quinta-feira, 18 de abril de 2019

A Pureza - por São Cura d'Ars







"Bem- aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus" (Mt 5,8).


Nós lemos no Evangelho, que Jesus Cristo, querendo ensinar ao povo que vinha em massa aprender Dele o que era preciso fazer para ter a vida eterna, senta-se e, abrindo a boca, lhe diz: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus". Se nós tivéssemos um grande desejo de ver a Deus, meus irmãos, só estas palavras não seriam acaso suficientes para nos fazer compreender quanto a pureza nos torna agradáveis a Ele, e quanto ela nos é necessária? Pois, segundo Jesus Cristo, sem ela, nós não o veremos jamais! "Bem-aventurados", nos diz Jesus Cristo,"os puros de coração, porque eles verão o bom Deus". Pode-se acado esperar maior recompensa que a que Jesus Cristo liga a esta bela e amável virtude, a saber, a posse das Três Pessoas da Santíssima Trindade, por toda a eternidade?... São Paulo, que conhecia bem o preço desta virtude, escrevendo aos Coríntios, lhes diz: "Glorificai a Deus, pois vós o levais em vossos corpos; e sede fiéis em conservá-los em grande pureza. Lembrai-vos bem, meus filhos, de que vossos membros são membros de Jesus Cristo, e que vossos corações são templos do Espírito Santo. Tomai cuidado de não os manchar pelo pecado, que é o adultério, a fornicação, e tudo aquilo que pode desonrar vossos corpos e vosso coração aos olhos de Deus, que é a pureza mesma" (1Cor 6,15-20). Meus irmãos, como esta virtude é bela e preciosa, não somente aos olhos dos homens e dos anjos, mas aos olhos do próprio Deus. Ele faz tanto caso dela que não cessa de a louvar naqueles que são tão felizes de a conservar. Também, esta virtude inestimável  constitui o mais belo adorno da Igreja, e, por conseguinte, deveria ser a mais querida dos cristãos. Nós, meus irmãos, que no Santo Batismo fomos aspergidos com o Sangue adorável que gerou tantas virgens de um e outro sexo; nós, a quem Jesus Cristo fez participantes de sua pureza, tornando-nos seus membros, seu templo... Mas, ai! Meus irmãos, neste infeliz século de corrupção  em que vivemos. não se conhece mais esta virtude, esta celeste virtude que nos torna semelhantes aos anjos!... Sim, meus irmãos, a pureza é uma virtude que nos é necessária a todos, pois que, sem ela, ninguém verá o Bom Deus. Eu queria fazer-vos conceber desta virtude uma ideia digna de Deus, e vos mostrar, o quanto ela nos torna agradáveis a Seus olhos, dando um novo grau de santidade a todas as nossas ações, e o que nós devemos fazer para conservá-la.

