sábado, 28 de julho de 2018

Para que haja mérito nas boas obras, deve concorrer o consentimento do livre-arbítrio com a graça de Deus?

Certa vez, enquanto discursava, dirigindo-me a Deus, agradecendo por estar seguindo o bem, e pedindo forças para cada vez mais aperfeiçoar-me, um dos que me ouviam indagou-me:

- Por que fazes tantas boas obras e sacrifícios? Quais são os méritos ou prêmios que esperas ganhar se é Deus o responsável por todas as coisas boas? Será que és tu quem de fato decides teus próprios atos?

Respondi-lhe prontamente:

- Deves dar glórias a Deus, que de graça te precedeu, te despertou e te consagrou. Por fim, deves viver dignamente entre outras coisas dessas espécie, para que Ele te prove e te beneficie. Não sejas ingrato, permaneças sempre idôneo!

Mas ele continuou respondendo-me:

- Sei que este é um ótimo conselho, mas deves também me dizer o modo de sermos capazes de segui-lo. Conhecer é uma coisa, e fazer é outra bem menos fácil. Uma carruagem conduzida por um cego é bem diferente de outra conduzida por um franco, pois não é qualquer pessoa capaz de mostrar o caminho e prover a via para o viajante. Um é o homem que faz seus planos e parte para a viagem, e outro o que exagera e tomba no caminho. Digo mais, caro Bernardo: até mesmo um professor, que primeiro nos ensina o que é bom, muitas vezes não age conforme o que ele diz. Para mim, há duas atitudes necessárias na vida: ensinar que devemos fazer o bem, e sermos ajudados, [amparados com os meios para] agirmos. Tu, homem reto e probo, podes dar-me esse conselho, livrando-me da ignorância?

Como nos disse o Apóstolo - "O Espírito é quem nos ajuda a agir bem, diante de nossa falta de firmeza" -, digo-te outra coisa: o conselho que ensinas por tua boca, além de transmitindo, é necessário ser acompanhado de um amparo do Espírito, tornando-te forte o suficiente para implementá-lo.

Confesso-te que eu compreendo ser pelo trabalho da graça que se forma em mim este querer bom, mas não encontro a capacidade para concretizá-lo nem mesmo nas ocasiões em que confio que vou descobri-la no meu interior. Como devo proceder se o querer bom só se concretiza quando quem concede a boa vontade, além de dá-la, também aperfeiçoa a capacidade para que a busquemos? Dize-me onde estão nossos méritos; onde está nossa esperança [diante da necessidade da graça para que concretizemos nossa boa vontade do mundo?]

Respondi-lhe o seguinte:

- Não somos movidos pelas obras justas, e por elas salvos, mas somos salvos pela divina misericórdia. Logo, o que é a salvação? Será que por acaso pensas que, possuindo as obras justas, já poderás ser salvo por tua justiça, mesmo que nem saibas dizer o nome do Senhor Jesus e independentemente do Espírito Santo?

Parece que nos esquecemos da frase de Jesus: "Sem mim, não podes fazer nada", e do Apóstolo: "A salvação não está naqueles que desejam, nem nos que correm, mas apenas se realiza pela misericórdia de Deus".

Logo, dize-me, o que é agir com o livre-arbítrio? Respondo-te rapidamente: para mim, é a atitude de nos salvarmos. Suprime o livre-arbítrio, e não teremos mais como ser salvos. Exclui a graça, e não haverá a quem ser salvo. A ação, destituída desses dois elementos, não pode se concretizar: o primeiro, o livre-arbítrio, provém de quem age; enquanto o outro, a graça, é o 'por que' se age ou 'em que' a ação se dá.

Deus é o autor da salvação, único responsável pelo livre-arbítrio: somente Ele pode dar-nos a salvação, e nos tornamos capazes de recebê-la pelo livre-arbítrio. A salvação só é dada pelo livre-arbítrio ao capaz de recebê-la, sendo Deus o único capaz de enviá-la. Sem o consentimento do livre-arbítrio, ela não pode ser recebia, mas, sem a graça, ela não pode ser dada.

Logo, posso afirmar que o livre-arbítrio está a cooperar com a graça na concretização da salvação, já que, enquanto consente, está de fato a salvar. Para o livre-arbítrio, então, consentir é salvar-se.

Pouca coisa podemos dizer sobre o espírito das bestas, que não podem ser salvas. Falta-lhes o consentimento voluntário para que consciente e placidamente obedeçam a Deus, aquiescendo com seus mandamentos, crendo em suas promessas e prestando-lhe graças.

