quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O encontro de Jesus e da alma na Sagrada Comunhão








A Santíssima Trindade dá-se à alma que a ama. Com Ela, todos os tesouros aí penetram e habitam. Mas esta doação é tão espiritual, tão acima dos sentidos, e o homem vive tanto do sensível! Jesus encontrou o meio de afastar esse obstáculo e mesmo de se dar ainda mais.

Esse meio infalível é a Eucaristia. É preciso que o bom Mestre tenha o coração muito terno para se ter lembrado da Eucaristia. Como terá estremecido ao pensar no inconcebível esquecimento em que o deixaríamos nos nossos tabernáculos, mas também como se regozijou à vista de tantas almas que o seu amor eucarístico faria felizes até o fim dos séculos.

Senhor! Que seríamos sem Vós, sem a vossa presença real na Eucaristia? Que existência triste e vazia teríamos! Nas horas de cansaço, onde repousaríamos? Nos momentos de tristeza, onde encontraríamos consolação? E quando a nostalgia da pátria para a qual caminhamos nos atormentasse, para onde voltaríamos sem a Eucaristia?

Partilhais assim, de algum modo, das nossas penas e alegrias. A nossa alma derrama-se a todo o instante no vosso Coração. Cada manhã, vindes habitar conosco e de certa maneira fazer vossa a nossa carne e o nosso sangue, misturar o vosso Corpo Sagrado com o nosso barro, fazer correr em nossas veias o vosso divino Sangue. Maravilhosa e fecunda união, em que o vosso Coração purifica, transforma e diviniza o nosso!

Cristão fervoso, esforça-te por receber com frequência o teu Deus na Sagrada Eucaristia e serás forte. Olharás de frente as dificuldades e os contratempos na tua luta por espalhar o reino de Cristo. A quantas dedicações e heroísmos te entregarás!

Sacerdote zeloso, no meio dos teus labores apostólicos, entre os indiferentes e os incrédulos deste mundo, às voltas com embaraços, resistências e incompreensões de toda a sorte, lembra-te de que cada manhã, à tua voz, Jesus desce às tuas mãos consagradas para comunicar-se por teu intermédio às almas dEle sedentas, e te sentirás corajoso e incansável na jornada. 

E tu, alma simples, quem quer que sejais, que passa pelo mundo nas pontas dos pés, silenciosa e ignorada, empenhada em árduo e penoso trabalho, levanta os olhos para o Sacrário. Seja Ele o teu refúgio nas tuas horas boas e más. Jesus aí está por tua causa. Quando instituiu o seu Sacramento, o seu divino olhar distinguiu-te entre todas as outras almas; o seu Coração vibrou com as tuas alegrias e condoeu-s das tuas penas. Agora que estás diante dEle, chega-te sem temor. Tens direito a ser fortificada e a ter um Confidente. Jesus conhece-te e ama-te. 

Divino Amigo das nossas almas! Nós Vos adoramos com respeito e amamos com fervor. Inclinamo-nos diante de Vós com veneração e Vos abraçamos com ternura. À vista da vossa grandeza e do nosso nada, prosternamo-nos aos vossos pés com humildade e, confiantes, apoiamos a fronte no nosso Sagrado Coração, porque sois o Amigo das nossas almas, nosso Irmão bem-amado. Nós Vos demos tudo, Senhor, e em troca Vos possuímos todo. 


Fonte: O dom de si - Joseph Schrijvers

sábado, 2 de janeiro de 2016

Aborto



Que é o aborto?


A resposta a essa pergunta, até há vinte e cinco ou trinta anos atrás, era muito simples. Cometer aborto significava matar uma criança não-nascida, matar um ser humano cuja fraqueza peculiar consistia na sua incapacidade de sobreviver fora do seio materno. E havia duas avaliações morais para esse ato:

1) que era um homicídio justificável - em certos casos. Essa era a posição de muitos não-católicos, embora não fosse de forma alguma a de todos; 
2) que era um homicídio injustificável, isto é, que sempre constituía assassinato, e portanto nunca seria lícito. Essa era a posição católica, compartilhada pela Igreja ortodoxa grega e por muitas outras religiosas e não-religiosas. 

