domingo, 28 de julho de 2024

Regras de vida cristã¹

                                                                         Livro: A Oração 

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)
 
 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


I. De manhã, ao se levantar, fazer os atos indicados posteriormente. Todos os dias fazer meia hora de oração mental e pelo menos um quarto de hora de leitura de algum livro espiritual. Participar da Missa. Fazer a visita do Santíssimo Sacramento e à Mãe de Deus. Rezar o Rosário. À noite, fazer o exame de consciência, ato de arrependimento, os atos cristãos e rezar a Ladainha de Nossa Senhora.

II.  Confessar-se e comungar pelo menos semanalmente e até mais vezes, se o Diretor espiritual o permitir.

III. Escolher um bom confessor, instruído e piedoso; seguir suas orientações tanto no tocante aos atos de devoção, como nas questões importantes; não abandoná-lo sem motivo grave. 

IV. Evitar a ociosidade, as más companhias, as conversas inconvenientes e, principalmente, as ocasiões de pecado, especialmente quando há perigo para a castidade.

V. Nas tentações, principalmente nas impuras, fazer logo o Sinal da Cruz e invocar os nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação.

VI. Se cometer algum pecado, arrepender-se logo e resolver emendar-se. Se o pecado for grave, confessar-se o quanto antes.

VII. Sempre que possível ouvir as pregações; pertencer a alguma irmandade ou grupo, ali procurando apenas a salvação eterna.

VIII. Para honrar a Maria Santíssima, jejuar nos sábados e na vigília de suas festas, fazendo ao mesmo tempo alguma outra mortificação corporal conforme o conselho do diretor espiritual. Fazer a novena para as festas de Maria, do Natal, de Pentecostes e do próprio padroeiro. 

Nas situações desagradáveis, doenças, perdas, perseguições, conformar-se com a vontade de Deus e ficar em paz, dizendo: "Assim Deus quer, assim seja!". 

Todos os anos fazer os Exercícios Espirituais em alguma casa religiosa ou algum lugar retirado. Ou, pelo menos, fazê-lo em casa mesmo, dedicando-se o mais possível à oração, às leituras espirituais e ao silêncio. Do mesmo modo fazer um dia de Retiro cada mês, evitando as conversas e recebendo a Eucaristia.  



Atos cristãos para cada dia


De manhã ao levantar-se, tendo feito o Sinal da Cruz, faça os seguintes atos de adoração, de amor, de agradecimento, de propósito e de súplica:

I. Meu Deus, eu vos adoro e vos amo com todo o meu ser.

II. Agradeço todos os vossos benefícios, especialmente o de me terdes conservado nesta noite.

III. Eu vos ofereço as minhas ações, os meus sofrimentos deste dia, em união com as ações e os sofrimentos de Jesus e de Maria, com a intenção de ganhar todas as indulgências que puder.

IV. Proponho-me fugir de todos os pecados, especialmente... (é bom fazer um propósito particular quanto ao defeito em que mais se cai). Nos contratempos quero conformar-me sempre à vossa vontade. Meu Jesus, guardai-me; Maria protegei-me sob vosso manto. Pai eterno, ajudai-me por amor de Jesus e de Maria. Meu Anjo da Guarda, meus Santos Padroeiros, acompanhai-me. Reze depois o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e três Ave-Marias em honra e pureza de Nossa Senhora. 

Ao começar um trabalho, estudo ou qualquer outra ocupação, diga: "Senhor, eu vos ofereço este meu esforço". Às refeições: "Meu Deus, seja tudo para a vossa glória. Abençoai-me para que não caia em nenhuma falta". Depois das refeições: "Agradeço, Senhor, o benefício que fizestes a quem vos ofendeu". Ao soar das horas: "Jesus, eu vos amo. Não permitais que me separe de vós". Nos contratempos: "Senhor, assim quisestes, assim também eu quero". Nas tentações repita frequentemente os nomes de Jesus e Maria. Tendo cometido alguma falta: "Senhor, eu me arrependo porque ofendi a vós, bondade infinita. Não quero fazê-lo novamente". Se houve pecado grave, confessar-se logo.

