terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da malícia do pecado mortal

 



Filios enutri et exaltavi; ipsi autem spreverunt me.

Filhos criei e engrandeci-os; mas eles me desprezavam (Is 1,2).


PONTO I

Que faz aquele que comete pecado mortal?... Injuria a Deus, desonra-o e, no que depende dele, cobre-o de amargura. 

Primeiramente, o pecado mortal é uma ofensa grave que se faz a Deus. A malícia de um ofensa, diz São Tomás, se mede pela pessoa que a recebe e pela pessoa que a comete. A ofensa feita a um simples particular é sem dúvida um mal; mas constitui delito maior se é feita a uma pessoa de alta dignidade, e muito mais grave quando visa o rei... E Quem é, Deus? É o Rei dos reis (Ap 17,14). Deus é a Majestade infinita, perante quem todos os príncipes da terra e todos os santos e anjos do céu são menos que um grão de areia (Is 40,15). Diante da grandeza de Deus, todas as criaturas são como se não existissem (Is 40,17). Eis o que é Deus... E o homem, o que é? Responde São Bernardo: saco de vermes, pasto de vermes, que cedo o hão de devorar. O homem é um miserável que nada pode, um cego que nada vê; pobre e nu, que nada possui (Ap 3,17). E este verme miserável se atreve a injuriar a Deus? exclama o mesmo São Bernardo. Com razão, pois, afirma o Doutor Angélico, que o pecado do homem contém uma malícia quase infinita. 

Por isso, Santo Agostinho chama, absolutamente, o pecado mal infinito.

Daí se segue que todos os homens e todos os anjos não poderiam satisfazer por um só pecado, mesmo que se oferecessem à morte e ao aniquilamento. Deus castiga o pecado mortal com as penas terríveis do inferno; contudo, esse castigo é, segundo dizem todos os teólogos, citra condignum, isto é, menor que a pena com que tal pecado deveria ser castigado.

E, na verdade, que pena bastará para castigar como merece um verme que se rebela contra seu Senhor? Somente Deus é Senhor de tudo, porque é o Criador de todas as coisas (Et 13,9). Por isso, todas as criaturas lhe devem obediência. "Obedecem-lhe os ventos e os mares" (Mt 9,27). "O fogo, o granizo, a neve e o gelo"... executam suas ordens (Sl 148,8). Mas o homem, quando peca, que faz senão dizer a Deus: Senhor, não quero servir-te (Sm 2,20).

O Senhor lhe diz: "Não te vingues", e o homem responde: quero vingar-me. "Não te aposses dos bens alheios", e deseja apoderar-se deles. "Abstém-te do prazer impuro", e não se resolve a privar-se dele. 

O pecador fala a Deus do mesmo modo que o ímpio Faraó, quando Moisés lhe comunicou a ordem divina de que desse liberdade ao povo de Israel. Aquele temerário respondeu: "Quem é o Senhor, para que eu obedeça à sua voz?... Não conheço o Senhor" (Êx 5,2). O pecador diz a mesma coisa: Senhor, não te conheço; quero fazer o que me agrada. 

Em suma: na presença de Deus mesmo lhe falta o respeito e se afasta dele e nisto consiste propriamente o pecado mortal: o ato com que o homem se alheia de Deus. Disto se lamentava o Senhor, dizendo: Ingrato foste, "tu me abandonastes"; eu jamais quisera apartar-me de ti; "tu me voltastes as costas" (Sm 15,6). 

Deus declarou que aborrece o pecado, de modo que não pode deixar de aborrecer a quem o comete (Sb 14,9). Quando o homem peca, ousa declarar-se inimigo de Deus e combate frente a frente contra Ele (Jo 12,25). Que dirias se visses uma formiga a lutar como um soldado?...

Deus é esse onipotente Senhor, que, com um ato de sua vontade, arrancou do nada o céu e a terra (2Mc 7,28). E, se quisesse, por um sinal seu, poderia aniquilá-los (2Mc 8,18). O pecador, quando consente no pecado, levanta a mão contra Deus, e "com colo erguido", isto é, com orgulho, corre a insultar a Deus; arma-se de grossa cerviz (Jo 15,25) (símbolo de ignorância), e exclama: "Que grande mal é o pecado que fiz?... Deus é bom e perdoa aos pecadores..." Que injúria! que temeridade! que cegueira tão grande!


AFETOS E SÚPLICAS

Eis-me aqui, meu Deus! A vossos pés está o rebelde temerário, que tantas vezes em vossa presença se atreveu a vos injuriar e a vos voltar as costas, mas agora implora a vossa piedade. Vós, Senhor, dissestes: Clama a mim e te ouvirei (Jr 33,3). Reconheço que o inferno é pouco castigo para mim; mas sabeis que tenho maior dor de vos ter ofendido, ó Bondade infinita, que se tivesse perdido tudo o que me pertence, sem excetuar a vida. Perdoai-me, Senhor, e não permitais que vos torne a ofender. Haveis esperado por mim, a fim de que vos amasse e bendissesse para sempre vossa misericórdia. Oh!sim, eu vos amo e bendigo, e espero que, pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, nunca mais me separarei do vosso amor. Ele me livrará do pecado no futuro. Dou-vos mil graças pelas luzes e pelo desejo que me dais de amar-vos sempre. Tomai posse de todo o meu ser, alma, corpo, faculdades, sentidos, vontade e liberdade. Sou vosso, salvai-me (Sl 118,94).

Sois o único Bem, o único Amável, sede meu amor. Dai-me fervor vivíssimo no nosso amor, pois, já que tanto vos ofendi, não me pode bastar o amor simples, mas um desejo de amar-vos muito a fim de compensar as ofensas que vos fiz. De vós, que sois onipotente, espero alcançá-lo... Também, ó Maria, o espero das vossas orações, que são onipotentes junto de Deus. 


