terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Nossa Senhora de Covadonga ou das Batalhas

Espanha


Depois da batalha  em que o rei D. Rodrigo tão miseravelmente perdeu a coroa, e, segundo se supõe, também a vida, estendeu-se a dominação muçulmana sobre a Espanha com a celebridade com que se inunda uma planície pelo transbordamento de um rio. 
Para não me estender demasiadamente, direi apenas que um príncipe de sangue real, D. Pelayo, parente próximo do desditoso D. Rodrigo, havia visto com grande dor a queda da monarquia visigótica nos campos de Guadalete; e, não dobrando a cerviz ao jugo ominoso do invasor triunfante, como fizeram muitos , decidiu logo restituir-lhe, sem que o desanimassem os escassos ou quase nulos recursos com que contava para dar começo a tão árdua empresa. 
Como o fim deste livro é simplesmente dar a conhecer aos leitores a origem dos títulos de Nossa Senhora, não seguiremos passo a passo D. Pelayo nos sete anos que decorreram desde a derrota de Guadalete, mas somente desde que se pôs à frente dos valorosos asturianos, dando início à magna empresa. 
Não tardou a chegar aos ouvidos do "wali" El Horr a notícia do levante dos asturianos, quando ele se dispunha a invadir com as suas tropas a Gália gótica. 
Não lhe pareceu causa de importância aquele movimento belicoso dos cristãos, e, crendo ser fácil sufocá-lo, enviou a Cangas o seu lugar-tenente Alkamar com parte de seu exército, para submeterem os asturianos postos em armas. 
Disto teve notícia D. Pelayo, que, tão esperto caudilho, como esforçado guerreiro, viu logo que em Cangas de Onis, onde tinha espalhado seus soldados, não podia opor resistência ao inimigo com as escassas forças de que dispunha, contra os muito superiores em número que capitaneava Alkamar, por isso resolveu retirar-se com todos os seus soldados para o monte Auseba, aonde os seguiram as mulheres, crianças e anciãos, buscando refúgio no mais abrupto e fragoso daquelas brenhas. 
Pelayo distribui então os seus homens, pondo-os a posto nos cumes dos morros de onde pudessem melhor ferir o inimigo: aos desprovidos de armas, muniu-os de alavancas e picaretas, para removerem as pedras e fazê-las cair sobre os assaltantes, enquanto ele, com quantos soldados pode reunir, emboscou-se em uma caverna ou gruta, chamada pelos naturais - a caverna de Covadonga, e ali esperou a acometida dos mouros, encomendando-se fervorosamente, a si e aos  seus soldados, a Deus e a poderosa intercessão da Santíssima Virgem Maria. 
Akamar, em vista da pronta retirada de D. Pelayo de Cangas de Onis, pensou que o pânico se havia apoderado dos cristãos, e, possuído da soberba que cega os que confiam unicamente em suas forças, meteu-se ousadamente na estreita garganta que dá acesso ao monte Auseba e à caverna de Covadonga, e deu começo aquele combate verdadeiramente épico, do qual se conservará a memória enquanto o mundo existir: os muçulmanos, ensoberbecidos com o seu número e as armas de toda espécie de que iam providos com abundância; os cristãos, poucos, e grande parte sem outras armas senão as que à sua disposição punha a natureza naqueles abruptos lugares, mas cheios de confiança em Deus e na poderosa intercessão da Virgem Imaculada. 

