sábado, 12 de outubro de 2024

Nossa Senhora Aparecida




 São Paulo (Brasil)

Festa a 12 de outubro


No ano de 1717, ao passar por Guaratinguetá o Conde de Assumar, a Câmara notificou aos pescadores que se fizessem ao rio, para pescarem, pois desejavam honrar, com lauta mesa, um tão alto personagem. 

Entre outros foram então pescar Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, em suas canoas. Porém, todos, ainda que continuassem até o pôrto de Itaguassu, muito distante do ponto da partida, nada conseguiram.

Desapontados com a inutilidade dos seus esforços, tentam contudo novamente pescar aqui e além, e, lançando João Alves a sua rede de arrasto, tirou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça, pelo que lançou outra vez a rede mais abaixo, e tirou a cabeça da mesma imagem, não se tendo sabido nunca quem a tinha lançado ao rio. Não tinham conseguido pegar um só peixe, como já dissemos; porém, continuando a pescaria depois do precioso achado, foi tão copiosa em poucos lanços, que, receosos de naufragarem, voltaram para suas casas assombrados com o que lhes tinha sucedido.

Felipe Pedroso conservou a referida imagem (que o povo chamou logo de Senhora Aparecida) em sua casa durante vários anos, e depois presenteou-a a seu filho Atanásio, que morava em Itaguassu, em cujo porto tinham encontrado a pequenina imagem. Atanásio, inspirado pela sua fé, fez um oratório e colocou num altar a aparecida imagem, e aos sábados, à noite, o povo da vizinhança ali se reunia para rezar o terço e outras devoções.

Em uma dessas rezas, estando a noite serena, apagaram-se repentinamente as velas que alumiavam a imagem de Nossa Senhora, e, querendo alguém acendê-las de novo, vê o povo, com pasmo, que as velas por si sós, sem ninguém lhes tocar, acendem-se de repente!

Foi este o primeiro prodígio, que se repetiu várias vezes, de modo que a notícia do estranho fato chegou ao conhecimento do Vigário de Guaratinguetá, Pe. José Alves Vilela, que, com outros devotos, lhe edificaram uma capelinha; mas essa capelinha logo se tornou pequena, pelo que foi demolida, e, no lugar em que hoje está, edificaram outra maior, que, reformada e aumentada, é a Basílica atual (velha).





A imagem está hoje em um nicho riquíssimo, tendo na cabeça uma coroal real que foi benzida pelo Santo Padre.

Eis por que Nossa Senhora grangeou mais um título em nossa amada pátria: Nossa Senhora Aparecida, por ter uma imagem sua aparecido na rede de um pescador.

Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil, e terá em breve um santuário condigno na nova basílica que lhe será construída em Aparecida (Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida, SP, Brasil).




Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, rogai por nós. (300 dias de indulgência - Pio XI).


Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci, editora Lar Católico, 1960, 2ª edição.

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sábado, 5 de outubro de 2024

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó


 183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca. 

Ei-la tal como a conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a explicação.


ARTIGO I

Rebeca e Jacó

§I. História de Jacó

184. Esaú vendera a Jacó seu direito de primogenitura. Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a Jacó, - que ela amava ternamente -, as vantagens daquele privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e, chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente, pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava. Em seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse, tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a Voz de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz que ele reconhecia como a de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho, murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos; e terminou a bênção com estas palavras: "Aquele que te amaldiçar seja amaldiçoado, e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos". 

Apenas Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano, mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus. Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste de seu irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção. Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao mesmo tempo as consolações do céu e as da terra, Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou, enfim, mas a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu.


§ II. Interpretação da história de Jacó

185. Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que, conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó e figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta, apenas, examinar a atitude de um e de outro para verificá-lo.

1º) Esaú, figura dos réprobos

1º) Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça. 

2º) Quase não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre.

3º) Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela.

4º) Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

5º) Estava, como Caim. cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas.

186. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias: 

1º) Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do céu: "In terrenis fortes, in caelestibus debiles". Por isso: 

187. 2º) Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de espíritos acanhados, carolas e selvagens aqueles que são espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que fora.

188. 3º) Os réprobos não se preocupam de modo algum com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó. Acham motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam os bons filhos e servos da Virgem Santíssima para obter sua afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária à salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da Santíssima Virgem e são seis servos, ao recitarem ou resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor ternura por ela nem emenda para eles. 

