sexta-feira, 12 de maio de 2023

Trecho 13 - Tratado da Conformidade com a Vontade de Deus





Enfim, também nos graus de graça e glória é preciso nos tornarmos uniformes com o divino querer: devemos estimar aquelas coisas que pertencem à glória de Deus, mas devemos estimar ainda mais a Sua divina vontade: devemos desejar amá-lo mais que os serafins; mas não devemos desejar maior grau de amor que não seja aquele que o Senhor tem determinado conceder-nos. O padre Ávila diz (Audi. Filia. C. 22) "Eu creio que os santos desejariam ser ainda melhores do que foram; porém esses desejos não perturbavam a paz de sua almas, porque eles, se assim o desejavam, não era por motivos de interesse próprio, mas para glória de Deus, a cujas distribuições se submetiam, ainda que Ele menos lhes desse; estimando como perfeito amor o estarem satisfeitos com o que Deus lhes tinha dado, e não apetecendo mais". Assim Rodriguez o interpreta (Trat. 8. C. 30) que, ainda que devamos ser diligentes em aspirar à perfeição até onde possamos chegar para não servir de escusa à nossa preguiça e tibieza, como alguns fazem, e dizermos: "Deus nos dará isto"; "eu posso fazer só isto"; contudo, quando faltamos nesta carreira, não devemos perder a nossa paz de espírito, nem a conformidade com a divina vontade, a qual permitiu nossa falta, humilhar-nos e arrepender-nos; e procurando maior auxílio em Deus, prosseguir nossa carreira. Por este modo, ainda que aspiremos a ser exaltados no Céu ao coro dos serafins, não por certo para termos maior glória, mas sim para dar a Deus, e amá-Lo ainda mais, todavia devemos resignar-nos à Sua santa vontade, contentando-nos com aquele grau que a Sua misericórdia se digne conceder-nos. Seria, pois, grande culpa desejar dons de sobrenatural oração e, particularmente, êxtase e revelações. Os mestres da vida espiritual nos ensinam, quando as almas são favorecidas com tais dons, que deveriam orar para serem privadas deles, para poderem amar a Deus pelo puro caminho da fé, o qual é mais seguro. Muitos têm  chegado à perfeição sem esses sobrenaturais favores; a virtude é bastante para elevar a alma à santidade, e principalmente à uniformidade com a vontade de Deus. E se Deus se não apraz de elevar-nos a um sublime grau de graça e glória, devemos conformar-nos à Sua santa vontade, pedindo-lhe que ao menos, por sua misericórdia, sejamos salvos. Se assim fizermos, a recompensa não será pequena, a qual o nosso bom Senhor derramará sobre nós pela Sua bondade, porque Ele ama acima de todos aqueles que se resignam às Suas determinações. Numa palavra, devemos olhar para tudo quanto nos acontecer como vindo das mãos de Deus. E a este fim se devem dirigir todas as nossas ações. Fazer a vontade de Deus; fazê-la porque é a Sua vontade. E para assim o observarmos mais seguramente, devemos deixar-nos guiar por nossos diretores, quanto ao interno, para melhor conhecermos a vontade de Deus a nosso respeito, tendo grande confiança nestas palavras de Jesus Cristo: "Aquele que vos ouve, a mim ouve" (Lc 10,16). E, sobretudo, devemos ser cuidadosos de servir a Deus por aquele caminho que Ele quer que sirvamos. Digo isto para evitar a ilusão de muitos, que se entretém com a ideia de que estão perdendo o seu tempo, e dizem: "Se eu estivesse em um deserto, se entrasse em um mosteiro, se eu estivesse em outra qualquer parte que não fosse esta, distante de parentes e companheiros, viria a ser santo; praticaria estas ou aquelas mortificações, e me entregaria todo à oração". Eles dizem "eu faria, eu faria", mas, no entanto, suportando involuntariamente a cruz que Deus lhes tem dado, não caminhando pela vereda que o Senhor lhes tem mostrado, não só não se tornam santos, mas fazem-se maus, péssimos. Estes desejos são muitas vezes tentações do Diabo; porque não são conformes a vontade de Deus; e devemos por isso rejeitá-los, e tomar ânimo para servirmos a Deus no caminho que Ele nos tem escolhido. Fazendo assim, viremos a ser santos, em qualquer estado de vida em que o Senhor nos tenha colocado. Queiramos, pois, sempre o que Deus quer, e fazendo assim Ele nos abraçará em Seu seio. Para este fim façamo-nos familiares com certas passagens da Escritura, as quais nos chamam a unir-nos em todo o tempo com a divina vontade: "Senhor, que queres tu que eu faça? Dizei-me, ó Deus, o que queres de mim, e eu cumprirei a tua vontade em todas as coisas, eu sou teu, salva-me" (Sl 118,94). Já não sou de mim mesmo, mas teu, ó Senhor, faze de mim o que for do teu agrado. Particularmente quando alguma pesada adversidade nos oprime, a morte dos parentes ou amigos, ou a perda de bens ou de reputação, digamos: "Sim, meu Pai, sim, meu Deus, porque assim vos é agradável". Sim, meu Pai e meu Senhor, assim seja feito, porque assim te agrada" (Mt 11,26). E, sobretudo, nos seja preciosa aquela oração que Jesus Cristo nos ensinou: Seja feita a tua vontade assim na terra como no Céu. Nosso Senhor disse à Santa Catarina de Gênova, que todas as vezes que recitasse o Pai Nosso, se demorasse particularmente nestas palavras, rogando-lhe que ela pudesse cumprir na terra a Sua santíssima vontade, com a mesma perfeição com que os bem-aventurados a cumprem no Céu. Façamos, pois, outro tanto, e seremos santos no Céu. 


Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Minha Biblioteca Católica 

sábado, 15 de abril de 2023

São Martinho


 Festa 11 de novembro


O nome Martinho vem de Martem tenens, "aquele que tem Marte", isto é, que faz guerra contra os vícios e os pecados. Ou de martírum unus, "um dos mártires", pois ele foi mártir pela vontade e pela vontade e pela mortificação da carne. Martinho pode ainda ser interpretado como "excitante", "estimulante", "dominante". Com efeito, pelo mérito de sua santidade excitou o diabo à inveja, estimulou Deus à misericórdia e domou sua carne por contínuas macerações. A carne deve ser dominada pela razão ou pela alma, diz Dionísio em carta a Demófilo, como o senhor domina um escravo, o pai um filho, o velho um jovenzinho lascivo. Um discípulo de São Martinho, Sulpício, apelidado SEVERO, autor incluído por Genádio¹ entre os homens ilustres, escreveu a vida dele. 

Martinho, originário de Sabaria, fortaleza da Panônia, mas criado em Pavia, na Itália, serviu como militar com seu pai, tribuno dos soldados, sob os césares Constantino e Juliano. Não era, porém, por escolha própria, pois apesar da oposição dos pais desde a infância, com doze anos de idade, levado por inspiração divina foi à igreja pedir que o fizessem catecúmeno, e teria se retirado para o deserto² se a debilidade de sua saúde não o tivesse impedido. Mas os césares decretaram que os filhos dos veteranos eram obrigados a servir no lugar de seus pais, com quinze anos Martinho foi forçado a se tornar militar, contentando-se em ter consigo apenas um escravo, o qual, contudo, ele servia tanto quanto era servido por ele, e do qual tirava e limpava o calçado. 

Certa vez no inverno, passando pela porta de Amiens, ele encontrou um pobre quase nu, que não recebera nenhuma esmola, e Martinho compreendeu que ele lhe fora reservado: pegou a espada e dividiu em dois o manto que usava, dando metade ao pobre e cobrindo-se com a metade que lhe restava. Na noite seguinte, viu Cristo vestido com a parte do manto com que cobrira o pobre, e ouviu-o dizer aos anjos que o cercavam: "Martinho, que ainda é apenas catecúmeno, cobriu-me com esta veste". O santo homem não se glorificou com isso, mas conhecendo assim a bondade de Deus fez-se batizar com a idade de dezoito anos, e como seu tribuno prometeu renunciar ao mundo laico ao término de seu mandato, Martinho aceitou servir mais dois anos. 

Entretanto, os bárbaros invadiram a Gália e o césar Juliano, para enfrentá-los, ofereceu dinheiro aos soldados, mas Martinho, cuja intenção era não continuar no serviço militar, não quis receber a gratificação e disse ao césar: "Sou soldado de Cristo, não me é permitido lutar". Indignado, Juliano respondeu que não era por religião, mas por medo da iminente batalha, que ele renunciava ao serviço militar. Martinho replicou com intrepidez: "Se você atribui minha iniciativa à covardia, e não à fé, amanhã eu estarei sem armas, sem escudo nem elmo, à frente das fileiras, e em nome de Cristo, com o sinal-da-cruz para me proteger, penetrarei confiante no meio dos inimigos". O césar mandou vigiá-lo para ver se, como dissera, ele ia sem armas diante dos bábaros. Mas no dia seguinte os inimigos enviaram uma embaixada para render-se, entregando tudo que haviam conquistado. Não há dúvida de que foi pelos méritos do santo personagem que tal vitória foi obtida sem derramamento de sangue.

Abandonou então o serviço para retirar-se junto de Santo Hilário, bispo de Poitiers, que o ordenou acólito. O Senhor avisou-o em sonho para ir visitar seus pais que ainda eram pagãos. Ao partir, previu que teria de sofrer muitas adversidades. De fato, por meio dos Alpes caiu em mãos de ladrões, e um deles ergueu seu machado para atingi-lo na cabeça, quando outro reteve o braço do companheiro. Então amararam suas mãos nas costas e deixaram-no sob a guarda de um dos ladrões, que tão calmo, porque sabia que a misericórdia de Deus manifesta-se principalmente no perigo. E começou a pregar ao ladrão, que foi convertido à fé em Cristo. Esse homem levou Martinho até a estrada e mais tarde terminou sua vida de forma louvável. 

