terça-feira, 2 de novembro de 2021

Retrato de um homem que acaba de expirar









És pó e em pó hás de tornar (Gn 3,19).

Considera que és pó e em pó te hás de converter. Virá o dia em que será preciso morrer e apodrecer num fosso, onde ficarás coberto de vermes. A todos, nobres e plebeus, príncipes ou vassalos, estará reservada a mesma sorte. Logo que a alma, com o último suspiro, sair do corpo, passará à eternidade, e o corpo se reduzirá a pó. 
Imagina que estás em presença de uma pessoa que acaba de expirar. Contempla aquele cadáver, estendido ainda em seu leito mortuário: a cabeça inclinada sobre o peito; o cabelo em desalinho e banhado ainda em suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, os lábios e a língua cor de chumbo; hirto e pesado o corpo. Treme e empalidece quem o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo morto, mudaram de vida e abandonaram o mundo. 
É ainda mais horrível o aspecto do cadáver quando começa a corromper-se. Nem um dia se passou após o falecimento daquele jovem, e já se percebe o mau cheiro. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é mister que prontamente levem o defundo à igreja, ou ao cemitério, e o entreguem a terra para que não infeccione toda a casa. Mesmo que aquele corpo tenha pertencido a um nobre ou potentado, não servirá senão para que exale ainda fetidez mais insuportável, - disse um autor. 
Vês o estado que chegou aquele soberbo, aquele dissoluto! Ainda a pouco via-se acolhido e cortejado pela sociedade; agora tornou-se o horror e o espanto de quem o contempla. Os parentes apressam-se em afastá-lo de casa e pagam aos coveiros para que o encerrem em um esquife e lhe deem sepultura. Há bem poucos instantes ainda se apregoava a fama, o talento, a finura, a polidez e a graça desse homem; mas apenas está morto, nem sua lembrança se conserva.
Ao ouvir a notícia de sua morte, limitam-se uns a dizer que era um homem honrado; outros, que deixou à família grande riqueza. Contristam-se alguns, porque a vida do falecido lhes era proveitosa; alegram-se outros, porque vão ficar de posse de tudo quanto tinha.  Por fim, dentro em breve, já ninguém falará dele, e até seus parentes mais próximos não querem ouvir falar dele para não se lhes agravar a dor que sentem. Nas visitas de condolências, trata-se de outro assunto; e, quando alguém se atreve a mencionar o falecido, não falta um parente que advirta: Por caridade, não pronuncies mais o seu nome! Considera que assim como procedes por ocasião da morte de teus parentes e amigos, assim outros o agirão na tua. Os vivos entram no cenário do mundo para desempenhar seu papel e ocupar os lugares dos mortos; mas do apreço e da memória destes pouco ou nada cuidam.
A princípio, os parentes se aflingem por alguns dias, mas se consolam depressa com a parte da herança que lhes couber e, talvez, parece até que a tua morte os regozija. Naquela mesma casa onde exalaste o último suspiro, e onde Jesus Cristo te julgou, passarão a celebrar-se, como dantes, banquetes, bailes, festas e jogos. E a tua alma, onde estará então? 


Afetos e súplicas


Agradeço-vos, meu Jesus Redentor, o não me terdes deixado morrer quando incorrera no vosso desagrado! Há quantos anos já, mereci estar no inferno! Se eu tivesse morrido naquele dia, naquela noite, que teria sido de mim por toda a eternidade? Senhor, dou-vos graças por esse benefício. Aceito a  minha morte em satisfação de meus pecados e aceito-a tal qual me quiserdes enviar; mas, já que haveis esperado até esta hora, esperai mais um pouco ainda. Dai-me tempo de chorar as ofensas que vos fiz, antes que chegue o dia em que tereis de julgar-me. 
Não quero resistir por mais tempo, ao vosso chamado. Talvez, estas palavras que acabo de ler, sejam para mim vosso último convite! Confesso que não mereço misericórdia. Tantas vezes me tendes perdoado, e eu, ingrato, tornei a vos ofender! Senhor, já que não sabeis desprezar nenhum coração que se humilha e se arrepende (Sl 50,19), eis aqui um traidor, que arrependido recorre à vós! Por piedade, não me repilais de vossa presença (Sl 50,13). Vós mesmo dissestes: "aquele que vem a mim, não o desprezarei" (Jo 6,37). É verdade que vos ofendi mais que os outros, porque mais que os outros fui favorecido por vossa luz e vossa graça. Mas anima-me o sangue que por mim derramastes, e me fez esperar o perdão se me arrepender sinceramente. Sim, Sumo Bem de minha alma, arrependo-me de todo o coração de vos ter desprezado. 
Perdoai-me e concedei-me a graça de vos amar para o futuro. Basta de ofensas. Não quero, meu Jesus, empregar o resto de minha vida em injuriar-vos; quero unicamente empregá-la em chorar sem cessar os ultrajes que vos fiz, e em amar-vos de todo o coração. Ó Deus, digno de amor infinito! Ó Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim! 



