma cova será a morada do teu corpo até ao dia do juízo, e tua alma irá à casa da eternidade, ao céu, ou ao inferno. Por isso, nos diz Santo Agostinho: "És hóspede que passa e vê". Néscio seria o viajante que, tendo de visitar de passagem um país, quisesse empregar ali todo o seu patrimônio na compra de imóveis, que ao cabo de poucos dias teria de abandonar. 

Considera, por conseguinte, diz o Santo, que estás de passagem neste mundo, e não ponhas teu afeto naquilo que vês. Vê e passa, e procura uma boa morada, onde para sempre poderás viver. 

Feliz de ti se te salvas! Quão formosa a glória!... Os palácios mais suntuosos dos reis são como choças em comparação à cidade celeste, única que se pode chamar Cidade de perfeita formosura (Lm 2,15). Ali não haverá nada que desejar. Vivereis na gozosa companhia dos Santos, da divina Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem recear nenhum mal. Vivereis, em suma, abismados num mar de alegrias, de contínua beatitude, que, durará sempre (Is 35,10). E esta alegria será tão grande perfeita, que por toda a eternidade e em cada instante parecerá sempre nova... Se, ao contrário, te condenares, desgraçado de ti! Sentir-te-ás submerso num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e privado de teu Deus... E por quanto tempo?...

Acaso ao terem decorrido cem anos ou mil, tua pena estará cumprida? Oh, nunca acabará!... Passarão mil milhões de anos e de séculos e o inferno que sofreres estará começando!... Que é um milhar de anos em comparação da eternidade? Menos que um dia já passado... (Sl 89,4) Queres saber agora qual será tua habitação na eternidade?... Será a que mereceres; a que fabricas tu mesmo com tuas obras. 


AFETOS E SÚPLICAS

Eis aí Senhor, a morada que mereci pelo meu procedimento: o cárcere do inferno, onde devia estar depois que cometi o primeiro pecado mortal, gemendo abandonado por vós e sem esperança de poder tornar a vos amar!... Bendita seja para sempre vossa misericórdia, porque esperou por mim e me deu tempo de remediar as faltas! Bendito seja para sempre o sangue de Jesus Cristo, que me mereceu essa misericórdia!... Não quero, meu Deus, abusar mais de vossa paciência. 

Arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido, não tanto por ter merecido o inferno, como por ter ultrajado vossa infinita bondade. 

Nunca mais, meu Deus, nunca mais. Antes morrer que tornar a vos ofender. Se estivesse já no inferno, ó meu Sumo Bem, não poderia já amar-vos, nem vós poderíeis amar-me. Amo-vos, Senhor, e quero ser por vós amado. Bem sei que não o mereço; mas o merece Jesus Cristo, que se sacrificou na cruz para que pudésseis perdoar e amar.

Por amor de vosso divino Filho, dai-me, pois, ó Pai Eterno, a graça de sempre vos amar de todo o coração... Amo-vos, meu Pai, que me destes o vosso Filho Jesus. Amo-vos, Filho de Deus, que morrestes por mim. Amo-vos, ó Mãe de Jesus Cristo, que pela vossa intercessão me alcançastes tempo de penitência. Alcançai-me agora, ó Senhora minha, a dor de meus pecados, o amor para com Deus e a santa perseverança. 


PONTO II

Se a árvore cair para a parte do meio-dia ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, ali ficará (Ecl 11,3). Para o lado em que cair, na hora da morte, a árvore de tua alma, ali ficará para sempre. Não há, pois, termo médio: ou reinar eternamente na glória, ou gemer como escravo no inferno. Ou sempre ser bem-aventurado, num mar de dita inefável, ou ficar para sempre desesperado num abismo de tormentos. 

São João Crisóstomo, considerando que aquele rico, qualificado de feliz no mundo, foi logo condenado ao inferno, enquanto que Lázaro, tido como infeliz porque era pobre, foi depois felicíssimo no céu, exclama: "Ó infeliz felicidade, que trouxe ao rico eterna desventura!... Ó feliz desdita, que levou o pobre à felicidade eterna!" De que serve inquietar-se, como fazem alguns, dizendo: "Sou réprobo ou predestinado?..." Quando se derruba uma árvore, para que lado cai?... Cai para onde está inclinada... Para que lado te inclinas, irmão?... Que vida levas?... Procura inclinar-te sempre para Deus; conserva-te na sua graça, evite o pecado, e assim te salvarás e serás predestinado ao céu. Para evitar o pecado, tenhamos presente sempre o grande pensamento da eternidade, como com razão lhe chama Santo Agostinho. Este pensamento moveu muitos jovens a abandonar o mundo e a viver na solidão para se ocuparem unicamente, pois agora no céu se regozijam de sua resolução, e poderão regozijar-se por toda a eternidade. 

