quinta-feira, 8 de junho de 2023

Estandarte Eucarístico



Ano 1238 - Daroca (Espanha)






Conquistadas à moirama as Ilhas Baleares, empreendeu D. Jaime I sua campanha contra os mouros de Valência. A oportunidade era muito favorável, pois pelejavam entre si dois emires mouros, mas a empresa se apresentava algo difícil pela superioridade numérica do exército inimigo. 

Confiando mais em Deus do que em suas próprias forças, apresentou-se D. Jaime em campanha, e imediatamente as populações de Daroca, Calatayud e Teruel alistaram tropas que se uniram às hostes do ilustre Conquistador. Começou-se a conquista pela vila de Burriana, construindo-se logo um sólido castelo, perfeitamente entricheirado, e D. Berenguer de Entenza e D. Guillén de Aguillón foram encarregados de defender essa fortaleza, a partir do qual, com os contingentes das três referidas comunidades, não cessavam de hostilizar o inimigo. 

Zaén enviou contra ela quarenta mil soldados a pé, sem contar os montados a cavalo, para que entrassem nela a ferro e fogo e a arrasassem. Saiu para enfrentá-los D. Jaime, com quatro mil combatentes de infantaria e quatrocentos cavalos, travando-se então um terrível combate, no qual os defensores da Cruz obtiveram uma gloriosa vitória. Seguiu-se a esse triunfo a tomada da cidade de Valência, onde os valentes soldados de Daroca foram os primeiros a afixar a bandeira da Fé na Porta de Serranos. 

Prosseguindo a guerra, trataram, não obstante a justificada ausência de D. Jaime, de atacar o castelo de Chio, magnífica praça-forte que possuíam os sarracenos. Mas estes, diante do perigo, fizeram sair suas hostes, que logo conseguiram cercar o acampamento dos cristãos, colocando-os na alternativa de entregar-se ou morrer.

Naquela aflição, o general católico arengou os seus, exortando-os, com entusiasmo, a pelejarem com denodo, a rezarem um ato de contrição e a receberem os chefes a Sagrada Eucaristia. Imediatamente se dispôs o sacerdote, de nome Mateo Martínez, a celebrar o Santo Sacrifício, e logo depois da Consagração ressoaram os alaridos da moirama que se precipitava sobre os católicos, mas estes se levantaram, empunharam as armas, e ocorreu então o combate mais sangrento e progidioso de toda a campanha.

Nesse ínterim, o capelão consumiu a Hóstia do Sacrifício e correu a esconder numa gruta, envolta nos Corporais, as Hóstias consagradas. A luta se generalizou, e pelo espaço de três horas pelejaram os cristãos aragoneses com grande bravura, tornando-se vencedores e fugindo os mouros espavoridos à vista de tão inaudito valor. 

Depois do glorioso triunfo, apressou-se o capelão a recolher as sagradas Espécies, e ao abrir os Corporais, estando ajoelhados os cinco capitães com seu general para receber a Comunhão, observou com assombro que as Hóstias se tinham convertido em sangue...

Aqueles heróis, cheios de respeito e emoção, se inclinaram, as lágrimas correndo pelas faces, quando viram com seus olhos mortais o Sangue do próprio Redentor, que o Céu lhes dava como prêmio de sua invencível fé. Extasiados soldados e capitães com dom tão precioso, esqueceram-se das incertezas do passado combate e de que podia refazer-se o inimigo, quando de repente se viram novamente envoltos pelos raivosos sarracenos que desejavam vingar a afronta da sua vergonhosa derrota.

No momento de começar a peleja, o sacerdote havia celebrado o Santo Sacrifício hasteou sobre um pau aquele bendito Corporal, e posto de fé o mostrou aos combatentes.

Brilhantes com os reflexos do sol e açoitado pelos ventos, ondeava flutuando no azul dos céus aquele estandarte maravilhoso, colorido com o preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo e despedindo de suas manchas avermelhadas raios de luz que infundiram terror e cegavam os mouros, ao mesmo tempo que davam ânimo aos cristãos. Desde o local do convento chamado hoje de Corpus Christi até o castelo de Chio foi tão geral o escarmento, que fora os poucos que fugiram, não ficou nenhum mouro com vida. 