Uma chuva de flechas anunciou aos cristãos o feroz ataque dos mouros, mas a surpresa destes não teve limites quando verificaram que, antes de as forças de D. Pelayo responderem à acometida, muitos dos mouros, feridos pelas mesmas flechas lançadas contra os cristãos, caíam por terra dando gritos de dor. 
A explicação deste fato é dada pelos historiadores indiferentes em matéria de religião, ou contrários à fé cristã, dizendo que as flechas atiradas pelos mouros batiam nas penhas, e de ricochete feriam os atiradores!...
As pedras e troncos de árvores lançados pelos cristãos das alturas do monte Auseba causaram também enormes danos ao exército dos mouros, dizimando ao mesmo tempo pelas flechas que os soldados de Pelayo atiravam sobre eles da gruta de Covadonga, as quais feriam sempre, por se acharem os mouros encurralados na sobredita gargante, pela qual unicamente podiam atacar. 
Tão evidente desastre desalentou sobremaneira os mouros, e, quando Alkamar viu cair morto o seu lugar-tenente Suleiman, intentou ganhar as faldas do monte Auseba, ordenando a retirada. 
Nesta situação e embaraçando-se uns aos outros naquelas aperturas, desabou uma furiosa tempestade, que veio aumentar o espanto e o terror dos que iam já de vencida.
O estampido dos trovões, cujo eco retumbava com fragor de serra em serra; a chuva que caía em catadupas; as pedras e as árvores que de todos os lados caíam sobre os árabes; o solo, que com a chuva se tornava movediço e escorregadio, fazendo-os resvalarem e caírem por aqueles declives, precipitando-os em confuso montão de águas do rio Deva, onde  morriam afogados, tudo contribuiu para se crer, com fundamento, que a mão do Senhor fazia até com que se desmoronassem os montes sobre os soldados de Mafoma. 
Horrível foi a mortandade, no exército mouro, naquela memorável batalha, havendo quem afirme que não ficou um só mouro com vida!...
Um reduzido número de homens, dentro de uma caverna ou escondidos por entre as penhas, bastou para aniquilar, no breve espaço de algumas horas, um poderoso exército, embriagado pelos vapores de repetidas vitórias!
É forçoso reconhecer, portanto, naquele conjunto de extraordinários e portentosas circunstâncias, algo que parece exceder os limites do natural e humano. Em poucas ocasiões terá sido mais manifesta a proteção do céu; por isso não admira que os escritores de uma época de tanta fé atribuem essa milagrosa vitória à mediação da Virgem Maria, cuja imagem havia Pelayo levado consigo para a caverna. 
Os árabes, em sua História, referem também o sucesso com assombro, não escondendo haver sido horrível a matança. 
O resultado imediato da batalha de Covadonga foi a proclamação de Pelayo como rei das Astúrias. 
Mas... para que esta narração histórica? 
Com que fim aparece ela neste livro?...
É para poder explicar, leitores amigos, a origem do título - Nossa Senhora de Covadonga ou das Batalhas; pois, como deves ter compreendido, não se pode deixar de admitir a intervenção milagrosa da Santíssima Virgem, por isso mandou o rei D. Afonso I, o Católico, erigir o mosteiro e capela de Nossa Senhora de Covadonga (deram-lhe este título por causa da caverna de onde pelejaram D. Pelayo e seus  guerreiros), onde foi colocada a imagem de Nossa Senhora que D. Pelayo levara para a memorável gruta, a qual (imagem) estava anteriormente em uma ermida de pequenas dimensões, perto do mencionado lugar. 
Hoje, que uma formosa basílica substitui o primitivo templo, pode-se apreciar melhor a importância daquele trabalho- a canalização do rio Deva, graças à qual puderam executar uma obra que parecia impossível. 
De todas as magnificências que hoje se admiram em Covadonga, o que mais atrai a atenção dos peregrinos é a antiga ermida e a gruta ou caverna onde, sob a proteção e amparo de Nossa Senhora, D. Pelayo e os seus rechassaram com grande denodo o ataque dos mouros.
Para subir-se até lá, construíram uma escada coberta de jaspe admiravelmente lavrado, formando um notável contraste com as escuras penhas que formam o refúgio do primeiro caudilho da Reconquista. 
A imagem de Nossa Senhora de Covadonga não é uma escultura de grande valor artístico, mas atrai a admiração de quantos a contemplam, porque nela se vê claramente, com os olhos da fé, a própria Rainha dos céus ouvindo as súplicas, de D. Pelayo e guiando-o à vitória. 
Nossa Senhora de Covadonga ou das Batalhas, protegei também hoje em dia os cristãos que combatem contra os ímpios inimigos de Deus e de sua santa Igreja!

(A notícia histórica é versão resumida do livro "La Virgem en España".)