Quando Martinho passava por Milão, o diabo apresentou-se diante dele sob forma humana e perguntou aonde ia. Como respondeu que ia onde o Senhor o chamava, o outro disse: "Por onde for, encontrará o diabo para contrariá-lo". Martinho respondeu: "O Senhor é meu apoio, e não temo o que qualquer homem possa me fazer", e no mesmo instante o diabo sumiu. Ele converteu sua mãe, mas seu pai perseverou no erro. Como a heresia ariana estava difundida por toda a Terra e o santo era quase o única combatê-la, foi publicamente chicoteado e expulso da cidade. Voltou então a Milão, onde construiu um mosteiro, mas, expulso pelos arianos foi para a ilha Galinária³, acompanhado só de um padre. Ali, entre outras ervas, comeu heléboro, que é um veneno, e sentiu a morte se aproximar quando pela força da oração afugentou todo perigo e toda dor. Quando soube que o bem-aventurado Hilário retornava do exílio, foi ao encontro dele e fundou um mosteiro perto de Poitiers.

Depois de uma viagem, ao voltar ao mosteiro encontrou um catecúmeno morto sem batismo. Levou-o à sua cela, e prosternando-se ao lado do corpo, por meio da prece chamou-o de volta à vida. Esse homem costumava dizer que depois de seu julgamento foi enviado a lugares escuros, quando dois anjos informaram ao soberano Juiz que Martinho orava por ele. Ordenou-lhes então que o devolvessem vivo a Martinho. Além deste, ele restituiu a vida a outro homem, que morrera enforcado.

Como a população de Tours estava naquele momento sem bispo, pediu que se ordenasse Martinho para o cargo, apesar de ele se mostrar renitente à honraria. Os bispos reuniram-se para deliberar, e alguns deles - o principal era de um nome Defensor - opunham-se porque Martinho tinha corpo disforme e rosto feio. Diante da ausência do leitor, alguém pegou o saltério e leu o primeiro salmo que encontrou: "Ó Deus, da boca das crianças e dos lactantes você tirou o mais perfeito louvor para destruir o inimigo e seu defensor". E assim Defensor ficou embaraçado diante de todos. 

Martinho foi ordenado bispo, e como não aguentava o barulho que o povo fazia, estabeleceu um mosteiro a cerca de duas milhas de Tours, e ali viveu em grande abstinência com oitenta discípulos. De fato, lá ninguém bebia vinho, a menos que forçado pela doença; lá estar bem-vestido era considerado crime. Várias cidades iam ali escolher seus bispos. 

Havia um homem honrado como mártir, sobre cuja vida e méritos Martinho nada descobrira, e por isso certo dia em que rezava em pé perto de sua sepultura, suplicou ao Senhor que o fizesse conhecer quem tinha sido aquele homem e que méritos tivera. Virando-se para a esquerda, viu em pé uma sombra negríssima que, adjurada por Martinho, respondeu que fora ladrão e tinha sido executado por seu crime. Martinho logo a seguir mandou destruir aquele altar. 

Lê-se também no Diálogo de Severo e Galo, discípulos de São Martinho, livro em que se encontram relatados muitos fatos que Severo deixara de lado, que um dia Martinho precisava encontrar o imperador Valentianiano e este, sabendo que ele vinha fazer um pedido que não queria atender, mandou fechar as portas do palácio. Depois de ter sido repelido várias vezes, Martinho envolveu-se num cilício, cobriu-se de cinzas e durante uma semana mortificou-se pela abstinência de comida e bebida. Então, instruído por um anjo, foi ao palácio e sem que ninguém o impedisse chegou até o imperador. Quando este o viu, ficou bravo por terem-no deixado passar e não quis se levantar, até que o trono régio pegou fogo e queimou a parte posterior do próprio imperador. Ele se levantou, irritado com São Martinho, mas logo, por virtude divina, abraçou-o ternamente, concedeu-lhe tudo antes mesmo que pedisse e ofereceu inúmeros presentes, que Martinho não aceitou.

No mesmo Diálogo, lê-se como ressuscitou um terceiro morto. Um rapaz acabava de morrer, e sua mãe, em lágrimas, conjurava o bem-aventurado Martinho a ressuscitá-lo. Este, no meio do campo onde se encontrava incontável multidão de gentios, ajoelhou-se diante de todos o jovem ressuscitou. Por causa disso todos aqueles pagãos foram convertidos à fé. 

Os seres insensíveis, os vegetais e os irracionais obedeciam ao santo homem. Era o caso das coisas insensíveis, como a água e o fogo. Quando pôs fogo em um templo e, levadas pelo vento, as chamas dirigiam-se a uma casa vizinha, Martinho subiu ao telhado daquela casa e as chamas que avançavam subitamente retrocederam, mesmo contra a violência do vento, de forma que parecia ocorrer uma luta entre os elementos. Lê-se no acima citado Diálogo que um navio estava em perigo e um comerciante, que ainda não era cristão, exclamou: "Que o Deus de Martinho nos salve!", e imediatamente se restabeleceu a tranquilidade das águas.

Os vegetais obedeciam de forma semelhante. Em certo local ele mandara demolir um templo muito antigo e queria cortar um pinheiro consagrado ao diabo, apesar da resistência dos camponeses e dos gentios, quando um deles disse: "Se você tem confiança no seu Deus, nós cortaremos está árvore com você amarrado nela, e se seu Deus está com você, como diz, escapará ao perigo". Com sua anuência, a árvore foi cortada e já caía para o lado em que ele estava amarrado, quando fez o sinal-da-cruz e ela tombou para o outro lado, quase esmagando os camponeses que lá estavam. Vendo esse milagre, eles se converteram à fé. 