I - QUANTO A PUREZA NOS TORNA AGRADÁVEIS A DEUS 


Seria preciso, meus irmãos, para vos fazer compreender bem a estima que devemos ter desta incomparável virtude, para vos fazer a descrição de sua beleza e vos fazer apreciar bem seu valor junto de Deus, seria preciso, não um homem mortal, mas um anjo do Céu. Ouvindo-o, vós diríeis com admiração: Como todos os homens não estão dispostos a sacrificar tudo antes que perder uma virtude que nos une de uma maneira íntima com Deus? Procuremos, contudo, conceber dela alguma coisa, considerando que dita virtude vem do Céu, que ela faz descer Jesus Cristo sobre a terra, e que eleva o homem até o Céu, pela semelhança que ela dá com os anjos, e com o próprio Jesus Cristo. Dizei-me, meus irmãos, de acordo com isto, acaso não merece ela o título de preciosa virtude? Não é ela digna de toda nossa estima e de todos os sacrifícios necessários para conservá-la? Nós dizemos que a pureza vem do Céu, porque só havia o próprio Jesus Cristo que fosse capaz de no-la ensinar e nos fazer sentir todo o seu valor. Ele nos deixou o exemplo prodigioso da estima que teve desta virtude. Tendo resolvido na grandeza de sua misericórdia, resgatar o mundo, Ele tomou um corpo mortal como o nosso; mas Ele quis escolher uma Virgem por Mãe. Quem foi esta incomparável criatura, meus irmãos? Foi Maria, a mais pura entre todas e por uma graça que não foi concedida a ninguém mais, foi isenta do pecado original. Ela consagrou sua virgindade ao Bom Deus desde a idade de três anos, e oferecendo-lhe seu corpo, sua alma, ela lhe fez o sacrifício mais santo, o mais puro e o mais agradável que Deus jamais recebeu de uma criatura sobre a terra. Ela manteve este sacrifício por uma fidelidade inviolável em guardar sua pureza e em evitar tudo aquilo que pudesse mesmo de leve empanar seu brilho. Nós vemos que a Virgem Santa fazia tanto caso desta virtude, que Ela não queria consentir em ser Mãe de Deus antes que o anjo lhe tivesse assegurado que Ela não a perderia. Mas, tendo lhe dito o anjo que, tornando-se Mãe de Deus, bem longe de perder ou empanar sua pureza de que Ela fazia tanta estima, Ela seria ainda mais pura e mais agradável a Deus, consentiu então de bom grado, a fim de dar um novo brilho a esta pureza virginal. Nós vemos ainda que Jesus Cristo escolhe um pai nutrício que era pobre, é verdade; mas ele quis que sua pureza estivesse por sobre a de todas as outras criaturas, exceto a Virgem Santa. Dentre seus discípulos, Ele distingue um, a quem Ele testemunhou uma amizade e uma confiança singulares, a quem Ele fez participante de seus maiores segredos, mas Ele toma o mais puro de todos, e que estava consagrado a Deus desde sua juventude.
Santo Ambrósio nos diz que a pureza nos eleva até o Céu e nos faz deixar a terra, enquanto é possível a uma criatura deixá-la. Ela nos eleva por sobre a criatura corrompida e, por seus sentimentos e seus desejos, ela nos faz viver da mesma vida dos anjos. Segundo São João Crisóstomo, a castidade duma alma é de um preço aos olhos de Deus maior que a dos anjos, pois que os cristãos só podem adquirir esta virtude pelos combates, enquanto que os anjos a têm por natureza. Os anjos não têm nada a combater para conservá-la, enquanto que um cristão é obrigado a fazer uma guerra contínua a si mesmo. São Cipriano acrescenta que, não somente a castidade nos torna semelhantes aos anjos, mas nos dá ainda um caráter de semelhança com o próprio Jesus Cristo. Sim, nos diz este grande santo, uma alma casta é uma imagem viva de Deus sobre a terra.
Quanto mais uma alma se desapega de si mesma pela resistência às suas paixões, mais ela se une a Deus; e, por um feliz retorno, mais o bom Deus se une a ela; Ele a olha, Ele a considera como sua esposa, como sua bem-amada; faz dela o objeto de suas mais caras complacências, e fixa nela sua morada para sempre. "Bem-aventurados", nos diz o Salvador, "os puros de coração, porque eles verão ao bom Deus". Segundo São Basílio, se encontramos a castidade numa alma, encontramos aí todas as outras virtudes cristãs, ela as praticará com uma grande facilidade, "porque" - nos diz ele -  "para ser casto é preciso se impor muitos sacrifícios e fazer-se uma grande violência. Mas uma vez que alcançou tais vitórias sobre o demônio, a carne e o sangue, todo o resto lhe custa muito pouco, pois uma alma que subjuga com autoridade a este corpo sensual, vence facilmente todos os obstáculos que encontra no caminho da virtude". Vemos também, meus irmãos, que os cristãos castos são os mais perfeitos. Nós os vemos reservados em suas palavras, modestos em todos os seus passos, sóbrios em suas refeições, respeitosos no lugar santo e edificantes em toda sua conduta. Santo Agostinho compara aqueles que têm a grande alegria de conservar seu coração puro, aos lírios que se elevam diretamente ao Céu e que difundem em seu redor um odor muito agradável; só a vista deles nos faz pensar naquela preciosa virtude. Assim a Virgem Santa inspirava a pureza a todos aqueles que a olhavam... Bem-aventurada virtude, meus irmãos, que nos põe entre os anjos, que parece mesmo elevar-nos por sobre eles!