189. 4º) Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura, isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, jogam, dançam, etc., sem a mínima preocupação, como Esaú, de se tornarem dignos de bênção do Pai celeste. Em três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só falam e agem pela terra e pelos prazeres, por uma vã fumaça de honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança. 

190. 5º) Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras, odeiam e perseguem diariamente os predestinados. Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó; enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres, vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e levam vida folgada. 


2º) Jacó, figura dos predestinados

191. 1º) Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

192. 2º) Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho. 

193. 3º) Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discenir, fez exatamente como ela mandou.

194. 4º) Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e a consultava em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez de bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

195. 5º) Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más companhia, que corrompem os costumes. Por tal motivo, tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido pai.

196. Eis também a conduta diária dos predestinados:

1º) Vivem em casa, sedentariamente, com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a vida inteira, tanto amou o retirou e a oração. É verdade que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém,  em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para cumprir os deveres de estado. Por grandes coisas que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as que fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado da qual todas as outras são como brinquedos de criança. Por isso, enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso, recebendo os louvores e aprovações do mundo, eles sabem, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos. "Gloria et divitiae in domo eius" (Sl 111,3) - a glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se na casa de Maria. 

Senhor Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É nesta casa de predestinados que ele de Vós somente recebe socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de lágrimas. "Quam dilecta tabernacula..." (Sl 83).

197. 2º) Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que creem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó, 1º) para que ela os receba como um dom que lhe pertence; 2º) para que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si próprios, escorchando-os e despojando-os da própria pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a Jesus, seu Filho, que não quer para amigos e discípulos, senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos; 3º) para que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir à sua maior glória, que ela conhece melhor que nenhuma outra criatura; 4º) para que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado, digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e Maria um amor efetivo e corajoso?

Os réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não com sua substância¹, com os seus haveres, ao ponto de lhes sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as paixões, como fazem os predestinados. 

198. 3º) Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como a sua boa Mãe, a exemplo de Jesus Cristo, que, dos trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem, seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó seguia os de sua mãe, que lhe diz: "Acquiesce consiliis meis" (Gn 27,8) - Meu filho, segue meus conselhos; ou como os criados nas bodas de Caná, aos quais a Santíssima Virgem diz: "Quodcumque dixerit vobis facite" - Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,5). Por ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque os servos nas bodas de Caná seguiram o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só receberão estas graças em consequência de sua perfeita obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem. 

199. 4º) Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar seu socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas aflições e contrariedades. Atiram-se até, escondem-se e se perdem de um modo admirável em seu regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de amor, para aí se purificarem das menores manchas, e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como no mais glorioso dos tronos. Oh!  que felicidade! "Não creiais, diz o Abade Guerrico, que seja maior felicidade habitar o seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o Senhor o seu trono: Ne credideris maioris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae, cum in eo Dominus posuerit thronum suum".²

Os réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos, não apreciam as doçuras e suavidades do seio de Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São Gregório³, porque não querem provar a suavidade que está preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de Maria. 

200. 5º) Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes diz: "Beati qui custodiunt vias meas" (Pr 8,32) - Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça. Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e tranquila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na eternidade, porque jamais perdeu algum dos meus servos, que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas virtudes. 

Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua honra ou fazer qualquer devoção exterior. 

Ó Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles - eu o repito com transportes de coração - quão felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles, que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho! "Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis" - Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl 118,21).

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1. Cf. Pr 3,9: "Honora Dominum de tua substantia" (Honra o Senhor com os teus haveres).

2. Sermo 1 in Assumptione, n.4.

3. "Amamus foris miseri famem nostram" (Homil. 36 in Evangel.).

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.










quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Santíssimo Nome de Maria


 12 de setembro




1- O quanto é doce na vida e na morte o nome de Maria 

O grande nome de Maria, que foi dado à divina Mãe, não foi encontrado na terra nem inventado pela mente ou arbítrio dos homens, como acontece com todos os outros nomes que se dão; não, ele desceu dos céus e foi imposto por prescrição divina, como declara S. Jerônimo, S. Epifânio, S. Antonino e outros. "Do tesouro da divindade, ó Maria, proveio o vosso excelso e admirável nome", fala Ricardo de S. Lourenço, "pois a SS. Trindade inteira", segue dizendo o mesmo autor, "deu a vós um tal nome, superior a todo nome depois do nome do vosso Filho, e o dotou de tanta majestade e poder, que à enunciação do vosso nome quis ele que por reverência prostados todos o venerassem no céu, na terra e no inferno.¹ Mas dentre outros méritos que o Senhor deu ao nome de Maria, vejamos agora como o fez doce aos servos desta Santíssima Senhora, tanto em vida como em morte. 

