sábado, 14 de dezembro de 2024

Os pecados


 Do pecado em geral - o pecado original 


1. O pecado é a livre trangressão da lei de Deus; é pois qualquer pensamento, palavra, ação ou omissão contra a lei de Deus. 

2. Por lei de Deus entende-se não só lei que Ele mesmo deu, isto é o Decálogo, mas também qualquer lei humana tanto eclesiástica como civil porque Deus deu aos superiores a faculdade de fazerem leis. 

3. O pecado é o maior de todos os males, porque ofende à Deus que é o supremo bem, e porque dele provêm todos os males que sofremos nesta vida e na outra. 

4. Há duas espécies de pecado, o pecado original e o pecado atual ou pessoal. 

5. O pecado original é aquele com que nascemos e o temos como por herança do nosso primeiro pai Adão. 

6. Adão e Eva, os nossos primeiros pais, foram depois de criados colocados no paraíso terrestre, jardim delicioso, cheio de toda a sorte de árvores e de frutas, onde haviam de passar uma vida venturosa, trabalhando sem cansaço, louvando e engrandecendo a Deus, a serem depois transportados no céu sem morrerem para gozar da eterna felicidade. Os seus descendentes haviam de participar dessa fortuna, mas Adão e Eva perderam tanto bem pelo seu pecado e desobediência, comendo do fruto duma árvore, de que Deus lhes tinha proibido que comessem. 

7. Como se moveram eles a cometer este pecado de soberba e desobediência? Deixou-se Eva enganar pelo demônio que lhe disse que seriam como Deuses, e Adão seguiu o exemplo da mulher, comendo daquele fruto como ela. 

Para enganar Eva serviu-se o demônio duma serpente, e o espírito maligno obrou assim por inveja, querendo que os homens fossem infelizes como ele. 

8. Por essa desobediência Adão e Eva fizeram-se desgraçados a si e a sua posteridade, ficando incursos, por causa de sua culpa a muitas felicidades. 

Respectivamente ao corpo, foram reduzidos aos trabalhos, às infelicidades e à morte. Relativamente à alma contraíram a ignorância, a concupiscência, e o império do demônio. 

Relativamente a esta vida, foram excluídos do paraíso terrestre, e perderam o senhorio que tinham sobre todos os animais. Como se haviam rebelados contra Deus, tudo se rebelou contra eles. Adão e seus descendentes foram condenados a comerem o pão com suor do seu rosto. Pelo que toca a outra vida foi-lhes vedada a entrada no céu e tornaram-se dignos do inferno.

9. Adão e Eva foram causa da desgraça de seus descendentes comunicando-lhes o seu pecado e as consequências dele. 

10. Esta transmissão da culpa original e das suas consequências a todos os homens é um mistério. 

11. Encontramos porém na justiça humana exemplo semelhante de comunicação. Assim quando um homem é condenado a perder seus bens, perde-os para si e para os filhos e descendentes. 

12. Por um privilégio especial e para honra de Nosso Senhor que foi o seu filho. Maria Santíssima foi preservada do pecado original. 

13. O sacramento do Batismo nos lava do pecado original, mas não tira as consequências dele. Ficamos com a ignorância, a fraqueza da vontade para o bem, a concupiscência ou inclinação do pecado, as misérias da vida e a necessidade de morrer. 


Explicação da gravura

14. Representa a gravura Adão e Eva desodecendo a Deus e expulsos por um anjo do paraíso terrestre. 

15. No ângulo superior esquerdo vê-se a morte do Salvador que nos remiu do pecado e do inferno.

16. No ângulo superior direito vê-se um padre batizando uma criança para lembrar-nos que o batismo tira a culpa original.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Tudo se acaba com a morte




 Finis venit; venit finis. 

O fim chega; chega o fim (Ez 7,6). 


