quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A vida




(...) O que é viver?  - É ter em si uma atividade própria, proveniente de um príncípio íntimo, que tem o poder de se desenvolver em sua ação e de possuir o seu desenvolvimento 6.
Há dois tipos de vida, a perfeita e a imperfeita. A vida perfeita é a do ser que se possui e se basta, na plenitude de um movimento que nada tem a desenvolver. Essa plenitude absoluta de vida somente se encontra em Deus.
O ato divino, pelo qual Deus se possui, se conhece e se ama na Trindade de suas Pessoas, é um ato infinito; e esse ato é a vida de Deus em si mesmo.
No céu, terei a plenitude de vida  da qual o meu ser se tiver tornado capaz; e possuirei, sem fim e sem mudança, em um ato pleno que mobilizará toda a minha força vital, o desenvolvimento que tiver atingido. Esta será, em minha medida própria e acabada, a vida perfeita. 
Aqui na terra, a vida é imperfeita. - E o que é a vida imperfeita? É o movimento de aquisição, pelo qual um ser se desenvolve. O princípio de atividade interna vai crescendo e se dilatando em sua ação. É uma vida que se faz, que se constrói, que se organiza, e cujo sinal característico é, portanto, a aquisição e o crescimento. O crescimento do ser imperfeito é a manifestação essencial de sua vida. E essa é a condição da minha vida presente. 

20. Natural e sobrenatural. - Sou feito para viver: que quer dizer isto? Quer dizer que sou chamado a desenvolver em mim os frutos da santidade neste mundo, a fim de possuir no céu, como desfecho e para sempre, a vida eterna (Rm 6,22). A vida deste mundo é um crescimento, a vida do céu é uma posse, e ambas constituem a atividade própria do meu ser.
Tenho uma alma e um corpo; a alma vive por si mesma, com uma vida recebida de Deus; e o corpo vive por meio da alma que o anima. A alma pode agir; e ela age, por meio das faculdades que possui. O corpo pode agir; e ele age, por meio das capacidades que lhe são próprias, e que são animadas e regidas pela alma. Esta possui toda uma organização de faculdades cognitivas, volitivas e ativas; e aquele possui uma série de orgãos que se conectam às faculdades da alma e agem por meio delas. Na ação e no desenvolvimento dessas faculdades e dessas potências consiste a minha vida natural. 
Tenho também, pela graça de Deus, uma outra vida; isto é, uma outra capacidade de agir e crescer; não mais por mim, mas por Deus. É a vida sobrenatural onde Deus, unindo-se à minha natureza por um liame inefável, eleva-me acima de mim mesmo, e concede às minhas faculdades o poder de realizar atos divinos. Ele mesmo se torna, então, a vida de minha vida, a alma de minha alma: mistério de amor!
E essa vida é a vida sobrenatural, quer dizer, a vida eterna 7; pois é o desenvolvimento, aqui na terra, da vida que possuirei no céu.

21. Crescei. - Sou feito para viver e somente para viver. - Que farei no céu? - Viverei, sem fim, no ato único do louvor eterno, fonte eterna de bem-aventurança. - Que devo fazer aqui na terra? - Devo viver, isto é, desenvolver-me, uma vez que a vida imperfeita, a única que tenho agora, consiste em desenvolver-se. "Crescei e multiplicai-vos", disse o Senhor ao homem, dando-lhe o poder de desenvolver e de comunicar a vida (Gn 1,28). Essa foi a primeira palavra que o Criador lhe dirigiu; em sua plenitude e sua majestade, ela contém e exprime a lei total da vida. Todas as minhas obrigações, sem nenhuma exceção, encontram sua base e sua explicação nessa obrigação primeira, na qual se encontra o sentido e a medida de todos os meus deveres para com Deus, para com as demais criaturas e para comigo mesmo. É preciso crescer, é preciso desenvolver a vida física, moral, intelectual. Essa é a razão dos cuidados e precauções a tomar na manutenção do corpo, na educação do coração e na instrução do espírito. Cada um é responsável pelo trabalho de aquisição e de conservação do pleno desenvolvimento de suas faculdades. 