Uma senhora, divorciada de Deus, converteu-se e foi ter com o beato M. Ávila, que se limitou a dizer-lhe: Pensai, senhora, nestas duas palavras: sempre, nunca. O padre Paulo Ségneri, por um pensamento que teve certa vez da eternidade, não pôde conciliar o sono, e desde então se entregou à vida mais austera. 

Refere Dressélio que um bispo, dominado pelo pensamento da eternidade, levava vida santíssima, repetindo sem cessar de si para si estas palavras: "a cada instante estou às portas da eternidade". Certo monge encerrou-se num túmulo e não cessava de exclamar: "Ó eternidade, eternidade!..." "Quem crê na eternidade - dizia o citado Padre Ávila - e não vive como santo, devia estar encerrado numa casa de doidos!"


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, tende piedade de mim!... Sabia que, pecando, me condenava eu mesmo às penas eternas, e apesar disso quis me opor à vossa vontade santíssima... Por quê?... Por um prazer miserável...

Perdoai-me, Senhor, que me arrependo de todo coração. Não me rebelarei nunca contra vossa santa vontade. Desgraçado de mim se me tivésseis feito morrer no tempo da minha má vida! Estaria já no inferno, aborrecendo vossa vontade. Mas agora estimo-a e quero estimá-la sempre.

Ensinai-me e ajudai-me a cumprir no futuro vosso divino beneplácito (Sl 142,10). Nunca mais vos quero contradizer, ó Bondade infinita; mas vos dirigirei unicamente esta súplica: "Faça-se vossa vontade, assim na terra como no céu". Fazei que cumpra plenamente vossa vontade e nada mais desejo. Pois que outra coisa quereis, meu Deus, senão meu bem e minha salvação? Ah, Pai Eterno, ouvi-me por amor de Jesus Cristo, que me ensinou a pedir-vos tudo em seu nome: Fiat voluntas tua! Fiat voluntas tua! "Faça-se a vossa vontade!..." Oh! ditoso de mim, se passar o resto da vida e morrer fazendo vossa vontade!...

Ó Maria, bem-aventurada Virgem, que executastes sempre com toda a perfeição a vontade de Deus, alcançai-me por vossos méritos que a cumpra até ao fim de minha vida. 


PONTO III

"Irá o homem à casa de sua eternidade" (Ecl 12,5) disse o profeta...

"Irá", para significar que cada qual há de ir à morada que quiser. 

Não será levado, mas irá por sua própria e livre vontade. Deus quer certamente que nos salvemos todos; mas não quer salvar-nos à força. 

Põe diante de nós a vida e a morte (Ecl 15,18) e ser-nos-á dado o que escolhermos (Ecl 15,18). Jeremias disse também que o Senhor nos deu dois caminhos, o da glória e o do inferno (Jr 21,8). A nós cabe escolher. Mas quem se empenha em andar pela senda do inferno, como poderá chegar à glória? É de admirar que, ainda que todos os pecadores queiram salvar-se, eles mesmos se condenam ao inferno, dizendo: espero salvar-me. Mas quem será tão louco - disse Santo Agostinho - que tome veneno moral com esperança de curar-se?... No entanto, quantos insensatos se dão a morte a si próprios, pecando, e dizem: "mais tarde pensarei no remédio..." Ó deplorável ilusão, que a tantos tem arrastado ao inferno! Não sejamos tão imprevidentes; consideremos que se trata da eternidade. 

Se tanto trabalho se dá o homem para adquirir uma casa cômoda, espaçosa, saudável e bem situada, como se tivesse certeza de que a poderia habitar durante toda a vida, por que se mostra tão descuidado quando se trata da casa que deve ocupar eternamente? - disse Santo Euquério. - Não se trata de uma morada mais ou menos cômoda ou espaçosa, mas de viver em um lugar cheio de delícias, entre os amigos de Deus, ou num abismo de todos os tormentos, entre a turba infame dos celerados, hereges e idólatras... E isto por quanto tempo?... Não por vinte nem por quarenta anos, senão por toda a eternidade. Grande negócio, sem dúvida! Não é coisa de momento, mas de suma importância. 

