segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Nossa Senhora do Rosário




  Festa a 7 de outubro

 Na sua forma atual o Rosário tem por autor S. Domingos, fundador da Ordem dos Padres Pregadores ou Dominicanos, por uma revelação particular de Maria no ano de 1206.

No princípio do século XIII, quando os albigenses infestavam o sul da França, tendo produzido pouco fruto a pregação de zelosos missionários, voltou-se S. Domingos aflitíssimo, para a Ss. Virgem, pedindo-lhe instantemente que lhe inspirasse um meio de vencer a obstinação dos fanáticos e perigosos albigenses.

Maria, sempre bondosa e complacente, aparece ao seu servo e consola-o, ensinando-lhe a rezar o Rosário, que seria uma arma poderosíssima com que Domingos converteria grande número de pecadores.

O servo de Deus prega então outra vez, com novo ardor, propagando a devoção do Rosário; e as conversões se multiplicam com rapidez extraordinária.

Progrediu tanto esta devoção, que 50 anos depois da aparição de Nossa Senhora a S. Domingos milhares de hereges tinham voltado ao seio da Igreja, e milhares de pecadores tinham abraçado a penitência.

Dizem os autores contemporâneos de S. Domingos que ele converteu mais de cem mil almas depois que começou a ensinar a devoção do Rosário.

Depois da vitória de Lepanto, vitória esta obtida por uma particular proteção da Ss. Virgem, o Papa Pio V instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória.

Dois anos mais tarde, Gregório XIII, seu sucessor, mudou êste título pelo de Nossa Senhora do Rosário, transferindo a festa para o primeiro domingo de outubro. Atualmente a festa é celebrada a 7 do mesmo mês.

Talvez tenha sido Gregório XIII, portanto, quem deu êste novo título a Nossa Senhora, ou, por outra, quem o sancionou, pois é provável que já o usassem desde que Nossa Senhora apareceu a S. Domingos, ensinando-lhe a devoção do Rosário. 

Nossa Senhora do Rosário, livrai-nos das heresias!...

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Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

Foto: https://i.pinimg.com/originals/6d/e9/95/6de995a09927a2ca0db4dc9fe4e8b38d.jpg

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Nossa Senhora de Rancoudray



 Rancoudray - França


O Santuário de Nossa Senhora de Rancoudray é célebre no departamento da Mancha.

O seu atual Cura informou que os peregrinos contam-se aos milhares.

A origem deste título é bem antiga, pois remota à segunda metade do século XII, e provém de uma aparição de Nossa Senhora a um pastor, em um bosque de aveleiras. 

Antigamente "ran" significava "carneiro", e "coudray" é a corrupção da palavra "coudrier", aveleira.

As grandes peregrinações são feitas principalmente durante o mês de maio e no dia da Ascensão do Senhor. 

As grandes peregrinações são feitas principalmente durante o mês de maio e no dia da Ascensão do Senhor.

Muitas graças são obtidas pelas pessoas que para lá se dirigem isoladamente ou em grupos ou em romarias.

(Versão do livro "Mille Pèlerinages de Notre-Dame", de I. Couturier de Chefdubois.)


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Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

Foto: Igreja Saint Clement Rancoudray - França.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/1a/FranceNormandieSaintClementRancoudrayStClementEglise.jpg/640px-FranceNormandieSaintClementRancoudrayStClementEglise.jpg

sábado, 10 de fevereiro de 2024

As condições da oração

                                                             

                                                                   Livro: A Oração - Cap. III

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


 I - Por quem e o que devemos pedir



1. As condições da oração

Jesus Cristo fez-nos a seguinte promessa: "Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai, em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Muitos, diz São Tiago, pedem e não recebem, porque pedem mal: "Pedis e não recebeis porque pedis mal" (Tg 4,3). São Basílio, explicando as palavras do Apóstolo, diz: "Pedes e não recebes, porque tua oração foi malfeita ou sem fé, sem devoção ou desejo; ou porque pediste coisa que não se referia à tua salvação eterna, ou pediste sem perseverança". Por isso Santo Tomás reduziu a quatro as condições requeridas na oração, para que obtenham o seu fruto: isto é, que o homem peça para si coisas necessárias à salvação, com devoção e com perseverança. 


2. A primeira condição da oração é que rezemos por nós mesmos

Pois o Doutor Angélico julga que ninguém pode impetrar para outros, como mérito de justiça, a vida eterna e, por conseguinte, também as graças necessárias para a salvação deles, porque a promessa, diz ele, foi feita não para os que rezam para outros, mas os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á. 

