domingo, 26 de outubro de 2025

Loucura do pecador

 



Sapientia enim hujus mundi stultitta est apud Deum. 

A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Cor 3,19).


PONTO I

O  bem-aventurado João d'Ávila dizia que neste mundo deveria haver dois grandes cárceres: um para aqueles que não têm fé, e outro para aqueles que, tendo-a, vivem em pecado e afastados de Deus. A estes, acrescentava, conviria o hospício de loucos. Mas a maior desdita destes miseráveis consiste em que, não obstante sua cegueira e insensatez, julgam ser sábios e prudentes. E pior é que seu número é infinito (Ecl 1,15) Há quem enlouqueça pelas honras; outros, pelos prazeres; não poucos, pelas futilidades da terra. E se atrevem a considerar loucos os santos, que desprezam os bens mesquinhos do mundo para conquistar a salvação eterna e o Sumo Bem, que é Deus. A seus olhos é loucura sofrer desprezos e perdoar ofensas; loucura, o privar-se dos prazeres sensuais e preferir a mortificação; loucura, renunciar às honras e às riquezas, e amar a solidão, a vida humilde e oculta. Não consideram, no entanto, que a essa sua sabedoria mundana Deus chama necessidade: "A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (1Cor 3,19). Ah!... Virá o dia em que confessarão e reconhecerão a sua demência...

Quando, porém? Quando já não houver remédio possível e tenham que exclamar desesperados: "Desgraçados de nós, que reputávamos loucura a vida dos santos! Agora compreendemos que os loucos fomos nós. Eles já se conta no número feliz dos filhos de Deus e compartilham a sorte dos bem-aventurados, que durará eternamente e os fará felizes para sempre... ao passo que nós ficamos escravos do demônio, condenado a arder deste cárcere de tormentos por toda a eternidade!... Enganamo-nos, pois, querendo cerrar os olhos à luz divina (Sb 5,6), e nossa maior desventura é sabermos que o nosso erro não tem  nem terá remédio enquanto Deus for Deus. 

Que imensa loucura é, portanto, perder a graça de Deus em troca de um pouco de fumo, de um breve deleite!... Que não faz um vassalo para obter as boas graças de seu soberano?... E, no entanto, ó meu Deus, por uma miserável satisfação perder o Bem supremo, perder a glória, perder também a paz nesta vida, deixando que o pecado reine na alma e a atormente com seus incessantes remorsos... Perder tudo, e condenar-se voluntariamente à desgraça interminável!... Entregar-te-ias àquele prazer ilícito, se, de antemão, soubesses que te queimarias a mão ou que ficarias encerrado por um ano, num túmulo? Cometerias tal pecado, se, por causa dele, perderias cem escudos? E, contudo, tens fé e crês que, pecando, perderás a Deus e serás condenado ao fogo eterno... Como te atreves a pecar?


AFETOS E SÚPLICAS

Deus de minha alma!... Que seria agora de mim se não tivésseis tido tanta misericórdia para comigo? Estaria no inferno, entre os insensatos a quem fui semelhante. Dou-vos graças, Senhor, e vos peço que não me abandoneis em minha cegueira. Bem o merecia, mas vejo felizmente que vossa graça ainda não me tem abandonado. Ouço que me chamais amorosamente e me convidais a pedir-vos perdão e esperar de vós a concessão de dons altíssimos, apesar das graves ofensas que vos fiz. Sim, meu Salvador, espero que me acolhereis como filho vosso. 

Não sou digno de que me chameis filho, porque vos ultrajei atrevidamente (Lc 5,21). Sei, porém, que vos comprazeis em ir à procura da ovelha tresmalhada e em abraçar os filhos perdidos. Meu Pai amantíssimo, arrependo-me de vos ter ofendido; a vossos pés me prosto e os abraço e não me levantarei enquanto não me concederdes o perdão e a benção! (Gn 32,26). Abençoai-me, meu Pai, e com vossa benção despertai em mim grande dor de meus pecados e amor ardente por vós. Amo-vos meu Pai, de todo o coração. Não permitais que me afaste de vós! Privai-me de tudo, menos do vosso amor. 

Ó Maria, se Deus é meu Pai, sois vós minha Mãe. Abençoai-me também, e, já que não mereço ser filho, recebei-me como vosso servo.

Fazei, porém, que seja um servo que vos ame sempre com ternura e confie sempre em vossa proteção.


PONTO II

Pobres pecadores! Afadigam-se com empenho para adquirir a ciência humana e procurar os bens da vida presente, que tão cedo se acaba, e desprezam os bens dessa outra vida, que jamais terá fim! De tal modo perdem o juízo, que não somente se tornam insensatos, mas se reduzem à condição dos brutos; porque, vivendo como irracionais, sem considerar o que é o bem e o mal, seguem unicamente o instinto das afeições sensuais, entregam-se ao que lisonjeia a carne, sem pensar no que perdem, nem na ruína eterna que os ameaça. Isto não é portar-se como homem, senão como besta. "Chamamos homem, - diz São João Crisóstomo, - aquele que conserva a imagem essencial do ser humano". Ser homem é, por conseguinte, ser racional, isto é, governar-se segundo os ditames da razão e não segundo o apetite sensual.  

Se Deus desse a uma besta o uso da razão, e ela conforme a razão procedesse, diríamos que procedia como homem. E, ao contrário, quando o homem se deixar pelos sentidos contra a razão, deve dizer-se que procede como besta. 

"Oxalá que eles tivessem sabedoria e compreendessem e previssem o fim" (Dt 32,29). O homem que se guia razoavelmente em suas obras, prevê o futuro, isto é, considera o que lhe há de acontecer no fim da vida: a morte, o juízo, e depois dele o inferno ou a glória. Quanto mais sábio é um simples aldeão que se salva, do que um monarca que se condena. "Vale mais um moço pobre, mas sábio, do que um rei velho e néscio, que não sabe prever nada para o futuro" (Ecl 4, 13). Ó Deus! Não teríamos por louco aquele que, para ganhar um real, se arriscasse a perder todos os bens? E não deve passar por louco aquele que, a troco de um breve prazer, perde a sua alma e se expõe ao perigo de perdê-la para sempre? Esta é a causa de condenação de muitíssimas almas: ocupam-se em demasia dos bens e dos males presentes, e não pensam nos eternos. 

Deus não nos colocou neste mundo para alcançarmos riquezas, nem adquirimos honras ou contentarmos os sentidos, senão para procurarmos a vida eterna (Rm 6,22). E a consecução desta finalidade deve ser o nosso único interesse. Uma só coisa é necessária (Lc 10,42).

Ora, os pecadores desprezam este fim. Só pensam no presente. Caminham até ao término da vida e se acercam da eternidade, sem saberem para onde se dirigem. "Que diríeis de um piloto - diz Santo Agostinho - que mostrasse ignorar completamente o rumo que deve dar a seu navio? Todos diriam que leva a nau à sua perdição". "Tais são - continua o Santo - esses sábios do mundo, que sabem ganhar dinheiro, entregar-se aos prazeres, obter altos cargos, mas não acertam salvar suas almas". Sábio do mundo foi Alexandre Magno, que conquistou numerosos reinos; mas, decorrido pouco tempo, morreu, e se condenou para sempre. Sábio foi o rico avarento que soube enriquecer; e, todavia, morreu e foi sepultado no inferno (Lc 15,22). Sábio dessa espécie foi Henrique VIII, que soube manter-se no trono, apesar de sua revolta contra a Igreja. Mas, no fim de seus dias, reconhecendo que tinha perdida sua alma, exclamou: Tudo para mim está perdido! Quantos desgraçados gemem agora no inferno! Vede, dizem eles, como todos os bens do mundo passaram qual sombra e já não nos causam senão constante pesar e eterno pranto (Sb 5,8)! "Ante o homem, a vida e a morte: aquilo que ele escolher, ser-lhe-á dado" (Ecl 15,18). Cristão! diante de ti se apresentam a vida e a morte, isto é, a voluntária privação das coisas ilícitas para ganhar a vida eterna, ou o entregar-te a eles e à morte eterna... Que dizes? Que escolhes?...

Procede como homem e não como bruto. Escolhe como cristão que tem fé, e dize: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo todo e perder sua alma?" (Mt 16,26). 


AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Deus! Deste-me a razão, a luz da fé e, contudo, portei-me como um irracional, preterindo vossa divina graça aos vís prazeres mundanos, que se dissiparam como o fumo, deixando apenas remorsos de consciência e dívidas para com vossa justiça. Ah, Senhor, não me jugueis pelo que mereço (Sl 142,2), mas tratai-me segundo vossa misericórdia! Iluminai-me, meu Senhor; dai-me dor sobre meus pecados, e perdoai-me. Sou a ovelha tresmelhada; se me preocurardes, perdido continuarei (Sl 118,176). Tende piedade de mim, pelo sangue precioso que por mim derramastes. Arrependo-me, meu Sumo Bem, de vos ter abandonado e de ter renunciado voluntariamente à vossa graça. 