PONTO II

O pecador não só ofende a Deus, mas também o desonra (Rm 2,23). Com efeito, renunciando à graça divina por um miserável prazer, menospreza e rejeita a amizade de Deus. Se o homem perdesse esta soberana amizade para ganhar um reino ou ainda o mundo inteiro, não há dúvida que faria um mal imenso, pois a amizade de Deus vale mais que o mundo e que mil mundos. E por que será que se ofende a Deus? (Sl 10,13). Por um punhado de terra, por um ímpeto de ira, por um prazer brutal, por uma quimera, por um capricho (Ez 13,19). Quando o pecador começa a deliberar consigo mesmo se deve ou não dar consentimento ao pecado, toma, por assim dizer, em suas mãos, a balança e se põe a considerar o que pesa mais, se a graça de Deus ou a ira, a quimera, o prazer... E quando, por fim, dá o consentimento, declara que para ele vale mais aquela quimera ou aquele prazer que a amizade divina. Vede, pois, como Deus é menosprezado pelo pecador. Davi, ao considerar a grandeza e majestade de Deus, exclamava: "Senhor, quem há que vos seja semelhante? (Sl 34,10). Mas Deus, ao contrário, vendo-se comparado pelos pecadores a uma satisfação vilíssima e proposto a ela, lhes diz: "A quem me comparastes e igualastes"? (Is 40,25).

De modo que, exclama o Senhor: vale aquele prazer mais que minha graça? (Eclo 23,25). Não terias pecado, se soubesses que ao cometê-lo perderias uma das mãos, ou dez escudos, ou menos talvez. Assim, diz Salviano, só Deus parece tão vil a teus olhos que merece ser propsoto a um ímpeto de cólera, a um gozo indigno. 

Além disso, quando o pecador, para satisfazer qualquer paixão, ofende a Deus converte em sua divindade essa paixão, porque nela põe o seu últio fim. Assim diz São Jerônimo: "Aquilo que alguém deseja, se o venera, é para ele um Deus. Vício no coração é ídolo no altar." Do mesmo modo diz São Tomás: "Se amas os prazeres, estes são teu Deus". E São Cipriano: "Tudo quanto o homem antepõe a Deus, converte-o em seu Deus". Quando Jeroboão se revoltou contra o Senhor, procurou levar consigo o povo à idolatria, e, apresentando os ídolos, disse-lhes: "Aqui estão, Israel, os teus deuses" (3Rs 12). De modo semelhante procede o demônio; apresenta ao pecador os prazeres e lhe diz: "Que tens que ver com Deus ... Eis aqui o teu deus: é esta paixão, este prazer. Toma-os e abandona a Deus" É isto o que faz o pecador, dando o seu consentimento: adora no seu coração o prazer em lugar de Deus.

"Vício no coração é ídolo no altar".

Se ao menos os pecadores não desonrassem a Deus em sua presença!...

Mas injuriam-no e o desonram face a face, porque Deus está presente em todos os lugares (Sm 23,24). O pecador o sabe. E, apesar de tudo, atreve-se a provocar o Senhor na mesma presença divina (Is 65,3).


AFETOS E SÚPLICAS

Vós, Senhor, sois o bem infinito, e muitas vezes vos hei preterido por vil prazer que, apenas gozado, logo desaparece. Mas vós, apesar de vos ter desprezado, ofereceis-me agora o perdão, se o quiser aceitar, e prometeis receber-me na vossa graça, se me arrepender de vos ter ofendido. Sim, meu Senhor, dói-me de todo o coração tanta ofensa e detesto meus pecados mais que todos os males. Retorno a vós e espero que me recebereis e me abraçareis como a um filho. Agradeço-vos, ó infinita Bondade! Ajudai-e, Senhor, e não permitais que novamente vos afaste de mim. Não deixará o inferno de tentar-me; mas vós sois mais poderoso que ele. Bem sei que não me apartarei jamais de vós se a vós sempre me recomendar. Esta é a graça que vos suplico: que sempre me recomende a vós e vos implore como o faço agora, dizendo: Senhor, ajudai-me; dai-me luz, força, perseverança... Dai-me o paraíso e, sobretudo, concedei-me vosso amor, que é a verdadeira glória da alma. Amo-vos, Bondade infinita, e quero sempre amar-vos. Ouvi-me, pelo amor de Cristo Jesus...

Ó Maria, refúgio dos pecadores, socorrei a um pecador que quer amar a Deus!

PONTO III

O pecador injuria, desonra a Deus, e, no que toca sua parte, o cobre de amargura, pois não há amargura mais sensível do que ver-se pago com ingratidão pela pessoa amada em extremo favorecida. E a que se atreve o pecador?... Ofende ao Deus que o criou e tanto o amou, que deu por seu amor o sangue e a vida. E o homem o expulsa de seu coração ao cometer um pecado mortal. Deus habita na alma que o ama. 

"Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo 14,23). Notai a expressão faremos morada; Deus vem a essa alma e nela fixa sua mansão; de sorte que não a deixa, a não ser que a alma o expulse. "Não abandona se não é abandonado", como diz o Concílio de Trento. E já que sabeis, Senhor, que aquele ingrato há de expulsar-vos, por que não o deixais desde já? Abandonai-o, parti antes que vos faça tão grande ofensa... Não, diz o Senhor; não quero deixá-lo, senão esperar que ele formalmente me despeça. 