À noite, antes de se deitar, agradeça a Deus as graças recebidas; faça o exame de consciência, o ato de arrependimento e os atos do cristão. 


Modo prático de fazer oração mental

Como preparação, diga:

I. Meu Deus, creio que estais aqui presente. Eu vos adoro com todo o meu ser.

II. Senhor, mereceria estar agora no inferno; arrependo-me de vos haver ofendido; perdoai-me.

III. Pai Eterno, por amor de Jesus e de Maria, iluminai-me.

Depois, recomende-se a Maria Santíssima com uma Ave-Maria, recomende-se a São José, ao Anjo da Guarda, ao Santo Padroeiro.

Agora leia a Meditação; vá interrompendo a leitura sempre que encontrar uma passagem que tenha um significado maior para você. Faça atos de humildade, de agradecimento e, principalmente, de arrependimento e amor. Diga: "Senhor, fazei de mim o que quiserdes, ajudai-me a conhecer o que quereis de mim; quero fazer o que vos agrada". Ore muito, pedindo a Deus a perseverança, o amor, a luz, a força para fazer sempre a vontade divina, a graça de orar sempre.

Antes de terminar a oração, faça um propósito particular, de evitar alguma falha mais frequente. Termine com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Nunca deixe de recomendar a Deus as almas do Purgatório e os pecadores. 


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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.

 












sexta-feira, 19 de julho de 2024

A graça da oração é concedida a todos


 Livro: A Oração - Conclusão

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)
 
 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.


 

 

Tirada do quarto capítulo da segunda parte da obra original

A graça da oração é concedida a todos

1. A ninguém falta o auxílio divino para a oração

Já que a oração é tão necessária à salvação, devemos ter por certo que nunca nos faltará o auxílio divino para o ato da oração, sem que para isso seja necessária nova graça especial. Na oração encontraremos todos os outros auxílios para a observância dos mandamentos e para a consecução da vida eterna. Nenhum condenado poderá desculpar-se com a falta dos auxílios indispensáveis. 


2. Deus quer a salvação de todos 

Por isso morreu por nós Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor. Deus concede a todos a sua graça e salvam-se todos os que lhe forem fiéis. Estamos todos obrigados a esperar firmemente que Deus nos dará a eterna salvação. Mas se não tivéssemos a certeza de que Deus dá a todos a graça de rezar sempre sem haver mister de uma graça particular, então, sem revelação especial, ninguém poderia ter a devida esperança de salvar-se. 


3. Deus ama os que nele confiam

A virtude da esperança é tão cara a Deus que Ele declara achar a sua complacência nos que confiam nele. "O Senhor se agradou sempre nos que esperam em sua misericórdia" (Sl 146,11). Promete a vitória sobre os inimigos, a perseverança na sua graça e a glória eterna a quem espera e porque espera. "Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei, protegê-lo-ei... livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei" (Sl 90,14-15). "O Senhor os salvará, porque esperam nele" (Sl 36,40). "Guardai-me, Senhor, porque esperei em vós" (Sl 15,1). "Ninguém que esperou no Senhor foi confundido" (Eclo 2,10).

Persuadamo-nos de que as palavras de Deus e as suas promessas têm a mais absoluta firmeza, pois é certo que "os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão" (Mt 24,35). Por isso São Bernardo diz que todo nosso mérito consiste em confiar plenamente em Deus. O motivo é porque muito honra a Deus a confiança que nele depositamos: "Invocai-me no dia da tribulação, livrar-vos-ei e honrar-me-eis" (Sl 49,15). Assim, o homem honra o poder, a misericórdia e fidelidade de Deus, porquanto crê que Deus pode e quer salvá-lo, e não pode faltar a sua promessa de salvar a quem nele confia. O profeta assegura-nos que, quanto maior for a nossa confiança, tanto maior será a misericórdia divina? "Fazei, Senhor, cair sobre nós a vossa misericórdia tanto quanto confiamos em vós" (Sl 32,22).