fonte: livro Maria e seus gloriosos títulos

sábado, 18 de janeiro de 2014

Nossa Senhora de Núria

Espanha
Século VIII


Dos Pirineus Orientais, onde está situado o vale de Núria, ocupam importante extensão as rochas graníticas, que vão diminuindo para o lado do ocidente.
Entre água, luz, sol e mole granítica, vive o vale suas admiráveis jornadas de devoção a Nossa Senhora de Núria, Rainha do vale. Este título, como tantos outros, é proveniente do nome do lugar em que foi encontrada a imagem. 
Está o vale rodeado de montanhas de mais de oitenta metros de altura. O Santuário, encravado no vale, tem sua imagem milagrosa e sua história. 
A história de São Gil é a história de Núria. Era ele de Atenas e nasceu no meado do século VII; era bom e caritativo e procedia de família nobre. Fugiu de sua terra, e a tempestade o enviou a terras francesas, de onde passou para os Pirineus Orientais. 
Diz a tradição que São Gil habitou e fez penitência na cova onde foi encontrada a santa imagem, e que foi ele mesmo quem a esculpiu, escondendo-a, quando de lá se retirou. 
Há diferentes versões acerca do tempo em que São Gil esteve em Núria; a mais admitida é a de Santo Antônio, Arcebispo de Florença, que crê ter sido pelo ano 700. Pode-se conjeturar que São Gil ficou em Núria três ou quatro anos (700-704), e que, tendo estalado a perseguição contra os cristãos, no reinado de Vitiza, o Santo voltou para Roma, pois sabe-se que ele lá morreu, tendo sido enterrado em um mosteiro; seu corpo foi encontrado incorrupto, e transladado para Tolosa. Na Dalmácia vivia um homem que, por sua bondade, era chamado Amadeu; apareceu-lhe um anjo uma noite e transmitiu-lhe o encargo de edificar uma capela em determinado lugar de Núria, onde acharia uma pedra branca.
Partiu ele para Dalmácia em 1702, e embarcou para a França, até alcançar o vale de Núria. 
Desde a partida de São Gil até a chegada de Amadeu haviam transcorrido 368 anos. 
Três anos depois de haver sido edificada a capela, encontraram a imagem de Nossa Senhora, um dia em que os pastores não podiam explicar a insistência dos mugidos de um touro em determinado lugar da montanha. Desconfiados, começaram a examinar o local, e na cova de São Gil, que outro não era o lugar em questão, acharam a imagem de Nossa Senhora, uma cruz, um sino e uma panela de cobre. 
O pároco de Gueralps levou solenemente para a capela a imagem milagrosa, que foi logo venerada pelo povo; durante a noite das primeiras romarias uma luz vivíssima iluminava aquelas alturas. 
A cruz ficou na cova, a assinalar a morada de São Gil. 
O sino, que talvez não seja o primitivo é contudo antigo e também considerado milagroso, assim como a panela; nesta os devotos metem a cabeça, implorando graça, especialmente para as enfermidades cerebrais, e, quanto ao sino, dizem que as suas badaladas são uma súplica de fecundidade para os casados que visitam o Santuário. 
A imagem é de madeira escura; a Virgem está sentada em um trono, tendo no colo o Menino Jesus sorridente, abençoando com a mão direita, e tendo na esquerda um livrinho apoiada no joelho esquerdo. Parece que foi talhada por São Gil, e assim o admite a tradição.
Os anos de 1633, 1642, 1648 e 1728 são as datas inolvidáveis das sucessivas reformas da capela e igreja; ricas lâmpadas votivas estavam sempre acesas diante da imagem. 
Em 1863 começaram as obras do alojamento para peregrinos e aumenta-se o Santuário. 
Os milagres operados por intercessão de Nossa Senhora de Núria são incontáveis. 

(Versão resumida da "Colección Nuestros Santos".)

fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Nossa Senhora de Bolonha

França
Século VII


A origem do título - Nossa Senhora de Bolonha é a seguinte: Diz a lenda que no ano de 636 apareceu no porto de Bolonha uma embarcação sem tripulantes e trazendo uma imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços, e que ao mesmo tempo a Virgem Santíssima apareceu na igreja da cidade alta e revelou que aos que lá se achavam que havia escolhido aquele lugar para a veneração daquela sua imagem, e acrescenta a lenda a suposição de que, para livrarem aquela milagrosa imagem da profanação dos sarracenos, confiaram-na ao mar, que a transportou para a costa da França, e acreditam, com fundamento histórico, que a imagem veio de Jerusalém ou de Antioquia. 
A imagem foi recolhida e levada triunfalmente para a igreja, começando logo a ser muito venerada e amada, e o foi sem interrupção por mais de 1.200 anos, mas os marítimos foram os que mais se salientaram na devoção a Nossa Senhora de Bolonha (assim a intitulou o povo, por ter a imagem aportado em Bolonha), que nunca deixou de livrá-los das tempestades, até milagrosamente, quando por eles invocada. 
Mas a imagem milagrosa, por desígnios de Deus, que não podemos compreender, teve também os seus maus dias. 
No ano de 1544, no reinado de Henrique VIII, soldados ingleses saquearam a igreja e levaram a imagem para a Inglaterra, como um troféu, e só voltou para o seu trono da França, quando a peste expulsou os conquistadores. 
Em 1767, protestantes franceses, não tendo podido destruir a imagem, enterraram-na nas proximidades do castelo de Houvault, tendo sido mais tarde desenterrada e jogada num poço; mas, quando o dono do castelo se converteu, restituiu a imagem à sua igreja. O mencionado poço ainda existe. 
Refere a lenda que a gente ouve, nesse poço, de vez em quando, uma gota d'água cair, qual uma lágrima que, para manter a fé do povo, chora ainda hoje o sacrilégio. 
Finalmente, no ano de 1793, conseguiram os revolucionários destruir a imagem; só uma das mãos conseguiram salvar, e essa mão é ainda hoje venerada pelos peregrinos. 
No ano de 1814 um sacerdote parisiense tomou a resolução de reconstruir o Santuário e colocar nele uma cópia da imagem milagrosa. Os seus esforços foram coroados de êxito, e em 1866 foi consagrada a nova Catedral.
A capela da Santíssima Virgem, na cripta, ficou logo novamente cheia de ex-votos, principalmente corações de ouro e de prata, e placas de mármore com inscrições. 
Nossa Senhora, em uma barquinha, é novamente venerada, como na antiguidade. 
Todos os anos, no dia 15 de agosto, é realizada uma grande procissão, que sai da igreja e continua o trajeto por mar. As ruas são enfeitadas com as redes dos pescadores e o cordame dos navios, recordando assim o especial Patronato de Nossa Senhora de Bolonha. 

