sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A lei moral natural


 Catecismo da Igreja Católica 



O homem participa da sabedoria e da bondade do Criador, que lhe confere o domínio de seus atos e a capacidade de se governar em vista da verdade e do bem. A lei natural exprime o sentido moral original, que permite ao homem discernir, pela razão, o que é bem e o mal, a verdade e a mentira. 

A lei natural se acha escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque ela é a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar. (...) Mas esta prescrição da razão não poderia ter força de lei se não fosse a voz e o intérprete de uma razão mais alta, à qual nosso espírito e nossa liberdade devem submeter-se.183


A lei "divina e natural"184 mostra ao homem o caminho a seguir para praticar o bem e atingir seu fim. A lei natural enuncia os preceitos primeiros e essenciais que regem a vida moral. Tem como esteio a aspiração e a submissão a Deus, fonte e juiz de todo bem, assim como sentir o outro como igual a si mesmo. Está exposta, em seus principais preceitos, no Decálogo. Essa lei é denominada natural não em referência à natureza dos seres irracionais, mas porque a razão que a promulga pertence, como algo próprio, à natureza humana:

Onde é, então, que se acham inscritas estas regras, senão no livro desta luz que se chama a verdade? Aí está escrita toda a lei justa, dali ela passa para o coração do homem que cumpre a justiça, não que emigre para ele, mas sim deixando aí a sua marca, à maneira de um sinete que de um anel passa para a cera, mas sem deixar o anel.185

A lei natural outra coisa não é senão a luz da inteligência posta em nós por Deus. Por ela, conhecemos o que se deve fazer e o que se deve evitar. Esta luz ou esta lei, deu-a Deus à criação.186  

Presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão, a lei natural é universal em seus preceitos, e sua autoridade se estende a todos os homens. Ela exprime a dignidade da pessoa e determina a base de seus direitos e de seus deveres fundamentais: 

Existe, sem dúvida, uma verdadeira lei: é a reta razão. Conforme à natureza, difundida em todos os homens, ela é imutável e eterna; suas ordens chamam ao dever; suas proibições afastam do pecado. (...) É um sacrilégio substituí-la por uma lei contrária; é proibido não aplicar uma de suas disposições; quanto a ab-rogá-la inteiramente, ninguém tem a possibilidade de fazê-lo.187

A aplicação da lei natural varia muito. Pode exigir uma reflexão adaptada à multiplicidade das condições de vida, conforme os lugares, as épocas e as circunstâncias. Todavia, na diversidade das culturas, a lei natural permanece como uma regra que liga entre si os homens e lhes impõe, para além das inevitáveis diferenças, princípios comuns. 

A lei natural é imutável188 e permanece através das variações da história; ela subsiste sob o fluxo das idéias e dos costumes e constitui a base para seu progresso. As regras que a exprimem permanecem substancialmente válidas. Mesmo que alguém negue até os seus princípios, não é possível destruí-la nem arrancá-la do coração do homem. Sempre torna a ressurgir na vida dos indivíduos e das sociedades:

O roubo é certamente punido por vossa lei, Senhor, e pela lei escrita no coração do homem. (lei) que nem mesmo a iniquidade consegue apagar189.

Obra excelente do Criador, a lei natural fornece os fundamentos sólidos sobre os quais pode o homem construir o edifício das regras morais que orientarão suas opções. Ela assenta igualmente a base moral indispensável para a construção da comunidade dos homens. Proporciona, enfim, a base necessária à lei civil que se relaciona com ela, seja por uma reflexão que tira as conclusões de seus princípios, seja por adições de natureza positiva e jurídica. 

Os preceitos da lei natural não são percebidos por todos de maneira clara e imediata. Na atual situação, a graça e a revelação  nos são necessárias, como pecadores que somos, para que as verdades religiosas e morais possam ser conhecidas "por todos e sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro"190. A lei natural propicia à lei revelada e à graça um fundamento preparado por Deus e em concordância com a obra do Espírito. 