4. Deus nos ordenou a esperança

Por ser tão agradável a Deus esta virtude da esperança, Ele no-la quis impor por um grave preceito, como dizem comumente os teólogos e como consta de muitos textos da Sagrada Escritura: "Esperai nele todo o povo" (Sl 61,9). "Vós, os que temeis o Senhor, esperai nele" (Eclo 2,9). "Esperei sempre no vosso Deus" (Sl 25,5). "Esperai sempre na graça que vos é oferecida" (1 Pd 1,13).

Esta esperança da vida eterna deve ser firme e certa em nós, como já disse Santo Tomás: "A esperança é a expectação certa da bem-aventurança". Isto também declarou expressamente o santo Concílio de Trento, dizendo: "No auxílio de Deus todos devem pôr firmíssima confiança, porque, assim como Deus começou em nós a boa obra, Ele que dá a vontade e a execução, também levará ao fim, contanto que cooperemos com sua graça". E, já antes, o declarou São Paulo dizendo de si próprio: "Porque sei em quem confiei e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito" (2Tm 1,12).

Esta é a diferença que há entre a confiança do mundo e a confiança cristã. Para a esperança terrena, basta uma expectativa incerta e nem pode ser de outra maneira, porque sempre se pode duvidar se quem prometeu alguma coisa, mudou ou não a sua vontade de dar. Mas a esperança cristã, da parte de Deus, é certa, visto que Ele pode e quer salvar-nos e prometeu a salvação a quem observar a sua lei; prometeu, igualmente, aos que pedirem as graças necessárias para esse fim. 


5. Esperança e temor 

É verdade que a esperança vem sempre acompanhada do temor, como diz o Angélico. Porém, esse temor não tem sua fonte em Deus, mas em nós mesmos, porquanto podemos faltar sempre (não correspondendo como devemos) e pôr-lhe obstáculos com as nossas culpas. Por isso, com razão o Concílio Tridentino condenou o erro dos que negam o livre-arbítrio, querendo que cada homem tenha certeza infalível de sua perseverança e de sua salvação. Este erro foi condenado pelo Concílio Tridentino porque, como havíamos dito, para conseguirmos a vida eterna é necessária ainda a nossa cooperação, e esta cooperação é incerta, falível. Por isso, o Senhor quer que, de um lado, tenhamos sempre um santo temor de nós mesmos, para não cairmos na presunção de confiarmos em nós mesmos, e, doutro lado, exige que estejamos certos de sua boa vontade e de seu auxílio, sempre que pedirmos. 

Confiados no poder e na misericórdia de Deus, diz Santo Tomás, certo de que Deus pode e quer nossa salvação, devemos esperar dele certamente a vida eterna. "Do poder e da misericórdia de Deus, está convencido quem tiver fé."


6. Firme deve ser a razão por que esperamos 

Se, pois, deve ser firme a nossa confiança em Deus, consequentemente firme também deve ser o motivo de nossa esperança. Não sendo firme, mas duvidoso o fundamento da esperança, não poderíamos esperar e aguardar de Deus a salvação e os meios necessários para alcançá-la. São Paulo quer que esperemos com toda a certeza a nossa salvação: "Se perseverardes, fundados na fé, firmes e imovéis na esperança do Evangelho, que ouvistes" (Cl 1,23). E, em outro lugar, confirma dizendo que a nossa esperança deve ser imovél como uma âncora segura e firme, pois está fundada nas promessas divinas, que não podem enganar: "Desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até o fim, para tornar completa a vossa esperança... para que, por estas duas coisas infalíveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos uma grande consolação, nós que pomos o nosso refúgio em alcançar a esperança proposta, a qual temos como uma âncora firme e segura da alma" (Hb 6,11-19).