(Livro consultado para esta notícia histórica - "Walfahtsorte Europas", do Dr. Rudolf Kriss e Lenz Rettenbeck.)

fonte: Livro Maria e seus gloriosos títulos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Modéstia masculina


Modéstia dos olhos

Quase todas as paixões que se revoltam contra o espírito têm sua origem na liberdade desenfreada dos olhos, pois os olhares livres são os que despertam nos homens, de ordinário, as inclinações desregradas.

Santo Agostinho diz: "Do olhar nasce o pensamento, e do pensamento a concupiscência". Se Eva não tivesse olhado para o fruto proibido, não teria pecado; ela, porém, achou gosto em contemplá-lo, parecendo-lhe bom e belo; apanhou-o então, e fez-se culpada da desobediência.

Por isso nos assegura São Jerônimo que o demônio só necessita de nosso começo: dá-se por satisfeito se lhe abrimos a metade da porta, pois ele saberá conquistar a outra metade. Um olhar voluntário, lançado a uma pessoa do outro sexo, acende uma faísca infernal que precipita a alma na perdição. "As primeiras setas que ferem as almas castas, diz São Bernardo (De mod. ben. viv., serm. 23), e não raro as matam, entram pelos olhos". Por causa dos olhos caiu Davi, esse homem segundo o coração de Deus. Por causa dos olhos caiu Salomão, esse instrumento do Espírito Santo. Por causa dos olhos, quantas almas não se perderam eternamente?

Vigie, pois, cada um sobre seus olhos, se não quiser chorar uma vez com Jeremias: "Meus olhos me roubaram a vida" (Jer 3, 51); as afeições criminosas que penetraram em meu coração por causa dos meus olhares, lhe deram a morte. São Gregório diz (Mor. 1, 21, c. 2): "Se não reprimires os olhos, tornar-se-ão ganchos do inferno, que a força nos arrastarão e nos obrigarão, por assim dizer, a pecar contra a nossa vontade". "Quem contempla objeto perigoso, acrescenta o Santo, começa a querer o que antes não queria". É também o que diz a Sagrada Escritura (Jdt 16, 11), quando diz que a bela Judite escravizou a alma de Holofernes, apenas este a contemplou.

Suposto mesmo que a liberdade que se concede aos olhos não produzisse outros males, impediria sempre o recolhimento da alma durante a oração; pois tudo o que vimos e nos impressionou, apresenta-se aos olhos de nossa alma e nos causa uma imensidade de distrações. Quem já tem recolhimento de espírito durante a oração, tome muito cuidado para não se ver privado dessa graça dando liberdade a seus olhos.

Está fora de dúvida que um cristão que vive sem recolhimento de espírito não pode praticar as virtudes cristãs da humildade, da paciência, da mortificação, como deveria. Guardemo-nos, por isso, de olhares curiosos, e só olhemos para objetos que elevam para Deus o nosso espírito. "Olhos baixos elevam o coração para o Céu", dizia São Bernardo. São Gregório Nazianzeno (Ep. ad Diocl.) escreve: "Onde habita Cristo com Seu amor, reina aí a modéstia". Com isso não quero, porém, dizer que nunca se deva levantar os olhos ou considerar coisa alguma; pelo contrário, é até bom, às vezes, olhar coisas que elevam nosso coração para Deus, como santas imagens, prados floridos, etc, já que a beleza dessa criatura nos atrai à contemplação do Criador.