Não obstante, há muitos doutores que afirmam o contrário, apoiados na autoridade de São Basílio, que ensina ter a oração infalivelmente o seu efeito, ainda que se reze pelos outros, contanto que esses não oponham uma resistência positiva. Estes escritores se baseiam sobre textos das Sagradas Escrituras: "Orai uns pelos outros, para serdes salvos, porquanto muito vale a oração perseverante do justo" (Tg 5,16). "Rezai pelos que vos perseguem e caluniam" (Mt 5,44). O melhor texto é de São João: "Se alguém vir seu irmão cometer um pecado, que não é de morte, peça e será concedida a vida àquele cujo pecado não é de morte" (1Jo 5,16). As palavras: Cujo pecado não é de morte, Santo Agostinho, Beda, Ambrósio e outros explicam que se devem entender do pecador, que não quer viver obstinado até a morte; pois, para tal pecador, seria necessário uma graça muito extraordinária. Quanto aos outros pecadores, não atingiriam um grau tão alto de maldade, se alguém rezar por eles, promete-lhe, o Apóstolo, a conversão deles: "Peça e será dada a vida ao pecador". 


3. As orações pelos outros, mormente pelos pecadores, são muito agradáveis a Deus

Não se duvida, entretanto, que as orações que fazemos pelos outros, mormente pelos pecadores, sejam muito agradáveis a Deus. O Senhor queixa-se de seus servos, que não rezam pelos pecadores. Um dia, lamentava-se Nosso Senhor a Santa Maria Madalena de Pazzi, a quem disse: "Vede, minha filha, como caem os cristãos nas mãos do demônio; se os meus escolhidos não os livrassem por suas orações, seriam tragados por ele". De um modo todo especial, porém, Nosso Senhor deseja e exige isso dos sacerdotes e religiosos. Por isso, dizia muitas vezes a santa às suas religiosas: "Irmãs, Deus nos separou do mundo, não somente para fazermos bem a nós mesmas, mas também para procurarmos aplacar sua ira contra os pecadores". Falou-lhe, uma vez, o Senhor: "Eu vos dei, a vós, esposas escolhidas, a cidade de refúgio (isto é, a Paixão de Jesus Cristo), para que tenhais onde recorrer para ajudar minhas criaturas; por isso, recorrei a ela e ali oferecei auxílio às minhas criaturas que perecem; sacrificai mesmo a vossa vida por elas". Pelo que a santa, inflamada de tanto zelo, oferecia a Deus, cinquenta vezes por dia, o sangue do Redentor pelos pecadores e se consumia em desejos por sua conversão, dizendo: "Que pena, Senhor! Como sinto ver que posso ajudar às tuas criaturas com o sacrifício de minha vida e, contudo, não poder realizá-lo!"

Ela, em todos os exercícios de piedade, recomendava os pecadores a Deus; e em sua vida se conta que não passava uma hora do dia em que não pedisse por eles. Frequentemente levantava-se à meia-noite e se dirigia à igreja, onde estava o Santíssimo Sacramento, para rezar pelos pecadores. Apesar de tudo isso, foi encontrada uma vez a chorar e, interrogada do motivo das lágrimas, respondeu: "Porque me parece que nada faço pela conversão dos pecadores". Chegou até a se oferecer a padecer as penas do inferno pela conversão deles, contanto que lá não tivesse de odiar a Deus. Frequentes vezes conseguiu ser atormentada de graves dores e enfermidades pela salvação dos pecadores. Rezava especialmente pelos sacerdotes, vendo que estes, com uma vida exemplar, seriam causa da salvação de muitos e com uma vida má levariam grande número à ruína e à perdição. Pedia a Nosso Senhor que a castigasse pelas culpas deles e dizia: "Senhor, fazei-me morrer tantas vezes e tornar à vida, até satisfazer por eles à vossa justiça". Em sua vida, conta-se que a santa, por suas orações, libertou de fato muitas almas das garras de Satanás.