Assim, quando a alma consente no pecado, diz a seu Deus: Senhor, apartai-vos de mim (Jo 31,14). Não o diz por palavras, mas de fato, como adverte São Gregório. Bem sabe o pecador que Deus não pode harmonizar com o pecado. Bem vê que, pecando, obriga Deus a afastar-se dele. Rigorosamente, é como se lhe dissesse: Já que não, podeis ficar com pecado e tendes de afastar-vos de mim, - ide quando vos aprouver. E expulsando a Deus da alma, deixa entrar o inimigo que dela toma posse. Pela mesma porta por onde sai Deus, entra o demônio. "Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e moram ali" (Mt 12,45). Ao batizar-se um menino, o sacerdote exorciza o inimigo, dizendo-lhe: "Sai daqui, espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo"; porque a alma do batizado, ao receber a graça, converte-se em templo de Deus (1Cor 3,16). Quando, porém, o homem consente no pecado, efetua precisamente o contrário, dizendo a Deus, que reside na sua alma: "Sai daqui, Senhor, e cede lugar ao demônio". É disto de que se queixa o Senhor a Santa Brigída quando lhe diz que, ao despedi-lo, o pecador procedia como aqueles que expulsassem o seu rei do próprio trono: "Sou como um rei bandido de seu próprio reino, elegendo-se em meu lugar um péssimo ladrão..." Que mágoa não sentiríeis se recebêsseis grande ofensa duma pessoa, a quem tivésseis feito grande benefício? Esta mesma mágoa causais a Deus, que chegou a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor à terra e ao céu para que se compadeçam dele à vista da ingratidão com que o tratam os pecadores: "Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta... Filhos criei e engrandeci... mas eles me desprezaram" (Is 1,2). Em suma, os pecadores afligem com seus pecados o coração do Senhor... (Is 63,10) Deus não está sujeito à dor, mas - como disse o Padre Medina - se fosse suscetível de sofrer, um só pecado mortal bastaria para o fazer morrer, pelo infinito pesar que lhe causaria. Assim, pois, afirma São Bernardo, "o pecado, quanto em si é, dá morte a Deus". De modo que o pecador, ao cometer um pecado mortal, fere, por assim dizer, a seu Senhor, e nada omite para tirar-lhe a vida, se pudesse (Sl 30,4). Segundo a expressão de São Paulo, calca aos pés o Filho de Deus (Hb 10,29), e despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo. 

  

AFETOS E SÚPLICAS

Assim, meu Redentor, todas as vezes em que pequei vos expulsei de minha alma, e fiz tudo para vos tirar a vida, se pudésseis morrer.

Ouço-vos dizer: "Que mal te fiz ou em que te contristei para me causares tanto desgostos... Perguntais-me, Senhor, que mal me fizestes?...

Destes-me o ser, morrestes por mim: é este o mal que me haveis feito!...

Que hei de responder?... Confesso, Senhor, que mereci mil vezes o inferno, e que mui justamente já me poderíeis ter condenado a ele.

Lembrai-vos, porém, do amor que vos fez morrer por mim na cruz; lembrai-vos do sangue que por meu amor derramastes, tende compaixão de mim... Mas já sei, Senhor: não quereis que desespere, e me dizeis que estais à porta de meu coração (deste coração que vos expulsou), e que bateis nele com vossas inspirações para entrar, pedindo-me que vos abra... (Ap 3,20; Ct 5,2). Sim, meu Jesus, estou resolvido a apartar-me do pecado; dói-me de todo o coração de vos ter ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Entrai, meu amor; a porta está aberta; entrai, e não vos afasteis mais de mim. Abrasai-me com vosso amor, e não permitais que torne a separar-me de vós... Não, meu Deus, não queremos mais separar-nos. Abraço-vos e aperto-vos a meu coração...

Dai-me a santa perseverança...

Maria, minha Mãe, socorrei-me sempre; rogai por mim a Jesus, e alcançai-me a dita de jamais perder a sua graça.

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A vida presente é uma viagem para a eternidade




 Ibit homo in domum aeternitatis suae.

Irá o homem à casa de sua eternidade (Ecl 12,5).


PONTO I 

Ao considerar que neste mundo tantos malvados vivem na prosperidade, e tantos justos, ao contrário, vivem cheios de tribulações, os próprios pagãos, unicamente com o auxílio da luz natural, reconheceram a verdade de que, existindo Deus, e sendo Ele justíssimo, deve haver outra vida onde os ímpios serão castigados e os bons recompensados. 

Ora, o que os pagãos conheceram, seguindo as luzes da razão, confessamo-lo nós, cristãos, também pela luz da fé. "Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da que está por vir" (Hb 13,14). 

A terra não é nossa pátria, mas apenas lugar de trânsito, por onde passamos para chegar em breve à casa da eternidade (Ecl 12,5). Assim, meu leitor, a casa em que moras não é tua própria casa, é uma hospedaria que bem cedo, e quando menos o pensas, terás que deixar; e os primeiros a expulsar-te dela, quando vier a morte, serão teus parentes e amigos... Qual será, pois, tua verdadeira casa? Uma cova será a morada do teu corpo até ao dia do juízo, e tua alma irá à casa da eternidade, ao céu, ou ao inferno. Por isso, nos diz Santo Agostinho: "És hóspede que passa e vê". Néscio seria o viajante que, tendo de visitar de passagem um país, quisesse empregar ali todo o seu patrimônio na compra de imóveis, que ao cabo de poucos dias teria de abandonar. 

Considera, por conseguinte, diz o Santo, que estás de passagem neste mundo, e não ponhas teu afeto naquilo que vês. Vê e passa, e procura uma boa morada, onde para sempre poderás viver. 

Feliz de ti se te salvas! Quão formosa a glória!... Os palácios mais suntuosos dos reis são como choças em comparação à cidade celeste, única que se pode chamar Cidade de perfeita formosura (Lm 2,15). Ali não haverá nada que desejar. Vivereis na gozosa companhia dos Santos, da divina Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem recear nenhum mal. Vivereis, em suma, abismados num mar de alegrias, de contínua beatitude, que, durará sempre (Is 35,10). E esta alegria será tão grande perfeita, que por toda a eternidade e em cada instante parecerá sempre nova... Se, ao contrário, te condenares, desgraçado de ti! Sentir-te-ás submerso num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e privado de teu Deus... E por quanto tempo?...