Depois desse milagroso triunfo deixou finalmente a meia lua aquela região para não mais voltar a ela, devendo-se ao Santo Mistério, que ainda hoje se venera em Daroca, a completa reconquista de Aragão à moirama.

A respeito da posse do santo estandarte houve diversidade de pareceres. O general D. Berenguer pretendia que tão cobiçado tesouro ficasse em Valência, por ter ocorrido o prodígio em seu território. O capitão de Teruel o reclamava, porque suas tropas tinham sido as mais prejudicadas pelo inimigo; o de Calatayud, por ser o que maior contingente de soldados e bens dera para a guerra; e o de Daroca, por ser filho desta cidade o sacerdote que hasteou o santo estandarte.

Como todas as razões alegadas pareciam de muito peso, ninguém queria ceder o suposto direito; isso obrigou a que se lançasse sorte, e três vezes consecutivas elas foram favoráveis a Daroca. 

Entretanto, mesmo assim não ficariam satisfeitos os ânimos, e se combinou, de comum acordo, que fossem colocados os milagrosos Corporais num cofre precioso, sobre uma mula do exército inimigo, e que o animal seguisse, na marcha que tomasse, seu próprio instinto, sendo cedidos os Corporais à comunidade em cujo território a mula fosse ter. 

Fez-se conforme se havia determinado, e a cavalgadura tomou o caminho de Játiva, seguindo-a o capelão Mateo Martínez e uma boa parte do exército. Passando por Artiaza se realizou o milagre da cura de um endemoninhado, e na divisa com Aragão outras muitas maravilhas devidas ao Santo Mistério, que prodigalizava suas bondades pelos povoados por onde passava.

Entrou a mula em território aragonês seguindo em não interrompida carreira, sem comer nem beber, e depois de cinquenta léguas de jornada chegou no dia 7 de março de 1239 a Daroca, em frente à igreja de São Marcos, que mais tarde foi da Santíssima Trindade, e ali caiu de repente sem vida.

Ficou, pois, com a cidade de Daroca aquele Tesouro dos céus entre os vivas, regojizos e aclamações de seus filhos, que logo o transladaram com grande solenidade à igreja de Santa Maria, depositando-o nela como a glória maior de Aragão e o timbre mais prezado do Catolicismo.

Logo se fundou em Daroca uma capelania para que todos os dias se rezasse a Missa do Santíssimo Sacramento, e ordenou-se que nos dias 7 de março se fizesse a cada ano uma solene procissão com todo o regojizo, música e acompanhamento possíveis. E como os fiéis que acorriam a essa festa eram muito numerosos e não cabiam na povoação, foi erigida fora da cidade uma torrezinha, para a qual eram levados os santos Corporais, que um sacerdote expunha ao numeroso concurso de gente.

Fazia já vinte e três anos que assim se celebrava a festa, e para mais autorizá-la enviaram-se embaixadores ao Papa Urbano IV, a fim de impetrar graças e favores com que acrescentar mais e mais a devoção dos fiéis ao Santo Mistério. 

Estavam os delegados em Roma, quando sucedeu o milagre de destilar sangue uma Hóstia consagrada em Bólsena, e comovido o Sumo Pontífice por ambos os prodígios, e também por algumas revelações que os haviam precedido, instituiu em  1264 a festa de Corpus Christi, encomendando a São Tomás de Aquino que compusesse o ofício de tão solene festividade.

No átrio da igreja de Daroca, chamado dos Perdões, pelo qual entrou o Santo Mistério, costumava, oito dias antes da festa ou alguns depois, fixar-se um enxame de abelhas como sinal de que ali havia passado Jesus Cristo nosso Redentor. 

Quase todos os monarcas espanhóis, começando por D. Jaime I, o Conquistador, reverenciaram esse augusto Mistério, cumulando sua igreja de ofertas e honras até obter que fosse nomeada insigne Colegíada, e os Sumos Pontífices derramaram em seu favor o tesouro das maiores graças espirituais, sendo finalmente declarada Basílica pelo Papa Leão XIII.


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(Núnes, Antiguidades de Daroca, 1ª parte, cap. III - Lanuza, Historia Ecles. de Aragón, tomo I, liv. II, cap. XIII - Pe. Manuel Hernando del Castillo, Historia de la Orden de Predicadores, 1ª parte, tomo III, cap. XXVIII - Pe. Pedro Rivadeneira S.J., Flos Sanctorum).