Nosso ideal mais perfeito de modéstia foi, porém, o nosso Divino Salvador mesmo, pois, como nota um célebre autor, os Evangelistas dizem, várias vezes, que o Redentor levantou os olhos em certas ocasiões, dando a entender, com isso, que tinha ordinariamente os olhos baixos. Por isso exalta o Apóstolo a modéstia de seu Divino Mestre, escrevendo a seus discípulos: "Rogo-vos pela mansidão e modéstia de Cristo" (II Cor 10, 1).

Concluo com as palavras de São Basílio a seus monges: "Se quisermos que nossa alma tenha suas vistas sempre postas no Céu, filhos queridos, conservemos nossos olhos sempre voltados para a terra".De manhã, ao despertar, devemos já pedir, com o Profeta: "Afastai meus olhos, Senhor, para que não vejam a vaidade" (Sl 118, 37).

Como se deve evitar a excessiva familiaridade

Não abras teu coração a qualquer homem; mas trata de teus negócios com o sábio e temente a Deus. 
Raramente estejas entre os jovens e estranhos.
Não lisonjeies aos ricos e, por própria vontade, não te apresentes aos poderosos. 
Procura a companhia dos humildes e simples, dos homens piedosos e morigerados e fala com eles sobre coisas edificantes.
Não sejas familiar com mulher alguma; em geral, porém, recomenda a Deus todas as que são virtuosas. 
Deseja intimidade com Deus somente e com os seus anjos e evita ser conhecido dos homens. 

Devemos ter caridade para com todos, mas a familiaridade não convém. 
Acontece, muitas vezes, que se forma bom conceito de uma pessoa desconhecida e a sua presença desagrada aos que a veem. 
Outras vezes pensamos agradar aos demais pela convivência e mais lhes desagradamos, pelos defeitos que em nós vão descobrindo. 

Reflexões
Havemos de prestar-nos aos homens, e só nos darmos a Deus. 
Se no mundo a familiaridade é coisa de menos preço, nas coisas de Deus o demasiado trato com a criatura divide a alma e a enfraquece. 
Não foi ela criada para a terra, senão para viver em mais alta morada, "Nossa conversação é no Céu", diz São Paulo (Fl 3,20).
Enquanto, porém, vivemos com os homens, o melhor é ter geral afabilidade para com todos, e com nenhum particular familiaridade. 

Virtude da Temperança

Primeiro de tudo conserva-te em paz e depois procurarás pacificar os outros. O homem pacífico vale mais que o letrado. 
O homem apaixonado converte o próprio bem em mal e, facilmente, acredita no mal.
O bom e pacífico transforma tudo em bem. (...) Exerce, pois, primeiro o zelo sobre ti mesmo e depois, com justiça, poderás zelar sobre o teu próximo. 
Bem sabes colorir e desculpar os teus defeitos, não queres, porém, aceitar as desculpas alheias. 
Seria mais justo que a ti mesmo acusasse e desculpasse ao teu irmão. Suporta os outros, se queres que te suportem a ti. 
Considera quão longe ainda estás da verdadeira caridade e humildade, a qual não sabe irar-se e revoltar-se, senão contra si própria. (...)
Toda a paz desta miserável vida deve consistir antes em sofrer com humildade que em não sentir contrariedades. 
Quem melhor sabe sofrer, goza de maior paz, porque se tornará vencedor de si mesmo, senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do Céu.

Firmeza nas tentações

Cristo: - Filho, nunca estarás seguro nesta vida; enquanto viveres, terás sempre necessidade de armas espirituais. Andas entre inimigos, que à direita e à esquerda, te assaltam. 
Se, pois, de todos os lados, não usares o escudo da paciência, não poderás, por muito tempo, ficar incólume. Além disso, se não firmares em mim o teu coração, com sincera vontade de tudo sofrer por meu amor, não poderás suportar o ardor da peleja, nem conquistar a palma dos bem-aventurados. 
Importa, pois, que atravesses, varonilmente, todas as dificuldades e uses de mão forte contra tudo que te seja adverso. Ao vencedor será dado o maná e ao covarde muita miséria o aguarda. 
Se buscas descanso nesta vida, como chegarás ao repouso eterno?
Não te prepares para grande descanso, senão para muita paciência. 
Procura a verdadeira paz, não na terra, mas no céu; não nos homens e nas demais criaturas, mas somente em Deus. 
Por amor de Deus deves suportar tudo de boa vontade: trabalhos, dores, tentações, vexações, ansiedades, pobreza, enfermidades, humilhações, injúrias, castigos e desprezos. 
Estas coisas ajudam à virtude, provam o novel soldado de Cristo e preparam a coroa celestial.