CIC 1954-1960

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181. Leão XIII, enc. Libertas praestantissimum, citando Sto. Tomás de Aquino, S. Th, I-II, 90,1. 

182. Tertuliano, Marc., 2,4.5: CCL 1,479 (PL 2,315).

183. Leão XIII, enc. Libertas praestantissimum.

184. GS 89,1.

185. Sto Agostinho, Trin., 14,15,21.

186. Sto Tomás de Aquino, Decem praec. 1.

187. Cícero, Rep. 3,22,33.

188. Cf. GS10. 

189. Sto Agostinho. Conf., 2,4,9.

190. DF c. 2: DS 3005; Pio XII, enc. Humani generis: DS 3876.



 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Trecho 12 - Tratado da Conformidade com a vontade de Deus





 Finalmente devemos unir-nos à vontade de Deus no que toca à nossa morte, tanto no tempo, como na maneira que Deus tenha determinado que ela nos chegue. Santa Gertrudes (L. 1. Vita. C. 11) subindo uma vez ao monte, perdeu o equilíbrio e caiu em um vale. Suas companheiras perguntaram-lhe se não temia morrer sem os sacramentos, ao que a santa respondeu: "Eu tenho grande desejo de morrer com os Sacramentos, porém deixo isso à vontade de Deus, porque a melhor disposição para a morte é voluntariamente submeter-nos ao que Deus tiver determinado; portanto desejo a morte que o Senhor for servido enviar-me". São Gregório relata em seus diálogos (L. 3 C. 27) que os vândalos¹, tendo condenado à morte certo sacerdote chamado Santolo, lhe deixaram a escolha do gênero de morte. O santo homem recusou escolher, e disse: "Eu estou nas mãos de Deus, e receberei aquela morte que Ele permitir que vós me deis; não quero outra". Este ato foi tanto do agrado do Senhor, que aqueles bárbaros, tendo resolvido degolá-lo, o braço do algoz, quando ia descarregar o golpe foi suspendido; e aqueles homens à vista de tão grande milagre lhe concederam a vida. Portanto, quando ao gênero de morte, devemos considerar o melhor aquele que Deus nos tiver determinado. Digamos sempre, quando pensarmos na morte: 

- Senhor, salva a minha alma, e decretai a minha morte como vos aprouver.

Também devemos unir-nos com a divina vontade quanto ao tempo da nossa morte. O que é este mundo senão uma prisão na qual sofremos e estamos em contínuo risco de perder a Deus? A isto exclamou Davi: "Soltai a minha alma de sua prisão" (Sl 141,8). Isto fazia Santa Teresa suspirar pela morte. Quando ela ouvia as horas do relógio alegrava-se, e consola-se que uma hora de sua vida estava passada, hora de perigo de perder a Deus. O padre Ávila dizia que aquele que não está em disposição imprópria para morrer, deve desejar a morte pelo perigo de perder a divina graça durante a vida. Que coisa pode ser mais desejável e mais deleitosa do que assegurarmo-nos, por uma santa morte, da impossibilidade de perder o favor e a graça de Deus? Mas vós dizeis que nada tendes feito e adquirido para a vossa alma. Porém, se Deus quisesse que vós agora morrêsseis, que faríeis depois se tivésseis vivido contra a vontade de Deus? Quem sabe se teríeis aquele feliz fim que esperais? Quem sabe se mudaríeis vossos costumes, se cairíeis em novas culpas e vos perderíeis? E então, se nada fizésseis enquando vivêsseis não vos seria impossível o não cometer culpas, por leves que fossem. "Por que, pois", exclama São Bernardo, "por que desejamos nós a vida, a qual quanto mais se prolonga, mais pecaminosa é? E é certo que um único pecado venial desagrada mais a Deus do que lhe agradam todas as obras boas que possamos fazer". 