Uma coisa é o consentimento voluntário, e outra é o apetite natural. Nós compartilhamos este último com os animais irracionais, mas não podemos consentir com o espírito, enquanto estivermos atraídos e presos na carne.

Talvez seja isto o que nomeia o Apóstolo como 'a sabedoria da carne', quando diz: "A sabedoria da carne é a inimiga de Deus: ela não é submetida à lei de Deus nem o pode". Por isso afirmei que possuímos características comuns com as bestas, mas é justamente o consentimento voluntário que nos diferencia delas, sendo este o hábito da alma e a condição para a sua liberdade.

Não reconhecemos um ato livre, quando obtido pela força. Um ato voluntário não é de necessidade, pois não podemos refutá-lo nem apresentá-lo a não ser pela própria vontade. Coagir alguém a agir contra sua vontade, refutando-a, significa usar da violência, não havendo vontade nem consentimento.

O consentimento é necessariamente voluntário, e onde há vontade, há liberdade. Eis o que suponho como sendo livre-arbítrio, caro irmão.




São Bernardo de Claraval, Opúsculo sobre o livre-arbítrio, p 23-6. Ed. Ecclesiae

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O Matrimônio




1. O matrimônio pode considera-se como contrato e como sacramento. Como contrato, é uma união conjugal do homem e da mulher que os obrigada a viver numa inseparável companhia.
2. Como sacramento, o matrimônio é este mesmo contrato elevado por Jesus Cristo à dignidade de sacramento que dignifica e causa graça nos que o celebram.
3. O sacramento do matrimônio dá aos que o recebem dignamente e que são legitimamente casados virtude e graça para viverem em paz e caridade, e para criarem os filhos no santo temor de Deus. 
4. Para que o matrimônio seja perfeito e abençoado de Deus, os noivos devem  principalmente: 1º estar em graça de Deus; 2º saber bem a doutrina cristã; 3º ter boa intenção.
5. Ambos os noivos hão de estar em graça de Deus, porque o matrimônio é um sacramento de vivos, e não pode ser recebido dignamente senão por quem estiver vivo pela graça. 
6. Devem saber os noivos a doutrina cristã, porque os pais de família têm a obrigação de ensiná-la a seus filhos e criados, e não a podem ensinar sem a saberem bem. 
7. As principais obrigações dos que se casam são duas: 1º viver em mútuo amor e união conjugal assim como Jesus Cristo a tem com a sua Igreja; 2º e educar bem os seus filhos.
8. O matrimônio nulo é aquele em que os casados verdadeiramente não estão casados, ainda que fizessem a cerimônia da Igreja. 
9. O matrimônio é nulo por causa dos impedimentos. Os impedimentos são muitos; os mais frequentes porém são os parentesco até o quarto grau de consanguinidade ou de afinidade, o ser clandestino o matrimônio, etc.
10. Há tempos em que a Igreja proíbe os casamentos, e são: desde o primeiro domingo do advento até ao dia de Reis, e desde o dia de cinza até ao domingo que chama de Páscoa. Proibem-se neste tempo os casamentos solenes e bençãos nupciais. Os bispos podem conceder dispensa do tempo proibido. 
11. Proíbe a Igreja os casamentos em todo o lugar que não for a pároquia de um dos contraentes, exceto se houver licença especial.
12. Proíbe a Igreja casar com os hereges e com os excomungados, durante a excomunhão.
13. Proíbe a Igreja celebrar os matrimônios enquanto não estiverem corridos os banhos e o pároco estiver certo da livre vontade dos contraentes. 
14. A Igreja manda correr os banhos para averiguar se há ou não algum impedimento.
15. Quem souber em segredo algum impedimento tem obrigação de o declarar ao pároco, debaixo de pecado mortal e pena de excomunhão, a não haver razão grave, que o dispensa. 
16. Há um estado que é mais perfeito e mais agradável a Deus do que o matrimônio, é a virgindade cristã.
17. Casar em estado de pecado mortal é um sacrilégio que atraí a maldição de Deus sobre as famílias. 
18. O matrimônio é indissolúvel; só se dissolve pela morte de um dos desposados. Nosso Senhor disse no Evangelho que o homem não pode separar o que Deus uniu. 