E em primeiro lugar, para falar do período da vida, dizia Honório, santo anacoreta, o nome de Maria é repleto de todas as doçuras divinas. De modo que o glorioso S. Antônio de Pádua reconhecia no nome de Maria as mesmas doçuras que S. Bernardo contemplava no nome de Jesus: "O nome desta Virgem Mãe é júbilo ao coração, mel à boca, melodia aos ouvidos dos seus devotos". Narra-se do venerável Pe. Juvenal Ancina, bispo de Saluzzo, como lemos na sua vida, que ele ao nomear Maria experimentava uma doçura sensível tamanha que chegava a lamber os lábios. Lê-se de modo parecido que certa mulher de Colônia disse ao bispo Marsílio que sempre que ela pronunciava o nome de Maria, sentia na boca um sabor mais doce que o mel. O que vindo a praticar também Marsílio saboreou a mesma doçura. Deduz-se do Cântico dos Cânticos que na Assunção da Virgem os anjos três vezes pediram o seu nome: Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça? (Ct 3,6) Em outro trecho: Quem é esta que surge como a aurora? (Ct 6,10). E por fim: Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? (Ct 8,5). Ora, pergunta Ricardo de S. Lourenço porque os anjos demandam tantas vezes o nome desta Rainha, e responde: "mesmo aos anjos era tão doce ouvir soar o nome de Maria que é por isso que o pedem tantas vezes".

Mas eu não falo aqui desta doçura sensível, pois esta não se concede habitualmente a todos; falo da doçura salutar de conforto, amor, alegria, confiança e fortaleza que dá habitualmente este nome de Maria aos que o proferem com devoção. Falando a este respeito o abade Francone diz que, depois do sacrossanto nome de Jesus, o nome de Maria é tão abundante em bens que nenhum outro, ao pronunciá-lo no céu e na terra, enche as almas devotas de tanta graça, esperança e doçura. Pois, segue a dizer, o nome de Maria contém em si alguma coisa de admirável, de doce e de divino, que quando se reúne com os corações amigos sopra neles uma fragrância de santa doçura. E é tão maravilhoso este grande nome, conclui, que, por mil vezes que o ouçam os amantes de Maria, sempre o escutam como pela primeira vez, experimentando sempre a mesma doçura em ouvi-lo chamar. 

Falando igualmente desta doçura, o Beato Henrique de Suso dizia que ao nomear Maria sentia-se de tal modo elevar em confiança e com tal júbilo abrasar em amor que entre o gozo e as lágrimas em meio às quais proferia o amado nome, desejava que desde o peito o coração se lhe saltasse para fora da boca, enquanto afirmava que este dulcíssimo nome, como um favo de mel, derretia no fundo da alma. Por isso então exclamava: "Ó suavíssimo nome! Ó Maria, como sereis vós em pessoa, se o vosso nome por si já é tão amável e gracioso?"

Por este motivo voltado à sua boa Mãe, o enamorado S. Bernardo com ternura lhe diz: "Ó grande, ó pia, ó digna de todo louvor, SS. Virgem Maria, o vosso nome é tão doce e amável que não pode ser nomeado sem que incendeies de amor para convosco e com Deus quem o nomeia; ou ainda, basta apenas que ele se apresente ao pensamento dos vossos amantes para incitá-los ainda mais a vos amar e para consolá-vos!".¹ "E se as riquezas consolam os pobres, pois que os aliviam da sua miséria, oh, quanto melhor consola a nós, miseráveis" - fala Ricardo de S. Lourenço - "o vosso nome, ó Maria, uma vez que, muito mais do que todas as riquezas da terra, ele nos alivia das angústias da presente vida".²