As razões que apoiavam a primeira afirmação - o homicídio justificável - eram simples: no caso extremo (o único contemplado) de conflito entre a vida da mãe e a vida do filho, a vida da mãe tinha mais valor, e a vida do filho deveria ser sacrificada para que a mãe pudesse sobreviver. O caso extremo seria o de uma gravidez que, se chegasse ao fim, acabaria por causar a morte da mãe e talvez a do filho também. 
Que pensar desta posição? Duas coisas: a) pode-se aceitar com certa facilidade que era inspirada por um sincero sentimento humanitarista; b) que os princípios nos quais se baseava - o de que uma vida humana vale mais do que outra, e o de que se pode matar uma pessoa inocente a fim de salvar outra - tinham inevitavelmente de abrir as portas à atitude que se vem generalizando nos nossos dias em relação ao aborto: a atitude daqueles que advogam o aborto on demand, sem outra justificava além do fato de que a mãe - ou talvez o Estado - o pede. 
Quanto a posição católica, basta dizer por ora que se baseia no princípio claro de que todo o ser humano recebe a vida diretamente de Deus, e que somente Deus a pode tirar, a menos que a pessoa abra mão do seu direito à vida por uma agressão criminosa voluntária. Não é possível imaginar ninguém mais inocente do que uma criança não-nascida; não se pode, portanto, matá-la diretamente por causa alguma.
Era esta a situação quanto ao aborto há não muitos anos, uma situação global em que era fácil indicar e circunscrever os pontos de concordância e os pontos de discordância. Havia concordância entre os dois lados sobre a natureza do aborto: significava matar uma criança, era um homicídio, porque o ser no seio materno é um ser humano. E havia discordância quanto à licitude desse homicídio: para alguns, era sempre ilícito; para outros, era justificável e lícito em certos casos graves. Vale a pena acrescentar que, mesmo nos países em que prevalecia este último ponto de vista e a legislação civil reconhecia a legalidade do aborto nesses casos extremos, essa mesma legislação proibia e punia os abortos realizados sem que se verificassem essas circunstâncias excepicionais. 


A posição atual

Se examinarmos a situação atual, veremos que se dão, não duas, mas três respostas à pergunta sobre o que é o aborto:

1) que é um homicídio injustificável; ou seja, é a posição católica, reafirmada por certo pelo Concílio Vaticano II - em termos mais fortes -, que diz (na Constituição sobre a Igreja no Mundo Moderno, n. 51) que o aborto é um "crime abominável";
2) que é um homicídio justificável em algumas circunstâncias, ou seja, a posição - já comentada - de certos não-católicos;
3) que não é um homicídio de forma alguma! Esta é a posição de que desejo ocupar-me especialmente, pois via de regra é a posição dos pró-abortistas modernos e é a posição ideológica - a nova base "moral" - com que procuram justificar o que não pode ser justificado.

A reformulação do problema

O aborto, dizem os novos reformistas liberais, não é de modo algum um homicídio, por uma razão muito simples: o que se mata não é um ser humano, o que se está no útero não é humano.
É evidente que esta suposição significa reformular por inteiro o problema do aborto. E a reformulação é tão radical que, se aceitássemos a base de que parte, o aspecto problemático da questão praticamente desapareceria para muitas pessoas, e o aborto torna-se-ia um assunto - segundo pensam - quase que inteiramente destituído de dificuldades de natureza moral.

Por que a reformulação?