Eu digo mais, aquele que pouco deseja o Céu, prova que tem pouco amor de Deus. Quem ama deseja a presença do objeto amado; porém nós não podemos ver a Deus se não deixarmos a terra; e por consequência os santos suspiravam pela morte, para poderem ir ver o seu amado Senhor: assim exclamava Santo Agostinho: "Ó, que eu possa morrer, que possa eu ir ver-te". Também São Paulo: "Desejava me ver livre do cárcere do corpo e estar com Jesus Cristo" (Fl 1,23). Igualmente Davi: "Quando irei e aparecerei diante de Deus? (Sl 41,3). E assim também dizem todas as almas que amam a Deus. Certo autor refere (Flores. Emil.) (Graul. 4. C. 68.) que um cavalheiro indo caçar a um bosque ouviu um homem cantando melodiosamente; parou e viu um pobre leproso cheio de chagas. Perguntou-lhe o caçador se era ele quem estava cantando. "Sim", respondeu o leproso, "era eu". - "E como podeis vós cantar e estar contente suportando aflições e dores que vos vão gradualmente privando a vida?". O leproso respondeu: "Entre mim e o Senhor, nada mais há que esta muralha de barro que é o meu corpo; removido este obstáculo, eu gozarei o meu Deus e, vendo que todos os dias me vai caindo pedaços, alegro-me e canto". 


Santo Afonso Mª de Ligório - Ed. Minha Biblioteca Católica 










sábado, 9 de julho de 2022

A santa casa de Loreto



Haverá alguém que, já tendo visitado Loreto, não viu com os próprios olhos, e ouviu com os próprios ouvidos, as prodigiosas obras de Deus, nem as sentiu em sua alma?¹

- São Pedro Canísio


A casa mais santa do mundo está na Itália. 

Foi isso mesmo que você leu. Ela ficava na Terra Santa, mas mudou de lugar. 

A casa da família de Jesus, Maria e José está localizada na cidadezinha de Loreto, na Itália. Como ela foi parar ali? Bem, o que você está prestes a ler é a história real de como a casa da Sagrada Família em Nazaré foi transportada para a Itália por anjos. E a história é tão fascinante que, depois de lê-la, é provável que você queira ir para Loreto.

De acordo com historiadores, a casa da Sagrada Família permaneceu em Nazaré por treze séculos. Então, no dia 10 de maio de 1291, ela desapareceu de repente! Tudo o que restou da casa foi o alicerce. O súbito desaparecimento da casa foi notado por todos em Nazaré, deixando a comunidade inteira perplexa. Era impossível que uma pessoa ou um grupo de pessoas a removesse tão depressa, sem que ninguém percebesse. 

Reza a tradição que a santa casa foi transportada de Nazaré por anjos. Nos relatos de suas experiências místicas, a Beata Anna Catarina Emmerich falou sobre a transposição angelical da casa. Ela afirma: 

Testemunhei muitas vezes, em visões, a transposição da santa casa para Loreto. Por muito tempo, não consegui acreditar e, não obstante, continuava a ver. Via a santa casa ser carregada por sobre o mar por sete anjos. Ela não tinha alicerce, mas, debaixo dela, havia uma superfície de luz cintilante. De ambos os lados, havia algo como um pegador. Três anjos carregavam-na de um lado, e três, do outro. O sétimo pairava à frente da casa, deixando atrás de si uma longa cauda de luz.²

Fascinante! Contudo, o que a Beata Anna Catarina não notou em suas visões foi que os anjos primeiro levaram a santa casa de Nazaré para a pequena cidade de Trsat, uma região na atual Croácia. À época, a Croácia era conhecida como Ilíria ou Dalmácia. Por que os anjos a levaram para lá? E, afinal, qual era o objetivo da mudança?

A santa casa foi transposta em 1291. Três anos depois, ficou claro o motivo que levou os anjos a transportaram-na para fora de Nazaré. Em 1294, toda a cidade de Nazaré foi saqueada por invasores muçulmanos. Se a santa casa tivesse permanecido em Nazaré, os muçulmanos a teríam destruído por completo. Deus previu o sacrilégio e enviou seus santos anjos para transportar a casa para outra localidade. 