Acaso ao terem decorrido cem anos ou mil, tua pena estará cumprida? Oh, nunca acabará!... Passarão mil milhões de anos e de séculos e o inferno que sofreres estará começando!... Que é um milhar de anos em comparação da eternidade? Menos que um dia já passado... (Sl 89,4) Queres saber agora qual será tua habitação na eternidade?... Será a que mereceres; a que fabricas tu mesmo com tuas obras. 


AFETOS E SÚPLICAS

Eis aí Senhor, a morada que mereci pelo meu procedimento: o cárcere do inferno, onde devia estar depois que cometi o primeiro pecado mortal, gemendo abandonado por vós e sem esperança de poder tornar a vos amar!... Bendita seja para sempre vossa misericórdia, porque esperou por mim e me deu tempo de remediar as faltas! Bendito seja para sempre o sangue de Jesus Cristo, que me mereceu essa misericórdia!... Não quero, meu Deus, abusar mais de vossa paciência. 

Arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido, não tanto por ter merecido o inferno, como por ter ultrajado vossa infinita bondade. 

Nunca mais, meu Deus, nunca mais. Antes morrer que tornar a vos ofender. Se estivesse já no inferno, ó meu Sumo Bem, não poderia já amar-vos, nem vós poderíeis amar-me. Amo-vos, Senhor, e quero ser por vós amado. Bem sei que não o mereço; mas o merece Jesus Cristo, que se sacrificou na cruz para que pudésseis perdoar e amar.

Por amor de vosso divino Filho, dai-me, pois, ó Pai Eterno, a graça de sempre vos amar de todo o coração... Amo-vos, meu Pai, que me destes o vosso Filho Jesus. Amo-vos, Filho de Deus, que morrestes por mim. Amo-vos, ó Mãe de Jesus Cristo, que pela vossa intercessão me alcançastes tempo de penitência. Alcançai-me agora, ó Senhora minha, a dor de meus pecados, o amor para com Deus e a santa perseverança. 


PONTO II

Se a árvore cair para a parte do meio-dia ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, ali ficará (Ecl 11,3). Para o lado em que cair, na hora da morte, a árvore de tua alma, ali ficará para sempre. Não há, pois, termo médio: ou reinar eternamente na glória, ou gemer como escravo no inferno. Ou sempre ser bem-aventurado, num mar de dita inefável, ou ficar para sempre desesperado num abismo de tormentos. 

São João Crisóstomo, considerando que aquele rico, qualificado de feliz no mundo, foi logo condenado ao inferno, enquanto que Lázaro, tido como infeliz porque era pobre, foi depois felicíssimo no céu, exclama: "Ó infeliz felicidade, que trouxe ao rico eterna desventura!... Ó feliz desdita, que levou o pobre à felicidade eterna!" De que serve inquietar-se, como fazem alguns, dizendo: "Sou réprobo ou predestinado?..." Quando se derruba uma árvore, para que lado cai?... Cai para onde está inclinada... Para que lado te inclinas, irmão?... Que vida levas?... Procura inclinar-te sempre para Deus; conserva-te na sua graça, evite o pecado, e assim te salvarás e serás predestinado ao céu. Para evitar o pecado, tenhamos presente sempre o grande pensamento da eternidade, como com razão lhe chama Santo Agostinho. Este pensamento moveu muitos jovens a abandonar o mundo e a viver na solidão para se ocuparem unicamente, pois agora no céu se regozijam de sua resolução, e poderão regozijar-se por toda a eternidade. 

Uma senhora, divorciada de Deus, converteu-se e foi ter com o beato M. Ávila, que se limitou a dizer-lhe: Pensai, senhora, nestas duas palavras: sempre, nunca. O padre Paulo Ségneri, por um pensamento que teve certa vez da eternidade, não pôde conciliar o sono, e desde então se entregou à vida mais austera. 

Refere Dressélio que um bispo, dominado pelo pensamento da eternidade, levava vida santíssima, repetindo sem cessar de si para si estas palavras: "a cada instante estou às portas da eternidade". Certo monge encerrou-se num túmulo e não cessava de exclamar: "Ó eternidade, eternidade!..." "Quem crê na eternidade - dizia o citado Padre Ávila - e não vive como santo, devia estar encerrado numa casa de doidos!"


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, tende piedade de mim!... Sabia que, pecando, me condenava eu mesmo às penas eternas, e apesar disso quis me opor à vossa vontade santíssima... Por quê?... Por um prazer miserável...

Perdoai-me, Senhor, que me arrependo de todo coração. Não me rebelarei nunca contra vossa santa vontade. Desgraçado de mim se me tivésseis feito morrer no tempo da minha má vida! Estaria já no inferno, aborrecendo vossa vontade. Mas agora estimo-a e quero estimá-la sempre.

Ensinai-me e ajudai-me a cumprir no futuro vosso divino beneplácito (Sl 142,10). Nunca mais vos quero contradizer, ó Bondade infinita; mas vos dirigirei unicamente esta súplica: "Faça-se vossa vontade, assim na terra como no céu". Fazei que cumpra plenamente vossa vontade e nada mais desejo. Pois que outra coisa quereis, meu Deus, senão meu bem e minha salvação? Ah, Pai Eterno, ouvi-me por amor de Jesus Cristo, que me ensinou a pedir-vos tudo em seu nome: Fiat voluntas tua! Fiat voluntas tua! "Faça-se a vossa vontade!..." Oh! ditoso de mim, se passar o resto da vida e morrer fazendo vossa vontade!...

Ó Maria, bem-aventurada Virgem, que executastes sempre com toda a perfeição a vontade de Deus, alcançai-me por vossos méritos que a cumpra até ao fim de minha vida. 


PONTO III

"Irá o homem à casa de sua eternidade" (Ecl 12,5) disse o profeta...

"Irá", para significar que cada qual há de ir à morada que quiser. 

Não será levado, mas irá por sua própria e livre vontade. Deus quer certamente que nos salvemos todos; mas não quer salvar-nos à força. 