São Bernardo diz que a nossa esperança não pode ser incerta, pois que ela se apoia nas promessas divinas: "Não nos parece vã e duvidosa esta esperança, pois nos apoiamos nas promessas divinas". Em outro lugar, falando de si mesmo, diz: "Sobre três bases coloco a minha esperança: o amor com que Deus nos adotou como filhos, a verdade de sua promessa e o poder que tem de cumprir sua promessa". 


7. Oração sem hesitação 

Por isso diz o Apóstolo São Tiago que, quem deseja as graças divinas, deve pedi-las não duvidando, mas com a firme certeza de obtê-las: "Peça com fé, sem hesitação alguma!" (Tg 1,6). Nada receberás, se duvidar: "Quem duvida é semelhante à onda do mar, que é levada de uma para outra parte pela violência do vento; não pense, pois, que alcançará alguma coisa do Senhor". 

E São Paulo louva a Abraão por ele não ter duvidado das promessas divinas, sabendo que, quando Deus promete, não falta: "Não duvidou nem de leve das promessas de Deus, mas, fortificado pela fé, deu glória a Deus, sabendo que é poderoso para cumprir suas promessas" (Rm 4,20). Por isso, Jesus nos admoestou que receberemos todas as graças que desejamos, se pedirmos com a firme confiança de recebê-las. "Porquanto vos digo: Tudo o que pedirdes na oração crede que o recebereis e assim sucederá" (Mc 11,24). Em resumo, Deus não quer atender-nos, se não tivermos certos de sermos atendidos. 


8. A oração é um meio necessário à salvação

Agora, pois, voltemos ao nosso propósito. Nossa esperança de obter a salvação e os meios necessários para a mesma deve ser firme da parte de Deus. Os motivos desta certeza são o poder, a misericórdia e a fidelidade divina. 

Entretanto, o motivo mais firme é a fidelidade de Deus em prometer-nos a salvação pelos merecimentos de Jesus Cristo e dar-nos as graças necessárias para isso; pois, por mais firmemente que creiamos no infinito poder e na misericórdia de Deus, contudo, como nota Juvênio, não poderíamos esperar com uma confiança absoluta a salvação, se o Senhor não no-la tivesse prometido. Mas a promessa foi feita com a condição de rezarmos, como consta das Escrituras: "Pedi e recebereis. Se pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vos dará. Dará bens a quem lhe pedir. Importa rezar sempre. Não tendes porque não pedis. Se alguém necessitar de sabedoria, peça-a a Deus". E, assim, em muitos outros textos, que já nos referimos. Por isso os santos Padres e teólogos geralmente dizem que a oração é um meio necessários à salvação. 


9. Deus é o único fundamento de nossa esperança

Ora, se não tivéssemos certeza de que Deus a todos dá a graça de rezar sempre, sem ser necessária outra graça especial, então, Deus não seria um fundamento certo e firme de nossa esperança e esse fundamento seria incerto e condicional. Quando estou certo de que, com a oração, obterei a vida eterna e todas as graças necessárias para consegui-la, e sei que Deus não me negará a graça de rezar sempre (porque a concede a todos), se eu quiser, então, tenho fundamento certo de esperar de Deus a salvação eterna, contanto que, de minha parte, não falte nada. Mas quando duvido se Deus me dará ou não a graça particular que não concede a todos, e que é necessária para rezar atualmente, então, não tenho em Deus um fundamento certo de esperança, mas um fundamento duvidoso e incerto, ficando na dúvida se Deus me dará ou não aquela graça especial necessária para poder rezar. 

Essa incerteza não seria unicamente de minha parte, como também da parte de Deus, e, assim, cairia a esperança cristã, a qual deve ser firme e inabalável. Digo a verdade, não sei como o cristão possa cumprir o preceito da esperança, esperando de Deus, como deve, como uma confiança certa, a salvação e as graças necessárias para ela, sem ter por certo que Deus dá comumente a cada um, ao menos, a graça de rezar atualmente, se quiser, sem ser preciso outro auxílio especial.