Em suma, o vosso nome, ó Mãe de Deus, é todo cheio de graças e bênçãos divinas, como diz S. Metódio.³ De tal modo que, como declara S. Boaventura, o vosso nome não pode ser proferido sem que traga alguma graça a quem devotamente o nomeia. Qualquer coração, por duro que seja, por desconfiado que seja, diz o Idiota, se este vos nomeia, ó benigníssima Virgem, é tamanha a virtude do vosso nome que ele maravilhosamente amolecerá a sua dureza, já que sois vós a que confortais os pecadores com a esperança de perdão e de graça.4 O vosso dulcíssimo nome, no dizer de S. Ambrósio, é um unguento cheiroso que exala odor de graça divina.5 Roga o santo à divina Mãe dizendo: "Desça ao íntimo das nossas almas este unguento de salvação. Quer dizer: fazei, Senhora, que nos recordemos com frequência de repetir o vosso nome com amor e confiança, pois assim nomear-vos é sinal ou de já possuir a divina graça, ou de haver de recuperá-la em breve".

"Sim, pois recordar-se do vosso nome, ó Maria, consola os aflitos, devolve ao caminho de salvação os que estão fora dele, e conforta os pecadores a fim de que não se entreguem ao desespero", assim discorre Ludolfo da Saxônia.¹ E diz o Pe. Pelbarto que, tal como Jesus Cristo por suas cinco chagas preparou ao mundo o remédio dos seus males, assim igualmente Maria por seu santíssimo nome, que é composto de cinco letras, confere todos os dias o perdão aos pecadores. 




Por isso o santo nome de Maria no Cântico dos Cânticos é equiparado ao azeite: "Tal como o azeite sara os enfermos", comenta o Beato Alano, "verte odor e acende chamas, assim o nome de Maria, sara os pecadores reanima os corações e os incendeia de amor divino". Por isso Ricardo de S. Lourenço encoraja os pecadores a recorrerem a este grande nome, porque ele sozinho bastará para curá-los de todos os seus males, dizendo que não há enfermidade tão maligna que não ceda imediatamente à força deste nome.²

Por outro lado, os demônios, afirma Tomás de Kempis, temem de tal maneira a Rainha do céu que ao ouvir pronunciar o seu grande nome fogem de quem o pronuncia como de um fogo a queimá-los.

A mesma Santíssima Virgem revelou à S. Brígida que não há nesta vida pecador tão frio no amor divino que, invocando ele o seu santo nome com o propósito de converter-se, o demônio dele não se afaste imediatamente. E o confirmou ainda outra vez dizendo-lhe que todos os demônios de tal maneira têm respeito e medo por seu nome que ao ouvi-lo soar imediatamente soltam as almas das garras com que as mantinham presas.

E tal como se afastam os anjos rebeldes dos pecadores que invocam o nome de Maria, assim por sua vez, disse a mesma Senhora nossa à S. Brígida, os anjos bons se aproximam ainda mais das almas justas que devotamente o pronunciam.

E declara S. Germano que, tal como respirar é sinal de vida, assim pronunciar frequentemente o nome de Maria é sinal ou de já viver na divina graça ou de que em breve nela viverá; pois este poderoso nome tem a virtude de obter o auxílio e a vida a quem devotamente o invoca.¹ Em suma, este admirável nome, acrescenta Ricardo de S. Lourenço, é como uma torre fortíssima, na qual o pecador, buscando abrigo, será livrado da morte, já que por esta torre celestial são com toda segurança defendidos e salvos os mais perdidos pecadores.²

É porém uma torre de fortaleza que não só liberta os pecadores do castigo, mas também defende os justos das investidas do inferno. Assim diz o mesmo Ricardo, afirmando que depois do nome de Jesus não há nome em que se encontre tamanho auxílio, que confira aos homens tanta salvação, como o nome de Maria. Em tudo o que é lugar sabe-se especialmente bem, que o seu grande nome dá força para vencer as tentações da castidade. Reflete o mesmo autor sobre as palavras de S. Lucas, E o nome da Virgem era Maria (Lc 1,27), que estes dois nomes, Maria e Virgem, são pronunciados juntos pelo evangelista para que entendamos que o nome dessa puríssima Virgenzinha não deve estar jamais separado da castidade. Por isso diz S. Pedro Crisólogo que o nome de Maria é indício de castidade, querendo com isso dizer que quem nas dúvidas quanto o haver pecado nas tentações à pureza se lembra de haver invocado o nome de Maria tem nisto um indício seguro de que não ofendeu a castidade. 