Também as criaturas irracionais, como os animais, várias vezes obedeceram a ele, como se vê no mencionado Diálogo. Certa vez, vendo cães que perseguiam uma pequena lebre, ordenou que parassem e imediatamente eles desistiram e ficaram imobilizados como se tivessem sido amarrados pelas patas. A uma serpente que atravessava um rio a nado, Martinho disse: "Em nome do Senhor, ordeno que retorne", e diante da ordem do santo ela imediatamente se virou e foi para a outra margem. Martinho comentou, gemendo: "As serpentes me escutam e os homens não". Um cão latia para um discípulo de Martinho, que se virando para o animal disse: "Em nome de Martinho, ordeno que se cale", e no mesmo momento ele ficou mudo, como se lhe tivessem cortado a língua. 

O bem-aventurado Martinho era dono de grande humildade. Certa vez, a caminho de Paris, encontrou um leproso que provocava repulsa e o abraçou, abençoou e o homem ficou curado na mesma hora. Quando estava na igreja, jamais usava sua cátedra, ninguém o via sentar-se nela, recorria a um pequeno assento rústico, chamado trípode. 

Tinha grande dignidade. Comenta-se que era igual aos apóstolos, devido à graça do Espírito Santo que desceu sobre ele em forma de fogo a fim de lhe dar vigor, como acontecera como os apóstolos. Lê-se no livro citado mais acima, que uma vez Martinho estava em sua cela, e seus discípulos, Severo e Galo, que esperavam à porta, foram subitamente tomados por um maravilhoso temor ao ouvirem várias pessoas conversando dentro dela. Questionando depois Martinho a respeito, ele disse: "Eu conto a vocês, mas não digam a ninguém, eu peço. Eram Inês, Tecla e Maria que vieram a mim". E confessou que não tinha sido apenas naquele dia, nem era a única vez que recebera visita. Contou que os apóstolos Pedro e Paulo apareciam a ele com frequência.

Era muito justo. Certa feita, como convidado do imperador Máximo, foi o primeiro a receber a taça. Todos esperavam que, depois de ter bebido, ele a passasse ao rei, mas entregou-a ao seu presbítero, estimando que ninguém era mais digno e julgando indigno preterir o padre pelo imperador.

Era dotado de grande paciência, por isso não punia nem privava de seu amor os clérigos, que muitas vezes o ofendiam, apesar de ser bispo. Ninguém jamais o viu encolerizado, triste ou rindo. Na boca tinha apenas o nome de Cristo, no coração a piedade, a paz, a misericórdia. Lê-se ainda no referido Diálogo que um dia Martinho, portando uma roupa de pano áspero e coberto por um manto negro, montado em um pequeno asno, assustou uns cavalos que iam em sua direção e os cavaleiros caíram por terra. Eles então agarraram Martinho e o espancaram duramente. Ele permaneceu mudo, oferecendo as costas àqueles que o maltratavam, e quanto mais furiosos ficavam mais parecia desdenhá-los e não sentir os golpes que lhe davam. Depois, quando quiseram partir, seus cavalos continuaram imóveis. Por mais que batessem neles, não podiam se mover, como se fossem pedras, até que os cavaleiros se voltaram para Martinho, confessaram o pecado cometido contra ele sem o conhecer, e então ele deu permissão e os cavalos afastaram-se com passos rápidos.

Foi muito assíduo na prece, pois, como se lê em sua legenda, jamais passou uma hora, um momento, sem se entregar à prece ou à leitura. Durante a leitura ou o trabalho, jamais desviava o espírito da prece. Da mesma forma que é costume dos ferreiros bater de tempo em tempo na bigorna para relaxar do trabalho, Martinho sempre orava enquanto fazia suas tarefas.

Era muito austero consigo mesmo. Severo relata, em carta a Eusébio, que quando Martinho foi a uma aldeia de sua diocese, os clérigos preparam-lhe um leito com muita palha. Quando o santo deitou, ficou horrorizado com aquela inusitada maciez, pois habitualmente repousava sobre a terra nua, coberto apenas por um cilício. Movido pela injúria que acreditava ter recebido, levantando-se, jogou fora toda a palha e deitou-se na terra nua. Cerca da meia-noite a palha pegou fogo, Martinho acordou e tentou sair, sem o conseguir. O fogo alcançou suas vestes e ele, como de hábito, recorreu à prece. Fez o sinal-da-cruz e ficou no meio do fogo, intacto, e as chamas que pouco antes iam lhe fazer mal agora pareciam orvalho. Logo os monges acordaram, acorreram, e Martinho, que acreditavam já ter sido consumido pelo fogo, foi tirado ileso das chamas. 

Demonstrava grande compaixão pelos pecadores, pois recebia em seu seio todos os que queriam se arrepender. De fato, quando o diabo repreendia-o por aceitar penitência daqueles que haviam errado uma vez, Martinho dizia: "Se você mesmo, miserável, deixasse de atormentar os homens e se arrependesse de suas ações, tenha certeza que a misericórdia do Senhor Cristo o perdoaria". 

