quarta-feira, 17 de julho de 2024

Série Tratado: Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção




 Artigo VII

171. Sétimo motivo. O que pode ainda nos levar a abraçar esta devoção são os grandes bens que por ela receberá nosso próximo. Pois, praticando-a, exercemos para com ele a caridade de uma maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório o impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento; consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de adquirir de satisfações, seja, até a hora da morte, empregado conforme a vontade da Santíssima Virgem, à conversão dos pecadores ou a libertação das almas do purgatório. 

Não é isto amar perfeitamente o próximo? Não é este o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? (Jo 13,35). Não é este o meio de converter os pecadores, sem temer a vaidade, e de livrar as almas do purgatório, sem fazer quase nada mais do que aquilo a que cada um está obrigado em seu estado?

172. Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório: bem infinito, maior que criar o céu e a terra¹, pois que é dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática, não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? 

É preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza, e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório; por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar as almas do purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que damos pela Santíssima Virgem, sem vontade própria, e por uma desinteressada caridade, torna-se, em verdade, bem mais potente para abrandar a cólera de Deus e atrair sua misericórdia; e há de verificar-se à hora da morte que uma pessoa fiel a esta prática terá, por este meio, libertado inúmeras almas do purgatório, e convertido muitos pecadores, conquanto não tenha feito as ações comuns e ordinárias do seu estado. Que alegria haverá em seu julgamento! Qu glória na eternidade!


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1. SANTO AGOSTINHO. Tract. 72 in Ionam. a medio. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

domingo, 14 de julho de 2024

Série Tratado: Esta devoção dá uma grande liberdade interior


 

Artigo VI

169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá, às pessoas que a praticam fielmente, uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Visto que, por esta devoção, nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos todo a Ele nesta condição, este bom Mestre, em recompensa do cativeiro por amor a que nos submetemos, tira, primeiro, à alma todo escrúpulo e temor servil, que a constrangem, escravizam e perturbam; segundo, alarga o coração por uma santa confiança em Deus, fazendo-o considerá-lo como Pai; terceiro, inspira-lhe um amor terno e filial. 

170. Sem me deter em amontoar razões para provar esta verdade, contento-me de citar uma passagem histórica que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa Jacobina¹ do convento de Langeac em Auvergne, a qual morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Não tinha ela ainda sete anos, quando, uma ocasião sofrendo tormentos de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse quanto antes escrava de Jesus e de sua Mãe Santíssima. Mal chegou em casa, entregou-se inteiramente a Jesus e Maria, como lhe aconselhara a voz, embora não soubesse antes em que consistia esta devoção; e, tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela os rins e a usou até a morte. Depois desse ato todas as suas penas e escrúpulos cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de coração, e isto a levou a ensinar esta devoção a muitas outras pessoas, que fizeram grandes progressos, entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo seminário... Um dia a Santíssima Virgem lhe apareceu e lhe pôs ao pescoço uma cadeia de ouro para lhe testemunhar a alegria de tê-la como escrava de seu Filho e sua; e Santa Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, lhe disse: Felizes os fiéis escravos da Rainha do céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: "Tibi servire libertas".


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1. Até a Revolução Francesa os religiosos da Ordem de São Domingos eram chamados jacobinos, do nome da igreja de Saint-Jacques (São Tiagos) em Paris, perto da qual a Ordem se estabeleceu. 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

sábado, 13 de julho de 2024

Série Tratado: § IV. Esta devoção é um caminho seguro

 



159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a ele:

1º) Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon4, em um livro que escreveu sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja5.

Santo Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um dos primeiros que a praticaram na França, conforme está anotado em sua vida. 

O Cardeal Pedro Damião6 refere que em em 1016 o bem aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal de seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e consolado por sua boa Soberana, de cujo lábios recebeu as promessas do paraíso em recompensa de seus serviços. 

Cesário Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak, parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300, fez esta consagração à Santíssima Virgem. 

Esta devoção foi praticada por muitos particulares até ao século XVII, quando se tornou pública.

160. O Padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da redenção dos cativos, pregador do Rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na Alemanha7; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.

O padre de Los Rios, da Ordem de Santo Agostinho, aplicou-se com seu íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e pregações. Compôs um grosso volume intitulado Hierarquia Mariana8, no qual trata, com piedade e erudição, da Antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção. 

161. Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na Sicília e na Saboia, no século XVII.

O Rev. Pe. Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou maravilhosamente esta devoção na Polônia9.