Quisera morrer de dor; aumentai em mim essa contrição profunda e fazei que chegue ao céu para exaltar ali vossa infinita misericórdia... 

Nossa Mãe Maria, meu refúgio e minha esperança, rogai por mim a Jesus; intercedei para que me perdoe e me conceda a santa perseverança. 


PONTO III

Compenetremo-nos bem de que o verdadeiro sábio é aquele que sabe adquirir a graça divina e a glória. Roguemos ao Senhor para que nos conceda a ciência dos Santos, ciência que ele dá a quem lha pede (Sb 10,10). Que bela ciência, a de saber amar a Deus e salvar a nossa alma! Isto é, a de acertar na escolha do caminho da eterna salvação e dos meios para consegui-la. O livro da salvação é, sem dúvida, o mais necessário de todos. Se o soubermos todo, sem saber salvar-nos, de nada nos aproveita o nosso saber. Seríamos para sempre infelizes. 

Mas, ao contrário, seremos eternamente venturosos, se soubermos amar a Deus, ainda que ignoremos todas as demais coisas, como dizia Santo Agostinho. Certo dia, Frei Gil disse o São Boaventura: "Sois feliz, Padre Boaventura, pelo vosso profundo saber. Eu, pobre ignorante, nada sei. Sem dúvida, podereis tornar-vos mais santo do que eu. - Persuadi-vos, - respondeu o Santo, - de que uma pobre velha ignorante, que sabe amar a Deus melhor que eu, será mais santa que eu. - Ouvindo isto, o santo frei Gil exclamou: "Ó pobre velhinha, se amares a Deus, podes tornar-te mais santa que o Padre Boaventura".

Quantos ignorantes há - dizia Santo Agostinho - que nunca aprenderam a ler, mas que sabem amar a Deus, e se salvam, e quantos doutos do mundo que se condenam!... Quão sábios foram um São Pascoal, um São Félix, capuchinho, um São João de Deus, apesar de ignorarem as ciências humanas! Quão sábios todos aqueles que, renunciando ao mundo, se encerram nos claustros ou viveram em desertos, como um São Bento, um São Francisco de Assis, um São Luís de Tolosa, que renunciou a coroa! Quão sábios, tantos mártires e tantas virgens, que renunciaram a honras, prazeres e riquezas para morrer por Cristo!... Ainda os próprios mundanos reconhecem esta verdade, e proclamam feliz aquele que se entrega a Deus e sabe o que tem de fazer para salvar a sua alma. Em suma: aqueles que renunciam aos bens da terra para se consagrar a Deus são chamados homens desenganados. 

Como deveremos chamar os que preferem a Deus os bens do mundo?... Homens enganados.

Meu irmão! a qual dessas duas falanges queres pertencer? Para fazer boa escolha nos aconselha São João Crisóstomo que visitemos os cemitérios. Os sepulcros são escola excelente para reconhecer a vaidade dos bens deste mundo e para aprender a ciência dos Santos. 

Dizei-me - adverte o Santo - saberíeis distinguir ali o príncipe do nobre ou do letrado? "Eu, por mim, nada vejo, senão podridão e vermes". 

Todas as coisas do mundo passarão em breve, dissipar-se-ão como fábulas, sonhos e sombras. 

Entretanto, cristão, se quiseres adquirir a verdadeira sabedoria, não basta que reconheças a importância de tua finalidade, mas é mister seguir os meios estabelecidos para alcançá-la. Não há ninguém que se não quisera salvar e sacrificar, mas como não empregam os meios convenientes, condenam-se. É preciso evitar as ocasiões de pecar, frequentar os sacramentos, fazer oração, e, sobretudo, gravar no coração as máximas do Evangelho, como, por exemplo, as seguintes: "Que aproveita ao homem se ganhar o mundo todo? (Mt 16,26). Quem ama desordenadamente a sua alma, perdê-la-á" (Jo 12,25). Ou seja, convém perder a vida, se necessário for, para salvar a alma. "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo" (Mt 16,20). Para seguir a Jesus Cristo é preciso recusar ao amor próprio a satisfação que exige. 

Nossa salvação consiste no cumprimento da vontade divina (Sl 29,61). 


AFETOS E SÚPLICAS

Pai de misericórdia! Lançai um olhar sobre minha grande miséria e compadecei-vos de mim. Iluminai-me, Senhor; fazei que reconheça minha loucura passada para que a deplore e aprecie e ame vossa bondade infinita. Ó meu Jesus, que destes vosso sangue para me remir; não permitais que volte a ser, como fui, escravo do mundo! (Sl 19). Arrependo-me, Sumo Bem, de ter-vos abandonado. Amaldiçoo todos os momentos em que minha vontade consentiu no pecado, e abraço-me com vossa santíssima vontade, que só deseja a minha felicidade. Concedei-me, Eterno Pai, pelos merecimentos de Jesus Cristo, força para executar tudo quanto vos agrade, e fazei que prefira morrer a opor-me à vossa vontade. Ajudai-me com a vossa graça a depositar em vós todo o meu amor, e a desligar-me de todo afeto que não conduza a vós. Amo-vos, ó Deus de minha alma, amo-vos sobre todas as coisas e de vós espero toda a felicidade; o perdão, a perseverança em vosso amor e a glória para vos amar eternamente... 

Ó Maria, alcançai-me estas graças! O vosso divino Filho nada vos recusa. Confio em vós, minha esperança!

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Do bem inefável que é a graça divina e do grande mal que é a inimizade com Deus




 Nescit homo pretium ejus.

Não compreende o homem o seu preço (Jo 28,13).


PONTO I

Diz o Senhor que aquele que sabe distinguir o precioso do vil é semelhante a Deus, que reprova o mal e escolhe o bem (Jr 15,19).

Vejamos quão grande é a graça divina, e que mal mesmo é a inimizade com Deus. Os homens não conhecem o valor da graça divina (Jo 28,13).

Por isso é que trocam por ninharia, um fumo sutil, um punhado de terra, um deleite irracional. E, todavia, ela é um tesouro de valor infinito, que nos torna dignos da amizade de Deus (Sb 7,14); de modo que a alma no estado da graça é amiga do Senhor. Os pagãos, privados da luz da fé, julgavam impossível que a criatura pudesse manter relações de amizade com Deus; e, falando segundo o ditame de seu coração, não deixavam de ter razão, pois que a amizade - conforme diz São Jerônimo - torna os amigos iguais. Deus, contudo, declarou repetidas vezes que por meio de sua graça, podemos tornar-nos seus amigos se observarmos e cumprimos sua lei (Jo 15,14). Exclama São Gregório: "Ó bondade de Deus! Não merecemos sequer ser chamados servos seus, e ele se digna chamar-nos seus amigos".

Quanto se julgaria feliz aquele que tivesse a dita de ser amigo de seu rei! Mas, se a um vassalo fora temeridade pretender a amizade de seu príncipe, não obsta que uma alma aspire à amizade de Deus. Refere Santo Agostinho que, achando-se dois cortesãos num mosteiro, um deles começou a ler a vida de Santo Antônio Abade e, à medida em que ia lendo, seu coração se desprendia de tal modo dos afetos mundanos, que falou a seu companheiro nestes termos: "Amigo, que é que procuramos?...

Servindo ao imperador, que mais poderemos pretender do que conseguir sua amizade? E, mesmo que a tanto chegássemos, exporíamos a grande perigo a salvação eterna. Com grande dificuldade lograríamos ser amigos de César, enquanto desde já, se o quiser, posso ser amigo de Deus". 

Aquele, portanto, que está na graça, é amigo do Senhor. E não é só isso, porque se torna filho de Deus (Sl 71,6). Tal é a dita inefável que nos alcançou o divino amor por meio de Jesus Cristo. "Considerai a caridade que nos fez o Pai Eterno, querendo que tenhamos o nome de filhos de Deus e o sejamos" (1Jo 3,1). Além disso, a alma que está na graça é esposa do Senhor (Lc 15,22). Por isso, o pai do filho pródigo, ao acolhê-lo e recebê-lo de novo, deu-lhe o anel, sinal de esponsais. Ainda mais: essa alma venturosa é templo do Espírito Santo. Soror Maria de Ognes viu sair o demônio do corpo de um menino, que estavam batizando, e notou que no neo-cristão ingressava o Espírito Santo, rodeado de anjos. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, quando minha alma, por felicidade sua, possuía vossa graça, era vosso templo e vossa amiga, vossa filha e esposa. Mas pelo pecado perdeu tudo, e fez-se vossa inimiga e escrava do inferno. Com profundo agradecimento, meu Deus, vejo que me dais tempo de recuperar vossa graça. Arrependo-me de ter ofendido vossa bondade infinita, e vos amo sobre todas as coisas. Dignai-vos, pois, aceitar-me de novo em vossa amizade. Não me desprezeis, por piedade! Bem sei que merecia ser repelido, mas meu Senhor Jesus Cristo, pelo sacrifício que de si mesmo fez sobre o Calvário, merece que, ao ver-me arrependido, me aceiteis de novo. Adveniat regnum tuum. Meu Pai (assim me ensinou a chamar-vosso divino Filho), reinai em mim pela vossa graça, e fazei que somente a vós sirva, somente a vós ame e por vós viva. Et ne nos inducas in tentationem. Não permitais que me vençam os inimigos que me combatem. Sed libera nos a malo. Livrai-me do inferno, ou melhor: livrai-me do pecado, único mal que pode condenar-me.