II - O AMOR QUE OS SANTOS TINHAM POR ESTA VIRTUDE

Todos os Santos fizeram o maior caso dela e preferiram perder seus bens, sua reputação e sua própria vida a descorar esta virtude.
Nós temos um belo exemplo disto na pessoa de Santa Inês. Sua formosura e seus riquezas fizeram com que, à idade de doze anos, ela fosse procurada pelo filho do prefeito da cidade de Roma. Ela lhe fez saber que estava consagrada ao bom Deus. Ela foi presa sob o pretexto de que era cristã, mas em realidade para que consentisse nos desejos do rapaz... Ela estava de tal modo unida a Deus que nem as promessas, nem as ameaças, nem a vista dos carrascos e dos instrumentos expostos diante de si para amedrontá-la, não a fizeram mudar de sentimentos. Não tendo conseguido nada dela, seus perseguidores a carregaram de cadeias, e quiseram colocar uma argola e anéis em seu pescoço e em suas mãos; eles não puderam fazê-lo, tão débeis eram suas pequenas mãos inocentes. Ela permaneceu firme em sua resolução, no meio destes lobos enraivecidos, ela ofereceu seu corpinho aos tormentos com uma coragem que espantou aos carrascos. Arrastam-na aos pés dos ídolos; mas ela confessa bem alto que só reconhece por Deus a Jesus Cristo, e que os ídolos deles não são mais que demônios. O juiz, cruel e bárbaro, vendo que não consegue nada, crê que ela será mais sensível diante da perda daquela pureza que ela estimava tanto. Ele ameaça expô-la num lugar infame; mas ela responde com firmeza; "Vós podeis fazer-me morrer, mas não podereis jamais me fazer perder este tesouro: o próprio Jesus Cristo é zeloso deste tesouro". O juiz, morrendo de raiva, manda conduzi-la ao lugar das torpeza infernais. Mas Jesus Cristo, que velava por ela duma maneira particular, inspira um tão grande respeito aos guardas, por eles só a olhavam com uma espécie de pavor, e manda a Seus anjos que a protejam. Os jovens que entram naquele quarto, inflamados de um fogo impuro, vendo um anjo ao lado dela, mais belo que o sol, saem dali abrasados do amor divino. Mas o filho do prefeito, mais perverso e mais corrompido que os outros, penetra no quarto onde estava Santa Inês. Sem ter consideração por todas aquelas maravilhas, ele se aproxima dela na esperança de contentar seus desejos impuros; mas o anjo que guarda a jovem mártir fere o libertino que cai morto a seus pés. Rapidamente se espalha em Roma o boato de que o filho do prefeito tinha sido morto por Inês. O pai enfurecido, vem encontrar a Santa e se entrega a tudo o que seu desespero lhe pode inspirar. Ele a chama de fúria do Inferno, monstro nascido para a desolação de sua vida, pois tinha feito morrer seu filho. Santa Inês lhe responde tranquilamente: "É que ele quis fazer-me violência, então o meu anjo lhe deu a morte". O prefeito, um pouco acalmado, lhe diz: "pois bem, pede a teu Deus para ressuscitá-lo, para que não se diga que foste tu que o mataste". "Sem dúvida", diz-lhe a Santa, "vós não mereceis esta graça; mas para que saibais que os cristãos nunca se vingam, mas, pelo contrário, eles pagam o mal com o bem, saí daqui, e eu vou pedir ao bom Deus por ele". Então Inês se põe de joelhos, prostrada com a face em terra. Enquanto ela reza, seu anjo lhe aparece e lhe diz: "Tenha coragem".  No mesmo instante o corpo inanimado retoma a vida. O jovem  ressuscitado pelas orações da Santa, se retira da casa, corre pelas ruas de Roma gritando: "Não, não, meus amigos, não há outro Deus que o dos cristãos, todos os deuses que nós adoramos não são mais que demônios que nos enganam e nos arrastam ao Inferno". Entretanto, apesar de um tão grande milagre, não deixaram de a condenar. Então o tenente do prefeito manda que se acenda um grande fogo, e faz lançá-la nele. Mas as chamas entreabrindo-se, não lhe fazem nenhum mal e queimam os idólatras que acudiram para serem espectadores de seus combates. O tenente, vendo que o fogo a respeitava e não lhe fazia nenhum mal, ordena que a firam com um golpe de espada na garganta, a fim de lhe tirar a vida; mas o carrasco treme como se ele mesmo estivesse condenado à morte... Como os pais de Santa Inês chorassem a morte de sua filha, ela lhes aparece dizendo-lhes: "Não choreis minha morte, pelo contrário, alegrai-vos de eu ter adquirido uma tão grande glória no Céu".
Estais vendo, meus irmãos, o que esta Santa sofreu antes que perder sua virgindade. Formai agora ideia da estima em que deveis ter a pureza, e como o bom Deus se compraz em fazer milagres para se mostrar seu protetor e guardião. Como este exemplo confundirá um dia estes jovens que fazem tão pouco caso desta bela virtude! Eles jamais conheceram seu preço. O Espírito Santo tem, portanto, razão de exclamar: "Oh, como é bela esta geração casta; sua memória é eterna, e sua glória brilha diante dos homens e dos anjos!" É certo, meus irmãos, que cada um ama seus semelhantes; também os anjos, que são espíritos puros, amam e protegem duma maneira particular as almas que imitam sua pureza. Nós lemos na Sagrada Escritura que o anjo Rafael, que acompanhou o jovem Tobias, prestou-lhe mil serviços. Preservou-o de ser devorado por um peixe, de ser estrangulado pelo demônio. Se este jovem não tivesse sido casto, é certíssimo que o anjo não o teria acompanhado, nem lhe teria prestado tantos serviços. Com que gozo não se alegra o anjo da guarda que conduz uma alma pura!