Põe diante de nós a vida e a morte (Ecl 15,18) e ser-nos-á dado o que escolhermos (Ecl 15,18). Jeremias disse também que o Senhor nos deu dois caminhos, o da glória e o do inferno (Jr 21,8). A nós cabe escolher. Mas quem se empenha em andar pela senda do inferno, como poderá chegar à glória? É de admirar que, ainda que todos os pecadores queiram salvar-se, eles mesmos se condenam ao inferno, dizendo: espero salvar-me. Mas quem será tão louco - disse Santo Agostinho - que tome veneno moral com esperança de curar-se?... No entanto, quantos insensatos se dão a morte a si próprios, pecando, e dizem: "mais tarde pensarei no remédio..." Ó deplorável ilusão, que a tantos tem arrastado ao inferno! Não sejamos tão imprevidentes; consideremos que se trata da eternidade. 

Se tanto trabalho se dá o homem para adquirir uma casa cômoda, espaçosa, saudável e bem situada, como se tivesse certeza de que a poderia habitar durante toda a vida, por que se mostra tão descuidado quando se trata da casa que deve ocupar eternamente? - disse Santo Euquério. - Não se trata de uma morada mais ou menos cômoda ou espaçosa, mas de viver em um lugar cheio de delícias, entre os amigos de Deus, ou num abismo de todos os tormentos, entre a turba infame dos celerados, hereges e idólatras... E isto por quanto tempo?... Não por vinte nem por quarenta anos, senão por toda a eternidade. Grande negócio, sem dúvida! Não é coisa de momento, mas de suma importância. 

Quando São Tomás More foi condenado à morte por Henrique VIII, Luísa, sua esposa, procurou persuadi-lo a consentir no que o rei queria. 

Tomás lhe replicou: Dize-me, Luísa, vês que já sou velho. Quanto tempo ainda poderei viver? - Poderás viver ainda vinte anos - disse a esposa. - Oh! triste negócio! - exclamou então Tomás. - Por vinte anos de vida na terra, querias que perdesse uma eternidade de ventura e que me condenasse à eterna desdita?" Iluminai-nos, ó Deus! Se a doutrina da eternidade fosse duvidosa, se não passasse de opinião provável, ainda assim deveríamos procurar com empenho viver bem para não nos expormos, caso essa opinião fosse verdadeira, a ser eternamente infelizes. Mas essa doutrina não é duvidosa, senão certa; não é mera opinião, senão verdade de fé: "Irá o homem à casa da eternidade..." (Ecl 12,5). "É a falta de fé - diz Santa Teresa - a causa de tantos pecados e da condenação de tantos cristãos!..."

Reavivemos, pois, nossa fé, dizendo: "Creio na vida eterna!" Creio que depois desta vida há outra que não acaba nunca. Tendo sempre presente este pensamento, lancemos mãos dos meios convenientes para assegurar a salvação. Frequentemos os sacramentos, façamos meditação diárias, pensemos em nossa salvação e fujamos das ocasiões perigosas. E se for preciso, fujamos do mundo, porque nenhuma precaução é demais para nos assegurar a eterna salvação. "Não há cautela que seja excessiva quando periga a eternidade" - diz São Bernardo. 


AFETOS E SÚPLICAS

Não há, pois, meu Deus, termo médio: ou ser sempre feliz, ou para sempre desgraçado; ou hei de lançar-me num mar de venturas, ou num pélago de tormentos; ou convosco na glória, ou eternamente no inferno separado de vós. Sei com certeza que muitas vezes mereci o inferno, mas também sei com certeza que perdoais ao que se arrepende e livrais de eterna condenação ao que espera em vós. Dissestes: "Clamará a mim... e eu o livrarei e glorificarei" (Sl 90,15). Perdoai-me, pois, meu Senhor, e livrai-me do inferno. Pesa-me, ó Sumo Bem, sobre todas as coisas de vos ter ofendido. Restabelecei-me na vossa graça e dai-me vosso santo amor. Se já estivesse no inferno, não poderia amar-vos, mas vos odiaria eternamente... E, no entanto, que mal fizestes para que vos odiasse?... Amastes-me até ao extremo de morrer por mim; sois digno de infinito amor. Não permitais, Senhor, que me aparte de vós; amo-vos e quero amar-vos sempre. "Quem me separará do amor de Cristo?" (Rm 13,35). Ah, meu Jesus, só o pecado me pode separar de vós. Não o permitais, eu vo-lo exoro, pelo sangue derramastes por mim. Dai-me antes da morte...

Ó Rainha e minha Mãe! Assisti-me com vossas orações; fazei que morra mil vezes, antes que me separe do amor do vosso divino Filho!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Eucaristia - O pão, o vinho e o sacerdote

 



Na Última Ceia, Jesus transformou o pão e o vinho no seu próprio corpo e sangue. Ao mesmo tempo, mandou os seus Apóstolo repetirem a mesma ação sagrada no futuro. "Fazei isto em memória de mim", foi o encargo solene que lhes deu. Evidentemente, Jesus não manda coisas impossíveis e, portanto, juntamente com esse mandato conferiu-lhes o poder necessário para transformarem o pão e o vinho no seu corpo e sangue. Com as palavras "Fazei isto em memória de mim", Jesus converteu os seus Apóstolos em sacerdotes.

O poder de transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue do Salvador foi transmitido pelos Apóstolos aos homens que deveriam perpetuar o seu trabalho e partilhar da sua missão quando eles se fossem embora. E estes, por sua vez, confeririam esse poder sacerdotal a outros. E assim, de geração em geração, durante estes dois mil anos, o poder do sacerdócio foi-se transmitindo por meio do sacramento da Ordem Sagrada. De bispo em bispo, chegou até os sacerdotes de hoje. 