Ao longo dos séculos, Deus usou pessoas como Santa Helena para retirar relíquias (objetos sagrados associados a Jesus, Maria e aos santos) da Terra Santa e transferi-las para lugares mais seguros. Certa vez, São John Henry Newman visitou a santa casa e fez uma declaração bastante esclarecedora a respeito de sua transposição. Ele escreveu:

Aquele que fez flutuar a Arca [de Noé] nas vagas de um mar que cobria o mundo inteiro, e encerrou nela todas as coisas vivas; que escondeu o paraíso terrestre; que disse que a fé podia mover montanhas; que sustentou milhares por quarenta anos em um deserto estéril; que transportou Elias e o manteve oculto até o fim, também poderia operar essa maravilha. E, na realidade, vemos todos os demais registros de Nosso Senhor e seus santos reunidos no coração da cristandade vindos dos confins da terra à medida que o paganismo avançava sobre eles ( isto é, suas relíquias). Santo Agostinho deixa Hipona, o profeta Samuel e Santo Estevão deixam Jerusalém, o berço em que Nosso Senhor foi reclinado deixa Belém com São Jerônimo, a Cruz é desterrada, Santo Atanásio vai para Veneza. Em suma, não tenho dificuldades de crer nisso.³

Mas, por que ela foi primeiro para a Croácia? Por que os anjos não a levaram diretamente para a Itália? Ninguém sabe a resposta. Talvez Deus quisesse abençoar a terra da Croácia com a presença da santa casa antes de levá-la para sua localização final. Certa vez, Jesus curou um surdo em estágios, não de imediato. O fato de os anjos transportarem a santa casa para diversas localidades antes de finalmente colocá-la em Loreto tem o efeito de produzir um grande número de testemunhas do progidioso desaparecimento e reaparecimento da casa. Em outras palavras, ao permitir que a casa fosse mudada de lugar várias vezes antes de fixá-la em Loreto mostra que ela não estava sendo movimentada pelo homem, mas pelos santos anjos de Deus. 

Estudemos de forma mais detalhada todas as transposições milagrosas da santa casa. 

Em 10 de maio de 1291, dia em que a santa casa desapareceu de Nazaré, pessoas do vilarejo de Trsat, na Croácia, testemunharam o súbito aparecimento de uma nova casa no vilarejo. Nenhum dos moradores dali sabiam como ela havia aparecido. Curiosamente, os habitantes do lugar observaram que as quatro paredes da casa repousavam sobre o solo. A casa não tinha alicerce. 

Depois de permanecer na Croácia por três anos, a casa tornou a desaparecer milagrosamente em 10 de dezembro de 1294. Ninguém no vilarejo viu a casa partir. A única coisa que ficou no local em que a casa ficara foi o contorno da casa no chão de terra. Até hoje, um monumento marca o ponto exato em que a santa casa esteva, por três anos, em Trsat, na Croácia. 

Para onde a casa foi depois da Croácia? Os anjos levaram-na para além do Mar Adriático, para a cidadezinha de Piceno, na Itália. Por incrível que pareça, a mesma coisa aconteceu na cidade de Piceno: ninguém testemunhou a chegada da casa e ninguém sabia de onde ela viera. A casa permaneceu em Piceno por apensas oito meses porque salteadores começaram a assaltar os peregrinos (muitos deles, da Croácia) que vinham visitar a santa casa. Em agosto de 1295, a casa desapareceu mais uma vez, e reapareceu sobre uma colina não muito distante da cidadezinha de Piceno. No entanto, a colina em que a casa foi colocada pertencia a dois irmãos, que começaram a brigar pela propriedade da casa. Sem conseguir resolver sua disputa, os irmãos começaram a explorar os peregrinos para obter ganhos financeiros. A santa casa permaneceu em sua propriedade por apenas alguns meses antes de desaparecer prodigiosamente outra vez!