Não há outra virtude para conservação da qual Deus faça milagres tão numerosos como os que ele prodiga em favor duma pessoa que conhece o preço da pureza e que se esforça por salvaguardá-la. Vede o que Ele fez por Santa Cecília. Nascida em Roma de pais muito ricos, ela era muito instruída na religião cristã, e seguindo a inspiração de Deus, ela Lhe consagrou sua virgindade. Seus pais, que não o sabiam, prometeram-na em casamento a Valeriano, filho de um senador da Cidade. Era, segundo o mundo, um partido bem considerado. Ela pediu a seus pais o tempo de pensá-lo. Ela passou este tempo no jejum, na oração e nas lágrimas, para obter de Deus a graça de não poder a flor daquela virtude que ela estimava mais que sua vida. O bom Deus lhe respondeu que não temesse nada e que obedecesse a seus pais; pois, não somente não perderia esta virtude, mas ainda obteria... Consentiu, pois, no matrimônio. No dia das núpcias, quando Valeriano se apresentou, ela lhe disse: "Meu caro Valeriano, eu tenho um segredo a lhe comunicar". Ele lhe respondeu: "Qual é este segredo?" - "Eu consagrei minha virgindade a Deus e jamais homem algum me tocará, pois eu tenho um anjo que vela por minha pureza; se você atenta contra isto, você será ferido de morte". Valeriano ficou muito surpreso com esta linguagem, porque sendo pagão, não compreendia nada de tudo isto. Ele respondeu: "Mostre-me este anjo que a guarda". A Santa replicou: "Você não pode vê-lo porque você é pagão. Vá ter com o Papa Urbano, e peça-lhe o batismo, você em seguida verá o meu anjo". Imediatamente ele parte. Depois de ter sido batizado pelo Papa, ele volta a encontrar sua esposa. Entrando no seu quarto, vê o anjo velando com Santa Cecília. Ele o acha tão bonito, tão brilhante de glória, que fica encantado e tocado por sua formosura. Não somente permite à sua esposa permanecer consagrada a Deus, mas ele mesmo faz voto de virgindade... Em breve eles tiveram a alegria de morrerem mártires. Estais vendo como o bom Deus toma cuidado duma pessoa que ama esta incomparável virtude e trabalha por conservá-la?
Nós lemos na vida de Santo Edmundo que, estudando em Paria, ele se encontrou com algumas pessoas que diziam tolices; ele as deixou imediatamente. Esta ação foi tão agradável a Deus, que Ele lhe apareceu sob a forma de um belo menino e o saudou com um ar muito gracioso, dizendo-lhe que com satisfação o tinha visto deixar seus companheiros que mantinham conversas licenciosas; e, para recompensá-lo, prometia que estaria sempre com ele. Além disto, Santo Edmundo teve a grande alegria de conservar sua inocência até a morte. Quando Santa Luzia foi ao túmulo de Santa Águeda para pedir ao Bom Deus, por sua intercessão, a cura de sua mãe, Santa Águeda lhe apareceu e lhe disse que ela podia obter, por si mesma, o que ela pediu, pois que, por sua pureza, ela tinha preparado em seu coração uma habitação muito agradável ao seu Criador. Isto nos mostra que o bom Deus não pode recusar nada a quem tem a alegria de conservar puros seu corpo e sua alma...
Escutai a narração do que aconteceu a Santa Pontamiena que viveu no tempo da perseguição de Maximiano. Esta jovem era escrava dum dissoluto e libertino, que não cessava de a solicitar para o mal. Ela preferiu sofrer todas as sortes de crueldades e de suplícios a consentir nas solicitações de sei senhor infame. Este, vendo que não podia conseguir nada, em seu furor, entregou-a como cristã nas mãos do governador, a quem prometeu uma grande recompensa se a pudesse conquistar. O juiz mandou que a conduzissem ante seu tribunal, e vendo que todas as ameaças não a faziam mudar de sentimentos, fez a Santa sofrer tudo o que a raiva pôde lhe inspirar. Mas o bom Deus concedeu à jovem mártir tanta força que ela parecia ser insensível a todos os tormentos. Aquele juiz iníquo, não podendo vencer sua resistência, faz colocar sobre um fogo bem ardente uma caldeira cheira de pez, e lhe diz: "Veja o que lhe preparam se você não obedece a seu senhor". A santa jovem responde sem se perturbar: "Eu prefiro sofrer tudo o que vosso furor puder vos inspirar a obedecer aos infames desejos de meu senhor; aliás, eu jamais teria acreditado que um juiz fosse tão injusto de me fazer obedecer aos planos de um senhor dissoluto". O tirano, irritado por esta resposta, mandou que a lançassem na caldeira. "Ao menos mandai", diz-lhe ela, "que eu seja lançada vestida. Vós vereis a força que o Deus que nós adoramos dá aos que sofrem por Ele". Depois de três horas de suplício, Pontamiena entregou sua bela alma a seu Criador, e assim alcançou a dupla palma do martírio e da virgindade.