Explicação da gravura

19. A parte principal da gravura representa o casamento de Nossa Senhora com São José, que tem na mão uma açucena. Quando Maria chegou à idade de se casar, o sumo sacerdote reuniu todos os jovens da família de Davi que desejavam desposá-la, e deu a cada um ramo bento dizendo que escrevessem o seu nome. Depois colocou os ramos no altar pedindo a Deus que manifestasse a sua vontade. Então viu-se que só o ramo de José estava coberto de folhagem e flores. À direita vê-se um jovem que, triste por não ter sido escolhido, quebrou o ramo que lhe dera o sacerdote.
20. Na parte superior, à esquerda, veem-se Tobias e Sara preparando-se para o casamento com fervorosas orações. O anjo Rafael expulsa o demônio que matara os sete maridos de Sara pelas suas más disposições para o matrimônio. À direita vê-se Adão e Eva a quem Deus abençoou e disse: Crescei e multiplicai-vos. 
21. Na parte inferior vê-se um casamento católico.




Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

A Ordem



1. A Ordem é um sacramento instituído por Jesus Cristo, pelo qual se confere o poder de consagrar, oferecer e administrar a Eucaristia, e exercer as outras funções eclesiásticas.
2. Este sacramento dá virtude e graça aos sacerdotes e outros ministros  da Igreja para bem cumprir os seus ofícios.
3. Os que abraçam o estado eclesiástico devem ter por fim a glória de Deus e a salvação eterna do próximo.
4. Somente aos bispos pertence administrar o sacramento da ordem, porque têm a plenitude do sacerdócio.
5. As disposições necessárias para receber o sacramento da Ordem são principalmente três: 1º vocação, isto é, ser chamado por Deus para o estado eclesiástico; 2º uma vida exemplar e devota; 3º suficiente doutrina.
6. Há sete graus no sacramento da ordem, quatro menores e três maiores. Os quatro graus menores do sacramento da ordem são: ostiário, leitor, exorcista e acólito. As três ordens maiores ou ordens sacras são: subdiácono, diácono e presbítero, que é o mesmo que a de epístola, de evangelho, e de presbitério ou de missa.
7. Há uma diferença quase infinita entre os sacerdotes e os que não o são. Basta dizer que o Filho do Altíssimo lhe obedece, vindo à terra realmente em um instante toda a vez que o sacerdote o diz na consagração.
8. Devemos pois ao sacerdote todo o respeito, pelos dois poderes que Deus lhe deu, um sobre o Filho de Deus feito homem que obedece à sua voz, e outro o de perdoar os pecados que são ofensas feitas a Deus. 
9. Se o sacerdote não tiver costumes próprios a esta grande dignidade, devemos respeitar o caráter do sacramento, e ter compaixão e caridade da pessoa.
10. Para com aqueles que são promovidos às ordens, devemos: 1º orar a Deus para que se digne conceder à sua Igreja bons pastores e zelosos ministros; 2º ter lhes particular e veneração.


Explicação da gravura

11. A parte principal da gravura representa a São Pedro conferindo a ordem aos sete primeiros diáconos. Como o número dos cristãos aumentasse de dia para dia, e como os Apóstolos não pudessem cumprir todas as funções do seu ministérios, mandaram eleger na assembleia dos fieis sete diáconos que os substituíssem na distribuição das esmolas às viúvas, órfãos e pobres. Rogando a Deus pelos escolhidos, os Apóstolos conferiram-lhes a ordem do diaconato pela imposição das mãos.
12. Na parte superior vê-se o bispo conferindo as ordens menores. À esquerda confere o bispo a ordem de Ostiário mandando tocar as chaves da igreja. A seguir, o bispo confere a ordem de leitor mandando tocar o missal. No ângulo direito, na parte esquerda, o bispo confere a ordem de exorcista, cuja função é de expulsar os demônios, mandando tocar o livro dos Exorcismos. Por fim, na quarta parte, o bispo confere a ordem de acólito mandando tocar um castiçal com vela e as galhetas. 
13. A parte inferior divide-se em três; na primeira, à esquerda, o bispo ordena um subdiácono, cuja função é de servir o diácono no altar, e de cantar a epistola na missa solene. Para ordená-lo o bispo manda ao ordinando tocar o cálice, a patena e o livro das epístolas. O subdiácono obriga-se a castidade perpetua e à recitação cotidiana do ofício divino.
14. Na parte última, à direita, o bispo confere a ordem sacra do diaconato. As funções do diácono são de ajudar o sacerdote à missa, de cantar o Evangelho, de pregar e batizar. Hoje em dia o diácono não pode pregar nem batizar sem especial licença do bispo. Confere essa ordem o bispo com a imposição das mãos, dizendo: Recebe o Espírito Santo, para teres a força de resistir ao demônio e às suas tentações.
15. Enfim na parte média, o bispo confere a ordem de sacerdote, cujas funções são dizer missa, pregar e administrar os sacramentos. Confere o bispo esta ordem com a imposição das mãos sobre os ordinandos, e com ele todos os sacerdotes presentes; manda tocar o cálice com vinho e a patena com a hóstia, dizendo ao mesmo tempo: Recebe o poder de oferecer a Deus o sacrifício e de celebrar a missa pelos vivos e pelos mortos.  