4. Rezemos muito pela conversão dos pecadores!

Quis propositadamente dizer alguma coisa mais particular sobre o zelo desta santa. Enfim, todas as almas que amam sinceramente a Deus não cessam de rezar pelos pobres pecadores. E como é possível que uma pessoa que ama a Deus, vendo o amor que tem às almas e o que fez e sofreu por ela Nosso Senhor Jesus Cristo e o desejo que tem o Salvador que rezemos pelos pecadores, como é possível, digo, ver indiferente tantas almas vivendo sem Deus, feitas escravas do inferno e não se mover e se esforçar por pedir com insistência ao Senhor, queira conceder luzes e energias a estes infelizes, para saírem do estado em que se acham?

É certo que Deus não prometeu atender-nos, quando aqueles por quem rezamos se opõem à conversão. Entretanto, Nosso Senhor, por bondade e em atenção às orações de seus servos, dignou-se reconduzir ao caminho da salvação mesmo os pecadores mais obcecados e obstinados. Por isso, recomendemos sempre a Deus os pobre pecadores ao celebrarmos a santa Missa, na comunhão, na meditação e na visita ao Santíssimo Sacramento.

Diz um ilustre escritor que, rezando pelos outros, seremos atendidos mais prontamente do que quando rezamos por nós mesmos. Disse isso de passagem. Examinemos as outras condições da oração segundo Santo Tomás. 


5. A segunda condição

É que peçamos as graças necessárias à salvação, porque a promessa divina não foi dada para os bens temporais, que não são necessários à salvação da alma. Diz Santo Agostinho, explicando as palavras do Evangelho, em meu nome, anteriormente citadas, que "não se pede em nome do Salvador o que é contrário aos interesses de nossa salvação".


6. Motivos por que Deus muitas vezes parece não nos atender

Às vezes, pedimos algumas graças temporais e Deus não nos atende; mas não nos atende porque nos ama, diz o mesmo Doutor, e quer usar de misericórdia para conosco: "Quem pede a Deus humilde e confiantemente coisas necessárias para esta vida, ora é ouvido por misericórdia e ora não é atendido por misericórdia; pois, do que o doente tem necessidade, melhor sabe o médico do que o doente". O médico que se interessa pelo doente nunca permitirá coisas que lhe possam fazer mal.

Quantos, se fossem pobres ou doentes, não cometeriam os pecados que cometem sendo ricos e sadios! Por isso o Senhor nega a alguns, que lhe pedem a saúde do corpo ou os bens da fortuna, porque os ama, vendo que isso lhes seria ocasião de perderem a sua graça, ou ao menos de se entibiarem na vida espiritual. Contudo, não queremos dizer com isso que seja uma falta pedir a Deus as coisas necessárias à vida presente, contanto que estejam em relação com a salvação eterna, como pediu o sábio: "Dai-me, Senhor, unicamente o que for necessário para viver" (Pr 30,8). Não é uma falta, diz Santo Tomás, ter um cuidado moderado por estas coisas; proibido é desejar e procurar estes bens como principais e ter por eles um cuidado demasiado, como se formassem toda a nossa felicidade. Quando pedirmos a Deus bens temporais, devemos pedi-los com resignação e sob a condição de aproveitarem à alma. Se vemos que o Senhor não os concede, tenhamos por certo que os nega pelo amor que nos tem e porque prevê que vão prejudicar à salvação de nossa alma.


7. Quando Deus não atende é sempre para nosso próprio bem

Muitas vezes pedimos a Deus que nos livre de alguma tentação perigosa, e Deus não nos atende e permite que a tentação continue. Nesse caso, devemos entender que Deus assim permite para nosso próprio bem. Não são as tentações e maus pensamentos que nos afastam de Deus, mas sim o consentimento dado. Quando a alma tentada se recomenda a Deus e, com o seu auxílio, resiste aos ataques de seus inimigos, progride na virtude e une-se mais estreitamente a Ele. Esta é a razão por que o Senhor deixa de atendê-la. São Paulo pedia insistentemente ao Senhor que o livrasse das tentações impuras: "Permitiu Deus que sentissse em minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás, para me esbofetear; por cuja causa roguei ao Senhor três vezes que o afastasse de mim" (2Cor 12,7). Mas o Senhor respondeu: "Basta-te a minha graça".

Devemos, pois, nas tentações pedir a Deus com resignação, dizendo: Senhor, livrai-me deste tormento, se assim for conveniente para minha salvação; senão, dai-me ao menos o auxílio para resistir-lhe.