Temperança nos divertimentos

As danças e os bailes são coisas de si inofensivas; mas os costumes de nossos dias tão afeitos estão ao mal, por diversas circunstâncias, que a alma corre grandes perigos nestes divertimentos. Dança-se à noite e nas trevas, que as melhores iluminações não conseguem dissipar de todo, e quão fácil é que debaixo do manto da escuridão se façam tantas coisas perigosas num divertimento como este, que é tão propício ao mal. Fica-se aí até alta hora da noite, perdendo-se a manhã seguinte e conseguintemente o serviço de Deus. (...) Todo baile está cheio de vaidade e emulação e a vaidade é uma disposição muito favorável às paixões desregradas e aos amores perigosos e desonestos, que são as consequências ordinárias dessas reuniões. 
Referindo-me aos bailes, Filotéia, digo-te o mesmo que os médicos dizem dos cogumelos, afirmando que os melhores não prestam para nada. Se tens que comer cogumelos, vejas que estejam bem preparados e não comas muito, porque, por melhor preparados que estejam, tornam-se, todavia, um verdadeiro veneno, se são ingeridos em grande quantidade. 
Se em alguma ocasião, não podendo te escusar, fores coagida a ir ao baile, presta ao menos atenção que a dança seja honesta e regrada em todas as circunstâncias pela boa intenção, pela modéstia, pela dignidade e decência, e dança o menos possível, para que teu coração não se apegue a essas coisas. (...) Do mesmo modo, essas reuniões à noite arrastam para o seu meio ordinariamente todos os vícios e pecados que vão alastrando pela cidade - os ciúmes, as pedanterias, as brigas, os amores loucos; e, como o aparato, a afluência e a liberdade, que reinam nestas festas, agitam a imaginação, excitam os sentidos e abrem o coração a toda sorte de prazeres, caso a serpente murmure aos ouvidos uma palavra indecente ou aduladora, caso se seja surpreendido por algum olhar dum basilisco, os corações estarão inteiramente abertos e predispostos a receber o veneno. 
Diz-se que, depois de comer cogumelos, é preciso beber um gole do melhor vinho existente; e eu digo que, depois de assistir a estas reuniões, convém muito refletir sobre certas verdades santas e compenetrantes para precaver e dissipar as tentadoras impressões que o vão prazer possa ter deixado no espírito.

Eis algumas que muito te aconselho:
1. Naquelas mesmas horas que passastes no baile, muitas almas queimavam no inferno por pecados cometidos na dança ou por suas más consequências.
2. Muitos religiosos e pessoas piedosas nessa mesma hora estavam diante de Deus, cantando os seus louvores e contemplando a sua bondade; na verdade, o seu tempo foi muito mais bem empregado que o teu!...
3. Enquanto dançavas, muitas pessoas se debatiam em cruel agonia, milhares de homens e mulheres sofriam dores atrocíssimas em suas casas ou nos hospitais. Ah! eles não tiveram um instante de repouso e tu não tiveste a menor compaixão deles; não pensas tu agora que um dia hás de gemer como eles, enquanto outros dançarão?!...
4. Nosso Senhor, a Santíssima Virgem, os santos e os anjos te estavam vendo no baile. Ah! quanto os desgostastes nessas horas, estando o teu coração todo ocupado com um divertimento tão fútil e tão ridículo!
5. Ah! enquanto lá estavas, o tempo se foi passando e a morte se foi aproximando de ti; considera que ela te chame para a terrível passagem do tempo para a eternidade e para uma eternidade de gozos ou de sofrimentos.


Modéstia no vestir


10 mandamentos do homem que se veste bem

1. Virilidade: hoje em dia pode até parecer natural que homens usem brincos, tornozeleiras, piercing no nariz, brilho labial, tenham as sobrancelhas feitas, as pernas depiladas, dentre outras manifestações estéticas ditas normais. No entanto, tudo o que descaracteriza a virilidade, masculinidade do homem é certamente reprovável do ponto de vista religioso e até mesmo biológico. O uso de objetos tradicionalmente femininos, ainda que se diga fruto de uma sociedade avançada, não passa de uma rebeldia contra a natureza que o homem que quer se vestir bem deve combater com todas as suas forças.

2. Sobriedade: é comum principalmente na adolescência que se queira chamar atenção. Ora, isso me lembra do pavão que, segundo a biologia, quando quer chamar a atenção da fêmea exibe suas plumas balançando-as de um lado para o outro. Assim, seguindo uma moda Restart, não é raro ver homens com calças ridiculamente fluorescentes que fariam corar até mesmo o mais brega dos cantores de lambada de antigamente.

3. Simplicidade: muita gente acha que para um homem ser elegante, é preciso gastar fortunas com roupas de marca caríssimas, mas é justamente o contrário. Diferente das mulheres, que necessitam de um vestido de corte diferente, de cores da moda, de sapatos com design arrojado, no caso do homem o menos é sempre mais. Nada como uma camisa de cor neutra e um sapato social preto para torná-lo mais apresentável diante das mais diversas ocasiões.