Quase no final de dezembro de 1295, a santa casa foi levada pelos anjos para um lugar próximo de sua localização anterior, longe o bastante para que não ficasse dentro da propriedade dos dois irmãos. Esse lugar é conhecido como Loreto, a cidadezinha em que a casa se encontra hoje. (O milagre de a santa casa ter sido transportada quatro vezes pelos anjos levou a Igreja Católica a declarar Nossa Senhora de Loreto a padroeira da aviação).



Como podemos saber que tudo isso é verdade? Bem, em 1296, um ano após a chegada da santa casa a Loreto, a Igreja Católica designou dezesseis emissários para investigar tudo. Os emissários visitaram Loreto, [a cidadezinha na] Croácia e Nazaré, e realizaram estudos exaustivos para verificar os acontecimentos. Eles foram primeiro para Loreto. 

No local em Loreto, eles tiraram medidas precisas da casa, tomando notas detalhadas delas. Em seguida, os emissários viajaram para Trsat, na Croácia, para o lugar em que a casa estivera, e mediram as marcas deixadas por ela no solo. Então, viajaram para Nazaré, a fim de comparar as medidas de Loreto e Trsat com o alicerce original. Inacreditavelmente, nas três localidades (Loreto, Croácia e Nazaré), as medidas eram exatamente as mesmas! Não havia nenhuma discrepância, tudo correspondia perfeitamente. 

Depois de séculos, cientistas fizeram uma análise química das pedras das paredes da santa casa de Loreto. Realizaram-se também estudos químicos da madeira usada para o teto da santa casa. E advinhe o que descobriram? As paredes da santa casa são feitas de pedras encontradas apenas na região de Nazaré, e a madeira do teto da casa vem exatamente da área de Nazaré! Constatou-se que até mesmo a argamassa utilizada na casa é constituída de materiais oriundos da Terra Santa. 

Graças a tais estudos, uma igreja maior começou a ser construída em torno da casa para acomodar os muitos peregrinos que chegavam a Loreto. Atestando ainda mais a veracidade desses acontecimentos milagrosos, peregrinos de Trsat, na Croácia, viajavam anualmente para Loreto, pedindo aos céus que levasse a santa casa de volta à Croácia.

Após a chegada da santa casa a Loreto, na Itália, em 1295, quase cinquenta papas já afirmaram sua progidiosa transposição pela ação de anjos, referindo-se, às vezes, à transposição como a "transladação" da santa casa. No século XV, dois papas foram milagrosamente curados na santa casa. No século XVI, concluiu-se uma basílica fortificada em redor da casa, a fim de protegê-la de ataques muçulmanos. Mais tarde, para fortificar ainda mais a estrutura, a santa casa foi revestida de mármore de Carrara.


Quase todos os papas depois de Pio II [um dos papas do século XIII que foi curado milagrosamente] falaram de sua milagrosa transladação.4

 - Santo Afonso Maria de Ligório 

 

 Por que Deus e a Igreja fizeram tudo isso para preservar a casa? Porque ela é o lugar da Encarnação! A tradição sustenta que Maria nasceu e cresceu na santa casa, e que foi nela que o Arcanjo Gabriel apareceu à Virgem, e o Verbo se fez carne. É uma casa de prodígios sobrenaturais!

Afirma-se que ela [Maria] nasceu na própria cidade de Nazaré e, de fato, no mesmo cômodo em que, coberta pela sombra do Espírito Santo, concebeu, mais tarde, por ocasião da saudação do Anjo.5

- São Jerônimo 


É, na verdade, a Casa de Nazaré que se venera em Loreto, aquela Casa amada de Deus por tantos motivos, construída originalmente na Galiléia, separada de seu alicerce e transportada, pelo poder divino, primeiro por sobre mares, para a Dalmácia, e daí para a Itália: a bendita Casa da qual a Santíssima Virgem, predestinada desde toda a eternidade e absolutamente isenta do pecado original, foi concebida, nasceu, foi criada; na qual o mensageiro celeste a saudou como cheia da graça; na qual ela se tornou a mãe do filho único de Deus.