Devemos lembrar aqui o que diz São Bernardo, que, quando pedimos a Deus alguma graça, Ele nos dá a graça pedida ou outra melhor. Deus muitas vezes nos deixa sofrer no meio da tempestade, a fim de provar a nossa fidelidade e para o nosso maior proveito. Parece, então, surdo às nossas orações. Não! Estejamos seguros de que Deus nos ouve e nos ajuda ocultamente, dando-nos forças para resistirmos aos assaltos dos inimigos. Isto Ele nos assegura por boca do Salmista: "Na tribulação me invocaste e te livrei: eu te ouvi no escondido da tempestade; provei-te junto à água da contradição" (Sl 80,8).


8. Condições dadas por Santo Tomás

Finalmente eis as outras condições que Santo Tomás exige para a oração: Que se reze com devoção e perseverança. Com devoção, quer dizer, com humildade e confiança; com perseverança, quer dizer, sem deixar de rezar até a morte.  

Destas condições, pois, da humildade, confiança e perseverança, que são as mais necessárias à oração, importa falar de cada uma distintamente. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.




terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O valor da oração


 Livro: A Oração - Cap. II

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




1. Como são preciosas a Deus as nossas orações!

São tão preciosas a Deus as nossas orações que Ele destinou os Anjos para lhe apresentarem imediatamente as que estamos fazendo. "Os anjos, diz Santo Hilário, presidem as orações dos fiéis e diariamente as oferecem a Deus". É este exatamente aquele sagrado incenso, isto é, as orações dos santos, que São João viu subir ao Senhor, oferecido pelas mãos dos anjos. Escreveu o mesmo Santo Apóstolo que as orações dos Apóstolos são como redomas de ouro, cheias de suave perfume e muito agradáveis a Deus.

Mas, para melhor compreendermos quanto valem junto de Deus as nossas orações, basta ler nas Sagradas Escrituras as inumeráveis promessas que Deus faz a quem reza, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. "Chama por mim, e eu te ouvirei" (Jr 33,3). "Invoca-me e eu te livrarei" (Sl 49,15). "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7). "Vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem" (Mt 7,11). "Todo aquele que pede, recebe; todo o que busca, acha" (Lc 11,10). "Qualquer coisa que pedirem ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19). "Tudo o que pedirdes orando, crede que haveis de receber e que assim vos sucederá" (Mc 11,24). "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu vos farei" (Jo 14,14). "Pedi tudo o que quiserdes e vos será concedido" (Jo 15,7). "Em verdade eu vos digo: se pedirdes ao meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará" (Jo 16,23). Existem muitos outros textos semelhantes que deixamos de citar por brevidade.


2. Sem oração não há vitória

Deus quer salvar-nos. Entretanto, quer salvar-nos como vencedores. Estando, pois, nesta vida, achamo-nos em uma guerra contínua e para nos salvar temos de combater e vencer. "Sem ter vencido, ninguém poderá ser coroado", diz São João Crisóstomo. Somos muito fracos e os inimigos, numerosos e fortes. Como enfrentá-los e vencê-los? Tenhamos coragem e digamos com o Apóstolo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). Tudo poderemos com a oração, por meio da qual Deus nos dará o que não temos. Escreveu Teodoreto que a oração é todo-poderosa. Ela é uma, entretanto, pode obter todas as coisas: "A oração, sendo uma em si, pode tudo". E São Boaventura afirma que, pela oração, se obtém todos os bens e a libertação de todos os males. Dizia São Lourenço Justiniano que, pela oração, construímos uma torre fortíssima, onde estaremos livres e seguros de todas as insídias e violência dos inimigos. São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios, diz São Bernardo, e com razão, pois com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas. Assim animava-se Davi em seus desfalecimentos: "Invocarei o Senhor louvando-o e livre serei de meus inimigos" (Sl 17,4). Em resumo, diz São João Crisóstomo, a oração é uma grande armadura, uma defesa, um porto, um tesouro. A oração é uma valiosa arma para vencer os assaltos dos demônios; é uma defesa, que nos conserva em todos os perigos; é um porto seguro contra toda tempestade; é um tesouro, que nos provê de todos os bens.


3. Rezemos para alcançar forças contra os nossos inimigos! 

Deus sabe quão salutar é para nós a necessidade de orar. Por isso permite, como foi dito no capítulo primeiro, que sejamos assaltados pelos inimigos, para pedirmos o auxílio que nos oferece e promete. Mas quanto lhe é agradável quando o invocamos nos perigos, tanto lhe desagrada o ver-nos descuidados da oração.