10. A graça que é comum a todos

A graça, verdadeiramente suficiente, que é comum a todos, ajuda-nos contanto que correspondamos, para alcançarmos a graça eficaz. Mas se não correspondermos e, pelo contrário, se resistirmos a ela, com justiça nos será negada a graça eficaz. Desta sorte, não há desculpas para os pecadores que dizem não terem forças suficientes para vencer as tentações, porque, se rezassem, com o auxílio da graça comum, que é concedida a todos, alcançariam a salvação. Mas não se admitindo essa graça comum com a qual cada um possa ao menos rezar (sem o auxílio de outra graça especial não comum a todos) e, rezando, possa obter auxílio maior para observar a lei, não sei como possam ser compreendidos tantos textos da Escritura, nos quais se exortam as almas a voltarem para Deus, a vencerem as tentações e a corresponderem aos convites divinos: "Voltai, prevaricadores, para dentro dos vossos corações" (Is 46,8). "Convertei-vos e vivei" (Ex 18,32). "Convertei-vos e fazei penitência" (Ex 12,30). "Desatai as correntes do vosso pescoço" (Is 52,2). "Vinde a mim todos vós, que andais em trabalhos e vos achais carregados" (Mt 11,28). "Resisti fortes na fé" (1 Pd 5,9). "Caminhai enquanto tendes luz" (Jo 12,35). 

Se não fosse verdade que a todos é concedida a graça de rezar e de obter pela oração maiores auxílios, para conseguir a salvação, então não compreendo como poderiam entender-se os referidos textos e como os pregadores com tanta força possam exortar a todos em geral a se converter, a resistir aos inimigos, a caminhar na virtude e, para conseguirem tudo isso, a rezar com confiança e perseverança, quando a graça de rezar não fosse concedida a cada um, mas somente àqueles que recebem a graça eficaz de rezar. E não sei também como possa ser justa a censura, que geralmente se faz a todos os pecadores, que resistem à graça e desprezam a voz divina: "Vós resistis ao Espírito Santo" (At 7,51). "Eu vos chamei e vós não quisestes ouvi-me, estendi a minha mão e não houve quem olhassem para mim; desprezastes todos os meus conselhos e não fizestes caso das minhas repreensões" (Pr 1,24). Se não faltasse até a graça remota, mais eficaz de rezar, a qual os adversários supõem ser necessária para rezar de fato, como disse, não compreendo como se lhes possa fazer tais censuras.


11. A intenção da obra

A intenção que tive em escrever esta obra não foi outra senão a de bendizer a Providência e Bondade de Deus e de socorrer os pecadores, a fim de não se entregarem ao desespero, julgando-se privados da graça, e também para afastar toda a desculpa, quando vierem dizer que não têm força para resistir aos assaltos da paixão e do inferno.

Mostrei que dentre o que se perdem, nenhum se perde por causa do pecado original de Adão, mas por própria culpa, pois que Deus a ninguém nega a graça da oração. Com ela, obtém-se de Deus o auxílio para vencer toda concupiscência e toda tentação. 

De resto, o meu principal intento foi insinuar a todos o uso deste poderosíssimo e necessário meio da oração, para que se aplique cada um à oração com grande diligência e fervor, desejando seriamente alcançar a vida eterna. 

São tantas as almas que perdem a graça divina e continuam a viver no pecado e, por fim, se condenam, porque não rezaram e não recorreram a Deus para obter auxílio! E o pior ainda é (não posso deixar de o repetir) que poucos pregadores e poucos confessores se esforçam por aconselhar a seus ouvintes ou penitentes o uso da oração, sem a qual é impossível observar os divinos preceitos e obter a perseverança na graça divina.

