quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Como Jesus fundou a sua Igreja

Quando Jesus andava neste mundo, seu proceder foi inteiramente excepcional. Filho de mãe pobre, de nome Maria, desposada com um modesto carpinteiro, chamado José, não frequentou aulas. Aos trinta anos de idade começou repentinamente, sem preparação alguma, confiando unicamente em si mesmo, a pregar uma nova doutrina, dizendo-se Filho de Deus vivo. Jamais mortal algum, antes ou depois de Jesus, se lembrou de proclamar-se Deus. E ele provou a sua divindade, sua missão e doutrina com inúmeros milagres, cada qual mais estupendo. Enfim pôs remate a todos: ressuscitou ao terceiro dia como claramente predissera. 
Para provar ainda mais sua divindade e, por conseguinte, a de sua doutrina, de sua obra e de seu reino, escolheu pescadores, simples pescadores ignorantes, para fundar um reino acima de todos os reinos: são baldos de toda instrução superior, sem jurisprudência, sem filosofia, sem diplomacia, sem estratégia; falta-lhes tudo: dinheiro, recursos, exércitos, simplesmente tudo. 
Assim começaram a loucura da pregação, contrariando em tudo as inclinações humanas, declarando guerra a soberba, ao luxo, a riqueza, a sensualidade, ao gozo e a liberdade desenfreada, a tudo que o homem por natureza estima; eles declaram guerra sem tréguas a todas as religiões pagãs, a todos os deuses, que não são o Deus deles e dali a todas as instituições pagãs, a todos os sacerdotes pagãos, a todos os governos pagãos. 
E milagre dos milagres: eles venceram e estão vencendo ainda. 
O que parecia loucura rematada, revela-se sabedoria e poder divino, avança, derruba, triunfa. 
Contra os doze pescadores desarmados, ignorantes, as legiões romanas, jamais vencidas, se põem em movimento, marcham, desembainham os gládios luzentes e afiados. Agora, porém, se lhe opõe outro exército, capitaneado por pescadores, composto de gente inocua: homens e jovens sem armas, que nem querem defender-se, mas preferem oferecer sem resistência alguma os seus pescoços desnudados, para que sejam cortados; mulheres fracas, donzelas tímidas, até crianças.
Será possível que soldados briosos, que comandantes invictos se aviltem ao ponto  de enodar, sujar as suas espadas com sangue de gente pacata, inerme, até de mulheres e crianças? Sim. Fizeram-no! 
O sangue inocente, inocuo, corre a rios, embebendo a terra: a espada romana fica desprezada, pois ficou manchada de sangue imbele: a águia romana torna a ser simples ave de rapina, de garras sujas, manchada de sangue fraco, mas desprezível que o abutre, o urubu. 
Após três séculos de luta inglória para os romanos, a cruz é plantada sobre o frotispicio do Capitolio de Roma: Júpiter destronado jaz esmagado por terra, ainda úmida do sangue dos mártires da fé. 
Os pescadores venceram, imolando o seu próprio sangue. 
Assim se fundou o cristianismo, continuou pelos séculos, assim hoje ainda é: haja visto o México, a Hungria, a Turquia, a Rússia, a China: em breve seguirão outros países. 
Eis o maior milagre de Cristo Deus: a fundação e extensão de sua Igreja.
A vitória de Jesus continua, é a vitória dos mártires da fé. 
Após dezenove séculos (vinte e um) Jesus ainda vence até no sexo fraco: o corpo débil, tenro, duma criança inocente jaz morto por terra, ainda verte sangue, mas a vontade ficou firme, inabalável, não se dobrou, mas triunfou da ferocidade satânica; foi assim no tempo dos Cesares, e assim é hoje com Calles, Lenines, Trotzkys, Bela Kuns, Stalins e outros demônios em carne humana. 
O corpo sucumbe, mas a vontade, a alma venceu, apesar de atrocidades inauditas. A doutrina de Cristo é sublime e sem comparação: é divina. 
A sua verdade fulge e brilha para esclarecimento dos bem intencionados, ofuscando os olhos do espírito aos demais, que não querem o triunfo da virtude. 
Só Deus pode proceder e vencer assim. 

F.I. Westerveld, O.F.M - 1930

terça-feira, 24 de setembro de 2013

" Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29)

Ladainha da Humildade

( Que Dom Columba Marmion e o Servo de Deus, o Cardeal Merry del Val, entre outros, costumavam recitar frequentemente).
Santa Tereza: "Enquanto vivemos nesta terra, não há coisa que mais importa para nós do que a humildade" ( Cap. 2° das Moradas, n° 9).