Tinha muita piedade pelos pobres. Lê-se no citado Diálogo, que em um dia de festa Martinho se dirigia à igreja e foi seguido por um pobre que estava nu. Martinho ordenou a seu arcediago que vestisse aquele indigente, mas como ele demorava a fazer isso, o próprio Martinho entrou na sacristia, deu sua túnica ao pobre, mandando que saísse imediatamente. Quando o arcediago avisou que era tempo de começar a celebração, ele respondeu, falando de si próprio, que não podia ir antes que o pobre recebesse uma vestimenta. O arcediago não entendeu o que ele dizia, pois via Martinho com a capa, sem desconfiar que por baixo dela estava nu, e respondeu que não havia nenhum pobre lá. Ele: "Traga-me uma vestimenta, e não haverá pobre a vestir". O arcediago foi obrigado a ir até o mercado e comprar por cinco moedas de prata uma túnica ordinária e curta, chamada de paene nulla, "quase nada", e irritado jogou-a aos pés de Martinho. Este se afastou para vestir a túnica, cujas mangas chegavam apenas até os cotovelos e descia apenas até os joelhos, e celebrou a missa assim. Enquanto celebrava a missa, muitas pessoas viram uma bola de fogo aparecer sobre sua cabeça. É por isso que se diz que ele é igual aos apóstolos. 

A esse milagre, mestre João Beleth acrescenta outro: como é costume, durante a missa Martinho ergueu as mãos para Deus, e as curtas mangas da túnica subiram ainda mais porque seus braços não eram grossos nem carnudos, e ficaram à mostra, nus. Então miraculosamente anjos levaram braceletes de ouro e de pedrarias para cobrir seus braços com decência. Certo dia, comentou sobre uma religiosa. "Ela cumpriu o mandamento evangélico, pois possuía duas túnicas e deu uma a quem não tinha nenhuma, e vocês deveriam fazer a mesma coisa".

Tinha muito poder para expulsar os demônios que frequentemente possuíam os homens. Lê-se, no citado Diálogo, que uma vaca atormentada pelo demônio ficou enraivecida e corria por todo canto, matando muita gente, e avançou contra Martinho e seus companheiros. Ele ergueu a mão, ordenou que parasse e ela ficou imóvel. Martinho viu um demônio sentado no dorso dela, e o censurou: "Desce daí, infeliz, deixe de incomodar esse inofensivo animal". O demônio desceu imediatamente da vaca, que foi se prostenar aos pés do santo, e foi mandada voltar tranquilamente para seu rebanho. 

Tinha grande habilidade para reconhecer os demônios, não importava a imagem que assumissem. Com efeito, os demônios apareciam transfigurados com Júpiter, mais freqüentemente como Mercúrio, às vezes como Vênus ou Minerva, mas no mesmo instante ele os repreendia, chamando Mercúrio de "maior infecto", Júpiter de "bruto e estúpido". Uma vez o demônio apareceu-lhe sob a forma de um rei, ornado de púrpura, com diadema e sapatos dourados, rosto sereno e alegre. Ambos ficaram calados durante um bom tempo, depois ele disse: "Reconhece, Martinho, aquele que você cultua. Sou o Cristo, vou descer à Terra, mas antes quis me manifestar a você". Como Martinho, admirado, ainda continuava quieto, ele disse: "Martinho, porque hesita em crer, já que me vê? Sou Cristo". Então, iluminado pelo Espírito Santo, ele respondeu: "O Senhor Jesus Cristo jamais previu que viria revestido de púrpura e cingido de um diadema brilhante. Acreditarei que é o Cristo quando o vir com aparência e a forma sob as quais sofreu, quando se mostrar com os estigmas da cruz". A essas palavras o demônio desapareceu, deixando na cela um grande fedor. 

Martinho conheceu com muita antecedência o momento de sua morte, que revelou também a seus irmãos. Nessa ocasião, visitou a paróquia de Candé, por causa de discórdias que lá ocorriam. No caminho, viu mergulhões que espreitavam os peixes no rio e apanhavam alguns deles, e comentou: "Este é o procedimento dos demônios, que tentam surpreender os incautos, que os apanham sem que eles percebam, que devoram os capturados e quanto mais os devoram menos ficam saciados". Então ordenou àquelas aves que deixassem as águas profundas e fossem para regiões desertas. Tendo permanecido algum tempo naquela paróquia, suas forças começaram a diminuir e anunciou a seus discípulos que seu fim estava próximo. Todos começaram a chorar: "Por que nos abandona, pai, o que será dos desolados? Os lobos rapaces se lançarão sobre seu rebanho". E ele, comovido por suas preces e por suas lágrimas, pôs-se a orar, também chorando: "Senhor, se ainda sou necessário ao seu povo, não recuso o trabalho, que seja feita sua vontade".

Ele hesitava sobre o que devia preferir, pois não queria abandoná-los, assim como não queria continuar separado de Cristo muito mais tempo. Estando atormentado pela febre, seus discípulos pediam-lhe que os deixasse colocar um pouco de palha no leito, no qual estava vestido de cilício e deitado sobre cinzas. Ele respondeu: "Não é conveniente, filhos, que um cristão morra de outra maneira que não com cilício e cinzas; se deixar outro exemplo, serei um pecador". Sempre com os olhos e as mãos elevados para o Céu, não relaxava o espírito infatigável, sempre em prece. 