A ação litúrgica pela qual o pão e o vinho transformam-se no corpo e no sangue do Senhor é a Santa Missa. A palavra "Missa" deriva do latim missa, que significa "despedida". Por força de um costume da primitiva cristandade, este vocábulo passou a ser o nome da ação pela qual Jesus se torna presente na Eucaristia. À exceção dos batizados, ninguém estava autorizado a assistir ao Sacrifício eucarístico. Os futuros cristãos (chamados catecúmenos) tinham que deixar o recinto ao terminar a leitura do Evangelho e o sermão. Tanto a estes após o sermão, como ao resto da assembléia ao terminar a ação sagrada, o sacerdote dirigia a advertência oficial: "Ide, é a despedida", em latim Ite missa est. Pelo uso, a palavra "missa" passou a designar o Sacrifício eucarístico completo. 

Teremos ocasião de estudar mais adiante a Missa como sacrifício. Aqui queremos apenas indicar que é nela que o pão e o vinho são transformados no corpo e no sangue de Cristo, mudança que tem lugar quando o sacerdote, fazendo-se instrumento livre e voluntário de Cristo, pronuncia sobre essa espécies da palavras do Senhor "Isto é o meu Corpo" e "Este é o cálice do meu Sangue". De pé no altar, como representante visível de Jesus, o sacerdote humano "aciona" o poder infinito de Cristo, e Cristo, pela força do Espírito Santo, torna-se presente no mesmo instante sob as aparências do pão e do vinho. 

Nessas palavras da Missa - que são chamadas palavras da Consagração - está a essência da Missa, e só elas, e não as demais orações e cerimônias (à exceção da comunhão do sacerdote, que completa a missa), são a Missa. Isto requer, naturalmente, que o sacerdote tenha a intenção de consagrar o pão e o vinho. Se, por exemplo, almoçando a uma mesa em que houvesse pão e vinho, um sacerdote se pusesse a narrar a Última Ceia aos demais comensais, e ao fazê-lo pronunciasse as palavras da consagração, é evidente que não haveria consagração, porque o sacerdote não teria essa intenção.

Só o pão feito de trigo se pode converter no corpo de Cristo, visto Jesus ter utilizado pão de trigo na Última Ceia. Se as palavras da consagração fossem pronunciadas sobre pão feito de outra espécie de grão, como aveia, centeio ou milho, por exemplo, não haveria transubstânciação.

Qualquer pão de farinha de trigo serve. No entanto, a Igreja de rito latino requer que só se utilize pão ázimo, quer dizer, sem fermento. Esta antiquíssima lei da Igreja de rito latino baseia-se em que, com toda a probabilidade, Jesus utilizou pão ázimo, visto ter celebrado a Última Ceia "no primeiro dia dos ázimos", um período de sete dias em que os judeus só comiam pão sem fermento. 

Não obstante, a Igreja Católica de rito grego, como a maioria das igrejas orientais, usa pão com fermento para a missa, e é tão missa como a nossa. Mas, quer tenha fermento quer não, o pão deve ser de trigo. 

Como Jesus utilizou vinho de uva na Última Ceia, só se deve usar vinho de uva para a missa. Se as palavras da consagração se pronunciasse sobre vinho feito de outra fruta (como vinho de cerejas ou de ameixas), não produziriam efeito. O corpo e o sangue do Senhor não se fariam presentes. Só o sumo puro fermentado de uva pode ser utilizado na missa. 

Uma vez que o pão e o vinho se tenham transformado no corpo e no sangue de Cristo, o nosso Salvador permanece presente enquanto as aparências do pão e do vinho se conservarem intactas. Por outras palavras, Jesus está presente na Sagrada Eucaristia não somente durante a missa, mas enquanto as hóstias consagradas na missa continuarem a manter as aparências de pão. Isto quer dizer que devemos à Eucaristia a adoração que se deve a Deus, já que a Sagrada Eucaristia contém o próprio Filho de Deus. Adoramos a Eucaristia com culto de latria, que é o culto reservado exclusivamente a Deus. 

Na Igreja primitia, a adoração a Jesus sacramentado era praticada apenas dentro da missa. A devoção ao Santíssimo Sacramento fora dela - tão familiar nos nossos dias - desenvolveu-se lenta e gradualmente. Parece que os cristãos demoraram bastante tempo a perceber plenamente o tesouro que tinham na Eucaristia. Só no século XII é que nasceu o costume de reserva a Sagrada Eucaristia para a adoração dos cristãos fora da missa. A partir daí, a devoção ao Santíssimo Sacramento desenvolveu-se rapidamente. 

"A sagrada Reserva (no Sacrário) era a princípio destinada a guardar, de maneira digna, a Eucaristia, para poder ser levada aos doentes e ausentes, fora da missa. Pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo na sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor, presente sob as espécies eucarísticas. Por isso, o sacrário deve ser colocado em lugar particularmente digno da igreja; deve ser construído de tal modo que sublinhe e manifeste a verdade da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento" (n. 1379; cf. também os ns. 1378 e 1380-1). 

Hoje, em cada igreja católica, há um tabernáculo, um sacrário. Esse tabernáculo (do latim tabernaculum, que significa "tenda") é uma caixa coberta normalmente com um véu, que se identifica por uma luz que arde na lamparina do sacrário. Dentro dela, Jesus está presente, tanto na hóstia grande que se usa na bênção solene, e que se guarda numa caixa de metal, como nas hóstias pequenas, guardadas numa copa - o cibório -, que é utilizada para distribuir a comunhão aos fiéis. 

A partir do momento em que se começou a estender a devoção à Sagrada Eucaristia fora da missa, três práticas devotas se tornaram universais: a festa e procissão do Corpus Christi, a exposição e bênção com o Santíssimo Sacramento e a devoção das Quarenta Horas. 

A festa do Corpus Christi, do Corpo de Cristo, originou-se na diocese de Liège, na Bélgica, no ano de 1246, e dezoito anos mais tarde o Papa Urbano IV estendeu-a a toda a Igreja. O Corpus Christi é celebrado sempre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. Parte da celebração consiste na procissão do Corpus, que pode ser nesse dia ou no domingo seguinte, se houver razões para isso. Na procissão, a Sagrada Eucaristia é levada na chamada custódia ou ostensório, que significa literalmente "caixa para mostrar". O ostensório é uma caixa circular de ouro, prata ou metal, montada sobre um suporte. Nas procissões e nas bênçãos solenes, a lúnula que contém a Sagrada Hóstia é inserida no ostensório, para que todos os participantes a possam ver. 