Talvez a primeira coisa a fazer com relação a esta nova posição seja perguntarmo-nos por que e como surgiu em tão poucos anos. Não é difícil encontrarmos a resposta.
Não há quem não goste de sentir-se humanitário. Os "liberais" da atual escola moral positivista não só gostam de sentir-se humanitários, mas também de poder proclamar-se como tais.
O sentido humanitário liberal dos não-católicos de trinta anos atrás aceitava sem demasiada dificuldade que a vida de uma criança não-nascida fosse sacrificada para salvar a vida da mãe. Os anos passaram e, com os anos, intervieram dois fatores essenciais. Um é que os avanços da Medicina praticamente eliminaram o caso extremo que obrigava a escolher a vida da mãe ou a vida do filho. Apesar disso - e aqui está o segundo fator -, a procura pelo aborto aumentou. Houve muitos motivos para esse aumento, entre os quais algumas "recomendações" de natureza mais ou menos médica: a fraca saúde da mãe, a tensão que uma gravidez representa para seus nervos, etc. Mas o motivo principal relaciona-se simplesmente com o crescimento da mentalidade favorável ao controle de natalidade. Apesar de virem envolvidas em referências aparentemente desinteressadas aos problemas populacionais do mundo, as justificativas para o aborto em todos os casos individuais - pelo menos nos países mais desenvolvidos - quase sempre se reduzem à incapacidade de ver a criança com amor. Afinal de contas, é a incapacidade de amar que faz um casal pensar na criança não-nascida como um peso - o peso da gravidez e dos cuidados que exigirá mais tarde - e que leva os pais a temer que, se a criança nascer, terão que renunciar a algum conforto material; é a incapacidade de amar que faz com que a mãe não queira carregar e dar à luz a criança que concebeu. 

Transformar o feto numa "coisa"

Matar uma criança para salvar a vida da mãe não repugnava ao sentido humanitário de alguns liberais de trinta anos atrás. Mas matar uma criança para salvar a conveniência da mãe (a sua relutância em arcar com a gravidez) - ou para salvar o bem-estar dos outros filhos ou a posição financeira da família -, querer que se aceite isso é pedir demasiado ao sentido humanitário seja de quem for, por mais liberal que se possa ser. 
A solução encontrada foi muito simples. É demais sacrificar a vida de uma criança por um capricho da mãe, ou por causa do padrão de vida da família, ou pelo bem-estar da sociedade?... Então não se sacrifique a vida da criança, mas tão-somente a vida de um "feto". Conclua-se, além disso (segundo a feliz teoria de alguns), que o feto não é humano (conclua-se, digo, porque na verdade não se pode prová-lo), e que portanto não se está cometendo nem um homicídio nem um infanticídio, mas única e exclusivamente um "feticídio" - que não é mais significativo na ordem moral do que matar alguns micróbios (igualmente corpos estranhos e indesejáveis) por meio de uma injeção de penicilina.
Aqui está a nova visão moral da questão do aborto. Teremos de enfrentar a objeção (parecem dizer os novos moralistas) de que o aborto é um homicídio? Realmente, pelo menos nos casos que nos interessam, seria difícil justificar um homicídio... Mas então não percamos tempo tentando justificá-lo. Digamos com toda a simplicidade que não é um homicídio, pois aquilo que se aborta não tem natureza humana, e portanto não é um membro da nossa raça humana, é uma coisa. E já que as coisas não possuem direitos, o problema desaparece totalmente. 


Aborto em dois estágios

O que esta visão nos oferece é, digamos assim, um aborto em dois estágios: é uma operação física precedida de uma operação metafisíca, um aborto físico com um pré-requisito metafísico - a supressão de identidade do ser vivo que está no útero. Uma vez realizada essa operação metafísica (verdadeiramente indolor, contanto que se aplique um pouco de anestesia à consciência da pessoa...), a operação farmacológica ou cirúrgica necessária para suprimir o que "resta" no útero não oferece especial dificuldade, já que esse "resto"- devidamente expurgardo da raça dos homens e privado do seu status humano e dos seus direitos - já não é um ser humano, não é senão uma coisa não-humana. 
Compreendamos o raciocínio claramente. O argumento essencial dos abortistas modernos não é (exceto nos dois casos que examinaremos mais adiante) que tenham sido descobertas novas indicações ou razões para o aborto, novas razões de peso que até hoje eram desconhecidas. O seu argumento é diferente, e é importante, repito, compreendê-lo bem. Eles não dizem que existam mais razões do que as conhecidas até agora para matar o que está no ventre materno. O que dizem é que o que está no útero tem menos importância do que antes se pensava; tem menos valor. Não tem valor humano e não possui direitos humanos.