Fonte: Milagres Eucarísticos, Padre Manuel Traval y Roset S.J.

Fonte da imagem: https://padrepauloricardo.org/blog/as-hostias-milagrosas-de-daroca

domingo, 14 de maio de 2023

Série Tratado: Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus

  Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 



ARTIGO IV

Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus 

151. Quarto motivo. Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com este nobre intuito, apesar de a isto estarmos obrigados, ou porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus, ou porque não a quer. Mas a Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de Deus, e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um perfeito servo desta amável Soberana, que a ela se consagrou inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que revogue expressamente a intenção de sua oferta. Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que ama a Deus com um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios interesses?

ARTIGO V

Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor

152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão. 

§ I. Esta devoção é um caminho fácil.

É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminnho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranquilidade. 

Aí se encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e dificuldades enormes para vencer. Mas esta boa Mãe e Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em seus combates e dificuldades, que, em verdade, este caminho virginal, para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e de mel, em vista de outros caminhos. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que trilharam este caminho ameno para ir a Jesus Cristo, porque o Espírito Santo, esposo fiel de Maria, o indicou a eles por uma graça especial; os outros santos, porém, que são em muito maior número, embora tenham tido devoção à Santíssima Virgem, não entraram, ou entraram muito pouco, nesta via. E por isso tiveram de arrostar provas bem mais rudes e mais perigosas. 

153. A que atribuir, então - dirá algum fiel servidor desta boa Mãe -, que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam¹; ou, então, andam em trevas interiores, e em aridez de deserto onde não pinga nem uma gota de orvalho celeste. Se esta devoção torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão desprezados? 

154. Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem, por que são seus grandes favoritos, recebem dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e mais que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas. E creio que uma pessoa que quer ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente até o fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que torna doces as cruzes; do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes verdes que não fossem saturadas de açúcar. 

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1. "Servientes tibi plus aliis invadunt dracones inferni" (São Boaventura. Psalter. maius B.V., Sl 118). 


Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.




sexta-feira, 12 de maio de 2023

Série Tratado: Maria se dá a quem é seu escravo por amor.

 Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 




ARTIGO III
 Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima Virgem

§ I. Maria se dá a quem é seu escravo por amor.

144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e misericórdia, que jamais se deixa vencer em amor e liberalidade, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente, para honrá-la e servir-lhe, despojando-se do que tem de mais caro para com isso adorná-la, entrega-se também inteiramente e de um modo inefável, a quem tudo lhe dá. Ela o faz imergir no abismo de suas graças, reveste-o de seus merecimentos, dá-lhe o apoio de seu poder, ilumina-o com sua luz, abrasa-o de seu amor, comunica-lhe suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.: constitui-se seu penhor, seu suplemento, seu tudo para com Jesus. Como, enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si próprio, que a tomou como um bem, para sua casa: "Accepit eam discipulus in sua" (Jo 19,27).
145. É isto que produz na alma fiel uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, ao lado de uma confiança ilimitada na Santíssima Virgem, sua boa Senhora. Já não procura, como antes, o seu apoio em suas próprias disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras, pois, tendo sacrificado tudo a Jesus por esta boa Mãe, só lhe resta um tesouro que resume todos os seus bens e de que Ele não dispõe, e esse tesouro é Maria. 
É o que faz aproximar-se de Nosso Senhor, sem receio servil nem escrupuloso, e rezar com extrema confiança; é o que o faz adquirir os sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, o qual, aludindo à vitória de Jacob sobre um anjo (cf. Gn 32,24), dirige à Santíssima Virgem estas belas palavras: "Ó Maria, minha princesa e Mãe Imaculada de Deus-homem, Jesus Cristo, é meu desejo lutar com este Homem, isto é, o Verbo divino, armado não com meus próprios méritos, mas com os vossos: "O Domina, Dei Genitrix, Maria, et incorrupta Mater Dei et hominis, non meis, sed tuis armatus meritis, cum isto Viro, scilicet Verbo Dei, luctare cupio"6.
Oh! quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo-poderoso.


§ II. Maria purifica nossas boas obras, embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.

146. Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a seu Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção, as damos todas a Ele pelas mãos de sua Mãe Santíssima.
1º) Ela as purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, apego que se insinua insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não foram jamais manchadas nem ociosas, e que purificam tudo que tocam, tiram do presente que lhe fazemos tudo que pode deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito. 
147. 2º) Ela embeleza nossas boas ações, ornando-as com seus méritos e virtudes. É como se um campônio, querendo ganhar a amizade do rei, se dirigisse à rainha, e lhe apresentasse uma maçã, que representasse todo o seu lucro, e lhe pedisse que a oferecesse ao rei. A rainha, acolhendo a pobre dádiva do camponês, punha-a no centro de grande e magnífico prato de ouro, e apresentava-a assim ao rei, da parte do ofertante. Nestas circunstâncias, a maçã, indigna por si mesma de ser oferecida ao rei, torna-se um presente digno de sua majestade, devido ao prato de ouro e à importância da pessoa que a apresenta. 
148. 3º) Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada retém para si do que lhe ofertamos. Tudo remete fielmente a Jesus. Se algo lhe damos a ela, damos necessariamente a Jesus. Se a louvamos e glorificamos, logo ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como outrora, quando Santa Isabel a exaltou, ela canta, quando a louvamos e bendizemos: "Magnificat anima mea Dominum..." (Lc 1,46).
149. 4º) Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos santos e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente, e muitas vezes o rejeita em vista das manchas que a dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de vontade própria. Quando, porém, lhe apresentamos algo pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, tomamo-lo pelo seu lado fraco, se me é permitida a expressão. Ele não considera tanto a oferta que lhe fazemos como sua boa Mãe que lha apresenta; não olha tanto a procedência do presente como a portadora. Deste modo, Maria, que nunca foi repelida, e, pelo contrário, foi sempre bem recebida, faz que seja agradavelmente recebido pela Majestade divina tudo que lhe apresenta, pequeno ou grande: basta que Maria lho apresente para que Jesus o receba e acolha. Conselho valioso é o que dava São Bernardo aos que dirigia no caminho da perfeição: "Quando quiserdes oferecer qualquer coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê-lo pelas mãos agradáveis e digníssimas de Maria, a menos que queiras ser rejeitados" - Modicum quid offerre desideras, manibus Mariae offerendum tradere cura, si non vis sustinere repulsam¹. 
 150. E, como vimos (n. 146), a própria natureza não inspira aos pequenos como agir em relação aos grandes? Por que não há de levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos menos que átomos? tendo além disso uma advogada tão poderosa, que não foi jamais repelida; tão habilidosa que conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que seja. 
Referirei mais adiante a verdadeira figura das verdades que afirmo, na história de Jacob e Rebeca (cf. cap. VI).


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6. Rup., Prolog. in. Cant.
1. São Bernardo: "De Aquaeductu".

Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.