Considerando a absoluta necessidade de rezar, que em tantos textos nos impõe a Escritura Sagrada, tanto no Antigo como no Novo Testamento, fiz introduzir nas nossas Missões o uso, que já há muitos anos existe, de se fazer o sermão sobre a oração. Digo e repito e repetirei sempre, enquanto tiver a vida, que toda a nossa salvação está na oração! Por isso, todos os escritores em seus livros, todos os oradores sagrados em suas prédicas, todos os confessores na administração do sacramento da penitência, nada deveriam inculcar com maior energia do que a obrigação de rezar sempre. Deveriam admoestar e exclamar continuamente e dizer: "Rezai, rezai, e não deixeis de rezar! Porque, se não rezardes, será certa a vossa condenação. Assim deveriam fazer todos os pregadores e diretores, pois que na teologia católica nenhuma dúvida há desta verdade: Quem ora obtém as graças e se salva. Mas são pouquíssimos os que assim praticam e, por isso, tão poucos se salvam!

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A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.




quarta-feira, 17 de julho de 2024

Série Tratado: Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção




 Artigo VII

171. Sétimo motivo. O que pode ainda nos levar a abraçar esta devoção são os grandes bens que por ela receberá nosso próximo. Pois, praticando-a, exercemos para com ele a caridade de uma maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório o impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento; consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de adquirir de satisfações, seja, até a hora da morte, empregado conforme a vontade da Santíssima Virgem, à conversão dos pecadores ou a libertação das almas do purgatório. 

Não é isto amar perfeitamente o próximo? Não é este o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? (Jo 13,35). Não é este o meio de converter os pecadores, sem temer a vaidade, e de livrar as almas do purgatório, sem fazer quase nada mais do que aquilo a que cada um está obrigado em seu estado?

172. Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório: bem infinito, maior que criar o céu e a terra¹, pois que é dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática, não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? 

É preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza, e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório; por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar as almas do purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que damos pela Santíssima Virgem, sem vontade própria, e por uma desinteressada caridade, torna-se, em verdade, bem mais potente para abrandar a cólera de Deus e atrair sua misericórdia; e há de verificar-se à hora da morte que uma pessoa fiel a esta prática terá, por este meio, libertado inúmeras almas do purgatório, e convertido muitos pecadores, conquanto não tenha feito as ações comuns e ordinárias do seu estado. Que alegria haverá em seu julgamento! Qu glória na eternidade!


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1. SANTO AGOSTINHO. Tract. 72 in Ionam. a medio. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

domingo, 14 de julho de 2024

Série Tratado: Esta devoção dá uma grande liberdade interior


 

Artigo VI

169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá, às pessoas que a praticam fielmente, uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Visto que, por esta devoção, nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos todo a Ele nesta condição, este bom Mestre, em recompensa do cativeiro por amor a que nos submetemos, tira, primeiro, à alma todo escrúpulo e temor servil, que a constrangem, escravizam e perturbam; segundo, alarga o coração por uma santa confiança em Deus, fazendo-o considerá-lo como Pai; terceiro, inspira-lhe um amor terno e filial. 

170. Sem me deter em amontoar razões para provar esta verdade, contento-me de citar uma passagem histórica que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa Jacobina¹ do convento de Langeac em Auvergne, a qual morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Não tinha ela ainda sete anos, quando, uma ocasião sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de sua Mãe Santíssima. Mal chegou em casa, entregou-se inteiramente a Jesus e Maria, como lhe aconselhara a voz, embora não soubesse antes em que consistia esta devoção; e, tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela os rins e a usou até a morte. Depois desse ato todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isto a levou a ensinar esta devoção a muitas outras pessoas, que fizeram grandes progressos, entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário... Um dia a Santíssima Virgem lhe apareceu e lhe pôs ao pescoço uma cadeia de ouro para lhe testemunhar a alegria de tê-la como escrava de seu Filho e sua; e Santa Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, lhe disse: Felizes os fiéis escravos da Rainha do céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: "Tibi servire libertas".


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1. Até a Revolução Francesa os religiosos da Ordem de São Domingos eram chamados jacobinos, do nome da igreja de Saint-Jacques (São Tiagos) em Paris, perto da qual a Ordem se estabeleceu. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.