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

domingo, 22 de julho de 2018

A Extrema Unção




1. A Extrema Unção é um sacramento instituído por Jesus Cristo para alívio espiritual e corporal dos enfermos.
2. Chama-se unção, porque consiste em ungir o enfermo com azeite de oliveira bento pelo bispo.
3. Diz-se extrema porque é a última entre as unções que se dão nos sacramentos da Igreja, e também porque se dá no fim da vida.
4. Chama-se também Santos Óleos, porque, como já se disse, a sua matéria é o óleo ou azeite bento pelo bispo na quinta-feira santa.
5. Este sacramento produz na alma os seguintes efeitos: apaga os restos dos pecados e as faltas veniais, dá graças e fortaleza à alma para combater com o demônio naquele último transe. 
6. E quanto ao corpo, a Extrema Unção ajuda também a receber a saúde do corpo, se esta for útil para a salvação da alma.
7. O ministro deste sacramento é só o pároco, ou qualquer sacerdote por ele autorizado.
8. A Extrema Unção deve administrar-se aos enfermos que estão em perigo de vida. 
9. Não se deve esperar que estejam no último artigo da morte; é muito proveitoso que estejam ainda em seu juízo, e tenham alguma esperança de vida.
10. Pode dar-se aos meninos. logo que cheguem ao uso da razão, posto que não tenham ainda comungado. 
11. Pode dar-se em toda a doença perigosa, e até na mesma doença pode receber-se mais de uma vez, se o enfermo, depois de o ter recebido, se restabelecer e depois tornar a cair em perigo de vida.
12. As disposições necessárias para receber este sacramento são: estar em graça de Deus, porque é um sacramento de vivos, e recebê-lo com sentimento de fé, esperança, resignado. Por consequência, se o enfermo estiver em estado de pecado mortal, deveria fazer antes uma boa confissão. Se não pudesse confessar-se, deveria fazer um ato de contrição, com voto de confessar-se. 
13. As unções fazem-se nos sentidos do corpo do enfermo, nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, nas palmas das mãos, nas plantas dos pés, e ao peito, se for possível.
14. Fazem-se as unções em todas as partes do corpo para que Nosso Senhor, por virtude deste sacramento, perdoa o que o enfermo delinquiu pelos olhos, ouvidos, nariz, mãos e pés, etc.
15. O enfermo, enquanto recebe este sacramento, deve acompanhar com o coração as orações que diz o sacerdote, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos pelo mal uso dos sentidos.
16. O sacerdote diz certas orações quando administra a Extrema Unção para alcançar de Deus, a favor do enfermo, a graça do sacramento. 
17. Os que assistem devem orar a Deus do coração e encomendar à sua misericórdia a vida e a salvação do enfermo.
18. Depois de recebida a Extrema Unção, o doente deve: 1º dar graças a Deus pelo benefício que lhe concedeu com este sacramento; 2º resignar-se inteiramente à sua vontade; 3º não pensar noutra coisa mais senão em Deus e na eternidade.
19. O santo concílio Tridentino diz: Se alguém disser que a Extrema Unção não é um verdadeiro sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anatemasiado.
20. Somos obrigados a advertir os doentes para receberem os últimos sacramentos e é o maior serviço que lhes podemos fazer, pois que muitas vezes disso depende a salvação eterna. Se não podermos adverti-los diretamente, ao menos devemos prevenir o pároco da sua freguesia.
21. Quando o doente estiver em agonia, devem os assistentes rezar as orações dos agonizantes a aspergi-lo com água benta.



Explicação da gravura


22. A gravura representa um Apóstolo administrando os santos óleos a um enfermo. Vê-se um anjo com uma inscrição: Aquele que dentre vós estiver doente chame o sacerdote e que este o unja em nome do Senhor, que o aliviará, e perdoará os seus pecados. Vê-se outro anjo que lhe aponta o céu, mostrando-lhe ao mesmo tempo uma coroa.



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.