Rezemos, pois, com frequência a Ladainha da Humildade!

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus, manso e humildade de coração, ouvi-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser amado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser buscado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser louvado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser honrado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser preferido, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser consultado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Jesus!
Do desejo de ser adulado, livrai-me, Jesus!

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser desprezado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser rejeitado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser caluniado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser esquecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser escarnecido, livrai-me, Jesus!
Do temor de ser injuriado, livrai-me, Jesus!

Que os outros sejam mais amados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam mais estimados do que eu - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam crescer na opinião do mundo e que eu possa diminuir - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que aos outros seja concedida mais confiança no seu trabalho e que eu seja deixado de lado - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros sejam louvados e eu esquecido - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser preferidos a mim em tudo - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo!
Que os outros possam ser mais santos do que eu, contanto que eu pelo menos me torne santo como puder - Ó Jesus, concedei-me a graça de desejá-lo! 
Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por nós!
São José, protetor das almas humildes, rogai por nós!
São Miguel, que fostes o primeiro a lutar contra o orgulho e o primeiro a abatê-lo, rogai por nós!

Ó justos todos, santificados a partir do espírito da humildade, rogai por nós!

Oração

Ó Deus que, através do ensinamento e do exemplo do Vosso Filho Jesus, apresentastes a humildade como chave que abre os tesouros da graça ( cfr. Tg 4,6) e como fundamento de todas as outras virtudes - caminho certo para o Céu - concedei-nos, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais humilde e a mais santa de todas as criaturas, aceitar agradecendo todas as humilhações que a Vossa Divina Providência nos oferecer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

A humildade
I. O que é

A humildade é a virtude sobrenatural que, pelo conhecimento de Deus e de nós mesmos, nos mostra nosso verdadeiro valor e, por isso, regula em nós as duas profundas e desordenadas inclinações da estima de si e do desejo de estima dos outros - opõe-se pois à soberba. 

II. Necessidade da Humildade

Jesus disse: "Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos Céus" (Mt 18, 3-4)

De fato, duas expressões sintetizam a vida do soberbo:

1. "Eu conto comigo" - Insensatez! Jesus, pois, disse: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15,17)

2. "Eu trabalho pra mim" Desordem e injustiça! Pois Deus deve ser o objeto final de tudo aquilo que Ele criou.

A vida do humilde, pelo contrário, sintetiza-se nas duas expressões opostas:

"Eu conto com Deus" Confiança e Coragem.

"Eu trabalho para Deus!" Reta intenção.

III. Difícil prática da Humildade

Três são os principais meios para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

1. Pedi-la incessantemente a Deus (ótimo hábito de rezar diariamente a Ladainha da Humildade).

2. Meditar frequentemente sobre os motivos pelos quais devemos ser humildes. Que não saiam de nossos olhos: a altíssima lição dos exemplos do Messias humilde em sua vida, em sua morte e na Eucaristia; e a insistente exortação de Jesus sobre a humildade de coração.

3. Aceitar, agradecendo, todas as humilhações que a Providência nos oferecer.

"Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes concede a graça" (Pr 3,36; 1P 5,5; Tg 9,4-6).

"Aquele que se exaltar será humilhado; e quem se humilhar será exaltado" (Mt 23,12).

Fonte: Folheto n° 6 da Série: "Doutrina Católica", editado pelo Instituto Diocesano Missionário dos Servos da Igreja - Com Aprovação Eclesiástica


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Maria - Mãe de Cristo, Mãe da Igreja




" Com efeito, a Virgem Maria (...) é reconhecida e honrada como a verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. (...) Ela é também verdadeiramente ' Mãe dos membros [de Cristo] (...), porque cooperou pela caridade para que na Igreja nascessem os fiéis que são os membros desta Cabeça'." " (..) Maria, Mãe de Cristo, Mãe da Igreja". 


I. A maternidade de Maria com relação à Igreja

TOTALMENTE UNIDA A SEU FILHO

O papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, decorrendo diretamente dela (dessa união). 
"Esta união de Maria com seu Filho na obra da salvação manifesta-se desde a hora da concepção virginal de Cristo até sua morte." Ela é particularmente manifestada na hora da paixão de Jesus:

A bem aventurada Virgem avançou em sua peregrinação de fé, manteve fielmente sua união com o Filho até a cruz, onde esteve de pé não sem desígnio divino, sofreu intensamente junto com seu unigênito. E com ânimo materno se associou a seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima por ela gerada. Finalmente, pelo próprio Jesus moribundo na cruz, foi dada como mãe ao discípulo com estas palavras: " Mulher, eis aí teu filho" (Jo 19,26-27).