O argumento católico

O argumento católico como um todo - e afirmo que, seja qual for o ângulo pelo qual se considere o assunto, é o único argumento verdadeiramente racional, verdadeiramente científico e verdadeiramente humanitário- sustenta que a criança não-nascida já é um ser humano e goza de todos os direitos próprios de qualquer ser humano, dos quais o principal é o direito à vida; além disso, sustenta que a situação particular como ser humano indefeso lhe confere o direito a uma proteção especial por parte da lei civil.
É interessante recordar que as Nações Unidas, em sessão plenária de novembro de 1959, aprovaram unanimemente a declaração dos direitos da criança nos seguintes termos: "A criança, em virtude da sua falta de maturidade fisíca e intelectual, necessita de especial proteção e cuidados, incluindo a adequada proteção legal, tanto antes como depois do seu nascimento". Esta declaração foi renovada depois da Conferência Internacional dos Direitos Humanos, em Teerã, em maio de 1968.


Fonte: Livro Amor e Casamento - de Comark Burke
Editora: Quadrante


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Nossa Senhora de Almudena

Espanha - Madri


Quando Madri foi tomada definitivamente aos mouros, Nossa Senhora de Almudena, passou a ser, justamente com Nossa Senhora de Atocha, padroeira do povo madrileno.

O título  -  Nossa Senhora "de Almudena" provém do lugar em que foi encontrada a imagem, que, como tantas outras, havia sido escondida, para não ser profanada.

Todos estão de acordo que a imagem foi escondida na muralha que circundava a vila de Madri, e que aí foi encontrada, mas não concordam no que se refere à época e às circunstâncias em que se deu a sua descoberta. 

Há duas tradições acerca do encontro da imagem: uma diz que foi encontrada durante o assalto do exército de Afonso VI à muralha de Madri, parte da qual desmoronou, aparecendo a imagem; a outra tradição é contada da seguinte maneira: logo que o rei D. Afonso se apoderou de Madri, procedeu-se à purificação da igreja de Santa Maria, que havia sido profanada pelos mouros, e, como não tinha sido encontrada a imagem da Virgem levada para lá por São Tiago, a qual  tinha ocupado o altar-mór do mencionado templo, mandou o Rei que pintasse e fosse colocada em seu lugar outra imagem, que foi chamada - da Flor, por causa de uma flor que o pintor lhe pôs na mão, pintura esta que depois foi colocada no fundo da igreja, quando foi recolocada em seu lugar a antiga imagem. 

Como o Rei sabia da existência  dessa imagem antes da irrupção maometana, fez o voto de procurá-la  com toda a diligência, e, depois de desembaraçar-se dos encargos mais urgentes, e de fazer que se restabelecesse o culto na igreja de Santa Maria, organizou de acordo com a autoridade eclesiástica uma procissão de rogativa, para impetrar do Senhor o encontro da sagrada imagem, ao redor das muralhas da vila. 

Organizado o piedoso cortejo, foi circundando todo o recinto murado, entoando cânticos  e recitando com fervor diversas orações, para obterem da misericórdia divina que lhes mostrasse o lugar onde estava oculta a milagrosa imagem. 
Deste modo chegaram à parte da muralha que dava para a "Cuesta de la Vega", onde se verificou o prodígio  de desmoronar-se um pedaço da muralha, deixando a descoberto a imagem pelas lâmpadas que ali deixaram acesas os cristãos, antes de taparem o nicho  em que ficou encerrada. 
Em virtude de que fenômeno ardiam aquelas duas lâmpadas, que a um e outro lado tinha a imagem, como se uma mão diligente tivesse o cuidado de alimentá-las, para que não se apagassem?...
Foi forçoso admitir a intervenção do sobrenatural, porque foi impossível demonstrar que por via ordinária pudesse alguém acender as duas misteriosas lâmpadas!
É tradição que a imagem foi ali escondida pelos cristãos quando da invasão maometana. 
Passados os primeiros momentos de júbilo que produziu tão portentoso achado, dispôs o Rei que no dia seguinte se fizesse a transladação da sagrada imagem para sua antiga igreja, e que uma cópia dela fosse colocada entre duas lâmpadas constantemente acesas, no nicho da muralha que durante mais de três séculos havia ocupado a imagem autêntica, e assim se fez no meio  das demonstrações de fervor e de júbilo do povo de Madri, que enfim encontrara a venerada imagem à qual deram o título de "Almudena", que quer dizer mercado ou celeiro, porque a parte da muralha onde foi descoberta a imagem fica perto do lugar onde os mouros tinham seu mercado e depósito de cereais.