Ó Maria, rogai por mim e livrai-me do mal horrível de me ver em pecado sem a graça de nosso Deus!


PONTO II

Disse São Tomás de Aquino que o dom da graça excede a todos os dons que uma criatura possa receber, porque a graça é a participação da própria natureza divina. Já antes havia dito São Pedro: "Para que por isso sejais participantes da divina natureza". Tanta é sua dignidade que Jesus Cristo no-la mereceu por sua Paixão! Ele nos comunicou, de certo modo, o resplendor que recebeu de Deus (Jo 17,22). Deste modo, a alma que está na graça se une intimamente a Deus (1Cor 6,17), e, segundo afirma o Redentor, a Santíssima Trindade vem habitar nela (Jo 14,22).

É tão bela uma alma em estado de graça, que o Senhor se compraz nela e a elogia amorosamente: "Como és formosa, minha amiga, como és formosa!" (Ct 4,1). Parece que o Senhor não pode apartar os olhos de uma alma que o ama nem deitar os olhos de uma alma que o ama nem deixar de dar ouvido a quanto lhe peça (Sl 33,6). Dizia Santa Brígida que ninguém seria capaz de ver a beleza de uma alma em estado de graça, sem morrer de alegria. Santa Catarina de Sena, ao contemplar uma alma em estado tão feliz, disse que preferia dar sua vida para que aquela alma jamais viesse a perder tanta beleza. Era por isto que a Santa beijava a terra que os sacerdotes pisavam, considerando que por seu intermédio recuperavam as almas a graça de Deus. 

Que tesouro de merecimentos pode adquirir uma alma em estado de graça! Em cada instante lhe é dado merecer a glória; pois, segundo disse Santo Tomás, cada ato de amor, produzindo por tais almas, merece a vida eterna. Por que, pois, invejar os poderosos do mundo? Estando na graça de Deus, podemos adquirir continuamente as maiores grandezas celestes. 

Um irmão coadjuntor da Companhia de Jesus, segundo refere o Padre Patrignani em seu "Menológio", apareceu depois de sua morte e revelou que se tinha salvado, assim como Filipe II, rei da Espanha, e que ambos gozavam já a glória eterna. 

Só aquele que a desfrutou pode compreender quão suave é a paz de que goza, mesmo neste mundo, uma alma que se acha na graça (Sl 33,9). Confirmam-no as palavras do Senhor: "Muitas paz aos que ama tua lei" (Sl 118,165). A paz que provém dessa união com Deus excede a quantos prazeres possam oferecer os sentidos e o mundo (Fp 4,7).


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus! Vós sois o Bom Pastor que se deixou crucificar para dar a vida a suas ovelhas. Quando eu fugia de vós, não deixastes de me procurar com amorosa diligência. Acolhei-me agora que vos procuro e volto arrependimento a vossos pés. Concedei-me de novo vossa graça, que miseramente perdi por minha culpa. Ao considerar que tantas vezes me tenho afastado de vós, quisera morrer de dor, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela morte dolorosíssima que para mim padecestes na cruz. Prendei-me com as doces cadeias do vosso amor, e não permitais que outra vez me afaste de vós. Dai-me força para sofrer com paciência todas as cruzes que me destinais, já que mereci as penas eternas do inferno. Fazei que abrace com amor os desprezos que receber dos homens, já que mereci ser eternamente atormentado pelos demônios. Fazei, em suma, que obedeça em tudo às vossas inspirações, e vença todo o respeito humano por amor a vós. 

Estou resolvido a servir unicamente a vós. Insistam os outros quanto quiserem, eu somente quero amar a vós, quanto quiserem, eu somente quero amar a vós, meu Deus amabilíssimo. Só a vós desejo agradar. Ajudai-me, Senhor, que sem vós nada posso. Amo-vos, meu Jesus, de todo o coração, e confio em vosso sangue preciosíssimo...

Maria, minha esperança, auxiliai-me com vossa intercessão. Já que vos gloriais de salvar os pobres pecadores que a vós recorrem, - eis que sou vosso servo humilde - socorrei-me e salvai-me. 


PONTO III

Consideremos agora o estado infeliz de uma alma que cai no desagrado de Deus. Vive separado de seu Sumo Bem, que é Deus (Is 59,2); de sorte que ela já não é de Deus, nem Deus já é seu (Os 1,9). E não somente não a considera como sua, mas detesta a nenhuma das suas criaturas, nem às feras, nem aos répteis, nem ao mais vil dos insetos (Sb 2,25). Entretanto, não pode deixar de aborrecer o pecador (Sl 5,7); porque, sendo impossível que não odeie o pecado, inimigo absolutamente contrário à sua divina vontade, deve necessariamente aborrecer o pecador que se conserva unido à vontade do pecado (Sb 14,9).

Ó meu Deus! Se alguém tem por inimigo a um príncipe do mundo, não pode repousar tranquilo, receando a cada instante a morte. E aquele que for inimigo de Deus, como pode ter paz? Da ira de um rei se pode escapar, ocultando-se ou emigrando para outro país; mas quem pode livrar-se das mãos de Deus? "Senhor, - dizia Davi, - se subir ao céu, ali estás, se descer ao inferno, estás ali presente... A todo e qualquer lugar aonde vá, tua mão alcançar-me-á" (Sl 138, 8-10). 

Desgraçados pecadores! São amaldiçoados por Deus, amaldicoados na terra, amaldiçoados pelos santos, e ainda amaldiçoados na terra, todos os dias, pelos sacerdotes e religiosos que, ao recitar o ofício divino, proferem a maldição (Sl 118,2). Além disso, o desafeto de Deus traz consigo a perda de todos os merecimentos. Ainda que uma pessoa tivesse merecido tanto como um São Paulo Eremita, que viveu noventa e oito anos numa gruta; tanto como um São Francisco Xavier, que conquistou para Deus dez milhões de almas; tanto como São Paulo, que por si só alcançou - segundo afirma São Jerônimo - mais merecimentos que todos os outros apóstolos, se tal pessoa cometesse um só pecado mortal, perderia tudo (Ez 18,24); tão grande é a ruína que produz a queda no desagrado do Senhor! De filho de Deus, o pecador converte-se em escravo de Satanás; de amigo predileto torna-se odioso inimigo; de herdeiro da glória, em condenado do inferno. Dizia São Francisco de Sales que, se os anjos pudessem chorar, certamente chorariam de compaixão ao verem a desdita de uma alma que comete um pecado mortal e perde a graça divina. 

Entretanto, a maior tristeza é que os anjos chorariam, se pudessem chorar, e o pecador não chora. Aquele que perde um cavalo, uma ovelha - diz Santo Agostinho - já não come, já não descansa, mas chora e lastima-se. Mas, se perde a graça de Deus, come, dorme e não se queixa!


AFETOS E SÚPLICAS

Vede, Redentor meu, a que estado lamentável me acho reduzido! Para me tornardes digno de vossa graça, passastes trinta e três anos de trabalhos e sofrimentos, e eu, em um instante, por um momento de prazer envenenado a desprezei e perdi. Graçaas mil rendo à vossa misericórdia, que ainda me dá tempo de recuperá-la, se, de fato, o quiser. 

Sim, meu Senhor; quero fazer tudo quanto possa para readquiri-la. 

Dizei-me o que devo fazer para obter o perdão. Quereis que me arrependa? Pois bem, meu Jesus, arrependo-me de todo o coração de ter ofendido a vossa bondade infnita... Quereis que vos ame? Amo-vos sobre todas as coisas. Mal andou na vida passada o meu coração, amando as criaturas e as vaidades do mundo. De agora em diante, só viverei para vós e só a vós amarei, meu Deus, meu tesouro, minha esperança e minha fortaleza (Sl 17,1). Vossos méritos, vossas sacratíssimas chagas, serão minha esperança. É de vós que espero a força necessária para vos ser fiel. Acolhei-me, pois, em vossa graça, ó meu Salvador, e não permitais que jamais vos abandone. Desprendei-me dos afetos mundanos e inflamai meu coração em vosso santo amor. 

Maria, minha Mãe, fazei que minha alma arda em amor de Deus, tal como arde a vossa eternamente. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Do número dos pecados




 Quia non profertur cito contra malos sententia, ideo filii hominum perpetrant mala. 