III- COMO ESTA VIRTUDE É POUCO CONHECIDA E APRECIADA NO MUNDO

Aí, meus irmãos, como esta virtude, é pouco conhecida no mundo, quão pouco nós a estimamos, quão pouco cuidado nós pomos em conservá-la, quão pouco zelo temos em pedi-la a Deus, pois que não a podemos ter nós mesmos. Não, nós não conhecemos esta bela e amável virtude que ganha tão facilmente o coração de Deus, que dá um tão belo brilho a todas as nossas outras boas obras, que nos eleva acima de nós mesmos, que nos faz viver sobre a terra como os anjos no Céu!...
Não, meus irmãos, ela não é conhecida por estes velhos infames impudicos que se arrastam, se rolam e se submergem na lama de suas torpezas, cujo coração é semelhante àqueles... sobre o alto das montanhas... queimados e abrasados por estes fogos impuros. Ai! Bem longe de procurar extingui-lo, eles não cessam de acendê-lo e abrasá-lo por seus olhares, por seus pensamentos, seus desejos e suas ações. Em que estava estará esta alma, quando aparecer diante de Deus, a pureza mesma? Não, meus irmãos, esta bela virtude não é conhecida por esta pessoa, cujos lábios não são mais que uma abertura e um tudo de que o Inferno se serve para vomitar suas impurezas sobre a terra, e que se alimenta disso como um pão cotidiano. Ai! A alma deles não é mais que um objeto de horror para o Céu e para a terra! Não, meus irmãos, esta bela virtude não é conhecida por estes jovens cujos olhos e mãos estão profanados por estes olhares e... OH DEUS, QUANTAS ALMAS ESTE PECADO ARRASTA PARA O INFERNO!... Não, meus irmãos, esta bela virtude não é conhecida por estas moças mundanas e corrompidas que tomam tantas precauções e cuidados para atraírem sobre si os olhos do mundo; que por seus enfeites exagerados e indecentes, anunciam publicamente que são infames instrumentos de que o Inferno se serve para perder as almas; estas almas que custaram tantos trabalhos, lágrimas e tormentos a Jesus Cristo!... Vede estas infelizes, e vós vereis que mil demônios circundam sua cabeça e seu coração. Oh meu Deus, como a terra pode suportar tais sequazes do Inferno? Coisa mais espantosa ainda, como mães as suportam num estado indigno de uma cristã! Se eu não temesse ir longe demais, eu diria a estas mães que elas valem o mesmo que suas filhas. Ai, este infeliz coração e estes olhos impuros não são mais que uma fonte envenenada que dá a morte a qualquer que os olha e escuta. Como tais monstros ousam se apresentar diante de um Deus santo e tão inimigo da impureza! Ai! A vida deles não é mais que uma acumulação de banha que eles estão juntando para inflamar o fogo do Inferno por toda a eternidade. Mas, meus irmãos, deixemos uma matéria tão desagradável e tão revoltante para um cristão, cuja pureza deve imitar a de Jesus Cristo mesmo; e voltemos à nossa bela virtude da pureza que nos eleva até o Céu, que nos abre o coração adorável de Jesus Cristo, e nos atrai todas as bênçãos espirituais e temporais.