Santo Afonso Maria de Ligório - Preparação para a morte.

domingo, 17 de outubro de 2021

4º Mandamento de Deus (continuação): Honrar pai e mãe.


 



Deveres dos superiores para com os inferiores

1. Os superiores devem: 1º tratar a seus inferiores com caridade e bom modo; 2º velar pelo seu procedimento; 3º protegê-los e advogar a sua causa, quando o precisem e mereçam; 4º assistir-lhes em suas necessidades; 5º não exigir deles coisa alguma contrária à lei de Deus e da Igreja; 6º finalmente facilitar-lhes todos os meios para desempenharem as suas obrigações religiosas.

2. Os mestres devem em consciência ensinar a seus discípulos doutrinas sãs e ortodoxas.

3. Os amos devem pagar pontualmente o salário a seus criados e servidores.

4. Estas obrigações dos superiores, mestres e amos são fundadas sobre a palavra do próprio Deus dizendo que os superiores, mestres e amos dar-lhe-ão conta das almas dos que lhes foram confiados.


Explicação da gravura

5. A gravura nos apresenta dos exemplos frisantes do modo como os amos hão de cumprir com os seus deveres para com os serviços.

O primeiro é o do centurião do Evangelho representado na parte superior da gravura ajoelhado diante de Jesus. Um dia, narra São Mateus, tendo Jesus entrado em Carfanaum, chegou-se a ele um centurião, fazendo-lhe esta súplica: Senhor, o meu criado jaz em casa doente duma paralisia e padece muito com ela. Respondeu-lhe então Jesus: Eu irei e o curarei. E respondendo o centurião disse: Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa; porém manda-o só com a tua palavra, e o meu criado será salvo. Pois também eu sou homem sujeito a outros, e tenho sido dadas às minhas ordens, e digo a um: Vai lá, e ele vai; e a outro: Vem cá, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. E Jesus ouvindo assim falar, admirou-se, e disse para os que o seguiam: Em verdade os afirmo que não achei tamanha fé em Israel. Digo-vos porém, que virão muitos do Oriente e do Ocidente, e que se sentarão à mesa com Abraão, e Isaac e Jacó, no reino dos céus; mas que os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai, e faça-se segundo tu creste. E naquela mesma hora ficou são o criado.

6. O segundo exemplo é de Santo Elzear, conde de Sabrão na Provença, em França. Está representado na parte inferior a esquerda. Tendo o santo conde feito em regulamento de vida para os serviçais, afixou-o na sala nobre do seu palácio, na qual reunia os seus criados para lhes dar explicações acerca do regularmente e das verdades religiosas. Eis aqui as principais disposições do regulamento: 1º Orar da manhã e à noite; 2º assistir ao santo sacrifício da missa; 3º frequentar os sacramentos; 4º ter grande devoção a Santíssima Virgem e a São José; 5º evitar a ociosidade; 6º evitar os maus companheiros; 7º fugir das disputas, conversas más, etc. 


Deveres dos serviçais para com os amos.


7. Os criados estão obrigados: 1º a respeitar os amos; 2º a servi-los com fidelidade e dedicação; 3º a obedecer-lhes em tudo o que não for contrariado a lei de Deus e da Igreja.

Devem os serviçais vê nos amos o próprio Deus, e obedecer-lhes como se fosse a Deus.