Porquanto o não ser proferida sentença logo contra os maus, é causa de os filhos dos homens cometerem crimes sem temor algum (Ecl 8,11).


PONTO I

Se Deus castigasse imediatamente a quem o ofende, não se veria, sem dúvida, tão ultrajado como é atualmente. Mas, porque o Senhor não só castiga logo, senão que espera benignamente, os pecadores cobram ânimo para ofendê-lo. É preciso, porém, considerar que Deus espera e é pacientíssimo, mas não para sempre. É opinião de muitos Santos Padres (de São Basílio, São Jerônimo, Santo Ambrósio, São Cirilo de Alexandria, São João Crisóstomo, Santo Agostinho e outros) que Deus, assim como determinou para cada homem o número dos dias de vida, e dotes de saúde e de talento que lhe quer outorgar (Sb 11,21), assim, também, contou e fixou o número de pecados que lhe quer perdoar. E, completo esse número, já não perdoa mais, diz Santo Agostinho. Eusébio de Cesaréia e os outros Padres sem fundamento, mas baseados na Sagrada Escritura. Diz o Senhor, em certo lugar do texto, que adiava a ruína dos amorreus porque ainda não estava completo o número de suas culpas (Gn 15,16). Em outra parte diz: "Não terei no futuro misericórdia de Israel (Os 1,6). Já por dez vezes me provocaram. Não verão a terra" (Nm 14,22-23). E no livro de Jó se lê: "Tendes selado, como num saco, as minhas culpas" (Jo 14,17). Os pecadores não tomam conta dos seus delitos, mas Deus enumera-os bem, a fim de os decifrar quando a seara estiver madura, isto é, quando estiver completo o número de pecados (Joel 3,13). Em outra passagem lemos: "Não estejas sem temor da ofensa que te foi perdoada e não amontoes pecado sobre pecado" (Ecl 5,5). Ou seja: é preciso, pecador, que tremas ainda dos pecados que já te perdoei; porque, se lhes acrescentares outro poderá ser que este novo pecado com aquele complete o número e então não haverá misericórdia para ti. Ainda mais claramente, em outra passagem, diz a Escritura: "O Senhor espera com paciência (as nações) para castigá-la quando se completar a conta dos pecados, e então virá o dia do juízo" (2Mc 6,14). De sorte que Deus espera o dia em que se completa a medida dos pecados, e depois castiga. 

A Escritura oferece-nos muitos exemplos de tais castigos, especialmente o de Saul, que, por ter reincidido na desobediência ao Senhor, foi abandonado por Deus de tal modo, que, ao rogar a Samuel que por ele intercedesse, lhe disse: "Rogo-te que tomes sobre ti o meu pecado e venhas comigo para adorar ao Senhor" (1Rs 15,25). Ao que Samuel respondeu: "Não irei contigo, porque desprezaste a palavra do Senhor, e o Senhor te repeliu" (1Rs 15,26). Temos também o exemplo do rei Baltasar que, achando-se num festim a profanar os vasos do templo, viu mão misteriosa a escrever na parede: Mane, Thecel, Phares. 

Veio o profeta Daniel e explicou assim as palavras: "Foste pesado na balança e achando demasiadamente leve" (Dn 5,27), dando-lhe a entender que o peso de seus pecados havia inclinado até ao castigo a balança da justiça divina. E, com efeito, Baltasar foi morto naquela mesma noite (Dn 5,30). Quantos não há a quem sucede a mesma desgraça! Vivem longos anos em pecado; mas, quando se completa o número que lhes foi fixado, a morte dos arrebata e são precipitados no inferno (Jo 21,13). Quantos procuram investigar o número das estrelas que existem, saber a quantidade dos anjos no céu, e computar os anos de vida dos homens; mas quem se atrever a indagar do números de pecados que Deus quer perdoar-lhes...? Tenhamos, pois, salutar temor. Quem sabe, meu irmão, se, depois do primeiro deleite ilícito, ou do primeiro mau pensamento em que consintas, ou do próximo pecado em que incorras, Deus ainda te perdoará?


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, dou-vos fervorosas graças! Quantas almas, menos culpadas que eu, estão agora no inferno, enquanto eu vivo ainda fora daquele cárcere eterno, e com esperança de alcançar, se o quiser, perdão e glória!... Sim, meu Deus, desejo ser perdoado. Arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido, porque injuriei a vossa Bondade infinita. 

Eterno Pai, contemplai vosso divino Filho morto na cruz por mim (Sl 83,10), e, em consideração de seus merecimentos, tendo misericórdia de minha alma. Proponho antes morrer do que tornar a ofender-vos. 

Sem dúvida, devo temer que, em vista dos pecados que cometi e das graças que me concedestes, uma nova culpa venha completar a medida e eu seja justamente condenado... Ajudai-me, pois, com vossa graça, que de vós espero luz e graça para vos ser fiel. Se previrdes que tornarei a ofender-vos, dai-me a morte antes que perca a vossa graça. 

Amo-vos, meu Deus, sobre todas as coisas, e mais do que a morte receio a desgraça de apartar-me de vós outra vez. Por piedade, não o permitais...

Maria, minha Mãe, alcançai-me a santa perseverança. 


PONTO II

Dirá talvez o pecador que Deus é Deus de misericórdia... Quem o nega?... A misericórdia do Senhor é infinita; mas, apesar dela, quantas almas se condenam todos os dias? Deus cura os que têm boa vontade (Is 61,1). Perdoa o pecado, mas não pode perdoar a vontade de pecar...

Replicará o pecador que ainda é muito jovem... És moço?... Deus não conta os anos, conta as culpas. Ora, a medida dos pecados não é igual para todos. A um perdoa Deus cem pecados; a outro, mil; a outro, ao segundo pecado, se verá precipitado no inferno. A quantos condenou após o primeiro pecado! 

Refere São Gregório que um menino de cinco anos, por ter proferido uma blasfêmia, foi lançado no inferno. Segundo revelou a Santíssima Virgem à bem-aventurada Benedita de Florença, uma menina de doze anos fora condenada por seu primeiro pecado.

Outro menino, de oito anos de idade, também morreu com o primeiro pecado e se condenou. Lemos no Evangelho de São Mateus que o Senhor, a primeira vez em que achou a figueira sem fruto a almaldiçoou, e a árvore secou (Mt 21,19). Em outro lugar diz o Senhor: "Depois das maldades que o povo de Damasco cometeu três e quatro vezes, eu não mudarei o meu decreto" (não revigarei os castigos que lhe tenho decretado) (Am 1,3). Algum temerário talvez ouse perguntar por que Deus perdoa a tal pecador três culpas e não culpo. Neste ponto é preciso adorar os inefáveis juízos de Deus e exclamar com o Apóstolo: "Ó profundidade das riquezas da sabedoria e ciência de Deus! Quão incompreensíveis são seus juízos e imperscrutáveis seus caminhos" (Rm 11,33). O Senhor sabe, diz Santo Agostinho, a quem há de perdoar e a quem não. Àqueles a quem se concede misericórdia, gratuitamente se concede a mesma, e àqueles a quem se lha nega, com justiça lhes é negada".

Replicará a alma obstinada que, tendo ofendido tantas vezes a Deus, e Deus lhe tendo perdoado, espera que ele ainda lhe perdoará um novo pecado... Mas porque Deus não o tem castigado até esta hora, segue-se que sempre há de proceder assim? Encher-se-á a medida e o castigo virá. Sem interromper as relações com Dalila, esperava Sansão salvar-se das mãos dos filisteus, como antes tinha feito (Jt 16,20); mas nesta última vez foi preso e perdeu a vida. - "Não digas - exclama o Senhor - pequei, e qual a adversidade que me sobreveio? (Ecl 5,4).

Porque o Altíssimo, ainda que nos tolere, dá-nos o que merecemos" (Ecl 5,4), isto é: chegará o dia em que tudo lhe pagaremos, e quanto maior tiver sido a misericórdia tanto maior será a pena. Afiança-nos São João Crisóstomo que há mais para recear quando Deus tolera um pecador obstinado, do que quando lhe aplica o castigo sem detença. 

Com efeito, observa São Gregório, todos aqueles a quem Deus espera com mais paciência, são depois, se perseverarem na sua ingratidão, castigados com mais rigor; e muitas vezes acontece, acrescenta o mesmo Santo, que os que foram por mais tempo tolerados por Deus, morrem de improviso sem ter tempo de se converter. Especialmente, quanto maiores tenham sido as luzes que Deus te haja dado, tanto maiores serão tua cegueira e obstinação no pecado, se a tempo não fizeres penitência. "Era-lhe melhor - diz São Pedro - não ter conhecido o caminho da justiça, que depois do conhecimento voltar-lhe as costas" (2Pd 2,21). São Paulo diz que é (moralmente) impossível que uma alma ilustrada por luzes celestes, quando reincidir no pecado, se converta de novo (Hb 6,4.6).