Trecho 13 - Tratado da Conformidade com a Vontade de Deus





Enfim, também nos graus de graça e glória é preciso nos tornarmos uniformes com o divino querer: devemos estimar aquelas coisas que pertencem à glória de Deus, mas devemos estimar ainda mais a Sua divina vontade: devemos desejar amá-lo mais que os serafins; mas não devemos desejar maior grau de amor que não seja aquele que o Senhor tem determinado conceder-nos. O padre Ávila diz (Audi. Filia. C. 22) "Eu creio que os santos desejariam ser ainda melhores do que foram; porém esses desejos não perturbavam a paz de sua almas, porque eles, se assim o desejavam, não era por motivos de interesse próprio, mas para glória de Deus, a cujas distribuições se submetiam, ainda que Ele menos lhes desse; estimando como perfeito amor o estarem satisfeitos com o que Deus lhes tinha dado, e não apetecendo mais". Assim Rodriguez o interpreta (Trat. 8. C. 30) que, ainda que devamos ser diligentes em aspirar à perfeição até onde possamos chegar para não servir de escusa à nossa preguiça e tibieza, como alguns fazem, e dizermos: "Deus nos dará isto"; "eu posso fazer só isto"; contudo, quando faltamos nesta carreira, não devemos perder a nossa paz de espírito, nem a conformidade com a divina vontade, a qual permitiu nossa falta, humilhar-nos e arrepender-nos; e procurando maior auxílio em Deus, prosseguir nossa carreira. Por este modo, ainda que aspiremos a ser exaltados no Céu ao coro dos serafins, não por certo para termos maior glória, mas sim para dar a Deus, e amá-Lo ainda mais, todavia devemos resignar-nos à Sua santa vontade, contentando-nos com aquele grau que a Sua misericórdia se digne conceder-nos. Seria, pois, grande culpa desejar dons de sobrenatural oração e, particularmente, êxtase e revelações. Os mestres da vida espiritual nos ensinam, quando as almas são favorecidas com tais dons, que deveriam orar para serem privadas deles, para poderem amar a Deus pelo puro caminho da fé, o qual é mais seguro. Muitos têm  chegado à perfeição sem esses sobrenaturais favores; a virtude é bastante para elevar a alma à santidade, e principalmente à uniformidade com a vontade de Deus. E se Deus se não apraz de elevar-nos a um sublime grau de graça e glória, devemos conformar-nos à Sua santa vontade, pedindo-lhe que ao menos, por sua misericórdia, sejamos salvos. Se assim fizermos, a recompensa não será pequena, a qual o nosso bom Senhor derramará sobre nós pela Sua bondade, porque Ele ama acima de todos aqueles que se resignam às Suas determinações. Numa palavra, devemos olhar para tudo quanto nos acontecer como vindo das mãos de Deus. E a este fim se devem dirigir todas as nossas ações. Fazer a vontade de Deus; fazê-la porque é a Sua vontade. E para assim o observarmos mais seguramente, devemos deixar-nos guiar por nossos diretores, quanto ao interno, para melhor conhecermos a vontade de Deus a nosso respeito, tendo grande confiança nestas palavras de Jesus Cristo: "Aquele que vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). E, sobretudo, devemos ser cuidadosos de servir a Deus por aquele caminho que Ele quer que sirvamos. Digo isto para evitar a ilusão de muitos, que se entretém com a ideia de que estão perdendo o seu tempo, e dizem: "Se eu estivesse em um deserto, se entrasse em um mosteiro, se eu estivesse em outra qualquer parte que não fosse esta, distante de parentes e companheiros, viria a ser santo; praticaria estas ou aquelas mortificações, e me entregaria todo à oração". Eles dizem "eu faria, eu faria", mas, no entanto, suportando involuntariamente a cruz que Deus lhes tem dado, não caminhando pela vereda que o Senhor lhes tem mostrado, não só não se tornam santos, mas fazem-se maus, péssimos. Estes desejos são muitas vezes tentações do Diabo; porque não são conformes a vontade de Deus; e devemos por isso rejeitá-los, e tomar ânimo para servirmos a Deus no caminho que Ele nos tem escolhido. Fazendo assim, viremos a ser santos, em qualquer estado de vida em que o Senhor nos tenha colocado. Queiramos, pois, sempre o que Deus quer, e fazendo assim Ele nos abraçará em Seu seio. Para este fim façamo-nos familiares com certas passagens da Escritura, as quais nos chamam a unir-nos em todo o tempo com a divina vontade: "Senhor, que queres tu que eu faça? Dizei-me, ó Deus, o que queres de mim, e eu cumprirei a tua vontade em todas as coisas, eu sou teu, salva-me" (Sl 118,94). Já não sou de mim mesmo, mas teu, ó Senhor, faze de mim o que for do teu agrado. Particularmente quando alguma pesada adversidade nos oprime, a morte dos parentes ou amigos, ou a perda de bens ou de reputação, digamos: "Sim, meu Pai, sim, meu Deus, porque assim vos é agradável". Sim, meu Pai e meu Senhor, assim seja feito, porque assim te agrada" (Mt 11,26). E, sobretudo, nos seja preciosa aquela oração que Jesus Cristo nos ensinou: Seja feita a tua vontade assim na terra como no Céu. Nosso Senhor disse à Santa Catarina de Gênova, que todas as vezes que recitasse o Pai Nosso, se demorasse particularmente nestas palavras, rogando-lhe que ela pudesse cumprir na terra a Sua santíssima vontade, com a mesma perfeição com que os bem-aventurados a cumprem no Céu. Façamos, pois, outro tanto, e seremos santos no Céu. 


Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Minha Biblioteca Católica