O Rev. Pe. Cornélio a Lápide, recomendável tanto por sua piedade como por seu profundo saber, tendo recebido de dar seu parecer sobre esta devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras pessoas importantes. 

Os reverendos padres jesuítas, sempre zelosos do serviço da Santíssima Virgem, apresentaram ao Duque Fernando da Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno tratado desta devoção10. O duque, que era, então arcebispo de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção. 

162.  O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelsos em espalhar esta devoção, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe levantaram e moveram os críticos e os libertinos. Acusaram-no de inventar novidade e superstição; escreveram e publicaram contra ele um panfleto difamatório, e serviram-se, ou antes o demônio, por seu ministério, de mil estratagemas para impedi-lo de divulgar na França esta devoção. Mas o grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma inalterável paciência, e às suas objeções, contidas no tal libelo, um pequeno escrito em que se refuta energicamente, demonstrando que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que lhe devemos, e nos votos que fizemos no santo batismo; e é especialmente com esta última razão que ele fecha a boca a seus adversários, fazendo ver que esta consagração à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo por suas mãos, nada mais é que uma perfeita renovação das promessas do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se pode ler em suas obras. 

163. No livro de Boudon, já citado (n. 150), encontram-se os nomes dos papas que aprovaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram, pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais papa algum a tenha condenado; nem seria possível fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo. 

Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo mundo.

164. 2º) Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e para cada um em particular, fosse um empecilho a uma alma que busca a grande graça da união com Ele? Seria possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de Ele encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente unida a Deus? 

É verdade que a vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia, talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que o produz; quem quer possuir o fruto de vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna fértil e fecundo, como já dissemos alhures (n. 20-21).

165. Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de um modo distinto e perceptível, ao menos geral e imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda abismada em Deus, está longe de tornar-se um obstáculo aos perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e, bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos comunicará, pois ninguém fica cheio do pensamento de Deus se não for por ela, diz um santo11: "Nemo cogitatione Dei repletur nisi per te"; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra o qual ela vos garantirá. 

166. Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe frequentemente. É esta a opnião de um santo12 que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.

167. Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz: "Sola cunctas haereses interemisti in universo mundo"13; e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmene, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro material, e, quando o reconhecer, não teimará de modo algum em crer e sustentar o que tomara por verdade. 

***

168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, "corde magno et animo volenti" (2Mc 1,3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1 Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar enganados. 

É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida terrena. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até a plenitude da idade de Jesus Cristo. (cf. Ef 4,13). 


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Notas.

4. Henri-Marie Boudon, doutor em teologia, falecido em odor de santidade, em 1702, como arcediago de Evreux. Autor do livro intitulado "A santa escravidão da admirável Mãe de Deus", e de outras obras, todas impregnadas de uma ardente devoção à Santíssima Virgem.

5. O santo Rei Dagoberto II (século VII) consagrou-se assim à Santíssima Virgem, na qualidade de escravo (apud KRONENBURG. "Maria's Heerlikheid", 1,98). O mesmo fez o Papa João VII (701-707). 

6. Declarado "doutor da Igreja" por Leão XII. 

7. O próprio Imperador Fernando II fez esta consagração com toda a sua corte, em 1640.

8. Editado em Antuérpia em 1641. 

9. O rei da Polônia Wladislaf encarregou os jesuítas de pregá-la em seu reino.

10. Intitulado "Mancipium Virginis" - A escravidão da Virgem. Colônia, 1634. 

11. SÃO GERMANO DE CONSTANTINOPLA (Sermo 2 in Dormit.). 

12. Id. Orat. in Encaenia veneranda aedis B.V. 

13. Ofício da Santíssima Virgem, 1ª antífona do 3º noturno. 

Imagem: Swieci Patroni 

São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A perseverança na oração

 Livro: A Oração - Cap. IV

Santo Afonso Maria de Ligório
              (1696-1787)

 Bispo e Doutor da Igreja

Editora Santuário, 1ª ed, 1987, 31ª imp. 2016.




32. Devemos rezar com perseverança

É, pois, necessário que rezemos com humildade e confiança. Entretanto, isto só não basta para alcançarmos a perseverança final e, com ela, a salvação eterna. As graças particulares que pedimos a Deus podemos obtê-las por meio de orações particulares. Mas se não perseverarmos na oração, não conseguiremos a perseverança final, a qual compreende uma cadeia de graças e, por isso, supõe oração repetidas e continuadas até a morte.