Como permanecia deitado de costas, seus presbíteros suplicaram que se aliviasse, mudando de posição: "Deixem, irmãos, deixem-me olhar antes o Céu que a terra, a fim de que o espírito se dirija para o Senhor". Dizendo estas palavras, viu o diabo: "Que faz aqui, besta cruel? Não encontrará em mim nada funesto, é o seio de Abraão4 que me receberá".

E com essas palavras entregou o espírito a Deus, com 81 anos de vida, na época de Arcádio e Honório, que começaram a reinar por volta do ano do Senhor de 395. Seu rosto tornou-se resplandecente, pois já estava na glória. Um coro de anjos foi ouvido ali mesmo por muitas pessoas. Com seu trânsito, os habitantes de Poitiers e de Tours viram-se no meio de grande contestação. Os de Poitiers diziam: "É um monge de nossa região; reclamamos o que nos foi confiado". Os de Tours replicavam: "Ele foi tirado de vocês e Deus entregou-o a nós". No meio de certa noite, quando todos os de Poitiers dormiam, os de Tours tiraram o corpo por uma janela e levaram-no em uma barca pelo Loire, até a cidade de Tours, com grande alegria. 

Um domingo, logo após as matinas, o beato Severino, bispo de Colônia, como era seu costume passava por todas as relíquias de suas igreja quando, na hora da morte do santo, ouviu os anjos que cantavam no Céu e chamou o arcediago para perguntar se ele escutava alguma coisa. Diante da resposta de que não ouvia nada, o arcebispo pediu que escutasse com mais atenção e ele esticou o pescoço, virou as orelhas, ficou na ponta dos pés apoiado no cajado. Enquanto isso, o arcebispo rezou por ele, que disse então ouvir algumas vozes no Céu. O arcebispo: "É meu senhor Martinho, que saiu deste mundo e neste momento é levado para o Céu pelos anjos. Os demônios também se apresentaram e queriam retê-lo, mas não encontrando nele nada que lhe pertencesse, retiraram-se confusos". O arcediago tomou nota do dia e da hora e soube que tinha sido naquele momento que Martinho migrara.

O monge Severo, que escreveu sua vida, tendo adormecido levemente depois das matinas, como ele próprio conta em uma carta, viu São Martinho aparecer-lhe vestido de branco, rosto afogueado, olhos cintilantes, cabelos purpúreos e tendo na mão direita o livro que Severo escrevera sobre sua vida. Quando o viu subir ao Céu depois de o ter abençoado, desejou subir com ele, e então acordou, e mensageiros vieram informá-lo de que São Martinho morrera naquela noite.

No mesmo dia, Santo Ambrósio, bispo de Milão, adormeceu no altar durante a missa, enquanto se fazia a leitura da profecia, e como ninguém ousava despertá-lo, e o subdiácono não queria iniciar a leitura da epístola sem ter recebido ordem para isso, esperaram-se duas ou três horas, depois do que acordaram Ambrósio, dizendo: "Já passou a hora e o povo está cansado de esperar que o senhor ordebe ao clérigo que leia a epístola". Ele disse: "Não se aborreçam, meu irmão Martinho migrou para Deus e eu assistia aos seus funerais e prestava-lhe meus obséquios quando, me acordando, vocês impediram que eu terminasse o último responso". Anotou-se o dia e a hora e soube-se depois que São Martinho migrara para o Céu naquele momento.

Mestre João Beleth diz que os reis da França têm o costume de levar a capa de Martinho nas guerras, daí o nome de capelães dado aos guardiões da capa.

O bem aventurado Perpétuo ampliou a igreja do santo 64 anos depois da sua morte e quis transladar o corpo, mas após três tentativas preparadas por jejum e abstinência, não se conseguia remover o sepulcro. Estava-se a ponto de desistir quando apareceu um belíssimo ancião dizendo: "O que estão esperando? Não vêem São Martinho pronto a ajudar, se puserem mãos à obra?". Então ele encostou a mão e o sepulcro pôde ser levantado com a maior facilidade e colocado no local em que agora é honrado. Depois disso não se encontrou o ancião em lugar nenhum. Essa transladação é celebrada no mês de julho.

Odo,5 abade de Cluny, relata que naquele momento todos os sinos soaram em todas as igrejas sem que ninguém os tocasse e todas as lâmpadas acenderam-se por milagre. Ele conta ainda que havia dois companheiros, um cego e o outro paralítico. O cego carregava o paralítico e este indicava o caminho, e mendigando dessa maneira juntaram muito dinheiro. Quando souberam que muitos enfermos eram curados pelo corpo de São Martinho, conduzido processionalmente à igreja, temeram que o corpo passasse ao lado da casa deles e eles próprios ficassem curados, pois não queriam recuperar a saúde para não perder os bens materiais. Então fugiram, passando de uma rua a outra por onde pensavam que o corpo não seria levado. Enquanto fugiam, de repente encontraram-se com ele, e porque Deus concede muitos favores, mesmo contra a vontade ambos ficaram curados no mesmo instante, embora muito entristecidos por isso.