Assim como o rei, diz São Boaventura, julgaria traidor o capitão, que sitiado em uma praça não lhe pedisse socorro, assim Deus considera traidor aquele que, vendo-se assaltado pelas tentações, a Ele não recorre pedindo auxílio. Pois deseja e espera que lhe peçamos para nos socorrer fartamente. Uma prova disso encontramos nas Sagradas Escrituras, nas censuras, que o profeta Isaías fez ao rei Acaz. O profeta convidou-o em nome de Deus a pedir um sinal, a fim de certificar-se do socorro que o Senhor desejava dar-lhe: "Pede algum sinal do Senhor para ti" (Is 7,11). O ímpio rei respondeu: "Não o pedirei nem tentarei a Deus".

Assim disse, porque confiava em suas forças para vencer o inimigo, sem auxílio divino. Mas o profeta repreendeu: "Ouvi, pois casa de Davi! Porventura não vos basta ser molestos aos homens, quereis também molestar Deus?" Dizendo com isto que se torna molesto e injurioso a Deus, quem deixa de lhe pedir graças que o Senhor oferece.


4. Convites à oração

"Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais carregados e vos aliviarei" (Mt 11,28). Pobres filhos meus, diz o Salvador, que vos achais perseguidos por vossos inimigos e acabrunhados com o peso de vossos pecados, não vos abandone a coragem, recorrei a mim pela oração e eu vos darei forças para resistir e refazer-vos de todas as desgraças. Em outro lugar, diz, por boca de Isaías: "Vinde e argúi-me, diz o Senhor; se os vossos pecados forem como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18). Homens, diz ele, recorrei a mim e, ainda quando tiverdes a consciência assaz manchada, não deixeis de vir. Permito até que me acuseis, por assim dizer, se recorrendo a mim, não vos fizer, por minha graça, brancos como a neve.

Que é oração? Ouçamos São João Crisóstomo: "A oração é âncora para os flutuantes, tesouro para os pobres, remédio para os doentes e preservativo para os sãos". A oração é uma âncora segura para quem está em perigo de naufragar, é um tesouro imenso de riquezas para quem é pobre, é um remédio eficacíssimo para os enfermos e um fortificante certo para nossa saúde.

Que faz a oração? Ouçamos São Lourenço Justiniano: "A oração aplaca a ira de Deus, porquanto Deus perdoa logo a quem com humildade lhe pede, concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; em resumo, tranforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos".

Quem necessita de luz, peça a Deus e lhe será dada. Logo que socorri a Deus, diz Salomão, Ele deu-me a sabedoria: "Invoquei e veio sobre mim o espírito da sabedoria" (Sb 7,7). Quem precisar de fortaleza, invoque a Deus e ser-lhe-á dada: logo que abri a boca para pedir, disse Davi, recebi o auxílio do Senhor: "Abri a boca e atraí alento" (Sl 118,134). E se os santos mártires resistiram tão corajosa e constantemente aos tiranos, não foi a oração que lhes deu força e vigor para suportar os tormentos e a morte?


5. Confiai e rezai! Deus virá em vosso auxílio

Quem se vale da oração, desta grande arma, diz São Pedro Crisólogo, ignora a morte, deixa a terra, entra no céu e vive com Deus. Não cai em pecado, perde o apego das coisas da terra, entra no céu e já nesta vida começa a gozar da presença de Deus. 

De que serve, pois, alguém angustiar-se e dizer: Estarei inscrito no livro da vida? Quem sabe se Deus me dará a graça eficaz e a perseverança? "Não vos preocupeis, mas com muitas orações e rogos, com ação de graças, sejam conhecidas as vossas súplicas diante de Deus!" (Fl 4,6). De que serve, diz o Apóstolo, pertubar-vos com estes pensamentos angustiantes e com estes temores? Afugentai, portanto, todas essas ansiedades que só servem para diminuir a vossa confiança e tornar-vos mais tíbios e preguiçosos no caminho da salvação.

Rezai sempre; fazei que vossas orações sejam ouvidas por Deus e agradecei-lhe sempre as promessas que vos fez de conceder-vos sempre os dons que pedis, a graça eficaz, a perseverança, a salvação, e tudo o que quiserdes. O Senhor pôr-nos em batalha contra poderosos inimigos, mas é fiel às suas promessas. Não consente que sejamos atacados além das nossas forças. "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças" (1Cor 10,13). É fiel, porque socorre imediatamente a quem o invoca.