Sermões - São João Maria Vianney O Cura D'Ars
Editora: Biblioteca Católica








sábado, 16 de fevereiro de 2019

1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-lo sobre todas as coisas.



1. Os principais pecados opostos à virtude de religião e ao culto devido a Deus são: a idolatria ou adoração dos ídolos, a impiedade ou irreligião, a superstição, o sacrilégio e todas as falsas religiões. 
2. A idolatria consiste em dar às criaturas o culto supremo que só a Deus é devido. 
3. Comete-se o pecado de impiedade ou irreligião quando se tratam com desprezo ou indiferença os deveres de cristão, quando se profanam as coisas santas, e quando se metem a ridículo a religião e os seus ministros.
4. A superstição consiste em dar a Deus um culto que não lhe é devido, ou vicioso por excesso. As principais são três: a 1ª é dar culto a Deus por coisas ridículas, em que Deus não pode ter glória; a 2ª é tomar agouro por coisas que não têm conexão com o que tememos; a 3ª é querer adivinhar futuros observando certos sinais que não podem ter conexão com eles.
5. O sacrilégio é a profanação das coisas santas. Entendemos por coisas santificadas as que são especialmente consagradas a Deus, tais são: os templos, os vasos e ornamentos sagrados, os eclesiásticos, as Virgens dedicadas a Deus, as coisas prometidas com votos; e outras semelhantes.
6. Há três espécies de sacrilégio: pessoal, local e real. Quando se ofende a santidade dos ministros de Jesus Cristo em quanto são consagrados a Deus, o sacrilégio é pessoal. O sacrilégio local é aquele com que se faz injúria a qualquer lugar sagrado com criminoso derramamento de sangue, com incêndio, com furto e com qualquer exercício profano. O sacrilégio real consiste na profanação ou violação de qualquer coisa sagrada.
7. As coisas sagradas profanam-se de três modos: 1º recebendo ou administrando os sacramentos em pecado mortal ou fazendo deles mau uso; 2º tratando sem reverência os vasos sagrados ou empregando-os em usos profanos; 3º ultrajando as relíquias e imagens sagradas. 
8. Na seguinte passagem do Evangelho vemos a Jesus expulsando os vendilhões do templo por que cometiam um sacrilégio. Diz São João: "Como estava a chegar a páscoa dos Judeus, foi logo Jesus para Jerusalém e achou o templo a muitos vendendo bois, e ovelhas e pombas, e os compradores lá sentados.  E tendo feito de corda um como azorrague, os lançou fora a todos do templo, também as ovelhas e os bois, e arrojou por terra o dinheiro dos compradores e derrubou as mesas. E para os que vendiam os pombas disse: Tirai daqui isto, e não façais da casa de meu Pai casa de negócio." Então se lembraram seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Jo 2,13-17).