Ambrósio exprime-se assim a respeito de São Martinho:

O bem aventurado Martinho destruiu os templos do erro pagão, ergueu os estandartes da piedade, ressuscitou os mortos, expulsou os demônios dos corpos dos possuídos, devolveu a saúde a doentes de diferentes enfermidades. Foi julgado tão perfeito que mereceu cobrir Cristo na pessoa de um pobre, e vestiu o Senhor do mundo com uma veste que ele mesmo recebera como pobre. Ó feliz generosidade que cobriu a divindade! Ó gloriosa partinha do manto que cobriu um soldado e seu rei ao mesmo tempo! Ó inestimável presente que mereceu vestir a divindade! Ele foi digno, Senhor, de que lhe concedesse a recompensa outorgada a seus confessores, digno de que os bárbaros arianos fossem vencidos por ele, digno pelo amor ao martírio que o fez não temer os tormentos do perseguidor. O que deve receber aquele que ofereceu seu corpo inteiro, que entregou uma parte do manto e mereceu vestir e ver Deus? Aos que têm esperança ele fornece o remédio, a uns por meio de suas preces, a outros por seu olhar. 


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1. De Genádio de Marselha conhece-se atualmente apenas o De víris illustríbus (citado em dois capítulos da Legenda áurea), escrito em fins do século V. 

2. Conforme nota I do capítulo 15.

3. Conforme nota 2 do capítulo 17.

4. Comforne nota 10 do capítulo 140. 

5. Antigo monge de Saint-Martin de Tours, santo por quem manteve devoção, Odo seguiu Bernon quando este foi fundar Cluny (909), da qual ele seria depois o segundo abade (926-944) e iniciador da grandeza da abadia borgonhesa. Suas obras estão na Patrologia Latina, volume 133.

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Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze, p. 928-938. 







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A lei moral natural


 Catecismo da Igreja Católica 



O homem participa da sabedoria e da bondade do Criador, que lhe confere o domínio de seus atos e a capacidade de se governar em vista da verdade e do bem. A lei natural exprime o sentido moral original, que permite ao homem discernir, pela razão, o que é bem e o mal, a verdade e a mentira. 

A lei natural se acha escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque ela é a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar. (...) Mas esta prescrição da razão não poderia ter força de lei se não fosse a voz e o intérprete de uma razão mais alta, à qual nosso espírito e nossa liberdade devem submeter-se.183


A lei "divina e natural"184 mostra ao homem o caminho a seguir para praticar o bem e atingir seu fim. A lei natural enuncia os preceitos primeiros e essenciais que regem a vida moral. Tem como esteio a aspiração e a submissão a Deus, fonte e juiz de todo bem, assim como sentir o outro como igual a si mesmo. Está exposta, em seus principais preceitos, no Decálogo. Essa lei é denominada natural não em referência à natureza dos seres irracionais, mas porque a razão que a promulga pertence, como algo próprio, à natureza humana:

Onde é, então, que se acham inscritas estas regras, senão no livro desta luz que se chama a verdade? Aí está escrita toda a lei justa, dali ela passa para o coração do homem que cumpre a justiça, não que emigre para ele, mas sim deixando aí a sua marca, à maneira de um sinete que de um anel passa para a cera, mas sem deixar o anel.185

A lei natural outra coisa não é senão a luz da inteligência posta em nós por Deus. Por ela, conhecemos o que se deve fazer e o que se deve evitar. Esta luz ou esta lei, deu-a Deus à criação.186  

Presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão, a lei natural é universal em seus preceitos, e sua autoridade se estende a todos os homens. Ela exprime a dignidade da pessoa e determina a base de seus direitos e de seus deveres fundamentais: 

Existe, sem dúvida, uma verdadeira lei: é a reta razão. Conforme à natureza, difundida em todos os homens, ela é imutável e eterna; suas ordens chamam ao dever; suas proibições afastam do pecado. (...) É um sacrilégio substituí-la por uma lei contrária; é proibido não aplicar uma de suas disposições; quanto a ab-rogá-la inteiramente, ninguém tem a possibilidade de fazê-lo.187

A aplicação da lei natural varia muito. Pode exigir uma reflexão adaptada à multiplicidade das condições de vida, conforme os lugares, as épocas e as circunstâncias. Todavia, na diversidade das culturas, a lei natural permanece como uma regra que liga entre si os homens e lhes impõe, para além das inevitáveis diferenças, princípios comuns. 

A lei natural é imutável188 e permanece através das variações da história; ela subsiste sob o fluxo das idéias e dos costumes e constitui a base para seu progresso. As regras que a exprimem permanecem substancialmente válidas. Mesmo que alguém negue até os seus princípios, não é possível destruí-la nem arrancá-la do coração do homem. Sempre torna a ressurgir na vida dos indivíduos e das sociedades:

O roubo é certamente punido por vossa lei, Senhor, e pela lei escrita no coração do homem. (lei) que nem mesmo a iniquidade consegue apagar189.

Obra excelente do Criador, a lei natural fornece os fundamentos sólidos sobre os quais pode o homem construir o edifício das regras morais que orientarão suas opções. Ela assenta igualmente a base moral indispensável para a construção da comunidade dos homens. Proporciona, enfim, a base necessária à lei civil que se relaciona com ela, seja por uma reflexão que tira as conclusões de seus princípios, seja por adições de natureza positiva e jurídica. 

Os preceitos da lei natural não são percebidos por todos de maneira clara e imediata. Na atual situação, a graça e a revelação  nos são necessárias, como pecadores que somos, para que as verdades religiosas e morais possam ser conhecidas "por todos e sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro"190. A lei natural propicia à lei revelada e à graça um fundamento preparado por Deus e em concordância com a obra do Espírito. 