Terríveis são as palavras do Senhor contra aqueles que não querem atender a seu convite: "Já que vos chamei e dissestes: não... eu também me rirei na hora da vossa morte e vos escarnecerei" (Pr 1,24-26). Note-se que as palavras eu também significam que, assim como o pecador zombou de Deus, confessando-se, fazendo propósitos e não os cumprindo nunca, assim o Senhor zombará dele na hora da morte. 

O sábio diz além disso: "Como cão que volta ao que vomitou, assim é o imprudente que recai na sua loucura" (Pr 26,11). Dionísio, o Cartuxo, desenvolve este pensamento e diz que tão abominável e asqueroso como o cão que devora o que tinha vomitado, se faz odioso a Deus o pecador que volta a cometer os pecados de que se arrependeu no sacramento da Penitência. 


AFETOS E SÚPLICAS

Eis-me aqui, Senhor, a vossos pés. Sou como o cão repugante e asqueroso, que tantas vezes voltei a deleitar-me com o que antes tinha detestado. Não mereço perdão, meu Redentor. O precioso sangue, porém, que por mim derramastes, me alenta e me obriga a esperar...

Quantas vezes vos ofendi e vós me perdoastes! Prometi não tornar a ofender-vos e daí a pouco de novo recaí, e vós outra vez me concedestes perdão! Que devo esperar, pois? Que me envieis ao inferno ou que me abandoneis a meus pecados, castigo maior que o próprio inferno? Não, meu Deus; quero emendar-me, e, para vos ser fiel, ponho em vós toda minha confiança e prometo recorrer sempre a vós quando me vir assediado de tentações. No passado fiei-me em minhas promessas e resoluções, olvidando encomendar-me a vós nas tentações. Daí proveio a minha ruína. Mas, de hoje em diante, sereis vós minha esperança, minha fortaleza e assim tudo me será possível (Fp 4,13). Dai-me, pois, meu Jesus, por vossos méritos, a graça de encomendar-me sempre a vós, e de pedir vosso auxílio em todas as minha necessidades. Amo-vos, Sumo Bem, digno de ser amado sobre todos os bens e só a vós amarei se me ajudais para isso.

Vós também, ó Maria, Mãe nossa, auxiliai-me por vossa intercessão; abrigai-me debaixo de vosso manto; fazei que vos invoque sempre na tentação, e vosso nome dulcíssimo será minha defesa. 


PONTO III

"Filho, pecaste? Não tornes a pecar; mas roga pelas culpas antigas, a fim de que te sejam perdoadas" (Ecl 21,1). Assim te adverte, ó cristão, Nosso Senhor, porque deseja salvar-te. "Não me ofendas, filho, novamente, mas pede perdão dos pecados cometidos". Quantos mais tiveres ofendido a Deus, meu irmão, tanto mais deves temer a reincidência em ofendê-lo; porque talvez mais um pecado que cometeres fará pender a balança da justiça divina, e serás condenado. Falando absolutamente, não quero dizer, porque não o sei, que não haja perdão se cometeres novo pecado; afirmo, porém, que isto pode acontecer. Por conseguinte, quanto te assaltar a tentação, deves considerar: quem sabe se Deus me perdoará outra vez ou ficarei condenado? Dize-me, por favor: Provarias uma comida, que supusesses estar provavelmente envenenada? Se presumisses fundamente que em determinado caminho estavam teus inimigos à espreita para matar-te, passarias por ali, podendo tomar outra via mais segura? Do mesmo modo, que certeza ou que probabilidade podes ter de que, tornando a pecar, sentirás logo verdadeira contrição e não voltarás à culpa detestável? Ou ainda, se novamente pecares, não te fará Deus morrer no próprio ato do pecado, ou te abandonará depois da queda? Ao comprar uma casa, tomas prudentemente as necessárias precauções para não perderes teu dinheiro. Se vais usar algum remédio, procurarás certificar-te que não te possa fazer mal. Ao atravessar um rio, evitas o perigo de cair nele. E, por um vil prazer, por um deleito brutal arriscas tua salvação eterna, dizendo: Eu me confessarei. Mas, pergunto eu: Quanto te confessarás? - No domingo. - E quem te assegura que no domingo estarás vivo? - Amanhã mesmo. - E quem te afiança esse dia de amanhã, quando não sabes sequer se tens ainda uma boa hora de vida? 

"Tendes um dia - diz Santo Agostinho - quando não tendes certeza de uma hora?" Deus - prossegue o mesmo Santo - promete o perdão ao que se arrepende, não promete o dia de amanhã a quem o ofende: Se agora pecares, Deus, talvez, te dará tempo de fazer penitência, ou talvez não. E se não te der, que será de ti eternamente? E, não obstante, queres perder tua alma por um mísero prazer e a expões ao perigo da perdição eterna. Arriscarias mil ducados por essa vil satisfação? Digo mais: darias tudo, fazenda, casa, poder, liberdade e vida, por um breve gosto ilícito? Não, sem dúvida. E, contudo, por esse mesmo indigno prazer, queres perder tudo: Deus, a alma e o céu. Dize-me, pois: as coisas que ensina a fé são verdades altíssimas, ou não passam de puras fábulas que haja céu, inferno e eternidade? Crês que se a morte te surpreender em pecado estarás perdido para sempre?... Que temeridade, que loucura, condenares a ti mesmo às penas eternas com a vã esperança de remediá-lo mais tarde! "Ninguém quer enfermar com a esperança de curar-se" - diz Santo Agostinho. 

Não teríamos por louco a quem bebesse veneno dizeno: depois, por meio de um remédio, me salvarei? E tu queres a condenação à morte eterna, fiado em que talvez mais tarde possas livrar-te dela?... Loucura terrível, que tantas almas tem levado e leva ao inferno. segundo a ameaça do Senhor! "Pecaste confiando temerariamente na misericórdia divina; mas o castigo virá de improviso sobre ti, sem que saibas donde vem" (Is 47,10-11).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, um desses insensatos, que tantas vezes perdeu a sua alma e a vossa graça, esperando recuperá-la depois. Ai de mim, se me tivésseis enviado a morte no instante em que pequei! Que seria de mim?... Agradeço de todo o coração à vossa clemência o ter-me esperado, dando-me a conhecer meu desvairamento. Reconheço que desejais salvar-me, e eu quero me salvar. Dói-me, Bondade infinita, de me ter afastado de vós tantas vezes. Amo-vos com todo o fervor de meu coração, e espero, ó Jesus, que, pelos merecimentos de vosso precioso sangue não recairei em tal demência. Perdoai-me, Senhor, e acolhei-me em vossa graça, que jamais quero separar-me de vós. In te, Domine, speravi non confundar in aeternum. Espero, ó meu Redentor, não ter de sofrer a desdita e confusão de ver-me privado outra vez de vosso amor e de vossa graça. Concedei-me a santa perseverança, e fazei que sempre vo-la peça, particularmente nas tentações, invocando vosso santo nome e o de vossa Mãe santíssima: "Meu Jesus, socorrei-me!...

Maria, nossa Mãe, amparai-me!..." Sim, Rainha e Senhora minha, enquanto recorrer a vós, não serei vencido. E se persistir a tentação, fazei, ó minha Mãe, que persista em invocar-vos.


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Abuso da divina misericórdia




 Ignoras quoniam benignitas Dei ad poenitentiam te adducit?

Não sabes que a benignidade de Deus te convida à penitência? (Rm 2,4).


PONTO I 

Lê-se na parábola do joio que, tendo crescido num campo essa má erva juntamente com a boa semente, os servos quiseram arrancá-la (Mt 13,29). O Senhor, porém, lhes objetou: "Deixai-a crescer; mais tarde a arrancaremos para lançá-la ao fogo" (Mt 13,30). Infere-se desta parábola, por um lado, a paciência de Deus para com os pecadores, e por outro o seu rigor para com os obstinados. Diz Santo Agostinho que o demônio seduz os homens por duas maneiras: "Com desespero e com esperança". Depois que o pecador cometeu o delito, arrasta-o ao desespero pelo temor da justiça divina; mas, antes de pecar, excita-o a cair em tentação pela esperança na divina misericórdia; antes do pecado tema a justiça divina". E assim é, com efeito. Porque não merece a misericórdia de Deus aquele que se serve da mesma para ofendê-lo. A misericórdia é para quem teme a Deus e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-lo.

Aquele que ofende a justiça - diz o Abulense - pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia? Será difícil encontrar um pecador a tal ponto desesperado que queira expressamente condenar-se. Os pecadores querem pecar, mas sem perder a esperança da salvação. Pecam e dizem: Deus é a própria bondade; mesmo que agora peque, mais tarde confessar-me-ei. Assim pensam os pecadores, diz Santo Agostinho. Mas, meu Deus, assim pensaram muitos que já estão condenados. 