Escreve o douto e eminentíssimo Cardeal Gotti que o Senhor não é obrigado a dar-nos sempre uma graça igual à tentação, mas é obrigado, quando somos tentados e recorremos a Ele, a dar-nos por meio da graça (que para todos tem preparada e oferece) a força suficiente, com que oportunamente possamos resistir às tentações: "Em virtude de graça que põe à nossa disposição e nos oferece, Deus é obrigado a conceder-nos, quando somos tentados e a ele recorremos, as forças necessárias para podermos resistir e para que resistamos de fato; pois tudo podemos naquele que nos conforta pela graça, se humildemente pedirmos". Tudo podemos com o auxílio divino, que será concedido sempre a quem pede; por isso não temos desculpas, quando somos vencidos pela tentação. Fomos vencidos, porque não rezamos. Pela oração, podemos desarmar todas as ciladas do demônio. Pela oração, diz Santo Agostinho, afugentamos todos os males.


6. A oração é uma embaixadora

Diz São Bernardino de Sena que a oração é uma fiel embaixadora, bem conhecida do Rei dos céus e acostumada a entrar em seu gabinete e a mover, com sua importunação, o piedoso ânimo do Rei, a fim de que conceda todo o socorro a nós miseráveis, que gememos no meio de tantos combates e misérias, neste vale de lágrimas. "A oração é a mais fiel embaixadora, conhecida do Rei, que está acostumada a entrar em seu gabinete e a comovê-lo com sua importunação, a fim de impetrar auxílio para nós miseráveis".

Assegura-nos também Isaías que, assim que o Senhor percebe nossas orações, move-se logo à compaixão e não deixa que choremos e suspiremos muito tempo: no mesmo momento nos atende e concede o que lhe pedimos. "Tu, de nenhuma forma, chorarás mais; ele te concederá a graça por causa dos seus gemidos e logo que ouvir a tua voz, te atenderá" (Is 30,19). Em outro lugar, fala o Senhor por boca de Jeremias e, queixando-se de nós, diz: "Porventura tenho sido eu para Israel um deserto ou terra tardia? Por que diz: Nós nos retiramos, não voltaremos mais para ti? (Is 2,31) Por que, pergunta o Senhor, dizeis que não quereis mais recorrer a mim? Porventura será a minha misericórdia uma terra estéril para vós, que não vos possa dar fruto de graça? Ou terra tardia, que produza fruto muito tarde? Com isso, nosso amoroso Senhor queria dar-nos a entender que jamais deixa de atender-nos; e, ao mesmo tempo, quis repreender os que deixam de rezar, por julgar não serem atendidos.


7. Deus nos atende a qualquer hora

Se Deus nos admitisse a apresentar-lhes as nossas súplicas só uma vez por mês, seria já um grande favor. Os reis da terra dão audiência poucas vezes ao ano, mas Deus dá audiência continuamente. 

Escreve São João Crisóstomo que Deus está continuamente pronto para ouvir as nossas orações, e nunca acontece que não atenda a quem lhe pede como convém: "Deus está sempre pronto a ouvir a voz de seus servos e nunca acontecerá  que não atenda, sendo invocado como convém". Diz, além disso, que quando rezamos, antes de terminarmos a exposição de nossas súplicas, Deus já nos atende. Sempre atende o que se pede, ainda enquanto estamos pedindo. Disso temos promessa divina: "Estando eles falando ainda, eu os ouvirei" (Is 65,24). O Senhor, diz Davi, está perto de quem o invoca, para escutá-lo, atendê-lo e salvá-lo: "Perto está o Senhor de todos os que o invocam; sim, de todos os que com razão o invocam; satisfaz a vontade dos que o temem; ouve os gemidos e salva-os" (Sl 144,19).Era disso que se gloriava Moisés, dizendo: "Não há nenhuma outra nação tão grande que tenha deuses tão próximos de si, como nosso Deus está presente em todas as nossas orações" (Dt 4,7). Os deuses dos gentios eram surdos às vozes dos que os invocavam, porque eram míseras criaturas, que nada podiam; mas nosso Deus, que tudo pode, não é surdo às nossas súplicas; pelo contrário, está sempre perto de quem o invoca e concede todas as graças pedidas: "Em qualquer dia em que eu te invocar, logo conhecerei que és o meu Deus" (Sl 55,11). Senhor, dizia o salmista, nisto reconheci que sois vós meu Deus, todo bondade e misericórdia, porquanto sempre que a vós recorro, me socorreis imediatamente. 