- Beato Papa Pio IX


A santa casa também é o lugar onde a Sagrada Família vivia em Nazaré. Ela costuma ser chamada a "Santa Casa de Maria", mas também merece ser chamada de "Santa Casa de José". Quando e como São José passou a ter posse da casa, não se sabe, mas é provável que isso tenha ocorrido em virtude de seu casamento com Maria. De fato, escavações recentes perto da Basílica da Anunciação dão pistas de como a casa da infância de Maria se tornou a casa da Sagrada Família. 

A tradição afirma que, quando José e Maria já estavam casados, mas ainda não viviam juntos, José morava e trabalhava em sua própria casa ali perto. Quando começaram a coabitar, decidiram viver na casa da infância de Maria, e José usava a outra casa como carpintaria. Isso nos ajuda a compreender por que São José não estava presente quando o anjo visitou Maria na Anunciação. Ele ainda não morava com ela na ocasião.

A santa casa é uma relíquia única que centenas, senão milhares de santos já visitaram. Antes de ser transportada para Loreto, São Francisco de Assis e Santa Helena visitaram-na em Nazaré. Desde sua transposição mística para Loreto, inúmeros santos já peregrinaram para Loreto a fim de vê-la. Dentre eles, temos:

● Santo Inácio de Loyola

● São Francisco Xavier (ele fez uma peregrinação para Loreto antes de partir em sua viagem missionária para a Índia)

● São Francisco Borja

● São Carlos Borromeu

● São Pedro Canísio (ele defendeu a veracidade da santa casa contra os protestantes, que diziam tratar-se de uma lenda)

● São Luís Gonzaga

● São Tiago de Marca

● Santo Estanislau Kostka

● São Francisco de Sales

● São Luís Guanella

● São Lourenço de Brindisi

● São Benedito José Labre (ele é chamado o "Santo Loreto", pois visitava a santa casa com muita frequência)

● São Francisco Caracciolo

● Beato Antônio Grassi (ele cresceu perto da santa casa. Em dada ocasião, enquanto estava ajoelhado, em oração, na casa, foi atingido por um raio, que o curou milagrosamente da dor aguda que sempre tivera, por má digestão. Em consequência da cura, ele jurou visitar a santa casa uma vez ao ano, em peregrinação)

● Santo Afonso Maria de Ligório (certa vez, ele declarou que "deixou seu coração" em Loreto)

● São Maximiliano Kolbe

● São Josémaría Escrivá (ele visitou a santa casa sete vezes e consagrou o Opus Dei a Maria em Loreto)

● Papa São João XXIII

● São João Paulo II




Santa Tereza de Lisieux visitou a santa casa em 1887, na viagem que fez a Roma com o pai. Em sua autobiografia, ela escreveu o seguinte a respeito da visita:

Eu me sentia realmente feliz no caminho para Loreto. Nossa Senhora escolhera o lugar ideal para colocar sua santa casa. Tudo é pobre, simples e primitivo. As mulheres ainda usam os graciosos vestidos do campo e não adotaram, como nas grandes cidades, as modas modernas de Paris. Achei Loreto encantadora. Que direi da santa casa? Fui tomada pela emoção quando percebi que estava debaixo do teto que abrigara a Sagrada Família. Contemplei as mesmas paredes para as quais Nosso Senhor havia olhado. Pisei o chão que, no passado, ficara úmido com o suor da labuta de São José, e vi o pequeno aposento da Anunciação. Cheguei mesmo a colocar meu rosário na tigelinha usada pelo Divino Menino. Que doces recordações!7

 A santa casa é uma poderosa relíquia. Jesus, Maria e José viveram, dormiram, comeram e rezaram ali. É tão poderosa que o Diabo quer distância dela. O Beato Batista Mantuano (1447 - 1516), Prior Geral da Ordem Carmelita de 1513 a 1516 e padre muito devoto da santa casa, deixou o seguinte testemunho ocular de um exorcismo realizado em uma mulher dentro da santa casa de Loreto em 16 de julho de 1489:

Não deixarei passar algo que vi com meus próprios olhos e ouvi com meus próprios ouvidos. Aconteceu que uma senhorita francesa de posses e berço, de nome Antonia, que havia muito era possuída por espíritos malignos, foi levada para dentro do espaço santo pelo marido para que fosse libertada. Enquanto um padre chamado Estevão, homem exemplar, lia sobre ela os exorcismos de praxe, um dos demônios que se gabava de haver instigado o massacre de todos os Inocentes, sendo indagado, para sua confusão, se aquele fora o aposento da Imaculada Virgem, respondeu que o fora, de fato, mas que o admitia [confesso] contra sua vontade, obrigado por Maria a confessar a verdade. Além disso, ele indicou, na santa casa, o lugar em que estivera Gabriel, e Maria igualmente.8

 

A santa casa tem até mesmo sua própria festa litúrgica. Em 12 de abril de 1916, o Papa Bento XV publicou um decreto que estabelecia o dia 10 de dezembro como a Festa Litúrgica anual da Transladação da Santa Casa. Até hoje, a Festa da Transladação da Santa Casa é celebrada com grande alegria, em Loreto, todo dia 10 de dezembro.

Naquela santíssima casa se deu o início da salvação do homem pelo grandioso e admirável mistério de Deus feito homem. Em meio à pobreza dessa habitação isolada viveram aqueles modelos de vida e harmonia doméstica.9

- Papa Leão XIII 


Não é por um milagre sem precedentes que essa santa casa foi transportada por sobre terra e mar da Galiléia para a Itália? Por um supremo ato de benevolência da parte de Deus misericordiosíssimo, ela foi colocada em nosso território pontifício, onde, ao longo de tantos séculos, tornou-se objeto de veneração de todas as nações do mundo e resplandece com contínuos milagres. 10

- Beato Papa Pio IX 


A santa casa de Loreto é a habitação em que o Verbo divino asssumiu a carne humana e que foi transladada pelo ministério dos anjos. Sua autenticidade é provada por antigos monumentos e por uma tradição ininterrupta, bem como pelo testemunho de sumos pontífices, pelo consenso da fé e pelos contínuos milagres que lá se operam até os dias de hoje.11

- Papa Bento XIV


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1. São Pedro Canísio, citado por Godfrey E. Phillips, em The House of the Virgin Mary (Manchester, NH: Sophia Institute Press, 2017), 155.

2. Beata Anna Catarina Emmerich, The Complete Visions of Anne Catherine Emmerich (San Bernadino, CA: Catholic Book Club, 2018), 76.

3. São John Henry Newman, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 3-4.

4. Santo Afonso Maria de Ligório, The Glories of Mary (Brooklyn, NY: Redemptorist Fathers, 1931), 696.

5. São Jerônimo, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 26.

6. Beato Papa Pio IX, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 142.

7. Santa Teresa de Lisieux, The Story of a Soul (New York, NY: Cosimo Classic, 2007). 86.

8. Beato Batista Spagnoli, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 108.

9. Papa Leão XIII, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 142.

10. Beato Papa Pio IX, citado por Phillips, em House of the Virgin Mary, 141.

11. Papa Bento XIV, citado por Santo Afonso Maria de Ligório, The Glories of Mary, 696. 


Donald H. Calloway, Consagração a São José - As glórias de nosso Pai Espiritual. 

Ed. Ecclesiae, 2021.


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Riso incrédulo




 Ano 596 - Roma 


Certa matrona romana, de importante família patrícia, costumava enviar ao bem-aventurado Papa São Gregório Magno* as hóstias que ela mesma fazia para o santo sacrifício da Missa, mostrando-se nessa obra muito solícita e cuidadosa. 

O espírito maligno, capital inimigo de tudo o que é bom, e que segundo a expressão do Apóstolo São Pedro anda ao redor de nós como o leão que ruge aguardando o momento de agarrar a presa, julgou conveniente perturbar a senhora, primeiro com tentações de vanglória, em seguida com impertinentes dúvidas acerca da fé no Santíssimo Sacramento, e finalmente fazendo com que, sem deixar as práticas piedosas, caísse em manifesta incredulidade. 