4. Personalidade: ainda que a tendência seja sempre a simplicidade, o homem não deve se fazer “feito em série”. Buscar combinações de gravatas e camisas é sempre recomendável. Além disso, uma abotoadura particular ou um relógio diferente farão muito mais pela personalidade do homem que um moicano ou uma tatuagem. Para as mulheres como para os homens, a roupa deve manifestar um senso de respeito e mistério que farão com que o outro sempre tenha um motivo a mais para se interessar por aquela pessoa.

5. Bom senso: não basta vestir roupa social (isso não é requisito algum). Já cansei de ver nos telejornais os âncoras vestindo combinações medonhas. Não dá para se vestir bem a depender apenas do que acho estar bom para mim. Dar uma olhada em catálogos, em sites especializados no assunto, dentre outras opções, é um importante passo para a formação do bom senso.

6. Adequação: tem gente que só por se sentir bem acha que camiseta e tênis é algo sociável e infalível para todas as situações. Sei lá, acho que pelo fato de os homens estarem vivendo mais tempo na casa dos pais, eles acabem externando essa síndrome de adolescência tardia nas roupas. No entanto, vai chegando uma idade em que você deve adequar sua roupa tanto para os lugares que vai quanto para a idade que se tem.

7. Praticidade: eu fico pensando na quantidade de tempo da vida que algumas mulheres perdem no ritual da beleza. Ninguém quer pregar aqui que se deixe de lado a sadia preocupação com o visual, porém é bom sempre pensar na questão do tempo porque isso pode ser medida para percebermos quando esse ponto se torna um problema. Nesse contexto, percebo que os homens estão demorando-se cada vez mais na tarefa do embelezamento. Porém, diferentemente da mulher, esse embelezamento todo só serve para gastar tempo e dificilmente acrescenta ao que é útil para a boa apresentação social.

8. Retidão de Princípios: nos últimos tempos as roupas passaram a expressar ideologias (feministas, homossexuais, socialistas, etc), mas tudo isso se perde diante da lei da modéstia que é a principal finalidade de o corpo ser coberto. Quando se perde de vista essa lei, tanto faz eu como homem estar de calça ou de saia (como já vi em desfiles pela Europa). O que mais importa é passar uma mensagem e assim a roupa vira veículo de toda sorte de causas quando ela só precisaria cobrir dignamente o corpo.

9. Economia: vivemos numa sociedade de consumo exagerado. Isso faz com que a utilidade das roupas durem apenas o tempo de uma estação do ano (ex. coleção primavera-verão). Porém, se se usa roupas segundo os princípios já mencionados, como: simplicidade e sobriedade, as coleções tornam-se apenas modismos passageiros. No mais das vezes você pode economizar um dinheiro que poderia ser investido em coisas muito mais relevantes.

10.Visão histórica: é preciso ter em mente o que os homens já usaram no decorrer da história para não corrermos o risco de cair em erros do passado. Houve época em que o homem  usava salto, maquiagem, peruca,  saia e por aí vai. No entanto, houve épocas como a Belle Époque  que, ao menos na minha opinião, o homem  nunca tenha se vestido de modo tão coerente com a modéstia e a condição natural que o Criador lhe deu. Portanto, ponderar erros e acertos do passado é uma lição de casa para qualquer homem que pretenda se vestir bem.

Exame do estado da alma para consigo mesma 

1. Que amor tens para contigo mesma? Não te amas demasiadamente com amor mundano? Se é assim, desejarás ficar muito tempo no mundo e terás cuidado de estabelecer-te aí; mas, se é para o céu que te amas, terás grande desejo de deixar esta terra; ao menos te conformarás facilmente a deixá-la, quando for a vontade de Deus.

2. É bem regrado este amor para contigo mesma? O amor desregrado é, pois, a nossa própria ruína. Ora, o amor regrado quer que amemos mais a alma que o corpo, que tenhamos mais cuidado de adquirir virtudes do que tudo o mais e que estimemos mais a glória eterna do que as honras mundanas e passageiras. Um coração regrado diz muitas vezes a si mesmo: Que dirão os anjos, se penso nisto ou naquilo? E não dirá: Que dirão os homens?

3. Que amor tens à tua alma? Não te aborrece cuidar dela em suas enfermidades? Ah! deves-lhe este cuidado, quando as paixões a atormentam; é preciso deixar tudo por isso e ainda por cima procurar a caridade de outros. 