Não digas - exclama o Senhor - a misericórdia de Deus é grande: meus inumeráveis pecados me serão perdoados com um ato de contrição" (Ecl 5,6). Não faleis assim - nos diz o Senhor - e por quê? "Porque sua ira está tão pronta como sua misericórdia; e sua cólera fita os pecadores" (Ecl 5,7). A misericórdia de Deus é infinita; mas os atos dela, ou seja, os de comiseração, são finitos. Deus é clemente, mas também é justo. "Sou justo e misericordioso - disse o Senhor a Santa Brígida, - e os pecadores só pensam na misericórdia". Os pecadores - escreve São Basílio - só querem considerar a metade. "O Senhor é bom; mas também é justo. Não queiramos considerar unicamente uma das faces de Deus". Tolerar quem se serve da bondade de Deus para mais o ofender - dizia o Padre Ávila - fora antes injustiça que misericórdia. 

A clemência foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela. Et misericordia ejus timentibus eum, como exclama em seu Cântico a Virgem Santíssima. A justiça ameaça os obstinados, porque, como diz Santo Agostinho, a veracidade de Deus resplandece mesmo em suas ameaças. 

Acautelai-vos - diz São João Crisóstomo - quando o demônio (não Deus) vos promete a misericórdia divina com o fim de que pequeis. 

Ai daquele - acrescenta Santo Agostinho - que para pecar confia na esperança!... A quantos essa vã ilusão tem enganado e levado à perdição. 

Desgraçado daquele que abusa da bondade de Deus para ofendê-lo mais!... Lúcifer - como afirma São Bernardo - foi castigado por Deus com tão assombrosa presteza, porque, ao rebelar-se, esperava não ser punido. O rei Manassés pecou; converteu-se em seguida, e Deus lhe perdoou. Mas para Amon, seu filho, que, vendo quão facilmente seu pai havia conseguido o perdão, entregou-se à má vida com a esperança de também ser perdoado, não houve misericórdia. Por essa causa - diz São João Crisóstomo - Judas se condenou, porque se atreveu a pecar confiando na clemência de Jesus Cristo. Em suma: se Deus espera com paciência, não espera sempre. Pois, se o Senhor sempre nos tolerasse, ninguém se condenaria; ora, é larga a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele (Mt 7,13). Quem ofende a Deus, fiado na esperança de ser perdoado, "é um escarnecedor e não um penitente", diz Santo Agostinho. 

Por outra parte, afirma São Paulo que de "Deus não se pode zombar" (Gl 6,7). E seria zombar de Deus o querer ofendê-lo sempre que quiséssemos e desejar, a seguir, o paraíso. Quem semeia pecados, não pode esperar outra coisa que o eterno castigo no inferno (GL 6,8). O laço com que o demônio arrasta quase todos os cristãos que se condenam é, sem dúvida, esse engano com que os seduz,  dizendo-lhes: "Pecai livremente, porque, apesar de todos os pecados, haveis de salvar-vos". 

O Senhor, porém, amaldiçoa aquele que peca na esperança de perdão.

A esperança depois do pecado, quando o pecador deveras se arrepende, é agradável a Deus, mas a dos obstinados lhe é abominável. 

Tal esperança provoca o castigo de Deus, assim como seria passível de punição o servo que ofendesse a seu patrão, precisamente porque é bondoso e amável. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus! Eis aqui um dos que vos têm ofendido porque éreis bom para mim!... Ó Senhor, esperai-me ainda. Não me abandoneis, pois espero, com o auxílio de vossa graça, não tornar a dar-vos motivo para que me deixeis. Arrependo-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido, cansado vossa paciência. 

Agradeço-vos por me terdes esperando até agora. De hoje em diante não tornarei a ser, como hei sido, um miserável traidor. Já que tendes esperado para ver-me convertido em fervoroso amante de vossa bondade, crede, como espero, que esse dia ditoso já despontou. Amo-vos sobre todas coisas; estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo, e a perdê-la preferiria perder mil vezes a vida. Meu Deus, por amor de Jesus Cristo, concedei-me, juntamente com vosso santo amor, o dom da perseverança até à morte. Não permitais que de novo volte a trair-vos ou deixe de vos amar. 

E vós, Virgem Maria, minha esperança, alcançai-me a perseverança final e nada mais vos peço. 


PONTO II

Dirá, talvez, alguém: Já que Deus usou para comigo de tanta clemência no passado, espero que a terá também no futuro. Eu, porém, lhe respondo: E por ter sido Deus tão misericordioso contigo, queres de novo ofendê-lo? Desse modo - diz São Paulo - desprezas a bondade e paciência de Deus. Ignoras que se o Senhor te suportou até agora, não foi para que continuasses a ofendê-lo, senão para que te penitencies do mal que fizestes? (Rm 2,4). E se tu, fiado na divina misericórdia, não temes abusar dela, o Senhor te retirará. "Se não vos converterdes... entesará o seu arco e tem-no preparado (Sl 7,13). Minha é a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo (Dt 321,35). Deus espera; mas, chegada a hora da justiça, já não espera e castiga então. 

Deus aguarda o pecador a fim de que se emende (Is 19,18); mas, quando vê que o tempo concedido para os pecados só serve para multiplicá-los, vale-se desse mesmo tempo para empregar a justiça (Lm 1,15). De sorte que o próprio tempo concedido, a mesma misericórdia outorgada, servirão para que o castigo seja mais rigoroso e o abandono mais imediato. "Medicamos Babilônia e não há sanado. Abandonemo-la". (Jr 51,9). E como é que Deus nos abandona? Ou envia a morte ao pecador, que assim morre sem arrepender-se, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente com que o pecador se poderia salvar, mas não se salva. Obececada a mente, endurecido o coração, dominado por maus hábitos, a salvação lhe será moralmente impossível; e assim ficará, senão em absoluto, pelo menos moralmente abandonado. "Derrubar-lhe-ei o muro, e ficará exposta..." (Is 5,5). 

Que castigo! Triste indício quando o dono rompe o cercado e deixa entrar na vida os que quiserem, homem e animais: é prova de que a abandona. É o que faz Deus, quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor, dos remorsos de consciência e a deixa nas trevas. Penetram, então, nela todos os monstros do vício (Sl 103,20). O pecador, entregue a essa obscuridade, desprezará tudo: a graça divina, a glória, avisos, conselhos e censuras; escarnecerá até de sua própria condenação (Pr 18,3).

Deus o deixará nesta vida sem castigo, e nisto consistirá seu maior castigo. "Compadeçamo-nos do ímpio... não aprenderá (jamais) justiça".(Is 26,10). Referindo-se a esse texto, diz São Bernardo: "Não quero essa misericórdia, mais terrível que a ira". (Serm. 42, in Ct). Terrível castigo, quando Deus deixa o pecador em seus pecados, e parece que nem lhe pede contas deles (Sl 10,4). Dir-se-á que já não se indigna contra ele (Ez 16,42) e que lhe permite gozar quanto neste mundo deseja (Sl 80,13). Desgraçados os pecadores que prosperam na vida mortal! É sinal de que Deus os reserva para aplicar-lhes sua justiça na vida eterna! Jeremias pergunta: "Por que o caminho dos ímpios passa em prosperidade? (Jr 12,1). E responde em seguida: "Reúne-os como o rebanho destinado ao matadouro" (Jr 12,3). Não há, pois, maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados, segundo o que diz David: "pondo maldade sobre maldade... Riscados sejam do livro dos vícios" (Sl 28,28-29). Observa Belarmino: "Não existe castigo mais terrível do que o pecado tornar-se pena do pecado". Fora melhor a um desses infelizes que o Senhor o tivesse feito morrer após o primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá a padecer tantos infernos quantos foram os pecados cometidos. 


AFETOS E SÚPLICAS

Bem reconheço, meu Deus, que, no miserável estado em que me acho, mereci ser privado da vossa luz e da vossa graça. Pela inspiração, porém, que me dais e ouvindo-vos a voz que me chama à penitência, estou persuadido, entretanto, de que não me abandonastes. Já que assim é, multiplicai, meu Senhor, vossa misericórdia sobre minha alma; aumentai-me a luz divina e o desejo de vos amar e servir. Transformai-me, ó meu Deus; de traidor e rebelde que fui, convertei-me em fervoroso amante de vossa bondade, a fim de que chegue para mim o venturoso dia em que parta para o céu e louve eternamente as vossas misericórdias. 

Vós, Senhor, quereis perdoai-me, e eu só desejo que me outorgueis vosso perdão e vosso amor. Dói-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, ó sumo Bem, porque mo ordenais, e porque sois digníssimo de ser amado. Fazei, pois, meu Redentor, que vos ame este pecador por vós tão amado, e com tal paciência por vós esperado. Tudo espero de vossa bondade inefável. Espero amar-vos sempre no futuro, até à morte e por toda a eternidade (Sl 83,2). 