Quando São Tomás More foi condenado à morte por Henrique VIII, Luísa, sua esposa, procurou persuadi-lo a consentir no que o rei queria. 

Tomás lhe replicou: Dize-me, Luísa, vês que já sou velho. Quanto tempo ainda poderei viver? - Poderás viver ainda vinte anos - disse a esposa. - Oh! triste negócio! - exclamou então Tomás. - Por vinte anos de vida na terra, querias que perdesse uma eternidade de ventura e que me condenasse à eterna desdita?" Iluminai-nos, ó Deus! Se a doutrina da eternidade fosse duvidosa, se não passasse de opinião provável, ainda assim deveríamos procurar com empenho viver bem para não nos expormos, caso essa opinião fosse verdadeira, a ser eternamente infelizes. Mas essa doutrina não é duvidosa, senão certa; não é mera opinião, senão verdade de fé: "Irá o homem à casa da eternidade..." (Ecl 12,5). "É a falta de fé - diz Santa Teresa - a causa de tantos pecados e da condenação de tantos cristãos!..."

Reavivemos, pois, nossa fé, dizendo: "Creio na vida eterna!" Creio que depois desta vida há outra que não acaba nunca. Tendo sempre presente este pensamento, lancemos mãos dos meios convenientes para assegurar a salvação. Frequentemos os sacramentos, façamos meditação diárias, pensemos em nossa salvação e fujamos das ocasiões perigosas. E se for preciso, fujamos do mundo, porque nenhuma precaução é demais para nos assegurar a eterna salvação. "Não há cautela que seja excessiva quando periga a eternidade" - diz São Bernardo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não há, pois, meu Deus, termo médio: ou ser sempre feliz, ou para sempre desgraçado; ou hei de lançar-me num mar de venturas, ou num pélago de tormentos; ou convosco na glória, ou eternamente no inferno separado de vós. Sei com certeza que muitas vezes mereci o inferno, mas também sei com certeza que perdoais ao que se arrepende e livrais de eterna condenação ao que espera em vós. Dissestes: "Clamará a mim... e eu o livrarei e glorificarei" (Sl 90,15). Perdoai-me, pois, meu Senhor, e livrai-me do inferno. Pesa-me, ó Sumo Bem, sobre todas as coisas de vos ter ofendido. Restabelecei-me na vossa graça e dai-me vosso santo amor. Se já estivesse no inferno, não poderia amar-vos, mas vos odiaria eternamente... E, no entanto, que mal fizestes para que vos odiasse?... Amastes-me até ao extremo de morrer por mim; sois digno de infinito amor. Não permitais, Senhor, que me aparte de vós; amo-vos e quero amar-vos sempre. "Quem me separará do amor de Cristo?" (Rm 13,35). Ah, meu Jesus, só o pecado me pode separar de vós. Não o permitais, eu vo-lo exoro, pelo sangue derramastes por mim. Dai-me antes da morte...

Ó Rainha e minha Mãe! Assisti-me com vossas orações; fazei que morra mil vezes, antes que me separe do amor do vosso divino Filho!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/40813940369352665/









sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Ponto III - Preparação para a morte




 Neste quadro da morte, caro irmão, reconhece-te a si mesmo, e considera o que virás a ser um dia: "Recorda-te que és pó, e em pó te converterás". Pensa que dentro de poucos anos, quiçá dentro de alguns meses ou dias, não serás mais que vermes e podridão. Este pensamento fez de Ló um grande santo: "À podridão eu disse: tu és meu pai; aos vermes: sois minha mãe e minha irmã".

Tudo se há de acabar, e se perderes a tua alma na morte, tudo estará perdido para ti. "Considera-te desde já como um morto, - disse São Lourenço Justiniano - pois sabes que necessariamente hás de morrer". Se já estivesse morto, que não desejaria ter feito por Deus? Portanto, agora que vives, pensa que algum dia cairás morto. Disse Boaventura que o piloto, para governar o navio, se coloca na extremidade traseira do mesmo; assim o homem, para levar uma vida boa e santa, deve imaginar sempre o que será dele na hora da morte. Por isso, exclama São Bernardo: "Considera os pecados de tua mocidade e cora; considera os pecados da tua idade viril e chora; considera as desordens da vida presente, e estremece", e apressa-te em remediá-la prontamente. 