A graça da salvação não é uma só graça, mas uma corrente de graças, as quais vêm todas se unir à graça da perseverança final. Ora, esta corrente de graça deve, por assim dizer, corresponder à outra corrente de nossas orações. Se deixarmos de rezar, rompemos a corrente de nossas orações e, então, romper-se-á igualmente a corrente das graças, que nos hão de alcançar a salvação e, assim, não nos salvaremos.


33. Não podemos merecer a perseverança final

É verdade que não podemos merecer a perseverança, final, como ensina o santo Concílio de Trento: "Unicamente pode no-la dar Aquele que tem o poder de sustentat os que estão de pé, para que eles se conservem de pé até o fim". Apesar disso, julga Santo Agostinho que podemos merecer de certo modo este grande dom da perseverança, por meio de nossas orações, isto é, por súplicas insistentes. E quem reza, ajunta Soares, consegue-a infalivelmente. 

Entretanto, para alcançar esta graça e conseguir a salvação eterna, são necessárias - diz Santo Tomás - orações perseverantes e contínuas. "Depois do batismo, é necessária ao homem a oração contínua para poder entrar no céu". E antes dele, repetidas vezes, já o disse o Salvador: "É preciso rezar sempre e nunca descuidar" (Lc 18,1). "Vigiai, portanto, orando em todo o tempo, para que sejais dignos de evitar todas estas coisas, que hão de acontecer, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do homem" (Lc 21,36). Já no Antigo Testamento lemos: "Nada te impeça de rezar sempre" (Eclo 18,22). "Bendize a Deus em todo e pede-lhe que dirija os teus caminhos" (Tb 4,26). Por isso aconselhava o Apóstolo aos seus discípulos que nunca deixassem de rezar: "Orai sem intermissão" (Ts 5,17). "Perseverai e vigiai na oração!" (Cl 4,2). "Quero, pois, que os homens rezem em todo lugar" (1Tm 2,8). O Senhor quer dar-nos a perseverança e a vida eterna, mas diz São Nilo: "Não a quer dar senão a quem lhe pede com perseverança". Muitos pecadores chegam a se converter com auxílio da graça e a receber o perdão. Mas, porque deixam de rezar e pedir a perseverança, tornam a cair e perdem tudo.


34. Deve-se pedir diariamente a graça de perseverança

Não basta, diz Belarmino, pedir a graça da perseverança uma vez só ou mesmo algumas vezes. Devemos pedi-la sempre, todos os dias, até a morte, se quisermos alcançá-la. Quando a pedirmos, alcançaremos. No dia em que a pedirmos, Deus no-la concederá. Mas, no outro dia, em que deixarmos de pedi-la, cairemos em pecado. Isto é o que Nosso Senhor queira nos ensinar, propondo a parábola do amigo que não queria dar os pães ao que lhe pedia, senão depois de muitos e importunos rogos: "Se ele não se levantar para dar-lhe os pães, por ser amigo, pelo menos vai se levantar por causa da amolação. E vai dar tudo o que amigo precisa" (Lc 11,8). Ora, diz Santo Agostinho, se este homem levanta-se e dá-lhe os pães, para não ser importunado, quanto mais Nosso Senhor atenderá, sendo Ele que nos exorta a pedir e se desgosta, quando não pedimos!

O Senhor quer conceder-nos a salvação e todas as graças necessárias para consegui-la. Mas Ele quer que o importunemos com nossas orações. Diz Cornélio a Lápide, sobre o mencionado texto do Evangelho: "Deus quer que perseveremos na oração até a importunação. Os homens deste mundo não suportam importunos, mormente em pedir-lhe a graça da perseverança". 


35. Rezemos sempre!

Para alcançarmos, pois, a graça da perseverança é mister recomendarmo-nos sempre a Deus, de manhã à noite, na meditação, na Missa, na comunhão, em uma palavra: sempre, especialmente, porém, no tempo das tentações. Então, devemos dizer e repetir sempre: Senhor, ajudai-me! Senhor, assisti-me, protegei-me! Senhor, não me abandoneis; tende piedade de mim! Pode haver coisa mais fácil do que dizer: Senhor, ajudai-me, assisti-me!?

Sobre as palavras do Salmista: "Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida", diz a glosa: "Dirá alguém: não posso jejuar, não posso dar esmolas; mas não poderá dizer: eu não posso rezar, pois é a coisa mais fácil que há". Contudo, não devemos cessar de rezar. É preciso que continuamente façamos, por assim dizer, violência a Deus, para que Ele sempre nos auxilie com a sua graça. "Esta violência é agradável a Deus", escreveu Tertuliano, São Jerônimo diz: "Quanto mais forem importunas e perseverantes as nossas orações, tanto mais agradáveis serão a Deus".