De modo que nos valhamos sempre do belo conselho de S. Bernardo, que diz: "Diante do perigo de perder a divina graça, pensemos em Maria, invoquemos Maria juntamente com o nome de Jesus, pois estes nomes vão sempre juntos. Não partam jamais este dois dulcíssimos e poderosíssimos nome nem do nosso coração nem da nossa boca, pois estes dois grandiosos nomes nos darão força para não cair e para vencer sempre todas as tentações." São muito belas as graças prometidas por Jesus Cristo aos devotos dos nomes de Maria, como ele mesmo, falando com sua Santa Mãe, deu a entender à S. Brígida, revelando-lhe que quem invocar o nome de Maria com confiança e propósito de corrigir-se receberá três graças singulares: uma perfeita dor dos pecados, o desagravo deles e a fortaleza para chegar à perfeição, e mais, enfim, a glória do paraíso. "Pois", acrescenta o divino Salvador, "são para mim tão doce e caras, ó minha Mãe, as tuas palavras, que não posso negar-te nada do que me peças".

Chega por fim, a dizer S. Efrém que o nome de Maria é a chave da porta do céu para quem o invoca com devoção.¹ E por isso tem razão S. Boaventura em chamar Maria de salvação de todos os que a invocam, como se fosse o mesmo invocar o nome de Maria e obter a salvação eterna; ao passo que o Idiota afirma que a invocação deste santo e doce nome leva à conquista de uma graça superabundante nesta vida e uma glória sublime na outra.² "Se buscais, portanto, ó irmãos", conclui Tomás de Kempis, "ser consolados em todo sofrimento, recorrei a Maria, invocai Maria, obsequiai a Maria, encomendai-vos a Maria. Com Maria alegrai-vos, com Maria chorai, com Maria caminhai, com Maria buscai Jesus; com Jesus e Maria, enfim, ansiai por viver e morrer". "Assim fazendo", diz ele, "sempre avançareis na via do Senhor, pois Maria de bom grado rogará por vós, e o Filho com segurança atenderá a Mãe". 

Assaz doce, portanto, é em vida para os devotos de Maria o seu santíssimo nome por causa das sumas graças que ele lhes obtém, como já vimos. Porém mais doce ainda se lhes mostrará na hora da morte por causa da santa e doce morte que lhes há de impretar. O Pe. Sartório Caputo da Companhia de Jesus exortava a todos que estivessem a assistir algum morimbundo que lhes pronunciassem frequentemente o nome de Maria, dizendo que este nome de vida e de esperança, apenas proferindo na hora da morte, basta para debandar os inimigos e confortar os moribundos em todas as suas angústias. Do mesmo modo S. Camilo de Lelis deixou fortemente recomendado aos seus religiosos que aos moribundos de lembrassem com frequência de invocar o nome de Maria e Jesus, como já ele aplicara sempre aos outros; mas com aidna mais doçura o aplicou mais tarde a si mesmo à beira da sua morte, na qual, como se narra na sua Vida, pronunciava com tanta ternura os seus amados nomes de Jesus e de Maria que incendiava de amor até mesmo quem o escutava. E finalmente, com os olhos fixos às suas adoradas imagens, com os braços em cruz, viu-se o santo expirar com o semblante e a paz do paraíso, proferindo as suas últimas palavras com a invocação dos dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria. Esta breve oração de invocar os sacrossantos nomes de Jesus e de Maria, diz Tomás de Kempis que é tão fácil de guardar na memória quanto amável de contemplar, e poderosa para proteger quem a emprega de todos os inimigos da nossa salvação.

"Beato aquele", dizia S. Boaventura "que ama o teu doce nome, ó Mãe de Deus! É tão glorioso e admirável o vosso nome que quem se lembre de invocá-lo à beira da morte não teme investida nenhuma dos inimigos."¹

Oh, feliz de quem tivesse a sorte de morrer como morreu o Pe. F. Fulgêncio de Ascoli, capuchinho, que expirou cantando: "Ó Maria, a mais bela das que há, quero andar em tua companhia". Ou ainda como morreu o Beato Henrique cisterciense, de quem se conta nos Anais da Ordem (An. 1109) que terminou a vida articulando o nome de Maria. 