 São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura, fazia estas reflexões: Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço eu por minha alma? Este Santo pensava assim por humildade; mas tu, querido irmão, talvez com razão receies ser considerado aquela figueira sem fruto, da qual disse o Senhor: "Três anos já que venho buscar frutas a esta figueira e não os achei (Lc 13,7).

Tu, que há mais de três anos estás neste mundo, considera quais frutos tens produzido? Considera - diz São Bernardo - que o Senhor não procura somente flores, mas quer frutos; isto é, não se contenta com bons propósitos e desejos, mas exige a prática de obras santas. É preciso, pois, que saibas aproveitar o tempo que Deus, por sua misericórdia, te concede, e não esperes com a prática do bem até que seja tarde, no instante solene quando se diz: Vamos, chegou o momento de deixar este mundo. Depressa! O que está feito, está feito. 


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui me tendes, Senhor, sou aquela árvore que há muitos anos merecia ouvir de vós estas palavras: "Cortai-a, pois, para que debalde há de ocupar terreno? (Lc13,7). Nada mais certo, porque, em tantos anos que estou no mundo, ainda não dei frutos senão cardos e espinhos do pecado. Mas vós, Senhor, não quereis que desespere. Dissestes a todos: aquele que me procurar, achar-me-á (Mt 7,7). Procuro-vos, meu Deus, e quero receber vossa graça. Detesto, de todo coração, as ofensas que cometi e quisera morrer de dor por elas. No passado fugi de vós, mas agora prefiro vossa amizade à posse de todos os reinos do mundo. Não quero mais resistir ao vosso chamamento. Quereis-me todo para vós e sem reserva entrego inteiramente. Na cruz, deste-vos todo a mim; todo me dou a vós. 

Senhor, vós dissestes: "Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu a darei" (Jo 14,14). Meu Jesus, confiado nessa grande promessa, pelo vosso santo nome e pelos vossos méritos, peço a vossa graça e o vosso amor. Fazei que deles se replete a minha alma, onde antes morava o pecado. Agradeço-vos por me terdes inspirado o pensamento de dirigir-vos esta oração, sinal evidente de que quereis ouvir-me. Ouvi-me, pois, meu Jesus! Concedei-me grande amor por vós, dai-me, um grande desejo de agradar-vos e depois a força de cumpri-lo. 

Ó Maria, minha excelsa intercessora, escutai-me vós também e rogai a Jesus por mim!



Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte.


terça-feira, 2 de novembro de 2021

Retrato de um homem que acaba de expirar









És pó e em pó hás de tornar (Gn 3,19).

Considera que és pó e em pó te hás de converter. Virá o dia em que será preciso morrer e apodrecer num fosso, onde ficarás coberto de vermes. A todos, nobres e plebeus, príncipes ou vassalos, estará reservada a mesma sorte. Logo que a alma, com o último suspiro, sair do corpo, passará à eternidade, e o corpo se reduzirá a pó. 
Imagina que estás em presença de uma pessoa que acaba de expirar. Contempla aquele cadáver, estendido ainda em seu leito mortuário: a cabeça inclinada sobre o peito; o cabelo em desalinho e banhado ainda em suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, os lábios e a língua cor de chumbo; hirto e pesado o corpo. Treme e empalidece quem o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo morto, mudaram de vida e abandonaram o mundo. 
É ainda mais horrível o aspecto do cadáver quando começa a corromper-se. Nem um dia se passou após o falecimento daquele jovem, e já se percebe o mau cheiro. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é mister que prontamente levem o defundo à igreja, ou ao cemitério, e o entreguem a terra para que não infeccione toda a casa. Mesmo que aquele corpo tenha pertencido a um nobre ou potentado, não servirá senão para que exale ainda fetidez mais insuportável, - disse um autor. 
Vês o estado que chegou aquele soberbo, aquele dissoluto! Ainda a pouco via-se acolhido e cortejado pela sociedade; agora tornou-se o horror e o espanto de quem o contempla. Os parentes apressam-se em afastá-lo de casa e pagam aos coveiros para que o encerrem em um esquife e lhe deem sepultura. Há bem poucos instantes ainda se apregoava a fama, o talento, a finura, a polidez e a graça desse homem; mas apenas está morto, nem sua lembrança se conserva.
Ao ouvir a notícia de sua morte, limitam-se uns a dizer que era um homem honrado; outros, que deixou à família grande riqueza. Contristam-se alguns, porque a vida do falecido lhes era proveitosa; alegram-se outros, porque vão ficar de posse de tudo quanto tinha.  Por fim, dentro em breve, já ninguém falará dele, e até seus parentes mais próximos não querem ouvir falar dele para não se lhes agravar a dor que sentem. Nas visitas de condolências, trata-se de outro assunto; e, quando alguém se atreve a mencionar o falecido, não falta um parente que advirta: Por caridade, não pronuncies mais o seu nome! Considera que assim como procedes por ocasião da morte de teus parentes e amigos, assim outros o agirão na tua. Os vivos entram no cenário do mundo para desempenhar seu papel e ocupar os lugares dos mortos; mas do apreço e da memória destes pouco ou nada cuidam.
A princípio, os parentes se aflingem por alguns dias, mas se consolam depressa com a parte da herança que lhes couber e, talvez, parece até que a tua morte os regozija. Naquela mesma casa onde exalaste o último suspiro, e onde Jesus Cristo te julgou, passarão a celebrar-se, como dantes, banquetes, bailes, festas e jogos. E a tua alma, onde estará então? 