8. Somos pobres, mas Deus é rico

Somos pobres, mas, se pedirmos, já não somos mais pobres. Se nós somos pobres, Deus é rico. E Deus é imensamente liberal, diz o Apóstolo, para com aquele que o chama em auxílio: "Deus é rico para todos os que o invocam" (Rm 10,12). E uma vez que, exorta Santo Agostinho, temos de nos entender com um Senhor de infinita riqueza e poder: "Peçamos-lhe não coisas pequenas e vis, mas sim coisas grandes". Se alguém pedisse ao rei uma pequena quantia, com isso não lisonjearia de forma alguma a sua bondade. Pelo contrário, honramos a Deus, honramos a sua misericórdia e a sua liberalidade, quando, à vista de nossa miséria e indignidade, lhe pedimos grandes graças, confiados em sua bondade e fidelidade, pois Ele prometeu: "Tudo o que quiserdes, pedi e vos será dado" (Jo 15,7). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que o Senhor sente-se honrado com isso e fica tão consolado com as nossas orações que até, de certo modo, nos agradece. Porque assim lhe abrimos o caminho de seus benefícios, pois o seu desejo é fazer bem a todos. E podemos estar certos de que, quando pedimos alguma graça, recebemos sempre mais do que pedimos: "Se alguém necessita de sabedoria, peça a Deus, que a todos dará fartamente sem palavras duras" (Tg 1,5). Assim diz São Tiago para denotar que Deus não é, como os homens, avaro de seus bens. Os homens, apesar de ricos, piedosos e liberais, quando dão suas esmolas, são sempre estreitos e de mãos curtas. E a maior parte das vezes dão menos do que se lhes pede, porquanto, por maior que seja, sua riqueza é limitada; por isso, quanto mais dão, tanto mais lhes faltará. Deus, porém, quando é invocado, dá os seus bens com toda abundância, largamente, sempre mais do que se lhes pede, porquanto a sua riqueza é infinita; quanto mais dá, mais tem para dar: "Porquanto, Senhor, sois bom e manso e de muita misericórdia para com todos os que Vos invocam" (Sl 85,5). Vós, meu Deus, dizia Davi, sois liberal e sumamente misericordioso com quem Vos invoca. São tão ricas as graças que dispensais, que excedem as pedidas. 


9. O grande papel das súplicas durante a oração

Todo o nosso cuidado deve consistir em rezar com confiança, certos de que, orando, estarão para nós abertos todos os tesouros do céu. "Que este seja nosso cuidado, diz São João Crisóstomo, e, então, abrir-se-á para nós o céu". E São Boaventura diz que todas as vezes que o homem recorre devotamente ao Senhor pela oração, ganha bens que valem mais do que todo o mundo. "Em um dia ganha o homem, pela oração, mais do que vale o mundo".

Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas pouco se ocupam com as súplicas. Não resta dúvidas de que a leitura espiritual e a meditação das verdades eternas sejam coisas de muita utilidade, mas muito mais úteis, diz Santo Agostinho, são as súplicas. Nas leituras e meditações ficamos conhecendo as nossas obrigações. mas na oração obtemos as graças de cumpri-las. "Melhor é rezar do que ler: na leitura ficamos conhecendo o que devemos fazer, mas na oração recebemos o que pedimos". De que serve saber o que devemos fazer e depois não o fazer? De que serve senão para nos tornarmos mais culpados perante Deus? Leiamos e meditemos quanto quisermos, nunca, entretanto, cumpriremos o nosso dever, se não pedirmos a Deus os auxílios necessários.


10. A necessidade da súplica na oração

Por isso, como diz Santo Isidoro, em tempo algum o demônio sugere tantos pensamentos vãos e terrenos à alma do que quando esta procura rezar e pedir graça a Deus: "Quando o demônio nos vê rezar, procura com todas as forças distrair-nos com pensamento fúteis". E por quê? Porque é justamente quando rezarmos que mais recebemos os tesouros dos bens celestes.