O rito eucarístico a que chamamos bênção com o Santíssimo Sacramento foi introduzido gradualmente a partir da instituição da festa do Corpus Christi. Tornou-se costume expor o Santíssimo Sacramento para adoração dos fiéis, e logo houve um desenvolvimento adicional desse costume, concluindo-se o ato com a bênção dos assistentes, que o sacerdote dá com o Santíssimo. O rito da bênção, tal como hoje o conhecemos, remonta ao século XIV. Consiste num breve período de exposição e adoração, em que se medita a Sagrada Escritura, se cantam hinos, se dizem orações, se adora e reza em silêncio, terminando com a bênção do próprio Jesus na Sagrada Eucaristia. 

A devoção das Quarenta Horas foi iniciada em Milão, no século XVI. Originariamente, consistia em 40 horas ininterruptas de adoração ao Santíssimo Sacramento exposto, em comemoração das quarentas horas em que o corpo de Jesus permaneceu no sepulcro. O bispo, se o julgar oportuno, pode fixar a cada paróquia e comunidade religiosa certas datas para que cada semana, em algum lugar da diocese (a não ser que esta seja muito pequena), se assegure a prática dessa devoção e assim se oferece a Jesus sacramentado uma adoração perpétua. 


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A fé explicada - Padre Leo J. Trese. Ed.Quadrante, 14ª edição, 2014. 

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domingo, 22 de junho de 2025

Eucaristia - Já não é pão

 



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Deus abençoe por Maria! 


Padre Leo J. Trese


Que aconteceu exatamente quando Jesus disse na Última Ceia (e os sacerdotes esta manhã na missa): "Isto é o meu corpo" sobre o pão, e "Este é o cálice do meu sangue" sobre o vinho? Cremos que a substância do pão deixou de existir completa e totalmente, e que a substância do próprio Corpo de Cristo substituiu a substância do pão, que ficou aniquilada. Cremos também que Jesus, pelo seu poder onipotente como Deus, preservou as aparências do pão e do vinho, apesar de as respectivas substâncias terem desaparecido. 

Por "aparências" de pão e de vinho entendemos todas as formas externas e acidentais que de um modo ou de outro podem ser percebidas pelos sentidos da vista, do tato, do paladar, do ouvido e do olfato. A Sagrada Eucaristia ainda parece pão e vinho, ainda tem o sabor do pão e do vinho e cheira a pão e vinho, ainda é sensível ao tato como pão e vinho, e, se a partíssemos ou derramássemos, espalhar-se-ia como o pão e o vinho. Mesmo que fizéssemos um exame microscópico, eletrônico ou radiológico, só poderíamos perceber nela as qualidades do pão e do vinho. Com efeito, a observação humana só pode obter a aparência externa de qualquer coisa. A sua configuração, a sua reação a determinadas circunstâncias, as leis físicas a que parece obedecer, são as únicas questões que a ciência pode investigar. Mas a substância de uma coisa, o que lhe está subjacente, a substância como substância, está fora do alcance dos sentidos e dos instrumentos humanos. 

Hoje em dia, a ciência da física nuclear teoriza que toda a matéria é uma forma de energia; que toda a matéria se compõe de partículas em movimento, carregadas eletricamente. A diferença entre um pedaço de madeira e um pedaço de ferro é simplesmente a diferença entre o número, a velocidade e a direção das partículas carregadas eletricamente que compõem os dois materiais. Mas, mesmo que um físico consiga fotografar com uma câmara eletrônica algumas dessas partículas, ainda continuará a manejar aparências. A substância como substância, aquilo que faz uma coisa ser o que é e não outra coisa, continua a estar fora do alcance dos cientistas. 

Todo este tema da relação da substância (o que uma coisa é) com os acidentes (as qualidades perceptíveis de uma coisa) é uma questão filosófica, e não podemos estender-nos aqui na sua análise. Basta-nos saber, como sabemos, que, pelas palavras da Consagração, a substância do corpo de Cristo substitui a substância do vinho, ao mesmo tempo que permanecem as aparências do pão e do vinho. 

Evidentemente, é um milagre; um milagre contínuo, realizado centenas de milhares de vezes por dia pelo poder infinito de Deus. A bem dizer, é um duplo milagre: é o milagre da transformação do pão e do vinho em Jesus Cristo; e o milagre adicional pelo qual Deus mantém as aparências do pão e do vinho ainda que a substância subjacente tenha desaparecido, como se o rosto de uma pessoa permanecesse num espelho depois de a pessoa se ter retirado. 

A mudança operada pelas palavras da consagração é de um tipo especial, e a Igreja teve de cunhar um termo especial para a designar: transubstânciação, que, literalmente, significa a passagem de uma substância para outra; neste caso, é uma singular espécie de mudança. 

"O Concílio de Trento resume a fé católica declarando: <<Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu Cristo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo nosso Senhor, e e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama-lhe, com justeza e exatidão, transubstânciação>> (DS 1642)" (n. 1376).

Na vida ordinária, estamos acostumados a muitas espécies de mudanças. Às vezes, são mudanças apenas aparentes, externas, como quando a água congela e se torna sólida, ou um pedaço de barro é modelado e se torna um vaso. Vemos também mudanças que afetam tanto a substância como os acidentes, como quando o vinho se transforma em vinagre ou o carvão sob pressão se torna um diamante. Tem havido mudança milagrosas destes gênero, como a que Jesus operou em Caná, mudando a água em vinho. 