36. "Bem-aventurado o homem que ouve e que vela diariamente à entrada da minha casa" (Pr 8,34). 

Bem-aventurado, diz Nosso Senhor, é aquele homem que ouve e continuamente vela às portas da minha misericórdia com as suas orações. 

Isaías diz: "Bem-aventurados todos os que o esperam" (30,18). Bem-aventurados aqueles que até ao fim, pedindo e rezando, aguardam do Senhor a sua salvação. 

Por isso, no Evangelho, Nosso Senhor nos exorta a pedir, mas de que maneira? "Pedi e recebereis; buscai e achareis; bateis e abrir-se-vos-á" (Lc 11,9) Bastava dizei: "Pedi". Para que acrescentar: "buscai", "batei"? Mas não. Não foi supérfluo acrescentar essas palavras. Com isso, queria Jesus ensinar-nos que devemos fazer como fazem os pobres, quando vão pedir esmolas. Esses, quando não recebem a esmola perdida, pedem uma e mais vezes, batem repetidas vezes à porta, quando não vem logo alguém atendê-los, e, por fim, tornam-se molestos e importunos. Deus quer que façamos assim também. Quer que supliquemos e tornemos a suplicar, e não cessemos de suplicar que nos assista, nos socorra, nos ilumine, nos fortaleça, e não permita que venhamos ainda a perder a sua graça. Diz o douto Léssio que dificilmente se pode desculpar de pecado mortal aquele que, em estado de pecado ou em perigo de morte, não reza. Do mesmo modo, peca quem deixa de rezar por um notável espaço de tempo, isto é, por um ou dois meses. Isto se deve entender fora do tempo da tentação, porquanto que, for assaltado por qualquer tentação grave e não recorrer a Deus logo, sem dúvida, peca gravemente, expondo-se desta forma a um perigo próximo e certo de cair.


37. Por que Deus não concede a graça da perseverança de uma só vez? 

Já que Deus pode e quer dar-me a graça da perseverança, por que não ma concede toda de uma só vez, quando lhe peço? São muitas as razões que nos dão os santos Padres. Deus não a concede de uma vez e difere a sua concessão, para, antes de tudo, experimentar a nossa confiança. Depois, diz Santo Agostinho, para que a desejamos mais ardentemente: "Os grandes dons exigem um grande desejo, porquanto tudo o que se alcança com facilidade não se estima tanto como o que se desejou por muito tempo. Deus não quer dar-te logo o que pedes, para aprenderes a desejar com grande desejo". 

Outro motivo é para nós não esquecermos dele. Se já estivéssemos seguros de perseverarmos e de alcançarmos a salvação e não necessitássemos continuamente do auxílio de Deus para conservarmos sua graça e nos salvarmos, facilmente nos esqueceríamos dele. A necessidade obriga os pobres a frequentar as casas dos ricos. Por esta razão, querendo Deus atrair-nos a si, como diz São João Crisóstomo, e ver-nos muitas vezes a seus pés, a fim de nos conceder a graça, que completa a nossa salvação, até a hora de nossa morte. "Deus demora em atender-nos, não por repelir as nossas orações, mas para nos tornar mais fervorosos e nos atrair para Si."

Além disso, Deus age desse modo para que nós, rezando sempre, nos unamos mais estreitamente a Ele pelos doces laços do amor. "A oração, diz São João Crisóstomo, não é um vínculo insignificante do amor de Deus. É ela que nos acostuma a falar com Deus". Que incentivo e que vínculo de amor são o recurso contínuo a Deus pela oração e a confiança com que esperamos as graças! Quanto nos inflama e une a Deus!


38. Até quando devemos rezar?

Devemos rezar sempre, responde o mesmo Santo, até que nos seja proferida a sentença tão auspiciosa da salvação eterna, isto é, até a hora de nossa morte. "Não desistas até receberes." E ajunta que quem disser: "Não deixarei de rezar até que me salve", certamente se salvará. Escreve o Apóstolo: "Muitos correm no estádio em busca de prêmio, mas unicamente um o alcança, não sabeis disto? Correi para alcançá-lo" (1Cor 9,24). Não basta, pois, pedir a graça da salvação. É necessário pedir sempre, até alcançarmos a coroa prometida por Deus unicamente aos que a pedirem constantemente até o fim. 