4. Que pensas de ti mesma perante Deus? Que és um nada, sem dúvida; mas por isso não te deves ter em conta de mais humilde do que se julgas que uma mosca não é nada em comparação com uma montanha, uma gota d'água em comparação com o mar, uma faísca em comparação com o sol; a humildade consiste em não te preferir aos outros e em não querer que os outros te deem essa preferência. Como estás neste ponto?

5. Quanto à tua língua, não te vanglorias duma maneira ou doutra? Não te lisonjeias falando de ti mesma?

6. Quanto a tuas ações, busca algum divertimento contrário à tua saúde, quero dizer, divertimentos e prazeres vão, inúteis, até alta noite, etc.?


Oração

Da corrupção da natureza e da eficácia da Divina graça

Senhor meu Deus, que me criastes à vossa imagem e semelhança, concedei-me a vossa graça, que mostrastes ser tão grande e necessária à salvação, para que eu vença a minha natureza corrompida, que me arrasta ao pecado e à perdição.
Porque sinto na própria carne a lei do pecado, contrária à lei do espírito, que me leva cativo a obedecer, em muitas coisas, à sensualidade; nem poderei resistir às suas paixões, a não ser que me assistia a vossa santíssima graça, infundida, ardentemente, em meu coração.
Faz-se mister a vossa graça, e grande graça, para que eu possa vencer a natureza, sempre inclinada ao mal desde a infância. 
Porquanto, decaída no primeiro homem, Adão, e viciada pelo pecado, transmite a todos os homens a pena deste crime; de sorte que esta mesma natureza, que criaste boa e reta, deve ser considerada fraca e enferma, visto que, entregue a si mesma, os seus movimentos nos arrastam para o mal e para as coisas da terra. 
Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma centelha coberta de cinzas. 
É na mesma razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal, e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso; todavia, sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade, nem a pureza dos seus afetos. 
Daqui vem, meu Deus, que, segundo o homem do interior, eu me rejubilo com a vossa lei, reconheço quanto são bons, justos e santos os vossos mandamentos, reprovo todo o mal e pecado, como coisa de que se deve fugir. 
Mas pela carne estou sujeito à lei do pecado, porquanto obedeço mais à sensualidade que à razão. 
Porque querer o bem está em mim, mas não tenho forças para praticá-lo. 
Daqui vem que proponho muitas coisas boas, faltando-me, porém, a graça, que me ampare a fraqueza, recuo e desfaleço à menor resistência. 
Resulta daí que eu conheço o caminho da perfeição e assaz claramente vejo como devo proceder; mas, oprimido pelo peso da própria corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.
Oh! Quão grandemente me é necessária, Senhor, a vossa graça para começar, continuar e aperfeiçoar o bem!
Sem ela, nada de bom posso fazer; em vós, porém, tudo posso, confortando-me a vossa graça.
Ó verdadeira e celeste graça, sem a qual não há méritos próprios e em nada devem ser tidos os dons da natureza!
Sem a vossa graça, Senhor, nada valem, diante de vós, as artes, as riquezas, a beleza e a força, o talento e a eloquência. 
Na verdade, esses dons naturais são comuns a bons e maus; não assim a graça ou a caridade, que é o dom próprio dos eleitos; com ela adornados, tornam-se dignos da vida eterna.
Tão excelente é esta graça que nem o dom de profecia, nem o poder de operar milagres, nem a mais alta contemplação valem alguma coisa sem ela.
Nem a fé, nem a esperança, nem outras virtudes são agradáveis sem a graça e a caridade. 
Ó beatíssima graça, que do pobre de espírito fazeis rico de virtudes e ao opulento dos bens da fortuna converteis em humilde de coração!
Vinde, descei sobre mim, enchei, desde já, minha alma com as vossas consolações, para que, nos desfalecimentos e na aridez de espírito, não esmoreça o meu ânimo. 
Se for tentado e molestado com muitas tribulações, não temerei mal algum, enquanto estiver comigo a vossa graça. 
É a minha fortaleza, o meu conselho e o meu auxílio; é mais poderosa que todos os meus inimigos, mais sábia que todos os sábios. 
É a mestra da verdade e da disciplina, a luz do coração e o lenitivo das angústias; ela afugenta a tristeza, dissipa o temor, alimenta a piedade e produz santas lágrimas. 
Que sou eu, faltando-me ela, senão lenha seca, tronco inútil, que se lança fora?
Previna-me, pois, Senhor e me acompanhe sempre vossa graça e me conserve, continuamente, na prática de boa obras por Jesus Cristo, vosso Filho. Amém. 


Fontes: http://modestiasaojose.blogspot.com.br
Livros: Filotéia - São Francisco de Sales 
            Imitação de Cristo