Com efeito, aconteceu que um dia, estando esta senhora ajoelhada no altar para receber a Comunhão das mãos de São Gregório, no momento solene em que o santo Pontífice ia dar-lhe a Sagrada Hóstia dizendo aquelas palavras da antiga Liturgia: "o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde tua alma para a vida eterna", pôs-se a rir a referida senhora como se tivesse perdido a fé e a devoção. 

Ao dar-se conta disso, imediatamente o Santo retirou a mão e pôs sobre o altar a Hóstia consagrada. Acabada a Missa, o Pontífice perguntou diante de todo o povo à senhora a causa de seu riso naquela ocasião tão imprópria. Surpreendida pela pergunta ela não se atreveu logo a declarar o motivo, mas depois de algum tempo disse: 

- Estou rindo porque vós me dizeis que esse pão que eu própria amassei é o Corpo de Cristo. 

Escandalizado com essa resposta, São Gregório se pôs no mesmo instante com todo o povo a rezar ao Senhor para que iluminasse com sua divina luz aquela mulher incrédula. 

Mal acabaram a fervorosa oração, sucedeu uma maravilha, e foi que a Hóstia sacrossanta deixou-Se ver em carne humana, e nesta forma, diante do povo ali congregado, A mostrou também o Santo Pontífice à mulher. Esse prodígio a converteu, no mesmo momento, à fé na Eucaristia e confirmou nessa fé a todos os presentes.

Diante de tão grande milagre determinaram continuar rezando, o que se fez com extraordinário recolhimenton e fervor, até que se viu que aquela Carne Se reduziu novamente à forma de hóstia que antes tinha. E, tomando-A o santo Pontífice em suas mãos, a deu em comunhão à senhora; e glorificaram todos ao Supremo Criador, que Se dignou obrar tais maravilhas para que uma alma recuperasse a fé no Santíssimo Sacramento.

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São Gregório Magno, Papa, Confessor e Doutor da Igreja, é considerado o último dos Papas do antigo Império Romano e o primeiro dos Papas medievais. Teve que enfrentar a peste e a fome em Roma, bem como a devastação produzida pelos invasores Lombardos, que chegaram a assediar a cidade e só foram contidos graças à diplomacia do Pontífice. Apesar dessas dificuldades, seu Pontificado é tido a justo título como um dos mais fecundos e grandiosos da História da Igreja. Entre muitas outras realizações, São Gregório reformou o Clero e deu impulso considerável à vida monástica em todo o Ocidente, incentivando a adoção da Regra de São Bento; empenhou-se pela conversão da Inglaterra, para lá enviando Santo Agostinho de Cantuária; combateu eficazmente as muitas heresias que grassavam na Europa, na África e no Oriente; combateu com firmeza a prepotência do patriarca de Constantinopla, o qual, apoiado pelo imperador bizantino, contestava o Primado de Roma; conseguiu, com esforço diplomático e apostólicos, aproximar da verdadeira Fé reinos bárbaros pagãos, ou dominados pela heresia ariana. Reformou, ademais, a Liturgia Romana, e fundou uma escola de canto sacro que influenciou toda a Europa, nela propagando o que ficou sendo conhecido como Canto Gregoriano. Zelou ainda pelos bens da Igreja, até então dispersos e mal administrados; é a ele que se deve a primeira organização sistemática do Patrimônio de São Pedro. Sem embargo de tão intensa e variada atividade e de sua má saúde, nos 14 anos de seu pontificado, não abandonou os estudos teológicos e místicos, e escreveu diversas obras de espiritualidade que tiveram e ainda têm grande influência. Faleceu no ano de 604.


(Diáconos Paulo e João, Vida de San Gregório Magno, liv. 2, cap. 21).

Pe. Manuel Traval y Roset S.J. - Milagres Eucarísticos