Após a ascensão de seu Filho, Maria "assistiu com suas orações a Igreja nascente". Reunida com os apóstolos e algumas mulheres, "vemos Maria pedindo, também ela, com suas orações, o dom do Espírito, o qual, na Anunciação, a tinha coberto com sua sombra".

... TAMBÉM EM SUA ASSUNÇÃO...

"Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste.
E para que mais plenamente estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como Rainha do universo. A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:

Em vosso parto, guardastes a virgindade; em vossa dormição, não deixastes o mundo, ó mãe de Deus: fostes juntar-vos à fonte da vida, vós que concebestes o Deus vivo e, por vossas orações, livrareis nossas almas da morte.


...ELA É NOSSA MÃE NA ORDEM DA GRAÇA

Por sua adesão total à vontade do Pai, à obra redentora de seu Filho, a cada moção do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Com isso, ela é "membro supereminente e absolutamente único da Igreja", sendo até a "realização exemplar (typus)" da Igreja.
Mas seu papel em relação à Igreja e a toda humanidade vai ainda mais longe. "De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por este motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça."
"Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na anunciação, que sob a cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos. Assunta aos céus, não abandonou estes múnus salvífico, mas, por  sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. (...) Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, protetora, medianeira. 

" A missão materna de Maria em favor dos homens de modo algum obscurece nem diminui a mediação única de Cristo; pelo contrário, até ostenta sua potência, pois todo o salutar influxo da bem-aventurada Virgem (...) deriva dos superabundantes méritos de Cristo, estriba-se em sua mediação, dela depende inteiramente e dela aufere toda a sua força."
"Com efeito, nenhuma criatura jamais pode ser equiparada ao Verbo encarnado e Redentor. Mas, da mesma forma que o sacerdócio de Cristo é participado de vários modos, seja pelos ministros, seja pelo povo fiel, e da mesma forma que a indivisa bondade de Deus é realmente difundida nas criaturas de modos diversos, assim também a única mediação do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas uma variegada cooperação que participa de uma única fonte."

II. Culto da Santíssima Virgem

"Todas as gerações me chamarão bem-aventurada" (Lc 1,48).
" A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto  cristão".
A Santíssima Virgem " é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de 'Mãe de Deus', sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os perigos e necessidades. (...) Este culto (...) embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encarnado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece poderosamente"; este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, "resumo de todo o Evangelho".

III. Maria - ícone escatológico da Igreja

Depois de termos falado da Igreja, de sua origem, de sua missão e de seu destino, a melhor maneira de concluir é voltar o olhar para Maria, a fim de contemplar nela (Maria) o que é a Igreja em seu ministério, em sua "peregrinação de fé", e o que ela (Igreja) será na pátria ao termo final de sua caminhada, onde a espera, "na glória da Santíssima e indivisível Trindade", "na comunhão de todos os santos", aquela que a Igreja venera como a Mãe de seu Senhor e como sua própria Mãe:

Assim como no céu, onde está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a Igreja em sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta terra, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal da esperança segura e consolação para o Povo de Deus em peregrinação. 

RESUMINDO

Ao pronunciar o "fiat" (faça-se) da Anunciação e ao dar seu consentimento ao Mistério da Encarnação, Maria já colabora para toda a obra que seu Filho deverá realizar. Ela é Mãe onde Ele é Salvador e Cabeça do Corpo Místico.
Depois de encerrar o curso de sua vida terrestre, a Santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma à glória do Céu, onde já participa da glória da ressurreição de seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros de seu corpo.
" Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo."

fonte: Catecismo da Igreja Católica


O princípio da gradualidade, regra ardilosa do progresso do mal





Desejamos hoje pôr em evidência um dos princípios mais essenciais do triste roteiro seguido pelo Ocidente, partindo de suas tradições culturais e sociais cristãs, para o paganismo total, do qual já se acha tão próximo.

Trata-se do princípio que chamaríamos da "gradualidade". A corrupção, em sua longa marcha vitoriosa não fez saltos. Pelo contrário, soube progredir por etapas tão insensíveis que ninguém, ao longo da trajetória, prestava atenção ao deslizar das idéias, dos costumes e das modas. E com isto o caminho percorrido docilmente pela humanidade foi imenso...