8. Na parte inferior direita está representando Eliezer falando com Rebeca. Estando já velho Abraão quis escolher para seu filho uma mulher temente a Deus. Disse pois o seu fiel servo Eliezer: Vai procurar uma esposa para meu filho em minha terra natal e dentre nossa parentela. Tomou Eliezer dez camelos carregados dos ricos presentes e partiu para Haram onde vivera Nacor, irmão de Abraão. Deus quis que chegando à cidade encontrasse a Rebeca, moça tão formosa quanto modesta, filha de Batuel, sobrinho de Abraão. Foi albergar-se Eliezer na casa dela e pediu-a para esposa do filho de seu amo. Batuel respondeu: Deus mesmo determinou tudo isso, toma a Rebeca e leva-a contigo. Eliezer agradeceu ao Senhor, deu a Rebeca vasos de prata e ricos vestidos, fez também presentes a mãe dela e aos irmãos, e partiu com Rebeca que veio a ser esposa de Isaac.


Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

4º Mandamento de Deus (continuação): Honrar pai e mãe.

 



1. Este mandamento obriga também os pais a alguma coisa para com os filhos. Devem os pais: 1º educar os filhos cristãmente com palavras e bom exemplo; 2º procurar-lhes os alimentos e modo de vida; 3º castigá-los em suas faltas sem aspereza nem demasiada severidade.

2. O primeiro dever dos pais é amar a todos os seus filhos igualmente com ternura cristã e sem fraqueza. Devem considerar os filhos com um tesouro que Deus lhes confiou e do qual lhe há de pedir rigorosa conta.

3. Dizemos que os pais devem educar cristãmente os filhos, isto é, devem ensinar-lhes as orações e os principais mistérios da religião; mandá-los à catequese e a uma escola cristã onde recebam uma instrução religiosa; levá-los a amar a Deus e a evitar o pecado; fazer-lhes cumprir as suas obrigações religiosas. 

4. Os pais devem procurar aos filhos um modo de vida conforme a sua fortuna e posição, e não devem opôr-se a vocação dos filhos. Não devem desejar para os filhos senão o que Deus quer, como no-lo mostra a resposta de Jesus à mãe dos apóstolos João e Tiago. Um dia, narra o Evangelista São Mateus, se chegou a Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo-lhe alguma coisa. Jesus lhe disse: Que queres? Respondeu ela: dize que estes meus dois filhos se assentem no teu reino um a tua direita, e outro a tua esquerda. E respondendo Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Disseram-lhe eles: Podemos. Ele lhes disse: Vós, é verdade, haveis de beber o meu cálice; mas pelo que toca a terdes assento à minha mão direita ou à esquerda, não me pertence a mim o dar-vos, mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai.

E quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos. Mas Jesus os chamou a si e lhes disse: Sabeis que os Princípes das gentes dominam os seus vassalos e que os que são maiores exercitam o seu poder sobre eles. Não será assim entre vós, mas todo o que quiser ser o maior, este seja o que vos sirva, e o que entre vos quiser ser o primeiro, este seja vosso servo. Assim como o Filho do homem não veio para ser servido mas para servir e para dar a sua vida em redenção por muitos.

5. Quando dizemos que os pais devem castigar os filhos entendemos que os pais devem vigiar o procedimento dos filhos, repreendê-los e castigá-los quando fizerem o mal, sem aspereza e com a única intenção de emendá-los.

6. Pela obrigação do bom exemplo entendemos que o pai e a mãe devem cumprir com os seus deveres religiosos: a oração, a assistência a missa, a frequentação dos sacramentos, e evitar tudo quanto poderia levar os filhos ao pecado, como as blafêmias murmurações, palavras desonestas e mofas contra a religião. 


Explicação da gravura

7. Divide- se a gravura em cinco partes. Vemos no meio a Santa Ana ensinando a ler à Santíssima Virgem ainda menina. Vê-se a São Joaquim, pai da Virgem, olhando contemplando-a com parternal ternura.

8. No ângulo superior à direita está representada Branca de Castela ensinando ao seu filho São Luiz de França a orar e dizendo-lhe: Meu Filho, antes quero ver-te morto do que cometer um pecado mortal.