CIC 1954-1960

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181. Leão XIII, enc. Libertas praestantissimum, citando Sto. Tomás de Aquino, S. Th, I-II, 90,1. 

182. Tertuliano, Marc., 2,4.5: CCL 1,479 (PL 2,315).

183. Leão XIII, enc. Libertas praestantissimum.

184. GS 89,1.

185. Sto Agostinho, Trin., 14,15,21.

186. Sto Tomás de Aquino, Decem praec. 1.

187. Cícero, Rep. 3,22,33.

188. Cf. GS10. 

189. Sto Agostinho. Conf., 2,4,9.

190. DF c. 2: DS 3005; Pio XII, enc. Humani generis: DS 3876.



 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Trecho 12 - Tratado da Conformidade com a vontade de Deus





 Finalmente devemos unir-nos à vontade de Deus no que toca à nossa morte, tanto no tempo, como na maneira que Deus tenha determinado que ela nos chegue. Santa Gertrudes (L. 1. Vita. C. 11) subindo uma vez ao monte, perdeu o equilíbrio e caiu em um vale. Suas companheiras perguntaram-lhe se não temia morrer sem os sacramentos, ao que a santa respondeu: "Eu tenho grande desejo de morrer com os Sacramentos, porém deixo isso à vontade de Deus, porque a melhor disposição para a morte é voluntariamente submeter-nos ao que Deus tiver determinado; portanto desejo a morte que o Senhor for servido enviar-me". São Gregório relata em seus diálogos (L. 3 C. 27) que os vândalos¹, tendo condenado à morte certo sacerdote chamado Santolo, lhe deixaram a escolha do gênero de morte. O santo homem recusou escolher, e disse: "Eu estou nas mãos de Deus, e receberei aquela morte que Ele permitir que vós me deis; não quero outra". Este ato foi tanto do agrado do Senhor, que aqueles bárbaros, tendo resolvido degolá-lo, o braço do algoz, quando ia descarregar o golpe foi suspendido; e aqueles homens à vista de tão grande milagre lhe concederam a vida. Portanto, quando ao gênero de morte, devemos considerar o melhor aquele que Deus nos tiver determinado. Digamos sempre, quando pensarmos na morte: 

- Senhor, salva a minha alma, e decretai a minha morte como vos aprouver.

Também devemos unir-nos com a divina vontade quanto ao tempo da nossa morte. O que é este mundo senão uma prisão na qual sofremos e estamos em contínuo risco de perder a Deus? A isto exclamou Davi: "Soltai a minha alma de sua prisão" (Sl 141,8). Isto fazia Santa Teresa suspirar pela morte. Quando ela ouvia as horas do relógio alegrava-se, e consola-se que uma hora de sua vida estava passada, hora de perigo de perder a Deus. O padre Ávila dizia que aquele que não está em disposição imprópria para morrer, deve desejar a morte pelo perigo de perder a divina graça durante a vida. Que coisa pode ser mais desejável e mais deleitosa do que assegurarmo-nos, por uma santa morte, da impossibilidade de perder o favor e a graça de Deus? Mas vós dizeis que nada tendes feito e adquirido para a vossa alma. Porém, se Deus quisesse que vós agora morrêsseis, que faríeis depois se tivésseis vivido contra a vontade de Deus? Quem sabe se teríeis aquele feliz fim que esperais? Quem sabe se mudaríeis vossos costumes, se cairíeis em novas culpas e vos perderíeis? E então, se nada fizésseis enquando vivêsseis não vos seria impossível o não cometer culpas, por leves que fossem. "Por que, pois", exclama São Bernardo, "por que desejamos nós a vida, a qual quanto mais se prolonga, mais pecaminosa é? E é certo que um único pecado venial desagrada mais a Deus do que lhe agradam todas as obras boas que possamos fazer". 

Eu digo mais, aquele que pouco deseja o Céu, prova que tem pouco amor de Deus. Quem ama deseja a presença do objeto amado; porém nós não podemos ver a Deus se não deixarmos a terra; e por consequência os santos suspiravam pela morte, para poderem ir ver o seu amado Senhor: assim exclamava Santo Agostinho: "Ó, que eu possa morrer, que possa eu ir ver-te". Também São Paulo: "Desejava me ver livre do cárcere do corpo e estar com Jesus Cristo" (Fl 1,23). Igualmente Davi: "Quando irei e aparecerei diante de Deus? (Sl 41,3). E assim também dizem todas as almas que amam a Deus. Certo autor refere (Flores. Emil.) (Graul. 4. C. 68.) que um cavalheiro indo caçar a um bosque ouviu um homem cantando melodiosamente; parou e viu um pobre leproso cheio de chagas. Perguntou-lhe o caçador se era ele quem estava cantando. "Sim", respondeu o leproso, "era eu". - "E como podeis vós cantar e estar contente suportando aflições e dores que vos vão gradualmente privando a vida?". O leproso respondeu: "Entre mim e o Senhor, nada mais há que esta muralha de barro que é o meu corpo; removido este obstáculo, eu gozarei o meu Deus e, vendo que todos os dias me vai caindo pedaços, alegro-me e canto". 


Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Minha Biblioteca Católica