Ponto I

Os mundanos só consideram feliz quem goza dos bens deste mundo: honras, prazeres e riquezas. Mas a morte acaba com esta ventura terrestre. "Que é vossa vida? É um vapor que aparece por um momento" (Tg 4,15). Os vapores que a terra exala, quando sobem ao ar, sob o efeito dos raios solares oferecem, às vezes, aspecto vistoso; mas quanto tempo dura essa aparência brilhante? Ao sopro do menor vento, tudo desaparece. Aquele poderoso do mundo, hoje tão acatado, tão temido, quase adorado, amanhã, quando estiver morto, será desprezado, olvidado e amaldiçoado. A morte obriga a deixar tudo. O grande servo de Deus Tomás de Kempis ufanava-se de ter construído uma casa magnífca. Um de seus amigos, porém, observou-lhe que notava um grave defeito. 

- Qual? - perguntou ele. 

- O defeito que encontro nela - respondeu-lhe o amigo - é que mandaste fazer uma porta.

- Como? - retorquiu o dono da casa - a porta é um defeito? - Sim - acrescentou o outro - porque virá o dia em que, por essa porta, deverás sair morto, deixando a casa e tudo o mais que te pertence. 

A morte, enfim, despoja o homem de todos os bens do mundo.

Que espetáculo ver arrancar este príncipe de seu próprio palácio para nunca mais entrar nele, e considerar que outros tomam posse de seus móveis, de seus tesouros e de todos os demais bens! Os servos deixam-no na sepultura coberto apenas com uma veste suficiente para cobrir-lhe as carnes; já não há quem o estime nem o adule; nem se levam em conta as ordens que deixou. Saladino, conquistador de muitos reinos na Ásia, ordenou, ao morrer, que, quando transportassem seu corpo à sepultura, um soldado precedesse o esquife, levando suspensa de uma lança a mortalha e gritasse: "Eis aqui tudo o que Saladino leva para a sepultura!" Quando um cadáver de um príncipe desce à sepultura, desfazem-se suas carnes, e nos restos mortais não se conserva indício algum que o distingua dos outros. "Contempla os sepulcros, - disse São Basílio - e não poderás distinguir quem foi o servo e quem o amo." Na presença de Alexandre Magno, certo dia, Diógenes mostrou-se mui absorvido em procurar alguma coisa entre um montão de ossos humanos. 

- Que procuras aí? - perguntou Alexandre, com curiosidade. 

- Procuro - respondeu Diógenes - o crânio do rei Filipe, vosso pai, e não o encontro. Mostrai-me, se o podeis encontrar.

Neste mundo todos os homens nascem em condições desiguais, mas a morte os iguala - disse Sêneca. Horácio dizia também que a morte nivela os cetros e os cajados. Numa palavra, quando a morte chega, finis venit, tudo se acaba e tudo se deixa; de todas as coisas deste mundo nenhuma levamos para a tumba. 


AFETOS E SÚPLICAS

Senhor, já que me fazes reconhecer que tudo quanto o mundo estima não passa de fumo e demência, dai-me força para livrar-me dele antes que a morte me arrebate. Infeliz de mim, que tantas vezes, por míseros prazeres e bens terrenos, vos ofendi e perdi a vós que sois o Bem infinito! Ó meu Jesus, médico celestial, volvei os vossos olhos para minha pobre alma; vede as feridas que eu mesmo lhe abri com meus pecados, e tende piedade de mim. Mas, para me curar, quereis também que me arrependa das ofensas que vos fiz. Já que me arrependo de coração, curai-me, agora que podeis fazê-lo ( Sl 40,5). Esqueci-me de vós; mas vós não me esquecestes, e agora me dais a entender que até quereis olvidar minhas ofensas, se eu as detestar (Ez 18,21). 

Sim, detesto e aborreço-as mais que todos os males. Esquecei, pois, meu Redentor, as amarguras que vos causei. Doravante, prefiro perder tudo, até a vida, a perder a vossa graça. De que me serviriam, sem ela, todos os bens do mundo? Dignai-vos ajudar-me, Senhor, já que conheceis minha fraqueza. 