Afetos e súplicas


Agradeço-vos, meu Jesus Redentor, o não me terdes deixado morrer quando incorrera no vosso desagrado! Há quantos anos já, mereci estar no inferno! Se eu tivesse morrido naquele dia, naquela noite, que teria sido de mim por toda a eternidade? Senhor, dou-vos graças por esse benefício. Aceito a  minha morte em satisfação de meus pecados e aceito-a tal qual me quiserdes enviar; mas, já que haveis esperado até esta hora, esperai mais um pouco ainda. Dai-me tempo de chorar as ofensas que vos fiz, antes que chegue o dia em que tereis de julgar-me. 
Não quero resistir por mais tempo, ao vosso chamado. Talvez, estas palavras que acabo de ler, sejam para mim vosso último convite! Confesso que não mereço misericórdia. Tantas vezes me tendes perdoado, e eu, ingrato, tornei a vos ofender! Senhor, já que não sabeis desprezar nenhum coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19), eis aqui um traidor, que arrependido recorre à vós! Por piedade, não me repilais de vossa presença (Sl 50,13). Vós mesmo dissestes: "aquele que vem a mim, não o desprezarei" (Jo 6,37). É verdade que vos ofendi mais que os outros, porque mais que os outros fui favorecido por vossa luz e vossa graça. Mas anima-me o sangue que por mim derramastes, e me fez esperar o perdão se me arrepender sinceramente. Sim, Sumo Bem de minha alma, arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado. 
Perdoai-me e concedei-me a graça de vos amar para o futuro. Basta de ofensas. Não quero, meu Jesus, empregar o resto de minha vida em injuriar-vos; quero unicamente empregá-la em chorar sem cessar os ultrajes que vos fiz, e em amar-vos de todo o coração. Ó Deus, digno de amor infinito! Ó Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim! 



Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Catecismo - 9º Artigo (continuação): Na comunicação dos santos