39. Para se alcançar a salvação, é necessário rezar sempre

Devemos fazer como Davi, que tinha os seus olhos constantemente voltados para Deus a fim de implorar o seu socorro e para não ser vencido por seus inimigos: "Os meus olhos se volvem continuamente para Deus, porquanto Ele afastará os meus pés do laço" (Sl 24,15). Assim como o demônio não descansa, armando-nos contínuas ciladas para nos devorar, como nos escreve São Pedro: "O demônio, adversário vosso, anda rodeando-vos, como um leão que ruge, buscando sua presa" (1 Pd 5,8), do mesmo modo, nós, para sermos protegidos contra tal inimigo, nunca devemos depor as armas, mas devemos dizer com o real Profeta: "Perseguirei os meus inimigos e não voltarei atrás, enquanto não derrubá-los por terra" (Sl 17,4). Não cessarei de combater, até que veja meus inimigos destroçados.

Mas como poderemos alcançar esta vitória, para nós tão difícil? Por meio de constantes orações, responde-nos Santo Agostinho, e só com orações perseverantes.

E até quando? Durante todo o tempo de combate. "Assim como nunca cessa a luta, diz São João Boaventura, assim também nunca devemos deixar de pedir a misericórdia divina, para não sermos vencidos". Ai daquele que, durante o combate, abandonar a oração, diz o Sábio, "ai dos que não perseveram na oração! (Eclo 2,16). Chegaremos à salvação, diz o Apóstolo, mas com esta condição: contanto que sejamos fiéis e perseverantes na oração, até a morte. 


40. Quem nos separará do amor do Cristo?

Confiados, pois, na divina misericórdia e em suas promessas, digamos com São Paulo: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação? Ou a angústia?... Ou o perigo? Ou a perseguição? Ou a espada?" (Rm 8,35). Quem nos separará do amor de Cristo? Talvez a tribulação? o perigo de perder os bens desta terra, as perseguições dos demônios ou dos homens? Os tormentos dos tiranos? "Superaremos tudo por Aquele que nos ama" (Rm 8,37). Não, dizia ele, nenhuma tribulação, nenhuma angústia, perigo ou perseguição jamais nos poderá separar do amor de Jesus Cristo. Porque, com o auxílio divino, venceremos tudo, pois combateremos por aquele Senhor que deu a vida por nós. 

Depois de ter o Padre Hipólito Durazzo resolvido renunciar uma prelazia romana, a fim de entregar-se todo a Deus, e entrar na Companhia de Jesus, como o fez mais tarde, receava muito, por causa da sua fraqueza, não ser fiel a Nosso Senhor. Por isso, dizia: "Não me desampareis, Senhor, mormente agora que me consagrei todo a vós". Mas ouviu o Senhor falar-lhe ao coração: "Não me abandones tu também!" Confiado na bondade de Deus e no seu auxílio, concluiu o servo de Deus dizendo: "Pois bem, meu Deus, vós não me abandonareis e eu não abandonarei a Vós".


41. "Seremos salvos pela esperança"

Se quisermos, pois, que Deus não nos abandone, devemos pedir-lhe sempre que nos auxilie. Fazendo assim, certamente Ele nos assistirá sempre e não permitirá que nos separemos dele e percamos a sua amizade. Procuraremos, por isso, rezar sempre e pedir a graça da perseverança final, bem como as graças para consegui-la.

Não nos esqueçamos também da graça de rezarmos sempre. Foi esta a grande promessa que fez pelos lábios do Profeta: "Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito da graça e da prece" (Zc 12,10). Oh! que grande graça é o espírito das preces, isto é, a graça que Deus concede a uma alma de rezar sempre! Não cessemos, pois, de pedir a Deus essa graça e esse espírito de oração. Porquanto, se pedirmos, certamente obteremos de Nosso Senhor a perseverança e todo e qualquer outro dom que desejarmos. Deus não pode deixar de nos ouvir, porque prometeu ouvir-nos: "Seremos salvos pela esperança". Por causa dessa esperança de rezar sempre, podemos julgar-nos salvos. Essa Esperança, diz Beda, o Venerável, dar-nos-á entrada segura na cidade eterna do paraíso.


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Pintura: Jean Louis Ernest Meissonier

A oração - Santo Afonso Mª de Ligório. Ed. Santuário, 1ª edição1987, 31ª impressão.