No entanto, em lugar nenhum da ordem natural e, pelo que conhecemos, também na ordem sobrenatural, se produzem mudanças semelhantes à que se opera no pão e no vinho pelas palavras da consagração: uma mudança de substância sem mudança de aparências. Por esta razão, a palavra "transubstânciação" aplica-se exclusivamente a esse milagre quotidiano. 

Ainda que pelas palavras da consagração o corpo de Jesus se torne presente sob as aparências do pão, e o seu sangue sob as aparências do vinho, sabemos que a Pessoa de Jesus, ressuscitado dentre os mortos, não pode ser dividida. Onde está o seu corpo, deve estar também o seu sangue; e onde estão o seu corpo e o seu sangue, devem estar também a sua alma e a sua natureza divina, a que estão unidos o seu corpo e o seu sangue. Do mesmo modo, onde está o sangue de Jesus, deve estar Jesus inteiro. Em consequência, pelas palavras "Isto é o meu corpo", torna-se presente não só o corpo de Jesus, como também - pelo que os teólogos chamam "concomitância", quer dizer, por força da sua unidade de Pessoa - o seu sangue, alma e divindade. O mesmo acontece na consagração do vinho. 

É por esta razão que não é necessário receber a Comunhão sob as duas espécies de pão e vinho, embora se possa fazê-lo nos casos previstos pelas normas litúrgicas. Se a recebemos sob qualquer das duas, seja pão, seja vinho, recebemos Jesus todo, completo e inteiro. 

Jesus Cristo, todo e inteiro, está presente na Sagrada Eucaristia sob as aparências do pão e do vinho. Está presente simultaneamente em cada uma das hóstias consagradas de cada altar de todo o mundo e em cada cálice consagrado onde quer que se celebre a Santa Missa. Mais ainda, Jesus todo e inteiro está presente em cada partícula consagrada e em cada gota de vinho consagrado. Se a sagrada hóstia se divide - como o sacerdote faz durante a missa -, Jesus está totalmente presente em cada uma das partes. Se caísse ao chão uma partícula da hóstia consagrada ou se derramasse uma gota do calíce, Jesus estaria presente todo e inteiro nessa partícula e nessa gota.

É por isso que os panos do altar têm que ser lavados com a máxima reverência, porque pode haver aderida a eles uma partícula das Sagradas Espécies. Estes panos de altar compreendem o corporal, sobre o qual se coloca a patena com a hóstia e o cálice consagrados durante a missa; a pala, o pano quadrado que cobre o cálice durante a missa; e o sanguíneo, o pano com que o sacerdote enxuga os lábios depois de consumir o precioso Sangue e seca os dedos e o cálice depois de lavar o cálice com vinho e água, ou só com água. Jesus, evidentemente, não deixa o seu lugar no céu, "à direita do Pai", para se tornar presente na Sagrada Eucaristia. Permanece no céu e está no altar. Quem se faz presente sob as aparências do pão e do vinho é o corpo glorificado de Jesus, o seu corpo como está no céu. 

A presença de Jesus na Eucaristia - sob dimensões tão pequenas e em tantos lugares ao mesmo tempo - parece suscitar duas aparentes dificuldades: Como pode um corpo humano estar presente num espaço tão pequeno? Como pode um corpo humano estar em vários lugares ao mesmo tempo? Estas dificuldades, é claro, são apenas aparentes. Deus assim o fez; portanto, pode ser feito. Deve-se recordar que Deus é o autor da natureza, o amo e o senhor da Criação. As leis físicas do universo foram estabelecidas por Ele, e Ele pode suspender a sua ação se assim o quiser, sem que o seu poder infinito tenha que fazer nenhum esforço. 

É verdade que, segundo a experiência humana, um corpo deve ter determinada "extensão", isto é, deve ocupar determinado espaço. Segundo a nossa experiência, um corpo deve estar num só lugar de cada vez. A multilocação (estar em vários lugares ao mesmo tempo) é algo desconhecido para nós. Pode-se, pois, afirmar que um corpo sem extensão no espaço, ou que ocupe vários lugares ao mesmo tempo, é um impossível físico; isto é, impossível para as leis físicas. Mas esses fenômenos não são impossíveis metafisicamente; quer dizer, não há contradição íntrinseca na idéia de um corpo sem extensão ou na idéia da multilocação. Uma contradição intrínseca torná-los-ia absolutamente impossíveis; estaria neste caso, por exemplo, a idéia de um círculo quadrado, que é uma contradição nos seus próprios termos. 

Talvez isto nos arraste excessivamente para o campo da filosofia. Mas os pontos que nos interessa deixar claros são: primeiro, que Jesus não está presente na Eucaristia em miniatura. Está ali  na plenitude da sua Pessoa glorificada, de uma maneira espiritualizada, sem extensão nem espaço. Não tem altura, largura ou espessura. 

O segundo ponto é que Jesus não se multiplica: não passa a haver muitos Jesus; também não se divide entre as diferentes hóstias. Há um só Jesus, completo e indiviso. A sua multilocação não é resultado de multiplicações e ou divisões, mas da suspensão da lei do espaço relativamente ao seu corpo sagrado. É como se estivesse num lugar, e todas as partes do espaço fossem atraídas para Ele. É fácil ver a razão pela qual a Eucaristia é chamada - e é - o sacramento da unidade. Quando comungamos - nós e os nossos companheiros de comunhão do mundo inteiro -, estamos onde Ele está. O espaço dissolveu-se para nós, e todos juntos somos um em Cristo. 

Quanto tempo permanece Jesus na Sagrada Eucaristia? O tempo em que permanecem as espécies do pão e do vinho. Se um fogo repentino destruísse as hóstia consagradas do sacrário, Jesus não se queimaria. As aparências do pão e do vinho transformar-se-iam em cinzas, mas Jesus já não estaria lá. Quando, depois de comungarmos, o nosso processo digestivo destrói as aparências do pão, Jesus já não permanece corporalmente em nós; só fica a sua graça. 

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A fé explicada - Padre Leo J. Trese. Ed.Quadrante, 14ª edição, 2014.