Roguemos, pois, meu devoto leitor, roguemos a Deus para que nos conceda esta graça, que a última palavra da nossa língua na hora da morte seja o nome de Maria, como desejava e rogava a S. Germano.² Oh doce morte, morte segura, que é acompanhada e protegida por tal nome de salvação, que Deus não concede invocar na hora da morte senão àqueles que quer salvos!

Ó minha doce Senhora e Mãe, eu vos amo muito, e porque vos amo tanto, também amo o vosso santo nome. Proponho-me e espero com vossa ajuda sempre invocá-lo na vida e na morte. Pela glória, portanto, do vosso nome - concluamos com a terna prece de S. Boaventura - quando a minha alma partir deste mundo, vinde-lhe vós ao encontro, Senhora bendita, e tomai-a nos vossos braços. Não nos negueis, ó Maria - seguimos rogando com o santo - a vir consolá-la então com a vossa presença. Sede vós a sua escada e o seu caminho ao paraíso. Impetrai-lhe vós a graça do perdão e o repouso eterno. E o santo enfim termina dizendo: "Ó Maria, advogada nossa, a vós toca defender os vossos devotos e assumir as suas causas perante o tribunal de Jesus Cristo".


EXEMPLO

Conta o Pe. Rho nos seus Sábados e o Pe. Lireo no seu Triságio Mariano que na Guéldria, por volta de 1465, uma donzela de nome Maria foi mandada um dia pelo seu tio ao mercado da cidade de Nimega para comprar algumas coisas, com a ordem de que passasse a noite em casa de uma outra tia que ali morava. Obedeceu a senhorita, porém ao entardecer, indo encontrar a tia, foi por ela enxotada muito grosseiramente, de modo que se pôs de volta a caminho de casa; chegada, porém, a noite no meio do caminho, encolerizou-se a moça e chamou o demônio em voz alta. Eis que este imediatamente lhe apareceu sob a forma de um homem e prometeu ajudá-la contanto que fizesse uma coisa. "Farei tudo", respondeu a desgraçada. "Não quero outra coisa", disse o inimigo, "senão que de hoje em diante não faças mais o sinal da cruz e mudes de nome". Respondeu ela: "Quanto ao sinal da cruz não o farei mais; mas o meu nome, Maria, é muito caro a mim, não quero mudá-lo". "Então não te ajudo", disse o demônio. Finalmente, depois de muita discussão, assentaram em que ela se chamasse com a primeira letra do nome de Maria, isto é Eme. E com isso mandaram-se para Antuérpia; e ali ficou a infeliz seis anos com tão mau companheiro, vivendo uma vida perversa para escândalo de todos.

Um dia ela disse ao demônio que desejava rever a pátria; o inimigo recusava, mas enfim foi forçado a consentir. Chegando os dois na cidade de Nimega, viram que ali se encenava uma ópera sobre a vida de Maria SS. Diante de tal visão a pobre Eme, pela pouca devoção que lhe restava à Mãe de Deus, começou a chorar. "O que estamos fazendo aqui?", disse-lhe então o companheiro. "Por acaso vamos encenar aqui outra comédia?". Pegou nela para afastá-la daquele local, mas ela resistia; por isso ele, enfurecido, vendo que a estava perdendo, suspende-a no ar e a faz cair no meio do teatro. Então a pobre coitada contou o ocorrido. Foi confessar-se com o pároco, mas o pároco a remeteu ao bispo de Colônia, e o bispo ao Papa; o qual, ouvida a confissão, impôs-lhe como penitência levar ao corpo o tempo todo três aros de ferro, um ao pescoço, e dois aos braços. Obedeceu a penitente, e chegada a Mastrique, ali se encerrou num mosteiro de arrependidas, onde viveu quatorze anos em árdua penitência; e, certa manhã, levantando-se da cama, viu rompido e soltos os três aros, e dois anos depois morreu com fama de santidade, com o desejo de ser sepultada com aqueles três aros que de escrava do inferno a transformaram em feliz escrava da sua libertadora. 


ORAÇÃO

Ó grande Mãe de Deus e minha mãe, Maria, é verdade que não sou digno de nomear-vos; mas vós, que me amais e desejais a minha salvação, vós me haveis de conceder, embora a minha língua seja imunda, que eu possa sempre invocar em meu socorro o vosso santíssimo e poderosíssimo nome, já que o vosso nome é o auxílio de quem vive e a salvação de quem morre.