Explicação da gravura

9. Exemplo de idolatria; adoração do bezerro de ouro. Subia Moisés ao monde aonde Deus o chamara para dar-lhe a lei, e ali ficou quarenta dias e quarenta noites; depois o Senhor lhe deu as duas tábuas sobre as quais estavam gravados os mandamentos. Enquanto Moisés estava no monte o povo disse a Aarão: Não sabemos o que é feito de Moisés; faze-nos deuses como os dos Egípcios. Para afastar o povo desta impiedade, Aarão disse: "Trazei-me as arrecadas de vossas mulheres e filhas. Contra sua expectativa, trouxeram-lhe todas as jóias, e não ousando resistir, Aarão fundiu-as e formou um bezerro de ouro, ao qual os Israelitas ofereceram sacrifícios, tocando e dançando à moda dos pagãos. Vendo isso Moisés, ao descer do monte, irou-se grandemente e arremessando a terra as duas tábuas, as quebrou. Depois reduziu a pó o bezerro, e mandou os levitas matar quantos encontrassem adorando os ídolos.
10. Exemplo de sacrilégio na parte inferior esquerda. Vê-se Héliodoro, general do rei da Síria, que, querendo roubar o tesouro do templo de Jerusalém, foi atacado por um cavaleiro misterioso que o maltratou, aparecendo-lhe ao mesmo tempo dois anjos que o açoitaram fortemente e o deixaram meio morto.
11. Cometeu Saul um pecado de superstição quando foi para consultar a feiticeira de Endor. Deus permitiu que lhe aparecesse Samuel, que lhe disse: Amanhã morrerás na batalha. Vê-se representado o fato na parte inferior direita. 



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

1º Mandamento: Adorar a um só Deus e amá-lo sobre todas as coisas.



1.Desempenharemos nós o que neste preceito nos é mandado, praticado para com Deus quatro virtudes, a saber: a fé, a esperança, a caridade e a religião. Para as três virtudes teologais, fé, esperança, caridade, ver a gravura 62.
2. A religião, considera como virtude, é uma virtude que nos ensina a dar a Deus o culto que lhe é devido.
3. O culto que devemos a Deus chama-se culto de latria e é propriamente adoração.
4. Há duas espécies de culto, culto interno, e culto externo. O culto interno consiste em elevar a Deus nosso pensamento, louvá-lo e adorá-lo mentalmente, oferecendo-lhe no íntimo do coração nossos afetos sem manifestar exteriormente nossos sentimentos. O culto externo consiste em dirigir a Deus orações vocais, em cantar os divinos louvores, em nos prostrarmos em sua presença, e principalmente em assistirmos ao Santo Sacrifício da missa e cerimônias e funções públicas, com que a Igreja Católica celebra os seus mistérios e solenidades.
5. Adorar a Deus é reconhecê-lo como nosso Criador, e soberano Senhor de todas as coisas. Devemos pois humilhar-nos profundamente diante de sua Majestade.
6. Devemos a Deus um culto exterior: 1º porque o nosso corpo pertence-lhe tanto como a nossa alma; 2º porque o culto exterior nos leva ao culto interior.
7. O culto público consiste principalmente em adorar a Deus nas igrejas e cerimônias públicas. Devemos prestar a Deus culto público porque temos obrigação de edificar o nosso próximo mostrando-lhe que somos verdadeiros crentes.
8. A sociedade civil deve também adorar a Deus, porque ele é senhor das sociedades como dos indivíduos.
9. Adoramos a Jesus Cristo, porque ele é Deus como o Pai e o Espírito Santo.

Do culto dos Santos

10. Não é idolatria tributar culto aos santos; antes esse culto é legítimo e devido, porque não é de latria ou adoração, mas de veneração e respeito. Nós não adoramos a Nossa Senhora nem os santos como adoramos a Deus; veneramo-los e honramo-los como criaturas muito chegadas a Deus e muito favorecidas da suas graças. Não se faz injúria a Deus em venerar as criaturas, porque não faz injúria ao soberano quem corteja os áulicos que servem em roda do trono.
11. O culto que damos a Nossa Senhora não é o mesmo que o que damos aos santos, porque Nossa Senhora faz uma hierarquia diferente acima das outras criaturas, sendo ela escolhida para Mãe de Jesus Cristo. O seu culto chama-se hiperdulia.
12. Veneramos os Santos pelas suas virtudes, pelo valimento que têm com Deus, e por serem seus amigos e servos, e assim toda a honra que se lhes tributa redunda em honra de Deus.
13. O culto dos Santos consiste em lhes pedir, em lhes agradecer, e ainda em os tomar por modelos para os imitar. Esse culto chama-se dulia, o qual é infinitamente inferior ao de latria, que pertence a Deus.
14. Pedimos aos santos para alcançar por sua intercessão as graças do que necessitamos. Os santos são os nossos advogados para com Jesus Cristo, como Jesus Cristo é o nosso advogado para com seu Pai. Há muita diferença no modo de pedir a Deus ou de pedir aos santos: a Deus pedimos que nos dê, nos conceda; e aos santos pedimos que nos alcancem de Deus pelos merecimentos de Jesus Cristo, que roguem por nós.
15. A veneração das relíquias e imagens não está proibida; antes Deus a autoriza e aprova pelos grandes milagres que a cada momento obra por meio das relíquias e imagens dos santos.