Que vossa clemência, meu Jesus, seja constante objeto de meus louvores! Louvarei também, por todo o sempre, a vossa misericórdia, ó Maria, pelas graças inumeráveis que me tendes alcançado. À vossa intercessão as devo. Assisti-me, Senhora minha, auxiliar-me e alcançai-me a santa perseverança. 


PONTO III

Lê-se na Vida do Padre Luís de Lanusa que, certo dia, dois amigos passeavam juntos em Palermo. Um deles, chamado César, que era ator, vendo o seu companheiro pensativo em extremo, disse-lhe: "Apostaria que te foste confessar, e por isso estás tão preocupado... Eu não quero acolher tais escrupúlos... Escuta: Disse-me um dia o Padre Lanusa que Deus me concedia ainda doze anos de vida,  que, se nesse tempo não me emendasse, morreria de má sorte. Viajei depois por muitos países; sofri de diversas doenças, umas das quais me levou às portas da morte...

É neste mês que se completam os famosos doze anos, e sinto disposto como nunca..." Após esta fala, César convidou seu amigo a ver, no sábado seguinte, a estréia de uma comédia de sua autoria... 

Naquele sábado, dia 24 de novembro de 1668, quando César se dispunha a entrar na cena, foi acometido subitamente de uma congestão e veio a morrer repentinamente nos braços de uma atriz. Assim acabou a comédia. Pois bem, meu irmão, quando o demônio, por meio da tentação, te excita outra vez ao pecado, se quiseres condenar-te podes cometer livremente o pecado; mas então não digas que desejas tua salvação. 

Quando quiseres pecar, considera-te como condenado, e imagina que Deus dita tua sentença, dizendo: Que mais posso fazer por ti, ingrato, além do que já fiz? (Is 5,4). Já que queres condenar-te, condena-te, condena-te, pois... a culpa é tua. 

Dirás, acaso: onde está então a misericórdia de Deus?... Desgraçado! Não te parece misericórdia o ter-te Deus suportado tanto tempo, apesar de tantos pecados? Prostado diante dele e com o rosto em terra; devias estar a render-lhe graças e dizendo: "Graças à misericórdia do Senhor é que não temos sido condenados" (Lm 3,2). Comentendo um só pecado mortal, incorreste em delito maior do que se tivesses calcado aos pés o primeiro soberano do mundo. E tantos e tais tens cometido que, se essa ofensas fossem feitas a teu irmão, este não as teria aturado... Deus, entretanto, não somente te esperou, mas te vem chamando muitas vezes, e oferece-te o perdão. Que mais devia fazer? (Is 5,4). Se Deus  tivesse necessidade de ti, ou se o houvesse honrado com grandes serviços, poderia ter-se mostrado mais clemente contigo? Se depois disto tornastes a ofendê-lo, farias que sua divina misericórdia se trocasse em indignação e castigo. 

Se aquela figueira, encontrada estéril por seu dono, não desse fruto depois do ano concedido como prazo para cultivá-la, quem ousaria esperar que se lhe desse mais tempo e não fosse cortada? Escuta, pois, o que diz Santo Agostinho: "Ó árvore infrutuosa! o golpe de derrubada foi deferido. Mas não te creias mais segura, porque serás cortada!" A pena foi adiada - diz o Santo, - mas não suprimida. Se tornares a abusar da misericórdia divina, o castigo te atingirá: serás cortado. Esperas, portanto, que o próprio Deus te envie ao inferno? Mas, se te envia, já o sabes, jamais haverá remédio para ti. O Senhor se cala, mas não para sempre. Quando chega a hora da justiça, quebra o silêncio. 

"Isto fizeste, e eu calei-me. Pensastes iniquamente que eu seria como tu; argüir-te-ei e porei (tudo) diante de teu rosto" (Sl 49,21). Porá diante dos teus olhos os atos da divina misericórdia e fará com que eles mesmos te julguem e condenem. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus, que desgraça para mim, se, depois de ter recebido a luz que agora me dais, voltasse a ser infiel, cometendo traição. Essas luzes são sinais de que quereis perdoar-me. Arrependo-me, ó Sumo Bem, de todas as ofensas que fiz à vossa infinita bondade. Por vosso preciosíssimo sangue, espero, com certeza, o perdão. Mas, se tornasse a afastar-se de vós, reconheço que mereceria o inferno, criado de propósito para mim. Tremo, Deus de minha alma, à vista da possibilidade de tornar a perder vossa graça. Muitas vezes já vos prometi ser fiel, e depois, infelizmente, tornei a rebelar-me contra vós... Não o permitais, Senhor; não me deixeis cair na imensa desgraça de ver-me convertido outra vez em inimigo vosso. Dai-me outro castigo, mas este, não. "Não permitais que me aparte de vós". Se prevedes que vos hei de tornar a ofender, fazei antes que perca a vida. Aceito a morte mais dolorosa que ter de chorar a desdita de ver-me privado de vossa graça. Ne permittas me separari a te. Repito-o, meu Deus, e fazei que o repita sempre: "Não permitais que me separe de vós. Amo-vos, meu caríssimo Redentor, e não quero mais separar-me de vós". Pelos merecimentos de vossa morte, concedei-me amor tão fervoroso que convosco me una estreitamente e jamais possa desprender-me de vós.

Ajudai-me, ó Virgem Maria, por vossa intercessão; alcançai-me a santa perseverança e o amor para com Cristo Jesus. 

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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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sábado, 4 de outubro de 2025

Da misericórdia de Deus




 Superexaltat autem misericordia judicium.

A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2,13).


PONTO I 

A bondade é comunicativa por natureza, isto é, tende a transmitir aos outros os seus bens. Deus, que por sua natureza é a bondade infinita, sente vivo desejo de comunicar-nos sua felicidade e, por isso, propende mais à misericórdia do que ao castigo. Castigar - diz Isaías - é obra alheia às inclinações da vontade divina. "Levantar-se-á para fazer a sua obra (ou vingança), obra que lhe é alheia, obra que lhe é estranha. (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, é para fazer misericórdia na outra (Sl 59,3). Mostra-se irritado a fim de que nos emendemos e detestemos o pecado (Sl 5). Se nos manda algum castigo, é porque nos ama e nos quer livrar das penas eternas (Sl 6). Quem poderá admirar e louvar suficientemente a misericórdia com que Deus trata os pecadores, esperando-os, chamando-os, acolhendo-os quando voltam para Ele?...  E antes de tudo, que graça valiosíssima nos concede Deus em esperar pela nossa penitência!... Quando o ofendestes, meu irmão, o Senhor te podia ter feito morrer, mas, ao contrário, te esperou; e, em vez de castigar-te, te cumulou de bens e te conservou a vida em sua paterna providência. Fingia não ver teus pecados, a fim de que te convertesses (Sb 2,24).

E como é isto, Senhor!Vós que não podeis ver um só pecador, vedes tantos e vos calais? (Hb 1,15). Vedes aquele impudico, aquele vingativo, esse blasfemo, cujos pecados crescem dia-a-dia e não os castigais? Por que tanta paciência?... Deus espera o pecador, a fim de que se arrependa e desse modo lhe perdoa e o salve (Is 30,18). 

Disse Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a água, a terra, o ar, por natural instinto se prestam a castigar o pecador pelas ofensas feitas ao Criador: mas Deus, pela sua misericórdia, os impede... Vós, Senhor, aguardais o ímpio para que se serve de vossa clemência para vos ofender? (Is 26,15) Por que tamanha paciência?... Porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e se salve (Ez 22,11).

Ó paciência divina! Disse Santo Agostinho que, se Deus não fosse Deus, pareceria injusto pela sua paciência para com o pecador, pois esperar, assim, pelo homem que se vale daquela paciência para continuar a pecar, parece em certo modo uma injustiça contra a honra divina. 

"Nós pecamos - continua dizendo o mesmo Santo, - entregamo-nos ao pecado (alguns há que vivem em paz com o pecado, dormem no pecado meses e anos inteiros), regozijamo-nos no pecado (pois não poucos até se gloriam de seus delitos), e vós usais de misericórdia".

Parece que teimosamente combatemos contra Deus; nós, provocando a sua vingança, Ele, convidando-nos ao perdão.


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e Senhor! Reconheço que sou digno de estar no inferno (Jo 17,13). Graças, porém, à vossa misericórdia não me acho nele, mas sim prostado a vossos pés e conhecedor do vosso preceito em que me ordenais que vos ame. "Ama o Senhor teu Deus" (Mt 22,37). Dizeis-me que quereis perdoar-me se me arrepender das injúrias que vos fiz...