9. No ângulo esquerdo vê-se a um senhor que obriga o filho a pedir perdão a um pobre, que não respeitara.

10. Na parte inferior vemos o sumo sacerdote Heli castigado por Deus por ele não ter castigado os filhos cujo mal comportamento afastava o povo do serviço do Senhor. Os filhos dele, Ofini, e Finés foram mortos numa batalha contra os Filisteus. Recebendo a fatal notícia, o pai caiu e quebrou a cabeça nos degraus do seu sólio.


Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.

domingo, 10 de outubro de 2021

4º Mandamento de Deus (continuação): Honrar pai e mãe.

 


1. Debaixo do nome de pai e mãe entendem-se ainda compreendidos: 1º todos os superiores eclesiásticos; 2º os princípes e magistrados; 3º os tutores, amos e patrões, os mestres; 4º as pessoas idosas e as de conhecida virtude.

2. Este mandamento nos obriga também a honrar todos os nossos parentes.

3. Para com os superiores eclesiásticos, estamos nós obrigados a amá-los, revenrenciá-los, obedecer-lhes e ajudá-los no exercício do seu santo ministério.

4. Eis aqui o que está escrito dos bispos e dos padres: "Que os sacerdotes que governam bem sejam duplamente honrados, principalmente os que trabalham pregando e instruindo." Os Gálatas deram ao Apóstolo São Paulo tantas provas de estima e respeito que São Paulo diz deles: Sim, afirmo que estavam os Gálatas prontos, se a coisa fosse possível, a vazarem os olhos para nos dar.

5. Devemos contribuir para o sustento dos Padres. São Paulo diz: Qual é o soldado que faz a guerra à sua custa? E no livro do Eclesiástico lê-se: Honrai os sacerdotes, purificai-vos com as oblações oferecidas pelas vossas mãos, dai-lhes a parte de primícias e das vítimas expiatórias, como foi ordenado pela lei.

6. O primeiro superior eclesiástico é o papa, vigário de Jesus Cristo na terra. Os fiéis devem socorrê-lo nas suas necessidades, principalmente agora; porque lhe tiraram injustamente os Estados Pontifícios, e não tem outros recursos senão as esmolas dos fiéis. 

7. O dever principal para com os superiores eclesiásticos para os ajudar no seu santo ministério é a oração. Devemos pois rogar por eles a Deus, para que lhes dê as graças necessárias para tão santo e tão difícil ministério como é o de salvar as almas.

8. O quarto mandamento nos manda também honrar os superiores temporais, que são o Rei e os representantes dele.

O Apóstolo São Paulo, na sua epístola aos Romanos, trata largamente daquele dever e nos diz também que devemos rogar por eles.

São Pedro diz: Sede submissos, por amor de Deus, a todo o homem constituído em autoridade, seja ao Rei, como chefe da nação, seja aos governadores ou juízes como seus representantes. Quando os honramos, a Deus honramos.

9. Nunca é permitida a revolta contra a autoridade, porque: 1º Deus o proíbe; 2º a revolta é para a sociedade um manancial de calamidades.

10. Nas eleições, devemos, em consciência, dar o nosso voto por mas dignos, aos que respeitam a Deus, a religião, o direito e todas as liberdades razoáveis e cristãs.

11. Todo o cristão deve amar a sua pátria, trabalhar dar o bem comum, e estar pronto a sacrificar a vida, se for preciso, para a salvação da pátria.

12. Devemos obediência aos superiores em todo o que não seja contrário à lei de Deus.


Explicação da gravura

13. Na parte superior à esquerda vemos o Papa, cercado de bispos e sacerdotes, recebendo-as homenagens dos reis, dos magistrados, dos soldados e do povo.

14. À direita; Vê se um Rei, recebendo também estas homenagens dos seus súditos.

15. No meio da gravura vê-se a Rute trazendo à sua sogra pobre as espigas que recolheu para sustentá-la.

16. Na parte inferior esquerda veem meninos e meninas na aula ouvindo com atenção e respeito aos lições dos seus mestres.

17. À direita vê-se o tremendo castigo de 42 meninos que injuriaram o profeta Eliseu e foram comidos pelos ursos.



Fonte da imagem: http://www.sendarium.com
Texto: Catecismo Ilustrado, 1910 (com pequenas alterações devido à mudança ortográfica).
Edição da Juventude Católica de Lisboa.