O maior fruto da oração mental é fazer-nos pedir a Deus as graças necessárias à perseverança e à salvação eterna. Este é o principal motivo por que a oração mental é moralmente necessária para se conservar a graça de Deus; pois, se a alma não se recolhe no tempo da meditação para pedir os auxílios necessários à salvação e à perseverança, não o fará em outro tempo, porquanto fora da meditação não pensa em pedi-los, nem mesmo se pensará na necessidade de há de pedi-los. Pelo contrário, quem faz dia por dia a sua meditação, conhecerá logo as necessidades de sua alma, os perigos em que se acha e a necessidade que tem de pedir. Assim rezará e obterá as graças necessárias para perseverar e alcançar a salvação. Falando de si mesmo, dizia o Padre Segneri, S. J., que, a princípio, se ocupava mais na oração de excitar afetos do que de pedir; mas, conhecendo depois a grande necessidade e a imensa utilidade dos pedidos, daí por diante nas muitas meditações que fazia se aplicava a fazer súplicas.


11. Peçamos, peçamos muito!

"Clamarei como o filhote da andorinha" (Is 38,14), dizia o piedoso rei Ezequias. Os filhotes da andorinha não fazem outra coisa do que chilrear procurando com isso o auxílio e alimento de sua mãe. Do mesmo modo devemos nós proceder. Se quisermos conservar a vida da graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, devemos gritar sempre, pedindo a Deus a graça, para evitarmos a morte do pecado e para avançarmos em seu santo amor. 

Refere o Padre Rodrigues, S. J., que os antigos padres do deserto, nossos primeiros mestres espirituais, fizeram entre si uma consulta para ver qual era o exercício mais necessário e útil à salvação eterna. Resolveram que era repetir a miúdo a breve oração de Davi: "Senhor, vinde em meu socorro!". O mesmo, escreve Cassiano, deve fazer quem quiser salvar-se, dizendo sempre: Deus meu, ajudai-me, meu Deus, ajudai-me! Isto devemos fazer, desde a manhã, quando despertamos, e depois continuar a fazê-lo em todas as nossas necessidades e durante as nossas ocupações, quer espirituais quer materiais, mormente, quando formos assaltados por qualquer tentação ou paixão.

Diz São Boaventura que, muitas vezes, a graça nos vem mais depressa por uma breve oração do que por muitas obras: "Às vezes, obtém-se mais depressa com uma breve oração o que dificilmente se alcançaria com boas obras". Acrescenta Santo Ambrósio: "Quem ora, enquanto ora, recebe porquanto rezar e receber é a mesma coisa: Quem reza, enquanto reza já recebe o que pede; pois pedir é receber".

São João Crisóstomo escreve que o homem mais poderoso é o que reza: Nada há mais poderoso do que um homem que reza", porque se faz participante do poder de Deus. Para chegarmos à perfeição, dizia São Bernardo, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação, vemos o que nos falta; pela súplica, recebemos o que nos é necessário: "Subamos pela meditação e pela petição! Aquela mostra o que nos falta, esta consegue que nada nos falte". 


12. Rezemos orações curtas, mas fervorosas! Se não nos salvarmos, a culpa é nossa

Em resumo, salvar-se sem a oração é dificílimo e até mesmo impossível, como vimos, segundo a ordem comum da providência. Entretanto, com a oração, a salvação é certa e fácil. Para a salvação não é necessário que alguém vá para a região dos infiéis, a fim de oferecer a sua vida; não é necessário retirar-se para um deserto e alimentar-se unicamente de ervas, mas é necessário rezar e dizer: Meu Deus, ajudai-me! Senhor, assisti-me, tende piedade de mim! Poderá haver coisa mais fácil do que isto? E este pouco será suficiente para nos salvar, se formos sempre cuidadosos em fazê-lo. 

De modo especial exorta-nos São Louremço Justiniano: que nos esforcemos por rezar no começo de todas as ações. Afirma Cassiano que os antigos padres do deserto exortavam insistemente a recorrer a Deus com breves, mas frequentes orações: "Ninguém tenha em pouca conta a oração - dizia São Bernardo -, porquanto Deus não a tem em pouca conta, pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil". Persuadamo-nos de que se não rezarmos, não temos desculpas, porquanto a graça de rezar é dada a todos e depende de nós rezarmos sempre que quisermos, como dizia Davi, falando de si mesmo: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida, dizendo-lhe: vós sois o meu amparo" (Sl 41, 9-10). Tratarei desse assunto mais detalhadamente na parte seguinte, demonstrando claramente que Deus dá a todos a graça de rezar, para que, rezando, possam obter todos os auxílios e até bem abundantes, para observar os seus mandamentos e perseverar até a morte. Agora só direi que, se não nos salvarmos, a culpa é nossa, porquanto não rezarmos.


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.