Ah, Maria puríssima, Maria dulcíssima, ai, fazei que o vosso nome seja de hoje em diante o alento de minha vida. Senhora, não tardeis a socorrer-me sempre que eu vos chamar, já que em todas as tentações que me travarem combater, em todas as necessidades que me sobrevierem, eu não quero deixar jamais de vos chamar, repetindo sempre Maria, Maria. Assim espero fazer na vida, assim espero particularmente na hora da morte, para depois dela vir a louvar eternamente no céu o vosso amado nome: O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria [Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria]. Ah, Maria, amabilíssima Maria, qual conforto, qual doçura, qual confiança, qual ternura sente a minha alma apenas em nomear-vos, apenas em pensar em vós! Agradeço o meu Deus e Senhor, que vos deu para o meu bem este nome tão doce, tão amável e tão poderoso. 

Mas, Senhora, não me contento somente em nomear-vos; quero nomear-vos, ademais, por amor; quero que o amor me lembre de chamar-vos a toda hora, de modo que eu possa ainda exclamar, com S. Anselmo: "Ó nome da Mãe de Deus, vós sois o meu amor". 

Ó minha cara Maria, ó meu amado Jesus, vivam sempre, pois, no meu e em todos os corações os vossos dulcíssimos nomes. Esqueça a minha mente todos os outros nomes para lembrar apenas e para sempre invocar os vossos adorados nomes.

Ah, Jesus, meu Redentor, e minha mãe Maria, quando chegar a hora da minha morte, em que a minha alma, expirando, haverá de partir desta vida, ah, pelos vossos méritos concedei então a graça de proferir minhas últimas palavras dizendo e repetindo: "Amo-vos, Jesus e Maria; Jesus e Maria, dou-vos o coração e a minha alma".


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**Abade de Celles, denominado o Idiota.

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, Ed. Minha Biblioteca Católica, pág.191-200.

 



sábado, 17 de agosto de 2024

Esta devoção é um meio admirável de perseverança




 Artigo VIII


173. Oitavo motivo. Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos induz a esta devoção à Santíssima Virgem, é constituir um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Como se explica que a maior parte das conversões dos pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham? Esta infelicidade provém, como já o demonstrei (cf. n. 87-89), de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e crê-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e méritos. 

Por esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos; tornamo-la por depositária universal de todos os bens da natureza e da graça. É em sua fidelidade que confiamos, no seu poder que nos apoiamos, em sua misericórdia e caridade que nos baseamos, para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-lhe como um bom filho a sua mãe: "Depositum custodi" (1Tm 6,20), isto é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa intercessão do que mereço, e minha funesta experiência me ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em mim: "adolescentulus sum ergo et contemptus" (Sl 118,141); recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-mo por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada penderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos. 

174. É o que diz São Bernardo para inspirar-nos esta prática: "Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais; e, sendo-vos propícia. chegareis ao porto de salvação: Ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis"¹. O mesmo parece dizer São Boaventura em termos ainda mais claros: A Santíssima Virgem, diz ele, está não só detida na plenitude dos santos, mas também guarda e detém os santos na plenitude para que esta não diminua; impede que suas virtudes se dissipem, que seus méritos pereçam, que se percam suas graças, que os prejudiquem os demônios, impede, por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores: "Virgo non solum in plenitudine sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne plenitudo minuatur; detinet virtutes ne fugiant;detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant; detinet daemones ne noceant; detinet Filium ne peccatores percutiat"². 

175. A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, por sua fidelidade a Deus, repara as perdas que Eva infiel causou por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso um santo a compara à âncora firme, porque os retém e impede de soçobrar no mar agitado deste mundo, onde tantas pessoas naufragam por não se firmarem nesta âncora inabalável. "Prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança, como a uma âncora firme: Animas ad spem tuam sicut ad firmam anchoram alligamus"³. Foi a ela que os santos mais se agarraram, e prenderam os outros, com o fito de perseverar na virtude. Felizes, mil vezes felizes os cristãos que agora se apegam fiel e inteiramente a ela, como a uma âncora firme. Os arrancos da tempestade deste mundo não os farão submergir, nem perder os tesouros celestes. Bem-aventurados os que nela buscam abrigo como na arca de Noé. As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não lhes farão mal, pois: "Qui operantur in me non peccabunt" - os que se guiam por mim não pecarão (Eclo 24,30), diz ela com a Sabedoria. Bem-aventurados os filhos infiéis da desgraçada Eva que se apegam à Mãe e Virgem fiel, que permanecem sempre fiéis e que não faltam jamais à sua palavra: "Fidelis permanet, se ipsam negare non potest"4, e que ama aqueles que a amam: "Ego diligentes me diligo" (Pr 8,17), não só de um amor afetivo, mas de um amor efetivo e eficaz, impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de recuar na virtude, ou de cair no caminho, perdendo a graça de seu Filho.