Explicação da gravura

16. Nesta gravura veem-se pessoas de todas as cidades e condições adorando a Deus, que lhes abre os braços e as contempla com ternura, mostrando assim o agrado que acolhe as nossas homenagens.
17. Na parte superior, à esquerda, vê-se a Virgem rodeada de Anjos, e à direita, São José com vários santos.



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Dos mandamentos de Deus em geral




1. Para nos salvarmos, não basta crer tudo o que Deus revelou e que a Santa Igreja ensina; é preciso também praticar os mandamentos de Deus e os da Igreja.
2. Os mandamentos de Deus são dez, e por isso a lei de Deus chama-se Decálogo, isto é, as dez palavras ou mandamentos.
3. Foi o próprio Deus que deu os mandamentos aos homens pelo ministério de Moisés, no monte Sinai, cinquenta dias depois dos Israelitas terem saído do Egito; é o que se chama a lei antiga. Depois, Jesus Cristo confirmou-os na nova lei.
4. Os dez mandamentos da lei de Deus são:
I. Adora a um só Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
II. Não jurar o seu santo nome em vão.
III. Guardar domingos e festas.
IV. Honrar pai e mãe.
V. Não matar.
VI. Guardar castidade.
VII. Não furtar.
VIII. Não levantar falso testemunho.
IX. Não desejar a mulher do próximo.
X. Não cobiçar as coisas alheias.
5. Os mandamentos foram dados por Deus a Moisés, em duas tábuas de pedra. Os mandamentos escritos na primeira tábua são três, que pertencem à honra de Deus. Os da segunda são sete que pertencem ao proveito do próximo.
Com efeito os três primeiros nos ordenam: 1º de adorar a Deus; 2º de respeitar seu nome; 3º de guardar os dias que lhe estão consagrados.
Os sete últimos referem-se ao próximo. O quarto manda-nos honrar pai e mãe, e os outros proíbem-nos prejudicar o próximo, na sua pessoa, seus bens, na sua honra.
6. Os dez mandamentos se encerram em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
7. Todos os homens que chegam ao uso da razão estão obrigados a observar a lei de Deus.
8. O prêmio que prometeu Deus aos que fielmente observaram estes mandamentos é a vida eterna.
9. Lemos em São Lucas (cap. X) a seguinte parábola: E eis que se levantou um doutor da lei que lhe disse para o tentar: Mestre, que hei de eu fazer para entrar na posse da vida eterna? Disse-lhe então Jesus: Que é o que está escrito na lei? Como lês tu? Ele respondendo disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. E Jesus lhe disse: Respondestes bem; faze isso e viverás. Mas ele querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? E Jesus prosseguindo no mesmo discurso, disse: Um homem baixava de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram do que levava, e depois de o terem maltratado com muitas feridas, se retiraram deixando-o meio morto. Aconteceu que passava pelo mesmo caminho um sacerdote, e quando o viu, passou de largo. E assim mesmo um levita, chegando perto daquele lugar, e vendo-o, passou também de largo. Mas um Samaritano que ia seu caminho, chegou perto dele, e quando o viu, se moveu de compaixão, e chegando-se-lhe, atou as feridas, lançando nelas azeite e vinho, e pondo-o sobre a sua cavalgadura, o levou a uma estalagem e teve cuidado dele. E ao outro dia, tirou dois denários, e deu-os ao estalajadeiro e lhe disse: Tem-me cuidado dele, e quanto gastares de mais, eu te satisfarei, quando voltar. Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu logo o doutor: Aquele que usou com o tal de misericórdia. Então lhe disse Jesus: Pois vai, e faze tu o mesmo.

Explicação da gravura
10. A gravura representa a Deus entregando a Moisés as tábuas da lei no meio de relâmpagos e trovões.


Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.