A maior parte dos costumes lamentáveis de nossos dias apareceu timidamente no século XIX. Publicaremos oportunamente a descrição dos primeiros banhos de mar a que começou a se afeiçoar a alta sociedade francesa ainda antes da revolução de 1830, acompanhando-a do material ilustrativo competente. O termo de comparação, que seria o maillot de banho absolutamente moderno, não o poderemos publicar, pois já "evoluiu" tanto que macularia as páginas de um jornal católico. Quem tivesse dito às nobres e discretas damas que em plagas francesas iniciaram a moda, como se banhariam as elegantes de 1920 por certo lhes teria causado muita surpresa. E talvez, para evitar tais excessos, tivessem elas, até, suspendido o costume ainda incipiente. E o que diriam por sua vez em 1920 as elegantes, se pudessem ver como elas próprias ou suas filhas e netas tomariam banhos de mar e de piscina em 1956? Provavelmente, esta antevisão teria suscitado nelas uma reação salutar. Mas, como ninguém previa tais excessos, a moda continuou seu curso. Em 1956, é-nos lícito perguntar: como estarão as coisas em 1986?

Nenhum princípio nos parece mais importante de difundir, do que este da gradualidade das transformações da moda, se queremos despertar uma reação que já tarda...

* * *

Hoje trataremos mais especificamente da masculinização da mulher, fenômeno absolutamente tão deplorável e ridículo quanto seria a efeminação do homem.

Nossa primeira gravura representa duas senhoras, muito jovens, e uma menina, em um interior confortável de há cerca de cem anos atrás. O ambiente em que se movem é caracterizado por uma certa gravidade.

As cortinas são espessas, a cadeira é grande e nobre, o cachepot de linhas distintas e robustas tem decorações douradas, um belo tapete cobre todo o chão. Mas ao mesmo tempo os coloridos - que nosso clichê infelizmente não reproduz - são alegres. As cortinas são de um azul muito claro, quase água-marinha, a senhora sentada, que é evidentemente uma visitante, traja um belo vestido de um verde de folha nova na primavera européia, e seu casaco é branco. À cabeça, traz algumas rosas. A senhora de pé veste-se de seda lilás brilhante. A menina tem um vestido branco com listas vermelhas, ornado com fitas também vermelhas. São dessa mesma cor as fitas que lhe ornam o cabelo e lhe pendem das tranças. Este misto de gravidade e graça caracterizava bem o ambiente da vida de família de outrora. Nele, a mulher podia expandir em toda sua amplitude, as preciosas qualidades típicas de seu sexo, a doçura, a afabilidade, a graça, a bondade e a distinção. As fisionomias das três pessoas em nosso clichê estão distendidas, plácidas, e impregnadas de afetividade, indicando um convívio marcado a fundo pelo que tem de mais suave a delicadeza feminina. Elas parecem encontrar-se como no elemento próprio para a prática natural e como que instintiva dos deveres cristãos da esposa, da mãe e da filha.

* * *

Mas pouco depois a masculinização começava, timidamente, embora. Nas duas jovens do segundo clichê, há um começo de audácia, de dureza, de atrevimento, que contrasta com o quadro anterior. Tem-se a impressão de que algo de muito profundo -se bem que ainda muito discreto - se desajustou dentro delas, relativamente à vida do lar. Esta lhes parece um tanto insípida. Há um gosto manifesto de viver na rua, enfrentando imprevistos, passando por peripécias, levando enfim uma vida que já não é inteiramente voltada para os prazeres castos da família, e em cujo teor os momentos mais agradáveis são os que se empregam passeando como anônimos na multidão. Um que de masculino nos chapéus, no corte dos vestidos, e sobretudo na fisionomia dos personagens o diz bem.

* * *

Uma jovem moderna, num ambiente moderno. Não tivesse compridos os cabelos, e não seria fácil dizer-se-lhe à primeira vista o sexo. Ela respira por todos os poros o gosto da aventura, da luta dentro de uma vida que em nada se diferencia da de um homem, e que exige o cultivo de qualidades tipicamente masculinas. Um pouco mais, e a masculinização terá sido levada tão longe quanto possível.

Mas, dirá alguém, que mal há nisto?

É fácil responder. O mesmo mal que haveria em que os homens de hoje se penteassem, se vestissem e vivessem como as damas de nosso primeiro clichê.

Pura e simplesmente uma monstruosa subversão da ordem natural.

Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo Nº 68 - Agosto de 1956


fonte:https://www.facebook.com/FemininaModestaEElegante