22. Vida cristã. - E esse desenvolvimento natural deve estar ordenado para Deus. As faculdades aperfeiçoadas devem servir de instrumentos para a vida sobrenatural. "Não entregueis vossos membros ao pecado, como armas de injustiça", diz São Paulo; "pelo contrário, oferecei-vos a Deus para, superando vossa morte, ter a sua vida, e oferecei vossos membros como armas de justiça a serviço de Deus" (Rm 6,13).
A vida sobrenatural é, pois, normalmente chamada a elevar-se pelo próprio crescimento da vida natural; sou obrigado a fazer o que depende de minha liberdade, para harmonizar a natureza com a graça. O privilégio - revelado pelo grande apóstolo - de expansão do divino em meio e acima das desagregações do que é terrestre 8, manifesta misericordiosamente seus efeitos nas leis de punição às quais Deus me submeteu; mas não se estende às falsificações que eu introduzir.

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(6) Cf. São Tomás, De Potentia, § 10, a. I c.
(7) "A graça de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 6,23).
(8) Ver nº4.


Trecho retirado do livro: A vida interior - simplificada e reconduzida ao seu fundamento,
François de Sales Pollien, Joseph Tissot.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Nossa Senhora de Lignou


Couterne - França



O Santuário de Nossa Senhora de Lignou é muito frequentado, e dista cerca de 4 quilômetros da cidade termal de Bagnoles-dell'Orne, e 2 quilômetros da encantadora igreja de Couterne.

O Santuário é situado no cimo de uma ridente colina, em uma pequena e tranquila aldeia.

A sua torre é coroada por uma branca estátua de Maria, que os raios do sol fazem resplandecer. 

O Santuário domina toda a região, o imenso horizonte da Normândia inteira, e do Maine, que se estende a seus pés. 

Segundo a tradição, o título - "de Lignou"  originou-se de "Lignum", que quer dizer lenho, madeira, referindo-se provavelmente à "árvore" onde a imagem foi encontrada.

As peregrinações a este Santuário são realizadas durante o mês de maio, assim como no dia 15 de agosto.

A imagem de Nossa Senhora é preta, de uma mistura de terra cozida e de substância metálica difícil de precisar, e tem 0,80 c. de altura, sendo extraordináriamente pesada; permaneceu durante muito tempo em uma árvore, uma espinha branca ou pibriteiro, onde foi encontrada, e aonde, segundo a lenda, ela tornou a se fixar depois de três retiradas. Defronte desta árvore foi construída uma capela para a imagem. 

Uma  notícia publicada em 1869 faz remontar ao século XI um dos teixos que havia perto da capela, atualmente desaparecidos, e sabe-se, pela tradição, que, quando construiram um edifício religioso, plantavam ao redor ou perto alguns teixos, para que essas árvores fôssem testemunhas de sua idade.

Em 1928 foi concluído o novo Santuário, obra do arquiteto Pignard. O pibriteiro legendário é renovado de geração em geração, em lembrança do encontro da imagem milagrosa, e é até hoje respeitado, e os peregrinos gostam de levar consigo fragmentos dessa árvore, conservando-os  com devoção.

(Versão um tanto resumida do livro "Mille Pèlerinages de Notre-Dame", de I. Coutrier de Chefdubois).

Fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos, de Edésia Aducci.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nossa Senhora da Paz

Toledo (Espanha)

Festa a 9 de julho



A origem da devoção a Nossa Senhora da Paz tem suas raízes na cidade de Toledo (Espanha).

Nessa cidade, em um templo consagrado a Maria Santíssima e muito venerado pelos fiéis, a Rainha do céu tinha visitado e agraciado diversas vezes a Santo Ildefonso.
Entretanto, mais tarde foi esse templo transformado pelos mouros em mesquita e profanado com os cultos e ritos de sua falsa religião; e quando, em 1085, o rei Afonso VI tomou a cidade, viram os cristãos, com grande mágoa, que nos tratados jurados por ele ficava o referido templo em poder dos mouros.