O inferno não deixará de tentar-me; prepara mil assaltos para me reduzir de novo à condição de seu escravo. Mas, vós, meu Jesus, não me abandoneis! Quero ser escravo de vosso amor. Sois meu único Senhor, que me criastes, que me remistes e que me amastes sem limites. Sois o único que mereceis amor, e só a vós é que eu quero amar. 


Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte, pg. 16-19. 

sábado, 16 de novembro de 2024

O Juízo




O JUÍZO PARTICULAR 
 

1. O juízo particular é o que se faz à hora da morte. Segundo a opinião comum, este juízo faz-se no próprio lugar onde morremos. 

2. Depois da morte, a nossa alma estará na presença de Jesus Cristo para ser julgado pelas suas obras e ouvir pronunciar a sentença que há de fixar a sua sorte eterna. 

3. O Evangelho nos ensina quão necessário é pensar no juízo particular. 

4. Como se tivessem ajuntado à roda de Jesus muitos gentios, de sorte que uns a outros se atropelavam, começou Ele a dizer a seus discípulos: Guardai-vos do fermento dos Fariseus que é a hipocrisia, porque nenhuma coisa há oculta que não venha a descobrir-se. As coisas que dizestes nas trevas, às claras serão ditas, e o que falastes ao ouvido no gabinete será apregoado sobre os telhados. A vós pois, amigos meus, os digo, que não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois disto não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem haveis de temer: temei aquele que depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vos digo, temei a este. Não se vendem cinco pardais por dois asses* e nem um deles só está em esquecimento diante de Deus? E até os cabelos da vossa cabeça todos estão contados. Pois não temais, porque de maior valia sois vós que muitos pardais. Ora eu vos declaro que todo o que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos Anjos de Deus; o que porém me negar diante dos homens, também será negado diante dos Anjos de Deus. E todo o que proferir uma palavra contra o Filho do Homem ser-lhe-á dado perdão; mas aquele que blasfemar, contra o Espírito Santo, não lhe será isto perdoado... (Lc 12,1-10). Estejam cingidos os vossos lombos e nas vossas mãos tochas acesas, e sede vós semelhantes aos homens que esperam a seu Senhor ao voltar das bodas, para que quando vier e bater à porta, logo lhe abram. Bem-aventurados aqueles servos, a quem o Senhor achar vigiando quando vier; na verdade vos digo que ele se cingirá e os fará sentar à mesa e passando por entre eles, os servirá. E se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e assim os achar, bem-aventurados são os tais servos. Mas sabeis isto, que se o pai de família soubesse a hora em que viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e, não deixaria minar a sua casa. Vós pois estais apercebidos, porque à hora que não cuidais, virá o Filho do homem. Disse-lhe então Pedro: Senhor, tu propôs esta parábola respeititiva só a nós, ou também a todos? E o Senhor lhe disse: Quem crês é o dispenseiro fiel e prudente, que pôs o Senhor sobre a sua família para dar a cada um a seu tempo a ração de trigo? Bem-aventurado aquele servo, que quando o Senhor vier, o achar assim obrando. Verdadeiramente vos digo que ele o constituirá administrador de tudo quanto possui. Porém se disser o tal servo no seu coração: Meu Senhor tarda em vir; e começar a espancar os servos, e as criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se, virá o Senhor daquele servo no dia em que ele o não espera, e na hora em que ele não cuida, e removê-lo-á, e pôr-lo-á à parte com os infiéis. (Lc 12,35-47). 


Explicação da gravura

5. A gravura representa o juízo particular que terá lugar logo depois da morte. 

6. A esquerda está o juízo do justo, e a direita o juízo do pecador. O tribunal de Cristo vê-se elevado na própria casa onde acabam de expirar. 