Não tardou o povo de Madri a experimentar os benéficos efeitos da poderosa intercessão da SS. Virgem sob o título de Nossa Senhora de Almudena, tanto nas necessidades públicas como nas individuais.

Entre os primeiros é digno de menção especial o eficaz auxílio que prestou à vila nos dois cercos que lhe puseram os mouros, depois de haver sido reconquistada por D. Afonso VI. 

Em ambos deu o triunfo às armas cristãs, desbaratando os muçulmanos, e remediou os horrores da fome, que já se fazia sentir pela falta de víveres, fazendo-os chegar em abundância aos sitiados, por via milagrosa. 

A antiga igreja paroquial de Santa Maria (são várias e contraditórias as versões que circulam acerca da época da construção desta igreja), de Madri, onde foi venerada Nossa Senhora de Almudena, quase nada de notável oferecia no que se refere a sua arquitetura, mas a figura saliente do citado templo era a imagem de Nossa Senhora, cujo formoso rosto, majestoso aspecto e a bem executada escultura do Divino Infante que a Virgem sustenta em seus braços, justificam a crença de que a dita obra de arte foi executada, por inspiração divina, por artífices dos tempos apostólicos.

A imagem é de madeira olorosa, que recorda os cedros do Líbano, e a pintura que a cobre é tão consistente, que os estragos naturais do tempo não tem podido deteriorá-la. 

As jóias doadas à milagrosa imagem são muitas e de grande valor, assim como os mantos com que reis e rainhas, príncipes, nobres e outras pessoas de todas as classes sociais se comprazem em adorná-la.

A revolução de julho de 1854 derrubou o histórico templo, e a veneranda imagem teve de receber hospitalidade na próxima igreja do Sacramento, para onde foi transladado também o culto da paróquia.

Grande vergonha era para os madrilenos estar a milagrosa imagem de sua excelsa Padroeira numa igreja que não era sua; por isso foi projetada a construção de um grandioso templo dedicado a Nossa Senhora de Almudena, e que ao mesmo tempo servisse de Catedral da diocese de Madri-Alcalá.


(Versão resumida do livro "La Virgem en Espanã".)

Fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos, Edésia Aducci







quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A fuga do pecado venial - Segundo grau de piedade




O pecado. - O que é o pecado venial?  - É a dominação da satisfação humana a ponto de levar à infração formal, embora leve, de um preceito divino. 
Dominação: Presa às criaturas pela atração do prazer, minha alma prefere sua própria satisfação aos interesses de Deus; ela se satisfaz, e desagrada a Deus. Ela conhece e percebe, ao menos um pouco, o preceito que obriga, e mesmo assim opta pela satisfação enganosa 60; o prazer a domina.
Mas não a domina a ponto de excluir totalmente a glória de Deus; a infração por ele produzida é apenas leve, seja porque a matéria não é grave em si mesma ou na proibição que ela envolve, seja porque há insuficiência de conhecimento ou de consentimento de minha parte. E, por ser de pouca gravidade, tal ofensa não extingue a vida; minha alma não chega a ser totalmente desviada e separada de Deus. É como uma ferida feita à alma, e também à glória de Deus.

Sua gravidade.  - Embora muito menos grave, em sua natureza e em seus efeitos, que o pecado mortal, este mal é ainda a desordem essencial, isto é, o maior de todos os males. Infelizmente, estou longe de o compreender, e mais ainda de o sentir! Quando se trata dos males que atacam meu prazer, compreendo-os instintivamente, e sinto-os poderosamente!... Mas, quanto ao mal que ataca a glória de Deus, compreendo-o tão pouco e sinto-o tão fracamente! Quem compreende o pecado? (Sl 18,13). Onde a sabedoria capaz de compreendê-lo, e a inteligência capaz de reconhecê-lo? (Oséias 14,10) Meu Deus! De que aberrações sou capaz, considerando frequentemente como "mal" aquilo que o é tão pouco, enquanto quase não percebo onde ele mais está presente!... Os males que me aflingem são, muitas vezes, tão úteis! Já o pecado venial nunca o é! As maiores infelicidades contêm sempre algum bem, ao passo que, mesmo no menor pecado venial, enquanto pecado, não há qualquer vestígio de bem!... Quem pode compreender o pecado?...