Partindo Afonso VI para Castela, deixou em Toledo sua esposa, a Rainha D. Constança, e o Arcebispo eleito, D. Bernardo, os quais, compartilhando o desejo ardente dos cristãos, e levados também pelos próprios sentimentos, que julgavam uma indignidade estar o templo principal em poder dos inimigos, resolveram assaltá-lo, uma noite, com pessoas armadas, e apoderar-se dele. E assim o fizeram.

Indignado o Rei, por não ter sido respeitado o seu juramento, dirigiu-se à cidade, resolvido a castigar severamente os principais autores daquela afronta. Grande foi o contentamento dos mouros em contraste com a tristeza dos cristãos. Vendo estes que o Rei já se achava às portas da cidade, sairam em procissão pelas ruas, vestidos de luto e cilício e implorando clemência; outros, no templo, de joelhos, imploravam a Maria Santíssima que tocasse no coração do Monarca. E eis que realmente  se opera o milagre: seu coração abranda-se inteiramente.

Os mouros, que antegozavam o castigo que cairia sobre os cristãos e a vingança de sua injúria, começaram a recear que o castigo se voltasse contra eles, tirando-lhes a liberdade e tornando-lhes a vida dura e insuportável; pressurosos apresentaram-se, portanto, ao Rei, e prostados a seus pés, suplicaram-lhe que perdoasse à Rainha e o Arcebispo, deixando eles o aludido templo em poder dos cristãos.

Acedeu o Rei com prazer ao pedido dos mouros, transformando a sua ira em benevolência, e a sua tristeza em alegria.

A procissão entrou triunfante na cidade, e, dirigindo-se ao templo da Virgem, renderam-lhe graças por haver outorgado a paz à cidade. E para que se perpetuasse, na memória das gerações vindouras, essa graça tão singular, foi instituída a festa de Nossa Senhora  da Paz.

(Esta notícia foi extraída do livrinho "História, novena e missa de Nossa Senhora da Paz", do Revmo. Pe. Sebastião Maria, SS. CC.)

NOTA- A imagem de Nossa Senhora da Paz representa Maria Santíssima sustendo no braço esquerdo o Menino Jesus, e na mão direita segura um ramo de oliveira, símbolo da paz. O Menino tem na mão esquerda uma bola que representa o mundo, e na direita um ramo de oliveira.

Fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos, de Edésia Aducci.

Nossa Senhora de Walsingham





Inglaterra




O Santuário Nacional de Nossa Senhora, para os ingleses, é o Santuário de Walsingham, o ponto central da veneração de Maria Santíssima na ilha; a sua história está intimamente ligada à história da Igreja Católica na Inglaterra.

O que deu origem ao título e à veneração de Nossa Senhora de Walsingham foi uma visão que teve Richeldis de Faverches.

A esta senhora apareceu a Mãe de Deus conduzindo-a em espírito à sua casinha de Nazaré, perto da qual lhe recomendou que tomasse medidas exatas de sua casa, para que pudesse ser edificada em Walsingham uma casa semelhante; mas só depois que a aparição se repetiu três vezes, começou Richeldis alegremente a dar cumprimento ao desejo de Nossa Senhora.

Segundo John Belland, investigador do século XVI, estes acontecimentos se deram no ano de 1061.
O filho de Richeldis, Geoffrey de Faverches, deixou como seu substituto, antes de sua peregrinação à Terra Santa, o Capelão Edvoy, dando-lhe a incumbência de erigir um convento em suas terras, e confiar a "Santa Casa" à proteção de uma Ordem religiosa. A essa Ordem seria também conferido o padroado da igreja de Todos os Santos.

Estas incumbências foram ratificadas por Richard de Clare, duque de Gloucester, sucessor de Geoffrey. 

De 1146 a 1174 encarregaram-se do Covento os Cônegos Agostinianos, que ficaram sendo também os guardas da "Santa Casa" até a destruição do Convento e a proibição das peregrinações na Inglaterra.