7. A alma do justo é apresentada a Jesus pelo anjo da guarda, precedido da Virgem e de São José. Um anjo sustenta na mão esquerda a coroa para premiá-lo, e na direita a balança da justiça, onde se pesam os merecimentos do difunto.

8. A alma do pecador comparece também diante do juíz supremo, mas esconde a sua face. Está acompanhada pelos demônios e ligada por uma cadeia a Lúcifer. Jesus Cristo repele-a e da contra ela a sentença da eterna reprovação.

*Asses: pequena moeda chamada dipônio entre os romanos.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa. 


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A morte do justo e a do pecador

 



1. Morte boa e feliz é a morte do Cristão que está em graça.

2. Morte desgraçada é a do pecador em estado de pecado mortal: é a suprema desgraça para o homem. 

3. Diz a Sagrada Escritura que a morte dos pecadores é péssima.

4. Péssima é, 1º porque o pecador sente muito deixar os bens temporais aos quais ele unicamente se afeiçoou, e que lhe lembram os seus pecados; 2º porque há de sofrer em breve no inferno o terrível castigo duma vida criminosa.

5. Morte péssima foi a de Herodes que nos é narrada nos Atos dos Apóstolos: Herodes, tendo feito buscar a Pedro (que o anjo livrara da prisão), e não o achando, feito exame a respeito dos guardas, os mandou justiçar, e passando da Judéia e a Cesaréia, deixou-se aqui ficar. Ora Herodes estava irritado contra os de Tiro e de Sidônia. Mas estes, de comum acordo o foram buscar, e com o favor de Blasto, que era seu camarista, pediram paz, porque das terras do rei é que o seu país tirava a subsistência. E um dia assinado, Herodes vestido em traje real, se assentou no tribunal e lhes fazia uma falta. E o povo o aplaudia dizendo: Isto são vozes de Deus e não de homem. Porém subitamente o feriu o anjo do Senhor, pelo motivo de que não tinha tributado honra a Deus, e comido de bichos, expirou. (At 12, 19-24).

6. Péssima também foi a morte de Judas o traídor, cuja narração lemos nos mesmos Atos: Então (depois da Ascenção do Senhor) os Apóstolos voltaram para Jerusalém... e tendo entrado em certa casa, subiram aos quartos de cima onde permaneciam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago filho de Alfeu, Simão o zeloso, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveraram unanimamente na oração com as mulheres e com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos deles. Naquele dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (e montava a multidão dos que ali se achavam juntos a quase cento e vinte pessoas) disse: Varões irmãos, e necessário que se cumpra a Escritura, que o Espírito Santo predisse por boca de Davi acerca de Judas, que foi o condutor daqueles que prenderam a Jesus, o qual estava entre nós alistado no mesmo número, e a quem coube a sorte deste ministério. E este possui de fato um campo do preço da iniquidade, e depois de se pendurar rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. E tão notório se fez a todos os habitantes de Jerusalém aquele sucesso, que se ficou chamando aquele campo, na língua deles, Haceldama, isto é, campo de sangue. (At 1,12-20). 

10. A Sagrada Escritura diz que a morte dos justos é preciosa aos olhos do Senhor.

11. A morte do justo é preciosa, 1º porque ela livra o justo de todos os males desta vida; 2º porque o justo ama a Deus e tem a consciência em paz; 3º porque o justo está para receber no céu o prêmio das boas obras que praticou durante a vida.

Explicação da gravura

12. Representa a gravura a morte do justo, e a morte do pecador. O justo, resignado e sossegado recebe as últimas consolações da religião, cercado dos parentes e amigos que oram por ele, animado pelo santo anjo da guarda; Jesus Cristo e a Virgem Santíssima o contemplam do céu, e o demônio envergonhado e raivoso foge para o inferno. 

13. O pecador repele com desprezo o sacerdote: o seu anjo da guarda afasta-se chorando, e os demônios cercam a cama, esperando o último suspiro do doente para se apoderarem da alma pecadora.

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Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.