A reparação. - No segundo grau de sua ascenção, a piedade realizará a reparação dessa desordem. Nas circunstâncias em que há pecado venial, isto é, em que coloco minha satisfação acima da glória de Deus, ofendendo-o e ferindo-o, ela me tornará capaz de ceder à santa glória seu lugar e seus direitos. Já nenhum prazer a usurpará. 
Este grau será constituído pela facilidade e prontidão, bem arraigadas, de situar minha satisfação em seu devido lugar e no papel que lhe convém, sem permitir-lhe, deliberadamente, o menor desvio venial. E essa facilidade deve dominar e controlar meu espírito, meu coração e meu corpo. Diliges ex toto... Ela deve estender-se a todas as circunstâncias e a todas as criaturas. Se fosse preciso sacrificar a satisfação e mesmo imolar a própria vida, a alma o faria resolutamente, antes que cometer voluntariamente e deliberadamente um pecado venial. Quando a virtude puder elevar-se a esse ponto de clareza e de firmeza em que já nenhum temor, nenhuma atração a puder dominar e induzir a uma ofensa a Deus, mesmo leve, formalmente deliberada, ela terá atingido o segundo grau da piedade; está é a vida propriamente cristã. 

Altura desse grau. - Essa elevação não se atinge facilmente, nem comumente. É preciso, com efeito, purificar muitos recônditos interiores onde se escondem impulsos egoístas, apegos terrenos, apelos da sensualidade; é preciso desfazer, um por um, os nós apertados e embaralhados de tantos hábitos que aprisionam a natureza viciada, e que se traduzem, exteriormente, por palavras que exprimem julgamentos temerários, maledicências, irritação, difamação, etc., e também uma multidão de atos em que a verdade, a justiça, a caridade, o dever são omitidos ou comprometidos por interesse: plantas daninhas, infelizmente tão numerosas, que invadem quotidianamente as conversas e a conduta, sem que nos preocupemos em capinar o campo infestado por sua pestilência; é preciso, enfim, elevar as faculdades do ser a uma altura e firmeza que permitam ao "dique" da piedade sobressair e resistir às águas das paixões, seja qual for a força dos ventos e das chuvas. Tantos ventos se desencadeiam, tantas torrentes se abatem, tantas fissuras abalam a piedade! 61 Mesmo considerando apenas as misérias veniais, o trabalho é árduo! 
Em que ponto estarei?... Infeliz de mim, quantas faltas veniais!... A busca de mim mesmo não me leva, com frequência, a ofender a Deus, com meu pleno conhecimento e consentimento? E quantas faltas cometo, quase sem perceber, em consequência de maus hábitos que não combato como deveria! Quantas vezes os meus maus instintos, pouco ou nada reprimidos, provocam desentendimentos e atritos, sem que eu ao menos me importe! Ah! Meus pecados veniais! Já não os posso contar! Eles se tornaram mais numerosos que os cabelos de minha cabeça (Sl 39,13). 

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60. Pelo pecado venial, a pessoa prefere a própria satisfação àquilo que Deus ordena, mas não chega ao ponto de preferi-la ao próprio Deus, pois, nesse caso, haveria um pecado mortal, uma negação da ordem segundo a qual Deus deve ser amado acima de todas as coisas. E essa preferência só é venial se o mandamento desobedecido não implica na perda da amizade com Deus, isto é, se o ato desordenado não anula a disposição da vontade para renunciar à própria satisfação, caso esta conduzisse à destruição da ordem essencial da caridade.

61."Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua ruína!" (Mt 7,27).


Fonte: Livro A vida interior 
- simplificada e reconduzida ao seu fundamento, François de Sales Pollien, Joseph Tissot.