1. Estas palavras: creio na comunicação dos santos, significam que os bens espirituais da Igreja são comuns a todos os seus membros unidos entre si como os membros de uma mesma família ou de um mesmo corpo.
2. A palavra comunicação quer dizer aqui comunidade. Assim como há comunidade de bens entre todos os membros de uma mesma família, assim também há na Igreja comunidade de bens espirituais entre todos aqueles que a compõem.
3. Dá-se o nome de santos, não só aos bem-aventurados que estão no céu e às almas do purgatório, como ainda aos fiéis da terra, porque foram santificados pelo batismo e são chamados a viver uma vida santa.
4. Os bens espirituais da Igreja são: os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos, os sacramentos, o santo sacrifício da missa, as orações e as boas obras.
5. A comunicação dos santos não existe apenas entre os fiéis que vivem sobre a terra, mas ainda entre a Igreja triunfante, a Igreja militante e a Igreja padecente.
6. A Igreja triunfante é a reunião dos santos que triunfam com Jesus Cristo no céu.
7. A Igreja militante é a reunião dos fiéis que combatem na terra contra os inimigos da salvação.
8. A Igreja padecente é a reunião das almas dos justos que acabam de expiar as suas culpas antes de entrar no céu.
9. O purgatório é este lugar de sofrimentos onde as almas dos justos acabam de expiar as suas culpas antes de entrar no céu.
10. Estão no purgatório aqueles que morreram em estado de graça, não se achando todavia completamente isentos de pecados veniais ou que não satisfizeram ainda inteiramente a Justiça de Deus.
11. A existência do purgatório é certa. Com efeito Jesus Cristo diz no Evangelho que as blasfêmias contra o Espírito Santo não serão perdoados neste mundo nem no outro. Nosso Senhor dá-nos assim a entender que outros pecados serão perdoados depois desta vida. Ora, não o podem ser no céu, onde não entra o pecado, nem no inferno, onde não há perdão. Portanto serão no purgatório.
12. Estamos em comunicação com os santos que estão no céu enquanto oramos por eles, e eles intercedem por nós.
13. Estamos em comunicação com as almas do purgatório, enquanto as aliviamos com as nossas orações, as nossas boas obras, pelas indulgências e sobretudo pelo santo sacrifício da missa.
14. As orações que ordinariamente se rezam para as almas do purgatório são: o ofício dos mortos, o salmo De profundis, e a invocação: que as almas dos fiéis defuntos descanse em paz pela misericórdia de Deus.
15. Os fiéis da terra estão em comunicação entre si enquanto cada um deles aproveita das orações e boas obras que se fazem em toda a Igreja.
16. Nem todos participamos destes bens no mesmo grau, que é maior ou menor segundo os nossos merecimentos.
17. Os próprios pecadores tem uma qualquer parte nesta comunicação de bens espirituais, de que lhes  advêm graças que podem aproveitar para se converterem.
18. Não participam de modo algum dos bens espirituais da Igreja aqueles que não são membros dela, como os hereges, cismáticos, e excomungados.
19. Por estas palavras: Fora da Igreja não há salvação devemos entender que é absolutamente impossível a salvação àqueles que voluntariamente e de má fé se conservam fora da verdadeira Igreja.

Explicação da gravura

20. Representa esta gravura a comunicação dos santos, na multidão dos santos e dos anjos que estão no céu, nos fiéis da terra e nas almas do purgatório.
21. Na parte superior da gravura os Anjos e os santos adoram as três pessoas da Santíssima Trindade, rogando-lhes pelos fiéis que vivem sobre a terra.
22. Ao centro, estes fiéis assistem ao santo sacrifício da missa, invocando os santos do céu, orando uns pelos outros e pedindo a libertação das almas do purgatório.
23. O plano inferior representa o purgatório. As águas refrescantes que os dois anjos derramam sobre as almas simbolizam o alívio que se lhes obtém pelo santo sacrifício da missa.



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O valor da Santa Missa

 
 


Na hora da morte, as Missas a que houveres assistido serão a tua maior consolação.
Toda Missa perora o teu perdão junto da justiça divina.
Em toda Missa podes diminuir a pena temporal devida aos teus pecados, e diminuí-la mais ou menos consoante o teu fervor.
Assistindo com devoção à Missa, prestas a maior das honras à santa Humanidade de Jesus Cristo.
Ele compadece-te de muitas das tuas negligências e omissões.
Perdoa-te os pecados veniais não confessados, dos quais, porém, te arrependeste.
Diminui o império de Satanás sobre ti.
Sufraga as almas do purgatório da melhor maneira possível.
Uma só Missa a que houveres assistido em vida ser-te-á mais salutar que muitas a que outros assistirão por ti depois da tua morte, pois, pela missa participas da Paixão, Morte e Ressureição de Cristo.
A missa preserva-te de muitos perigos e desgraças que te abateriam.
Toda Missa diminui o teu purgatório.
Toda Missa alcança-te um grau de glória maior no céu.
Na Missa recebes a benção do sacerdote a qual Nosso Senhor ratifica no céu.
És abençoado em teus negócios e interesses pessoais.


"Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em ouvir devotamente uma só Missa do que distribuir todas as riquezas aos pobres e peregrinar toda a terra".
São Bernardo
 
 
"Nosso Senhor nos concede tudo o que lhe pedimos na Santa Missa: e o que mais vale é que nos dá ainda o que nem sequer cogitamos pedir-lhe e que entretanto, nos é necessário".
São Jerônimo
 
 
 
"Se conhecêssemos o valor do Santo Sacrifício da Missa, que zelo não teríamos em assistir a ela!"


Cura d'Ars
 
 
"A Missa é o sol da Igreja".
São Francisco de Sales
 
 
 
 
Autor desconhecido.
Folheto antigo - com aprovação eclesiástica.