176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo que lhe entregamos em depósito; e, desde que ela o recebeu como depositária, é obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a guadá-lo para nós; do mesmo modo que uma pessoa, a quem eu confiasse mil escudos, seria obrigada a guardá-los para mim, de tal modo que se, por sua negligência, meus mil escudos se perdessem, seria ela, com justiça, a responsável. Mas isto não acontece, pois Maria, a Virgem fiel, jamais deixaria se perder, por sua negligência, o que lhe tivéssemos confiado. Antes passarão o céu e a terra do que ela ser negligente e infiel para com aqueles que dela se fiam.


***

177. Pobres filhos de Maria! extrema é vossa fraqueza, grande, vossa inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais devotos. 

Não deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis a água pura e cristalina da fonte em vossos vasos manchados e infeccionados pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja, mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis. 

178. Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro.

Depositai, derramais no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso insigne de devoção: "Vas spirituale, vas honorabile, vas insigne devotionis". Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa, com todas as suas perfeições, este vaso tornou-se todo espiritual, e a morada espiritual das almas mais espirituais. Tornou-se honorável, e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em doçura, em graças e virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como a torre de Davi, puro como uma torre de marfim. 

179. Oh! quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que nela confia em tudo e por tudo. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele. Pode dizer afoitamente com David: "Haec facta est mihi: Maria foi feita para mim" (Sl 118,56); ou com o discípulo amado: "Accepi eam in mea" (Jo 19,27) - Eu a tomei como toda a minha riqueza; ou com o próprio Jesus Cristo: "Omnia mea tua sunt, et omnia tua mea sunt: Todas as minhas coisas são suas, e as tuas são minhas" (Jo 17,10). 


***

180. Se algum crítico, ao ler isto, achar que falo exageradamente e por excesso de devoção, infeliz dele, pois não me compreende, ou por ser um homem carnal que não aprecia as coisas do espírito, ou por ser do mundo que não pode receber o Espírito Santo, ou, ainda, por ser orgulhoso e crítico, que condena e despreza o que não entende. As almas, porém, que não nasceram do sangue nem da vontade da carne (Jo 1,13) mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e é para elas, afinal, que eu escrevo. 

181. Digo, entretanto, para uns e outros, voltando ao assunto interrompido, que Maria Santíssima, porque é a mais honesta e a mais generosa de todas as puras criaturas, não se deixa vencer jamais em amor e liberalidade. E por um ovo, diz um santo homem ela dá um boi, isto é, por pouco que lhe demos ela dá mais do que recebeu de Deus; e, por conseguinte, se uma alma se lhe entrega sem reserva, ela se dá a esta alma também sem reserva, se nela depositamos toda a nossa confiança, trabalhando de nosso lado em adquirir as virtudes e domar as paixões. 

182. Que os fiéis servidores de Maria digam, pois, ousadamente com São João Damasceno: "Tendo confiança em vós, ó Mãe de Deus, serei salvo; tendo vossa proteção, não temerei; com vosso auxílio, combaterei os meus inimigos e os porei em fuga; pois vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá a quem quer salvar: Spem tuam habens, o Deipara, servavbor; defensionem tuam possidens, non timebo; persequar inimicos meos et in fugam vertam, habens protectionem tuam et auxilium tuum; nam tibi devotum esse est arma quaedam salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri" (Sermo de Annunc). 

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1. Homilia 2 super "Missus est" n. 17.

2. Speculum B.V., lect. VII, §6.

3. SÃO JOÃO DAMASCENO. "Sermo 1 in Dormitione B.M.V.".

4. Aplicação à Santíssima Virgem das palavras de São Paulo: 2 Tm 2,13.

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.