Mas... retrocedamos ao ano de 1061: diz a tradição que, quando Richeldis tratou de começar a construção da "Santa Casa", viu certa manhã, com espanto, olhando para um prado, dois pedaços planos do terreno misteriosamente não atingidos pelo orvalho, e esses dois planos correspondiam exatamente às dimensões dos alicerces da casa de Nazaré, que Richeldis havia medido na sua visão; porém, quando ela fazia começar a  construção num daqueles lugares assinalados, o qual ficava na proximidade de duas fontes, sobrevieram singulares acontecimentos, que estorvavam ou retardavam os trabalhos iniciados. Tudo falhava, e ninguém acreditava que a capela fosse algum dia acabada.

Mas Richeldis voltou-se aflita para a Mãe de Deus, pedindo-lhe auxílio e proteção para a sua obra, e eis que, na madrugada de uma noite de oração fervorosa e confiante, seu pedido é satisfeito de modo maravilhoso: Richeldis encontra o Santuário (a "Santa Casa") muito bem construído a 200 pés de distância do lugar que tinham começado a construí-lo.

A este grande  milagre uniram-se muitas curas maravilhosas e o livramento dos mais variados perigos e necessidades.

A fama de Walsingham como lugar de graças extraordinárias espalhou-se rapidamente, e começaram a afluir peregrinos de toda a parte.

Ao longo das estradas por onde passavam as peregrinações foram erigidas de espaço a espaço capelas e outros lugares de oração. Duas capelas ainda existem: uma fica em King´s Lynn e é denominada Capela de Nossa Senhora da Colina Vermelha; a outra, situada em Houghton-in-the-Dale, é dedicada a Santa Catarina de Alexandria e conhecida por "Capelinha dos chinelos", porque aí tiravam os peregrinos os sapatos, continuando o trajeto descalços.

Já muito antes da extinção deste lugar de culto católico por ordem do Cromwell, no ano de 1538, já muito antes tinha começado o calvário de Walsingham, depois de ter o culto católico florescido durante três séculos naquele lugar bendito. 

Mas... não falemos nas perseguições, porque os perseguidores desaparecem, e Deus continua vencendo até os dias de hoje.

Mais ou menos trezentos anos depois da destruição da imagem milagrosa de Walsingham, começou o movimento de Oxford, que visava o florescimento da fé católica na Ilha, e, com esse movimento, foi pouco a pouco renascendo a veneração da SS. Virgem Maria; com este fim uniram-se os veneradores de Nossa Senhora em 1848; em 1880 nasceu a Confraria das Filhas de Maria, em 1904 a Liga de Nossa Senhora, e nos anos seguintes muitas outras organizações semelhantes.

Em 1921 resolveram mandar fazer uma cópia da antiga imagem, e, como a antiga capela estava ainda como a tinham deixado depois da pilhagem, colocaram a imagem na igreja paroquial.




E assim começou a aumentar a devoção a Nossa Senhora, começando também dentro em pouco as romarias a serem organizadas regularmente.

Poucos anos depois foi necessário aumentar a igreja, e por isso resolveram reconstruir a "Santa Casa" segundo o modelo e o tamanho da primitiva, encerrando-a, porém, numa construção maior.

A obra foi começada em 1931, e em 1937 foi consagrada à igreja, que foi anexada ao antigo edifício. 


A devoção a Nossa Senhora de Walsingham foi-se tornando sempre mais intensa, e inúmeras foram as graças concedidas pela Mãe de Deus, tanto nos doentes como aos sãos, havendo também muitas conversões e muitas curas milagrosas.

Nossa Senhora de Walsingham é o título de Nossa Senhora mais amado e invocado na Inglaterra.

(Versão resumida do livro "Wallfahrtsorte Europas", quem desejar notícia mais detalhada consulte o livro "Walsingham, the History of a famous Shine!, de H. M. Sillett).

Fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos, de Edésia Aducci.