Sim, meu Deus; já que desejais que vos ame, mesmo que seja um miserável rebelde contra vossa soberana majestade, amo-vos de todo o coração, e me dói ter-vos ofendido; isto me aflige mais que qualquer outra desgraça que me pudesse suceder. Iluminai-me, pois, ó Bondade infinita, e fazei-me conhecer a horrenda malícia de minhas culpas. Não; não resistirei mais à vossa voz, nem tornarei a injuriar a um Deus que tanto me ama, e que tantas vezes e com tanto amor me perdoou... Ah, se nunca vos tivesse ofendido, Jesus de minha alma! Perdoai-me e fazei que de hoje em diante a nada mais ame mais do que a vós; que somente viva para vós, que morrestes por mim; e que somente  por vosso amor sofra, já que por mim tanto padecestes. Eternamente me tendes amado; concedei-me que durante toda a eternidade arda eu no vosso amor. 

Tudo espero, ó meu Salvador, de vossos infinitos merecimentos. 

Em vós confio, Virgem Santíssima, pois com vossa intercessão me haveis de salvar. 


PONTO II

Consideremos, além disso, a misericórdia de Deus, quando chama o pecador à penitência... Adão, depois de ter-se rebelado contra Deus, escondeu-se. Mas o Senhor, que tinha perdido Adão, vai à procura dele e, quase a soluçar, o chama: "Onde estás, Adão?... (Gn 3,9) "Palavras de um pai - diz o Padre Pereira - que procura um filho que perdeu". O mesmo tem feito Deus contigo muitas vezes, meu irmão. 

Fugias de Deus, e Deus te chamava, ora com inspirações, ora com remorsos de consciência, já por meio de prédicas, já com atribulações ou com a morte de teus amigos. Parece que, falando de ti, Jesus Cristo exclamava: "Meu filho, quase perdi a voz a chamar-te" (Se 63,4).

Considerai, pecadores - diz Santa Teresa, - que vos chama aquele Senhor que um dia vos há de julgar.

Quantas vezes, cristão, te mostrastes surdo à voz de Deus? Há muito merecias que não te chamasse mais. Deus, entretanto, não cessa de chamar-te, porque deseja que estejas em paz com ele e assim te possa salvar... Quem é aquele que te chama assim? Um Deus de infinita majestade. E quem eras tu senão um verme miserável e vil?... E para que te chama? Não pode ser senão para te restituir a vida da graça que tinhas perdido. "Convertei-vos e vivei". (Ez 18,32). Para recuperar a graça divina, seria pouco passar a vida inteira no deserto. Deus, porém, se ofereceu dar-te de novo sua graça em um momento, e tu a recusaste. E, contudo, Deus não te abandona, mas acerca-se de ti e, solícito, te procura, e, lamentando-se, te diz: "Meu filho, por que queres te condenar?" (Ez 18,31).

Quando o homem comete um pecado mortal, expele o Deus de sua alma (Jo 19,14). Que faz Deus, porém?... Conserva-se à porta dessa alma ingrata e clama (Ap 3,20); pede à alma que o deixe entrar (Ct 5,5), e roga até cansar-se (Jr 15,6). Sim, diz São Dionísio Areopagita, Deus corre, como amante desesperado, atrás do pecador, exortando-o a que não se perca. É exatamente o que São Paulo exprimia quando escrevia a seus discípulos: "Rogamo-vos por Cristo, que vos reconcilieis com Deus" (2Cor 5,20). Belíssima é a reflexão que sobre este texto faz São João Crisóstomo. Diz: "O próprio Cristo vos roga. E que vos roga? Que vos reconcilieis com Deus. De sorte que ele não é inimigo vosso, senão vós dele". O Santo faz ver que não é o pecador que se deve esforçar para conseguir que Deus se mova à reconciliação com ele, mas que só lhe é preciso resolver-se a aceitar a amizade divina, porque é ele e não Deus que se nega a fazer a paz. 

Ah! como este bondosíssimo Senhor corre sem cessar atrás de tantos pecadores e lhes vai dizendo: "Ingratos! não fujais de mim... Por que fugis? Dizei-mo. Quero fazer-vos bem, e somente procuro tornar-vos felizes... Por que vos quereis perder?" - Mas, Senhor, que é que fazeis? Para que empregar tanta paciência e tanto amor para com estes rebeldes? Que compensação esperais deles? Que honra procurais em vos mostrardes tão apaixonado por estes miseráveis vermes da terra que fogem  de vós? "Que ser é o homem para que o engrandeças?... ou por que pões sobre o teu coração?" (Jo 7,17).


AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés um ingrato que vos pede misericórdia; Meu Pai, perdoai-me. Ouso chamar-vos Pai, porque assim quereis que vos chame. Não mereço compaixão, porque, quanto mais bondoso fostes para comigo, tanto mais ingrato mostrei-me para convosco. Por esta mesma bondade que vos moveu, meu Deus, a não me desamparar quando fugia de vós, recebei-me agora quando volto para vós. Inspirai-me, meu Jesus, grande dor das ofensas que vos fiz, e dai-me vosso beijo de paz. Arrependo-me, sobretudo, das ofensas que vos fiz, e as detesto e abomino, unindo este aborrecimento ao que sentistes vós, ó Redentor meu, no horto de Getsêmani. Perdoai-me, pelos merecimentos do preciosos sangue que por mim derramastes naquele horto. Prometo resolutamente nunca mais afastar-me de vós e banir de meu coração todo afeto que não seja para vós. Jesus, meu amor, amo-vos sobre todas as coisas, quero amar-vos sempre e somente amar a vós. Mas dai-me, Senhor, força, para consegui-lo. Fazei-me inteiramente vosso. 

Ó Maria, minha esperança, Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim e rogai por mim a Deus.


PONTO III

Os príncipes da terra, às vezes, julgam ser baixeza fitar os vassalos que lhes vêm pedir perdão. Não é assim, porém, que Deus procede conosco. "Não voltará de vós o rosto, se contritos a ele vos chegardes" (2 Par 30,9). Não, Deus não oculta sua face aos que se convertem. Ao contrário, ele mesmo os convida e promete recebê-los logo que se apresentem... (Jr 3,1; Zc 1,3) Oh, com quanto amor e ternura Deus abraça o pecador que volta para ele! Jesus Cristo claramente no-lo ensina por meio da parábola do Bom Pastor, que, falando da ovelha perdida, a põe amorosamente aos ombros (Lc 15,5) e convida seus amigos para que com ele se regozigem (Lc 15,6). E São Lucas acrescenta: "Haverá gozo no céu por um pecador que faz penitência" (Lc 15,7). O mesmo manifestou o Redentor na parábola do Filho pródigo, quando declarou que ele próprio é aquele pai que, ao ver voltar o filho perdido, corre-lhe ao encontro, e, antes que lhe fale, o abraça e cobre de beijos, e nem mesmo com essas ternas carícias pode expressar o consolo que sente (Ez 18,21-22). 

O Senhor chega até a assegurar que, quando o pecador se arrepende, ele risca da memória as ofensas, como se nunca houvessem existido. Veja-se o que diz: "Vinde e argüi-me; se vossos pecados forem cor de escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve" (Is 1,18; Ez 18,21-22), ou ainda: "Vinde, pecadores, se não vos perdoar, repreendei-me e acusai-me de infidelidade..." Mas, não, Deus não sabe desprezar um coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19). 

Gloria-se o Senhor de usar de misericórdia, perdoando aos pecadores (Is 30,18). E quando perdoa?... Num instante (Is 30,19). Pecador, diz o Profeta, não terás que chorar muito. Enquanto derramas a primeira lágrima, o Senhor terá piedade de ti (Is 30,19). Não procede Deus conosco como nós para com ele. Deus nos chama e nós não queremos atendê-lo. Deus, não. Logo que nos arrependemos, nos responde prontamente e logo nos perdoa. 


AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus!... Contra quem me atrevi a resistir?... Contra vós, Senhor, que sois a própria bondade, que me criastes e morrestes por mim, que me tendes conservado, apesar de minhas reiteradas infidelidades...

A consideração da paciência com quem me tendes tratado deveria bastar para que meu coração vivesse ardendo perpetuamente em vosso amor.

Quem poderia ter aturado as ofensas que vos fiz, como vós a sofrestes? Desgraçado seria eu se tornasse a vos ofender e me condenasse! A misericórdia com que me distinguistes seria para mim, ó Deus, um inferno mais intolerável que o próprio inferno. Não, meu Redentor, não permitais que torne a separar-me de vós. Pefiro morrer... Reconheço que vossa misericórdia já não pode suportar minha maldade. Arrependo-me, porém, ó sumo Bem, de vos ter ofendido; amo-vos de todo o coração e proponho consagrar-vos por completo o resto da vida... Ouvi-me, Pai eterno, e pelos merecimentos de Jesus Cristo, concedei-me a santa perseverança e vosso santo amor. Ouvi-me, meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim: Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti. 

Ó Maria, minha Mãe, volvei a mim vossos olhos misericordiosos: Illos tuos misericordes oculos ad me converte; e uni-me inteiramente a Deus. 


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Santo Afonso Mª de Ligório - Preparação para a morte

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